De mãe e de servo
1 parágrafos
José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira coisa que conseguiu logo que comecei a andar fora, foi dispensar-me o pagem; fez-se pagem, ia comigo á rua. Cuidava dos meus arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha higiene e da minha prosódia. Aos oito anos os meus plurais careciam, alguma vez, da desinência exata, ele a corrigia, meio sério para dar autoridade á lição, meio risonho para obter o perdão da emenda. Ajudava assim o mestre de primeiras letras. Mais tarde, quando o padre Cabral me ensinava latim, doutrina e história sagrada, ele assistia ás lições, fazia reflexões eclesiásticas, e, no fim, perguntava ao padre: «Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?» Chamava-me «um prodígio»; dizia a minha mãe ter conhecido outrora meninos muito inteligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para a minha idade, possuía já certo número de qualidades moraes sólidas. Eu, posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio, gostava do elogio; era um elogio.