Ideia sem pernas e ideia sem braços
2 parágrafos
Deixei-os, a pretexto de brincar, e fui-me outra vez a pensar na aventura da manhã. Era o que melhor podia fazer, sem latim, e até com latim. Ao cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo á casa visinha, agarrar Capitu, desfazer-lhe as tranças, refazê-las e conclui-las daquela maneira particular, boca sobre boca. É isto, vamos, é isto... Ideia só! ideia sem pernas! As outras pernas não queriam correr nem andar. Muito depois é que saíram vagarosamente e levaram-me á casa de Capitu. Quando ali cheguei, dei com ela na sala, na mesma sala, sentada na marquesa, almofada no regaço, cosendo em paz. Não me olhou de rosto, mas a furto e a medo, ou, se preferes a fraseologia do agregado, oblíqua e dissimulada. As mãos pararam, depois de encravada a agulha no pano. Eu, do lado oposto da mesa, não sabia que fizesse; e outra vez me fugiram as palavras que trazia. Assim gastamos alguns minutos compridos, até que ela deixou inteiramente a costura, ergueu-se e esperou-me. Fui ter com ela, e perguntei se a mãe havia dito alguma coisa; respondeu-me que não. A boca com que respondeu era tal que cuido haver-me provocado um gesto de aproximação. Certo é que Capitu recuou um pouco.
Era ocasião de pegá-la, puxá-la e beijá-la... Ideia só ideia sem braços! Os meus ficaram caidos e mortos. Não conhecia nada da Escritura. Se conhecesse, é provável que o espírito de Satanás me fizesse dar a língua mística do _Cântico_ um sentido direto e natural. Então obedeceria ao primeiro versículo; «Aplique ele os lábios, dando-me o osculo da sua boca.» E pelo que respeita aos braços, que tinha inertes, bastaria cumprir o vers. 6.o do cap. II: «A sua mão esquerda se pôs já debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abraçará depois.» Vedes aí a chronologia dos gestos. Era só executá-la; mas ainda que eu conhecesse o texto, as atitudes de Capitu eram agora tão retrahidas, que não sei se não continuaria parado, foi ela entretanto, que me tirou daquela situação.