O contra-regra
4 parágrafos
O destino não é só dramaturgo, é também o seu próprio contra-regra, isto é, designa a entrada dos personagens em cena, dá-lhes as cartas e outros objetos, e executa dentro os sinais correspondentes ao dialogo, uma trovoada, um carro, um tiro. Quando eu era moço, representou-se aí, em não sei que teatro, um drama que acabava pelo juízo final. O principal personagem era Ashaverus, que no último quadro concluía um monólogo por esta exclamação: «Ouço a trombeta do arcanjo!» Não se ouviu trombeta nenhuma. Ashaverus, envergonhado, repetiu a palavra, agora mais alto, para advertir o contra-regra, mas ainda nada. Então caminhou para o fundo, disfarçamente trágico, mas efetivamente com o fim de falar ao bastidor, e dizer em voz surda:** «O piston! o piston! o piston!» O público ouviu esta palavra e desatou a rir, até que, quando a trombeta soou deveras, e Ashaverus bradou pela terceira vez que era a do arcanjo, um gaiato da platéa corrigiu cá debaixo: «Não, senhor, é o piston do arcanjo!»
Assim se explicam a minha estada debaixo da janela de Capitu e a passagem de um cavaleiro, um _dândi_, como então dizíamos. Montava um belo cavalo alazão, firme na sela, rédea na mão esquerda, a direita á cinta, botas de verniz, figura e postura esbeltas: a cara não me era desconhecida. Tinham passado outros, e ainda outros viriam atrás; todos iam ás suas namoradas. Era uso do tempo namorar a cavalo. Relê Alencar: «Porque um estudante (dizia um dos seus personagens de teatro de 1858) não pode estar sem estas duas coisas, um cavalo e uma namorada.» Relê Alvares de Azevedo. Uma das suas poesias é destinada a contar (1851) que residia em Catumbi, e, para ver a namorada no Catete, alugara um cavalo por três mil reis... Três mil reis! tudo se perde na noite dos tempos!
Ora, o _dândi_ do cavalo baio não passou como os outros; era a trombeta do juízo final e soou a tempo; assim faz o Destino, que é o seu próprio contra-regra. O cavaleiro não se contentou de ir andando, mas voltou a cabeça para o nosso lado, o lado de Capitu, e olhou para Capitu, e Capitu para ele; o cavalo andava, a cabeça do homem deixava-se ir voltando para traz. Tal foi o segundo dente de ciúme que me mordeu. A rigor, era natural admirar as belas figuras; mas aquele sujeito costumava pagar ali, ás tardes; morava no antigo Campo da Aclamação, e depois... e depois... Vão lá raciocinar com um coração de brasa, como era o meu!
Nem disse nada a Capitu; saí da rua á pressa, enfiei pelo meu corredor, e, quando dei por mim, estava na sala de visitas.