Ideias aritméticas
15 parágrafos
Não digo o mais, que foi muito. Nem ele sabia só elogiar e pensar, sabia também calcular depressa e bem. Era das cabeças aritméticas de Holmes (2+2=4). Não se imagina a facilidade com que ele somava ou multiplicava de cor. A divisão, que foi sempre uma das operações difíceis para mim, era para ele como nada: cerrava um pouco os olhos, voltados para cima, e sussurrava as denominações dos algarismos: estava pronto. Isto com sete, treze, vinte algarismos. A vocação era tal que o fazia amar os próprios sinais das somas, e tinha esta opinião que os algarismos, sendo poucos, eram muito mais conceituosos que as vinte e cinco letras do alfabeto.
— Há letras inúteis e letras dispensáveis, dizia ele. Que serviço diverso prestam o _d_ e o _t_? Tem quase o mesmo som. O mesmo digo do _b_ e do _p_, o mesmo do _s_, do _c_ e do _z_, o mesmo do _k_ e do _g_, etc. São trapalhices caligráficas. Veja os algarismos: não há dous que façam o mesmo oficio; 4 é 4, e 7 é 7. E admire a beleza com que um 4 e um 7 formam esta coisa que se exprime por 11. Agora dobre 11 e terá 22; multiplique por igual número, dá 484, e assim por diante. Mas onde o perfeição é maior é no emprego do _zero._ O valor do _zero_ é, em si mesmo, nada; mas o oficio deste sinal negativo é justamente augmentar. Um 5 sósinho é um 5; ponha-lhe dous 00, é 500. Assim, o que não vale nada faz valer muito, coisa que não fazem as letras dobradas, pois eu tanto _aprovo_ com um _p_ como com dous _p._
Criado na ortografia de meus paes, custava-me a ouvir tais blasfêmias, mas não ousava refutá-lo. Com tudo, um dia, proferi algumas palavras de defesa, ao que ele respondeu que era um preconceito, e acrescentou que as ideias aritméticas podiam ir ao infinito, com a vantagem que eram mais fáceis de menear. Assim que, eu não era capaz de resolver de momento um problema filosófico ou linguístico, ao passo que ele podia somar, em tres minutos, quaisquer quantias.
— Por exemplo... dê-me um caso, dê-me uma porção de números que eu não saiba nem possa saber antes... olhe, dê-me o número das casas de sua mãe e os alugueis de cada uma, e se eu não disser a soma total em dous, em um minuto, enforque-me!
Aceitei a aposta, e na semana seguinte levei-lhe escritos em um papel os algarismos das casas e dos alugueis. Escobar pegou no papel, passou-os pelos olhos afim de os decorar, e enquanto eu fitava o relógio, ele erguia as pupilas, cerrava as pálpebras, e sussurrava... Oh! o vento não é mais rápido! Foi dito e feito; em meio minuto bradava-me:
— Dá tudo 1:070$000 mensais.
Fiquei pasmado. Considera que eram não menos de nove casas, e que os alugueis variavam de uma para outra, indo de 70$000 a 180$000. Pois tudo isto em que eu gastaria tres ou quatro minutos,--e havia de ser no papel,--fel-o Escobar de cor, brincando. Olhava-me triunfalmente, e perguntava se não era exato. Eu, só por lhe mostrar que sim, tirei do bolso o papelinho que levava com a soma total, e mostrei-lh'o; era aquilo mesmo, nem um erro: 1:070$000.
— Isto prova que as ideias aritméticas são mais simples, e portanto mais naturais. A natureza é simples. A arte é atrapalhada.
Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçá-lo. Era no páteo; outros seminaristas notaram a nossa efusão; um padre que estava com eles não gostou.
— A modéstia, disse-nos, não consente esses gestos excessivos; podem estimar-se com moderação.
Escobar observou-me que os outros e o padre falavam de inveja e propôs-me viver separados. Interrompi-o dizendo que não; se era inveja, tanto pior para eles.
— Quebremos-lhe a castanha na boca!
— Mas...
— Fiquemos ainda mais amigos que até aqui.
Escobar apertou-me a mão ás escondidas, com tal força que ainda me doem os dedos. É ilusão, de certo, se não é efeito das longas horas que tenho estado a escrever sem parar. Suspendamos a pena por alguns instantes...