O imperador
9 parágrafos
Em caminho, encontramos o imperador, que vinha da Escola de Medicina. O ônibus em que íamos parou, como todos os vehiculos; os passageiros desceram á rua e tiraram o chapéu, até que o coche imperial passasse. Quanto tornei ao meu lugar, trazia uma ideia fantástica, a ideia de ir ter com o imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não confiaria. esta ideia a Capitu. «Sua Majestade pedindo, mamãe cede,» pensei comigo.
Vi então o imperador escutando-me, refletindo e acabando por dizer que sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lágrimas. E logo me achei cm casa, á espera, até que ouvi os batedores e o piquete de cavalaria; é o imperador! é o imperador! toda a gente chegava ás janelas para vê-lo passar, mas não passava, o coche parava á nossa porta, o imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na vizinhança: «O imperador entrou em casa de D. Glória! Que será? Que não será? «A nossa família saía a recebê-lo; minha mãe era a primeira que lhe beijava a mão. Então o imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando,--não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos,--pedia a minha mãe que me não fizesse padre,--e ela, lisongeada e obediente, prometia que não.
— A medicina,--porque lhe não manda ensinar medicina?
Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade...
— Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aqui bons professores. Nunca foi á nossa Escola? É uma bela Escola. Já temos médicos de primeira ordem, que podem hombrear com os melhores de outras terras. A medicina é uma grande ciência; basta só isto de dar a saúde aos outros, conhecer as moléstias, combatê-las, vencê-las... A senhora mesma há de ter visto milagres. Seu marido morreu, mas a doença era fatal, e ele não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira; mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?
— Mamãe querendo.
— Quero, meu filho. Sua Majestade manda.
Então o imperador dava outra vez a mão a beijar, e saía, acompanhado de todos nós, a rua cheia de gente, as janelas atopetadas, um silêncio de assombro; o imperador entrava no coche, inclinava-se e fazia um gesto de adeus, dizendo ainda: «A medicina, a nossa Escola.» E o coche partia entre invejas e agradecimentos.
Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos, até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus companheiros.