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Os LusíadasCanto X
CantoX

Mas já o claro amador da Larisséia

156 oitavas


  1. Mas já o claro amador da Larisséia
  2. Adúltera inclinava os animais
  3. Lá pera o grande lago que rodeia
  4. Temistitão, nos fins Ocidentais;
  5. O grande ardor do Sol Favónio enfreia
  6. Co sopro que nos tanques naturais
  7. Encrespa a água serena e despertava
  8. Os lírios e jasmins, que a calma agrava,
  1. Quando as fermosas Ninfas, cos amantes
  2. Pela mão, já conformes e contentes,
  3. Subiam pera os paços radiantes
  4. E de metais ornados reluzentes,
  5. Mandados da Rainha, que abundantes
  6. Mesas d'altos manjares excelentes
  7. Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza
  8. Restaurem da cansada natureza.
  1. Ali, em cadeiras ricas, cristalinas,
  2. Se assentam dous e dous, amante e dama;
  3. Noutras, à cabeceira, d'ouro finas,
  4. Está co a bela Deusa o claro Gama.
  5. De iguarias suaves e divinas,
  6. A quem não chega a Egípcia antiga fama ,
  7. Se acumulam os pratos de fulvo ouro,
  8. Trazidos lá do Atlântico tesouro.
  1. Os vinhos odoríferos, que acima
  2. Estão não só do Itálico Falerno
  3. Mas da Ambrósia, que Jove tanto estima
  4. Com todo o ajuntamento sempiterno,
  5. Nos vasos, onde em vão trabalha a lima,
  6. Crespas escumas erguem, que no interno
  7. Coração movem súbita alegria,
  8. Saltando co a mistura d'água fria.
  1. Mil práticas alegres se tocavam;
  2. Risos doces, sutis e argutos ditos,
  3. Que entre um e outro manjar se ale vantavam,
  4. Despertando os alegres apetitos;
  5. Músicos instrumentos não faltavam
  6. (Quais, no profundo Reino, os nus espritos
  7. Fizeram descansar da eterna pena)
  8. Cüa voz düa angélica Sirena.
  1. Cantava a bela Ninfa, e cos acentos,
  2. Que pelos altos paços vão soando,
  3. Em consonância igual, os instumentos
  4. Suaves vêm a um tempo conformando.
  5. Um súbito silêncio enfreia os ventos
  6. E faz ir docemente murmurando
  7. As águas, e nas casas naturais
  8. Adormecer os brutos animais.
  1. Com doce voz está subindo ao Céu
  2. Altos varões que estão por vir ao mundo,
  3. Cujas claras Ideias viu Proteu
  4. Num globo vão, diáfano, rotundo,
  5. Que Júpiter em dom lho concedeu
  6. Em sonhos, e despois no Reino fundo,
  7. Vaticinando, o disse, e na memória
  8. Recolheu logo a Ninfa a clara história.
  1. Matéria é de coturno, e não de soco,
  2. A que a Ninfa aprendeu no imenso lago;
  3. Qual Iopas não soube, ou Demodoco,
  4. Entre os Feaces um, outro em Cartago.
  5. Aqui, minha Calíope, te invoco
  6. Neste trabalho extremo, por que em pago
  7. Me tornes do que escrevo, e em vão pretendo,
  8. O gosto de escrever, que vou perdendo.
  1. Vão os anos descendo, e já do Estio
  2. Há pouco que passar até o Outono;
  3. A Fortuna me faz o engenho frio,
  4. Do qual já não me jacto nem me abono;
  5. Os desgostos me vão levando ao rio
  6. Do negro esquecimento e eterno sono.
  7. Mas tu me dá que cumpra, ó grão rainha
  8. Das Musas, co que quero à nação minha!
  1. Cantava a bela Deusa que viriam
  2. Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira,
  3. Armadas que as ribeiras venceriam
  4. Por onde o Oceano Índico suspira;
  5. E que os Gentios Reis que não dariam
  6. A cerviz sua ao jugo, o ferro e ira
  7. Provariam do braço duro e forte,
  8. Até render-se a ele ou logo à morte.
  1. Cantava dum que tem nos Malabares
  2. Do sumo sacerdócio a dignidade,
  3. Que, só por não quebrar cos singulares
  4. Barões os nós que dera d'amizade,
  5. Sofrerá suas cidades e lugares,
  6. Com ferro, incêndios, ira e crueldade,
  7. Ver destruir do Samorim potente,
  8. Que tais ódios terá co a nova gente.
  1. E canta como lá se embarcaria
  2. Em Belém o remédio deste dano,
  3. Sem saber o que em si ao mar traria,
  4. O grão Pacheco, Aquiles Lusitano.
  5. O peso sentirão, quando entraria,
  6. O curvo lenho e o férvido Oceano,
  7. Quando mais n'água os troncos que gemerem
  8. Contra sua natureza se meterem.
  1. Mas, já chegado aos fins Orientais
  2. E deixado em ajuda do gentio Rei de
  3. Cochim, com poucos naturais,
  4. Nos braços do salgado e curvo rio
  5. Desbaratará os Naires infernais
  6. No passo Cambalão, tornando frio
  7. D'espanto o ardor imenso do Oriente,
  8. Que verá tanto obrar tão pouca gente.
  1. Chamará o Samorim mais gente nova;
  2. Virão Reis [de] Bipur e de Tanor,
  3. Das serras de Narsinga, que alta prova
  4. Estarão prometendo a seu senhor;
  5. Fará que todo o Naire, enfim, se mova
  6. Que entre Calecu jaz e Cananor,
  7. D'ambas as Leis imigas pera a guerra:
  8. Mouros por mar, Gentios pola terra.
  1. E todos outra vez desbaratando,
  2. Por terra e mar, o grão Pacheco ousado,
  3. A grande multidão que irá matando
  4. A todo o Malabar terá admirado.
  5. Cometerá outra vez, não dilatando,
  6. O Gentio os combates, apressado,
  7. Injuriando os seus, fazendo votos
  8. Em vão aos Deuses vãos, surdos e imotos.
  1. Já não defenderá somente os passos,
  2. Mas queimar-lhe-á lugares, templos, casas;
  3. Aceso de ira, o Cão, não vendo lassos
  4. Aqueles que as cidades fazem rasas,
  5. Fará que os seus, de vida pouco escassos,
  6. Cometam o Pacheco, que tem asas,
  7. Por dous passos num tempo; mas voando
  8. Dum noutro, tudo irá desbaratando.
  1. Virá ali o Samorim, por que em pessoa
  2. Veja a batalha e os seus esforce e anime;
  3. Mas um tiro, que com zunido voa,
  4. De sangue o tingirá no andor sublime.
  5. Já não verá remédio ou manha boa
  6. Nem força que o Pacheco muito estime;
  7. Inventará traições e vãos venenos,
  8. Mas sempre (o Céu querendo) fará menos.
  1. Que tornará a vez sétima (cantava)
  2. Pelejar co invicto e forte Luso,
  3. A quem nenhum trabalho pesa e agrava;
  4. Mas, contudo, este só o fará confuso.
  5. Trará pera a batalha, horrenda e brava,
  6. Máquinas de madeiros fora de uso,
  7. Pera lhe abalroar as caravelas,
  8. Que até'li vão lhe fora cometê-las.
  1. Pela água levará serras de fogo
  2. Pera abrasar-lhe quanta armada tenha;
  3. Mas a militar arte e engenho logo
  4. Fará ser vã a braveza com que venha.
  5. - "Nenhum claro barão no Márcio jogo,
  6. Que nas asas da Fama se sustenha,
  7. Chega a este, que a palma a todos toma.
  8. E perdoe-me a ilustre Grécia ou Roma.
  1. "Porque tantas batalhas, sustentadas
  2. Com muito pouco mais de cem soldados,
  3. Com tantas manhas e artes inventadas,
  4. Tantos Cães não imbeles profligados,
  5. Ou parecerão fábulas sonhadas,
  6. Ou que os celestes Coros, invocados,
  7. Decerão a ajudá-lo e lhe darão
  8. Esforço, força, ardil e coração.
  1. "Aquele que nos campos Maratónios
  2. O grão poder de Dário estrui e rende,
  3. Ou quem, com quatro mil Lacedemónios,
  4. O passo de Termópilas defende,
  5. Nem o mancebo Cocles dos Ausónios,
  6. Que com todo o poder Tusco contende
  7. Em defensa da ponte, ou Quinto Fábio,
  8. Foi como este na guerra forte e sábio."
  1. Mas neste passo a Ninfa, o som canoro
  2. Abaxando, fez ronco e entristecido,
  3. Cantando em baxa voz, envolta em choro,
  4. O grande esforço mal agardecido.
  5. - "Ó Belisário (disse) que no coro
  6. Das Musas serás sempre engrandecido,
  7. Se em ti viste abatido o bravo Marte,
  8. Aqui tens com quem podes consolar-te!
  1. "Aqui tens companheiro, assi nos feitos
  2. Como no galardão injusto e duro;
  3. Em ti e nele veremos altos peitos
  4. A baxo estado vir, humilde e escuro.
  5. Morrer nos hospitais, em pobres leitos,
  6. Os que ao Rei e à Lei servem de muro!
  7. Isto fazem os Reis cuja vontade
  8. Manda mais que a justiça e que a verdade.
  1. "Isto fazem os Reis quando embebidos
  2. Nüa aparência branda que os contenta
  3. Dão os prémios, de Aiace merecidos,
  4. À língua vã de Ulisses, fraudulenta.
  5. Mas vingo-me: que os bens mal repartidos
  6. Por quem só doces sombras apresenta,
  7. Se não os dão a sábios cavaleiros,
  8. Dão-os logo a avarentos lisonjeiros.
  1. "Mas tu, de quem ficou tão mal pagado
  2. Um tal vassalo, ó Rei, só nisto inico,
  3. Se não és pera dar-lhe honroso estado,
  4. É ele pera dar-te um Reino rico.
  5. Enquanto for o mundo rodeado
  6. Dos Apolíneos raios, eu te fico
  7. Que ele seja entre a gente ilustre e claro,
  8. E tu nisto culpado por avaro.
  1. "Mas eis outro (cantava) intitulado
  2. Vem com nome real e traz consigo
  3. O filho, que no mar será ilustrado,
  4. Tanto como qualquer Romano antigo.
  5. Ambos darão com braço forte, armado,
  6. A Quíloa fértil, áspero castigo,
  7. Fazendo nela Rei leal e humano,
  8. Deitado fora o pérfido tirano.
  1. "Também farão Mombaça, que se arreia
  2. De casas sumptuosas e edifícios,
  3. Co ferro e fogo seu queimada e feia,
  4. Em pago dos passados malefícios.
  5. Despois, na costa da Índia, andando cheia
  6. De lenhos inimigos e artifícios
  7. Contra os Lusos, com velas e com remos
  8. O mancebo Lourenço fará extremos.
  1. "Das grandes naus do Samorim potente,
  2. Que encherão todo o mar, co a férrea pela,
  3. Que sai com trovão do cobre ardente,
  4. Fará pedaços leme, masto, vela.
  5. Despois, lançando arpéus ousadamente
  6. Na capitaina imiga, dentro nela
  7. Saltando o fará só com lança e espada
  8. De quatrocentos Mouros despejada.
  1. "Mas de Deus a escondida providência
  2. (Que ela só sabe o bem de que se serve)
  3. O porá onde esforço nem prudência
  4. Poderá haver que a vida lhe reserve.
  5. Em Chaúl, onde em sangue e resistência
  6. O mar todo com fogo e ferro ferve,
  7. Lhe farão que com vida se não saia
  8. As armadas de Egipto e de Cambaia.
  1. "Ali o poder de muitos inimigos
  2. (Que o grande esforço só com força rende),
  3. Os ventos que faltaram, e os perigos
  4. Do mar, que sobejaram, tudo o ofende.
  5. Aqui ressurjam todos os Antigos,
  6. A ver o nobre ardor que aqui se aprende:
  7. Outro Ceva verão, que, espedaçado,
  8. Não sabe ser rendido nem domado.
  1. "Com toda üa coxa fora, que em pedaços
  2. Lhe leva um cego tiro que passara,
  3. Se serve inda dos animosos braços
  4. E do grão coração que lhe ficara.
  5. Até que outro pelouro quebra os laços
  6. Com que co alma o corpo se liara:
  7. Ela, solta, voou da prisão fora
  8. Onde súbito se acha vencedora.
  1. "Vai-te, alma, em paz, da guerra turbulenta,
  2. Na qual tu mereceste paz serena!
  3. Que o corpo, que em pedaços se apresenta,
  4. Quem o gerou, vingança já lhe ordena:
  5. Que eu ouço retumbar a grão tormenta,
  6. Que vem já dar a dura e eterna pena,
  7. De esperas, basiliscos e trabucos,
  8. A Cambaicos cruéis e Mamelucos.
  1. "Eis vem o pai, com ânimo estupendo,
  2. Trazendo fúria e mágoa por antolhos,
  3. Com que o paterno amor lhe está movendo
  4. Fogo no coração, água nos olhos.
  5. A nobre ira lhe vinha prometendo
  6. Que o sangue fará dar pelos giolhos
  7. Nas inimigas naus; senti-lo-á o Nilo,
  8. Podê-lo-á o Indo ver e o Gange ouvi-lo.
  1. "Qual o touro cioso, que se ensaia
  2. Pera a crua peleja, os cornos tenta
  3. No tronco dum carvalho ou alta faia
  4. E, o ar ferindo, as forças experimenta:
  5. Tal, antes que no seio de Cambaia
  6. Entre Francisco irado, na opulenta
  7. Cidade de Dabul a espada afia,
  8. Abaxando-lhe a túmida ousadia.
  1. "E logo, entrando fero na enseada
  2. De Dio, ilustre em cercos e batalhas,
  3. Fará espalhar a fraca e grande armada
  4. De Calecu, que remos tem por malhas.
  5. A de Melique Iaz, acautelada,
  6. Cos pelouros que tu, Vulcano, espalhas,
  7. Fará ir ver o frio e fundo assento,
  8. Secreto leito do húmido elemento.
  1. "Mas a de Mir Hocém, que, abalroando,
  2. A fúria esperará dos vingadores,
  3. Verá braços e pernas ir nadando
  4. Sem corpos, pelo mar, de seus senhores.
  5. Raios de fogo irão representando,
  6. No cego ardor, os bravos domadores.
  7. Quanto ali sentirão olhos e ouvidos
  8. É fumo, ferro, flamas e alaridos.
  1. "Mas ah, que desta próspera vitória,
  2. Com que despois virá ao pátrio Tejo,
  3. Quási lhe roubará a famosa glória
  4. Um sucesso, que triste e negro vejo!
  5. O Cabo Tormentório, que a memória
  6. Cos ossos guardará, não terá pejo
  7. De tirar deste mundo aquele esprito,
  8. Que não tiraram toda a Índia e Egipto.
  1. "Ali, Cafres selvagens poderão
  2. O que destros imigos não puderam;
  3. E rudos paus tostados sós farão
  4. O que arcos e pelouros não fizeram.
  5. Ocultos os juízos de Deus são;
  6. As gentes vãs, que não nos entenderam,
  7. Chamam-lhe fado mau, fortuna escura,
  8. Sendo só providência de Deus pura.
  1. "Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto
  2. (Dizia a Ninfa, e a voz alevantava)
  3. Lá no mar de Melinde, em sangue tinto
  4. Das cidades de Lamo, de Oja e Brava,
  5. Pelo Cunha também, que nunca extinto
  6. Será seu nome em todo o mar que lava
  7. As ilhas do Austro, e praias que se chamam
  8. De São Lourenço, e em todo o Sul se afamam!
  1. "Esta luz é do fogo e das luzentes
  2. Armas com que Albuquerque irá amansando
  3. De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes,
  4. Que refusam o jugo honroso e brando.
  5. Ali verão as setas estridentes
  6. Reciprocar-se, a ponta no ar virando
  7. Contra quem as tirou; que Deus peleja
  8. Por quem estende a fé da Madre Igreja.
  1. "Ali do sal os montes não defendem
  2. De corrupção os corpos no combate,
  3. Que mortos pela praia e mar se estendem
  4. De Gerum, de Mazcate e Calaiate;
  5. Até que à força só de braço aprendem
  6. A abaxar a cerviz, onde se lhe ate
  7. Obrigação de dar o reino inico
  8. Das perlas de Barém tributo rico.
  1. "Que gloriosas palmas tecer vejo
  2. Com que Vitória a fronte lhe coroa,
  3. Quando, sem sombra vã de medo ou pejo,
  4. Toma a ilha ilustríssima de Goa!
  5. Despois, obedecendo ao duro ensejo,
  6. A deixa, e ocasião espera boa
  7. Com que a torne a tomar, que esforço e arte
  8. Vencerão a Fortuna e o próprio Marte.
  1. "Eis já sobr'ela torna e vai rompendo
  2. Por muros, fogo, lanças e pelouros,
  3. Abrindo com a espada o espesso e horrendo
  4. Esquadrão de Gentios e de Mouros.
  5. Irão soldados ínclitos fazendo
  6. Mais que liões famélicos e touros,
  7. Na luz que sempre celebrada e dina
  8. Será da Egípcia Santa Caterina.
  1. "Nem tu menos fugir poderás deste,
  2. Posto que rica e posto que assentada
  3. Lá no grémio da Aurora, onde naceste,
  4. Opulenta Malaca nomeada.
  5. As setas venenosas que fizeste,
  6. Os crises com que já te vejo armada,
  7. Malaios namorados, Jaus valentes,
  8. Todos farás ao Luso obedientes."
  1. Mais estanças cantara esta Sirena
  2. Em louvor do ilustríssimo Albuquerque,
  3. Mas alembrou-lhe üa ira que o condena,
  4. Posto que a fama sua o mundo cerque.
  5. O grande Capitão, que o fado ordena
  6. Que com trabalhos glória eterna merque,
  7. Mais há-de ser um brando companheiro
  8. Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.
  1. Mas em tempo que fomes e asperezas,
  2. Doenças, frechas e trovões ardentes,
  3. A sazão e o lugar, fazem cruezas
  4. Nos soldados a tudo obedientes,
  5. Parece de selváticas brutezas,
  6. De peitos inumanos e insolentes,
  7. Dar extremo suplício pela culpa
  8. Que a fraca humanidade e Amor desculpa.
  1. Não será a culpa abominoso incesto
  2. Nem violento estupro em virgem pura,
  3. Nem menos adultério desonesto,
  4. Mas cüa escrava vil, lasciva e escura.
  5. Se o peito, ou de cioso, ou de modesto,
  6. Ou de usado a crueza fera e dura,
  7. Cos seus üa ira insana não refreia,
  8. Põe na fama alva noda negra e feia.
  1. Viu Alexandre Apeles namorado
  2. Da sua Campaspe, e deu-lha alegremente,
  3. Não sendo seu soldado exprimentado,
  4. Nem vendo-se num cerco duro e urgente.
  5. Sentiu Ciro que andava já abrasado
  6. Araspas, de Panteia, em fogo ardente,
  7. Que ele tomara em guarda, e prometia
  8. Que nenhum mau desejo o venceria;
  1. Mas, vendo o ilustre Persa que vencido
  2. Fora de Amor, que, enfim, não tem defensa,
  3. Levemente o perdoa, e foi servido
  4. Dele num caso grande, em recompensa.
  5. Per força, de Judita foi marido
  6. O férreo Balduíno; mas dispensa
  7. Carlos, pai dela, posto em causas grandes,
  8. Que viva e povoador seja de Frandes.
  1. Mas, prosseguindo a Ninfa o longo canto,
  2. De Soares cantava, que as bandeiras
  3. Faria tremular e pôr espanto
  4. Pelas roxas Arábicas ribeiras:
  5. - "Medina abominábil teme tanto,
  6. Quanto Meca e Gidá, co as derradeiras
  7. Praias de Abássia; Barborá se teme
  8. Do mal de que o empório Zeila geme.
  1. "A nobre ilha também de Taprobana,
  2. Já pelo nome antigo tão famosa
  3. Quanto agora soberba e soberana
  4. Pela cortiça cálida, cheirosa,
  5. Dela dará tributo à Lusitana
  6. Bandeira, quando, excelsa e gloriosa,
  7. Vencendo se erguerá na torre erguida,
  8. Em Columbo, dos próprios tão temida.
  1. "Também Sequeira, as ondas Eritreias
  2. Dividindo, abrirá novo caminho
  3. Pera ti, grande Império, que te arreias
  4. De seres de Candace e Sabá ninho.
  5. Maçuá, com cisternas de água cheias
  6. Verá, e o porto Arquico, ali vizinho;
  7. E fará descobir remotas Ilhas,
  8. Que dão ao mundo novas maravilhas.
  1. "Virá despois Meneses, cujo ferro
  2. Mais na Africa, que cá, terá provado;
  3. Castigará de Ormuz soberba o erro,
  4. Com lhe fazer tributo dar dobrado.
  5. Também tu, Gama, em pago do desterro
  6. Em que estás e serás inda tornado,
  7. Cos títulos de Conde e d'honras nobres
  8. Virás mandar a terra que descobres.
  1. "Mas aquela fatal necessidade
  2. De quem ninguém se exime dos humanos,
  3. Ilustrado co a Régia dignidade,
  4. Te tirará do mundo e seus enganos.
  5. Outro Meneses logo, cuja idade
  6. É maior na prudência que nos anos,
  7. Governará; e fará o ditoso Henrique
  8. Que perpétua memória dele fique.
  1. "Não vencerá somente os Malabares,
  2. Destruindo Panane com Coulete,
  3. Cometendo as bombardas, que, nos ares,
  4. Se vingam só do peito que as comete;
  5. Mas com virtudes, certo, singulares,
  6. Vence os imigos d'alma todos sete;
  7. De cobiça triunfa e incontinência,
  8. Que em tal idade é suma de excelência.
  1. "Mas, despois que as Estrelas o chamarem,
  2. Sucederás, ó forte Mascarenhas;
  3. E, se injustos o mando te tomarem,
  4. Prometo-te que fama eterna tenhas.
  5. Pera teus inimigos confessarem
  6. Teu valor alto, o fado quer que venhas
  7. A mandar, mais de palmas coroado,
  8. Que de fortuna justa acompanhado.
  1. "No reino de Bintão, que tantos danos
  2. Terá a Malaca muito tempo feitos,
  3. Num só dia as injúrias de mil anos
  4. Vingarás, co valor de ilustres peitos.
  5. Trabalhos e perigos inumanos,
  6. Abrolhos férreos mil, passos estreitos,
  7. Tranqueiras, baluartes, lanças, setas:
  8. Tudo fico que rompas e sometas.
  1. "Mas na Índia, cobiça e ambição,
  2. Que claramente põem aberto o rosto
  3. Contra Deus e Justiça, te farão
  4. Vitupério nenhum, mas só desgosto.
  5. Quem faz injúria vil e sem razão,
  6. Com forças e poder em que está posto,
  7. Não vence; que a vitória verdadeira
  8. É saber ter justiça nua e inteira.
  1. "Mas, contudo, não nego que Sampaio
  2. Será, no esforço, ilustre e assinalado,
  3. Mostrando-se no mar um fero raio,
  4. Que de inimigos mil verá coalhado.
  5. Em Bacanor fará cruel ensaio
  6. No Malabar, pera que, amedrontado,
  7. Despois a ser vencido dele venha
  8. Cutiale, com quanta armada tenha.
  1. "E não menos de Dio a fera frota,
  2. Que Chaúl temerá, de grande e ousada,
  3. Fará, co a vista só, perdida e rota,
  4. Por Heitor da Silveira e destroçada;
  5. Por Heitor Português, de quem se nota
  6. Que na costa Cambaica, sempre armada,
  7. Será aos Guzarates tanto dano,
  8. Quanto já foi aos Gregos o Troiano.
  1. "A Sampaio feroz sucederá
  2. Cunha, que longo tempo tem o leme:
  3. De Chale as torres altas erguerá,
  4. Enquanto Dio ilustre dele treme;
  5. O forte Baçaim se lhe dará,
  6. Não sem sangue, porém, que nele geme
  7. Melique, porque à força só de espada
  8. A tranqueira soberba vê tomada.
  1. "Trás este vem Noronha, cujo auspício
  2. De Dio os Rumes feros afugenta;
  3. Dio, que o peito e bélico exercício
  4. De António da Silveira bem sustenta.
  5. Fará em Noronha a morte o usado ofício,
  6. Quando um teu ramo, ó Gama, se exprimenta
  7. No governo do Império, cujo zelo
  8. Com medo o Roxo Mar fará amarelo.
  1. "Das mãos do teu Estêvão vem tomar
  2. As rédeas um, que já será ilustrado
  3. No Brasil, com vencer e castigar
  4. O pirata Francês, ao mar usado.
  5. Despois, Capitão-mor do Índico mar,
  6. O muro de Damão, soberbo e armado,
  7. Escala e primeiro entra a porta aberta,
  8. Que fogo e frechas mil terão coberta.
  1. "A este o Rei Cambaico soberbíssimo
  2. Fortaleza dará na rica Dio,
  3. Por que contra o Mogor poderosíssimo
  4. Lhe ajude a defender o senhorio.
  5. Despois irá com peito esforçadíssimo
  6. A tolher que não passe o Rei gentio
  7. De Calecu, que assi com quantos veio
  8. O fará retirar, de sangue cheio.
  1. "Destruirá a cidade Repelim,
  2. Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida;
  3. E despois, junto ao Cabo Comorim,
  4. üa façanha faz esclarecida:
  5. A frota principal do Samorim,
  6. Que destruir o mundo não duvida,
  7. Vencerá co furor do ferro e fogo;
  8. Em si verá Beadala o Márcio jogo.
  1. "Tendo assi limpa a Índia dos imigos,
  2. Virá despois com ceptro a governá-Ia
  3. Sem que ache resistência nem perigos,
  4. Que todos tremem dele e nenhum fala.
  5. Só quis provar os ásperos castigos
  6. Baticalá, que vira já Beadala.
  7. De sangue e corpos mortos ficou cheia
  8. E de fogo e trovões desfeita e feia.
  1. "Este será Martinho, que de Marte
  2. O nome tem co as obras derivado;
  3. Tanto em armas ilustre em toda parte,
  4. Quanto, em conselho, sábio e bem cuidado.
  5. Suceder-lhe-á ali Castro, que o estandarte
  6. Português terá sempre levantado,
  7. Conforme sucessor ao sucedido,
  8. Que um ergue Dio, outro o defende erguido.
  1. "Persas feroces, Abassis e Rumes,
  2. Que trazido de Roma o nome têm,
  3. Vários de gestos, vários de costumes
  4. (Que mil nações ao cerco feras vêm),
  5. Farão dos Céus ao mundo vãos queixumes
  6. Porque uns poucos a terra lhe detêm.
  7. Em sangue Português, juram, descridos,
  8. De banhar os bigodes retorcidos.
  1. "Basiliscos medonhos e liões,
  2. Trabucos feros, minas encobertas,
  3. Sustenta Mascarenhas cos barões
  4. Que tão ledos as mortes têm por certas;
  5. Até que, nas maiores opressões,
  6. Castro libertador, fazendo ofertas
  7. Das vidas de seus filhos, quer que fiquem
  8. Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem.
  1. "Fernando, um deles, ramo da alta pranta,
  2. Onde o violento fogo, com ruido,
  3. Em pedaços os muros no ar levanta,
  4. Será ali arrebatado e ao Céu subido.
  5. Álvaro, quando o Inverno o mundo espanta
  6. E tem o caminho húmido impedido,
  7. Abrindo-o, vence as ondas e os perigos,
  8. Os ventos e despois os inimigos.
  1. "Eis vem despois o pai, que as ondas corta
  2. Co restante da gente Lusitana,
  3. E com força e saber, que mais importa,
  4. Batalha dá felice e soberana.
  5. Uns, paredes subindo, escusam porta;
  6. Outros a abrem na fera esquadra insana.
  7. Feitos farão tão dinos de memória
  8. Que não caibam em verso ou larga história.
  1. "Este, despois, em campo se apresenta,
  2. Vencedor forte e intrépido, ao possante
  3. Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta
  4. Da fera multidão quadrupedante.
  5. Não menos suas terras mal sustenta
  6. O Hidalcão, do braço triunfante
  7. Que castigando vai Dabul na costa;
  8. Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta.
  1. "Estes e outros Barões, por várias partes,
  2. Dinos todos de fama e maravilha,
  3. Fazendo-se na terra bravos Martes,
  4. Virão lograr os gostos desta Ilha,
  5. Varrendo triunfantes estandartes
  6. Pelas ondas que corta a aguda quilha;
  7. E acharão estas Ninfas e estas mesas,
  8. Que glórias e honras são de árduas empresas."
  1. Assi cantava a Ninfa; e as outras todas,
  2. Com sonoroso aplauso, vozes davam,
  3. Com que festejam as alegres vodas
  4. Que com tanto prazer se celebravam.
  5. - "Por mais que da Fortuna andem as rodas
  6. (Nüa cônsona voz todas soavam),
  7. Não vos hão-de faltar, gente famosa,
  8. Honra, valor e fama gloriosa."
  1. Despois que a corporal necessidade
  2. Se satisfez do mantimento nobre,
  3. E na harmonia e doce suavidade
  4. Viram os altos feitos que descobre,
  5. Tétis, de graça ornada e gravidade,
  6. Pera que com mais alta glória dobre
  7. As festas deste alegre e claro dia,
  8. Pera o felice Gama assi dizia:
  1. - "Faz-te mercê, barão, a Sapiência
  2. Suprema de, cos olhos corporais,
  3. Veres o que não pode a vã ciência
  4. Dos errados e míseros mortais.
  5. Sigue-me firme e forte, com prudência,
  6. Por este monte espesso, tu cos mais."
  7. Assi lhe diz e o guia por um mato
  8. Árduo, difícil, duro a humano trato.
  1. Não andam muito que no erguido cume
  2. Se acharam, onde um campo se esmaltava
  3. De esmeraldas, rubis, tais que presume
  4. A vista que divino chão pisava.
  5. Aqui um globo vêm no ar, que o lume
  6. Claríssimo por ele penetrava,
  7. De modo que o seu centro está evidente,
  8. Como a sua superfícia, claramente.
  1. Qual a matéria seja não se enxerga,
  2. Mas enxerga-se bem que está composto
  3. De vários orbes, que a Divina verga
  4. Compôs, e um centro a todos só tem posto.
  5. Volvendo, ora se abaxe, agora se erga,
  6. Nunca s'ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto
  7. Por toda a parte tem; e em toda a parte
  8. Começa e acaba, enfim, por divina arte,
  1. Uniforme, perfeito, em si sustido,
  2. Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.
  3. Vendo o Gama este globo, comovido
  4. De espanto e de desejo ali ficou.
  5. Diz-lhe a Deusa: - "O transunto, reduzido
  6. Em pequeno volume, aqui te dou
  7. Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas
  8. Por onde vás e irás e o que desejas.
  1. "Vês aqui a grande máquina do Mundo,
  2. Etérea e elemental, que fabricada
  3. Assi foi do Saber, alto e profundo,
  4. Que é sem princípio e meta limitada.
  5. Quem cerca em derredor este rotundo
  6. Globo e sua superfícia tão limada,
  7. É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,
  8. Que a tanto o engenho humano não se estende.
  1. "Este orbe que, primeiro, vai cercando
  2. Os outros mais pequenos que em si tem,
  3. Que está com luz tão clara radiando
  4. Que a vista cega e a mente vil também,
  5. Empíreo se nomeia, onde logrando
  6. Puras almas estão daquele Bem
  7. Tamanho, que ele só se entende e alcança,
  8. De quem não há no mundo semelhança.
  1. "Aqui, só verdadeiros, gloriosos
  2. Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
  3. Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
  4. Fingidos de mortal e cego engano.
  5. Só pera fazer versos deleitosos
  6. Servimos; e, se mais o trato humano
  7. Nos pode dar, é só que o nome nosso
  8. Nestas estrelas pôs o engenho vosso.
  1. "E também, porque a santa Providência,
  2. Que em Júpiter aqui se representa,
  3. Por espíritos mil que têm prudência
  4. Governa o Mundo todo que sustenta
  5. (Ensina-lo a profética ciência,
  6. Em muitos dos exemplos que apresenta);
  7. Os que são bons, guiando, favorecem,
  8. Os maus, em quanto podem, nos empecem;
  1. "Quer logo aqui a pintura que varia
  2. Agora deleitando, ora ensinando,
  3. Dar-lhe nomes que a antiga Poesia
  4. A seus Deuses já dera, fabulando;
  5. Que os Anjos de celeste companhia
  6. Deuses o sacro verso está chamando,
  7. Nem nega que esse nome preminente
  8. Também aos maus se dá, mas falsamente.
  1. "Enfim que o Sumo Deus, que por segundas
  2. Causas obra no Mundo, tudo manda.
  3. E tornando a contar-te das profundas
  4. Obras da Mão Divina veneranda,
  5. Debaxo deste círculo onde as mundas
  6. Almas divinas gozam, que não anda,
  7. Outro corre, tão leve e tão ligeiro
  8. Que não se enxerga: é o Móbile primeiro.
  1. "Com este rapto e grande movimento
  2. Vão todos os que dentro tem no seio;
  3. Por obra deste, o Sol, andando a tento,
  4. O dia e noite faz, com curso alheio.
  5. Debaxo deste leve, anda outro lento,
  6. Tão lento e sojugado a duro freio,
  7. Que enquanto Febo, de luz nunca escasso,
  8. Duzentos cursos faz, dá ele um passo.
  1. "Olha estoutro debaxo, que esmaltado
  2. De corpos lisos anda e radiantes,
  3. Que também nele tem curso ordenado
  4. E nos seus axes correm cintilantes.
  5. Bem vês como se veste e faz ornado
  6. Co largo Cinto d, ouro, que estelantes
  7. Animais doze traz afigurados,
  8. Apousentos de Febo limitados.
  1. "Olha por outras partes a pintura
  2. Que as Estrelas fulgentes vão fazendo:
  3. Olha a Carreta, atenta a Cinosura,
  4. Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo;
  5. Vê de Cassiopeia a fermosura
  6. E do Orionte o gesto turbulento;
  7. Olha o Cisne morrendo que suspira,
  8. A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira.
  1. "Debaxo deste grande Firmamento,
  2. Vês o céu de Saturno, Deus antigo;
  3. Júpiter logo faz o movimento,
  4. E Marte abaxo, bélico inimigo;
  5. O claro Olho do céu, no quarto assento,
  6. E Vénus, que os amores traz consigo;
  7. Mercúrio, de eloquência soberana;
  8. Com três rostos, debaxo vai Diana.
  1. "Em todos estes orbes, diferente
  2. Curso verás, nuns grave e noutros leve;
  3. Ora fogem do Centro longamente,
  4. Ora da Terra estão caminho breve,
  5. Bem como quis o Padre omnipotente,
  6. Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,
  7. Os quais verás que jazem mais a dentro
  8. E tem co Mar a Terra por seu centro.
  1. "Neste centro, pousada dos humanos,
  2. Que não somente, ousados, se contentam
  3. De sofrerem da terra firme os danos,
  4. Mas inda o mar instábil exprimentam,
  5. Verás as várias partes, que os insanos
  6. Mares dividem, onde se apousentam
  7. Várias nações que mandam vários Reis,
  8. Vários costumes seus e várias leis.
  1. "Vês Europa Cristã, mais alta e clara
  2. Que as outras em polícia e fortaleza.
  3. Vês África, dos bens do mundo avara,
  4. Inculta e toda cheia de bruteza;
  5. Co Cabo que até'aqui se vos negara,
  6. Que assentou pera o Austro a Natureza.
  7. Olha essa terra toda, que se habita
  8. Dessa gente sem Lei, quási infinita.
  1. "Vê do Benomotapa o grande império,
  2. De selvática gente, negra e nua,
  3. Onde Gonçalo morte e vitupério
  4. Padecerá, pola Fé santa sua.
  5. Nace por este incógnito Hemispério
  6. O metal por que mais a gente sua.
  7. Vê que do lago donde se derrama
  8. O Nilo, também vindo está Cuama.
  1. "Olha as casas dos negros, como estão
  2. Sem portas, confiados, em seus ninhos,
  3. Na justiça real e defensão
  4. E na fidelidade dos vizinhos;
  5. Olha deles a bruta multidão,
  6. Qual bando espesso e negro de estorninhos,
  7. Combaterá em Sofala a fortaleza, Que
  8. defenderá Nhaia com destreza.
  1. "Olha lá as alagoas donde o Nilo
  2. Nace, que não souberam os antigos;
  3. Vê-lo rega, gerando o crocodilo,
  4. Os povos Abassis, de Crista amigos;
  5. Olha como sem muros (novo estilo)
  6. Se defendem milhor dos inimigos;
  7. Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama,
  8. Que ora dos naturais Nobá se chama.
  1. "Nesta remota terra um filho teu
  2. Nas armas contra os Turcos será claro;
  3. Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu;
  4. Mas contra o fim fatal não há reparo.
  5. Vê cá a costa do mar, onde te deu
  6. Melinde hospício gasalhoso e caro;
  7. O Rapto rio nota, que o romance
  8. Da terra chama Obi; entra em Quilmance.
  1. "O Cabo vê já Arómata chamado,
  2. E agora Guardafú, dos moradores,
  3. Onde começa a boca do afamado
  4. Mar Roxo, que do fundo toma as cores;
  5. Este como limite está lançado
  6. Que divide Asia de Africa; e as milhores
  7. Povoações que a parte Africa tem
  8. Maçuá são, Arquico e Suaquém.
  1. "Vês o extremo Suez, que antigamente
  2. Dizem que foi dos Héroas a cidade
  3. (Outros dizem que Arsínoe), e ao presente
  4. Tem das frotas do Egipto a potestade.
  5. Olha as águas nas quais abriu patente
  6. Estrada o grão Mousés na antiga idade.
  7. Ásia começa aqui, que se apresenta
  8. Em terras grande, em reinos opulenta.
  1. "Olha o monte Sinai, que se ennobrece
  2. Co sepulcro de Santa Caterina;
  3. Olha Toro e Gidá, que lhe falece
  4. Água das fontes, doce e cristalina;
  5. Olha as portas do Estreito, que fenece
  6. No reino da seca Ádem, que confina
  7. Com a serra d'Arzira, pedra viva,
  8. Onde chuva dos céus se não deriva.
  1. "Olha as Arábias três, que tanta terra
  2. Tomam, todas da gente vaga e baça,
  3. Donde vêm os cavalos pera a guerra,
  4. Ligeiros e feroces, de alta raça;
  5. Olha a costa que corrre, até que cera
  6. Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça
  7. O Cabo que co nome se apelida
  8. Da cidade Fartaque, ali sabida.
  1. "Olha Dófar, insigne porque manda
  2. O mais cheiroso incenso pera as aras;
  3. Mas atenta: já cá destoutra banda
  4. De Roçalgate, e praias sempre avaras,
  5. Começa o reino Ormuz, que todo se anda
  6. Pelas ribeiras que inda serão claras
  7. Quando as galés do Turco e fera armada
  8. Virem de Castelbranco nua a espada.
  1. "Olha o Cabo Asaboro, que chamado
  2. Agora é Moçandão, dos navegantes;
  3. Por aqui entra o lago que é fechado
  4. De Arábia e Pérsias terras abundantes.
  5. Atenta a ilha Barém, que o fundo ornado
  6. Tem das suas perlas ricas, e imitantes
  7. A cor da Aurora; e vê na água salgada
  8. Ter o Tígris e Eufrates üa entrada.
  1. "Olha da grande Pérsia o império nobre,
  2. Sempre posto no campo e nos cavalos,
  3. Que se injuria de usar fundido cobre
  4. E de não ter das armas sempre os calos.
  5. Mas vê a ilha Gerum, como descobre
  6. O que fazem do tempo os intervalos,
  7. Que da cidade Armuza, que ali esteve,
  8. Ela o nome despois e a glória teve.
  1. "Aqui de Dom Filipe de Meneses
  2. Se mostrará a virtude, em armas clara,
  3. Quando, com muito poucos Portugueses,
  4. Os muitos Párseos vencerá de Lara.
  5. Virão provar os golpes e reveses
  6. De Dom Pedro de Sousa, que provara
  7. Já seu braço em Ampaza, que deixada
  8. Terá por terra, à força só de espada.
  1. "Mas deixemos o Estreito e o conhecido
  2. Cabo de Jasque, dito já Carpela,
  3. Com todo o seu terreno mal querido
  4. Da Natura e dos dões usados dela;
  5. Carmânia teve já por apelido.
  6. Mas vês o fermoso Indo, que daquela
  7. Altura nace, junto à qual, também
  8. Doutra altura correndo o Gange vem?
  1. "Olha a terra de Ulcinde, fertilíssima,
  2. E de Jáquete a íntima enseada;
  3. Do mar a enchente súbita, grandíssima,
  4. E a vazante, que foge apressurada.
  5. A terra de Cambaia vê, riquíssima,
  6. Onde do mar o seio faz entrada;
  7. Cidades outras mil, que vou passando,
  8. A vós outros aqui se estão guardando.
  1. "Vês corre a costa célebre Indiana
  2. Pera o Sul, até o Cabo Comori,
  3. Já chamado Cori, que Taprobana
  4. (Que ora é Ceilão) defronte tem de si.
  5. Por este mar a gente Lusitana,
  6. Que com armas virá despois de ti,
  7. Terá vitórias, terras e cidades,
  8. Nas quais hão-de viver muitas idades.
  1. "As províncias que entre um e o outro rio
  2. Vês, com várias nações, são infinitas:
  3. Um reino Mahometa, outro Gentio,
  4. A quem tem o Demónio leis escritas.
  5. Olha que de Narsinga o senhorio
  6. Tem as relíquias santas e benditas
  7. Do corpo de Tomé, barão sagrado,
  8. Que a Jesu Cristo teve a mão no lado.
  1. "Aqui a cidade foi que se chamava
  2. Meliapor, fermosa, grande e rica;
  3. Os Ídolos antigos adorava
  4. Como inda agora faz a gente inica.
  5. Longe do mar naquele tempo estava,
  6. Quando a Fé, que no mundo se pubrica,
  7. Tomé vinha prègando, e já passara
  8. Províncias mil do mundo, que ensinara.
  1. "Chegado aqui, pregando e junto dando
  2. A doentes saúde, a mortos vida,
  3. Acaso traz um dia o mar, vagando,
  4. Um lenho de grandeza desmedida.
  5. Deseja o Rei, que andava edificando,
  6. Fazer dele madeira; e não duvida
  7. Poder tirá-lo a terra, com possantes
  8. Forças d' homens, de engenhos, de alifantes.
  1. "Era tão grande o peso do madeiro
  2. Que, só pera abalar-se, nada abasta;
  3. Mas o núncio de Cristo verdadeiro
  4. Menos trabalho em tal negócio gasta:
  5. Ata o cordão que traz, por derradeiro,
  6. No tronco, e fàcilmente o leva e arrasta
  7. Pera onde faça um sumptuoso templo
  8. Que ficasse aos futuros por exemplo.
  1. "Sabia bem que se com fé formada
  2. Mandar a um monte surdo que se mova,
  3. Que obedecerá logo à voz sagrada,
  4. Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.
  5. A gente ficou disto alvoraçada;
  6. Os Brâmenes o têm por cousa nova;
  7. Vendo os milagres, vendo a santidade,
  8. Hão medo de perder autoridade.
  1. "São estes sacerdotes dos Gentios
  2. Em quem mais penetrado tinha enveja;
  3. Buscam maneiras mil, buscam desvios,
  4. Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.
  5. O principal, que ao peito traz os fios,
  6. Um caso horrendo faz, que o mundo veja
  7. Que inimiga não há, tão dura e fera,
  8. Como a virtude falsa, da sincera.
  1. "Um filho próprio mata, e logo acusa
  2. De homicídio Tomé, que era inocente;
  3. Dá falsas testemunhas, como se usa;
  4. Condenaram-no a morte brevemente.
  5. O Santo, que não vê milhor escusa
  6. Que apelar pera o Padre omnipotente,
  7. Quer, diante do Rei e dos senhores,
  8. Que se faça um milagre dos maiores.
  1. "O corpo morto manda ser trazido,
  2. Que res[s]ucite e seja perguntado
  3. Quem foi seu matador, e será crido
  4. Por testemunho, o seu, mais aprovado.
  5. Viram todos o moço vivo, erguido,
  6. Em nome de Jesu crucificado:
  7. Dá graças a Tomé, que lhe deu vida,
  8. E descobre seu pai ser homicida.
  1. "Este milagre fez tamanho espanto
  2. Que o Rei se banha logo na água santa,
  3. E muitos após ele; um beija o manto,
  4. Outro louvor do Deus de Tomé canta.
  5. Os Brâmenes se encheram de ódio tanto,
  6. Com seu veneno os morde enveja tanta,
  7. Que, persuadindo a isso o povo rudo,
  8. Determinam matá-lo, em fim de tudo.
  1. "Um dia que pregando ao povo estava,
  2. Fingiram entre a gente um arruído.
  3. (Já Cristo neste tempo lhe ordenava
  4. Que, padecendo, fosse ao Céu subido);
  5. A multidão das pedras que voava
  6. No Santo dá, já a tudo oferecido;
  7. Um dos maus, por fartar-se mais depressa,
  8. Com crua lança o peito lhe atravessa.
  1. "Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo;
  2. Chorou-te toda a terra que pisaste;
  3. Mais te choram as almas que vestindo
  4. Se iam da santa Fé que lhe ensinaste.
  5. Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,
  6. Te recebem na glória que ganhaste.
  7. Pedimos-te que a Deus ajuda peças
  8. Com que os teus Lusitanos favoreças.
  1. "E vós outros que os nomes usurpais
  2. De mandados de Deus, como Tomé,
  3. Dizei: se sois mandados, como estais
  4. Sem irdes a pregar a santa Fé?
  5. Olhai que, se sois Sal e vos danais
  6. Na pátria, onde profeta ninguém é,
  7. Com que se salgarão em nossos dias
  8. (Infiéis deixo) tantas heresias?
  1. "Mas passo esta matéria perigosa
  2. E tornemos à costa debuxada.
  3. Já com esta cidade tão famosa
  4. Se faz curva a Gangética enseada;
  5. Corre Narsinga, rica e poderosa;
  6. Corre Orixa, de roupas abastada;
  7. No fundo da enseada, o ilustre rio
  8. Ganges vem ao salgado senhorio;
  1. "Ganges, no qual os seus habitadores
  2. Morrem banhados, tendo por certeza
  3. Que, inda que sejam grandes pecadores,
  4. Esta água santa os lava e dá pureza.
  5. Vê Catigão, cidade das milhores
  6. De Bengala província, que se preza
  7. De abundante. Mas olha que está posta
  8. Pera o Austro, daqui virada, a costa.
  1. "Olha o reino Arracão; olha o assento
  2. De Pegu, que já monstros povoaram,
  3. Monstros filhos do feio ajuntamento
  4. Düa mulher e um cão, que sós se acharam.
  5. Aqui soante arame no instrumento
  6. Da geração costumam, o que usaram
  7. Por manha da Rainha que, inventando
  8. Tal uso, deitou fora o error nefando.
  1. "Olha Tavai cidade, onde começa
  2. De Sião largo o império tão comprido;
  3. Tenassari, Quedá, que é só cabeça
  4. Das que pimenta ali têm produzido.
  5. Mais avante fareis que se conheça
  6. Malaca por empório ennobrecido,
  7. Onde toda a província do mar grande
  8. Suas mercadorias ricas mande.
  1. "Dizem que desta terra co as possantes
  2. Ondas o mar, entrando, dividiu
  3. A nobre ilha Samatra, que já d'antes
  4. Juntas ambas a gente antiga viu.
  5. Quersoneso foi dita; e das prestantes
  6. Veias d'ouro que a terra produziu,
  7. 'Aurea', por epitéto lhe ajuntaram;
  8. Alguns que fosse Ofir imaginaram.
  1. "Mas, na ponta da terra, Cingapura
  2. Verás, onde o caminho às naus se estreita;
  3. Daqui tornando a costa à Cinosura,
  4. Se encurva e pera a Aurora se endireita.
  5. Vês Pam, Patane, reinos, e a longura
  6. De Sião, que estes e outros mais sujeita;
  7. Olha o rio Menão, que se derrama
  8. Do grande lago que Chiamai se chama.
  1. Vês neste grão terreno os diferentes
  2. Nomes de mil nações, nunca sabidas:
  3. Os Laos, em terra e número potentes;
  4. Avás, Bramás, por serras tão compridas;
  5. Vê nos remotos montes outras gentes,
  6. Que Gueos se chamam, de selvages vidas;
  7. Humana carne comem, mas a sua
  8. Pintam com ferro ardente, usança crua.
  1. "Vês, passa por Camboja Mecom rio,
  2. Que capitão das águas se interpreta;
  3. Tantas recebe d' outro só no Estio,
  4. Que alaga os campos largos e inquieta;
  5. Tem as enchentes quais o Nilo frio;
  6. A gente dele crê, como indiscreta,
  7. Que pena e glória têm, despois de morte,
  8. Os brutos animais de toda sorte.
  1. "Este receberá, plácido e brando,
  2. No seu regaço os Cantos que molhados
  3. Vêm do naufrágio triste e miserando,
  4. Dos procelosos baxos escapados,
  5. Das fomes, dos perigos grandes, quando
  6. Será o injusto mando executado
  7. Naquele cuja Lira sonorosa
  8. Será mais afamada que ditosa.
  1. "Vês, corre a costa que Champá se chama,
  2. Cuja mata é do pau cheiroso ornada;
  3. Vês Cauchichina está, de escura fama,
  4. E de Ainão vê a incógnita enseada;
  5. Aqui o soberbo Império, que se afama
  6. Com terras e riqueza não cuidada,
  7. Da China corre, e ocupa o senhorio
  8. Desde o Trópico ardente ao Cinto frio.
  1. "Olha o muro e edifício nunca crido,
  2. Que entre um império e o outro se edifica,
  3. Certíssimo sinal, e conhecido,
  4. Da potência real, soberba e rica.
  5. Estes, o Rei que têm, não foi nacido
  6. Príncipe, nem dos pais aos filhos fica,
  7. Mas elegem aquele que é famoso
  8. Por cavaleiro, sábio e virtuoso.
  1. "Inda outra muita terra se te esconde
  2. Até que venha o tempo de mostrar-se;
  3. Mas não deixes no mar as Ilhas onde
  4. A Natureza quis mais afamar-se:
  5. Esta, meia escondida, que responde
  6. De longe à China, donde vem buscar-se,
  7. É Japão, onde nace a prata fina,
  8. Que ilustrada será co a Lei divina.
  1. "Olha cá pelos mares do Oriente
  2. Ás infinitas Ilhas espalhadas:
  3. Vê Tidore e Ternate, co fervente
  4. Cume, que lança as flamas ondeadas.
  5. As árvores verás do cravo ardente,
  6. Co sangue Português inda compradas.
  7. Aqui há as áureas aves, que não decem
  8. Nunca à terra e só mortas aparecem.
  1. "Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam
  2. Da vária cor que pinta o roxo fruto;
  3. Às aves variadas, que ali saltam,
  4. Da verde noz tomando seu tributo.
  5. Olha também Bornéu, onde não faltam
  6. Lágrimas no licor coalhado e enxuto
  7. Das árvores, que cânfora é chamado,
  8. Com que da Ilha o nome é celebrado.
  1. "Ali também Timor, que o lenho manda
  2. Sândalo, salutífero e cheiroso;
  3. Olha a Sunda, tão larga que üa banda
  4. Esconde pera o Sul dificultoso;
  5. A gente do Sertão, que as terras anda,
  6. Um rio diz que tem miraculoso,
  7. Que, por onde ele só, sem outro, vai,
  8. Converte em pedra o pau que nele cai.
  1. "Vê naquela que o tempo tornou Ilha,
  2. Que também flamas trémulas vapora,
  3. A fonte que óleo mana, e a maravilha
  4. Do cheiroso licor que o tronco chora,
  5. - Cheiroso, mais que quanto estila a filha
  6. De Ciniras na Arábia, onde ela mora;
  7. E vê que, tendo quanto as outras têm,
  8. Branda seda e fino ouro dá também.
  1. "Olha, em Ceilão, que o monte se alevanta
  2. Tanto que as nuvens passa ou a vista engana;
  3. Os naturais o têm por cousa santa,
  4. Pola pedra onde está a pegada humana.
  5. Nas ilhas de Maldiva nace a pranta
  6. No profundo das águas, soberana,
  7. Cujo pomo contra o veneno urgente
  8. É tido por antídoto excelente.
  1. "Verás defronte estar do Roxo Estreito
  2. Socotorá, co amaro aloé famosa;
  3. Outras ilhas, no mar também sujeito
  4. A vós, na costa de África arenosa,
  5. Onde sai do cheiro mais perfeito
  6. A massa, ao mundo oculta e preciosa.
  7. De São Lourenço vê a Ilha afamada,
  8. Que Madagáscar é dalguns chamada.
  1. "Eis aqui as novas partes do Oriente
  2. Que vós outros agora ao mundo dais,
  3. Abrindo a porta ao vasto mar patente,
  4. Que com tão forte peito navegais.
  5. Mas é também razão que, no Ponente,
  6. Dum Lusitano um feito inda vejais,
  7. Que, de seu Rei mostrando-se agravado,
  8. Caminho há-de fazer nunca cuidado.
  1. "Vedes a grande terra que contina
  2. Vai de Calisto ao seu contrário Pólo,
  3. Que soberba a fará a luzente mina
  4. Do metal que a cor tem do louro Apolo.
  5. Castela, vossa amiga, será dina
  6. De lançar-lhe o colar ao rudo colo.
  7. Varias províncias tem de várias gentes,
  8. Em ritos e costumes, diferentes.
  1. "Mas cá onde mais se alarga, ali tereis
  2. Parte também, co pau vermelho nota;
  3. De Santa Cruz o nome lhe poreis;
  4. Descobri-la-á a primeira vossa frota.
  5. Ao longo desta costa, que tereis,
  6. Irá buscando a parte mais remota
  7. O Magalhães, no feito, com verdade,
  8. Português, porém não na lealdade.
  1. "Dês que passar a via mais que meia
  2. Que ao Antártico Pólo vai da Linha,
  3. Düa estatura quási giganteia
  4. Homens verá, da terra ali vizinha;
  5. E mais avante o Estreito que se arreia
  6. Co nome dele agora, o qual caminha
  7. Pera outro mar e terra que fica onde
  8. Com suas frias asas o Austro a esconde.
  1. "Até'aqui Portugueses concedido
  2. Vos é saberdes os futuros feitos
  3. Que, pelo mar que já deixais sabido,
  4. Virão fazer barões de fortes peitos.
  5. Agora, pois que tendes aprendido
  6. Trabalhos que vos façam ser aceitos
  7. As eternas esposas e fermosas,
  8. Que coroas vos tecem gloriosas,
  1. "Podeis-vos embarcar, que tendes vento
  2. E mar tranquilo, pera a pátria amada."
  3. Assi lhe disse; e logo movimento
  4. Fazem da Ilha alegre e namorada.
  5. Levam refresco e nobre mantimento;
  6. Levam a companhia desejada
  7. Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,
  8. Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.
  1. Assi foram cortando o mar sereno,
  2. Com vento sempre manso e nunca irado,
  3. Até que houveram vista do terreno
  4. Em que naceram, sempre desejado.
  5. Entraram pela foz do Tejo ameno,
  6. E à sua pátria e Rei temido e amado
  7. O prémio e glória dão por que mandou,
  8. E com títulos novos se ilustrou.
  1. Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
  2. Destemperada e a voz enrouquecida,
  3. E não do canto, mas de ver que venho
  4. Cantar a gente surda e endurecida.
  5. O favor com que mais se acende o engenho
  6. Não no dá a pátria, não, que está metida
  7. No gosto da cobiça e na rudeza
  8. Düa austera, apagada e vil tristeza.
  1. E não sei por que influxo de Destino
  2. Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
  3. Que os ânimos levanta de contino
  4. A ter pera trabalhos ledo o rosto.
  5. Por isso vós, ó Rei, que por divino
  6. Conselho estais no régio sólio posto,
  7. Olhai que sois (e vede as outras gentes)
  8. Senhor só de vassalos excelentes.
  1. Olhai que ledos vão, por várias vias,
  2. Quais rompentes liões e bravos touros,
  3. Dando os corpos a fomes e vigias,
  4. A ferro, a fogo, a setas e pelouros,
  5. A quentes regiões, a plagas frias,
  6. A golpes de Idolátras e de Mouros,
  7. A perigos incógnitos do mundo,
  8. A naufrágios, a pexes, ao profundo.
  1. Por vos servir, a tudo aparelhados;
  2. De vós tão longe, sempre obedientes;
  3. A quaisquer vossos ásperos mandados,
  4. Sem dar reposta, prontos e contentes.
  5. Só com saber que são de vós olhados,
  6. Demónios infernais, negros e ardentes,
  7. Cometerão convosco, e não duvido
  8. Que vencedor vos façam, não vencido.
  1. Favorecei-os logo, e alegrai-os
  2. Com a presença e leda humanidade;
  3. De rigorosas leis desalivai-os,
  4. Que assi se abre o caminho à santidade.
  5. Os mais exprimentados levantai-os,
  6. Se, com a experiência, têm bondade
  7. Pera vosso conselho, pois que sabem
  8. O como, o quando, e onde as cousas cabem.
  1. Todos favorecei em seus ofícios,
  2. Segundo têm das vidas o talento;
  3. Tenham Religiosos exercícios
  4. De rogarem, por vosso regimento,
  5. Com jejuns, disciplina, pelos vícios
  6. Comuns; toda ambição terão por vento,
  7. Que o bom Religioso verdadeiro
  8. Glória vã não pretende nem dinheiro.
  1. Os Cavaleiros tende em muita estima,
  2. Pois com seu sangue intrépido e fervente
  3. Estendem não sòmente a Lei de cima,
  4. Mas inda vosso Império preminente.
  5. Pois aqueles que a tão remoto clima
  6. Vos vão servir, com passo diligente,
  7. Dous inimigos vencem: uns, os vivos,
  8. E (o que é mais) os trabalhos excessivos.
  1. Fazei, Senhor, que nunca os admirados
  2. Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
  3. Possam dizer que são pera mandados,
  4. Mais que pera mandar, os Portugueses.
  5. Tomai conselho só d'exprimentados
  6. Que viram largos anos, largos meses,
  7. Que, posto que em cientes muito cabe.
  8. Mais em particular o experto sabe.
  1. De Formião, filósofo elegante,
  2. Vereis como Anibal escarnecia,
  3. Quando das artes bélicas, diante
  4. Dele, com larga voz tratava e lia.
  5. A disciplina militar prestante
  6. Não se aprende, Senhor, na fantasia,
  7. Sonhando, imaginando ou estudando,
  8. Senão vendo, tratando e pelejando.
  1. Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
  2. De vós não conhecido nem sonhado?
  3. Da boca dos pequenos sei, contudo,
  4. Que o louvor sai às vezes acabado.
  5. Tem me falta na vida honesto estudo,
  6. Com longa experiência misturado,
  7. Nem engenho, que aqui vereis presente,
  8. Cousas que juntas se acham raramente.
  1. Pera servir-vos, braço às armas feito,
  2. Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
  3. Só me falece ser a vós aceito,
  4. De quem virtude deve ser prezada.
  5. Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
  6. Dina empresa tomar de ser cantada,
  7. Como a pres[s]aga mente vaticina
  8. Olhando a vossa inclinação divina,
  1. Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
  2. A vista vossa tema o monte Atlante,
  3. Ou rompendo nos campos de Ampelusa
  4. Os muros de Marrocos e Trudante,
  5. A minha já estimada e leda Musa
  6. Fico que em todo o mundo de vós cante,
  7. De sorte que Alexandro em vós se veja,
  8. Sem à dita de Aquiles ter enveja.