"Depois de procelosa tempestade
104 oitavas
- "Depois de procelosa tempestade,
- Noturna sombra e sibilante vento,
- Traz a manhã serena claridade,
- Esperança de porto e salvamento;
- Aparta o sol a negra escuridade,
- Removendo o temor do pensamento:
- Assim no Reino forte aconteceu,
- Depois que o Rei Fernando faleceu.
- "Porque, se muito os nossos desejaram
- Quem os danos e ofensas vá vingando
- Naqueles que tão bem se aproveitaram
- Do descuido remisso de Fernando,
- Depois de pouco tempo o alcançaram,
- Joane, sempre ilustre, alevantando
- Por Rei, como de Pedro único herdeiro,
- (Ainda que bastardo) verdadeiro.
- "Ser isto ordenação dos céus divina,
- Por sinais muito claros se mostrou,
- Quando em Évora a voz de uma menina,
- Ante tempo falando o nomeou;
- E como cousa enfim que o Céu destina,
- No berço o corpo e a voz alevantou:
- - "Portugal! Portugal!" alçando a mão
- Disse "pelo Rei novo, Dom João." -
- "Alteradas então do Reino as gentes
- Co'o ódio, que ocupado os peitos tinha,
- Absolutas cruezas e evidentes
- Faz do povo o furor por onde vinha;
- Matando vão amigos e parentes
- Do adúltero Conde e da Rainha,
- Com quem sua incontinência desonesta
- Mais (depois de viúva) manifesta.
- "Mas ele enfim, com causa desonrado,
- Diante dela a ferro frio morre,
- De outros muitos na morte acompanhado,
- Que tudo o fogo erguido queima e corre:
- Quem, como Astianás, precipitado,
- (Sem lhe valerem ordens) de alta torre,
- A quem ordens, nem aras, nem respeito;
- Quem nu por ruas, e em pedaços feito.
- "Podem-se pôr em longo esquecimento
- As cruezas mortais que Roma viu
- Feitas do feroz Mário e do cruento
- Sila, quando o contrário lhe fugiu.
- Por isso Lianor, que o sentimento
- Do morto Conde ao mundo descobriu,
- Faz contra Lusitânia vir Castela,
- Dizendo ser sua filha herdeira dela.
- "Beatriz era a filha, que casada
- Co'o Castelhano está, que o Reino pede,
- Por filha de Fernando reputada,
- Se a corrompida fama lhe concede.
- Com esta voz Castela alevantada,
- Dizendo que esta filha ao pai sucede,
- Suas forças ajunta para as guerras
- De várias regiões e várias terras.
- Vem de toda a província que de um Brigo
- (Se foi) já teve o nome derivado;
- Das terras que Fernando e que Rodrigo
- Ganharam do tirano e Mauro estado.
- Não estimam das armas o perigo
- Os que cortando vão co'o duro arado
- Os campos Lioneses, cuja gente
- C'os Mouros foi nas armas excelente.
- "Os Vândalos, na antiga valentia
- Ainda confiados, se ajuntavam
- Da cabeça de toda Andaluzia,
- Que do Guadalquibir as águas lavam.
- A nobre Ilha também se apercebia,
- Que antigamente os Tírios habitavam,
- Trazendo por insígnias verdadeiras
- As Hercúleas colunas nas bandeiras.
- "Também vem lá do Reino de Toledo,
- Cidade nobre e antiga, a quem cercando
- O Tejo em torno vai suave e ledo
- Que das serras de Conca vem manando.
- A vós outros também não tolhe o medo,
- Ó sórdidos Galegos, duro bando,
- Que para resistirdes vos armastes,
- Aqueles, cujos golpes já provasses.
- "Também movem da guerra as negras fúrias
- A gente Biscainha, que carece
- De polidas razões, e que as injúrias
- Muito mal dos estranhos compadece.
- A terra de Guipúscua e das Astúrias,
- Que com minas de ferro se enobrece,
- Armou dele os soberbos moradores,
- Para ajudar na guerra a seus senhores.
- "Joane, a quem do peito o esforço cresce,
- Como a Sansão Hebréio da guedelha,
- Posto que tudo pouco lhe parece,
- Co'os poucos de seu Reino se aparelha;
- E não porque conselho lhe falece,
- Co'os principais senhores se aconselha,
- Mas só por ver das gentes as sentenças:
- Que sempre houve entre muitos diferenças.
- "Não falta com razões quem desconcerte
- Da opinião de todos, na vontade,
- Em quem o esforço antigo se converte
- Em desusada e má deslealdade;
- Podendo o temor mais, gelado, inerte,
- Que a própria e natural fidelidade:
- Negam o Rei e a pátria, e, se convém,
- Negarão (como Pedro) o Deus que têm.
- "Mas nunca foi que este erro se sentisse
- No forte Dom Nuno Alvares; mas antes,
- Posto que em seus irmãos tão claro o visse,
- Reprovando as vontades inconstantes,
- Aquelas duvidosas gentes disse,
- Com palavras mais duras que elegantes,
- A mão na espada, irado, e não facundo,
- Ameaçando a terra, o mar e o mundo:
- - "Como!Da gente ilustre Portuguesa
- Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?,
- Como!Desta província, que princesa
- Foi das gentes na guerra em toda a parte,
- Há-de sair quem negue ter defesa?
- Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte
- De Português, e por nenhum respeito
- O próprio Reino queira ver sujeito?
- - "Como!Não seis vós inda os descendentes
- Daqueles, que debaixo da bandeira
- Do grande Henriques, feros e valentes,
- Vencestes esta gente tão guerreira?
- Quando tantas bandeiras, tantas gentes
- Puseram em fugida, de maneira
- Que sete ilustres Condes lhe trouxeram
- Presos, afora a presa que tiveram?
- - "Com quem foram contino sopeados
- Estes, de quem o estais agora vós,
- Por Dinis e seu filho, sublimados,
- Senão co'os vossos fortes pais, e avôs?
- Pois se com seus descuidos, ou pecados,
- Fernando em tal fraqueza assim vos pôs,
- Torne-vos vossas forças o Rei novo:
- Se é certo que co'o Rei se muda o povo.
- - "Rei tendes tal, que se o valor tiverdes
- Igual ao Rei que agora alevantastes,
- Desbaratareis tudo o que quiserdes,
- Quanto mais a quem já desbaratasses.
- E se com isto enfim vos não moverdes
- Do penetrante medo que tomastes,
- Atai as mãos a vosso vão receio,
- Que eu só resistirei ao jugo alheio.
- - "Eu só com meus vassalos, e com esta
- (E dizendo isto arranca meia espada)
- Defenderei da força dura e infesta
- A terra nunca de outrem sojugada.
- Em virtude do Rei, da pátria mesta,
- Da lealdade já por vós negada,
- Vencerei (não só estes adversários)
- Mas quantos a meu Rei forem contrários."-
- Bem como entre os mancebos recolhidos
- Em Canúsio, relíquias sós de Canas,
- Já para se entregar quase movidos
- A fortuna das forças Africanas,
- Cornélio moço os faz que, compelidos
- Da sua espada, jurem que as Romanas
- Armas não deixarão, enquanto a vida
- Os não deixar, ou nelas for perdida:
- "Destarte a gente força e esforça Nuno,
- Que, com lhe ouvir as últimas razões,
- Removem o temor frio, importuno,
- Que gelados lhe tinha os corações.
- Nos animais cavalgam de Neptuno,
- Brandindo e volteando arremessões;
- Vão correndo e gritando a boca aberta:
- - "Viva o famoso Rei que nos liberta!"-
- "Das gentes populares, uns aprovam
- A guerra com que a pátria se sustinha;
- Uns as armas alimpam e renovam,
- Que a ferrugem da paz gastadas tinha;
- Capacetes estofam, peitos provam,
- Arma-se cada um como convinha;
- Outros fazem vestidos de mil cores,
- Com letras e tenções de seus amores.
- "Com toda esta lustrosa companhia
- Joane forte sai da fresca Abrantes,
- Abrantes, que também da fonte fria
- Do Tejo logra as águas abundantes.
- Os primeiros armígeros regia
- Quem para reger era os mui possantes
- Orientais exércitos, sem conto,
- Com que passava Xerxes o Helesponto.
- "Dom Nuno Alvares digo, verdadeiro
- Açoute de soberbos Castelhanos
- Como já o fero Huno o foi primeiro
- Para Franceses, para Italianos.
- Outro também famoso cavaleiro,
- Que a ala direita tem dos Lusitanos,
- Apto para mandá-los, e regê-los,
- Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.
- "E da outra ala, que a esta corresponde,
- Antão Vasques de Almada é capitão,
- Que depois foi de Abranches nobre Conde,
- Das gentes vai regendo a sestra mão.
- Logo na retaguarda não se esconde
- Das quinas e castelos o pendão,
- Com Joane, Rei forte em toda parte,
- Que escurecendo o preço vai de Alarte.
- "Estavam pelos muros, temerosas,
- E de um alegre medo quase frias,
- Rezando as mães, irmãs, damas e esposas,
- Prometendo jejuns e romarias.
- Já chegam as esquadras belicosas
- Defronte das amigas companhias,
- Que com grita grandíssima os recebem,
- E todas grande dúvida concebem.
- "Respondem as trombetas mensageiras,
- Pífaros sibilantes e atambores;
- Alférezes volteam as bandeiras,
- Que variadas são de muitas cores.
- Era no seco tempo, que nas eiras
- Ceres o fruto deixa aos lavradores,
- Entra em Astreia o Sol, no mês de Agosto,
- Baco das uvas tira o doce mosto.
- "Deu sinal a trombeta Castelhana,
- Horrendo, fero, ingente e temeroso;
- Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana
- Atrás tornou as ondas de medroso;
- Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana;
- Correu ao mar o Tejo duvidoso;
- E as mães, que o som terríbil escutaram,
- Aos peitos os filhinhos apertaram.
- "Quantos rostos ali se vêem sem cor,
- Que ao coração acode o sangue amigo!
- Que, nos perigos grandes, o temor
- É maior muitas vezes que o perigo;
- E se o não é, parece-o; que o furor
- De ofender ou vencer o duro amigo
- Faz não sentir que é perda grande e rara,
- Dos membros corporais, da vida cara.
- "Começa-se a travar a incerta guerra;
- De ambas partes se move a primeira ala;
- Uns leva a defensão da própria terra,
- Outros as esperanças de ganhá-la;
- Logo o grande Pereira, em quem se encerra
- Todo o valor, primeiro se assinala:
- Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia
- Dos que a tanto desejam, sendo alheia.
- "Já pelo espesso ar os estridentes
- Farpões, setas e vários tiros voam;
- Debaixo dos pés duros dos ardentes
- Cavalos treme a terra, os vales soam;
- Espedaçam-se as lanças; e as frequentes
- Quedas coas duras armas, tudo atroam;
- Recrescem os amigos sobre a pouca
- Gente do fero Nuno, que os apouca.
- "Eis ali seus irmãos contra ele vão,
- (Caso feio e cruel!) mas não se espanta,
- Que menos é querer matar o irmão,
- Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta:
- Destes arrenegados muitos são
- No primeiro esquadrão, que se adianta
- Contra irmãos e parentes (caso estranho!)
- Quais nas guerras civis de Júlio e Magno.
- "Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano,
- Catilina, e vós outros dos antigos,
- Que contra vossas pátrias, com profano
- Coração, vos fizestes inimigos,
- Se lá no reino escuro de Sumano
- Receberdes gravíssimos castigos,
- Dizei-lhe que também dos Portugueses
- Alguns tredores houve algumas vezes.
- "Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,
- Tantos dos inimigos a eles vão!
- Está ali Nuno, qual pelos outeiros
- De Ceita está o fortíssimo leão,
- Que cercado se vê dos cavaleiros
- Que os campos vão correr de Tetuão:
- Perseguem-no com as lanças, e ele iroso,
- Torvado um pouco está, mas não medroso.
- "Com torva vista os vê, mas a natura
- Ferina e a ira não lhe compadecem
- Que as costas dê, mas antes na espessura
- Das lanças se arremessa, que recrescem.
- Tal está o cavaleiro, que a verdura
- Tinge co'o sangue alheio; ali perecem
- Alguns dos seus, que o ânimo valente
- Perde a virtude contra tanta gente.
- "Sentiu Joane a afronta que passava
- Nuno, que, como sábio capitão,
- Tudo corria e via, e a todos dava,
- Com presença e palavras, coração.
- Qual parida leoa, fera e brava,
- Que os filhos que no ninho sós estão,
- Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,
- O pastor de Massília lhos furtara;
- "Corre raivosa, e freme, e com bramidos
- Os montes Sete Irmãos atroa e abala:
- Tal Joane, com outros escolhidos
- Dos seus, correndo acode à primeira ala:
- -"Ó fortes companheiros, ó subidos
- Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,
- Defendei vossas terras, que a esperança
- Da liberdade está na vossa lança.
- -"Vedes-me aqui, Rei vosso, e companheiro,
- Que entre as lanças, e setas, e os arneses
- Dos inimigos corro e vou primeiro:
- Pelejai, verdadeiros Portugueses!"-
- Isto disse o magnânimo guerreiro,
- E, sopesando a lança quatro vezes,
- Com força tira; e, deste único tiro,
- Muitos lançaram o último suspiro.
- "Porque eis os seus acesos novamente
- Duma nobre vergonha e honroso fogo,
- Sobre qual mais com ânimo valente
- Perigos vencerá do Márcio jogo,
- Porfiam: tinge o ferro o sangue ardente;
- Rompem malhas primeiro, e peitos logo:
- Assim recebem junto e dão feridas,
- Como a quem já não dói perder as vidas.
- "A muitos mandam ver o Estígio lago,
- Em cujo corpo a morte e o ferro entrava:
- O Mestre morre ali de Santiago,
- Que fortíssimamente pelejava;
- Morre também, fazendo grande estrago,
- Outro Mestre cruel de Calatrava;
- Os Pereiras também arrenegados
- Morrem, arrenegando o Céu e os fados.
- "Muitos também do vulgo vil sem nome
- Vão, e também dos nobres, ao profundo,
- Onde o trifauce Cão perpétua fome
- Tem das almas que passam deste mundo.
- E porque mais aqui se amanse e dome
- A soberba do amigo furibundo,
- A sublime bandeira Castelhana
- Foi derribada aos pés da Lusitana.
- "Aqui a fera batalha se encruece
- Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;
- A multidão da gente que perece
- Tem as flores da própria cor mudadas;
- Já as costas dão e as vidas; já falece
- O furor e sobejam as lançadas;
- Já de Castela o Rei desbaratado
- Se vê, e de seu propósito mudado.
- "O campo vai deixando ao vencedor,
- Contente de lhe não deixar a vida.
- Seguem-no os que ficaram, e o temor
- Lhe dá, não pés, mas asas à fugida.
- Encobrem no profundo peito a dor
- Da morte, da fazenda despendida,
- Da mágoa, da desonra, e triste nojo
- De ver outrem triunfar de seu despojo.
- "Alguns vão maldizendo e blasfemando
- Do primeiro que guerra fez no mundo;
- Outros a sede dura vão culpando
- Do peito cobiçoso e sitibundo,
- Que, por tomar o alheio, o miserando
- Povo aventura às penas do profundo,
- Deixando tantas mães, tantas esposas
- Sem filhos, sem maridos, desditosas.
- "O vencedor Joane esteve os dias
- Costumados no campo, em grande glória;
- Com ofertas depois, e romarias,
- As graças deu a quem lhe deu vitória.
- Mas Nuno, que não quer por outras vias
- Entre as gentes deixar de si memória
- Senão por armas sempre soberanas,
- Para as terras se passa Transtaganas.
- "Ajuda-o seu destino de maneira
- Que fez igual o efeito ao pensamento,
- Porque a terra dos Vândalos fronteira
- Lhe concede o despojo e o vencimento.
- Já de Sevilha a Bética bandeira
- E de vários senhores num momento
- Se lhe derriba aos pés, sem ter defesa
- Obrigados da força Portuguesa.
- "Destas e outras vitórias longamente
- Eram os Castelhanos oprimidos,
- Quando a paz, desejada já da gente,
- Deram os vencedores aos vencidos,
- Depois que quis o Padre onipotente
- Dar os Reis inimigos por maridos
- As duas ilustríssimas Inglesas,
- Gentis, formosas, ínclitas princesas.
- "Não sofre o peito forte, usado à guerra,
- Não ter amigo já a quem faça dano;
- E assim não tendo a quem vencer na terra,
- Vai cometer as ondas do Oceano.
- Este é o primeiro Rei que se desterra
- Da Pátria, por fazer que o Africano
- Conheça, pelas armas, quanto excede
- A lei de Cristo à lei de Mafamede.
- "Eis mil nadantes aves pelo argento
- Da furiosa Tethys inquieta
- Abrindo as pandas asas vão ao vento,
- Para onde Alcides pôs a extrema meta.
- O monte Abila e o nobre fundamento
- De Ceita toma, e o torpe Mahometa
- Deita fora, e segura toda Espanha
- Da Juliana, má, e desleal manha.
- "Não consentiu a morte tantos anos
- Que de Herói tão ditoso se lograsse
- Portugal, mas os coros soberanos
- Do Céu supremo quis que povoasse.
- Mas para defensão dos Lusitanos
- Deixou, quem o levou quem governasse,
- E aumentasse a terra mais que dantes,
- Inclita geração, altos Infantes.
- "Não foi do Rei Duarte tão ditoso
- O tempo que ficou na suma alteza,
- Que assim vai alternando o tempo iroso
- O bem co'o mal, o gosto coa tristeza.
- Quem viu sempre um estado deleitoso?
- Ou quem viu em fortuna haver firmeza?
- Pois inda neste Reino e neste Rei
- Não ousou ela tanto desta lei.
- "Viu ser cativo o santo irmão Fernando,
- Que a tão altas empresas aspirava,
- Que, por salvar o povo miserando
- Cercado, ao Sarraceno se entregava.
- Só por amor da pátria está passando
- A vida de senhora feita escrava,
- Por não se dar por ele a forte Ceita:
- Mais o público bem que o seu respeita.
- "Codro, porque o inimigo não vencesse,
- Deixou antes vencer da morte a vida;
- Régulo, porque a pátria não perdesse,
- Quis mais a liberdade ver perdida.
- Este, porque se Espanha não temesse,
- Ao cativeiro eterno se convida:
- Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,
- Nem os Décios leais fizeram tanto.
- "Mas Afonso, do Reino único herdeiro,
- Nome em armas ditoso em nossa Hespéria,
- Que a soberba do bárbaro fronteira
- Tornou em baixa e humílima miséria,
- Fora por certo invicto cavaleiro,
- Se não quisera ir ver a terra Ibéria.
- Mas África dirá ser impossíbil
- Poder ninguém vencer o Rei terríbil.
- "Este pôde colher as maçãs de ouro,
- Que somente o Tiríntio colher pôde:
- Do jugo que lhe pôs, o bravo Mouro
- A cerviz inda agora não sacode.
- Na fronte a palma leva e o verde louro
- Das vitórias do Bárbaro, que acode
- A defender Alcácer, forte vila,
- Tângere populoso e a dura Arzila.
- "Porém elas enfim por força entradas,
- Os muros abaixaram de diamante
- As Portuguesas forças, costumadas
- A derribarem quanto acham diante.
- Maravilhas em armas estremadas,
- E de escritura dinas elegante,
- Fizeram cavaleiros nesta empresa,
- Mais afinando a fama Portuguesa.
- "Porém depois, tocado de ambição
- E glória de mandar, amara e bela,
- Vai cometer Fernando de Aragão,
- Sobre o potente Reino de Castela.
- Ajunta-se a inimiga multidão
- Das soberbas e várias gentes dela,
- Desde Cádis ao alto Pireneu,
- Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.
- "Não quis ficar nos Reinos ocioso
- O mancebo Joane, e logo ordena
- De ir ajudar o pai ambicioso,
- Que então lhe foi ajuda não pequena.
- Saiu-se enfim do trance perigoso
- Com fronte não torvada, mas serena,
- Desbaratado o pai sanguinolento
- Mas ficou duvidoso o vencimento.
- "Porque o filho sublime e soberano,
- Gentil, forte, animoso cavaleiro,
- Nos contrários fazendo imenso dano,
- Todo um dia ficou no campo inteiro.
- Desta arte foi vencido Octaviano,
- E António vencedor, sem companheiro,
- Quando daqueles que César mataram
- Nos Filípicos campos se vingaram.
- "Porém depois que a escura noite eterna
- Afonso aposentou no Céu sereno,
- O Príncipe, que o Reino então governa,
- Foi Joane segundo e Rei trezeno.
- Este, por haver fama sempiterna,
- Mais do que tentar pode homem terreno
- Tentou, que foi buscar da roxa Aurora
- Os términos, que eu vou buscando agora.
- "Manda seus mensageiros, que passaram
- Espanha, França, Itália celebrada,
- E lá no ilustre porto se embarcaram
- Onde já foi Parténope enterra a:
- Nápoles, onde os Xados se mostraram,
- Fazendo-a a várias gentes subjugada,
- Pola ilustrar no fim de tantos anos
- Co'o senhorio de ínclitos Hispanos.
- "Pelo mar alto Sículo navegam;
- Vão-se às praias de Rodes arenosas;
- E dali às ribeiras altas chegam,
- Que com morte de Magno são famosas;
- Vão a Mênfis e às terras, que se regam
- Das enchentes Nilóticas undosas;
- Sobem à Etiópia, sobre Egito,
- Que de Cristo lá guarda o santo rito.
- "Passam também as ondas Eritreias,
- Que o povo de Israel sem nau passou;
- Ficam-lhe atrás as serras Nabateias,
- Que o filho de Ismael co'o nome ornou.
- As costas odoríferas Sabeias,
- Que a mãe do belo Adónis tanto honrou,
- Cercam, com toda a Arábia descoberta
- Feliz, deixando a Pétrea e a Deserta.
- "Entram no estreito Pérsico, onde dura
- Da confusa Babel inda a memória;
- Ali co'o Tigre o Eufrates se mistura,
- Que as fontes onde nascem tem por glória.
- Dali vão em demanda da água pura,
- Que causa inda será de larga história,
- Do Indo, pelas ondas do Oceano,
- Onde não se atreveu passar Trajano.
- "Viram gentes incógnitas e estranhas
- Da Índia, da Carmânia e Gedrosia,
- Vendo vários costumes, várias manhas,
- Que cada região produze e cria.
- Mas de vias tão ásperas, tamanhas,
- Tornar-se facilmente não podia:
- Lá morreram enfim, e lá ficaram,
- Que à desejada pátria não tornaram.
- "Parece que guardava o claro Céu
- A Manuel, e seus merecimentos,
- Esta empresa tão árdua, que o moveu
- A subidos e ilustres movimentos:
- Manuel, que a Joane sucedeu
- No Reino e nos altivos pensamentos,
- Logo, corno tornou do Reino o cargo,
- Tomou mais a conquista do mar largo.
- "O qual, como do nobre pensamento
- Daquela obrigação, que lhe ficara
- De seus antepassados, (cujo intento
- Foi sempre acrescentar a terra cara)
- Não deixasse de ser um só momento
- Conquistado: no tempo que a luz clara
- Foge, e as estrelas nítidas, que saem,
- A repouso convidam quando caem,
- "Estando já deitado no áureo leito,
- Onde imaginações mais certas são?
- Revolvendo contino no conceito
- Seu ofício e sangue a obrigação,
- Os olhos lhe ocupou o sono aceito,
- Sem lhe desocupar o coração;
- Porque, tanto que lasso se adormece,
- Morfeu em várias formas lhe aparece.
- "Aqui se lhe apresenta que subia
- Tão alto, que tocava a prima Esfera,
- Donde diante vários mundos via,
- Nações de muita gente estranha e fera;
- E lá bem junto donde nasce o dia,
- Depois que os olhos longos estendera,
- Viu de antigos, longínquos e altos montes
- Nascerem duas claras e altas fontes.
- "Aves agrestes, feras e alimárias,
- Pelo monte selvático habitavam;
- Mil árvores silvestres e ervas várias
- O passo e o tracto às gentes atalhavam.
- Estas duras montanhas, adversárias
- De mais conversação, por si mostravam
- Que, desque Adão pecou aos nossos anos,
- Não as romperam nunca pés humanos.
- "Das águas se lhe antolha que saíam,
- Para ele os largos passos inclinando,
- Dois homens, que mui velhos pareciam,
- De aspecto, inda que agreste, venerando:
- Das pontas dos cabelos lhe caíam
- Gotas, que o corpo vão banhando;
- A cor da pele baça e denegrida,
- A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.
- "Dambos de dois a fronte coroada
- Ramos não conhecidos e ervas tinha;
- Um deles a presença traz cansada,
- Como quem de mais longe ali caminha.
- E assim a água, com ímpeto alterada,
- Parecia que doutra parte vinha,
- Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa
- Vai buscar os abraços de Aretusa.
- "Este, que era o mais grave na pessoa,
- Destarte para o Rei de longe brada:
- - "Ó tu, a cujos reinos e coroa
- Grande parte do mundo está guardada,
- Nós outros, cuja fama tanto voa,
- Cuja cerviz bem nunca foi domada,
- Te avisamos que é tempo que já mandes
- A receber de nós tributos grandes.
- - "Eu sou o ilustre Ganges, que na terra
- Celeste tenho o berço verdadeiro;
- Estoutro é o Indo Rei que, nesta serra
- Que vês, seu nascimento tem primeiro.
- Custar-te-emos contudo dura guerra;
- Mas insistindo tu, por derradeiro,
- Com não vistas vitórias, sem receio,
- A quantas gentes vês, porás o freio."-
- "Não disse mais o rio ilustre e santo,
- Mas ambos desaparecem num momento.
- Acorda Emanuel c'um novo espanto
- E grande alteração de pensamento.
- Estendeu nisto Febo o claro manto
- Pelo escuro Hemisfério sonolento;
- Veio a manhã no céu pintando as cores
- De pudibunda rosa e roxas flores.
- "Chama o Rei os senhores a conselho,
- E propõe-lhe as figuras da visão;
- As palavras lhe diz do santo velho,
- Que a todos foram grande admiração.
- Determinam o náutico aparelho,
- Para que com sublime coração
- Vá a gente que mandar cortando os mares
- A buscar novos climas, novos ares.
- "Eu, que bem mal cuidava que em efeito
- Se pusesse o que o peito me pedia,
- Que sempre grandes cousas deste jeito
- Pressago o coração me prometia,
- Não sei por que razão, por que respeito,
- Ou por que bom sinal que em mi se via,
- Me põe o ínclito Rei nas mãos a chave
- Deste cometimento grande e grave.
- "E com rogo o palavras amorosas,
- Que é um mando nos Reis, que a mais obriga,
- Me disse: - "As cousas árduas e lustrosas
- Se alcançam com trabalho e com fadiga;
- Faz as pessoas altas e famosas
- A vida que se perde e que periga;
- Que, quando ao medo infame não se rende,
- Então, se menos dura, mais se estende.
- - "Eu vos tenho entre todos escolhido
- Para uma empresa, qual a vós se deve,
- Trabalho ilustre, duro e esclarecido,
- O que eu sei que por mi vos será leve."-
- Não sofri mais, mas logo: - "Ó Rei subido,
- Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,
- É tão pouco por vós, que mais me pena
- Ser esta vida cousa tão pequena.
- - "Imaginai tamanhas aventuras,
- Quais Euristeu a Alcides inventava,
- O leão Cleoneu, Harpias duras,
- O porco de Erimanto, a Hidra brava,
- Descer enfim às sombras vãs e escuras
- Onde os campos de Dite a Estige lava;
- Porque a maior perigo, a mor afronta,
- Por vós, ó Rei, o espírito e a carne é pronta."
- "Com mercês sumptuosas me agradece
- E com razões me louva esta vontade;
- Que a virtude louvada vive e cresce,
- E o louvor altos casos persuade.
- A acompanhar-me logo se oferece,
- Obrigado d'amor e d'amizade,
- Não menos cobiçoso de honra e fama,
- O caro meu irmão Paulo da Gama.
- "Mais se me ajunta Nicolau Coelho,
- De trabalhos mui grande sofredor;
- Ambos são de valia e de conselho,
- De experiência em armas e furor.
- Já de manceba gente me aparelho,
- Em que cresce o desejo do valor;
- Todos de grande esforço; e assim parece
- Quem a tamanhas cousas se oferece.
- "Foram de Emanuel remunerados,
- Porque com mais amor se apercebessem,
- E com palavras altas animados
- Para quantos trabalhos sucedessem.
- Assim foram os Mínias ajuntados,
- Para que o Véu dourado combatessem,
- Na fatídica Nau, que ousou primeira
- Tentar o mar Euxínio, aventureira.
- "E já no porto da ínclita Ulisseia
- C'um alvoroço nobre, e é um desejo,
- (Onde o licor mistura e branca areia
- Co'o salgado Neptuno o doce Tejo)
- As naus prestes estão; e não refreia
- Temor nenhum o juvenil despejo,
- Porque a gente marítima e a de Marte
- Estão para seguir-me a toda parte.
- "Pelas praias vestidos os soldados
- De várias cores vêm e várias artes,
- E não menos de esforço aparelhados
- Para buscar do inundo novas partes.
- Nas fortes naus os ventos sossegados
- Ondeam os aéreos estandartes;
- Elas prometem, vendo os mares largos,
- De ser no Olimpo estrelas como a de Argos.
- "Depois de aparelhados desta sorte
- De quanto tal viagem pede e manda,
- Aparelhamos a alma para a morte,
- Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
- Para o sumo Poder que a etérea corte
- Sustenta só coa vista veneranda,
- Imploramos favor que nos guiasse,
- E que nossos começos aspirasse.
- "Partimo-nos assim do santo templo
- Que nas praias do mar está assentado,
- Que o nome tem da terra, para exemplo,
- Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
- Certifico-te, ó Rei, que se contemplo
- Como fui destas praias apartado,
- Cheio dentro de dúvida e receio,
- Que apenas nos meus olhos ponho o freio.
- "A gente da cidade aquele dia,
- (Uns por amigos, outros por parentes,
- Outros por ver somente) concorria,
- Saudosos na vista e descontentes.
- E nós coa virtuosa companhia
- De mil Religiosos diligentes,
- Em procissão solene a Deus orando,
- Para os batéis viemos caminhando.
- "Em tão longo caminho e duvidoso
- Por perdidos as gentes nos julgavam;
- As mulheres c'um choro piedoso,
- Os homens com suspiros que arrancavam;
- Mães, esposas, irmãs, que o temeroso
- Amor mais desconfia, acrescentavam
- A desesperarão, e frio medo
- De já nos não tornar a ver tão cedo.
- "Qual vai dizendo: -" Ó filho, a quem eu tinha
- Só para refrigério, e doce amparo
- Desta cansada já velhice minha,
- Que em choro acabará, penoso e amaro,
- Por que me deixas, mísera e mesquinha?
- Por que de mim te vás, ó filho caro,
- A fazer o funéreo enterramento,
- Onde sejas de peixes mantimento!" -
- "Qual em cabelo: -"Ó doce e amado esposo,
- Sem quem não quis Amor que viver possa,
- Por que is aventurar ao mar iroso
- Essa vida que é minha, e não é vossa?
- Como por um caminho duvidoso
- Vos esquece a afeição tão doce nossa?
- Nosso amor, nosso vão contentamento
- Quereis que com as velas leve o vento?" -
- "Nestas e outras palavras que diziam
- De amor e de piedosa humanidade,
- Os velhos e os meninos os seguiam,
- Em quem menos esforço põe a idade.
- Os montes de mais perto respondiam,
- Quase movidos de alta piedade;
- A branca areia as lágrimas banhavam,
- Que em multidão com elas se igualavam.
- "Nós outros sem a vista alevantarmos
- Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,
- Por nos não magoarmos, ou mudarmos
- Do propósito firme começado,
- Determinei de assim nos embarcarmos
- Sem o despedimento costumado,
- Que, posto que é de amor usança boa,
- A quem se aparta, ou fica, mais magoa.
- "Mas um velho d'aspeito venerando,
- Que ficava nas praias, entre a gente,
- Postos em nós os olhos, meneando
- Três vezes a cabeça, descontente,
- A voz pesada um pouco alevantando,
- Que nós no mar ouvimos claramente,
- C'um saber só de experiências feito,
- Tais palavras tirou do experto peito:
- - "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
- Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
- Ó fraudulento gosto, que se atiça
- C'uma aura popular, que honra se chama!
- Que castigo tamanho e que justiça
- Fazes no peito vão que muito te ama!
- Que mortes, que perigos, que tormentas,
- Que crueldades neles experimentas!
- - "Dura inquietação d'alma e da vida,
- Fonte de desamparos e adultérios,
- Sagaz consumidora conhecida
- De fazendas, de reinos e de impérios:
- Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
- Sendo dina de infames vitupérios;
- Chamam-te Fama e Glória soberana,
- Nomes com quem se o povo néscio engana!
- - "A que novos desastres determinas
- De levar estes reinos e esta gente?
- Que perigos, que mortes lhe destinas
- Debaixo dalgum nome preminente?
- Que promessas de reinos, e de minas
- D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
- Que famas lhe prometerás? que histórias?
- Que triunfos, que palmas, que vitórias?
- - "Mas ó tu, geração daquele insano,
- Cujo pecado e desobediência,
- Não somente do reino soberano
- Te pôs neste desterro e triste ausência,
- Mas inda doutro estado mais que humano
- Da quieta e da simples inocência,
- Idade d'ouro, tanto te privou,
- Que na de ferro e d'armas te deitou:
- - "Já que nesta gostosa vaidade
- Tanto enlevas a leve fantasia,
- Já que à bruta crueza e feridade
- Puseste nome esforço e valentia,
- Já que prezas em tanta quantidades
- O desprezo da vida, que devia
- De ser sempre estimada, pois que já
- Temeu tanto perdê-la quem a dá:
- - "Não tens junto contigo o Ismaelita,
- Com quem sempre terás guerras sobejas?
- Não segue ele do Arábio a lei maldita,
- Se tu pela de Cristo só pelejas?
- Não tem cidades mil, terra infinita,
- Se terras e riqueza mais desejas?
- Não é ele por armas esforçado,
- Se queres por vitórias ser louvado?
- - "Deixas criar às portas o inimigo,
- Por ires buscar outro de tão longe,
- Por quem se despovoe o Reino antigo,
- Se enfraqueça e se vá deitando a longe?
- Buscas o incerto e incógnito perigo
- Por que a fama te exalte e te lisonge,
- Chamando-te senhor, com larga cópia,
- Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?
- - "Ó maldito o primeiro que no mundo
- Nas ondas velas pôs em seco lenho,
- Dino da eterna pena do profundo,
- Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!
- Nunca juízo algum alto e profundo,
- Nem cítara sonora, ou vivo engenho,
- Te dê por isso fama nem memória,
- Mas contigo se acabe o nome e glória.
- - "Trouxe o filho de Jápeto do Céu
- O fogo que ajuntou ao peito humano,
- Fogo que o mundo em armas acendeu
- Em mortes, em desonras (grande engano).
- Quanto melhor nos fora, Prometeu,
- E quanto para o mundo menos dano,
- Que a tua estátua ilustre não tivera
- Fogo de altos desejos, que a movera!
- - "Não cometera o moço miserando
- O carro alto do pai, nem o ar vazio
- O grande Arquiteto co'o filho, dando
- Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
- Nenhum cometimento alto e nefando,
- Por fogo, ferro, água, calma e frio,
- Deixa intentado a humana geração.
- Mísera sorte, estranha condição!" -