Tiveram longamente na cidade
95 oitavas
- Tiveram longamente na cidade,
- Sem vender-se, a fazenda os dois feitores
- Que os infiéis, por manha e falsidade,
- Fazem que não lha comprem mercadores;
- Que todo seu propósito e vontade
- Era deter ali os descobridores
- Da Índia tanto tempo, que viessem
- De Meca as naus, que as suas desfizessem.
- Lá no seio Eritreu, onde fundada
- Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu,
- Do nome da irmã sua assim chamada,
- Que depois em Suez se converteu,
- Não longe o porto jaz da nomeada
- Cidade Meca, que se engrandeceu
- Com a superstição falsa e profana
- Da religiosa água Maumetana.
- Gidá se chama o porto, aonde o trato
- De todo o Roxo mar mais florescia,
- De que tinha proveito grande e grato
- O Soldão que esse Reino possuía.
- Daqui aos Malabares, por contrato
- Dos infiéis, formosa companhia
- De grandes naus, pelo Índico Oceano,
- Especiaria vem buscar cada ano.
- Por estas naus os Mouros esperavam,
- Que, como fossem grandes e possantes,
- Aquelas, que o comércio lhe tomavam,
- Com flamas abrasassem crepitantes.
- Neste socorro tanto confiavam,
- Que já não querem mais dos navegantes,
- Senão que tanto tempo ali tardassem,
- Que da famosa Meca as naus chegassem.
- Mas o Governador dos céus e gentes,
- Que, para quanto tem determinado,
- De longe os meios dá convenientes,
- Por onde vem a ef eito o fim fadado,
- Influiu piedosos acidentes
- De afeição em Monçaide, que guardado
- Estava para dar ao Gama aviso,
- E merecer por isso o Paraíso.
- Este, de quem se os Mouros não guardavam,
- Por ser Mouro como eles, antes era
- Participante em quanto maquinavam,
- A tenção lhe descobre torpe e fera.
- Muitas vezes as naus que longe estavam
- Visita, o com piedade considera
- O dano, sem razão, que se lhe ordena
- Pela maligna gente Sarracena.
- Informa o cauto Gama das armadas
- Que de Arábica Meca vêm cada ano,
- Que agora são dos seus tão desejadas,
- Para ser instrumento deste dano.
- Diz-lhe que vêm de gente carregadas,
- E dos trovões horrendos de Vulcano,
- E que pode ser delas oprimido,
- Segundo estava mal apercebido.
- O Gama, que também considerava
- O tempo, que para a partida o chama,
- E que despacho já não esperava
- Melhor do Rei, que os Maumetanos ama,
- Aos feitores, que em terra estão, mandava
- Que se tornem às naus; e por que a fama
- Desta súbita vinda os não impeça,
- Lhe manda que a fizessem escondida.
- Porém não tardou muito que, voando,
- Um rumor não soasse com verdade:
- Que foram presos os feitores, quando
- Foram sentidos vir-se da cidade.
- Esta fama as orelhas penetrando
- Do sábio Capitão, com brevidade
- Faz represaria nuns, que às naus vieram
- A vender a pedraria que trouxeram.
- Eram estes antigos mercadores
- Ricos em Calecu, e conhecidos;
- Da falta deles, logo entre os melhores
- Sentido foi que estão no mar retidos.
- Mas já nas naus os bons trabalhadores
- Volvem o cabrestante, e repartidos
- Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,
- Outros quebram com o peito duro a barra;
- Outros pendem da verga, e já desatam
- A vela, que com grita se soltava,
- Quando com maior grita ao Rei relatam
- A pressa com que a armada se levava.
- As mulheres e filhos que se matam
- Daqueles que vão presos, onde estava
- O Samorim, se queixam que perdidos
- Uns têm os pais, as outras os maridos.
- Manda logo os feitores Lusitanos
- Com toda sua fazenda livremente
- Apesar dos inimigos Maumetanos,
- Por que lhe torne a sua presa gente.
- Desculpas manda o Rei de seus enganos;
- Recebe o Capitão de melhor mente
- Os presos que as desculpas, e tornando
- Alguns negros, se parte as velas dando.
- Parte-se costa abaixo, porque entende
- Que em vão com o Rei gentio trabalhava
- Em querer dele paz, a qual pretende
- Por firmar o comércio que tratava.
- Mas como aquela terra, que se estende
- Pela Aurora, sabida já deixava,
- Com estas novas torna à pátria cara,
- Certos sinais levando do que achara.
- Leva alguns Malabares, que tomou
- Por força, dos que o Samorim mandara
- Quando os presos feitores lhe tornou;
- Leva pimenta ardente, que comprara;
- A seca flor de Banda não ficou,
- A noz, e o negro cravo, que faz clara
- A nova ilha Maluco, com a canela,
- Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.
- Isto tudo lhe houvera a diligência
- De Monçaide fiel, que também leva,
- Que, inspirado de angélica influência,
- Quer no livro de Cristo que se escreva.
- Ó ditoso Africano, que a clemência
- Divina assim tirou de escura treva,
- E tão longe da pátria achou maneira
- Para subir à pátria verdadeira!
- Apartadas assim da ardente costa
- As venturosas naus, levando a proa
- Para onde a Natureza tinha posta
- A meta Austrina da esperança boa,
- Levando alegres novas e resposta
- Da parte Oriental para Lisboa,
- Outra vez cometendo os duros medos
- Do mar incerto, tímidos e ledos;
- O prazer de chegar à pátria cara,
- A seus penates caros e parentes,
- Para contar a peregrina e rara
- Navegação, os vários céus e gentes;
- Vir a lograr o prémio, que ganhara
- Por tão longos trabalhos e acidentes,
- Cada um tem por gosto tão perfeito,
- Que o coração para ele é vaso estreito.
- Porém a deusa Cípria, que ordenada
- Era para favor dos Lusitanos
- Do Padre eterno, e por bom génio dada,
- Que sempre os guia já de longos anos;
- A glória por trabalhos alcançada,
- Satisfação de bem sofridos danos,
- Lhe andava já ordenando, e pretendia
- Dar-lhe nos mares tristes alegria.
- Depois de ter um pouco revolvido
- Na mente o largo mar que navegaram,
- Os trabalhos, que pelo Deus nascido
- Nas Anfióneas Tebas se causaram;
- Já trazia de longe no sentido,
- Para prémio de quanto mal passaram,
- Buscar-lhe algum deleite, algum descanso
- No Reino de cristal líquido e manso;
- Algum repouso, enfim, com que pudesse
- Refocilar a lassa humanidade
- Dos navegantes seus, como interesse
- Do trabalho que encurta a breve idade.
- Parece-lhe razão que conta desse
- A seu filho, por cuja potestade
- Os Deuses faz descer ao vil terreno
- E os humanos subir ao céu sereno.
- Isto bem revolvido, determina
- De ter-lhe aparelhada, lá no meio
- Das águas, alguma ínsula divina,
- Ornada de esmaltado e verde arreio;
- Que muitas tem no reino, que confina
- Da mãe primeira com o terreno seio,
- Afora as que possui soberanas
- Para dentro das portas Herculanas.
- Ali quer que as aquáticas donzelas
- Esperem os fortíssimos barões,
- Todas as que têm título de belas,
- Glória dos olhos, dor dos corações,
- Com danças e coreias, porque nelas
- Influirá secretas afeições,
- Para com mais vontade trabalharem
- De contentar, a quem se afeiçoaram.
- Tal manha buscou já, para que aquele
- Que de Anquises pariu, bem recebido
- Fosse no campo que a bovina pele
- Tomou de espaço, por subtil partido.
- Seu filho vai buscar, porque só nele
- Tem todo seu poder, fero Cupido,
- Que assim como naquela empresa antiga
- Ajudou já, nestoutra a ajude e siga.
- No carro ajunta as aves que na vida
- Vão da morte as exéquias celebrando,
- E aquelas em que já foi convertida
- Perístera, as boninas apanhando.
- Em derredor da Deusa já partida,
- No ar lascivos beijos se vão dando.
- Ela, por onde passa, o ar e o vento
- Sereno faz, com brando movimento.
- Já sobre os Idálios montes pende,
- Onde o filho frecheiro estava então
- Ajuntando outros muitos, que pretende
- Fazer uma famosa expedição
- Contra o mundo rebelde, por que emende
- Erros grandes, que há dias nele estão,
- Amando coisas que nos foram dadas,
- Não para ser amadas, mas usadas.
- Via Acteon na caça tão austero,
- De cego na alegria bruta, insana,
- Que por seguir um feio animal fero,
- Foge da gente e bela forma humana;
- E por castigo quer, doce e severo,
- Mostrar-lhe a formosura de Diana;
- E guarde-se não seja ainda comido
- Desses cães que agora ama, e consumido.
- E vê do mundo todo os principais,
- Que nenhum no bem público imagina;
- Vê neles que não têm amor a mais
- Que a si somente, e a quem Filáucia ensina.
- Vê que esses que frequentam os reais
- Paços, por verdadeira e sã doutrina
- Vendem adulação, que mal consente
- Mondar-se o novo trigo florescente.
- Vê que aqueles que devem à pobreza
- Amor divino e ao povo caridade,
- Amam somente mandos e riqueza,
- Simulando justiça e integridade.
- Da feia tirania e de aspereza
- Fazem direito e vã severidade:
- Leis em favor do Rei se estabelecem,
- As em favor do povo só perecem.
- Vê, enfim, que ninguém ama o que deve,
- Senão o que somente mal deseja;
- Não quer que tanto tempo se releve
- O castigo, que duro e justo seja.
- Seus ministros ajunta, por que leve
- Exércitos conformes à peleja,
- Que espera ter com a mal regida gente,
- Que lhe não for agora obediente.
- Muitos destes meninos voadores
- Estão em várias obras trabalhando:
- Uns amolando ferros passadores,
- Outros ásteas de setas delgaçando;
- Trabalhando, cantando estão de amores,
- Vários casos em verso modulando,
- Melodia sonora e concertada,
- Suave a letra, angélica a soada.
- Nas frágoas imortais, onde forjavam
- Para as setas as pontas penetrantes,
- Por lenha corações ardendo estavam,
- Vivas entranhas ainda palpitantes.
- As águas onde os ferros temperavam,
- Lágrimas são de míseros amantes;
- A viva f lama, o nunca morto lume,
- Desejo é só que queima, e não consume.
- Alguns exercitando a mão andavam
- Nos duros corações da plebe rude;
- Crebros suspiros pelo ir soavam
- Dos que feridos vão da seta aguda.
- Formosas Ninfas são as que curavam
- As chagas recebidas cuja ajuda
- Não somente dá vida aos mal feridos,
- Mas põe em vida os ainda não nascidos.
- Formosas são algumas e outras feias,
- Segundo a qualidade for das chagas;
- Que o veneno espalhado pelas veias
- Curam-no às vezes ásperas triagas.
- Alguns ficam ligados em cadeias,
- Por palavras subtis de sábias magas:
- Isto acontece às vezes, quando as setas
- Acertam de levar ervas secretas.
- Destes tiros assim desordenados,
- Que estes moços mal destros vão tirando,
- Nascem amores mil desconcertados
- Entre o povo ferido miserando;
- E tamboril nos heróis de altos estados
- Exemplos mil se vêem de amor nefando,
- Qual o das moças Bíbli e Cinireia,
- Um mancebo de Assíria, um de Judeia.
- E vós, ó poderosos, por pastoras
- Muitas vezes ferido o peito vedes;
- E por baixos e rudos, vós, senhoras,
- Também vos tomam nas Vulcâneas redes.
- Uns esperando andais noturnas horas,
- Outros subis telhados e paredes:
- Mas eu creio que deste amor indino
- É mais culpa a da mãe que a do menino.
- Mas já no verde prado o carro leve
- Punham os brancos cisnes mansamente,
- E Dione, que as rosas entro a neve
- No rosto traz, descia diligente.
- O frecheiro, que contra o céu se atreve,
- A recebê-la vem, ledo e contente;
- Vêm todos os Cupidos servidores
- Beijar a mão à Deusa dos amores.
- Ela, por que não gaste o tempo em vão,
- Nos braços tendo o filho, confiada
- Lhe diz: "Amado filho, em cuja mão
- Toda minha potência está fundada;
- Filho, em quem minhas forças sempre estão;
- Tu, que as armas Tifeias tens em nada,
- A socorrer-me a tua potestade
- Me triz especial necessidade.
- "Bem vês as Lusitânicas fadigas,
- Que eu já de muito longe favoreço,
- Porque das Parcas sei, minhas amigas,
- Que me hão de venerar e ter em preço.
- E, porque tanto imitam as antigas
- Obras de meus Romanos, me ofereço
- A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso,
- A quanto se estender o poder nosso.
- "E porque das insídias do odioso
- Baco foram na Índia molestados,
- E das injúrias sós do mar undoso
- Puderam mais ser mortos que cansados,
- No mesmo mar, que sempre temeroso
- Lhe foi, quero que sejam repousados,
- Tomando aquele prémio e doce glória
- Do trabalho, que faz clara a memória.
- "E para isso queria que, feridas
- As filhas de Nereu, no ponto fundo,
- De amor dos Lusitanos incendidas,
- Que vêm de descobrir o novo mundo,
- Todas numa ilha juntas e subidas,
- Ilha, que nas entranhas do profundo
- Oceano terei aparelhada,
- De dons de Flora e Zéfiro adornada;
- "Ali, com mil refrescos e manjares,
- Com vinhos odoríferos e rosas,
- Em cristalinos paços singulares
- Formosos leitos, e elas mais formosas;
- Enfim, com mil deleites não vulgares,
- Os esperem as Ninfas amorosas,
- De amor feridas, para lhes entregarem
- Quanto delas os olhos cobiçarem.
- "Quero que haja no reino Netunino,
- Onde eu nasci, progénie forte e bela,
- E tome exemplo o mundo vil, malino,
- Que contra tua potência se rebela,
- Por que entendam que muro adamantino,
- Nem triste hipocrisia val contra ela:
- Mal haverá na terra quem se guarde,
- Se teu fogo imortal nas águas arde."
- Assim Vénus propôs, e o filho inieo,
- Para lhe obedecer, já se apercebe:
- Manda trazer o arco ebúrneo rico,
- Onde as setas de ponta de ouro embebe.
- Com gesto ledo a Cípria, e impudico,
- Dentro no carro o filho seu recebe;
- A rédea larga às aves, cujo canto
- A Factôntea morte chorou tanto.
- Mas diz Cupido, que era necessária
- Uma famosa e célebre terceira,
- Que, posto que mil vezes lhe é contrária,
- Outras muitas a tem por companheira:
- A Deusa Giganteia, temerária,
- Jactante, mentirosa, e verdadeira,
- Que com cem olhos vê, e por onde voa,
- O que vê, com mil bocas apregoa.
- Vão-a buscar, e mandam adiante,
- Que celebrando vá com tuba clara
- Os louvores da gente navegante,
- Mais do que nunca os d'outrem celebrara.
- Já murmurando a Fama penetrante
- Pelas fundas cavernas se espalhara:
- Fala verdade, havida por verdade,
- Que junto a Deusa traz Credulidade.
- O louvor grande, o rumor excelente
- No coração dos Deuses, que indignados
- Foram por Baco contra a ilustre gente,
- Mudando, os fez um pouco afeiçoados.
- O peito feminil, que levemente
- Muda quaisquer propósitos tomados,
- Já julga por mau zelo e por crueza
- Desejar mal a tanta fortaleza.
- Despede nisto o fero moço as setas
- Uma após outra: geme o mar com os tiros;
- Direitas pelas ondas inquietas
- Algumas vão, e algumas fazem giros;
- Caem as Ninfas, lançam das secretas
- Entranhas ardentíssimos suspiros;
- Cai qualquer, sem ver o vulto que ama:
- Que tanto, como a vista, pode a fama.
- Os cornos ajuntou da ebúrnea lua
- Com força o moço indómito excessiva,
- Que Tethys quer ferir mais que nenhuma,
- Porque mais que nenhuma lhe era esquiva.
- Já não fica na aljava seta alguma,
- Nem nos equóreos campos Ninfa viva;
- E se feridas ainda estão vivendo,
- Será para sentir que vão morrendo.
- Dai lugar, altas e cerúleas ondas,
- Que, vedes, Vénus traz a medicina,
- Mostrando as brancas velas e redondas,
- Que vêm por cima da água Netunina.
- Para que tu recíproco respondas,
- Ardente Amor, à flama feminina,
- É, forçado que a pudicícia honesta
- Faça quanto lhe Vénus amoesta.
- Já todo o belo coro se aparelha
- Das Nereidas, e junto caminhava
- Em coreias gentis, usança velha,
- Para a ilha, a que Vénus as guiava.
- Ali a formosa Deusa lhe aconselha
- O que ela fez mil vezes, quando amava.
- Elas, que vão do doce amor vencidas,
- Estão a seu conselho oferecidas.
- Cortando vão as naus a larga via
- Do mar ingente para a pátria amada,
- Desejando prover-se de água fria,
- Para a grande viagem prolongada,
- Quando juntas, com súbita alegria,
- Houveram vista da ilha namorada,
- Rompendo pelo céu a mãe formosa
- De Menónio, suave e deleitosa.
- De longe a Ilha viram fresca e bela,
- Que Vénus pelas ondas lha levava
- (Bem como o vento leva branca vela)
- Para onde a forte armada se enxergava;
- Que, por que não passassem, sem que nela
- Tomassem porto, como desejava,
- Para onde as naus navegam a movia
- A Acidália, que tudo enfim podia.
- Mas firme a fez e imóvel, como viu
- Que era dos Nautas vista e demandada;
- Qual ficou Delos, tanto que pariu
- Latona Febo e a Deusa à caça usada.
- Para lá logo a proa o mar abriu,
- Onde a costa fazia uma enseada
- Curva e quieta, cuja branca areia,
- Pintou de ruivas conchas Citereia.
- Três formosos outeiros se mostravam
- Erguidos com soberba graciosa,
- Que de gramíneo esmalte se adornavam..
- Na formosa ilha alegre e deleitosa;
- Claras fontes o límpidas manavam
- Do cume, que a verdura tem viçosa;
- Por entre pedras alvas se deriva
- A sonorosa Ninfa fugitiva.
- Num vale ameno, que os outeiros fende,
- Vinham as claras águas ajuntar-se,
- Onde uma mesa fazem, que se estende
- Tão bela quanto pode imaginar-se;
- Arvoredo gentil sobre ela pende,
- Como que pronto está para afeitar-se,
- Vendo-se no cristal resplandecente,
- Que em si o está pintando propriamente.
- Mil árvores estão ao céu subindo,
- Com pomos odoríferos e belos:
- A laranjeira tem no fruto lindo
- A cor que tinha Dafne nos cabelos;
- Encosta-se no chão, que está caindo,
- A cidreira com os pesos amarelos;
- Os formosos limões ali, cheirando,
- Estão virgíneas tetas imitando.
- As árvores agrestes que os outeiros
- Têm com frondente coma enobrecidos,
- Alemos são de Alcides, e os loureiros
- Do louro Deus amados e queridos;
- Mirtos de Citereia, com os pinheiros
- De Cibele, por outro amor vencidos;
- Está apontando o agudo cipariso
- Para onde é posto o etéreo paraíso.
- Os dons que dá Pomona, ali Natura
- Produz diferentes nos sabores,
- Sem ter necessidade de cultura,
- Que sem ela se dão muito melhores:
- As cerejas purpúreas na pintura,
- As amoras, que o nome têm de amores,
- O pomo que da pátria Pérsia veio,
- Melhor tornado no terreno alheio.
- Abre a romã, mostrando a rubicunda
- Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes;
- Entre os braços do ulmeiro está a jocunda
- Vide, com uns cachos roxos e outros verdes;
- E vós, se na vossa árvore fecunda,
- Peras piramidais, viver quiserdes,
- Entregai-vos ao dano, que, com os bicos,
- Em vós fazem os pássaros inicos.
- Pois a tapeçaria bela e fina,
- Com que se cobre o rústico terreno,
- Faz ser a de Aqueménia menos diria,
- Mas o sombrio vale mais ameno.
- Ali a cabeça a flor Cifísia inclina
- Sôbolo tanque lúcido e sereno;
- Floresce o filho e neto de Ciniras,
- Por quem tu, Deusa Páfia, inda suspiras.
- Para julgar, difícil coisa fora,
- No céu vendo e na terra as mesmas cores,
- Se dava às flores cor a bela Aurora,
- Ou se lha dão a ela as belas flores.
- Pintando estava ali Zéfiro e Flora
- As violas da cor dos amadores;
- O lírio roxo, a fresca rosa bela,
- Qual reluz nas faces da donzela;
- A cândida cecém, das matutinas
- Lágrimas rociada, e a manjarona.
- Vêem-se as letras nas flores Hiacintinas,
- Tão queridas do filho de Latona.
- Bem se enxerga nos pomos e boninas
- Que competia Cloris com Pomona.
- Pois se as aves no ar cantando voam,
- Alegres animais o chão povoam.
- Ao longo da água o níveo cisne canta,
- Responde-lhe do ramo filomela;
- Da sombra de seus cornos não se espanta
- Acteon, n'água cristalina e bela;
- Aqui a fugace lebre se levanta
- Da espessa mata, ou tímida gazela;
- Ali no bico traz ao caro ninho
- O mantimento o leve passarinho.
- Nesta frescura tal desembarcavam
- Já das naus os segundos Argonautas,
- Onde pela floresta se deixavam
- Andar as belas Deusas, como incautas.
- Algumas doces cítaras tocavam,
- Algumas harpas e sonoras flautas,
- Outras com os arcos de ouro se fingiam
- Seguir os animais, que não seguiam.
- Assim lhe aconselhara a mestra experta;
- Que andassem pelos campos espalhadas;
- Que, vista dos barões a presa incerta,
- Se fizessem primeiro desejadas.
- Algumas, que na forma descoberta
- Do belo corpo estavam confiadas,
- Posta a artificiosa formosura,
- Nuas lavar-se deixam na água pura,
- Mas os fortes mancebos, que na praia
- Punham os pés, de terra cobiçosos,
- Que não há nenhum deles que não saia
- De acharem caça agreste desejosos,
- Não cuidam que, sem laço ou redes, caia
- Caça naqueles montes deleitosos,
- Tão suave, doméstica e benigna,
- Qual ferida lha tinha já Ericina.
- Alguns, que em espingardas e nas bestas,
- Para ferir os cervos se fiavam,
- Pelos sombrios matos e florestas
- Determinadamente se lançavam:
- Outros, nas sombras, que de as altas sestas
- Defendem a verdura, passeavam
- Ao longo da água que, suave e queda,
- Por alvas pedras corre à praia leda.
- Começam de enxergar subitamente
- Por entre verdes ramos várias cores,
- Cores de quem a vista julga e sente
- Que não eram das rosas ou das flores,
- Mas da lã fina e seda diferente,
- Que mais incita a força dos amores,
- De que se vestem as humanas rosas,
- Fazendo-se por arte mais formosas.
- Dá Veloso espantado um grande grito:
- "Senhores, caça estranha, disse, é esta!
- Se ainda dura o Gentio antigo rito,
- A Deusas é sagrada esta floresta.
- Mais descobrimos do que humano espírito
- Desejou nunca; e bem se manifesta
- Que são grandes as coisas e excelentes,
- Que o mundo encobre aos homens imprudentes.
- "Sigamos estas Deusas, e vejamos
- Se fantásticas são, se verdadeiras."
- Isto dito, velozes mais que gamos,
- Se lançam a correr pelas ribeiras.
- Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,
- Mas, mais industriosas que ligeiras,
- Pouco e pouco sorrindo e gritos dando,
- Se deixam ir dos galgos alcançando.
- De uma os cabelos de ouro o vento leva
- Correndo, e de outra as fraldas delicadas;
- Acende-se o desejo, que se ceva
- Nas alvas carnes súbito mostradas;
- Uma de indústria cai, e já releva,
- Com mostras mais macias que indignadas,
- Que sobre ela, empecendo, também caia
- Quem a seguiu pela arenosa praia.
- Outros, por outra parte, vão topar
- Com as Deusas despidas, que se lavam:
- Elas começam súbito a gritar,
- Como que assalto tal não esperavam.
- Umas, fingindo menos estimar
- A vergonha que a força, se lançavam
- Nuas por entre o mato, aos olhos dando
- O que às mãos cobiçosas vão negando.
- Outra, como acudindo mais depressa
- A vergonha da Deusa caçadora,
- Esconde o corpo n'água; outra se apressa
- Por tomar os vestidos, que tem fora.
- Tal dos mancebos há, que se arremessa,
- Vestido assim e calçado (que, coa mora
- De se despir, há medo que ainda tarde)
- A matar na água o fogo que nele arde.
- Qual cão de caçador, sagaz e ardido,
- Usado a tomar na água a ave ferida,
- Vendo no rosto o férreo cano erguido
- Para a garcenha ou pata conhecida,
- Antes que soe o estouro, mal sofrido
- Salta n'água, e da presa não duvida,
- Nadando vai e latindo: assim o mancebo
- Remete à que não era irmã de Febo.
- Leonardo, soldado bem disposto,
- Manhoso, cavaleiro e namorado,
- A quem amor não dera um só desgosto,
- Mas sempre fora dele maltratado,
- E tinha já por firme pressuposto
- Ser com amores mal afortunado,
- Porém não que perdesse a esperança
- De ainda poder seu fado ter mudança,
- Quis aqui sua ventura, que corria
- Após Efire, exemplo de beleza,
- Que mais caro que as outras dar queria
- O que deu para dar-se a natureza.
- Já cansado correndo lhe dizia:
- "Ó formosura indigna de aspereza,
- Pois desta vida te concedo a palma,
- Espera um corpo de quem levas a alma.
- "Todas de correr cansam, Ninfa pura,
- Rendendo-se à vontade do inimigo,
- Tu só de mi só foges na espessura?
- Quem te disse que eu era o que te sigo?
- Se to tem dito já aquela ventura,
- Que em toda a parte sempre anda comigo,
- Ó não na creias, porque eu, quando a cria,
- Mil vezes cada hora me mentia.
- "Não canses, que me cansas: e se queres
- Fugir-me, por que não possa tocar-te,
- Minha ventura é tal que, ainda que esperes,
- Ela fará que não possa alcançar-te.
- Espora; quero ver, se tu quiseres,
- Que subtil modo busca de escapar-te,
- E notarás, no fim deste sucesso,
- Tra la spica e la man, qual muro è messo.
- "Ó não me fujas! Assim nunca o breve
- Tempo fuja de tua formosura!
- Que, só com refrear o passo leve,
- Vencerás da fortuna a força dura.
- Que Imperador, que exército se atreve
- A quebrantar a fúria da ventura,
- Que, em quanto desejei, me vai seguindo,
- O que tu só farás não me fugindo!
- "Pões-te da parte da desdita minha?
- Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
- Levas-me um coração, que livre tinha?
- Solta-me, e correrás mais levemente.
- Não te carrega essa alma tão mesquinha,
- Que nesses fios de ouro reluzente
- Atada levas? Ou, depois de presa,
- Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?
- "Nesta esperança só te vou seguindo:
- Que, ou tu não sofrerás o peso dela,
- Ou na virtude de teu gesto lindo
- Lhe mudarás a triste e dura estrela:
- E se se lhe mudar, não vás fugindo,
- Que Amor te ferirá, gentil donzela,
- E tu me esperarás, se Amor te fere:
- E se me esperas, não há mais que espere."
- Já não fugia a bela Ninfa, tanto
- Por se dar cara ao triste que a seguia,
- Como por ir ouvindo o doce canto,
- As namoradas mágoas que dizia.
- Volvendo o rosto já sereno e santo,
- Toda banhada em riso e alegria,
- Cair se deixa aos pés do vencedor,
- Que todo se desfaz em puro amor.
- Ó que famintos beijos na floresta,
- E que mimoso choro que soava!
- Que afagos tão suaves, que ira honesta,
- Que em risinhos alegres se tornava!
- O que mais passam na manhã, e na sesta,
- Que Vénus com prazeres inflamava,
- Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
- Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.
- Desta arte enfim conformes já as formosas
- Ninfas com os seus amados navegantes,
- Os ornam de capelas deleitosas
- De louro, e de ouro, e flores abundantes.
- As mãos alvas lhes davam como esposas;
- Com palavras formais e estipulantes
- Se prometem eterna companhia
- Em vida e morte, de honra e alegria.
- Uma delas maior, a quem se humilha
- Todo o coro das Ninfas, e obedece,
- Que dizem ser de Celo e Vesta filha,
- O que no gesto belo se parece,
- Enchendo a terra e o mar de maravilha,
- O Capitão ilustre, que o merece,
- Recebe ali com pompa honesta e régia,
- Mostrando-se senhora grande e egrégia.
- Que, depois de lhe ter dito quem era,
- Com um alto exórdio, de alta graça ornado,
- Dando-lhe a entender que ali viera
- Por alta influição do imóvel fado,
- Para lhe descobrir da unida esfera
- Da terra imensa, e mar não navegado,
- Os segredos, por alta profecia,
- O que esta sua nação só merecia,
- Tomando-o pela mão, o leva e guia
- Para o cume dum monte alto e divino,
- No qual uma rica fábrica se erguia
- De cristal toda, e de ouro puro e fino.
- A maior parte aqui passam do dia
- Em doces jogos e em prazer contino:
- Ela nos paços logra seus amores,
- As outras pelas sombras entre as flores.
- Assim a formosa e a forte companhia
- O dia quase todo estão passando,
- Numa alma, doce, incógnita alegria,
- Os trabalhos tão longos compensando.
- Porque dos feitos grandes, da ousadia
- Forte e famosa, o mundo está guardando
- O prémio lá no fim, bem merecido,
- Com fama grande e nome alto e subido.
- Que as Ninfas do Oceano tão formosas,
- Tethys, e a ilha angélica pintada,
- Outra coisa não é que as deleitosas
- Honras que a vida fazem sublimada.
- Aquelas proeminências gloriosas,
- Os triunfos, a fronte coroada
- De palma e louro, a glória e maravilha:
- Estes são os deleites desta ilha.
- Que as imortalidades que fingia
- A antiguidade, que os ilustres ama,
- Lá no estelante Olimpo, a quem subia
- Sobre as asas ínclitas da Fama,
- Por obras valorosas que fazia,
- Pelo trabalho imenso que se chama
- Caminho da virtude alto e fragoso,
- Mas no fim doce, alegre e deleitoso:
- Não eram senão prémios que reparte
- Por feitos imortais e soberanos
- O mundo com os varões, que esforço e arte
- Divinos os fizeram, sendo humanos.
- Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,
- Eneias e Quirino, e os dois Tebanos,
- Ceres, Palas e Juno, com Diana,
- Todos foram de fraca carne humana.
- Mas a Fama, trombeta de obras tais,
- Lhe deu no mundo nomes tão estranhos
- De Deuses, Semideuses imortais,
- Indígetes, Heróicos e de Magnos.
- Por isso, ó vós que as famas estimais,
- Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
- Despertai já do sono do ócio ignavo,
- Que o ânimo de livre faz escravo.
- E ponde na cobiça um freio duro,
- E na ambição também, que indignamente
- Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
- Vício da tirania infame e urgente;
- Porque essas honras vãs, esse ouro puro
- Verdadeiro valor não dão à gente:
- Melhor é, merecê-los sem os ter,
- Que possuí-los sem os merecer.
- Ou dai na paz as leis iguais, constantes,
- Que aos grandes não dêem o dos pequenos;
- Ou vos vesti nas armas rutilantes,
- Contra a lei dos inimigos Sarracenos:
- Fareis os Reinos grandes e possantes,
- E todos tereis mais, o nenhum menos;
- Possuireis riquezas merecidas,
- Com as honras, que ilustram tanto as vidas.
- E fareis claro o Rei, que tanto amais,
- Agora com os conselhos bem cuidados,
- Agora com as espadas, que imortais
- Vos farão, como os vossos já passados;
- Impossibilidades não façais,
- Que quem quis sempre pôde; e numerados
- Sereis entre os Heróis esclarecidos,
- E nesta Ilha de Vénus recebidos.