Já neste tempo o lúcido Planeta
113 oitavas
- Já neste tempo o lúcido Planeta,
- Que as horas vai do dia distinguindo,
- Chegava à desejada e lenta meta,
- A luz celeste às gentes encobrindo,
- E da casa marítima secreta
- Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,
- Quando as infidas gentes se chegaram
- As naus, que pouco havia que ancoraram.
- Dentre eles um, que traz encomendado
- O mortífero engano, assim dizia:
- "Capitão valeroso, que cortado
- Tens de Neptuno o reino e salsa via,
- O Rei que manda esta ilha, alvoroçado
- Da vinda tua, tem tanta alegria,
- Que não deseja mais que agasalhar-te,
- Ver-te, e do necessário reformar-te.
- "E porque está em extremo desejoso
- De te ver, como cousa nomeada,
- Te roga que, de nada receoso,
- Entres a barra, tu com toda armada:
- E porque do caminho trabalhoso
- Trarás a gente débil e cansada,
- Diz que na terra podes reformá-la,
- Que a natureza obriga a desejá-la.
- "E se buscando vás mercadoria
- Que produze o aurífero Levante,
- Canela, cravo, ardente especiaria,
- Ou droga salutífera e prestante;
- Ou se queres luzente pedraria,
- O rubi fino, o rígido diamante,
- Daqui levarás tudo tão sobejo
- Com que faças o fim a teu desejo."
- Ao mensageiro o Capitão responde
- As palavras do Rei agradecendo:
- E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
- Não entra para dentro, obedecendo;
- Porém que, como a luz mostrar por onde
- Vá sem perigo a frota, não temendo,
- Cumprirá sem receio seu mandado,
- Que a mais por tal senhor está obrigado.
- Pergunta-lhe depois, se estão na terra
- Cristãos, como o piloto lhe dizia;
- O mensageiro astuto, que não erra,
- Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.
- Desta sorte do peito lhe desterra
- Toda a suspeita e cauta fantasia;
- Por onde o Capitão seguramente
- Se fia da infiel e falsa gente.
- E de alguns que trazia condenados
- Por culpas e por feitos vergonhosos,
- Por que pudessem ser aventurados
- Em casos desta sorte duvidosos,
- Manda dous mais sagazes, ensaiados,
- Por que notem dos Mouros enganosos
- A cidade e poder, e por que vejam
- Os Cristãos, que só tanto ver desejam.
- E por estes ao Rei presentes manda,
- Por que a boa vontade, que mostrava,
- Tenha firme, segura, limpa e branda;
- A qual bem ao contrário em tudo estava.
- Já a companhia pérfida e nefanda
- Das naus se despedia e o mar cortava:
- Foram com gestos ledos e fingidos,
- Os dous da frota em terra recebidos.
- E depois que ao Rei apresentaram,
- Co'o recado, os presentes que traziam,
- A cidade correram, e notaram
- Muito menos daquilo que queriam;
- Que os Mouros cautelosos se guardaras
- De lhes mostrarem tudo o que pediam:
- Que onde reina a malícia, está o receio,
- Que a faz imaginar no peito alheio.
- Mas aquele que sempre a mocidade
- Tem no rosto perpétua, e foi nascido
- De duas mães, que urdia a falsidade
- Por ver o navegante destruído,
- Estava numa casa da cidade,
- Com rosto humano e hábito fingido,
- Mostrando-se Cristão, e fabricava
- Um altar sumptuoso, que adorava.
- Ali tinha em retrato afigurada
- Do alto e Santo Espírito a pintura:
- A cândida pombinha debuxada
- Sobre a única Fénix, Virgem pura;
- A companhia santa está pintada
- Dos doze, tão torvados na figura,
- Como os que, só das línguas que caíram,
- De fogo, várias línguas referiram.
- Aqui os dous companheiros conduzidos
- Onde com este engano Baco estava,
- Põem em terra os giolhos, e os sentidos
- Naquele Deus que o mundo governava.
- Os cheiros excelentes, produzidos
- Na Pancaia odorífera, queimava
- O Tioneu, e assim por derradeiro
- O falso Deus adora o verdadeiro.
- Aqui foram de noite agasalhados,
- Com todo o bom e honesto tratamento,
- Os dous Cristãos, não vendo que enganados
- Os tinha o falso e santo fingimento.
- Mas assim como os raios espalhados
- Do Sol foram no mundo, e num momento
- Apareceu no rúbido horizonte
- Da moça de Titão a roxa fronte,
- Tornam da terra os Mouros co'o recado
- Do Rei, para que entrassem, e consigo
- Os dous que o Capitão tinha mandado,
- A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
- E sendo o Português certificado
- De não haver receio de perigo,
- E que gente de Cristo em terra havia,
- Dentro no salso rio entrar queria.
- Dizem-lhe os que mandou, que em terra
- Sacras aras e sacerdote sinto; viram
- Que ali se agasalharam o dormiram,
- Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
- E que no Rei e gentes não sentiram
- Senão contentamento e gosto tanto,
- Que não podia certo haver suspeita
- Numa mostra tão clara e tão perfeita.
- Com isto o nobre Gama recebia
- Alegremente os Mouros que subiam;
- Que levemente um ânimo se fia
- De mostras, que tão certas pareciam.
- A nau da gente pérfida se enchia,
- Deixando a bordo os barcos que traziam.
- Alegres vinham todos, porque crêm
- Que a presa desejada certa têm.
- Na terra, cautamente aparelhavam
- Armas e munições que, como vissem
- Que no rio os navios ancoravam,
- Neles ousadamente se subissem;
- E, nesta treição determinavam
- Que os de Luso de todo destruíssem,
- E que incautos pagassem deste jeito
- O mal que em Moçambique tinham feito.
- As âncoras tenaces vão levando
- Com a náutica grita costumada;
- Da proa as velas sós ao vento dando
- Inclinam para a barra abalizada.
- Mas a linda Ericina, que guardando
- Andava sempre a gente assinalada,
- Vendo a cilada grande, e tão secreta,
- Voa do Céu ao mar como uma seta.
- Convoca as alvas filhas de Nereu,
- Com toda a mais cerúlea companhia,
- Que, porque no salgado mar nasceu,
- Das águas o poder lhe obedecia.
- E propondo-lhe a causa a que desceu,
- Com todas juntamente se partia,
- Para estorvar que a armada não chegasse
- Aonde para sempre se acabasse.
- Já na água erguendo vão, com grande pressa,
- Com as argênteas caudas branca escuma;
- Cloto eo'o peito corta e atravessa
- Com mais furor o mar do que costuma.
- Salta Nise, Nerine se arremessa
- Por cima da água crespa, em força suma.
- Abrem caminho as ondas encurvadas
- De temor das Nereidas apressadas.
- Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,
- Vai a linda Dione furiosa;
- Não sente quem a leva o doce peso,
- De soberbo com carga tão formosa.
- Já chegam perto donde o vento teso
- Enche as velas da frota belicosa;
- Repartem-se e rodeiam nesse instante
- As naus ligeiras, que iam por diante.
- Põe-se a Deusa com outras em direito
- Da proa capitaina, e ali fechando
- O caminho da barra, estão de jeito,
- Que em vão assopra o vento, a vela inchando.
- Põem no madeiro duro o brando peito,
- Para detrás a forte nau forçando;
- Outras em derredor levando-a estavam,
- E da barra inimiga a desviavam.
- Quais para a cova as próvidas formigas,
- Levando o peso grande acomodado,
- As forças exercitam, de inimigas
- Do inimigo inverno congelado;
- Ali são seus trabalhos e fadigas,
- Ali mostram vigor nunca esperado:
- Tais andavam as Ninfas estorvando
- A gente Portuguesa o fim nefando.
- Torna para detrás a nau forçada,
- Apesar dos que leva, que gritando
- Mareiam velas; ferve a gente irada,
- O leme a um bordo e a outro atravessando;
- O mestre astuto em vão da popa brada,
- Vendo como diante ameaçando
- Os estava um marítimo penedo,
- Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.
- A celeuma medonha se alevanta
- No rudo marinheiro que trabalha;
- O grande estrondo a Maura gente espanta,
- Como se vissem hórrida batalha;
- Não sabem a razão de fúria tanta,
- Não sabem nesta pressa quem lhe valha;
- Cuidam que seus enganos são sabidos,
- E que hão de ser por isso aqui punidos.
- Ei-los subitamente se lançavam
- A seus batéis velozes que traziam;
- Outros em cima o mar alevantavam,
- Saltando n'água, a nado se acolhiam;
- De um bordo e doutro súbito saltavam,
- Que o medo os compelia do que viam;
- Que antes querem ao mar aventurar-se
- Que nas mãos inimigas entregar-se.
- Assim como em selvática alagoa
- As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
- Se sentem por ventura vir pessoa,
- Estando fora da água incautamente,
- Daqui e dali saltando, o charco soa,
- Por fugir do perigo que se sente,
- E acolhendo-se ao couto que conhecem,
- Sós as cabeças na água lhe aparecem:
- Assim fogem os Mouros; e o piloto,
- Que ao perigo grande as naus guiara,
- Crendo que seu engano estava noto,
- Também foge, saltando na água amara.
- Mas, por não darem no penedo imoto,
- Onde percam a vida doce e cara,
- A âncora solta logo a capitaina,
- Qualquer das outras junto dela amaina.
- Vendo o Gama, atentado, a estranheza
- Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
- O piloto fugir-lhe com presteza,
- Entende o que ordenava a bruta gente;
- E vendo, sem contraste e sem braveza
- Dos ventos, ou das águas sem corrente,
- Que a nau passar avante não podia,
- Havendo-o por milagre, assim dizia:
- "Ó caso grande, estranho e não cuidado,
- Ó milagre claríssimo e evidente,
- Ó descoberto engano inopinado,
- Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
- Quem poderá do mal aparelhado
- Livrar-se sem perigo sabiamente,
- Se lá de cima a Guarda soberana
- Não acudir à fraca força humana?
- "Bem nos mostra a divina Providência
- Destes portos a pouca segurança;
- Bem claro temos visto na aparência,
- Que era enganada a nossa confiança.
- Mas pois saber humano nem prudência
- Enganos tão fingidos não alcança,
- Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
- De quem sem ti não pode ser guardado!
- "E se te move tanto a piedade
- Desta mísera gente peregrina,
- Que só por tua altíssima bondade,
- Da gente a salvas pérfida e malina,
- Nalgum porto seguro de verdade
- Conduzir-nos já agora determina,
- Ou nos amostra a terra que buscamos,
- Pois só por teu serviço navegamos."
- Ouviu-lhe essas palavras piedosas
- A formosa Dione, e comovida,
- Dentre as Ninfas se vai, que saudosas
- Ficaram desta súbita partida.
- Já penetra as Estrelas luminosas,
- Já na terceira Esfera recebida
- Avante passa, e lá no sexto Céu,
- Para onde estava o Padre, se moveu.
- E como ia afrontada do caminho,
- Tão formosa no gesto se mostrava,
- Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho,
- E tudo quanto a via namorava.
- Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
- Uns espíritos vivos inspirava,
- Com que os Pólos gelados acendia,
- E tornava do Fogo a esfera fria.
- E por mais namorar o soberano
- Padre, de quem foi sempre amada e eriça,
- Se lhe apresenta assim como ao Troiano,
- Na selva Idea, já se apresentara.
- Se a vira o caçador, que o vulto humano
- Perdeu, vendo Diana na água clara,
- Nunca os famintos galgos o mataram,
- Que primeiro desejos o acabaram.
- Os crespos fios d'ouro se esparziam
- Pelo colo, que a neve escurecia;
- Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
- Com quem Amor brincava, e não se via;
- Da alva petrina flamas lhe saíam,
- Onde o Menino as almas acendia;
- Pelas lisas colunas lhe trepavam
- Desejos, que como hera se enrolavam.
- C'um delgado sendal as partes cobre,
- De quem vergonha é natural reparo,
- Porém nem tudo esconde, nem descobre,
- O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
- Mas, para que o desejo acenda o dobre,
- Lhe põe diante aquele objeto raro.
- Já se sentem no Céu, por toda a parte,
- Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.
- E mostrando no angélico semblante
- Co'o riso uma tristeza misturada,
- Como dama que foi do incauto amante
- Em brincos amorosos mal tratada,
- Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,
- E se torna entre alegre magoada,
- Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,
- Mais mimosa que triste ao Padre fala:
- "Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
- Que, para as cousas que eu do peito amasse,
- Te achasse brando, afábil e amoroso,
- Posto que a algum contrário lhe pesasse;
- Mas, pois que contra mim te vejo iroso,
- Sem que to merecesse, nem te errasse,
- Faça-se como Baco determina;
- Assentarei enfim que fui mofina.
- "Este povo que é meu, por quem derramo
- As lágrimas que em vão caídas vejo,
- Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
- Sendo tu tanto contra meu desejo!
- Por ele a ti rogando choro e bramo,
- E contra minha dita enfim pelejo.
- Ora pois, porque o amo é mal tratado,
- Quero-lhe querer mal, será guardado.
- "Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,
- Que pois eu fui..." E nisto, de mimosa,
- O rosto banha em lágrimas ardentes,
- Como co'o orvalho fica a fresca rosa.
- Calada um pouco, como se entre os dentes
- Se lhe impedira a fala piedosa,
- Torna a segui-la; e indo por diante,
- Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.
- E destas brandas mostras comovido,
- Que moveram de um tigre o peito duro,
- Co'o vulto alegre, qual do Céu subido,
- Torna sereno e claro o ar escuro,
- As lágrimas lhe alimpa, e acendido
- Na face a beija, e abraça o colo puro;
- De modo que dali, se só se achara,
- Outro novo Cupido se gerara.
- E co'o seu apertando o rosto amado,
- Que os soluços e lágrimas aumenta,
- Como menino da ama castigado,
- Que quem no afaga o choro lhe acrescente,
- Por lhe pôr em sossego o peito irado,
- Muitos casos futuros lhe apresenta.
- Dos fados as entranhas revolvendo,
- Desta maneira enfim lhe está dizendo:
- "Formosa filha minha, não temais
- Perigo algum nos vossos Lusitanos,
- Nem que ninguém comigo possa mais,
- Que esses chorosos olhos soberanos;
- Que eu vos prometo, filha, que vejais
- Esquecerem-se Gregos e Romanos,
- Pelos ilustres feitos que esta gente
- Há-de fazer nas partes do Oriente.
- "Que se o facundo Ulisses escapou
- De ser na Ogígia ilha eterno escravo,
- E se Antenor os seios penetrou
- Ilíricos e a fonte de Timavo;
- E se o piedoso Eneias navegou
- De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
- Os vossos, mores cousas atentando,
- Novos mundos ao mundo irão mostrando.
- "Fortalezas, cidades e altos muros,
- Por eles vereis, filha, edificados;
- Os Turcos belacíssimos e duros,
- Deles sempre vereis desbaratados.
- Os Reis da índia, livres e seguros,
- Vereis ao Rei potente sojugados;
- E por eles, de tudo enfim senhores,
- Serão dadas na terra leis melhores.
- "Vereis este, que agora pressuroso
- Por tantos medos o Indo vai buscando,
- Tremer dele Neptuno, de medroso
- Sem vento suas águas encrespando.
- Ó caso nunca visto e milagroso,
- Que trema e ferva o mar, em calma estando!
- Ó gente forte e de altos pensamentos,
- Que também dela hão medo os Elementos!
- "Vereis a terra, que a água lhe tolhia,
- Que inda há-de ser um porto mui decente,
- Em que vão descansar da longa via
- As naus que navegarem do Ocidente.
- Toda esta costa enfim, que agora urdia
- O mortífero engano, obediente
- Lhe pagará tributos, conhecendo
- Não poder resistir ao Luso horrendo.
- "E vereis o mar Roxo, tão famoso,
- Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
- Vereis de Ormuz o Reino poderoso
- Duas vezes tomado e sojugado.
- Ali vereis o Mouro furioso
- De suas mesmas setas traspassado:
- Que quem vai contra os vossos, claro veja
- Que, se resiste, contra si peleja.
- "Vereis a inexpugnábil Dio forte,
- Que dous cercos terá, dos vossos sendo.
- Ali se mostrará seu preço e sorte,
- Feitos de armas grandíssimos fazendo.
- Invejoso vereis o grão Mavorte
- Do peito Lusitano fero e horrendo:
- Do Mouro ali verão que a voz extrema
- Do falso Mahamede ao Céu blasfema.
- "Goa vereis aos Mouros ser tomada,
- A qual virá depois a ser senhora
- De todo o Oriente, e sublimada
- Co'os triunfos da gente vencedora.
- Ali soberba, altiva, e exalçada,
- Ao Gentio, que os ídolos adora,
- Duro freio porá, e a toda a terra
- Que cuidar de fazer aos vossos guerra.
- "Vereis a fortaleza sustentar-se
- De Cananor, com pouca força e gente;
- E vereis Calecu desbaratar-se,
- Cidade populosa e tão potente:
- E vereis em Cochim assinalar-se
- Tanto um peito soberbo e insolente,
- Que cítara jamais cantou vitória,
- Que assim mereça eterno nome e glória.
- "Nunca com Marte instructo e furioso,
- Se viu ferver Leucate, quando Augusto
- Nas civis Actias guerras animoso,
- O Capitão venceu Romano injusto,
- Que dos povos da Aurora, e do famoso
- Nilo, e do Bactra Cítico e robusto
- A vitória trazia, e presa rica,
- Preso na Egípcia linda e nego pudica.
- Como vereis o mar fervendo aceso
- Colos incêndios dos vossos pelejando,
- Levando o Idololatra, e o Mouro preso,
- De nações diferentes triunfando.
- E sujeita a rica Áurea Quersoneso,
- Até ao longínquo China navegando,
- E as ilhas mais remotas do Oriente,
- Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.
- "De modo, filha minha, que de jeito
- Amostrarão esforço mais que humano,
- Que nunca se verá tão forte peito,
- Do Gangético mar ao Gaditano,
- Nem das Boreais ondas ao Estreito,
- Que mostrou o agravado Lusitano,
- Posto que em todo o mundo, de afrontados,
- Ressuscitassem todos os passados."
- Como isto disse, manda o consagrado
- Filho de Maia à Terra, por que tenha
- Um pacífico porto o sossegado,
- Para onde sem receio a frota venha;
- F, para que em Mombaça, aventurado,
- O forte Capitão se não detenha,
- Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra
- A terra, onde quieto repousasse.
- Já pelo ar o Cileneu voava;
- Com as asas nos pés à Terra desce;
- Sua vara fatal na mão levava,
- Com que os olhos cansados adormece:
- Com esta, as tristes almas revocava
- Do Inferno, e o vento lhe obedece.
- Na cabeça o galero costumado.
- E desta arte a Melinde foi chegado.
- Consigo a Fama leva, por que diga
- Do Lusitano o preço grande e raro,
- Que o nome ilustre a um certo amor obriga
- E faz, a quem o tem, amado e caro.
- Desta arte vai fazendo a gente amiga,
- Co rumor famosíssimo, e perclaro.
- Já Melinde em desejos arde todo
- De ver da gente forte o gesto e modo.
- Dali para Mombaça logo parte,
- Aonde as naus estavam temerosas,
- Para que à gente mande que se aparte
- Da barra amiga e terras suspeitosas:
- Porque mui pouco val esforço e arte,
- Contra infernais vontades enganosas;
- Pouco val coração, astúcia e siso,
- Se lá dos Céus não vem celeste aviso.
- No feio caminho a noite tinha anelado,
- E, as estrelas no Céu, coa luz alhea,
- Tinham o largo Mundo alumiado;
- E só co'o sono a gente se recreia.
- O Capitão ilustre, já cansado
- De vigiar a noite que arreceia,
- Breve repouso então aos olhos dava,
- A outra gente a quartos vigiava;
- Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,
- Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,
- Da cilada que o Rei malvado tece,
- Por te trazer ao fim, e extremo dano;
- Fuge, que o vento, e o Céu te favorece;
- Sereno o tempo tens e o Oceano,
- E outro Rei mais amigo, noutra parte,
- Onde podes seguro agasalhar-te.
- "Não tens aqui senão aparelhado
- O hospício que o cru Diomedes dava,
- Fazendo ser manjar acostumado
- De cavalos a gente que hospedava;
- As aras de Busíris infamado,
- Onde os hóspedes tristes imolava,
- Terás certas aqui, se muito esperas.
- Fuge das gentes pérfidas e feras.
- "Vai-te ao longo da costa discorrendo,
- E outra terra acharás de mais verdade,
- Lá quase junto donde o Sol ardendo
- Iguala o dia e noite em quantidade;
- Ali tua frota alegre recebendo
- Um Rei, com muitas obras de amizade,,
- Gasalhado seguro te daria,
- E, para a índia, certa e sábia guia."
- Isto Mercúrio disse, e o sono leva
- Ao Capitão, que com mui grande espanto
- Acorda, e vê ferida a escura treva
- De uma súbita luz e raio santo.
- E vendo claro quanto lhe releva
- Não se deter na terra iníqua tanto,
- Com novo espírito ao mestre seu mandava
- Que as velas desse ao vento que assopravam.
- "Dai velas, disse, dai ao largo vento,
- Que o Céu nos favorece e Deus o manda;
- Que um mensageiro vi do claro assento
- Que só em favor de nossos passos anda."
- Alevanta-se nisto o movimento
- Dos marinheiros, de uma e de outra banda;
- Levam gritando as âncoras acima,
- Mostrando a ruda força, que se estima.
- Neste tempo, que as âncoras levavam,
- Na sombra escura os Mouros escondidos
- Mansamente as amarras lhe cortavam,
- Por serem, dando à costa, destruídos;
- Mas com vista de linces vigiavam
- Os Portugueses, sempre apercebidos.
- Eles, como acordados os sentiram,
- Voando, e não remando, lhe fugiram.
- Mas já as agudas proas apartando
- Iam as vias húmidas de argento;
- Assopra-lhe galerno o vento, e brando,
- Com suave e seguro movimento.
- Nos perigos passados vão falando,
- Que mal se perderão do pensamento
- Os casos grandes, donde em tanto aperto
- A vida em salvo escapa por acerto.
- Tinha uma volta dado o Sol ardente
- E noutro começava, quando viram
- Ao longe deus navios, brandamente
- Co'os ventos navegando, que respiram:
- Porque haviam de ser da Maura gente,
- Para eles arribando, as velas viram:
- Um, de temor do mal que arreceava,
- Por se salvar a gente à costa dava.
- Não é o outro que fica tão manhoso;
- Mas nas mãos vai cair do Lusitano,
- Sem o rigor de Marte furioso,
- E sem a fúria horrenda de Vulcano;
- Que como fosse débil e medroso
- Da pouca gente o fraco peito humano,
- Não teve resistência; e se a tivera,
- Mais dano resistindo recebera.
- E como o Gama muito desejasse
- Piloto para a Índia que buscava,
- Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;
- Mas não lhe sucedeu como cuidava,
- Que nenhum deles há que lhe ensinasse
- A que parte dos céus a Índia estava;
- Porém dizem-lhe todos, que tem perto
- Melinde, onde achará piloto certo.
- Louvam do Rei os Mouros a bondade,
- Condição liberal, sincero peito,
- Magnificência grande e humanidade,
- Com partes de grandíssimo respeito.
- O Capitão o assela por verdade,
- Porque já lhe dissera, deste jeito,
- Cileneu em sonhos; e partia
- Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.
- Era no tempo alegre, quando entrava
- No roubador de Europa a luz Febeia,
- Quando um e outro corno lhe aquentava,
- E Flora derramava o de Amalteia:
- A memória do dia renovava
- O pressuroso Sol, que o Céu rodeia,
- Em que Aquele, a quem tudo está sujeito,
- O selo pôs a quanto tinha feito;
- Quando chegava a frota àquela parte,
- Onde o Reino Melinde já se via,
- De toldos adornada, e leda de arte
- Que bem mostra estimar o santo dia.
- Treme a bandeira, voa o estandarte,
- A cor purpúrea ao longe aparecia;
- Soam os atambores o pandeiros,
- E assim entravam ledos e guerreiros.
- Enche-se toda a praia Melindana
- Da gente que vem ver a leda armada,
- Gente mais verdadeira, e mais humana,
- Que toda a doutra terra atrás deixada.
- Surge diante a frota Lusitana,
- Pega no fundo a âncora pesada;
- Mandam fora um dos Mouros que tomaram,
- Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.
- O Rei, que já sabia da nobreza
- Que tanto os Portugueses engrandece,
- Tomarem o seu porto tanto preza,
- Quanto a gente fortíssima merece:
- E com verdadeiro ânimo e pureza,
- Que os peitos generosos enobrece,
- Lhe manda rogar muito que saíssem,
- Para que de seus reinos se servissem.
- São oferecimentos verdadeiros,
- E palavras sinceras, não dobradas,
- As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,
- Que tanto mar e terras tem passadas.
- Manda-lhe mais lanígeros carneiros,
- E galinhas domésticas cevadas,
- Com as frutas, que então na terra havia;
- E a vontade à dádiva excedia.
- Recebe o Capitão alegremente
- O mensageiro ledo e seu recado;
- E logo manda ao Rei outro presente,
- Que de longe trazia aparelhado:
- Escarlata purpúrea, cor ardente,
- O ramoso coral, fino e prezado,
- Que debaixo das águas mole cresce,
- E como é fora delas se endurece.
- Manda mais um, na prática elegante,
- Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,
- E que de não sair naquele instante
- De suas naus em terra o desculpasse.
- Partido assim o embaixador prestante,
- Como na terra ao Rei se apresentasse,
- Com estilo que Palas lhe ensinava,
- Estas palavras tais falando orava:
- "Sublime Rei, a quem do Olimpo puro
- Foi da suma Justiça concedido
- Refrear o soberbo povo duro,
- Não menos dele amado, que temido:
- Como porto mui forte e mui seguro,
- De todo o Oriente conhecido,
- Te vimos a buscar, para que achemos
- Em ti o remédio certo que queremos.
- "Não somos roubadores, que passando
- Pelas fracas cidades descuidadas,
- A ferro e a fogo as gentes vão matando,
- Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
- Mas da soberba Europa navegando,
- Imos buscando as terras apartadas
- Da Índia grande e rica, por mandado
- De um Rei que temos, alto e sublimado.
- "Que geração tão dura há hi de gente,
- Que bárbaro costume e usança feia,
- Que não vedem os portos tão somente,
- Mas inda o hospício da deserta areia?
- Que má tenção, que peito em nós se sente,
- Que de tão pouca gente se arreceia?
- Que com laços armados, tão fingidos,
- Nos ordenassem ver-nos destruídos?
- "Mas tu, e quem mui certo confiamos
- Achar-se mais verdade, ó Rei benigno,
- E aquela certa ajuda em ti esperamos,
- Que teve o perdido Ítaco em Alcino,
- A teu porto seguro navegamos,
- Conduzidos do intérprete divino;
- Que, pois a ti nos manda, está mui claro,
- Que és de peito sincero, humano e raro.
- "E não cuides, ó Rei, que não saísse
- O nosso Capitão esclarecido
- A ver-te, ou a servir-te, porque visse
- Ou suspeitasse em ti peito fingido:
- Mas saberás que o fez, porque cumprisse
- O regimento, em tudo obedecido,
- De seu Rei, que lhe manda que não saia,
- Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.
- "E porque é, de vassalos o exercício,
- Que os membros tem regidos da cabeça,
- Não quererás, pois tens de Rei o ofício,
- Que ninguém a seu Rei desobedeça;
- Mas as mercês e o grande benefício,
- Que ora acha em ti, promete que conheça
- Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
- Enquanto os rios para o mar correrem."
- Assim dizia; e todos juntamente,
- Uns com outros em prática falando,
- Louvavam muito o estâmago da gente,
- Que tantos céus e mares vai passando.
- E o Rei ilustre, o peito obediente
- Dos Portugueses na alma imaginando,
- Tinha por valor grande e mui subido
- O do Rei que é tão longe obedecido.
- E com risonha vista e ledo aspeito,
- Responde ao embaixador, que tanto estima:
- "Toda a suspeita má tirai do peito,
- Nenhum frio temor em vós se imprima;
- Que vosso preço e obras são de jeito
- Para vos ter o mundo em muita estima;
- E quem vos fez molesto tratamento,
- Não pode ter subido pensamento.
- "De não sair em terra toda a gente,
- Por observar a usada preminência,
- Ainda que me pese estranhamente,
- Em muito tenho a muita obediência;
- Mas, se lho o regimento não consente,
- Nem eu consentirei que a excelência
- De peitos tão leais em si desfaça,
- Só porque a meu desejo satisfaça.
- "Porém, como a luz crástina chegada
- Ao mundo for, em minhas almadias
- Eu irei visitar a forte armada,
- Que ver tanto desejo, há tantos dias;
- E se vier do mar desbaratada,
- Do furioso vento e longas vias,
- Aqui terá, de limpos pensamentos,
- Piloto, munições e mantimentos."
- Isto disse; e nas águas se escondia
- O filho de Latona; e o mensageiro
- Coa embaixada alegre se partia
- Para a frota, no seu batel ligeiro.
- Enchem-se os peitos todos de alegria.
- Por terem o remédio verdadeiro
- Para acharem a terra que buscavam;
- E assim ledos a noite festejavam.
- Não faltam ali os raios de artifício,
- Os trêmulos cometas imitando;
- Fazem os bombardeiros seu ofício,
- O céu, a terra e as ondas atroando.
- Mostra-se dos Ciclopas o exercício
- Nas bombas que de fogo estão queimando;
- Outros com vozes, com que o céu feriam,
- Instrumentos altíssonos tangiam.
- Respondem-lhe da terra juntamente,
- Co'o raio volteando, com zunido;
- Anda em giros no ar a roda ardente,
- Estoura o pó sulfúreo escondido.
- A grita se alevanta ao céu, da gente;
- O mar se via em fogos acendido,
- E não menos a terra; e assim festeja
- Um ao outro, a maneira de peleja.
- Mas já o Céu inquieto revolvendo,
- As gentes incitava a seu trabalho,
- E já a mãe de Menon a luz trazendo,
- Ao sono longo punha certo atalho;
- Iam-se as sombras lentas desfazendo,
- Sobre as flores da terra em frio orvalho,
- Quando o Rei Melindano se embarcava
- A ver a frota, que no mar estava.
- Viam-se em derredor ferver as praias
- Da gente, que a ver só concorre leda;
- Luzem da fina púrpura as cabaias,
- Lustram os panos da tecida seda;
- Em lugar das guerreiras azagaias
- E do arco, que os cornos arremeda
- Da Lua, trazem ramos de palmeira,
- Dos que vencem, coroa verdadeira.
- Um batel grande e largo, que toldado
- Vinha de sedas de diversas cores,
- Traz o Rei de Melinde, acompanhado
- De nobres e seu Reino e de senhores:
- Vem de ricos vestidos adornado,
- Segundo seus costumes e primores;
- Na cabeça uma fota guarnecida
- De ouro, e de seda e de algodão tecida.
- Cabaia de Damasco rico e dino,
- Da Tíria cor, entre eles estimada,
- Um colar ao pescoço, de ouro fino,
- Onde a matéria da obra é superada,
- C'um resplendor reluze adamantino;
- Na cinta, a rica bem lavrada;
- Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,
- Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.
- Com um redondo emparo alto de seda,
- Numa alta e dourada hástia enxerido,
- Um ministro à solar quentura veda.
- Que não ofenda e queime o Rei subido.
- Música traz na proa, estranha e leda,
- De áspero som, horríssono ao ouvido,
- De trombetas arcadas em redondo,
- Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.
- Não menos guarnecido o Lusitano
- Nos seus batéis, da frota se partia
- A receber no mar o Melindano,
- Com lustrosa e lograda companhia.
- Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
- Mas Francesa era a roupa que vestia,
- De cetim da Adriática Veneza
- Carmesi, cor que a gente tanto preza:
- De botões douro as mangas vêm tomadas,
- Onde o Sol reluzindo a vista cega;
- As calças soldadescas recamadas
- Do metal, que Fortuna a tantos nega,
- E com pontas do mesmo delicadas
- Os golpes do gibão ajunta e achega;
- Ao Itálico modo a áurea espada;
- Pluma na gorra, um pouco declinada.
- Nos de sua companhia se mostrava
- Da tinta, que dá o múrice excelente,
- A vária cor, que os olhos alegrava,
- E a maneira do trajo diferente.
- Tal o formoso esmalte se notava
- Dos vestidos, olhados juntamente,
- Qual aparece o arco rutilante
- Da bela Ninfa, filha de Taumante.
- Sonorosas trombetas incitavam
- Os ânimos alegres, ressoando;
- Dos Mouros os batéis, o mar coalhavam,
- Os toldos pelas águas arrojando;
- As bombardas horríssonas bramavam,
- Com as nuvens de fumo o Sol tomando;
- Amiúdam-se os brados acendidos,
- Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.
- Já no batel entrou do Capitão
- O Rei, que nos seus braços o levava;
- Ele coa cortesia, que a razão
- (Por ser Rei) requeria, lhe falava.
- C'umas mostras de espanto e admiração,
- O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
- Como quem em mui grande estima tinha
- Gente que de tão longe à índia vinha.
- E com grandes palavras lhe oferece
- Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,
- E que, se mantimento lhe falece,
- Como se próprio fosse, lho pedisse.
- Diz-lhe mais, que por fama bem conhece
- A gente Lusitana, sem que a visse;
- Que já ouviu dizer, que noutra terra
- Com gente de sua Lei tivesse guerra.
- E como por toda África se soa,
- Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,
- Quando nela ganharam a coroa
- Do Reino, onde as Hespéridas viveram;
- E com muitas palavras apregoa
- O menos que os de Luso mereceram,
- E o mais que pela fama o Rei sabia.
- Mas desta sorte o Gama respondia:
- "Ó tu, que só tiveste piedade,
- Rei benigno, da gente Lusitana,
- Que com tanta miséria e adversidade
- Dos mares experimenta a fúria insana;
- Aquela alta e divina Eternidade,
- Que o Céu revolve e rege a gente humana,
- Pois que de ti tais obras recebemos,
- Te pague o que nós outros não podemos.
- "Tu só, de todos quantos queima Apolo,
- Nos recebes em paz, cio mar profundo;
- Em ti dos ventos hórridos de Eolo
- Refúgio achamos bom, fido e jocundo.
- Enquanto apascentar o largo Pólo
- As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
- Onde quer que eu viver, com fama e glória
- Viverão teus louvores em memória."
- Isto dizendo, os barcos vão remando
- Para a frota, que o Mouro ver deseja;
- Vão as naus uma e uma rodeando,
- Porque de todas tudo note e veja.
- Mas para o céu Vulcano fuzilando,
- A frota coas bombardas o festeja,
- E as trombetas canoras lhe tangiam;
- Co'os anafis os Mouros respondiam.
- Mas depois de ser tudo já notado
- Do generoso Mouro, que pasmava
- Ouvindo o instrumento inusitado,
- Que tamanho terror em si mostrava,
- Mandava estar quieto e ancorado
- N'água o batel ligeiro que os levava,
- Por falar de vagar co'o forte Gama,
- Nas cousas de que tem notícia e faina.
- Em práticas o Mouro diferentes
- Se deleitava, perguntando agora
- Pelas guerras famosas e excelentes
- Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;
- Agora lhe pergunta pelas gentes
- De toda a Hespéria última, onde mora;
- Agora pelos povos seus vizinhos,
- Agora pelos úmidos caminhos.
- "Mas antes, valeroso Capitão,
- Nos conta, lhe dizia, diligente,
- Da terra tua o clima, e região
- Do mundo onde morais distintamente;
- E assim de vossa antiga geração,
- E o princípio do Reino tão potente,
- Co'os sucessos das guerras do começo,
- Que, sem sabê-las, sei que são de preço.
- "E assim também nos conta dos rodeios
- Longos, em que te traz o mar irado,
- Vendo os costumes bárbaros alheios.
- Que a nossa África ruda tem criado.
- Conta: que agora vêm co'os áureos freios
- Os cavalos que o carro marchetado
- Do novo Sol, da fria Aurora trazem,
- O vento dorme, o mar e as ondas jazem.
- "E não menos co'o tempo se parece
- O desejo de ouvir-te o que contares;
- Que quem há, que por fama não conhece
- As obras Portuguesas singulares?
- Não tanto desviado resplandece
- De nós o claro Sol, para julgares
- Que os Melindanos têm tão rudo peito,
- Que não estimem muito um grande feito.
- "Cometeram soberbos os Gigantes,
- Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;
- Tentou Pirítoo e Teseu, de ignorantes,
- O Reino de Plutão horrendo e escuro.
- Se houve feitos no mundo tão possantes,
- Não menos é trabalho ilustre e duro,
- Quanto foi cometer Inferno o Céu,
- Que outrem cometa a fúria de Nereu.
- "Queimou o sagrado templo de Diana,
- Do subtil Tesifónio fabricado,
- Heróstrato, por ser da gente humana
- Conhecido no mundo e nomeado:
- Se também com tais obras nos engana
- O desejo de um nome avantajado,
- Mais razão há que queira eterna glória
- Quem faz obras tão dignas de memória."