Já se viam chegados junto à terra
87 oitavas
- Já se viam chegados junto à terra,
- Que desejada já de tantos fora,
- Que entre as correntes Indicas se encerra,
- E o Ganges, que no céu terreno mora.
- Ora, sus, gente forte, que na guerra
- Quereis levar a palma vencedora,
- Já sois chegados, já tendes diante
- A terra de riquezas abundante.
- A vós, ó geração de Luso, digo,
- Que tão pequena parte sois no inundo;
- Não digo ainda no mundo, mas no amigo
- Curral de quem governa o céu rotundo;
- Vós, a quem não somente algum perigo
- Estorva conquistar o povo imundo,
- Mas nem cobiça, ou pouca obediência
- Da Madre, que nos céus está em essência;
- Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,
- Que o fraco poder vosso não pesais;
- Vós, que à custa de vossas várias mortes
- A lei da vida eterna dilatais:
- Assim do céu deitadas são as sortes,
- Que vós, por muito poucos que sejais,
- Muito façais na santa Cristandade:
- Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!
- Vede-los Alemães, soberbo gado,
- Que por tão largos campos se apascenta,
- Do sucessor de Pedro, rebelado,
- Novo pastor, e nova seita inventa:
- Vede-lo em feias guerras ocupado,
- Que ainda com o cego error se não contenta,
- Não contra o soberbíssimo Otomano,
- Mas por sair do jugo soberano.
- Vede-lo duro Inglês, que se nomeia
- Rei da velha e santíssima cidade,
- Que o torpe Ismaelita senhoreia,
- (Quem viu honra tão longe da verdade?)
- Entre as Boreais neves se recreia,
- Nova maneira faz de Cristandade:
- Para os de Cristo tem a espada nua,
- Não por tomar a terra que era sua.
- Guarda-lhe por entanto um falso Rei
- A cidade Hierosólima terrestre,
- Enquanto ele não guarda a santa lei
- Da cidade Hierosólima celeste.
- Pois de ti, Galo indigno, que direi?
- Que o nome Cristianíssimo quiseste,
- Não para defendê-lo, nem guardá-lo,
- Mas para ser contra ele, e derrubá-lo!
- Achas que tens direito em senhorios
- De Cristãos, sendo o teu tão largo e tanto,
- E não contra o Cinífio e Nilo, rios
- Inimigos do antigo nome santo?
- Ali se hão de provar da espada os fios
- Em quem quer reprovar da Igreja o canto.
- De Carlos, de Luís, o nome e a terra
- Herdaste, e as causas não da justa guerra?
- Pois que direi daqueles que em delícias,
- Que o vil ócio no mundo traz consigo,
- Gastam as vidas, logram as divícias,
- Esquecidos de seu valor antigo?
- Nascem da tirania inimicícias,
- Que o povo forte tem de si inimigo:
- Contigo, Itália, falo, já submersa
- Em Vícios mil, e de ti mesma adversa.
- Ó míseros Cristãos, pela ventura,
- Sois os dentes de Cadmo desparzidos,
- Que uns aos outros se dão a morte dura,
- Sendo todos de um ventre produzidos?
- Não vedes a divina sepultura
- Possuída de cães, que sempre unidos
- Vos vêm tomar a vossa antiga terra,
- Fazendo-se famosos pela guerra?
- Vedes que têm por uso e por decreto,
- Do qual são tão inteiros observantes,
- Ajuntarem o exército inquieto
- Contra os povos que são de Cristo amantes;
- Entre vós nunca deixa a fera Aleto
- De semear cizânias repugnantes:
- Olhai se estais seguros de perigos,
- Que eles e vós sois vossos inimigos.
- Se cobiça de grandes senhorios
- Vos faz ir conquistar terras alheias,
- Não vedes que Pactolo e Hermo, rios,
- Ambos volvem auríferas areias?
- Em Lídia, Assíria, lavram de ouro os fios;
- África esconde em si luzentes veias;
- Mova-vos já sequer riqueza tanta,
- Pois mover-vos não pode a Casa Santa.
- Aquelas invenções feras e novas
- De instrumentos mortais da artilharia,
- Já devem de fazer as duras provas
- Nos muros de Bizâncio e de Turquia.
- Fazei que torne lá às silvestres covas
- Dos Cáspios montes, e da Cítia fria
- A Turca geração, que multiplica
- Na polícia da vossa Europa rica.
- Gregos, Traces, Arménios, Georgianos,
- Bradando-vos estão que o povo bruto
- Lhe obriga os caros filhos aos profanos
- Preceptos do Alcorão (duro tributo!)
- Em castigar os feitos inumanos
- Vos gloriai de peito forte e astuto,
- E não queirais louvores arrogantes
- De serdes contra os vossos muito possantes.
- Mas entanto que cegos o sedentos
- Andais de vosso sangue, ó gente insana!
- Não faltarão Cristãos atrevimentos
- Nesta pequena casa Lusitana:
- De África tem marítimos assentos,
- É na Ásia mais que todas soberana,
- Na quarta parte nova os campos ara,
- E se mais mundo houvera, lá chegara.
- E vejamos entanto que acontece
- Aqueles tão famosos navegantes,
- Depois que a branda Vénus enfraquece
- O furor vão dos ventos repugnantes:
- Depois que a larga terra lhe aparece,
- Fim de suas porfias tão constantes,
- Onde vêm semear de Cristo a, lei,
- E dar novo costume e novo Rei.
- Tanto que à nova terra se chegaram,
- Leves embarcações de pescadores
- Acharam, que o caminho lhe mostraram
- De Calecu, onde eram moradores.
- Para lá logo as proas se inclinaram,
- Porque esta era a cidade das melhores
- Do Malabar melhor, onde vivia
- O Rei que a terra toda possuía.
- Além do Indo jaz, e aquém do Gange,
- Um terreno muito grande e assaz famoso,
- Que pela parte Austral o mar abrange,
- E para o Norte o Emódio cavernoso.
- Jugo de Reis diversos o constrange
- A várias leis: alguns o vicioso
- Mahoma, alguns os ídolos adoram,
- Alguns os animais, que entre eles morri.
- Lá bem no grande monte, que cortando
- Tão larga terra, toda Ásia discorre,
- Que nomes tão diversos vai tomando,
- Segundo as regiões por onde corre,
- As fontes saem, donde vêm manando
- Os rios, cuja grã corrente morre
- No mar Índico, e cercam todo o peso
- Do terreno, fazendo-o Quersoneso.
- Entro um e outro rio, em grande espaço,
- Sai da larga terra uma loira ponta
- Quase piramidal, que no regaço
- Do mar com Ceilão ínsula confronta;
- E junto donde nasce o largo braço
- Gangético, o rumor antigo conta
- Que os vizinhos, da terra moradores,
- Do cheiro se mantêm das finas flores.
- Mas agora de nomes e de usança
- Novos e vários são os habitantes:
- Os Delis, os Patanes, que em possança
- De terra e gente, são mais abundantes;
- Decanis, Oriás, que a esperança
- Têm de sua salvação nas ressonantes
- Águas do Gange, e a terra de Bengala
- Fértil de sorte que outra não lhe iguala.
- O Reino de Cambaia belicoso
- (Dizem que foi de Poro, Rei potente)
- O Reino de Narsinga, poderoso
- Mais de ouro e pedras que de forte gente.
- Aqui se enxerga lá do mar undoso
- Um monte alto, que corre longamente,
- Servindo ao Malabar de forte muro,
- Com que do Canará vive seguro.
- Da terra os naturais lhe chamam Gate,
- Do pé do qual pequena quantidade
- Se estende uma fralda estreita, que combate
- Do mar a natural ferocidade.
- Aqui de outras cidades, sem debate,
- Calecu tem a ilustre dignidade
- De cabeça de Império rica e bela:
- Samorim se intitula o senhor dela.
- Chegada a frota ao rico senhorio,
- Um Português mandado logo parte
- A fazer sabedor o Rei gentio
- Da vinda sua a tão remota parte.
- Entrando o mensageiro pelo rio,
- Que ali nas ondas entra, a não vista arte,
- A cor, o gesto estranho, o trajo novo
- Fez concorrer a vê-lo todo o povo.
- Entre a gente que a vê-lo concorria,
- Se chega um Mahometa, que nascido
- Fora na região da Berberia,
- Lá onde fora Anteu obedecido:
- Ou pela vizinhança já teria
- O Reino Lusitano conhecido,
- Ou foi já assinalado de seu ferro:
- Fortuna o trouxe a tão loiro desterro.
- Em vendo o mensageiro, com jocundo
- Rosto, como quem sabe a língua Hispana,
- Lhe disse: "Quem te trouxe a estoutro mundo,
- Tão longe da tua pátria Lusitana?"
- - "Abrindo, lhe responde, o mar profundo,
- Por onde nunca veio gente humana,
- Vimos buscar do Indo a grão corrente,
- Por onde a Lei divina se acrescente."
- Espantado ficou da grã viagem
- O Mouro, que Monçaide se chamava,
- Ouvindo as opressões que na passagem
- Do mar, o Lusitano lhe contava:
- Mas vendo enfim que a f orça da mensagem
- Só para o Rei da terra relevava,
- Lhe diz que estava f ora da cidade,
- Mas de caminho pouca quantidade.
- E que, entanto que a nova lhe chegasse
- De sua estranha vinda, se queria,
- Na sua pobre casa repousasse,
- E do manjar da terra comeria,
- E depois que se um pouco recreasse,
- Com ele para a armada tornaria,
- Que alegria não pode ser tamanha,
- Que achar gente vizinha em terra estranha.
- O Português aceita de vontade
- O que o ledo Monçaide lhe oferece;
- Como se longa fora já a amizade,
- Com ele come, e bebe, e lhe obedece.
- Ambos se tornam logo da cidade
- Para a frota, que o Mouro bem conhece;
- Sobem à capitania; e toda a gente
- Monçaide recebeu benignamente.
- O Capitão o abraça em cabo ledo,
- Ouvindo clara a língua de Castela;
- Junto de si o assenta, e pronto e quedo,
- Pela terra pergunta, e cousas dela.
- Qual se ajuntava em Ródope o arvoredo,
- Só por ouvir o amante da donzela
- Eurídice, tocando a lira de ouro,
- Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro.
- Ele começa: "Ó gente, que a natura
- Vizinha fez de meu paterno ninho,
- Que destino tão grande ou que ventura
- Vos trouxe a cometerdes tal caminho?
- Não é sem causa, não, oculta e escura,
- Vir do longínquo Tejo e ignoto Minho,
- Por mares nunca doutro lenho arados,
- A Reinos tão remotos e apartados.
- "Deus por certo vos traz, porque pretende
- Algum serviço seu por vós obrado;
- Por isso só vos guia, e vos defende
- Dos inimigos, do mar, do vento irado.
- Sabei que estais na Índia, onde se estende
- Diverso povo, rico e prosperado
- De ouro luzente e fina pedraria,
- Cheiro suave, ardente especiaria.
- "Esta província, cujo porto agora
- Tomado tendes, Malabar se chama:
- Do culto antigo os ídolos adora,
- Que cá por estas partes se derrama:
- De diversos Reis é, mas dum só
- Noutro tempo, segundo a antiga fama;
- Saramá Perimal foi derradeiro
- Rei, que este Reino teve unido e inteiro.
- "Porém, como a esta terra então viessem
- De lá do seio Arábico outras gentes,
- Que o culto Mahomético trouxessem,
- No qual me instituíram meus parentes,
- Sucedeu que pregando convertessem
- O Perimal: de sábios e eloquentes,
- Fazem-lhe a lei tomar com fervor tanto,
- Que pressupôs de nela morrer santo.
- "Naus arma, e nelas mete curioso
- Mercadoria, que ofereça rica,
- Para ir nelas a ser religioso,
- Onde o profeta jaz, que a Lei publica;
- Antes que parta, o Reino poderoso
- Com os seus reparte, porque não lhe fica
- Herdeiro próprio, faz os mais aceitos
- Ricos de pobres, livres de sujeitos.
- "A um Cochim, e a outro Cananor,
- A qual Chalé, a qual a ilha da Pimenta,
- A qual Coulão, a qual dá Cranganor,
- E os mais, a quem o mais serve e contenta,
- Um só moço, a quem tinha muito amor,
- Depois que tudo deu, se lhe apresenta:
- Para este Calecu somente fica,
- Cidade já por trato nobre e rica.
- "Esta lhe dá com o título excelente
- De Imperador, que sobre os outros mande.
- Isto feito, se parte diligente
- Para onde em santa vida acabe, e ande.
- E daqui fica o nome de potente
- Samori, mais que todos digno e grande,
- Ao moço e descendentes; donde vem
- Este, que agora o Império manda e tem.
- "A Lei da gente toda, rica e pobre,
- De fábulas composta se imagina:
- Andam nus, e somente um pano cobre
- As partes, que a cobrir natura ensina.
- Dois modos há de gente, porque a nobre
- Naires chamados são, e a menos digna
- Poleás tem por nome, a quem obriga
- A Lei não misturar a casta antiga.
- "Porque os que usaram sempre um mesmo ofício,
- De outro não podem receber consorte,
- Nem os filhos terão outro exercício,
- Senão o de seus passados, até morte.
- Para os Naires é certo grande vício
- Destes serem tocados; de tal sorte,
- Que quando algum se toca, por ventura,
- Com cerimónias mil se alimpa e apura.
- "Desta sorte o Judaico povo antigo
- Não tocava na gente de Samária.
- Mais estranhezas ainda das que digo
- Nesta terra vereis de usança vária.
- Os Naires sós são dados ao perigo
- Das armas; sós defendem da contrária
- Banda o seu Rei, trazendo sempre usada
- Na esquerda a adarga e na direita a espada.
- "Brâmenes são os seus religiosos,
- Nome antigo e de grande proeminência:
- Observam os preceitos tão famosos
- Dum que primeiro pôs nome à ciência:
- Não matam coisa viva, e, temerosos,
- Das carnes têm grandíssima abstinência;
- Somente no venéreo ajuntamento
- Têm mais licença e menos regimento.
- "Gerais são as mulheres, mas somente
- Para os da geração de seus maridos:
- Ditosa condição, ditosa gente,
- Que não são de ciúmes ofendidos!
- Estes e outros costumes variamente
- São pelos Malabares admitidos.
- A terra é grossa em trato, em tudo aquilo
- Que as ondas podem dar da China ao Nilo."
- Assim contava o Mouro; mas vagando
- Andava a fama já pela cidade
- Da vinda desta gente estranha, quando
- O Rei saber mandava da verdade.
- Já vinham pelas ruas caminhando,
- Rodeados de todo sexo e idade,
- Os principais, que o Rei buscar mandara
- O Capitão da armada, que chegara.
- Mas ele, que do Rei já tem licença
- Para desembarcar, acompanhado
- Dos nobres Portugueses, sem detença
- Parte, de ricos panos adornado.
- Das cores a formosa diferença
- A vista alegra ao povo alvoroçado.
- O remo compassado fere frio
- Agora o mar, depois o fresco rio.
- Na praia um regedor do Reino estava,
- Que na sua língua Catual se chama,
- Rodeado de Naires, que esperava
- Com desusada festa o nobre Gama.
- Já na terra, nos braços o levava,
- E num portátil leito uma rica cama
- Lhe oferece, em que vá, costume usado,
- Que nos ombros dos homens é levado.
- Desta arte o Malabar, destarte o Luso
- Caminham, lá para onde o Rei o espera:
- Os outros Portugueses vão ao uso
- Que infantaria segue, esquadra fera.
- O povo que concorre vai confuso
- De ver a gente estranha, e bem quisera
- Perguntar: mas no tempo já passado
- Na torre de Babel lhe foi vedado.
- O Gama e o Catual iam falando
- Nas coisas, que lhe o tempo oferecia;
- Monçaide entre eles vai interpretando
- As palavras que de ambos entendia.
- Assim pela cidade caminhando,
- Onde uma rica fábrica se erguia
- De um sumptuoso templo, já chegavam,
- Pelas portas do qual juntos entravam.
- Ali estão das deidades as figuras
- Esculpidas em pau e em pedra fria;
- Vários de gestos, vários de pinturas,
- A segundo o Demónio lhe fingia:
- Vêem-se as abomináveis esculturas,
- Qual a Quimera em membros se varia:
- Os Cristãos olhos, a ver Deus usados
- Em forma humana, estão maravilhados.
- Um na cabeça cornos esculpidos,
- Qual Júpiter Amon em Líbia estava;
- Outro num corpo rostos tinha unidos,
- Bem como o antigo Jano se pintava;
- Outro com muitos braços divididos
- A Briareu parece que imitava;
- Outro fronte canina tem de fora,
- Qual Anúbis Menfítico se adora.
- Aqui feita do bárbaro gentio
- A supersticiosa adoração,
- Direitos vão, sem outro algum desvio,
- Para onde estava o Rei do povo vão.
- Engrossando-se vai da gente o fio,
- Com os que vêm ver o estranho Capitão;
- Estão pelos telhados e janelas
- Velhos e moços, donas e donzelas.
- Já chegam perto, e não com passos lentos,
- Dos jardins odoríferos formosos,
- Que em si escondem os régios aposentos,
- Altos de torres não, mas sumptuosos.
- Edificam-se os nobres seus assentos
- Por entre os arvoredos deleitosos:
- Assim vivem os Reis daquela gente,
- No campo e na cidade juntamente.
- Pelos portais da cerca a sutileza
- Se enxerga da Dedálea facultade,
- Em figuras mostrando, por nobreza,
- Da Índia a mais remota antiguidade.
- Afiguradas vão com tal viveza
- As histórias daquela antiga idade,
- Que quem delas tiver notícia inteira,
- Pela sombra conhece a verdadeira.
- Estava um grande exército que pisa
- A terra Oriental, que o Idaspe lava;
- Rege-o um capitão de fronte lisa,
- Que com frondentes tirsos pelejava;
- Por ele edificada estiva Nisa
- Nas ribeiras do rio, que manava,
- Tão próprio, que se ali estiver Semele,
- Dirá, por certo, que é seu filho aquele.
- Mais avante bebendo seca o rio
- Mui grande multidão da Assíria gente,
- Sujeita a feminino senhorio
- De uma tão bela como incontinente.
- Ali tem junto ao lado nunca frio,
- Esculpido o feroz ginete ardente,
- Com quem teria o filho competência:
- Amor nefando, bruta incontinência!
- Daqui mais apartadas tremulavam
- As bandeiras de Grécia gloriosas,
- Terceira Monarquia, e sojugavam
- Até as águas Gangéticas undosas.
- Dum capitão mancebo se guiavam,
- De palmas rodeado valerosas,
- Que já, não de Filipo, mas sem falta
- De progénie de Júpiter se exalta.
- Os Portugueses vendo estas memórias,
- Dizia o Catual ao Capitão:
- "Tempo cedo virá que outras vitórias
- Estas, que agora olhais, abaterão;
- Aqui se escreverão novas histórias
- Por gentes estrangeiras que virão;
- Que os nossos sábios magos o alcançaram
- Quando o tempo futuro especularam.
- "E diz-lhe mais a mágica ciência
- Que, para se evitar força tamanha,
- Não valerá dos homens resistência,
- Que contra o Céu não val da gente manha;
- Mas também diz que a bélica excelência,
- Nas armas e na paz, da gente estranha
- Será tal, que será no mundo ouvido
- O vencedor, por glória do vencido,"
- Assim falando entravam já na sala,
- Onde aquele potente Imperador
- Numa camilha jaz, que não se iguala
- De outra alguma no preço e no lavor.
- No recostado gesto se assinala
- Um venerando e próspero senhor;
- Um pano de ouro cinge, e na cabeça
- De preciosas gemas se adereça.
- Bem junto dele um velho reverente,
- Com os giolhos no chão, de quando em quando
- Lhe dava a verde folha da erva ardente,
- Que a seu costume estava ruminando.
- Um Brâmene, pessoa proeminente,
- Para o Gama vem com passo brando,
- Para que ao grande Príncipe o apresente,
- Que diante lhe acena que se assente.
- Sentado o Gama junto ao rico leito,
- Os seus mais afastados, pronto em vista
- Estava o Samori no trajo e jeito
- Da gente, nunca de antes dele vista.
- Lançando a grave voz do sábio peito,
- Que grande autoridade logo aquista
- Na opinião do Rei e do povo todo,
- O Capitão lhe fala deste modo:
- "Um grande Rei, de lá das partes Onde
- O céu volúvel, com perpétua roda,
- Da terra a luz solar com a terra esconde,
- Tingindo a que deixou de escura noda,
- Ouvindo do rumor que lá responde
- O eco, como em ti da Índia toda
- O principado está, e a majestade,
- Vínculo quer contigo de amizade.
- "E por longos rodeios a ti manda,
- Por te fazer saber que tudo aquilo
- Que sobre o mar, que sobre as terras anda
- De riquezas, de lá do Tejo ao Nilo,
- E desde a fria plaga de Gelanda
- Até bem donde o Sol não muda o estilo
- Nos dias, sobre a gente de Etiópia,
- Tudo tem no seu Reino em grande cópia.
- "E se queres com pactos e alianças
- De paz e de amizade sacra e nua
- Comércio consentir das abastanças
- Das fazendas da terra sua e tua,
- Por que cresçam as rendas e abastanças,
- Por quem a gente mais trabalha e sua,
- De vossos Reinos, será certamente
- De ti proveito, o dele glória ingente.
- "E sendo assim, que o nó desta amizade
- Entre vós firmemente permaneça,
- Estará pronto a toda adversidade,
- Que por guerra a teu Reino se ofereça,
- Com gente, armas e naus, de qualidade
- Que por irmão te tenha e te conheça;
- E da vontade em ti sobre isto posta
- Me dês a mim certíssima resposta."
- Tal embaixada dava o Capitão,
- A quem o Rei gentio respondia
- Que, em ver embaixadores de nação
- Tão remota, grã glória recebia;
- Mas neste caso a última tenção
- Com os de seu conselho tomaria,
- Informando-se certo de quem era
- O Rei, e a gente, e terra que dissera..
- E que entanto podia do trabalho
- Passado ir repousar, e em tempo breve
- Daria a seu despacho um justo talho,
- Com que a seu Rei resposta alegre leve.
- Já nisto punha a noite o usado atalho
- As humanas canseiras, por que ceve
- De doce sono os membros trabalhados,
- Os olhos ocupando ao ócio dados.
- Agasalhados foram juntamente
- O Gama e Portugueses no aposento
- Do nobre Regedor da Índica gente,
- Com festas e geral contentamento.
- O Catual, no cargo diligente
- De seu Rei, tinha já por regimento
- Saber da gente estranha donde vinha,
- Que costumes, que lei, que terra tinha.
- Tanto que os ígneos carros do formoso
- Mancebo Délio viu, que a luz renova,
- Manda chamar Monçaide, desejoso
- De poder-se informar da gente nova.
- Já lhe pergunta pronto e curioso,
- Se tem notícia inteira e certa prova
- Dos estranhos, quem são; que ouvido tinha
- Que é gente de sua pátria muito vizinha;
- Que particularmente ali lhe desse
- Informação mui larga, pois faria
- Nisso serviço ao Rei, por que soubesse
- O que neste negócio se faria.
- Monçaide torna: - "Posto que eu quisesse
- Dizer-te disto mais, não saberia;
- Somente sei que é gente lá de Espanha,
- Onde o meu ninho e o Sol no mar se banha.
- "Têm a lei dum Profeta, que gerado
- Foi sem fazer na carne detrimento
- Da mãe, tal que por bafo está aprovado
- Do Deus, que tem do mundo o regimento,
- O que entre meus antigos é vulgado
- Deles, é que o valor sanguinolento
- Das armas no seu braço resplandece,
- O que em nossos passados se parece.
- "Porque eles, com virtude sobre-humana,
- Os deitaram dos campos abundosos
- Do rico Tejo e fresco Goadiana,
- Com feitos memoráveis e famosos:
- E não contentes ainda, e na Africana
- Parte, cortando os mares procelosos,
- Nos não querem deixar viver seguros,
- Tomando-nos cidades e altos muros.
- "Não menos têm mostrado esforço e manha
- Em quaisquer outras guerras que aconteças,
- Ou das gentes belígeras de Espanha,
- Ou lá dalguns que do Pírene desçam.
- Assim que nunca enfim com lança estranha
- Se tem, que por vencidos se conheçam,
- Nem se sabe ainda, não, te afirmo e asselo,
- Para estes Anibais nenhum Marcelo.
- "E se esta informação não for inteira
- Tanto quanto convém, deles pretende
- Informar-te, que é gente verdadeira,
- A quem mais falsidade enoja e ofende:
- Vai ver-lhe a f rota, as armas e a maneira
- Do fundido metal, que tudo rende,
- E folgarás de veres a polícia
- Portuguesa na paz e na milícia."
- Já com desejos o Idolatra ardia
- De ver isto, que o Mouro lhe contava.
- Manda esquipar batéis que ir ver queria
- Os lenhos em que o Gama navegava.
- Ambos partem da praia, a quem seguia
- A Naira geração, que o mar coalhava.
- A capitania sobem forte e bela,
- Onde Paulo os recebe a bordo dela.
- Purpúreos são os toldos, e as bandeiras
- Do rico fio são que o bicho gera;
- Nelas estão pintadas as guerreiras
- Obras, que o forte braço já fizera:
- Batalhas tem campais, aventureiras,
- Desafios cruéis, pintura fera,
- Que, tanto que ao Gentio se apresenta,
- A tento nela os olhos apascenta.
- Pelo que vê pergunta; mas o Gama
- Lhe pedia primeiro que se assente,
- E que aquele deleite, que tanto ama
- A seita Epicureia, experimente.
- Dos espumantes vasos se derrama
- O licor que Noé mostrara à gente:
- Mas comer o Gentio não pretende,
- Que a seita que seguia lho defende.
- A trombeta que, em paz, no pensamento
- Imagem faz de guerra, rompe os ares;
- Com o fogo o diabólico instrumento
- Se faz ouvir no fundo lá dos mares.
- Tudo o Gentio nota; mas o intento
- Mostrava sempre ter nos singulares
- Feitos dos homens, que em retrato breve
- A muda poesia ali descreve
- Alça-se em pé, com ele o Gama junto,
- Coelho de outra parti, e o Mauritano;
- Os olhos põe no bélico transunto
- De um velho branco, aspecto venerando
- Cujo nome não pode ser defunto
- Enquanto houver no mundo trato humano:
- No trajo a Grega usança está perfeita,
- Um ramo por insígnia na direita.
- Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego!
- Eu, que cometo insano e temerário,
- Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
- Por caminho tão árduo, longo e vário!
- Vosso favor invoco, que navego
- Por alto mar, com vento tão contrário,
- Que, se não me ajudais, hei grande medo
- Que o meu fraco batel se alague cedo.
- Olhai que há tanto tempo que, cantando
- O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
- A fortuna mo traz peregrinando,
- Novos trabalhos vendo, e novos danos:
- Agora o mar, agora experimentando
- Os perigos Mavórcios inumanos,
- Qual Canace, que à morte se condena,
- Numa mão sempre a espada, e noutra a pena.
- Agora, com pobreza avorrecida,
- Por hospícios alheios degradado;
- Agora, da esperança já adquirida,
- De novo, mais que nunca, derribado;
- Agora às costas escapando a vida,
- Que dum fio pendia tão delgado
- Que não menos milagre foi salvar-se
- Que para o Rei Judaico acrescentar-se.
- E ainda, Ninfas minhas, não bastava
- Que tamanhas misérias me cercassem,
- Senão que aqueles, que eu cantando andava
- Tal prémio de meus versos me tornassem:
- A troco dos descansos que esperava,
- Das capelas de louro que me honrassem,
- Trabalhos nunca usados me inventaram,
- Com que em tão duro estado me deitaram.
- Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
- O vosso Tejo cria valorosos,
- Que assim sabem prezar com tais favores
- A quem os faz, cantando, gloriosos!
- Que exemplos a futuros escritores,
- Para espertar engenhos curiosos,
- Para porem as coisas em memória,
- Que merecerem ter eterna glória!
- Pois logo em tantos males é forçado,
- Que só vosso favor me não faleça,
- Principalmente aqui, que sou chegado
- Onde feitos diversos engrandeça:
- Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado
- Que não o empregue em quem o não mereça,
- Nem por lisonja louve algum subido,
- Sob pena de não ser agradecido.
- Nem creiais, Ninfas, não, que a fama desse
- A quem ao bem comum e do seu Rei
- Antepuser seu próprio interesse,
- Inimigo da divina e humana Lei.
- Nenhum ambicioso, que quisesse
- Subir a grandes cargos, cantarei,
- Só por poder com torpes exercícios
- Usar mais largamente de seus vícios;
- Nenhum que use de seu poder bastante,
- Para servir a seu desejo feio,
- E que, por comprazer ao vulgo errante,
- Se muda em mais figuras que Proteio.
- Nem, Camenas, também cuideis que canto
- Quem, com hábito honesto e grave, veio,
- Por contentar ao Rei no ofício novo,
- A despir e roubar o pobre povo.
- Nem quem acha que é justo e que é direito
- Guardar-se a lei do Rei severamente,
- E não acha que é justo e bom respeito,
- Que se pague o suor da servil gente;
- Nem quem sempre, com pouco experto peito,
- Razões aprende, e cuida que é prudente,
- Para taxar, com mão rapace e escassa,
- Os trabalhos alheios, que não passa.
- Aqueles sós direi, que aventuraram
- Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,
- Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,
- Tão bem de suas obras merecida.
- Apolo, e as Musas que me acompanharam,
- Me dobrarão a fúria concedida,
- Enquanto eu tomo alento descansado,
- Por tornar ao trabalho, mais folgado.