Agora tu, Calíope, me ensina
143 oitavas
Morte de Inês de Castro
- Agora tu, Calíope, me ensina
- O que contou ao Rei o ilustre Gama:
- Inspira imortal canto e voz divina
- Neste peito mortal, que tanto te ama.
- Assim o claro inventor da Medicina,
- De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,
- Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,
- Te negue o amor devido, como soe.
- Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
- Como merece a gente Lusitana;
- Que veja e saiba o mundo que do Tejo
- O licor de Aganipe corre e mana.
- Deixa as flores de Pindo, que já vejo
- Banhar-me Apolo na água soberana;
- Senão direi que tens algum receio,
- Que se escureça o teu querido Orfeio.
- Prontos estavam todos escutando
- O que o sublime Gama contaria,
- Quando, depois de um pouco estar cuidando,
- Alevantando o rosto, assim dizia:
- "Mandas-me, ó Rei, que conte declarando
- De minha gente a grão genealogia:
- Não me mandas contar estranha história,
- Mas mandas-me louvar dos meus a glória.
- "Que outrem possa louvar esforço alheio,
- Cousa é que se costuma e se deseja;
- Mas louvar os meus próprios, arreceio
- Que louvor tão suspeito mal me esteja;
- E para dizer tudo, temo e creio,
- Que qualquer longo tempo curto seja:
- Mas, pois o mandas, tudo se te deve,
- Irei contra o que devo, e serei breve.
- "Além disso, o que a tudo enfim me obriga,
- É não poder mentir no que disser,
- Porque de feitos tais, por mais que diga,
- Mais me há-de ficar inda por dizer.
- Mas, porque nisto a ordens leve e siga,
- Segundo o que desejas de saber,
- Primeiro tratarei da larga terra,
- Depois direi da sanguinosa guerra.
- "Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
- Meta setentrional do Sol luzente,
- E aquela que por f ria se arreceia
- Tanto, como a do meio por ardente,
- Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
- Pela parte do Areturo, e do Ocidente,
- Com suas salsas ondas o Oceano,
- E pela Austral o mar Mediterrano.
- "Da parte donde o dia vem nascendo,
- Com Ásia se avizinha; mas o rio
- Que dos montes Rifeios vai correndo,
- Na alagoa Meotis, curvo o frio,
- As divide: e o mar que, fero e horrendo,
- Viu dos Gregos o irado senhorio,
- Onde agora de Tróia triunfante
- Não vê mais que a memória o navegante.
- "Lá onde mais debaixo está do Pólo,
- Os montes Hiperbóreos aparecem,
- E aqueles onde sempre sopra Eolo,
- E co'o nome, dos sopros se enobrecem.
- Aqui tão pouca força tem de Apolo
- Os raios que no mundo resplandecem,
- Que a neve está contido pelos montes,
- Gelado o mar, geladas sempre as fontes.
- "Aqui dos Citas grande quantidade
- Vivem, que antigamente grande guerra
- Tiveram, sobre a humana antiguidade,
- Co'os que tinham então a Egípcia terra;
- Mas quem tão fora estava da verdade,
- (Já que o juízo humano tanto erra)
- Para que do mais certo se informara,
- Ao campo Damasceno o perguntara.
- "Agora nestas partes se nomeia
- A Lápia fria, a inculta Noruega,
- Escandinávia Ilha, que se arreia
- Das vitórias que Itália não lhe nega.
- Aqui, enquanto as águas não refreia
- O congelado inverno, se navega
- Um braço do Sarmático Oceano
- Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.
- "Entre este mar e o Tánais vive estranha
- Gente: Rutenos, Moseos e Livónios,
- Sármatas outro tempo; e na montanha
- Hircínia os Marcomanos são Polónios.
- Sujeitos ao Império de Alemanha
- São Saxones, Boêmios e Panónios,
- E outras várias nações, que o Reno frio
- Lava, e o Danúbio, Amasis e Albis rio.
- "Entre o remoto Istro e o claro Estreito,
- Aonde Hele deixou co'o nome a vida,
- Estão os Traces de robusto peito,
- Do fero Marte pátria tão querida,
- Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito
- Ao Otomano está, que submetida
- Bizâncio tem a seu serviço indino:
- Boa injúria do grande Constantino!
- "Logo de Macedónia estão as gentes,
- A quem lava do Axio a água fria;
- E vós também, ó terras excelentes
- Nos costumes, engenhos e ousadia,
- Que criastes os peitos eloquentes
- E os juízos de alta fantasia,
- Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,
- E não menos por armas, que por letras.
- "Logo os Dálmatas vivem; e no seio,
- Onde Antenor já muros levantou,
- A soberba Veneza está no meio
- Das águas, que tão baixa começou.
- Da terra um braço vem ao mar, que cheio
- De esforço, nações várias sujeitou,
- Braço forte, de gente sublimada,
- Não menos nos engenhos, que na espada.
- "Em torno o cerca o Reino Neptunino,
- Co'os muros naturais por outra parte;
- Pelo meio o divide o Apenino,
- Que tão ilustre fez o pátrio Marte;
- Mas depois que o Porteiro tem divino,
- Perdendo o esforço veio, e bélica arte;
- Pobre está já de antiga potestade:
- Tanto Deus se contenta de humildade!
- "Gália ali se verá que nomeada
- Co'os Cesáreos triunfos foi no mundo,
- Que do Séquana e Ródano é regada,
- E do Giruna frio e Reno fundo.
- Logo os montes da Ninfa sepultada
- Pirene se alevantam, que segundo
- Antiguidades contam, quando arderam,
- Rios de ouro e de prata então correram.
- "Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
- Como cabeça ali de Europa toda,
- Em cujo senhorio o glória estranha
- Muitas voltas tem dado a fatal roda;
- Mas nunca poderá, com força ou manha,
- A fortuna inquieta pôr-lhe noda,
- Que lhe não tire o esforço e ousadia
- Dos belicosos peitos que em si cria.
- "Com Tingitânia entesta, e ali parece
- Que quer fechar o mar Mediterrano,
- Onde o sabido Estreito se enobrece
- Co'o extremo trabalhado Tebano.
- Com nações diferentes se engrandece,
- Cercadas com as ondas do Oceano;
- Todas de tal nobreza e tal valor,
- Que qualquer delas cuida que é melhor.
- "Tem o Tarragonês, que se fez claro
- Sujeitando Parténope inquieta;
- O Navarro, as Astúrias, que reparo
- Já foram contra a gente Mahometa;
- Tem o Galego cauto, e o grande e raro
- Castelhano, a quem fez o seu Planeta
- Restituidor de Espanha e senhor dela,
- Bétis, Lião, Granada, com Castela.
- "Eis aqui, quase cume da cabeça
- De Europa toda, o Reino Lusitano,
- Onde a terra se acaba e o mar começa,
- E onde Febo repousa no Oceano.
- Este quis o Céu justo que floresça
- Nas armas contra o torpe Mauritano,
- Deitando-o de si fora, e lá na ardente
- África estar quieto o não consente.
- "Esta é a ditosa pátria minha amada,
- A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
- Torne, com esta empresa já acabada,
- Acabe-se esta luz ali comigo.
- Esta foi Lusitânia, derivada
- De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
- Filhos foram, parece, ou companheiros,
- E nela então os Íncolas primeiros.
- "Desta o pastor nasceu, que no seu nome
- Se vê que de homem forte os feitos teve;
- Cuja fama ninguém virá que dome,
- Pois a grande de Roma não se atreve.
- Esta, o velho que os filhos próprios come
- Por decreto do Céu, ligeiro e leve,
- Veio a fazer no mundo tanta parte,
- Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:
- "Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
- Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
- Que por armas sanguinas, força e manha,
- A muitos fez perder a vida o a terra;
- Voando deste Rei a fama estranha
- Do Herculano Calpe à Cáspia serra,
- Muitos, para na guerra esclarecer-se,
- Vinham a ele e à morte oferecer-se.
- "E com um amor intrínseco acendidos
- Da Fé, mais que das honras populares,
- Eram de várias terras conduzidos,
- Deixando a pátria amada e próprios lares.
- Depois que em feitos altos e subidos
- Se mostraram nas armas singulares,
- Quis o famoso Afonso que obras tais
- Levassem prémio digno e dons iguais.
- "Destes Anrique, dizem que segundo
- Filho de um Rei de Ungria exprimentado,
- Portugal houve em sorte, que no mundo
- Então não era ilustre nem prezado;
- E, para mais sinal d'amor profundo,
- Quis o Rei Castelhano, que casado
- Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
- E com ela das terras tornou posse.
- "Este, depois que contra os descendentes
- Da escrava Agar vitórias grandes teve,
- Ganhando muitas terras adjacentes,
- Fazendo o que a seu forte peito deve,
- Em prémio destes feitos excelentes,
- Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
- Um filho, que ilustrasse o nome ufano
- Do belicoso Reino Lusitano.
- "Já tinha vindo Anrique da conquista
- Da cidade Hierosólima sagrada,
- E do Jordão a areia tinha vista,
- Que viu de Deus a carne em si lavada;
- Que não tendo Gotfredo a quem resista,
- Depois de ter Judeia sojugada,
- Muitos, que nestas guerras o ajudaram,
- Para seus senhorios se tornaram;
- "Quando chegado ao fim de sua idade,
- O forte e famoso Úngaro estremado,
- Forçado da fatal necessidade,
- O espírito deu a quem lhe tinha dado,
- Ficava o filho em tenra mocidade,
- Em quem o pai deixava seu traslado,
- Que do mundo os mais fortes igualava;
- Que de tal pai tal filho se esperava.
- "Mas o velho rumor, não sei se errado,
- Que em tanta antiguidade não há certeza,
- Conta que a mãe, tomando todo o estado,
- Do segundo himeneu não se despreza.
- O filho órfão deixava deserdado,
- Dizendo que nas terras a grandeza
- Do senhorio todo só sua era,
- Porque, para casar, seu pai lhes dera.
- "Mas o Príncipe Afonso, que desta arte
- Se chamava, do avô tomando o nome,
- Vendo-se em suas terras não ter parte,
- Que a mãe, com seu marido, as manda e come,
- Fervendo-lhe no peito o duro Marte,
- Imagina consigo como as tome.
- Revolvidas as causas no conceito,
- Ao propósito firme segue o efeito.
- "De Guimarães o campo se tingia
- Co'o sangue próprio da intestina guerra,
- Onde a mãe, que tão pouco o parecia,
- A seu filho negava o amor e a terra.
- Com ele posta em campo já se via;
- E não vê a soberba o muito que erra
- Contra Deus, contra o maternal amor;
- Mas nela o sensual era maior.
- "Ó Progne crua! ó mágica Medeia!
- Se em vossos próprios filhos vos vingais
- Da maldade dos pais, da culpa alheia,
- Olhai que inda Teresa peca mais:
- Incontinência má, cobiça feia,
- São as causas deste erro principais:
- Cila, por uma, mata o velho pai,
- Esta, por ambas, contra o filho vai.
- "Mas já o Príncipe claro o vencimento
- Do padrasto e da iníqua mãe levava;
- Já lhe obedece a terra num momento,
- Que primeiro contra ele pelejava.
- Porém, vencido de ira o entendimento,
- A mãe em ferros ásperos atava;
- Mas de Deus foi vingada em tempo breve:
- Tanta veneração aos pais se deve!
- "Eis se ajunta o soberbo Castelhano,
- Para vingar a injúria de Teresa,
- Contra o tão raro em gente Lusitano,
- A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.
- Em batalha cruel o peito humano,
- Ajudado da angélica defesa,
- Não só contra tal fúria se sustenta,
- Mas o inimigo aspérrimo afugenta.
- "Não passa muito tempo, quando o forte
- Príncipe em Guimarães está cercado
- De infinito poder; que desta sorte
- Foi refazer-se o inimigo magoado;
- Mas, com se oferecer à dura morte
- O fiel Egas amo, foi livrado;
- Que de outra arte pudera ser perdido,
- Segundo estava mal apercebido.
- "lulas o leal vassalo, conhecendo
- Que seu senhor não tinha resistência,
- Se vai ao Castelhano, prometendo
- Que ele faria dar-lhe obediência.
- Levanta o inimigo o cerco horrendo,
- Fiado na promessa e consciência
- De Egas Moniz; mas não consente o peito
- Do moço ilustre a outrem ser sujeito.
- "Chegado tinha o prazo prometido,
- Em que o Rei Castelhano já aguardava
- Que o Príncipe, a seu mando sometido,
- Lhe desse a obediência que esperava.
- Vendo Egas que ficava fementido,
- O que dele Castela não cuidava,
- Determina de dar a doce vida
- A troco da palavra mal cumprida.
- "E com seus filhos e mulher se parte
- A alevantar com eles a fiança,
- Descalços e despidos, de tal arte,
- Que mais move a piedade que a vingança.
- - "Se pretendes, Rei alto, de vingar-te
- De minha temerária confiança,
- Dizia, eis aqui venho oferecido
- A te pagar, coa vida, o prometido.
- "Vês aqui trago as vidas inocentes
- Dos filhos sem pecado e da consorte;
- Se a peitos generosos e excelentes,
- Dos fracos satisfaz a fera morte.
- Vês aqui as mãos e a língua delinquentes:
- Nelas sós exprimenta toda a sorte
- De tormentos, de mortes, pelo estilo
- De Cínis e do touro de Perilo"! -
- "Qual diante do algoz o condenado,
- Que já na vida a morte tem bebido,
- Põe no cepo a garganta, e já entregado
- Espera pelo golpe tão temido:
- Tal diante do Príncipe indinado,
- Egas estava a tudo oferecido.
- Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,
- Mais pôde, enfim, que a ira a piedade.
- " Ó grão fidelidade Portuguesa,
- De vassalo, que a tanto se obrigava!
- Que mais o Persa fez naquela empresa,
- Onde rosto e narizes se cortava?
- Do que ao grande Dario tanto pesa,
- Que mil vezes dizendo suspirava,
- Que mais o seu Zopiro são prezara,
- Que vinte Babilónias que tomara.
- Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
- O Lusitano exército ditoso,
- Contra o Mouro que as terras habitava
- D'além do claro Tejo deleitoso;
- Já no campo de Ourique se assentava
- O arraial soberbo e belicoso,
- Defronte do inimigo Sarraceno,
- Posto que em força e gente tão pequeno.
- "Em nenhuma outra cousa confiado,
- Senão no sumo Deus, que o Céu regia,
- Que tão pouco era o povo batizado,
- Que para um só cem Mouros haveria.
- Julga qualquer juízo sossegado
- Por mais temeridade que ousadia,
- Cometer um tamanho ajuntamento,
- Que para um cavaleiro houvesse cento.
- "Cinco Reis Mouros são os inimigos,
- Dos quais o principal Ismar se chama;
- Todos exprimentados nos perigos
- Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
- Seguem guerreiras damas seus amigos,
- Imitando a formosa e forte Dama,
- De quem tanto os Troianos se ajudaram,
- E as que o Termodonte já gostaram.
- "A matutina luz serena e fria,
- As estrelas do Pólo já apartava,
- Quando na Cruz o Filho de Maria,
- Amostrando-se a Afonso, o animava.
- Ele, adorando quem lhe aparecia,
- Na Fé todo inflamado assim gritava:
- - "Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,
- E não a mim, que creio o que podeis!"
- "Com tal milagre os ânimos da gente
- Portuguesa inflamados, levantavam
- Por seu Rei natural este excelente
- Príncipe, que do peito tanto amavam;
- E diante do exército potente
- Dos imigos, gritando o céu tocavam,
- Dizendo em alta voz: - "Real, real,
- Por Afonso alto Rei de Portugal."
- "Qual co'os gritos e vozes incitado,
- Pela montanha o rábido Moloso,
- Contra o touro remete, que fiado
- Na força está do corno temeroso:
- Ora pega na orelha, ora no lado,
- Latindo mais ligeiro que forçoso,
- Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,
- Do bravo a força horrenda se quebranta:
- "Tal do Rei novo o estâmago acendido
- Por Deus e pelo povo juntamente,
- O Bárbaro comete apercebido,
- Co'o animoso exército rompente.
- Levantam nisto os perros o alarido
- Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,
- As lanças e arcos tomam, tubas soam,
- Instrumentos de guerra tudo atroam.
- "Bem como quando a flama, que ateada
- Foi nos áridos campos (assoprando
- O sibilante Bóreas) animada
- Co'o vento, o seco mato vai queimando;
- A pastoral companha, que deitada
- Co'o doce sono estava, despertando
- Ao estridor do fogo que se ateia,
- Recolhe o fato, e foge para a aldeia:
- "Desta arte o Mouro atónito e torvado,
- Toma sem tento as armas mui depressa;
- Não foge; mas espera confiado,
- E o ginete belígero arremessa.
- O Português o encontra denodado,
- Pelos peitos as lanças lhe atravessa:
- Uns caem meios mortos, e outros vão
- A ajuda convocando do Alcorão.
- "Ali se vêem encontros temerosos,
- Para se desfazer uma alta serra,
- E os animais correndo furiosos
- Que Neptuno amostrou ferindo a terra.
- Golpes se dão medonhos e forçosos;
- Por toda a parte andava acesa a guerra:
- Mas o de Luso arnês, couraça e malha
- Rompe, corta, desfaz, abola e talha.
- "Cabeças pelo campo vão saltando
- Braços, pernas, sem dono e sem sentido;
- E doutros as entranhas palpitando,
- Pálida a cor, o gesto amortecido.
- Já perde o campo o exército nefando;
- Correm rios de sangue desparzido,
- Com que também do campo a cor se perde,
- Tornado carmesi de branco e verde.
- "Já fica vencedor o Lusitano,
- Recolhendo os troféus e presa rica;
- Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
- Três dias o grão Rei no campo fiei.
- Aqui pinta no branco escudo ufano,
- Que agora esta vitória certifica,
- Cinco escudos azuis esclarecidos,
- Em sinal destes cinco Reis vencidos,
- "E nestes cinco escudos pinta os trinta
- Dinheiros por que Deus fora vendido,
- Escrevendo a memória em vária tinta,
- Daquele de quem foi favorecido.
- Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
- Porque assim fica o número cumprido,
- Contando duas vezes o do meio,
- Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.
- "Passado já algum tempo que passada
- Era esta grão vitória, o Rei subido
- A tomar vai Leiria, que tomada
- Fora, mui pouco havia, do vencido.
- Com esta a forte Arronches sojugada
- Foi juntamente, e o sempre enobrecido
- Scalabicastro, cujo campo ameno,
- Tu, claro Tejo, regas tão sereno.
- "A estas nobres vilas sometidas,
- Ajunta também Mafra, em pouco espaço,
- E nas serras da Lua conhecidas,
- Sojuga a fria Sintra o duro braço;
- Sintra, onde as Naiades, escondidas
- Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,
- Onde Amor as enreda brandamente,
- Nas águas acendendo fogo ardente.
- "E tu, nobre Lisboa, que no Mundo
- Facilmente das outras és princesa,
- Que edificada foste do facundo,
- Por cujo engano foi Dardânia acesa;
- Tu, a quem obedece o mar profundo,
- Obedeceste à força Portuguesa,
- Ajudada também da forte armada,
- Que das Boreais partes foi mandada.
- "Lá do Germânico Albis, e do Rene,
- E da fria Bretanha conduzidos,
- A destruir o povo Sarraceno,
- Muitos com tensão santa eram partidos.
- Entrando a boca já do Tejo ameno,
- Co'o arraial do grande Afonso unidos,
- Cuja alta fama então subia aos Céus,
- Foi posto cerco tos muros Ulisseus.
- "Cinco vezes a Lua se escondera,
- E outras tantas mostrara cheio o rosto,
- Quando a cidade entrada se rendera
- Ao duro cerco, que lhe estava posto.
- Foi a batalha tão sanguina e fera,
- Quanto obrigava o firme pressuposto
- De vencedores ásperos e ousados,
- E de vencidos já desesperados.
- "Desta arte enfim tomada se rendeu
- Aquela que, nos tempos já passados,
- A grande força nunca obedeceu
- Dos frios povos Cíticos ousados,
- Cujo poder a tanto se estendeu
- Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
- E enfim co'o Bétis tanto alguns puderam
- Que à terra de Vandália nome deram.
- "Que cidade tão forte por ventura
- Haverá que resista, se Lisboa
- Não pôde resistir à força dura
- Da gente, cuja fama tanto voa?
- Já lhe obedece toda a Estremadura,
- Óbidos, Alenquer, por onde soa
- O tom das frescas águas, entre as pedras,
- Que murmurando lava, e Torres Vedras.
- "E vós também, ó terras Transtaganas,
- Afamadas co'o dom da flava Ceres,
- Obedeceis às forças mais que humanas,
- Entregando-lhe os muros e os poderes.
- E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
- Se sustentar a fértil terra queres;
- Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,
- E Alcácere-do-Sal estão rendidas.
- "Eis a nobre Cidade, certo assento
- Do rebelde Sertório antigamente,
- Onde ora as águas nítidas de argento
- Vem sustentar de longo a terra e a gente,
- Pelos arcos reais, que cento e cento
- Nos ares se alevantam nobremente,
- Obedeceu por meio e ousadia
- De Giraldo, que medos não temia.
- "Já na cidade Beja vai tomar
- Vingança de Trancoso destruída
- Afonso, que não sabe sossegar,
- Por estender coa fama a curta vida.
- Não se lhe pode muito sustentar
- A cidade; mas sendo já rendida,
- Em toda a cousa viva a gente irada
- Provando os fios vai da dura espada.
- "Com estas sojugada foi Palmela,
- E a piscosa Cezimbra, e juntamente,
- Sendo ajudado mais de sua estrela,
- Desbarata um exército potente:
- Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,
- Que a socorrê-la vinha diligente
- Pela fralda da serra, descuidado
- Do temeroso encontro inopinado.
- "O Rei de Badajoz era alto Mouro,
- Com quatro mil cavalos furiosos,
- Inúmeros peões, d'armas e de ouro
- Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.
- Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,
- Co'os ciúmes da vaca, arreceosos,
- Sentindo gente o bruto e cego amante
- Salteia o descuidado caminhante:
- "Desta arte Afonso súbito mostrado
- Na gente dá, que passa bem segura,
- Fere, mata, derriba denodado;
- Foge o Rei Mouro, e só da vida cura.
- Dum pânico terror todo assombrado,
- Só de segui-lo o exército procura;
- Sendo estes que fizeram tanto abalo
- Não mais que só sessenta de cavalo.
- "Logo segue a vitória sem tardança
- O grão Rei incansábil, ajuntando
- Gentes de todo o Reino, cuja usança
- Era andar sempre terras conquistando.
- Cercar vai Badajoz, e logo alcança
- O fim de seu desejo, pelejando
- Com tanto esforço, e arte, e valentia,
- Que a fez fazer às outras companhia.
- "Mas o alto Deus, que para longe guarda
- O castigo daquele que o merece,
- Ou, para que se emende, às vezes tarda,
- Ou por segredos que homem não conhece,
- Se até que sempre o forte Rei resguarda
- Dos perigos a que ele se oferece;
- Agora lhe não deixa ter defesa
- Da maldição da mãe que estava presa.
- "Que estando na cidade, que cercara,
- Cercado nela foi dos Lioneses,
- Porque a conquista dela lhe tomara,
- De Lião sendo, e não dos Portugueses.
- A pertinácia aqui lhe custa cara,
- Assim como acontece muitas vezes,
- Que em ferros quebra as pernas, indo aceso
- A batalha, onde foi vencido e preso.
- "Ó famoso Pompeio, não te pene
- De teus feitos ilustres a ruína,
- Nem ver que a justa Némesis ordene
- Ter teu sogro de ti vitória dina,
- Posto que o frio Fásis, ou Siene,
- Que para nenhum cabo a sombra inclina,
- O Bootes gelado e a linha ardente,
- Temessem o teu nome geralmente.
- "Posto que a rica Arábia e que os ferozes
- Eníocos e Colcos, cuja fama
- O Véu dourado estende, e os Capadoces,
- E Judeia, que um Deus adora e ama,
- E que os moles Sofenos, e os atroces
- Cilícios, com a Arménia, que derrama
- As águas dos dous rios, cuja fonte
- Está noutro mais alto e santo monte;
- "E posto enfim que desde o mar de Atlante
- Até o Cítico Tauro monte erguido,
- Já vencedor te vissem, não te espanto
- Se o campo Emátio só te viu vencido,
- Porque Afonso verás, soberbo e ovante,
- Tudo render-se ser depois rendido.
- Assim o quis o conselho alto e celeste,
- Que vença o sogro a ti, e o genro a este.
- "Tornado o Rei sublime finalmente,
- Do divino Juízo castigado,
- Depois que em Santarém soberbamente
- Em vão dos Sarracenos foi cercado,
- E depois que do mártire Vicente
- O santíssimo corpo venerado
- Do Sacro Promontório conhecido
- A cidade Ulisseia foi trazido;
- "Porque levasse avante seu desejo,
- Ao forte filho manda o lasso velho
- Que às terras se passasse d'Alentejo,
- Com gente e co'o belígero aparelho.
- Sancho, d'esforço o d'ânimo sobejo,
- Avante passa, e faz correr vermelho
- O rio que Sevilha vai regando,
- Co'o sangue Mauro, bárbaro e nefando.
- "E com esta vitória cobiçoso,
- Já não descansa o moço até que veja
- Outro estrago como este, temeroso,
- No Bárbaro que tem cercado Beja.
- Não tarda muito o Príncipe ditoso
- Sem ver o fim daquilo que deseja.
- Assim estragado o Mouro, na vingança
- De tantas perdas põe sua esperança.
- "Já se ajuntam do monte a quem Medusa
- O corpo fez perder, que teve o Céu;
- Já vem do promontório de Ampelusa
- E do Tinge, que assento foi de Anteu.
- O morador de Abila não se escusa,
- Que também com suas armas se moveu,
- Ao som da Mauritana e ronca tuba,
- Todo o Reino que foi do nobre Juba.
- "Entrava com toda esta companhia
- O Miralmomini em Portugal;
- Treze Reis mouros leva de valia,
- Entre os quais tem o ceptro imperial;
- E assim fazendo quanto mal podia,
- O que em partes podia fazer mal,
- Dom Sancho vai cercar em Santarém;
- Porém não lhe sucede muito bem.
- "Dá-lhe combates ásperos, fazendo
- Ardis de guerra mil o Mouro iroso;
- Não lhe aproveita já trabuco horrendo,
- Mina secreta, aríete forçoso:
- Porque o filho de Afonso não perdendo
- Nada do esforço e acordo generoso,
- Tudo provê com ânimo e prudência;
- Que em toda a parte há esforço e resistência.
- "Mas o velho, a quem tinham já obrigado
- Os trabalhosos anos ao sossego,
- Estando na cidade, cujo prado
- Enverdecem as águas do Mondego,
- Sabendo como o filho está cercado
- Em Santarém do Mauro povo cego,
- Se parte diligente da cidade;
- Que não perde a presteza coa idade.
- "E coa famosa gente à guerra usada
- Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,
- A Portuguesa fúria costumada
- Em breve os Mouros tem desbaratados.
- A campina, que toda está coalhada
- De marlotas, capuzes variados,
- De cavalos, jaezes, presa rica,
- De seus senhores mortos cheia fica.
- "Logo todo o restante se partiu
- De Lusitânia, postos em fugida;
- O Miralmomini só não fugiu,
- Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.
- A quem lhe esta vitória permitiu
- Dão louvores e graças sem medida:
- Que em casos tão estranhos claramente
- Mais peleja o favor de Deus que a gente.
- "De tamanhas vitórias triunfava
- O velho Afonso , Príncipe subido,
- Quando, quem tudo enfim vencendo andava,
- Da larga e muita idade foi vencido.
- A pálida doença lhe tocava
- Com fria mão o corpo enfraquecido;
- E pagaram seus anos deste jeito
- A triste Libitina seu direito.
- "Os altos promontórios o choraram,
- E dos rios as águas saudosas
- Os semeados campos alagaram
- Com lágrimas correndo piedosas.
- Mas tanto pelo mundo se alargaram
- Com faina suas obras valerosas,
- Que sempre no seu Reino chamarão
- "Afonso, Afonso" os ecos, mas em vão.
- "Sancho, forte mancebo, que ficara
- Imitando seu pai na valentia,
- E que em sua vida já se exprimentara,
- Quando o Bétis de sangue se tingia,
- E o bárbaro poder desbaratara
- Do Ismaelita Rei de Andaluzia;
- E mais quando os que Beja em vão cercaram,
- Os golpes de seu braço em si provaram;
- "Depois que foi por Rei alevantado,
- Havendo poucos anos que reinava,
- A cidade de Silves tem cercado,
- Cujos campos o bárbaro lavrava.
- Foi das valentes gentes ajudado
- Da Germânica armada que passava,
- De armas fortes e gente apercebida,
- A recobrar Judeia já perdida.
- "Passavam a ajudar na santa empresa
- O roxo Federico, que moveu
- O poderoso exército em defesa
- Da cidade onde Cristo padeceu,
- Quando Guido, coa gente em sede acesa,
- Ao grande Saladino se rendeu,
- No lugar onde aos Mouros sobejavam
- As águas que os de Guido desejavam.
- "Mas a formosa armada, que viera
- Por contraste de vento àquela parte,
- Sancho quis ajudar na guerra fera,
- Já que em serviço vai do santo Marte.
- Assim como a seu pai acontecera
- Quando tomou Lisboa, da mesma arte
- Do Germano ajudado Silves toma,
- E o bravo morador destrue e doma.
- "E se tantos troféus do Mahometa
- Alevantando vai, também do forte
- Lionês não consente estar quieta
- A terra, usada aos casos de Mavorte,
- Até que na cerviz seu jugo meta
- Da soberba Tui, que a mesma sorte
- Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,
- Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.
- "Mas entre tantas palmas salteado
- Da temerosa morte, fica herdeiro
- Um filho seu, de todos estimado,
- Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.
- No tempo deste, aos Mouros foi tomado
- Alcácere-do-Sal por derradeiro;
- Porque dantes os Mouros o tomaram,
- Mas agora estruídos o pagaram.
- "Morto depois Afonso, lhe sucede
- Sancho segundo, manso e descuidado,
- Que tanto em seus descuidos se desmede,
- Que de outrem, quem mandava, era mandado.
- De governar o Reino, que outro pede,
- Por causa dos privados foi privado,
- Porque, como por eles se regia,
- Em todos os seus vícios consentia.
- "Não era Sancho, não, tão desonesto
- Como Nero, que um moço recebia
- Por mulher, e depois horrendo incesto
- Com a mãe Agripina cometia;
- Nem tão cruel às gentes e molesto,
- Que a cidade queimasse onde vivia,
- Nem tão mau como foi Heliogabalo,
- Nem como o mole Rei Sardanapalo.
- "Nem era o povo seu tiranizado,
- Como Sicília foi de seus tiranos;
- Nem tinha como Fálaris achado
- Gênero de tormentos inumanos;
- Mas o Reino, de altivo e costumado
- A senhores em tudo soberanos,
- A Rei não obedece, nem consente,
- Que não for mais que todos excelente.
- "Por esta causa o Reino governou
- O Conde Bolonhês, depois alçado
- Por Rei, quando da vida se apartou
- Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.
- Este, que Afonso o bravo, se chamou,
- Depois de ter o Reino segurado,
- Em dilatá-lo cuida, que em terreno
- Não cabe o altivo peito, tão pequeno.
- "Da terra dos Algarves, que lhe fora
- Em casamento dada, grande parte
- Recupera co'o braço, e deita fora
- O Mouro, mal querido já de Marte.
- Este de todo fez livre e senhora
- Lusitânia, com força e bélica arte;
- E acabou de oprimir a nação forte,
- Na terra que aos de Luso coube em sorte.
- "Eis depois vem Dinis, que bem parece
- Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
- Com quem a fama grande se escurece
- Da liberalidade Alexandrina.
- Com este o Reino próspero florece
- (Alcançada já a paz áurea divina)
- Em constituições, leis e costumes,
- Na terra já tranquila claros lumes.
- "Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
- O valeroso ofício de Minerva;
- E de Helicona as Musas fez passar-se
- A pisar do Monde-o a fértil erva.
- Quanto pode de Atenas desejar-se,
- Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
- Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
- Do bácaro e do sempre verde louro.
- "Nobres vilas de novo edificou
- Fortalezas, castelos mui seguros,
- E quase o Reino todo reformou
- Com edifícios grandes, e altos muros.
- Mas depois que a dura Átropos cortou
- O fio de seus dias já maduros,
- Ficou-lhe o filho pouco obediente,
- Quarto Afonso, mas forte e excelente.
- "Este sempre as soberbas Castelhanas
- Co'o peito desprezou firme e sereno,
- Porque não é das forças Lusitanas,
- Temer poder maior, por mais pequeno.
- Mas porém, quando as gentes Mauritanas,
- A possuir o Hespérico terreno
- Entraram pelas terras de Castela,
- Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.
- "Nunca com Semirâmis gente tanta
- Veio os campos idáspicos enchendo,
- Nem Atila, que Itália toda espanta,
- Chamando-se de Deus açoute horrendo,
- Gótica gente trouxe tanta, quanta
- Do Sarraceno bárbaro estupendo,
- Co'o poder excessivo de Granada,
- Foi nos campos Tartésios ajuntada.
- "E vendo o Rei sublime Castelhano
- A força inexpugnábil, grande e forte,
- Temendo mais o fim do povo hispano,
- Já perdido uma vez, que a própria morte,
- Pedindo ajuda ao forte Lusitano,
- Lhe mandava a caríssima consorte,
- Mulher de quem a manda, e filha amada
- Daquele a cujo Reino foi mandada.
- "Entrava a formosíssima Maria
- Pelos paternais paços sublimados,
- Lindo o gesto, mas fora de alegria,
- E seus olhos em lágrimas banhados;
- Os cabelos angélicos trazia
- Pelos ebúrneos ombros espalhados:
- Diante do pai ledo, que a agasalha,
- Estas palavras tais, chorando, espalha:
- - "Quantos povos a terra produziu
- De África toda, gente fera e estranha,
- O grão Rei de Marrocos conduziu
- Para vir possuir a nobre Espanha:
- Poder tamanho junto não se viu,
- Depois que o salso mar a terra banha.
- Trazem ferocidade, e furor tanto,
- Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.
- - "Aquele que me deste por marido,
- Por defender sua terra amedrontada,
- Co'o pequeno poder, oferecido
- Ao duro golpe está da Maura espada;
- E se não for contigo socorrido,
- Ver-me-ás dele e do Reino ser privada,
- Viúva e triste, e posta em vida escura,
- Sem marido, sem Reino, e sem ventura.
- "Portanto, ó Rei, de quem com puro medo
- O corrente Muluca se congela,
- Rompe toda a tardança, acude cedo
- A miseranda gente de Castela.
- Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
- De pai o verdadeiro amor assela,
- Acude e corre, pai, que se não corres,
- Pode ser que não aches quem socorres." -
- "Não de outra sorte a tímida Maria
- Falando está, que a triste Vénus, quando
- A Júpiter, seu pai, favor pedia
- Para Eneias, seu filho, navegando;
- Que a tanta piedade o comovia
- Que, caído das mãos o raio infando,
- Tudo o clemente Padre lhe concede,
- Pesando-lhe do pouco que lhe pede.
- "Mas já co'os esquadrões da gente armada
- Os Eborenses campos vão coalhados:
- Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada;
- Vão rinchando os cavalos jaezados.
- A canora trombeta embandeirada,
- Os corações à paz acostumados
- Vai às fulgentes armas incitando,
- Pelas concavidades retumbando.
- "Entre todos no meio se sublima,
- Das insígnias Reais acompanhado,
- O valeroso Afonso, que por cima
- De todos leva o colo alevantado;
- E somente co'o gesto esforça e anima
- A qualquer coração amedrontado.
- Assim entra nas terras de Castela
- Com a filha gentil, Rainha dela.
- "Juntos os dous Afonsos finalmente
- Nos campos de Tarifa estão defronte
- Da grande multidão da cega gente,
- Para quem são pequenos campo e monte.
- Não há peito tão alto e tão potente,
- Que de desconfiança não se afronte,
- Enquanto não conheça e claro veja
- Que co'o braço dos seus Cristo peleja.
- "Estão de Agar os netos quase rindo
- Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,
- As terras como suas repartindo
- Antemão, entre o exército Agareno,
- Que com título falso possuindo
- Está o famoso nome Sarraceno.
- Assim também com falsa conta e nua,
- À nobre terra alheia chamam sua.
- "Qual o membrudo e bárbaro Gigante,
- Do rei Saul, com causa, tão temido,
- Vendo o pastor inerme estar diante,
- Só de pedras e esforço apercebido,
- Com palavras soberbas o arrogante
- Despreza o fraco moço mal vestido,
- Que, rodeando a funda, o desengana
- Quanto mais pode a Fé que a força humana:
- "Desta arte o Mouro pérfido despreza
- O poder dos Cristãos, e não entende
- Que está ajudado da Alta Fortaleza,
- A quem o inferno horrífico se rende.
- Co ela o Castelhano, e com destreza
- De Marrocos o Rei comete e ofende.
- O Português, que tudo estima em nada,
- Se faz temer ao Reino de Granada.
- "Eis as lanças e espadas retiniam
- Por cima dos arneses: bravo estrago!
- Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
- Uns Mafamede, e os outros Santiago.
- Os feridos com grita o Céu feriam,
- Fazendo de seu sangue bruto lago,
- Onde outros meios mortos se afogavam,
- Quando do ferro as vidas escapavam.
- "Com esforço tamanho estrui e mata
- O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,
- Totalmente o poder lhe desbarata,
- Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
- De alcançar tal vitória tão barata
- Inda não bem contente o forte braço,
- Vai ajudar ao bravo Castelhano,
- Que pelejando está co'o Mauritano.
- "Já se ia o Sol ardente recolhendo
- Para a casa de Tethys, e inclinado
- Para o Ponente, o Véspero trazendo,
- Estava o claro dia memorado,
- Quando o poder do Mauro grande e horrendo
- Foi pelos fortes Reis desbaratado,
- Com tanta mortandade, que a memória
- Nunca no mundo viu tão grã vitória.
- "Não matou a quarta parte o forte Mário
- Dos que morreram neste vencimento,
- Quando as águas co'o sangue do adversário
- Fez beber ao exército sedento;
- Nem o Peno asperíssimo contrário
- Do Romano poder, de nascimento,
- Quando tantos matou da ilustro Roma,
- Que alqueires três de anéis dos mortos toma.
- "E se tu tantas almas só pudeste
- Mandar ao Reino escuro de Cocito,
- Quando a santa Cidade desfizeste
- Do povo pertinaz no antigo rito:
- Permissão e vingança foi celeste,
- E não força de braço, ó nobre Tito,
- Que assim dos Vates foi profetizado,
- E depois por Jesu certificado.
- "Passada esta tão próspera vitória,
- Tornando Afonso à Lusitana terra,
- A se lograr da paz com tanta glória
- Quanta soube ganhar na dura guerra,
- O caso triste, e dino da memória,
- Que do sepulcro os homens desenterra,
- Aconteceu da mísera e mesquinha
- Que depois de ser morta foi Rainha.
- "Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
- Que os corações humanos tanto obriga,
- Deste causa à molesta morte sua,
- Como se fora pérfida inimiga.
- Se dizem, fero Amor, que a sede tua
- Nem com lágrimas tristes se mitiga,
- É porque queres, áspero e tirano,
- Tuas aras banhar em sangue humano.
- "Estavas, linda Inês, posta em sossego,
- De teus anos colhendo doce fruto,
- Naquele engano da alma, ledo e cego,
- Que a fortuna não deixa durar muito,
- Nos saudosos campos do Mondego,
- De teus fermosos olhos nunca enxuto,
- Aos montes ensinando e às ervinhas
- O nome que no peito escrito tinhas.
- "Do teu Príncipe ali te respondiam
- As lembranças que na alma lhe moravam,
- Que sempre ante seus olhos te traziam,
- Quando dos teus fermosos se apartavam:
- De noite em doces sonhos, que mentiam,
- De dia em pensamentos, que voavam.
- E quanto enfim cuidava, e quanto via,
- Eram tudo memórias de alegria.
- "De outras belas senhoras e Princesas
- Os desejados tálamos enjeita,
- Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
- Quando um gesto suave te sujeita.
- Vendo estas namoradas estranhezas
- O velho pai sesudo, que respeita
- O murmurar do povo, e a fantasia
- Do filho, que casar-se não queria,
- "Tirar Inês ao mundo determina,
- Por lhe tirar o filho que tem preso,
- Crendo co'o sangue só da morte indina
- Matar do firme amor o fogo aceso.
- Que furor consentiu que a espada fina,
- Que pôde sustentar o grande peso
- Do furor Mauro, fosse alevantada
- Contra uma fraca dama delicada?
- "Traziam-na os horríficos algozes
- Ante o Rei, já movido a piedade:
- Mas o povo, com falsas e ferozes
- Razões, à morte crua o persuade.
- Ela com tristes o piedosas vozes,
- Saídas só da mágoa, e saudade
- Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
- Que mais que a própria morte a magoava,
- "Para o Céu cristalino alevantando
- Com lágrimas os olhos piedosos,
- Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
- Um dos duros ministros rigorosos;
- E depois nos meninos atentando,
- Que tão queridos tinha, e tão mimosos,
- Cuja orfandade como mãe temia,
- Para o avô cruel assim dizia:
- - "Se já nas brutas feras, cuja mente
- Natura fez cruel de nascimento,
- E nas aves agrestes, que somente
- Nas rapinas aéreas têm o intento,
- Com pequenas crianças viu a gente
- Terem tão piedoso sentimento,
- Como coa mãe de Nino já mostraram,
- E colos irmãos que Roma edificaram;
- - "Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
- (Se de humano é matar uma donzela
- Fraca e sem força, só por ter sujeito
- O coração a quem soube vencê-la)
- A estas criancinhas tem respeito,
- Pois o não tens à morte escura dela;
- Mova-te a piedade sua e minha,
- Pois te não move a culpa que não tinha.
- - "E se, vencendo a Maura resistência,
- A morte sabes dar com fogo e ferro,
- Sabe também dar vicia com clemência
- A quem para perdê-la não fez erro.
- Mas se to assim merece esta inocência,
- Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
- Na Cítia f ria, ou lá na Líbia ardente,
- Onde em lágrimas viva eternamente.
- "Põe-me onde se use toda a feridade,
- Entre leões e tigres, e verei
- Se neles achar posso a piedade
- Que entre peitos humanos não achei:
- Ali com o amor intrínseco e vontade
- Naquele por quem morro, criarei
- Estas relíquias suas que aqui viste,
- Que refrigério sejam da mãe triste." -
- "Queria perdoar-lhe o Rei benino,
- Movido das palavras que o magoam;
- Mas o pertinaz povo, e seu destino
- (Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
- Arrancam das espadas de aço fino
- Os que por bom tal feito ali apregoam.
- Contra uma dama, ó peitos carniceiros,
- Feros vos amostrais, e cavaleiros?
- "Qual contra a linda moça Policena,
- Consolação extrema da mãe velha,
- Porque a sombra de Aquiles a condena,
- Co'o ferro o duro Pirro se aparelha;
- Mas ela os olhos com que o ar serena
- (Bem como paciente e mansa ovelha)
- Na mísera mãe postos, que endoudece,
- Ao duro sacrifício se oferece:
- "Tais contra Inês os brutos matadores
- No colo de alabastro, que sustinha
- As obras com que Amor matou de amores
- Aquele que depois a fez Rainha;
- As espadas banhando, e as brancas flores,
- Que ela dos olhos seus regadas tinha,
- Se encarniçavam, férvidos e irosos,
- No futuro castigo não cuidosos.
- "Bem puderas, ó Sol, da vista destes
- Teus raios apartar aquele dia,
- Como da seva mesa de Tiestes,
- Quando os filhos por mão de Atreu comia.
- Vós, ó côncavos vales, que pudestes
- A voz extrema ouvir da boca fria,
- O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
- Por muito grande espaço repetisses!
- "Assim como a bonina, que cortada
- Antes do tempo foi, cândida e bela,
- Sendo das mãos lascivas maltratada
- Da menina que a trouxe na capela,
- O cheiro traz perdido e a cor murchada:
- Tal está morta a pálida donzela,
- Secas do rosto as rosas, e perdida
- A branca e viva cor, coa doce vida.
- "As filhas do Mondego a morte escura
- Longo tempo chorando memoraram,
- E, por memória eterna, em fonte pura
- As lágrimas choradas transformaram;
- O nome lhe puseram, que inda dura,
- Dos amores de Inês que ali passaram.
- Vede que fresca fonte rega as flores,
- Que lágrimas são a água, e o nome amores.
- "Não correu muito tempo que a vingança
- Não visse Pedro das mortais feridas,
- Que, em tomando do Reino a governança,
- A tomou dos fugidos homicidas.
- Do outro Pedro cruíssimo os alcança,
- Que ambos, imigos das humanas vidas,
- O concerto fizeram, duro e injusto,
- Que com Lépido e António fez Augusto.
- "Este, castigador foi rigoroso
- De latrocínios, mortes e adultérios:
- Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,
- Eram os seus mais certos refrigérios.
- As cidades guardando justiçoso
- De todos os soberbos vitupérios,
- Mais ladrões castigando à morte deu,
- Que o vagabundo Aleides ou Teseu.
- "Do justo e duro Pedro nasce o brando,
- (Vede da natureza o desconcerto!)
- Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,
- Que todo o Reino pôs em muito aperto:
- Que, vindo o Castelhano devastando
- As terras sem defesa, esteve perto
- De destruir-se o Reino totalmente;
- Que um fraco Rei f az fraca a forte gente.
- "Ou foi castigo claro do pecado
- De tirar Lianor a seu marido,
- E casar-se com ela, de enlevado
- Num falso parecer mal entendido;
- Ou foi que o coração sujeito e dado
- Ao vício vil, de quem se viu rendido,
- Mole se fez e fraco; e bem parece,
- Que um baixo amor os fortes enfraquece.
- "Do pecado tiveram sempre a pena
- Muitos, que Deus o quis, e permitiu:
- Os que foram roubar a bela Helena,
- E com Apio também Tarquilio o viu.
- Pois por quem David Santo se condena?
- Ou quem o Tribo ilustre destruiu
- De Benjamim?Bem claro no-lo ensina
- Por Sara Faraó, Siquém por Dina.
- "E pois se os peitos fortes enfraquece
- Um inconcesso amor desatinado,
- Bem no filho de Alcmena se parece,
- Quando em Ônfale andava transformado.
- De Marco António a faina se escurece
- Com ser tanto a Cleopatra afeiçoado.
- Tu também, Peno próspero, o sentiste
- Depois que uma moça vil na Apúlia viste.
- "Mas quem pode livrar-se por ventura
- Dos laços que Amor arma brandamente
- Entre as rosas e a neve humana pura,
- O ouro e o alabastro transparente?
- Quem de uma peregrina formosura,
- De um vulto de Medusa propriamente,
- Que o coração converte, que tem preso,
- Em pedra não, mas em desejo aceso?
- "Quem viu um olhar seguro, um gesto brando,
- Uma suave e angélica excelência,
- Que em si está sempre as almas transformando,
- Que tivesse contra ela resistência?
- Desculpado por certo está Fernando,
- Para quem tem de amor experiência;
- Mas antes, tendo livre a fantasia,
- Por muito mais culpado o julgaria.