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EneidaLivro I
LivroI

Eu, que entoava na delgada avena

791 versos · 26 notas do tradutor


  1. Eu, que entoava na delgada avena
  2. Rudes canções, e egresso das florestas,
  3. Fiz que as vizinhas lavras contentassem
  4. A avidez do colono, empresa grata
  5. Aos aldeãos; de Marte ora as horríveis
  6. Armas canto, e o varão que, lá de Tróia
  7. Prófugo, à Itália e de Lavino às praias
  8. Trouxe-o primeiro o fado. Em mar e em terra
  9. Muito o agitou violenta mão suprema,
  10. E o lembrado rancor da seva Juno;
  11. Muito em guerras sofreu, na Ausônia quando
  12. Funda a cidade e lhe introduz os deuses:
  13. Donde a nação latina e albanos padres,
  14. E os muros vêm da sublimada Roma.
  15. Musa, as causas me aponta, o ofenso nume,
  16. Ou por que mágoa a soberana déia
  17. Compeliu na piedade o herói famoso
  18. A lances tais passar, volver tais casos.
  19. Pois tantas iras em celestes peitos!
  20. Colônia tíria no ultramar, Cartago,
  21. Do ítalo Tibre contraposta às fozes,
  22. Houve, possante empório, antigo, aspérrimo
  23. N’arte da guerra; ao qual, se conta, Juno
  24. Até pospôs a predileta Samos:
  25. Lá coche, armas lá teve; e, anua o fado,
  26. No orbe entroná-la então já traça e tenta.
  27. Porém de Teucro ouvira que a progênie,
  28. Dos Penos subvertendo as fortalezas,
  29. Viria a ser, desmoronada a Líbia,
  30. À larga rei belipotente povo:
  31. Que assim no fuso as Parcas o fiavam.
  32. Satúrnia o teme, e a pró dos seus Aquivos
  33. Recorda as lides que excitara em Tróia;
  34. Nem d’alma agravos risca, dores cruas:
  35. No íntimo impressa a decisão de Páris,
  36. A injúria da beleza em menoscabo,
  37. E a raça detestada e as honras duram
  38. Do rapto Ganimedes. Nestes ódios
  39. Sobreacesa, os da Grécia e ímite Aquiles
  40. Salvos Troas, do Lácio ia alongando,
  41. Por todo o plaino undíssono atirados;
  42. E, em derredor vagando anos e anos,
  43. De mar em mar a sorte os repulsava.
  44. Tão grave era plantar de Roma a gente!
  45. De Sicília amarando, mal velejam
  46. Ledos e o cobre rompe a salsa espuma,
  47. Juno, dentro guardada eterna chaga:
  48. “Eu, diz consigo, desistir vencida!
  49. Nem vedar posso a Itália ao rei dos Teucros!
  50. Ah! tolhe-me o destino. A esquadra argiva
  51. Não queimou Palas mesma, submergindo-os
  52. Só de um Ajax Oileu por culpa e fúrias?
  53. Do Tonante o corisco ela das nuvens
  54. Darda, os baixéis desgarra, o ponto assanha;
  55. Ao triste, que varado expira chamas,
  56. Num torvelinho em rocha aguda o crava:
  57. E eu, que rainha marcho ante as deidades,
  58. Mulher e irmã de Jove, tantos anos
  59. Guerreio um povo! E a Juno há quem adore,
  60. Ou súplice inda a incense, a invoque e honre?”
  61. No âmago isto fermenta, e a deusa à pátria
  62. De austros furentes, de chuveiros prenhe,
  63. À Eólia parte. Aqui num antro imenso
  64. O rei preme, encarcera, algema, enfreia
  65. Lutantes ventos, roncas tempestades.
  66. Em torno aos claustros de indignados fremem
  67. Com grã rumor do monte. Em celsa roca
  68. Sentado Eolo, arvora o cetro, e as iras
  69. Tempera e os amacia. Que o não faça,
  70. Varridos mar e terra e o céu profundo
  71. Lá se vão pelos ares. Cauto, em negras
  72. Furnas o onipotente os aferrolha,
  73. E, um cargo de montanhas sobrepondo,
  74. Lhes deu rei, que mandado a ponto as bridas
  75. Suster saiba ou laxar. Dest’arte Juno
  76. O exora humilde: “Eolo, o pai dos divos
  77. E rei dos homens te concede as ondas
  78. Sublevar e amainá-las; gente imiga
  79. Me sulca as do Tirreno, Ílio e os domados
  80. Penates para Itália transportando:
  81. Ventos açula, as popas mete a pique,
  82. Ou dispersas no ponto as espedaça.
  83. Catorze esbeltas ninfas me cortejam,
  84. Das quais a mais formosa, Deiopéia,
  85. Prometo unir contigo em jugo estável;
  86. Que em paga para sempre a ti se vote,
  87. Meiga te procriando egrégia prole.”
  88. A quem Eolo: “Que o desejes basta;
  89. Meu, rainha, é servir-te. Quanto valho
  90. Tu mo granjeias, e este cetro e Jove;
  91. Tu dás-me à diva mesa o recostar-me,
  92. Ser em tufões potente e em tempestades.”
  93. Disse; e um revés do conto a cava serra
  94. A um lado impele: em turbilhão, cerrados
  95. Num grupo os ventos, dada a porta, ruem,
  96. As terras varejando. Ao mar carregam,
  97. E horrísonos revolvem-lhe as entranhas
  98. Noto mais Euro, e de borrascas fértil
  99. Áfrico; às praias vastas ondas rolam.
  100. Homens gritam, zunindo a enxárcia ringe.
  101. Some-se ao nauta o céu, tolda-se o dia;
  102. Pousa no pélago atra noite; os pôlos
  103. Toam, o éter fuzila em crebros raios:
  104. Tudo ameaça aos varões presente a morte.
  105. Frígido, arrepiado, Enéias geme,
  106. E alça as palmas e exclama: “Afortunados
  107. Oh! três e quatro vezes, d’Ílio às abas,
  108. Os que aos olhos paternos feneceram!
  109. Ó dos Danaos fortíssimo Tidides,
  110. A alma em Tróia vertendo-me essa destra,
  111. Não ficar eu nos campos, onde o bravo
  112. Heitor d’Eacide às lançadas, onde
  113. Sarpedon jaz magnânimo, onde o Simois
  114. Corpos e elmos de heróis e escudos tantos
  115. Arrebatados na corrente volve!”
  116. Bradava; e a sibilar ponteiro Bóreas
  117. Rasga o pano, e a mareta aos astros joga.
  118. Remos estalam; cruza a proa, e o bordo
  119. Rende; escarpado fluido monte empina-se.
  120. As naus já no escarcéu pendem, já descem
  121. Num sorvedouro à terra entre marouços:
  122. Remoinha o esto na revolta areia.
  123. Três rouba Noto e avexa nuns abrolhos,
  124. Abrolhos sob o mar, que Ítalos aras
  125. Nomeiam, dorso horrendo ao lume d’água;
  126. Três no parcel (que lástima!) Euro esbarra,
  127. Encalha em vaus, de marachões rodeia.
  128. Uma, em que Oronte fido e os Lícios vinham,
  129. Ante Enéias, d’avante úmido rolo,
  130. Do maior pino desabando, em popa
  131. Fere-a; do baque o prono mestre volto
  132. Cai de cabeça. O vagalhão três vezes
  133. Torce-a, revira, um vórtice a devora.
  134. Raros no vasto pego a nadar surdem;
  135. Tábuas e armas viris e alfaias tróicas,
  136. Preia das ondas. A tormenta escala
  137. A nau robusta de Ilioneu, de Abante,
  138. As de Aletes grandevo e Acates forte:
  139. Todas, frouxadas as junturas, sorvem
  140. A inimiga torrente, e em fendas gretam.
  141. Mugir seu reino e o temporal desfeito,
  142. Caixões do imo a brotar, sentiu Netuno,
  143. Torvo, abalado, e acode acima e exalta
  144. A plácida cabeça. A frota esparsa
  145. Vê soçobrando, opressos os Troianos
  146. Da marejada e do ruído etéreo.
  147. De Juno irosa o dolo o irmão percebe;
  148. Euro e Zéfiro chama: “Herdastes, ventos,
  149. Tal presunção, que sem meu nume, ousados,
  150. Terra e céu confundis e equóreas brenhas?
  151. Eu vos... Mas insta abonançar as vagas:
  152. Caro mo pagareis, guardo o castigo.
  153. Ao rei vosso intimai, já já, que em sorte
  154. Não lhe coube este império, que o tridente
  155. Fero é só meu. Tem ele enormes fragas,
  156. Euro, vossas mansões: nessa aula ufano
  157. Sobre enclaustrados ventos reine Eolo.”
  158. Nem cessa, e o mar se lança, o tempo alimpa
  159. E abre o Sol. Finca a espádua, e com Cimótoe
  160. As naus Tritão do escolho desengasga;
  161. Mesmo o padre as aliva com seu cetro,
  162. Amplas sirtes afunda, aplaca os mares,
  163. Por cima em rodas se desliza leves.
  164. Como, enraivado em popular tumulto,
  165. Dispara ignóbil vulgo, e o facho e o canto
  166. Já voa, as armas o furor ministra;
  167. Mas, se um pio ancião preclaro assoma,
  168. Calam, para escutar o ouvido afiam;
  169. Ele os convence e os ânimos abranda:
  170. Assim baixa o fragor e o pego amansa,
  171. Quando olha o deus, que os brutos no ar sereno
  172. Dobra, e dá loros ao ligeiro carro.
  173. Da costa próxima em demanda, à Líbia
  174. Os cansados Enéiadas aproam.
  175. Num golfo ali secreto, com seus braços
  176. Faz barra ilha fronteira, onde a mareta
  177. Quebra e se escoa em sinuosas rugas:
  178. Penedia em redondo, e ao céu minazes
  179. Há dois picos irmãos, a cujo abrigo
  180. Dorme difuso o mar; de coruscantes
  181. Selvas prolonga-se eminente cena,
  182. Descai de atra espessura hórrida sombra;
  183. No topo há gruta em pêndulos cachopos,
  184. Com doce fonte, e em viva rocha bancos
  185. Das ninfas sede: aqui não prende amarra
  186. Nem mordaz ferro adunco as lassas quilhas.
  187. Com sete naus ao todo arriba Enéias;
  188. E amorosos da terra, alvoroçados
  189. Saltando os seus, do sal tábidos membros
  190. Na areia espraiam. Lume eis fere Acates,
  191. Toma em folhas, e em roda as acendalhas,
  192. Nutre a faísca, e em lenha a chama ateia.
  193. Mareados pães e cereais aprestos
  194. Já desembarca a trabalhada chusma,
  195. E os grãos põe-se a torrar e em pedra os pisa.
  196. Trepa entanto um penhasco, e ao largo Enéias
  197. Regira, a ver se undívagos alcança
  198. Anteu ou Cápis, as birremes frígias,
  199. Ou armas de Caíco em altas popas.
  200. Baixel nenhum; avista só três cervos
  201. Na praia errantes; segue atrás o armento,
  202. E enfileirado pelos vales pasta.
  203. Retém-se, e o arco aferra e as setas ágeis
  204. Que armam Acates fido, e os guias logo,
  205. De arbóreas pontas entonados, prostra;
  206. Embrenha a demais turba e acossa a tiros,
  207. Té que derriba sete ingentes corpos,
  208. E iguala as naus. De volta, ele os divide.
  209. E os barris que, à partida, o herói trinácrio
  210. Bom de vinho atestara, aos seus largueia;
  211. Dulcíloquo os mitiga: “Os males, sócios,
  212. Nada estranhamos; oh! mais agros foram:
  213. Deus porá termos a estes. Vós de Cila
  214. De perto a raiva e escolhos ressonantes,
  215. Vós ciclópeos rochedos afrontastes:
  216. Ânimo! esse temor bani tristonho;
  217. Talvez isto com gosto inda nos lembre.
  218. Por vários casos, transes mil, nos vamos
  219. Ao Lácio onde o repouso os fados mostram:
  220. Ressurgir deve ali de Tróia o reino.
  221. Tende-vos duros, da bonança à espera.”
  222. Tal discursa, e afetando um ar seguro,
  223. N’alma enferma sufoca a dor profunda.
  224. Lestos à presa atiram-se: este esfola,
  225. Aquele desentranha, outro esposteja;
  226. Qual trementes no espeto enrosca os lombos,
  227. Qual fogo atiça aos caldeirões na praia.
  228. Fartos, na relva espalham-se, refeitos
  229. De velho baco e veação opima.
  230. Repleta a fome, e as mesas removidas,
  231. Dúbios indagam, sobre os seus praticam
  232. Entre medo e esperança: estão com vida?
  233. Ou na extrema agonia ao brado surdos?
  234. Mormente o pio rei de Amico chora
  235. Ou de Lico o desastre, o ardido Oronte,
  236. E o forte Gias e Cloanto forte.
  237. Das alturas, no fim, Jove esguardando
  238. O mar velívolo e as jacentes plagas
  239. E amplas nações, no vértice do Olimpo
  240. Quedo, os olhos fitou nos líbios reinos.
  241. Quando o absorviam tais cuidados, Vênus
  242. Triste, os gentis luzeiros orvalhando:
  243. “Ó tu, queixou-se, que os mortais e os deuses
  244. Reges eterno e horríssono fulminas,
  245. O que te fez meu filho, o que os Troianos,
  246. Que após tragos letais, não só d’Itália,
  247. Do universo os cancelos se lhes fecham?
  248. Roma deles tirar, deles os cabos
  249. Que, eras volvendo, restaurado o sangue
  250. De Teucro, o mar e a terra sofreassem,
  251. Nos prometeste; quem mudou-te, ó padre?
  252. Do ocaso ao menos e desgraças d’Ílio
  253. Isto, uns fados com outros compensando,
  254. Me consolava. Igual fortuna arrasta
  255. Ora os varões a riscos e a trabalhos:
  256. Quando os findas, grã rei? De Aqueus escapo,
  257. Entrar salvo Antenor d’Ilíria o seio
  258. E internar-se em Libúrnia, e a fonte obteve
  259. De Tímavo transpor, donde por bocas
  260. Nove, a montanha a ribombar, despenha-se
  261. Ruidoso mar que empola e o campo alaga.
  262. Sentou Patávio aqui, deu casa a Teucros,
  263. Nome à gente, e os brasões fixou de Tróia:
  264. Descansa em doce paz. Nós tua estirpe,
  265. Nós da celeste corte, as naus submersas,
  266. Ah! de uma por furor, vítimas somos,
  267. Longe expulsos d’Itália? Deste modo
  268. Se honra a piedade, os cetros nos reservas?”
  269. Sorrindo-se o autor de homens e numes,
  270. C’um gesto que a tormenta e o céu serena,
  271. Da filha ósculos liba, e assim pondera:
  272. “Poupa esse medo, Cípria; imotos jazem
  273. Dos teus os fados; nas lavínias torres
  274. Hás de rever-te, e alar sobre as estrelas
  275. Teu grande Enéias, Júpiter não muda.
  276. O herói na Itália (esta ânsia te remorde,
  277. Vou rasgar-te os arcanos do futuro)
  278. Guerras tem de mover e amansar povos,
  279. E instituir cidades e costumes,
  280. Ao passo que reinando o vir no Lácio
  281. Terceiro estio, e os Rútulos domados,
  282. Forem-se três invernos. Posto ao leme
  283. Ascânio, que hoje Iulo cognominam
  284. (Ilo, enquanto florente Ílion se teve),
  285. Cerrando os meses trinta largos giros,
  286. Há de, a sede lavínia trasladada,
  287. Alba longa munir e abastecê-la.
  288. Os Hectóreos aqui trezentos anos
  289. Já reinarão, quando a vestal princesa
  290. Ília parir a Marte gêmea prole.
  291. Da nutriz loba em fulva pele ovante,
  292. Rômulo há de erigir mavórcios muros,
  293. E à recebida gente impor seu nome.
  294. Metas nem tempos aos de Roma assino;
  295. O império dei sem fim. Té Juno acerba,
  296. Que o mar ciosa e a terra e o céu fatiga,
  297. Transmudada em melhor, tem de amparar-me
  298. Do orbe os senhores e a nação togada.
  299. Praz-me assim. Manem lustros, que inda a casa
  300. De Assaraco há de ser de Pítia e de Argos
  301. Senhora, e agrilhoar Micenas clara.
  302. D’Iulo garfo egrégio, em nome e glória
  303. Sucedendo, as conquistas no oceano
  304. César terminará, nos céus a fama.
  305. Nos astros sim, de espólios do oriente
  306. Onusto, o acolherás; e humanas preces
  307. Têm de invocá-lo. Então, deposta a guerra,
  308. Se amolgue a férrea idade; a encanecida
  309. Fé com Vesta, os irmãos Quirino e Remo
  310. Ditem leis; Jano trave as diras portas
  311. Com trancas e aldrabões; sobre armas cruas
  312. Dentro o ímpio Furor sentado, e roxos
  313. Atrás os pulsos em cem nós de bronze,
  314. Hediondo ruja com sangüínea boca.”
  315. Não mais; e expede o gênito de Maia,
  316. Por que a recém Cartago hospício aos Teucros
  317. Franqueie, nem, do fado ínscia, a rainha
  318. Os extermine. O Deus pelo ar patente
  319. De asas remando, em Líbia o vôo abate;
  320. Fiel às ordens, a fereza aos Penos
  321. Despe; e Dido primeira em pró dos Frígios
  322. Brandos afetos plácidos concebe.
  323. Toda a noite pensoso o herói velando,
  324. A alma luz mal branqueja, onde arribara
  325. Dispõe sondar; e vendo incultas margens,
  326. Inquirir quem as tem, se homens, se feras,
  327. E aos seus noticiá-lo. As naus metidas
  328. N’abra de uns bosques sob cavada penha,
  329. Entre verde espessura e negras sombras,
  330. Ele só, mais Acates, sai brandindo
  331. Duas hastes que empunha de ancho ferro.
  332. Da selva em meio a mãe se lhe apresenta,
  333. Virgem no trajo e aspecto, em armas virgem
  334. Lacena; ou qual Harpálice a treícia
  335. Cansa os corcéis e o Euro vence alífugo:
  336. Pois do ombro o arco destro, à caçadora,
  337. Pendura, e às auras a madeixa entrega,
  338. Dos joelhos nua e a falda em nó colhida.
  339. Ei-la: “Ó jovens, errante aqui topastes
  340. Irmã minha, a gritar quiçá no encalço
  341. De javali sanhudo? A cinta aljava
  342. Tem sobre a pele de um manchado lince.”
  343. Isto Vênus; e o filho assim responde:
  344. “Nenhuma ouvi nem vi das irmãs tuas,
  345. Ó... quem direi? Não tens mortal semblante
  346. Nem voz de humano som; és deusa, ó virgem:
  347. Irmã de Febo ou ninfa? As nossas penas
  348. Tu, por quem és, minora; e nos ensina,
  349. Pois vagueamos sem saber por onde,
  350. O país, clima ou povo, a que arrojou-nos
  351. Vento e escarcéu medonho. Hóstias sem conto
  352. Havemos de imolar nas aras tuas.”
  353. “Não mereço honras tais, replica Vênus;
  354. Usam de aljava, e ao bucho as virgens tírias
  355. Atar das pernas borzeguim purpúreo.
  356. Púnicos reinos e agenórios muros
  357. Vês, nos confins da indômita e guerreira
  358. Líbica raça. O império atém-se a Dido,
  359. Que, por fugir do irmão, fugiu de Tiro.
  360. É longa a injúria, tem rodeios longos;
  361. Mas traçarei seu curso em breve suma.
  362. Siqueu, fenício em lavras opulento,
  363. Foi da mísera esposo, e muito amado:
  364. Com bom presságio o pai lha dera intacta.
  365. Pigmalião, façanhoso entre os malvados,
  366. Bárbaro irmão, do estado se empossara.
  367. Interveio o furor: de fome de ouro
  368. Cego, e à paixão fraterna sem respeito,
  369. Pérfido, ímpio, a Siqueu nas aras mata;
  370. O fato encobre, e a crédula esperança
  371. Da amante aflita largo espaço ilude
  372. Com mil simulações. Mas do inumado
  373. Consorte, com esgares espantosos,
  374. Pálida em sonhos lhe aparece a imagem:
  375. Da casa o crime e trama desenleia;
  376. A ara homicida, os retalhados peitos
  377. Desnuda, e à pátria intima-lhe que fuja:
  378. Prata imensa e ouro velho, soterrados,
  379. Para o exílio descobre. Ela, inquieta,
  380. Apressa a fuga, e atrai os descontentes
  381. Que ou rancor ao tirano ou medo instiga;
  382. Acaso prestes naus, manda assaltá-las;
  383. Dos tesouros do avaro carregadas
  384. Empegam-se: a mulher conduz a empresa!
  385. Chegam d’alta Cartago onde o castelo
  386. Verás medrando agora e ingentes muros:
  387. Mercam solo (do feito o alcunham Birsa)
  388. Quanto um coiro taurino abranja em tiras.
  389. Mas vós outros quem sois? donde é que vindes?
  390. Que regiões buscais?” Ele às perguntas
  391. Esta resposta suspirando arranca:
  392. “Ó déia, se recorro à prima origem,
  393. E anais de angústias não te pejam, Vésper
  394. No Olimpo encerra o dia antes que eu finde.
  395. Da antiga Tróia (se hás notícia dela),
  396. Vagos no equóreo campo, arremessou-nos
  397. Casual tempestade às líbias costas.
  398. Enéias sou, com fama além dos astros,
  399. Que livrei de hostil garra os meus penates,
  400. E piedoso os transporto à pátria Ausônia;
  401. Do sumo Jove a geração procuro.
  402. Por guia a deusa mãe, submisso aos fados,
  403. Em vinte naus cometo o frígio ponto;
  404. Rotas do Euro e das ondas, restam sete.
  405. Pobre, ignoto, percorro áfricos ermos,
  406. D’Ásia e d’Europa excluso...” Nem mais Vênus
  407. Lamentos comportou, na dor o atalha:
  408. “Quem sejas, creio, não do céu malquisto,
  409. Gozas d’aura vital, que a Tiro aportas.
  410. Eia, ao régio palácio te encaminha.
  411. Sem risco os sócios, ancorada a frota,
  412. Com o rondar dos áquilos, te auguro,
  413. Se em arte vã meus pais não me instruíram.
  414. Atenta cisnes doze em bando alegres:
  415. No espaço, o éter fendendo, os perseguia
  416. A ave de Jove; num cordão agora
  417. Ou tem no pouso a mira, ou vão pousando;
  418. Juntos batendo as estridentes asas,
  419. Brincam cingindo o pólo, a salvo cantam:
  420. Bem como os teus as popas atracaram,
  421. Ou de vela enfunada a foz embocam.
  422. Sus, ali te dirige, a estrada é esta.”
  423. Dá costas, e a cerviz rosada fulge,
  424. De ambrosia odor celeste a coma expira;
  425. A veste escoa aos pés; no andar se ostenta
  426. Vera deusa. Ele atrás da mãe fuginte,
  427. Reconhecendo-a, brada: “Por que o filho
  428. Com tais ficções, cruel, enganas tanto?
  429. Ligar destra com destra, ouvir-te às claras,
  430. Conversar-te em pessoa me é defeso?”
  431. Tal a argúi, e às muralhas se endereça.
  432. Ela porém de ar fusco os viandantes
  433. Tapa e os embuça em névoa, que enxergá-los
  434. Ou tocar ninguém possa, nem detê-los
  435. Ou da vinda informar-se. A deusa a Pafos
  436. Remonta, a espairecer no sítio ameno
  437. Onde o sabeu perfume arde em cem aras,
  438. E recentes festões seu templo aromam.
  439. Eis da azinhaga pela trilha cortam.
  440. E um teso galgam já, que olha iminente
  441. A fronteira torrígera cidade.
  442. Palhais dantes, a mole admira Enéias,
  443. Admira o estrondo e as portas e as calçadas.
  444. Tiro aferventa-se, a lançar os muros,
  445. A avultar o castelo, e a rolar pedras.
  446. Parte com sulcos marca os edifícios;
  447. Santo augusto senado, e o foro e a cúria,
  448. Se cria e elege: aqui se escavam portos;
  449. Fundam-se ali magníficos teatros,
  450. De mármor colossais talham colunas,
  451. Pompa e decoro das futuras cenas.
  452. Quais abelhas ao sol por flóreos prados
  453. Lidam na primavera, quando ensaiam
  454. O adulto enxame; ou doce fluido espessam,
  455. Do néctar flavo retesando as celas;
  456. Ou quando a carga das que vêm recebem;
  457. Ou em batalha expulsam da colmeia
  458. Os zangãos, gente ignava. A obra ferve,
  459. E a tomilho recende o mel fragrante.
  460. “Ditoso quem seus tetos já levanta!”
  461. Exclama o herói, e os coruchéus contempla.
  462. Na cidade não visto, ó maravilha!
  463. Se mistura enublado. Em meio havia
  464. Luco umbroso e fresquíssimo, onde os Penos,
  465. De ondas jogados e tufões, cavaram
  466. O testo de um corcel, de Juno régia
  467. Mostra e penhor que o povo, asado à glória,
  468. Pugnaz e duro, insultaria os evos:
  469. Lá punha Dido a Juno insigne templo,
  470. Que dons e a rica efígie realçavam:
  471. No brônzeo limiar da brônzea escada,
  472. Craveja o bronze as traves, e a couceira
  473. Range em portões de bronze. Um novo objeto
  474. Neste bosque a lenir entra os receios;
  475. Aqui primeiro ousou fiar-se Enéias
  476. E prometer-se alívio em seus pesares:
  477. Pois quando, à espera da rainha, o templo
  478. Nota peça por peça, quando o enlevam
  479. De Cartago a fortuna, o gosto fino,
  480. O artifício, o primor, acha em pintura
  481. A fio as guerras d’Ílion, pelo orbe
  482. Já soadas; o Atrida, o rei troiano,
  483. E terror de ambos sobressai Aquiles.
  484. Pára, em lágrimas diz: “Que sítio ou clima
  485. Cheio, Acates, não é dos nossos males?
  486. Eis Príamo! o louvor tem cá seus prêmios,
  487. Dói mágoa alheia, e remanesce o pranto.
  488. Coragem! que em teu bem conspira a fama.”
  489. Disse, e em vãos quadros se apascenta, e as faces
  490. Gemebundo umedece em largo arroio.
  491. Vê de Pérgamo em roda a hoste graia
  492. Do frígio ardor fugir, fugir a teucra
  493. Do instante carro do emplumado Aquiles.
  494. Ai! perto a Reso por traição Tidides,
  495. No primo sono, arrasa as níveas tendas,
  496. De carnagem cruento; e os acres brutos
  497. Volve ao seu campo, sem gostado haverem
  498. De Tróia os pastos, nem bebido o Xanto.
  499. Triste! as armas perdendo, além, Troílo,
  500. Que arrostou-se menino ao próprio Aquiles,
  501. É dos corcéis tirado, e ressupino,
  502. Mas tendo os loros, do vazio carro
  503. Pende; e a cerviz no pó, de rojo a coma,
  504. Virada a lança hostil na areia escreve.
  505. Em cabelo, as Ilíades aflitas
  506. Ao templo iam também da iníqua Palas,
  507. O peplo humildes ofertando, e os peitos
  508. Com punhadas ferindo: aversa a déia
  509. Olhos no chão pregava. A Heitor Pelides
  510. Três vezes arrastara em torno aos muros,
  511. De ouro a peso vendia-lhe o cadáver.
  512. Do imo um gemido grande Enéias solta,
  513. No olhar o espólio, o coche, o amigo exânime;
  514. E a Príamo estendendo as mãos inermes,
  515. A si se reconhece entre os mais chefes.
  516. Do negro rei do eôo a turma e as armas
  517. À testa de milhares de amazonas
  518. Com lunados broquéis, Pentesiléia
  519. Se abrasa em fúria, belicosa atando
  520. Sob a despida mama um cinto de ouro,
  521. E virgem com varões brigar se atreve.
  522. Quando extático o herói se embebe e enleia,
  523. Ao templo a formosíssima rainha
  524. Marcha, de jovens com loução cortejo.
  525. Qual nas ribas do Eurotas ou do Cinto
  526. Pelos serros Diana exerce os coros,
  527. E, de infindas Oreadas seguida,
  528. Carcás ao ombro, em garbo as sobreleva;
  529. Rega-se em gozo tácito Latona:
  530. Tal era Dido, airosa e prazenteira,
  531. Do seu reino a grandeza apressurando.
  532. No ádito sacro, em meio do zimbório,
  533. De armas cercada, em sólio majestoso
  534. Senta-se. Os pleitos julga e leis prescreve,
  535. Regra ou sorteia os públicos trabalhos.
  536. Súbito Enéias no tropel divisa
  537. A Cloanto brioso, Anteu, Sergesto,
  538. E os mais que atra borrasca a longes costas
  539. Remessara dispersos. Ele e Acates
  540. Varados ficam de alegria e susto,
  541. Ávidos ardem por travar as destras;
  542. Força ignota os perturba. Dissimulam;
  543. Qual a sorte dos seus do encerro espreitam
  544. Nebuloso, e onde surta a frota seja,
  545. E com que fim das naus os mais conspícuos
  546. Clamando, a pedir vênia, ao templo acodem.
  547. Introduzidos, quando a vez tiveram,
  548. Rompe o idoso Ilioneu, facundo e grave:
  549. “Rainha, ó tu que por favor supremo
  550. Ergues nova cidade, e justa enfreias
  551. Soberbas gentes, os Troianos ouve,
  552. Que, dos ventos ludíbrio, os mares cruzam:
  553. Livra do infando incêndio a pia armada,
  554. Poupa inocentes, nossa causa atende.
  555. Nem vimos nós talar com ferro e fogo,
  556. Nem saquear os líbicos penates:
  557. A vencidos não cabe audácia tanta.
  558. País antigo existe, em grego Hespéria,
  559. Armipotente e ubérrimo, colônia
  560. Já de enótrios varões; agora é fama
  561. Que, de um seu capitão, se diz Itália:
  562. Esta era a nossa rota; eis que em vaus cegos
  563. Deu conosco de salto Orion chuvoso,
  564. E, em sanha o pélago e os protervos austros,
  565. Nos derramou por ondas e ínvias fragas:
  566. Poucos ganhámos pé nas vossas praias.
  567. Pátria e raça feroz! bárbara usança!
  568. Pisar em terra mãos hostis nos vedam;
  569. Da areia o asilo a náufragos proíbem.
  570. Se as armas desprezais e as leis humanas,
  571. O céu mede as ações, premeia e pune.
  572. Rei nosso Enéias é, que a ninguém cede,
  573. Pio e inteiro, valente e belicoso:
  574. Se aura etérea o sustenta e o guarda o fado,
  575. Se os manes o não têm, sem medo somos,
  576. De o penhorar primeira não te peses.
  577. Cidades em Sicília e campos temos,
  578. E do sangue troiano o claro Acestes.
  579. Amarrar nos permite a lassa frota,
  580. Mastros, remos cortar, falcar antenas;
  581. Com que ledos, se Itália nos espera.
  582. Os sócios e o rei salvo, ao Lácio vamos:
  583. Mas, se te há consumido o líbio pego,
  584. Ótimo pai dos Teucros, nem d’Iulo
  585. Nos resta a segurança, ao porto embora,
  586. Donde arribámos, a lograr voltemos
  587. A apercebida sícula hospedagem,
  588. E o régio amparo.” O Dárdano termina.
  589. Lavra entre os seus aprovador sussurro.
  590. O rosto abaixa Dido, e foi sucinta:
  591. “Sus, Teucros, esforçai. Recente o estado
  592. Ao rigor me constrange, e a defender-nos
  593. Guarnecendo as fronteiras. Quem de Enéias
  594. Desconhece a prosápia, e as guerras d’Ílio,
  595. Seu valor, seus heróis, seu vasto incêndio?
  596. Nem somos nós tão broncos, nem de Tiro
  597. Tão desviado o Sol junge os cavalos.
  598. Quer da satúrnia Hespéria, quer as margens
  599. D’Erix opteis, em que domina Acestes,
  600. Contai com meu auxílio e salvaguarda.
  601. Folgais de aqui ficar? Esta cidade
  602. Que erijo, é vossa; as naus que se aproximem:
  603. Não farei distinção de Frígio a Peno.
  604. Fosse o rei vosso à Líbia compelido
  605. Do mesmo Noto! O litoral já mando
  606. E os sertões perlustrar; se é que o naufrágio
  607. Em povoado ou brenha o traz perdido.”
  608. Ambos alerta, o padre e o companheiro
  609. Há muito almejam por quebrar a nuvem.
  610. A Enéias se antecipa o forte Acates:
  611. “Nado de Vênus, que tenção meditas?
  612. Tens a frota em seguro, os teus benquistos;
  613. Um só que falta, soçobrar o vimos:
  614. Aos que a mãe te esboçou quadra o mais tudo.”
  615. Mal acabava, a nuvem circunfusa
  616. Se rompe e funde nos delgados ares.
  617. Um deus na espalda e vulto, à claridade
  618. Resplende Enéias; que num sopro a deusa
  619. Ao filho a cabeleira em fulgor banha,
  620. Em luz purpúrea o juvenil semblante,
  621. Em vivo terno agrado os olhos belos:
  622. Qual, pela indústria, com entalhos de ouro
  623. Pário mármore, ou prata, ou marfim brilha.
  624. De improviso à rainha e a todos clama:
  625. “Eis quem buscais, dos líbios vaus escapo,
  626. Enéias sou. Ó tu que só tens mágoa
  627. De tanto horror, que a nós de Tróia restos,
  628. Da Grécia escárnio, em terra e mar batidos,
  629. Falhos de tudo, exaustos, em teu reino,
  630. Em casa, nos recolhes e associas!
  631. Nem pagar-te as finezas dignamente
  632. Podemos, Dido, nem os Frígios todos
  633. Quantos pelo universo peregrinam.
  634. Se para os bons há numes, é justiça,
  635. Pague-te o céu e a própria consciência.
  636. Que século feliz, que pais ditosos
  637. Te houveram filha? Enquanto os vagos rios
  638. Forem-se ao mar, enquanto em giro a sombra
  639. Vier do monte ao vale, enquanto o pólo
  640. Pascer os astros, onde quer que eu viva
  641. Viverá com louvor teu nome e fama.”
  642. Disse; a destra oferece ao velho amigo,
  643. A sinistra a Seresto, e uns após outros,
  644. A Gias, a Cloanto, e aos mais guerreiros.
  645. Da presença do herói pasma a Fenisa,
  646. Tal sucesso a comove, e assim se exprime:
  647. “Que fado te urge, ó filho da alma Vênus,
  648. A árduos perigos e a bravias plagas?
  649. És o Enéias que a deusa ao nobre Anquises
  650. Gerou de Simoente às frígias margens?
  651. Bem me lembra que Teucro, expatriado,
  652. Veio a Sidônia, para um novo assento,
  653. Pedir a Belo ajuda: a opima Chipre
  654. Já vencedor meu pai vastara e tinha.
  655. De Tróia os casos desde então conheço,
  656. Teu nome, e os reis pelasgos. Sempre ufano
  657. Da anciã linhagem teucra, ele ofendido
  658. Com entusiasmo elogiava os Teucros.
  659. Eia, à minha morada, ó moços, vinde.
  660. Por transes mil trazida, iguais destinos
  661. Cá me fixaram. Não do mal ignara
  662. A socorrer os míseros aprendo.”
  663. Isto a Enéias memora, e o guia aos paços,
  664. E em solene festejo ocupa as aras.
  665. Nem de enviar aos nautas se descuida
  666. Touros vinte, co’as mães cem gordos anhos,
  667. Cem corpulentos sedeúdos porcos,
  668. E o doce mimo do jocoso Brômio.
  669. Luxo esplende real no interno alcáçar,
  670. E opíparos banquetes se adereçam:
  671. Primoroso o tapiz, de ostro soberbo;
  672. Nas mesas prataria; em ouro a história
  673. Pátria esculpida, sucessão longuíssima
  674. De uns a outros varões desde alta origem.
  675. Saudoso, impaciente, o pai de Ascânio
  676. Todo em seu filho está; para informá-lo
  677. E o conduzir de bordo, expede Acates.
  678. Do tróico exício as preservadas prendas
  679. Venham também: de escamas de ouro um manto
  680. Brocado, um véu com orlas e recamos
  681. De cróceo acanto, ornatos peregrinos,
  682. Dons maternos de Leda à bela Argiva,
  683. Que a Pérgamo os trouxera de Micenas
  684. À incasta boda; e o cetro que Ilione,
  685. Filha a maior de Príamo, hasteava,
  686. E engranzado colar de perlas finas,
  687. E áurea coroa de engastadas gemas.
  688. Executivo às naus caminha Acates.
  689. Nova traça urde a Cípria, alvitres novos;
  690. Que Amor, no meigo Iulo transformado,
  691. Com os dons nos ossos à rainha infiltre
  692. Insano fogo. A estância ambígua, os Tírios
  693. Bilíngües teme; Juno atroz a inflama;
  694. Tresnoitada a pensar, por fim conjura
  695. O alígero Cupido: “Ó filho, esteio
  696. Único e meu poder, filho, que em pouco
  697. Tens as tiféias soberanas armas,
  698. És meu refúgio, teu socorro imploro.
  699. Sabes que a teu irmão de praia em praia
  700. Flutívago arremessa a iníqua Juno,
  701. E dói-te a nossa dor. Com mil carícias
  702. Tem-no a Sidônia Dido; e o paradeiro
  703. Dos junônios hospícios mal enxergo:
  704. O ensejo é de tentá-la. Eu receosa
  705. Previno os dolos, acender projeto
  706. A rainha; que um nume a não transtorne,
  707. Mas firme, quanto eu mesma, a Enéias ame.
  708. Ouve o como há de ser. O infante régio,
  709. Desvelo meu, do genitor chamado,
  710. Levar a Birsa as dádivas propõe-se,
  711. Das vagas restos e das teucras chamas.
  712. Sopito em sono o esconderei no idálio
  713. Jardim sacro, ou nos bosques de Citera,
  714. Por que os ardis não turbe inopinado.
  715. Tu nele te disfarça uma só noite,
  716. Do menino as feições veste menino;
  717. E, entre o lieu licor e as reais mesas,
  718. Quando em seu grêmio Dido, em cabo leda,
  719. Amplexos te imprimir e doces beijos,
  720. Fogo lhe inspires e sutil veneno.”
  721. À voz da cara mãe depondo as asas,
  722. Finge gozoso Amor de Iulo o porte.
  723. Ela em sono abebera o neto amado;
  724. No colo amima e o sobe ao luco idálio,
  725. Onde mole e suave mangerona,
  726. Entre flores o abraça e fresca sombra.
  727. E obediente os régios dons Cupido
  728. Leva aos Tírios, folgando após Acates.
  729. Já d’áurea tela em suntuoso leito
  730. Acha a Dido, bizarra entre os magnatas.
  731. Com séquito luzido o herói concorre;
  732. Tomam seu posto em púrpura excelente.
  733. Dá-se água às mãos, em canistréis vem Ceres,
  734. Toalhas servem de tosada felpa.
  735. Cinqüenta moças frutas e viandas
  736. Arrumam dentro, aos divos turificam;
  737. Cem outras e iguais moços põem nas mesas
  738. A baixela, a bebida e as iguarias.
  739. Em mó nas salas festivais, os Tírios
  740. De ordem recostam-se em coxins lavrados.
  741. O padre, o falso Ascânio, o vulto admiram
  742. Flagrante e a voz do deus; o manto, as jóias,
  743. De cróceo acanto o véu. Não farta a mente
  744. A mísera Fenisa, à mortal peste
  745. Votada, e mais e mais se abrasa olhando
  746. O menino e seus dons. O pai fingido
  747. Ele nos braços, do pescoço apenso,
  748. Mal sacia-lhe o amor, vai-se à rainha.
  749. Com olhos e alma se lhe apega Dido,
  750. No colo o assenta, sem saber, coitada!
  751. Que deus afaga. O aluno de Acidália
  752. Siqueu aos poucos remover começa,
  753. E intenso ardor insinuar procura
  754. Num coração já frio e há muito esquivo.
  755. A primeira coberta alçada, os vinhos
  756. Bolham, coroados, em bojudas copas.
  757. Retumba o teto, o estrépito por amplos
  758. Átrios reboa; de áureas arquitraves
  759. Pendentes lustres e os brandões acesos
  760. A noite vencem. Grave de ouro e gemas
  761. Pede-a logo a rainha, e do mais puro
  762. Enche a taça, que desde Belo usaram
  763. Seus avós. Nos salões tudo em silêncio:
  764. “Júpiter, se é que aos hóspedes legislas,
  765. Tão fausto alegre dia aos meus e aos Frígios
  766. Faze aos vindouros memorável: Baco
  767. Porta-júbilo assista, e a boa Juno;
  768. Vós o convite celebrai-me, ó Tírios.”
  769. Em honra então na mesa o vinho entorna,
  770. Com seus lábios o toca, e o dá libado
  771. A Bícias provocando: ele aguçoso
  772. Empina a espúmea taça, em trasbordante
  773. Ouro se ensopa: toda a corte o imita.
  774. Logo entoa as lições do sábio Atlante
  775. Em áurea cítara o crinito Iopas:
  776. Canta a solar fadiga, a Lua instável;
  777. Donde homens e animais, bulcões e raios;
  778. Donde o nimboso Arcturo, e os Triões gêmeos
  779. E as Híadas provêm; como apressados
  780. Se tingem no oceano os sóis hibernos,
  781. Ou que demora estorva as tardas noites.
  782. Penos e Troas à porfia o aplaudem.
  783. O serão entretida ia estirando
  784. A infeliz Dido, e longo o amor bebia,
  785. Muito de Príamo, inquirindo muito
  786. De Heitor; que armas da Aurora o filho tinha,
  787. Diomedes que frisões; quejando Aquiles.
  788. “Do princípio antes, hóspede, as insídias
  789. Graias, disse, nos conta, e o pátrio excídio,
  790. E errores teus; que já seteno estio
  791. De praia em praia todo o mar volteias.”

Nota a nota · 26 notas

v. 1Eu, que entoava na delgada avena
Alguns excluem o que precede à proposição. Se nas Geórgicas menciona Virgílio as Bucólicas, não é muito que fale aqui não só destas como das Geórgicas, composição que sabia ser das suas a melhor acabada. Camões nos Lusíadas alude às poesias várias; e Menezes na Malaca às amatórias que escrevera.
↩ voltar ao verso 1
v. 18A lances tais passar, volver tais casos.
O Tibre tem duas fozes: os que verteram ostia por um singular, ou os que, como Delille, o omitem, foram inexatos.
↩ voltar ao verso 18
v. 24Até pospôs a predileta Samos:
Explico o sic volvere parcas como Ferreira na égloga Archigamia. Este sábio, imitando a Virgílio, exprimiu todo o sentido do latim. Em português verteu bem só Barreto Fêo, posto que em sobejas palavras.
↩ voltar ao verso 24
v. 42E, em derredor vagando anos e anos,
Mr. Villenave descobre contradição em queixar-se a deusa de não poder afastar os Troianos do Lácio, tendo dito o poeta que do Lácio andavam arredios pelo ódio de Juno. Virgílio, que toma a peito a causa do herói, refere o fato de errarem os Troianos longamente; mas Juno, que os via seguir o seu caminho apesar dos embaraços que lhes suscitava, julga não ter feito assaz: cada um fala segundo o seu interesse. Contradição fora se Juno é que tivesse dito uma e outra coisa.
↩ voltar ao verso 42
v. 62De austros furentes, de chuveiros prenhe,
O Ni faciat contém um como desafio: reflita-se na força que tem o presente do subjuntivo. O aliás insigne literato João Franco traduziu: Se assim não fora; no que se aparta do original. Nem Delille, nem Bondi, nem Dryden, nem mesmo o exato Annibal Caro, ou algum dos que consultei, foram mais felizes que João Franco.
↩ voltar ao verso 62
v. 96As terras varejando. Ao mar carregam,
Nos Études sur Virgile, increpa-se o receio de Enéias. A esta crítica, já antiga, La Rue (chamam-no em nossas escolas Carlos Rueu) brevemente responde: “Aqui alguns acusam Enéias de pusilânime, mas temerariamente; ele não receia a morte, sim a morte inglória e inútil.” Mr. Tissot excusa o mesmo receio em Aquiles e Ulisses: “D’ailleurs leur faiblesse, si c’en est une, repose encore sur la crainte de mourir d’une mort obscure, sans tombeau et sans apothéose.” De tempos a esta parte, os críticos amam achar mau em Virgílio o que louvam em Homero; meio moderníssimo de alcançar fama de espírito profundo. Isto me faz lembrar dos beatos que, para camparem de religiosos, gostam só das tragédias de Racine e Corneille, e não sofrem a Merope e o Orfão da China, nem se comovem em Zatra e em Mahomet, por serem de Voltaire.
↩ voltar ao verso 96
v. 106–123E alça as palmas e exclama: “Afortunados ⋯ Três rouba Noto e avexa nuns abrolhos,
Mr. Nisard do Instituto de França, na sua estimável obra sobre os poetas latinos da decadência, compara esta tempestade com a do livro XII da Odisséia, e tem que em Virgílio: “les Troyens sont presque moins intéressants que les effets de coups et d’hémistiches du poëte. Virgile, diz ele, sait déjà qu’une tempète est un morceau à effet, sur lequel on compte; il y met du soin, de la coquetterie; il ne croit pas qu’Eole pût faire assez bien les choses; il vient à son aide, il emploie tous les artifices du style: praeruptus aquae mons; Hi summo in fluctu pendent; Volvitur in caput. Le tout afin qu’un professeur de grammaire dise quelquefois: “Ne vous semble-t-il pas voir la montagne d’eau s’écrouler sur le vaisseau d’Oronte?... et ses navires ne sont-ils pas suspendus sur la crête des flots?... Le tableau, pour vouloir être plus complet, est plus vague; l’expression même est molle quelquefois. J’ai souligné le mot insequitur, qui vient deux fois, quoique ce soit le mot qui dise le moins de choses: il s’applique au temps, mais point aux objets... L’image du pilote tombant la tête la primière ne touche point, d’abord parce que c’est un incident imité d’Homère, ensuite parce que la circonstance qui amène cette mort est vague; on ne se figure pas bien un vaisseau soulevé par la poupe et qui verse dans la mer son pilote par la proue, au lieu qu’on se figure très-bien un mât fracassé qui écrase en tombant la tête du pilote et le précipite dans les flots. Ipsius ante oculos ne fait ressortir que davantage le peu de précision du détail de Virgile; car on se demande naturellement: qu’est-ce donc que voit Oronte? est-ce la vague qui vient prendre son vaisseau en poupe? Mais il est si naturel qu’il la voie, qu’il l’est par trop de le dire. Virgile a mis une variante à la catastrophe d’Homère, qui ne me paraît pas heureuse: il fait disparaître dans un tourbillon le vaisseau d’Oronte. Homère s’inquiète peu du vaisseau d’Ulysse, une fois que tout ce qui s’y trouvait d’êtres vivants a péri, et qu’il en a un débris, sur lequel Ulysse se sauvera du naufrage. Virgile ne baisse pas la toile sur ces Troyens qui nagent sur la lame immense; il trouve encore un désastre plus grand, et ce désastre, c’est la perte des armes, des planchers, des richesses troyennes, qui flottent sur les ondes.” — Peço vênia para uma quase dissertação: tenho de refutar a Mr. Nisard, escritor douto e espirituoso, e no seu arrazoado muitos são os reparos contra esta passagem, admirada há mais de 18 séculos. Concordo com ele no louvor ao pai da poesia épica: nada há mais simples e preciso do que essa descrição na Odisséia. O crítico porém não considerou a diferença do assunto: Ulisses, ainda que a Ítaca chegasse nu, como arribara à ilha dos Feaces, tinha consigo tudo que havia mister para atingir o seu fim, isto é para castigar os pretendentes e tomar conta de seu reino; mas Enéias, que ia fundar um império, se nu abordasse a Itália, sem gente, sem o que a tanto custo salvara das ruínas de Tróia, nada poderia obter, e estava gorada a Eneida. Esta reflexão basta para justificar o poeta de julgar lamentável a perda des richesses troyennes qui flottent sur les ondes: as riquezas, entre as quais iam alfaias, armaduras e mil objetos, pertencentes a amigos e a guerreiros troianos, além de serem necessárias aos fugitivos, eram outras tantas lembranças da pátria, cuja perda se devia lastimar. Assim, a lamentação de Virgílio, que se põe no lugar do herói, não recai sobre coisas inanimadas de preferência à ces Troyens qui nagent sur la lame immense, mas sobre as pessoas queridas que esses objetos representavam, mas sobre toda a sociedade troiana. Virgílio morreu sem limar a sua obra, e só a comunicava a poucos: em sua vida pois não houve professor de gramática que dissesse a seus discípulos: Ne vous semble-t-il pas voir la montagne d’eau s’écrouler sur le vaisseau d’Oronte? Não houve então ninguém que dissesse o mais que Mr. Nisard, com uma espécie de fino gracejo, põe na boca dos mestres de latim: o crítico deixou o século de Augusto, e colocou-se no nosso entre os pedantes das escolas; sem refletir que esses hemistíquios foram sempre saboreados pelos homens de melhor tato em todos os séculos, e que a admiração que tais belezas inspiram, passou dos sábios aos espíritos ordinários. — Não vejo também porque l’image du pilote tombant la tête la première ne touche point, d’abord parce que c’est un incident imité d’Homère. É porventura da natureza da imitação o nunca poder comover? Não pensaram assim Ovídio, Dante, Camões, Tasso, Milton, Voltaire, Chateaubriand; e o voto de engenhos tais é para mim da maior exceção. Mr. Nisard não entendeu o ingens a vertice pontus: creu que a mareta veio da popa. Virgílio, que em não poucas viagens tinha observado os fenômenos do mar, sabia como o escarcéu que vem d’avante é mais perigoso, e quanto é raro sossobrar a embarcação que as vagas batem em popa. — Para justificar o poeta marinheiro, como o denomina M. Jal, autor da Archéologie navale, deixemos falar este erudito, na sua breve mas profunda obra o Virgilius nauticus: “Il s’agit cette fois d’une lame immense qui, venant de la proue du navire d’Oronte, et tombant de haut (a vertice me paraît avoir ce double sens; il fortifie ingens, em même temps qu’il est en opposition avec puppim, comme extrémité du vaisseau), déferle sur la poupe, ébranle le capitaine, qui, au mouvement de tangage, est dèjá penché en avant (pronus), et le fait tomber roulant sur lui-même, la tête la première... Quant à vertice, quelques-uns y ont vu la proue, d’autres ne se sont pas préoccupés de ce détail, et j’aime mieux leur oubli qu’un contre-sens comme celui qui a échappé à Servius. Cet illustre commentateur veut que a vertice soit synonyme de a puppi; il ne réfléchi pas que, si la vague se dressant derrière la poupe était entrée dans le navire par l’arrière, ce n’est pas assurément sur la tête que serait tombé Oronte. Virgile a rendu avec sa rare habileté de poëte marin l’effet du tangage et l’embarquement par l’avant de cet effroyable paquet de mer qui couvre le vaisseau, et l’engloutit dans un tourbillon où il sombre, la proue en avant, en tournant trois fois sur lui-même. — Nem o texto, nem M. Jal com toda a competência na matéria, fala em Oronte cair no mar; ele morreu com a tripulação n’um vórtice do navio; caiu no convés, por efeito da arfagem, e não fora da embarcação: o poeta pinta fenômenos interessantes aos que têm feito maiores viagens que as dos batéis do Sena, e que talvez não são aos que nunca viram uma tempestade no oceano ou junto de uma costa brava. — O ipsius ante oculos foi mal interpretado por M. Nisard: refere o ipsius a Oronte, devendo referi-lo a Enéias. E porque diz o texto que era ante os olhos de Enéias? Eis aqui: uma tempestade não dá com a mesma força em todos os navios da mesma conserva, carrega mais em uns que nos outros; e, colocando-se a nau do chefe próxima da que sossobrou, mostra-se o perigo iminente do herói; o que concorre para o interesse da situação. Pode ainda tirar-se uma ilação; isto é que, se não pereceu também a capitânia, Enéias o deveu à experiência e cautelas do piloto mais perito da frota, o velho Palinuro, que estava a seu bordo. — Das censuras só resta uma, o verbo insequitur duas vezes na mesma descrição: defeito levíssimo, que não pode afeiar uma tão formosa passagem. Ainda assim, nesta justa censura há duas inexatidões: o insequitur não é tão fraco como Mr. Nisard imagina, significa também instar, perseguir, e o crítico parece discorrer antes sobre o simples sequitur do que sobre o composto, a que a preposição in imprime uma força maior; nem o verbo somente s’aplique au temps, mais point aux objets; o contrário se vê em Cicero, Philip. 2: Si tum occisus est, quum tu illum in foro spectante populo romano gladio stricto insecutus es. — O praeruptus aquae mons acaba em um monosílabo, como para mostrar o cimo da montanha d’água. O nosso vocábulo monte é dissílabo; e, se nele terminasse o verso português, não tinha a mesma graça: terminei-o no pronome se monosilábico, referindo-se a monte, e obtive assim a vantagem do latino. Os que sentem as belezas da versificação, creio, devem gostar do esdrúxulo; que, tendo mais uma sílaba, parece aumentar a altura da vaga.
↩ voltar à passagem, v. 106
v. 139–149Todas, frouxadas as junturas, sorvem
Vaga de per si quer dizer onda agitada; omiti pois motos. Em semelhantes casos assim o faço; o que torna esta tradução a mais concisa de quantas tenho examindado. — Lançar-se o mar por abonançar é dos bons antigos. Desengasgar, posto que português e vulgar, falta nos nossos melhores dicionários.
↩ voltar à passagem, v. 139
v. 163Por cima em rodas se desliza leves.
Chateaubriand, no Itinerário, é da opinião do doutor Shaw, de que esta baía não existiu só na cabeça de Virgílio, mas ao pé de Cartago. Assemelha-se todavia ao porto de Phorcyna em Homero.
↩ voltar ao verso 163
v. 183No topo há gruta em pêndulos cachopos,
Naquela época não se usava de fermento para levedar o pão, nem havia moinhos; torravam-se os grãos e quebravam-se em pedra. Quando imprimi este livro em separado, usei mal do vocábulo mó. João Franco usa do vocábulo pedra; mas acrescentando o adjetivo orbicular, parece ter tido o mesmo engano que eu. O Snr. Lima Leitão pondo mó, o Snr. João Gualberto e Barreto Fêo pondo moer, também se enganaram.
↩ voltar ao verso 183
v. 186Nem mordaz ferro adunco as lassas quilhas.
Caíco tinha mais de um navio sob as suas ordens imediatas, o que indica o plural puppibus. Sigo a La Rue e Mr. Jal na opinião de que arma não são bandeiras, nem armas pintadas, mas broquéis, lanças, que se suspendiam no alto das popas. Annibal Caro e João Franco traduzem arma por bandeiras.
↩ voltar ao verso 186
v. 210Bom de vinho atestara, aos seus largueia;
Este verso, exprimindo a prudência do chefe que sufoca seus temores, tem merecido a aprovação geral; mas Mr. Tissot o acha mau, porque Enéias desespera da sua fortuna e desconfia dos deuses, e um tal varão não é feito pour gouverner les passions et les volontés de ses semblables. Enéias, bem que pio, é natural que às vezes desconfiasse dos oráculos, e ainda mais da sua fortuna; e se nunca tivesse tal desconfiança, crendo que o fado o ajudava em todas as empresas, a certeza de obter tudo com o favor supremo diminuiria o preço da sua coragem pessoal: as mais das vezes porém é a confiança nos deuses que o acorçoava. O poeta conhecia melhor a nossa natureza do que os seus críticos, e não exagerava os sentimentos; folgava de deixar ver o homem no herói.
↩ voltar ao verso 210
v. 215–228Vós ciclópeos rochedos afrontastes: ⋯ Fartos, na relva espalham-se, refeitos
Observe-se a brevidade e concisão do português: o nosso esfolar verte fielmente o tergora diripiunt costis; o nosso espostejar, o in frustra secant; o nosso desentranhar, o viscera nudant. Para o verubusque trementia figunt servi-me de quase um verso do harmonioso e corretíssimo Garção. Conservo o epíteto velivolum, posto que Mr. Villenave o tenha, com razão, por menos bem aplicado a mare do que aos barcos, preferindo o emprego que dele fez Ovídio, nas Pont., liv IV, epist.5.
↩ voltar à passagem, v. 215
v. 251–252Nos prometeste; quem mudou-te, ó padre?
Antenor fundou Pádua, a qual primeiro denominou Tróia, e ali estabeleceu a pequena colônia dos Antenóridas; Enéias foi quem ao Lácio conduziu o grosso da nação: é por isso que, falando de Antenor, digo deu casa a Teucros, e falando de Enéias, direi deu casa aos Teucros. Distinção não feita pelos tradutores, talvez minuciosa, mas tendente à exatidão e à clareza.
↩ voltar à passagem, v. 251
v. 290–291Ília parir a Marte gêmea prole.
Mr. Tissot, a propósito desta passagem, sentencia que o poeta, en donnant toutes les perfections à ses principaux personages, Auguste et Énée, a méconnu la nature et s’est privé des ressources que lui aurait fournies une imitation plus fidèle de la vérité. Parece incrível que seja isto de quem há pouco vimos tachando o herói troiano de não ser para governar as paixões e vontades de seus semelhantes; o pior defeito de um chefe. Para confutar a Mr. Tissot, recorro a Mr. Tissot. — Se fossem verdadeiras as baldas que à Eneida assacam, não digo os Zoilos, mas os seus mesmos apaixonados, seria ela o mais reles dos poemas. Assim, o pintor que expunha um gabado quadro para colher as críticas e aperfeiçoá-lo, viu que o público o admirava; porém que tantos eram os defeitos que lhe achavam os admiradores, que melhor seria ou ficar o quadro como estava, ou borrá-lo e compor outro. Assim, a moça formosa, a quem todo o rancho dos gamenhos aplaude, quando as invejosas lhe analisam a beleza, bem que em geral não lhe neguem o merecimento, são tais os senões que nela cada uma encontra, que a pobre se deveria ir esconder, como a coruja mais feia e hedionda.
↩ voltar à passagem, v. 290
v. 317Franqueie, nem, do fado ínscia, a rainha
Em vez de Hebrum leio Eurum, com Heyne e outros; porque, exagerando-se a carreira de Harpálice, nada admiraria que ela a cavalo vencesse o curso de um rio; tanto mais, que o Hebro da Trácia não é impetuoso. Assim, cai por si mesma a censura de Heliez, na sua Geographia de Virgílio, de que as Amazonas são colocadas na Trácia européia, sendo habitadoras da asiática. Compus alífugo para exprimir o volucrem fuga.
↩ voltar ao verso 317
v. 347Irmã de Febo ou ninfa? As nossas penas
Alguns substituem ditissimus agri por ditissimus auri, contra a lição antiga, com o fundamento de que os Fenícios, ricos em comércio, o eram pouco em lavras; o que não basta a justificar a emenda: o terem sido os Fenícios medíocres na agricultura nada obsta a que Siqueu entre eles fosse o mais opulento em bens territoriais.
↩ voltar ao verso 347
v. 368Cego, e à paixão fraterna sem respeito,
Dux femina facti verteu João Franco: “Do feito a Dido são as honras dadas.” É obvio que femina é essencial: a ousadia da empresa mais sobressai por ser mulher quem a efetuou.
↩ voltar ao verso 368
v. 382–383Acaso prestes naus, manda assaltá-las;
Na antiguidade, os homens ilustres se gabavam sem ofenderem o decoro e o costume geral: como Ulisses na Odisséia; como ao depois Horácio e Ovídio; como, entre os modernos, Camões, Ercila, Cervantes, Corneille, Antonio Diniz; como, em nossos dias, Bocage, Chateaubriand, Mr. de Lamartine, e outros: nota-se porém que os mais chegados a nós o fazem com mais cautela e menos claramente. É a justificação de Virgílio e de Enéias.
↩ voltar à passagem, v. 382
v. 434–440Ou tocar ninguém possa, nem detê-los
“A comparação, diz Delille, teria mais justeza e graça, a reconhecerem as abelhas de Virgílio, em vez de um rei, uma rainha.” O texto não fala de rei nem rainha: Delille é que em sua tradução introduz um rei das abelhas. Este engano veio de que o poeta romano nas Geórgicas dá um rei com efeito às abelhas; erro do seu tempo, que foi reconhecido por experiências modernas.
↩ voltar à passagem, v. 434
v. 466O testo de um corcel, de Juno régia
“On ne peut que sentir ce vers, diz Mr. Villenave, en désespérant de le traduire. Si le poëte eût dit: sunt res lacrimabiles, c’eût été la même pensée; mais le sentiment se fût affaibli, une touchante image eût disparu. Il est donc des pensées communes qui deviennent grandes par la place d’un mot.” Concordo com a observação geral, não com o sentido em que é tomado sunt lacrimae rerum. Não significa só que há coisas lagrimáveis, sim que das coisas restam lágrimas, ou por outra, que ali choravam-se as desgraças passadas e delas falavam os monumentos públicos; prova de que os Troianos estavam em terra policiada, e não em brenhas, como receara Enéias. Os selvagens, os bárbaros, pranteiam as desgraças presentes e lamentam seus males; mas sós os que já tem um certo grau de civilização é que a seus monumentos encomendam o passado, e a perfeição dos monumentos segue a perfeição da inteligência dos povos. Se pois o poeta, em vez de sunt lacrimae rerum, tivesse dito sunt res lacrimabiles, não desaparecia unicamente a imagem, desaparecia também o pensamento. Esta passagem, das mais sensíveis e maviosas que se encontram nos poetas sublimes, encerra ainda um acabado elogio das belas artes, escolhido um só traço, mas o principal. — Camões, engenho quase igual a Virgílio, diz no mesmo sentido: “De que a memória em lágrimas existe.” Ferreira, alma própria para sentir as belezas dos antigos, disse: “Que ficam, senão prantos e saudades tristes, Daquelas coisas grandes que acabaram?” Há um ressaibo do mesmo pensamento no verso de Petrarca: “Ahi! null’altro che pianto al mondo dura.” São os melhores comentadores de Virgílio, em primeiro lugar Virgílio mesmo, sendo bem estudado, e em segundo lugar os verdadeiros poetas que o sentiram e imitaram.
↩ voltar ao verso 466
v. 588E o régio amparo.” O Dárdano termina.
M. Villenave censura a Delille, Binet, de Guerle, por terem referido unus abest a socios, e não ao navio. A construção da frase, como ele confessa, a tal opinião os levou, e muito bem, porque o masculino unus não pode concordar com classem, nem com navem que se subentenda. Verdade é que não foi só Oronte que pereceu, foi conjuntamente a nau; o que não obsta a que unus se refira ao comandante. Sendo vista aquela desgraça por Acates e Enéias, basta que se fale do comandante para, por associação de idéias, vir à memória a nau. Quanto à fidelidade, vale tanto uma como a outra coisa; pois que a subversão da nau lembra a de Oronte, e vice versa.
↩ voltar ao verso 588
v. 634Se para os bons há numes, é justiça,
Pondera Chateaubriand, no Gênio do cristianismo, que Virgílio amava exprimir-se negativamente, o que concorre para a melancolia dos seus versos; cuida que esta maneira lhe nasceu dos desgostos que o poeta provavelmente experimentou em seus amores. Fora a conjectura, fica-nos a observação verdadeira de que ele emprega freqüentes negativas, o que aumenta a melancolia que inspiram suas obras. Não direi que o tradutor infalivelmente verta essas negativas; sim que em geral o deve de fazer, a fim de conservar mais uma propriedade do seu estilo divino, como lhe chama o mesmo Chateaubriand. Neste non ignara mali a negativa por certo vem muito a propósito. Nem Delille, nem o Snr. Lima Leitão que o imitou, João Franco, nem o Snr. João Gualberto, nem algum dos outros que consultei, fizeram caso desta particularidade; excetos Iriarte e Mr. Villenave. Mais ainda me agrada a tradução do último; porque o Espanhol põe no plural disgracias, e o Francês emprega o singular malheur: posto que o verso do poeta contenha uma máxima geral, Dido não a proferiu como tal; no mali especialmente alude ao exílio da pátria, no que o seu fado assemelha o de Enéias.
↩ voltar ao verso 634
v. 693–698Bilíngües teme; Juno atroz a inflama;
Para doçura e harmonia, aqui se empregam líquidas e vogais: a nossa língua pôde em versos iguais traduzir essas belezas, o que talvez não consiga outra alguma das vivas da Europa; ao menos ainda não o fizeram as duas mais suaves, a espanhola e a italiana.
↩ voltar à passagem, v. 693
v. 703–710Dos junônios hospícios mal enxergo:
Julga Delille que o banquete poderia ser descrito com mais imaginação e poesia, e não nos diz o como; acusa o poeta de nímia sobriedade, e afirma que o festim cessou com o hino solene de Iopas, quando só terminou com a narrativa de Enéias, que toma os livros II e III. Não refletiu que é a descrição completa, e que Virgílio fundiu muito em pouco: a prataria das mesas e bofetes, as peças de ouro esculpidas com a história de Tiro e a série dos avós da rainha, o luxo dos tapetes, dos leitos, dos coxins, tudo mostra a magnificência do banquete e o esplendor do serão. Que tal devera ser, quando era servido por cem moços e cem moças, e destas havia dentro cinqüenta para incensar os penates e arrumar frutas e viandas! Delille, censor de Lucano em teórica, é um dos que mais puseram em voga as descrições estiradas: vários modernos, que o repreendem pela mania de fugir da palavra própria e por suas perífrases, dele são discípulos na longura insaciável das tais descrições. — Na crítica deste festim sobejamente se desmandou Mr. Tissot: “Froid, silencieux, Énée assite au festin, et ne prend part à rien, parce que rien ne le touche; il ne paraît pas s’apercevoir de l’attention passionnée dont il est l’objet.... Virgile ne nous donne qu’une exquisse, à la place d’un tableau. Ce n’est pas avec cette négligence et cette froideur que Fénelon a représenté la passion naissante de Calypso, et son ardeur à connaître et à écouter les aventures du jeune héros en qui elle retrouve l’image d’Ulysse. Milton exprime avec bien plus de grâce, de chaleur et de retenue, le désir qu’Adam et Ève éprouvent d’entendre, de la bouche de Raphaël, le récit des merveilles de la création.” — Havia poucas horas que se tinha Dido encontrado com Enéias no templo; acolhe-o com agrado, e lhe dá um festim, que durou muito além da meia noite: o príncipe troiano não podia s’apercevoir de l’attention passionnée dont il est l’objet; ainda não se cria, nem se devia crer o objeto de uma paixão amorosa, sim de uma delicada atenção da parte da rainha para com um guerreiro da sua ordem, da casa de Príamo e de sangue divino. Se cuidasse Enéias que Dido, assim que o viu, perdeu-se de amores por ele, fora vaidade mal assente em um varão grave, só própria de um dos nossos leões ou adamados casquilhos: dias depois é que deu por esse amor, em que tanto influiu a narração posterior dos seus trabalhos. Se para desculpar a paixão de Dido o poeta imagina o engano de Cupido, transformado em Ascânio, e sem embargo afetados, que fingem desconhecer neste ponto a humana fraqueza, acham-na por extremo repentina; que se não diria do herói se, não tendo a excusa de ser incitado pela própria Vênus, começasse logo a dizer finezas à rainha de Cartago? Tão contagiosa é a doença dos adocicados romances (não trato aqui dos de Fielding, Scott, Lesage, e de outros engenhos desta têmpera), que até homens da melhor doutrina literária se deixam levar do exemplo. — Quanto ao silêncio de Enéias, é a argüição mais destituída de fundamento que dar-se pode: o poeta, que tinha de fechar o serão com a narrativa, de preferência pinta a nascente paixão da rainha; pois em dois livros inteiros iria Enéias aparecer em todo o brilho. Posto que não venha expresso, bem se conhece que o herói conversou muito com Dido, que freqüentemente o interrogava sobre Heitor, Príamo, Memnon, Diomedes e Aquiles: se não se referem as respostas, é porque, tendo Enéias de obedecer à rainha que lhe pede a narração completa, basta que aí venham todas elas. — Na confrontação de Virgílio com Fénelon, esqueceu-se Mr. Tissot de que não era com Enéias, mas com Dido, que devera comparar Calypso, na sua paixão nascente e no ardor de conhecer e escutar as aventuras do jovem Telêmaco; pois na Eneida é Dido quem escuta, e é Enéias quem narra. Se Fénelon resuscitasse, havia de pasmar de se ver preferido ao mestre cujas pisadas seguia, a este mestre sublime e profundo no desenvolver e pintar o amor, sem igual na antiguidade, nunca excedido pelos modernos, os quais nesta parte vencem aos antigos. Mme de Staël, a quem lhe impugnava esta opinião com os exemplos da Eneida, responde: “Eu pudera recusar uma objeção tirada de Virgílio, pois que o citei como o poeta mais sensível.” E quem o diz é a autora de Corina. — Não foi mais feliz M. Tissot com a alegação de Milton: não é Enéias, é Dido que ele devera confrontar com Adam e Eva; Enéias é quem ia narrar, como Rafael. Sem dúvida Milton, quando pinta os amores dos nossos primeiros pais, não é inferior a Virgílio; os dois gênios tiraram toda a vantagem do assunto, bem que difiram muito: um, sob a influência paganismo, não podia pintar o amor com os toques do outro, inspirado pelas idéias do velho e do novo testamento: cada um escreve conforme aos tempos e às crenças. Nem o primeiro amor de uma virgem, ignorante e simples, devera ser tratado como o de uma viúva de trinta anos.
↩ voltar à passagem, v. 703
v. 743–773De cróceo acanto o véu. Não farta a mente ⋯ Ouro se ensopa: toda a corte o imita.
Conservei a audácia do original, que diz : pleno proluit auro. O modo por que me exprimo, não é mais atrevido que o lugar de Ferreira, na formosíssima elegia a Maio; onde, com o seu vigor e costumada energia, assim fala de Vênus, que se despe e solta os cabelos para se banhar: “Ela a neve descobre e solta o ouro; Banham-na as Graças na mais clara fonte: Aparece de amor rico tesouro.”
↩ voltar à passagem, v. 743
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