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EneidaLivro II
LivroII

Prontos, à escuta, emudeceram todos

840 versos · 26 notas do tradutor


  1. Prontos, à escuta, emudeceram todos,
  2. Ao passo que exordia o padre Enéias
  3. Do excelso toro: — Mandas-me, ó rainha,
  4. Renove a dor infanda; o como os Danaos
  5. D’Ílio a pujança e o reino lamentável
  6. Derrocaram; misérias que eu vi mesmo
  7. E em que fui grande parte. Ao relatá-las,
  8. Dolope ou Mirmidon, de Ulisses duro
  9. Há soldado que as lágrimas estanque?
  10. E úmida a noite já do céu descamba,
  11. E as estrelas caindo ao sono induzem:
  12. Mas, se é teu gosto ouvir os nossos casos,
  13. E em breve o extremo afã saber de Tróia,
  14. Bem que à lembrança luto e horror me esquivam,
  15. Narrá-los vou. Repulsos, quebrantados,
  16. Pós tantos anos de fatais reveses,
  17. Os Danaos um cavalo em ar de monte,
  18. Divina arte de Palas, edificam,
  19. Lavram de abeto as intecidas costas:
  20. Ser da tornada um voto à surda espalham.
  21. No cego lado, os bravos sorteando,
  22. A escolha incluem, de hoste armada enchendo
  23. O antro profundo e lôbregas entranhas.
  24. Jaz Tenedos à vista, ilha famosa,
  25. Próspera à sombra do priâmeo cetro;
  26. Hoje ermo porto, às quilhas mal seguro:
  27. Numa abra ali se escondem. Nós os cremos
  28. Velejando na rota de Micenas.
  29. Têucria do largo nojo enfim respira:
  30. Abrem-se as portas, vai-se ao dório campo;
  31. Grato é vê-lo deserto e a praia nua:
  32. “Os Dolopes aqui, Pelides fero
  33. Se abarracava; aqui das naus a estância;
  34. Combatia-se aqui.” Mirando a turba
  35. A oferta exicial da inupta deusa,
  36. A mole a espanta: e lembra-nos Timetes,
  37. Ou fosse dolo ou sina já de Tróia,
  38. Dos muros pô-lo dentro e no castelo;
  39. Mas Cápis aconselha, e os de mais tino,
  40. Que ao pego o dom suspeito e grega insídia
  41. Se atire ou queime em sotopostas chamas,
  42. Ou se broque e tenteie o bojo escuro.
  43. Enquanto incerto e vário alterca o vulgo,
  44. Ardendo Laocoon da cidadela
  45. Corre com basto séquito, e de longe:
  46. “Míseros cidadãos, que tanta insânia!
  47. De volta os Gregos ou de engano exemptos
  48. Seus dons julgais? desconheceis Ulisses?
  49. Ou este lenho é couto de inimigos,
  50. Ou máquina que, armada contra os muros,
  51. Vem cimeira espiar e acometer-nos.
  52. Teucros, seja o que for, há dano oculto:
  53. No bruto não fieis. Mesmo em seus brindes
  54. Temo os Danaos.” De esguelha, assim falando,
  55. À curva liação do ventre eqüino
  56. Com braço válido hasta ingente arroja:
  57. Pregada está tremendo, e ao rijo encontro
  58. Longo geme e retumba a atra caverna.
  59. E, a não ser o destino e a mente avessa,
  60. Nos movera os argólicos recantos
  61. Com ferro a devassar: e inda em pé Tróia,
  62. Inda, alcáçar de Príamo, estarias.
  63. Eis atrás maniatado alguns pastores
  64. Ao rei com vozeria um moço trazem;
  65. Que arteiro, ignoto, adrede os encontrara,
  66. De ânimo firme em dar aos Gregos Tróia,
  67. Ou na empresa acabar. Curiosa acode,
  68. E ávida se atropela e o cerca e apupa
  69. A rapazia. Agora ouve a tramóia,
  70. Por um crime avalia os Danaos todos.
  71. Perante a multidão, turbado, inerme,
  72. Pára, e olhando circunda as frígias turmas:
  73. “Que mar, grita, ou que terra há de acolher-me?
  74. Ai! que me resta? A pátria proscreveu-me,
  75. E os Dárdanos meu sangue infensos pedem!”
  76. Tal pranto nos demove e o furor quebra:
  77. Sua estirpe o exortamos a contar-nos;
  78. Que intento o conduziu, que fé mereça.
  79. Perde o susto o cativo, e assim responde:
  80. “Toda a verdade, ó rei, sincero expendo.
  81. D’antemão que sou Grego não to nego:
  82. Tornar pode a Sinon fortuna escassa
  83. Mísero sim, mas embusteiro nunca.
  84. Talvez já te soasse o nome e a glória
  85. Do afamado Belides Palamedes;
  86. Que, sendo oposto à guerra, atroz calúnia
  87. O acusou de traição, e hoje os Pelasgos
  88. Com tardio pesar extinto o choram:
  89. Pobre meu pai, com ele seu parente,
  90. Mandou-me inda novel seguir as armas.
  91. Quando o reino o atendia e assim medrava,
  92. De algum nome e esplendor também gozámos:
  93. Depois que a inveja do manhoso Ulisses,
  94. Deste mundo o tirou, como é notório,
  95. Mesto arrastando a vida em treva e luto,
  96. O suplício traguei do insonte amigo;
  97. Té que, insano a bramir, vingá-lo juro,
  98. Se vencedor voltasse ao grêmio de Argos,
  99. E ásperos ódios imprudente afio.
  100. Daqui mana meu mal: daqui terrível
  101. Sempre a assacar-me Ulisses novos crimes,
  102. A espargir pelo vulgo ambíguas vozes;
  103. Sempre em remorsos e a tecer meu dano.
  104. Não descansou, sem que o ministro Calchas...
  105. Mas que importuna história em vão recordo?
  106. Por que deter-me? Se os Aquivos todos
  107. Tendes na mesma conta, assaz ouvistes,
  108. Em mim puni-os: o Ítaco o deseja,
  109. Pagá-lo-ão por bom preço os dois Atridas.”
  110. Do ardil pelasgo e infâmia tanta ignaros,
  111. Com ardor à porfia o interrogámos.
  112. Pávido o gesto, e pérfido prossegue:
  113. “Lassos da guerra, o assédio erguer tentaram...
  114. Oxalá que os Argivos o acabassem!
  115. Mas, no abalar, os retiveram sempre
  116. Crespas tormentas, carrancudos austros.
  117. Pronta essa mole de tecidos lenhos,
  118. Mais borrascoso trovejou. Perplexos,
  119. Ao délio templo Eurípilo enviámos;
  120. Que este oráculo triste anunciou-nos:
  121. “Com sangue, ó Danaos, de imolada virgem,
  122. Ao vir a Tróia, os ventos aplacastes;
  123. Sangue requer a volta, e de hóstia grega.
  124. Divulgada a sentença, o espanto cala,
  125. Gelo os ossos traspassa, e tremem todos
  126. Sobre a quem busque a Parca e o deus condene.
  127. Então com grande estrondo ao campo Ulisses
  128. Traz Calchas, e insta que o mistério aclare:
  129. Muitos, já do perverso lendo n’alma,
  130. Em silêncio o porvir me adivinhavam.
  131. Dez dias encerrado, o vate abstém-se
  132. De delatar alguém e à morte expô-lo.
  133. Do Laércio ao clamor, como por força,
  134. A voz desata enfim, me fada às aras.
  135. O assenso foi geral: cada um tolera
  136. Que a sorte que temia em mim recaia.
  137. Negreja o dia infausto: o rito encetam,
  138. Cingem-me a venda, o salso farro aprestam.
  139. Rompo as cordas, confesso, a morte evito;
  140. Nos juncos de um paul me abriga a noite,
  141. Enquanto às velas davam, se é que as deram.
  142. Nem mais espero ver meu ninho antigo,
  143. Nem meu querido pai, meus doces filhos,
  144. Que vítimas quiçá por mim padeçam,
  145. Esta fuga expiando. Pelos deuses
  146. Que atesto, exoro, se entre humanos inda
  147. Há limpa fé, tem mágoa de ânsias tantas,
  148. Perseguida inocência te comova.”
  149. De puro dó a vida lhe outorgámos;
  150. E o mesmo rei, mandando aliviá-lo
  151. De algemas e prisões, lhe disse afável:
  152. “Qual sejas, serás nosso, os teus deslembra.
  153. Quem, fala-me a verdade, o imano vulto
  154. Fabricou desse monstro? a que o destinam?
  155. É religião? é máquina de guerra?”
  156. Imbuído o falsário em dolo argivo,
  157. Soltas palmas levanta, e aos astros clama:
  158. “Eternos fogos, inviolável nume,
  159. Aras, cutelos, que evadi, nefandos,
  160. Mortal banda que a fronte me adornavas,
  161. Testemunhas me sede: os meus renego;
  162. Traído eu possa ao claro descobri-los:
  163. Juramento nem lei me liga à pátria.
  164. Se alto arcano revelo, em ti fiado,
  165. Tu, salvada por mim, salva-me, ó Tróia.
  166. Sempre a Grécia no auxílio de Tritônia
  167. Estribou seu triunfo, até que ousaram
  168. Ímpio Tidides, celeroso Ulisses,
  169. Matando os guardas, o fatal paládio
  170. Roubar do santuário, e à deusa as fitas
  171. Virgíneas profanar com mão cruenta.
  172. Os Danaos, da esperança decaídos,
  173. Afrouxam de energia. Bem mostraram
  174. Vários prodígios a aversão de Palas:
  175. Posta a efígie entre nós, dos hirtos lumes
  176. Fuzis desprega, em salso humor escorre,
  177. Do chão três vezes, ó milagre! pula,
  178. E a rodela desfere e a lança trêmula.
  179. Que o mar se tente asinha o canta o vate:
  180. Que em vão dardejam Tróia, se indo em Argos
  181. O auspício renovar, não reconduzem
  182. O em curvos bojos transportado nume.
  183. E, se à pátria Micenas já navegam,
  184. Vão refazer-se e granjear os deuses;
  185. Mas, repassando o pélago, improvisos
  186. Serão convosco: a profecia é esta.
  187. Da diva em desagravo, amoesta-o Calchas.
  188. De lígneas traves, em lugar da estátua,
  189. Esta mole estupenda construíram;
  190. Que pelas portas, altaneira às nuvens,
  191. Nem possa entrar na praça, nem do povo,
  192. Segundo a crença antiga, ser custódia:
  193. Pois, se braço troiano o dom violasse...
  194. (Antes ao vate o agouro os céus convertam)
  195. Raso iria este império; e, se vós mesmos
  196. Dentro o metêsseis, desceria armada
  197. Ásia em peso às muralhas pelopéias,
  198. Fado que abarcaria os nossos netos.”
  199. Do perjuro Sinon foi crido o engano;
  200. E aos que Tidides, nem o Larisseu,
  201. Dez anos, quilhas mil, nunca domaram,
  202. Vencem dolos e lágrimas traidoras.
  203. Nisto, o monstro maior, mais formidável,
  204. Impróvidos nos turba. À sorte eleito,
  205. O antiste Laocoon com sacra pompa
  206. A Netuno imolava um touro ingente.
  207. De Tenedos (refiro horrorizado)
  208. Juntas, direito à praia, eis duas serpes
  209. De espiras cento ao pélago se deitam:
  210. Acima os peitos e as sangüíneas cristas
  211. Entonam; sulca o resto o mar tranqüilo,
  212. E se encurva engrossando o imenso tergo.
  213. Soa espumoso o páramo salgado:
  214. Já tomam terra; e, em sangue e fogo tintos
  215. Fulmíneos olhos, com vibradas línguas
  216. Vinham lambendo as sibilantes bocas.
  217. Tudo exangue se espalha. O par medonho
  218. Marchando a Laocoon, primeiro os corpos
  219. Dos dois filhinhos seus abrange e enreda,
  220. Morde-os e come as descozidas carnes:
  221. E ao pai, que armado ocorre, ei-las saltando
  222. Atam-no em largas voltas; e enroscadas
  223. Duas vezes à cintura, ao colo duas,
  224. O enlaçam todo os escamosos dorsos,
  225. E por cima os pescoços lhes sobejam.
  226. De baba e atro veneno untada a faixa,
  227. Ele em trincar os nós com as mãos forceja,
  228. E de horrendo bramido aturde os ares:
  229. Qual muge a rês ferida ao fugir d’ara,
  230. Da cerviz sacudindo o golpe incerto.
  231. Vão-se os dragões serpeando ao santuário,
  232. E aos pés da seva deusa, enovelados,
  233. Sob a égide rotunda ambos se asilam.
  234. Cresce o pavor, os corações retremem:
  235. Pregoam justa a pena ao temerário
  236. Que a ponta de ímpia lança no costado
  237. Fincou do sacro roble; e o simulacro
  238. Bradam que se recolha e se ore a Palas.
  239. Ferve a gente; a muralha e as portas rasga,
  240. Leves rodas por baixo e ao colo ajeita
  241. Cabos tendidos. Prenhe de armas, sobe
  242. A máquina fatal: em torno a coros
  243. Cantam meninos e devotas virgens,
  244. De tocarem na corda mui contentes.
  245. Através da cidade ela soberba
  246. Vai minaz resvalando. Ó pátria! ó Ílio!
  247. Invictos muros, divinal estância!
  248. Berço de heróis! À entrada quatro vezes
  249. Pára, e quatro restruge um rumor de armas.
  250. Surdos, cegos instando, o monstro infausto
  251. Ah! no augusto recinto o colocamos.
  252. Fadada a não ser crida, então Cassandra
  253. Abre o futuro; e os templos nós dementes
  254. Naquele de Dardânia último dia,
  255. De virentes festões velando fomos.
  256. Vira o céu, no oceano a noite cai,
  257. E em basta sombra envolve a terra e o pólo
  258. E a mirmidônia astúcia: ante as muralhas
  259. Derramada em silêncio, a tróica gente
  260. Em modorra ensopava os lassos membros.
  261. Já, da tácita Lua ao mudo amparo,
  262. De Tenedos partia às notas praias
  263. A instructa armada, e a capitânia régia
  264. Sinal flâmeo iça à ré. De iníquos deuses
  265. Sinon valido, a furto os píneos claustros
  266. Laxa; e o cavalo, devassado, às auras
  267. Rende as falanges que no ventre aloja.
  268. Por um calabre escorregando, alegres
  269. Baixam do cavo seio os cabos Toas,
  270. Tissandro e Stenelo, o maldito Ulisses,
  271. Atamante e Pelides Neoptolemo,
  272. E Macaon primeiro e Menelau,
  273. E autor da máquina o engenheiro Epeu.
  274. Tróia invadem sepulta em sono e vinho:
  275. Matam a guarda, os seus na brecha esperam,
  276. E os batalhões de acordo se encorporam.
  277. Era quando aos mortais começa e côa,
  278. Divino dom, gratíssimo descanso:
  279. Tétrico Heitor em sonhos se me antolha,
  280. Debulhando-se em pranto; como outrora,
  281. Negro do pó cruento a biga o arrasta,
  282. Os loros arrochando os pés tumentes.
  283. Ai! quão mudado! Aquele Heitor não era
  284. Que no espólio volveu do próprio Aquiles,
  285. E lançou teucra flama às popas graias.
  286. Pegada a grenha em sangue, a barba esquálida,
  287. Crivam-no golpes cem, que junto aos muros
  288. Paternos recebeu. Chorando eu mesmo
  289. Parecia arguí-lo em mesto acento:
  290. “Ó luz dardânia, segurança e apoio!
  291. Donde vens? que detença! Em tal estado
  292. Só te avistamos, caro Heitor, agora
  293. Oue a cidade agoniza e os teus perecem?
  294. Que ato indigno afeou teu rosto ameno?
  295. Que feridas são essas?” Ele nada,
  296. De vãs queixas não cura, e grave arranca
  297. Fundo suspiro: “Hui! foge, o incêndio medra,
  298. Foge, filho da deusa: em preia aos Danaos
  299. Rui do fastígio Tróia. Assaz fizemos
  300. Pelo rei, pela pátria. Esta só destra,
  301. A haver defensa, defendera Pérgamo.
  302. Seu culto Ílio te fia e seus penates:
  303. Toma-os contigo; o pélago discorram,
  304. Té que lhes fundes majestoso alcáçar.”
  305. Disse, e tirou dos penetrais as fitas
  306. E a poderosa Vesta e o fogo eterno.
  307. A cidade se afunde em grita e pranto;
  308. E, inda que num retiro entre arvoredos
  309. Meu pai habite, mais clareia o estrondo,
  310. Recresce mais e mais o horror das armas.
  311. Sacudo o sono, ao píncaro da torre
  312. Trepo, ouvidos apuro. Tal, se a queima
  313. Soprando o bravo sul cai na seara;
  314. Tal, se grossa torrente despenhada
  315. Arrasa o campo e as ledas sementeiras,
  316. Prostra o lavor dos bois, aluídas selvas
  317. Arrebatando; lá do sáxeo cume
  318. Pasma néscio o pastor que o ruído escuta.
  319. Ei-la a fé grega manifesta, e nua
  320. A traição: de Vulcano ao vivo impulso
  321. A ampla casa a Deifobo já desaba;
  322. Já próximo arde Ucalegon; ao largo
  323. Nos fretos do Sigeu reluz a flama:
  324. Clangor de tubas e alaridos soam.
  325. Das armas ferro, desatino, e em armas
  326. Doido onde vá não sei; mas na ânsia fervo
  327. De socorrer com gente a fortaleza:
  328. A ira me precipita; e quanto é belo
  329. O morrer pelejando à mente ocorre.
  330. Eis Panto escapo dentre aquivas lanças,
  331. Panto, filho de Otreu, de Febo antiste,
  332. Com sacro espólio, com vencidos numes,
  333. Do alcáçar pela mão traz um netinho,
  334. Fora de si vem vindo à estância minha.
  335. “Ah! Panto, que é da pátria? onde o conflito?
  336. A que posto acudir?” E, ele em soluços:
  337. “O termo veio, o inelutável dia;
  338. Já fomos, Tróia foi-se e a glória sua:
  339. A Argos transferiu tudo o fero Jove;
  340. Na cidade combusta a Grécia impera.
  341. Assoberbando a praça, o monstro eqüino
  342. Batalhões verte; e ufano ateia incêndios
  343. O insultante Sinon: da gran’ Micenas
  344. Quantos jamais vieram, se apinhoam
  345. Nas bipatentes portas, e aos milhares
  346. As gargantas e ruas pejam de armas:
  347. O gume do aço agudo a ferir prestes
  348. Nu lampeja: o combate apenas tentam
  349. Das portas as primeiras sentinelas,
  350. E em cego marte resistir se atrevem.”
  351. O Otríades me instiga e etéreo influxo:
  352. Vôo, entre o ferro e o fogo, onde a sinistra
  353. Erínis por mim chama, onde o bramido,
  354. Onde o clamor nos astros retroando.
  355. Com Rifeu se me agrega o estrênuo Ifito,
  356. E em reforço ao luar Dímas e Hípanis
  357. Reconheço, e o Migdonides Corebo;
  358. Jovem que, por Cassandra insano ardendo,
  359. A Ílion pouco havia era chegado
  360. Em auxílio do sogro e do seu povo:
  361. Ai! que a pressaga voz descreu da esposa.
  362. Ao ver tão nobre audácia: “Ó peitos, brado,
  363. Fortíssimos em vão, se a todo o extremo
  364. Vosso anelo é seguir-me, o torvo aspecto
  365. Olhai das coisas. Deste império esteios,
  366. Os deuses, desertando aras e templos,
  367. Foram-se todos: à cidade acesa
  368. Tarde acorreis: morramos, pelas armas
  369. Rompamos. Salvação para os vencidos
  370. Uma, esperarem salvação nenhuma.”
  371. Isto os provoca e atiça. Quais rapaces
  372. Lobos que, cegos de faminta raiva,
  373. Saem por névoa escura, ávidas crias
  374. De goelas secas nos covis deixando;
  375. De morrer certos, por dardos, por hostes,
  376. Tróia, abrindo caminho, atravessamos:
  377. Circunvoa atra noite em ouca sombra.
  378. Quem poderá contar o estrago horrendo,
  379. Quem dessa noite as fúnebres tragédias,
  380. Ou lágrimas terá que a pena igualem?
  381. A soberana antiga das cidades
  382. Baqueia; e de cadáveres sem conto
  383. Ruas, casas, vestíbulos sagrados
  384. Se alastram. Nem só mana o teucro sangue;
  385. Brio inato os vigora: a terra mordem
  386. Os vencidos de envolta e os vencedores:
  387. Tudo é luto e pavor, crueza é tudo;
  388. Multiplica-se a morte em vária forma.
  389. Cópia a guiar de Aqueus, primeiro Andrógeos,
  390. Do seu bando nos crendo: “Avante, amigos,
  391. Avante ó bravos; que moleza e inércia!
  392. Outros saqueiam Pérgamo abrasada;
  393. Vós de alterosas naus desceis agora?”
  394. Disse, e a resposta ambígua o desengana;
  395. Em laço hostil sentiu-se: estupefato
  396. Reprime o passo e a língua. O viandante,
  397. Que entre áspero sarçal em cobra oculta
  398. Senta o pesado pé, trépido salta,
  399. Foge ao réptil, que desenrola as iras
  400. E incha o cerúleo colo: assim tremendo
  401. Recua Andrógeos. Pela férrea mata
  402. Arremetemos, e aos montões prostramos
  403. Gente ignara do sítio e espavorida.
  404. Deste ensaio e bafejo da fortuna
  405. Animado Corebo, exulta e grita:
  406. “Por onde, ó sócios, fado amigo aponta,
  407. Eia, sigamos. Os broquéís mudemos,
  408. E insígnias graias adaptemos. Vença
  409. Manha ou valor, quem do inimigo o exige?
  410. Eles armas nos dêem”. Logo o de Andrógeos
  411. Luzido escudo enfia, e o elmo enlaça
  412. Comante, e ajusta ao lado argiva espada.
  413. Rifeu, Dímas, o imita; os moços folgam;
  414. Do recente despojo armam-se todos.
  415. Entre a caterva hostil, sem fausto nume,
  416. Por cega noite prélios mil travamos;
  417. Remetemos ao Orco infindos Gregos.
  418. Uns às praias fiéis e às naus se acolhem;
  419. Parte com torpe medo o bruto escalam,
  420. E entram de novo o conhecido bojo.
  421. Ah! sem querer divino o que é seguro?
  422. Do ádito de Minerva eis desgrenhada
  423. Cassandra arrastam priaméia virgem,
  424. Debalde ao céu levando ardentes olhos;
  425. Olhos, que as tenras mãos lhe atavam cordas.
  426. Não o sofreu Corebo, e em fogo e sanha
  427. Perecedouro aos esquadrões se atira;
  428. E após vamos forçando um bosque de armas.
  429. Do sumo templo os nossos, enganados
  430. Pela armadura e argólicos penachos,
  431. Nos despedem chuveiros de arremessos,
  432. E misérrima clade se origina.
  433. Num corpo os Danaos, retomada a virgem,
  434. De ira a gemer, daqui dali carregam;
  435. Acérrimo insta Ajax e os dois Atridas,
  436. E a hoste dolopéia. Assim contendem
  437. Soltos num turbilhão Zéfiro e Noto,
  438. E o Euro ovante nos frisões da Aurora:
  439. Zune a selva; Nereu braveja e espuma,
  440. De tridente remexe o equóreo seio.
  441. Quantos pela cidade afugentámos
  442. Entre a noturna treva, outra vez surdem;
  443. Por nosso estranho acento o embuste e as armas
  444. Descobrem. Turba imensa nos esmaga:
  445. Primeiro, às mãos de Peneleu, Corebo
  446. De bruços ante a deusa armipotente
  447. Tomba, e sucumbe o espelho dos Troianos,
  448. O único justo, eqüíssimo Rifeu:
  449. Divino alto juízo! O mortal trago
  450. Bebe a golpes dos seus Dímas e Hípanis:
  451. Nem singular piedade, nem te vale
  452. Na queda, ó Panto, a ínfula de Apolo.
  453. Dos meus última flama e pátrias cinzas,
  454. Testemunhai que nunca em vosso ocaso
  455. Dardo ou risco evadi; que, a ser meu fado
  456. Morrer então, meu braço o merecia.
  457. Eu dali me desprendo, e Ifito e Pélias,
  458. Pesado e anoso Ifito, e Pélias tardo
  459. De Ulisses vulnerado. À estância régia
  460. Nos tira o ruído: a guerra se encruece,
  461. Qual se, o restante em paz, lá só reinasse
  462. Toda a matança e horror: o infrene Marte
  463. Compele os Danaos, que o palácio atacam
  464. E a testudem cerrando as portas cercam.
  465. Árduas escadas fixam nas paredes,
  466. E junto aos postes nos degraus se entribam;
  467. A sinistra no escudo apara os tiros,
  468. Cimalha e capitéis a destra aferra.
  469. Os Dárdanos de cima, as cumieiras
  470. E as torres demolindo, com tais armas,
  471. Vendo-se já no extremo, se defendem;
  472. E áureas traves, de avós decoro e pompa,
  473. Devolvem; densa intrépida coorte
  474. Dentro a fios de espada o ingresso embarga.
  475. De socorrer o paço o ardor nos toma,
  476. De esforçar os vencidos e ajudá-los.
  477. Atrás comunicava os edifícios
  478. Postigo inoto e corredor escuso,
  479. Por onde, ai dela! aos sogros vir soía,
  480. Durante o reino, Andrômaca sozinha,
  481. Seu Astianaz no caro avô trazendo.
  482. Lá monto ao cimo, e estavam pobres Teucros
  483. Sem fruto a dardejar. Torre em declive
  484. Pendente, às nuvens sobre o teto alçada,
  485. Tróia estendida, a frota e arraial grego
  486. Descortinava: em cerco das junturas,
  487. Onde as vigas do solho a enfraqueciam,
  488. A investimos a ferro, e do alto assento
  489. Destroncada impelimo-la. De chofre
  490. O baque estronda: a ruína ao longe abafa
  491. Turmas de Argivos; mas sucedem outras:
  492. Nem dardo ou pedra cessa, é tudo tiros.
  493. Pirro à entrada no pórtico ufaneia,
  494. Como o aço e brilho aêneo relumbrando:
  495. Tal, cevada em má grama, à luz a cobra,
  496. Que prenhe o brumal frio a soterrava,
  497. Nova a pele, se empina, e moça e nédia,
  498. Lúbrico dorso enrola, árdua o Sol mira,
  499. Fulge e vibra a trissulca ardente língua.
  500. Com Perifas membrudo e a flor dos Scírios,
  501. Assalta o paço Automedonte o pajem,
  502. Que os de Aquiles picava árdegos brutos;
  503. Lançam fachos ao cume. À frente Pirro
  504. A machadadas racha os umbrais duros,
  505. E éreos portões descrava da couceira;
  506. Traves descose, firmes robles fende,
  507. E cava ampla abertura. O interno centro
  508. Aparece, e átrios longos patenteia;
  509. Aparecem de Príamo os retretes,
  510. Mansões de priscos reis; e um corpo em armas
  511. Cobre o limiar. Envolta a casa em prantos
  512. Longo ecoa; as abóbadas ululam
  513. Com femíneo gemer, triste alarido,
  514. Que áureas estrelas fere. Apavoradas
  515. Andam mães pelas vastas galerias,
  516. E ósculos pregam nos portais que abraçam.
  517. Pirro, emulando o pai, no ataque insiste;
  518. Nem há barreira ou guardas que o sustenham.
  519. Do crebro aríete abolada a porta,
  520. Rui dos gonzos rendida. À força rompem;
  521. No ádito em postas aos primeiros talham,
  522. E tudo enchem de tropas e de estragos.
  523. Bem menos, quando inchado o espúmeo rio
  524. Marachões quebra e valos sobrepuja,
  525. Agros furioso inunda, e na torrente
  526. Roja armento e currais de campo em campo.
  527. Eu vi Pirro na brecha encarniçado
  528. E os dois Atridas; Hécuba e as cem noras,
  529. E o rei no altar vi mesmo com seu sangue
  530. Maculando os que ali sagrara fogos.
  531. Os tálamos cinqüenta, em que esperava
  532. Tantos netos, magníficas portadas
  533. De ouro e espólio barbárico, arruinam:
  534. Possui o Danao quanto poupa a chama.
  535. Talvez de Príamo o destino inquiras.
  536. Tróia em destroço, o paço contemplando
  537. Derruído e hostilmente profanado,
  538. De ociosa armadura o velho os ombros
  539. Trêmulos veste, inútil ferro à cinta,
  540. Entre basto inimigo a morrer parte.
  541. Num pátio, exposto ao eixo nu celeste,
  542. Louro antigo os penates obumbrava,
  543. Sobre ara ingente os ramos espalmando.
  544. Qual da borrasca fugitivas pombas,
  545. Num grupo ali pousando, Hécuba e as filhas
  546. Consigo em vão seus divos apertavam.
  547. Sob armas juvenis ao rei que assoma:
  548. “Que dira insânia! diz; mísero esposo!
  549. Onde em bélico apresto assim caminhas?
  550. Tal defensa não basta e humano auxílio;
  551. Nem que o meu próprio Heitor surgisse agora.
  552. Vem nesta ara abrigar-te, ou vem conosco
  553. Morrer.” Nisto, ao longevo a mão pegando,
  554. Em sagrada cadeira a par o assenta.
  555. Fugindo à morte um filho seu, Polites,
  556. Eis ferido, entre lanças, entre imigos,
  557. Por átrios longos, pórticos desertos,
  558. Gira: de golpe feito, o acossa, o apanha
  559. Já já Pirro feroz, de um bote o aterra:
  560. Ao tempo que ante os pais ia chegando
  561. Baqueia, e dessangrado a vida exala.
  562. A sua o rei sentiu no extremo fio,
  563. Mas reprimir não pôde a voz e a ira:
  564. “Pelo atentado, exclama, e audácia tanta,
  565. Se há no céu providência e piedade,
  566. Pague-te o céu com merecido prêmio,
  567. A ti que o matas às paternas barbas,
  568. E estas cãs me funestas e enxovalhas!
  569. Não, tal não se houve Aquiles, meu contrário,
  570. De quem te finges prole: ao suplicar-lhe
  571. Enrubeceu, direito e fé guardou-me;
  572. Sepultar permitiu-me Heitor exangue,
  573. Rever meus reinos.” Disse, e arroja o velho
  574. Dardo imbele sem gume, que repulso
  575. Pelo rouco metal, à superfície
  576. Do embigo do broquel frustrado pende.
  577. “Pois vai contá-lo ao genitor Pelides;
  578. Núncio narrar te lembre estas baixezas,
  579. E o quanto o degenero. É tempo, morre.”
  580. Falando Neoptolemo o arrasta às aras
  581. Tremebundo, e do filho em quente sangue
  582. A resvalar: na esquerda a coma enleia;
  583. Com a destra saca a lâmina fulgente,
  584. No vazio lha embebe até aos copos.
  585. De Príamo este o fado, assim finou-se
  586. Tróia arder vendo e Pérgamo assolar-se:
  587. Quem d’Ásia em povos cem reinou soberbo
  588. É cadáver; na praia o tronco informe
  589. Jaz sem nome, e a cabeça decepada.
  590. Pasmei de horror, confesso: o pai querido,
  591. No eqüevo rei que derramava o alento
  592. Pela crua estocada, eu me figuro;
  593. Figuro ao desamparo o tenro Ascânio,
  594. Creusa em pranto, os lares saqueados.
  595. Olho atrás, e procuro os companheiros:
  596. Todos lassos e em dor me abandonaram,
  597. Despenhando-se em terra ou sobre as chamas.
  598. Já só de amigos, ao clarão do incêndio
  599. Erro, e em torno espreitando a cada passo,
  600. No santuário escondida e taciturna
  601. A Tindárida enxergo aos pés de Vesta:
  602. Dos nossos pela queda exasperados,
  603. Dos seus medrosa, do ofendido esposo,
  604. Essa Erínis comum de Grécia e Tróia,
  605. Execrada, entre as aras se acoutava.
  606. A alma abrasou-se-me; iracundo anseio
  607. Vingar na infame a pátria agonizante.
  608. “Que! soberana ir esta à sua Esparta?
  609. Incólume, em triunfo, entrar Micenas?
  610. Ver a casa, o marido, e os pais e os filhos?...
  611. E ornem-lhe a pompa iliacas escravas!
  612. E a ferro acabe o rei, queime-se Tróia,
  613. E suem teucro sangue as teucras praias!...
  614. Não: se é nula a vitória, se é desdouro
  615. Punir de morte a feminil fraqueza,
  616. Louvor seja extinguir este ímpio aborto;
  617. Farto ao menos a sanha e ardente sede,
  618. Saciarei de prazer dos meus as cinzas.”
  619. De fúrias transportado isto profiro,
  620. Quando a meus olhos, como nunca, pura
  621. A alma Vênus, a noite alumiando,
  622. Em divindade manifesta brilha,
  623. Tal qual sói aos celícolas mostrar-se;
  624. E segurando em mim com rósea boca
  625. Me atalha a genetriz: “Que mágoa, ó filho,
  626. Que indômita paixão te desatina?
  627. Que é dos nossos penhores? onde o idoso
  628. Cansado pai largaste? onde o filhinho?
  629. Vive ainda Creusa? Atroz caterva
  630. Lhes volteia em redor; sem meus desvelos
  631. Já tragado os houvera ou gládio ou fogo.
  632. Páris não culpes e a Lacena odiosa;
  633. Dos deuses sim, dos deuses a inclemência
  634. É que abate e subverte a excelsa Tróia.
  635. Repara: a nuvem que ora os mortais visos
  636. Te embota úmida e baça, eu vou tirar-ta:
  637. Sem temor obedece à voz materna.
  638. Lá onde esparsas moles e arrancadas
  639. Rochas a rochas vês, e undante fumo
  640. E enovelado pó, Netuno a golpes
  641. Do grã tridente os muros e alicerces
  642. Alui, e do orbe desarreiga Tróia.
  643. Sevíssima e em furor, de aceiro e malha,
  644. Convoca Juno, ali nas portas Scéias,
  645. Das naus os batalhões. Já sobre as torres,
  646. Nota, sentada em lampejante nuvem,
  647. Tritônia agita a Górgona terrível.
  648. Jove mesmo acorçoa e esforça os Gregos,
  649. Suscita os imortais contra Dardânia.
  650. Foge, anda, filho meu, põe termo às lidas.
  651. Em salvo ao pai te guio, eu não me aparto.”
  652. Disse, e na sombra envolve-se. Aparecem
  653. De infensos numes cataduras torvas:
  654. Ílio esboroar em cinzas se me antolha,
  655. Fundir-se toda a neptunina Tróia.
  656. Assim nos altos montes orno antigo,
  657. Se extirpá-lo a machado em crebro assalto
  658. Lenhadores porfiam, nuta, ameaça,
  659. Trêmula a coma, sacudido o cume,
  660. Té que aos poucos cerceado, alfim gemendo,
  661. Cai dos cabeços com ruidoso estrago.
  662. Côo entre o ferro e o fogo, a par de Vênus;
  663. Recua o fogo e se desvia o ferro.
  664. Chego à pátria morada, ao velho corro,
  665. No Ida ampará-lo mais que tudo anelo;
  666. Nega-se ele ao desterro, a vida enjeita
  667. Sem Tróia: “Ó vós, nos clama, a quem robora
  668. Viçoso inteiro sangue, afervorai-vos,
  669. Parti. Se os deuses me quisessem vivo,
  670. Conservavam-me agora o avito assento.
  671. Sobra uma vez remanescido termos
  672. Da cativa cidade após o excídio.
  673. Dizei-me o adeus supremo, ah! despedi-vos
  674. De um cadáver. A morte eu mesmo a apresso,
  675. Ou dê-ma compassivo e me despoje
  676. Qualquer Danao: que importa a sepultura?
  677. Peso inútil, há muito o céu me odeia,
  678. Dês que o divino padre, o rei dos homens,
  679. Assombrou-me e tocou-me com seu raio.”
  680. Com tal discurso, pertinaz resiste
  681. Às lágrimas de Ascânio e de Creusa,
  682. Às da família inteira, que lhe instamos
  683. Pai não ajude a sorte a aniquilar-nos:
  684. Quedo à tenção se amarra. Eu torno às armas,
  685. Meu desejo é morrer. Que mais conselho,
  686. Que alternativa há mais? “Ó crime... e cuidas
  687. Que eu possa arredar pé, que te abandone?
  688. Tu blasfemas, senhor? Se é lei superna
  689. Que d’Ílio nada fique, e os teus pretendes
  690. Juntar contigo à moribunda Tróia,
  691. A estrada franca tens: não tarda Pirro,
  692. Que, o sangue régio gotejando, à face
  693. Do pai degole o filho e o pai nas aras.
  694. Que? de lanças, de incêndios me resguardas,
  695. Por que, ó madre, em meus lares o inimigo
  696. Ante mim próprio imole a esposa minha,
  697. E um no sangue do outro Iulo e Anquises?
  698. Armas, armas, varões: para os vencidos
  699. Acena o último dia: ah! consenti-me
  700. Que volte aos Danaos, que a peleja instaure:
  701. Nem todos hoje inultos morreremos.”
  702. De novo empunho a espada, embraço o escudo,
  703. E no ato de sair se me atravessa
  704. À soleira Creusa, os pés me abraça,
  705. E o meu tenrinho Ascânio me apresenta:
  706. “Vais perecer? a transe igual nos leva;
  707. Se inda em perícia e esforço te confias,
  708. O que primeiro cumpre é defender-nos.
  709. A quem teu pai, a quem teu filho entregas,
  710. E esta que nomeavas tua esposa?”
  711. Quando esturgia o teto em ais desfeita,
  712. Ó prodígio estupendo! estando Iulo
  713. De aflitos pais entre ósculos e abraços,
  714. Um resplendor sutil, ígneo turbante,
  715. Lhe coroa a cabeça, e em mole tato
  716. Às fontes se apascenta e lambe as comas
  717. A inócua flama. Trépidos de medo,
  718. O flagrante cabelo sacudimos,
  719. Jorros d’água a deitar no sacro lume.
  720. Mas ledo o genitor na etérea corte
  721. Fita os olhos, e orando as palmas tende:
  722. “Júpiter sumo, se te abrandam preces,
  723. Atende ao menos; se à piedade és grato,
  724. Auxilia-nos, padre, o agouro assela.”
  725. Com súbito fragor, mal finda o velho,
  726. Toa à esquerda, e nas sombras deslizando
  727. Pelo céu alva estrela acende a cauda;
  728. Vemo-la a escorregar pelos telhados,
  729. Na selva Idea a esteira assinalando,
  730. Sumir-se: longo sulco abre em centelhas,
  731. À larga odor sulfúreo exala e estende.
  732. Meu pai rendido se ergue, invoca os deuses,
  733. E adora o astro santo: “Ó pátrios numes,
  734. Presto vos sigo o aceno; impulso é vosso:
  735. Protegei, ressalvai-me o neto e a casa:
  736. Tróia está sob a vossa potestade.
  737. Nem mais recuso, filho, eu vou contigo.”
  738. Nos muros claro então crepita o fogo,
  739. De perto volve em ala e o esto esparge.
  740. “Sus, meu pai, eu te ajudo, às nossas costas
  741. Sobe-te, ó caro, não me agrava o peso:
  742. Em sucesso qualquer, teremos ambos
  743. A mesma salvação, comum perigo.
  744. Ladeie-me o filhinho, e atrás Creusa
  745. Não se afaste de mim. Sentido, ó servos:
  746. Ao sair, num outeiro está de Ceres
  747. Velho templo deserto, ao pé de antigo
  748. Cipreste, com respeito religioso
  749. Dos avós longamente conservado:
  750. Por diverso caminho ali seremos.
  751. Tu, padre, o que há sagrado e os pátrios divos
  752. Toma: tinto em matança, ímpio é tocá-los,
  753. Sem que eu me expurgue em vívida corrente.”
  754. Nisto, o vestido pelos ombros dobro,
  755. Envergo de um leão a fulva pele,
  756. Curvo-me e o pai carrego: o tenro Iulo
  757. Trava-me a destra, amiúda os curtos passos
  758. Por alcançar os meus; não longe, a esposa
  759. Nos vai na trilha por opacos sítios:
  760. E eu, que há pouco arrostava hostes e dardos,
  761. De um sopro agora tremo, um som me espanta,
  762. Pela companha e carga temeroso.
  763. Propínquo às portas, já me conto livre;
  764. De repente um tropel ouvir cuidamos;
  765. Na treva Anquises lobrigando: “Filho!
  766. Grita; apressa-te, filho; ei-los: diviso
  767. Broquéis ardentes, fulgurantes malhas.”
  768. Não sei que nume infausto alucinou-me:
  769. Por dévia estranha rota extraviado,
  770. Ai! mísero perdi minha Creusa:
  771. Se o fado ma roubou, se errou a estrada,
  772. Ou lassa recostou-se, é duvidoso:
  773. Nunca mais a avistei. Inadvertido
  774. Pela ausência não dou, senão no outeiro,
  775. Próximo ao templo já da prisca Ceres:
  776. Aí feita a resenha, ela só falta,
  777. Malogrando o marido e o filho e os sócios.
  778. Que homem, que deus não acusei demente?
  779. Que houve de mais cruel no excídio horrível?
  780. Num fundo vale escondo, e aos companheiros
  781. Os divos encomendo e Ascânio e Anquises.
  782. Corro à cidade em refulgentes armas,
  783. Firme em revirar Tróia e em novas lutas
  784. Pôr a cabeça na arriscada empresa.
  785. Lesto às muralhas, ao limiar escuro
  786. Da porta volto que me deu passagem;
  787. Retrocedendo, pela noite apalpo,
  788. Os olhos canso em busca das pegadas:
  789. Tudo aterra, o silêncio o pavor dobra.
  790. Talvez, talvez regressaria à casa;
  791. E lá me envio: os Danaos a invadiram,
  792. Dominavam-na toda: o voraz fogo,
  793. Dos ventos irritado, os altos ganha,
  794. Rolando em labareda os ares cresta.
  795. Prossigo; à régia e à cidadela passo:
  796. E já nos vácuos pórticos, no asilo
  797. De Juno, eleitos a velar na presa,
  798. Se postam Fênix e o nefando Ulisses;
  799. Os tesouros de Tróia em montões vejo,
  800. De acesos tetos, saqueados templos,
  801. Vasos de ouro maciço, alfaias, mesas,
  802. Vestes sacerdotais: à roda em fila
  803. Estão pávidas mães, tenros meninos.
  804. Ousei bradar na treva, e mesto as ruas
  805. Enchi de vozes; por demais gemendo,
  806. Chamei, chamei e rechamei Creusa.
  807. Furente as casas lustro, e saio e torno,
  808. Quando a sombra da esposa, imagem triste,
  809. Maior que dantes se me avulta aos olhos,
  810. Pasmo, hirta a coma, a voz se apega às fauces.
  811. Ei-la afável me alenta e assim me acalma:
  812. “Que vale a dor sobeja, ó doce esposo?
  813. Sem nume isto não é: levar Creusa
  814. Te veda o fado, o regedor sublime
  815. Do Olimpo o não consente. Em longo exílio
  816. Tens de arar vasto pego até à Hespéria,
  817. Onde entre pingues populosos campos
  818. O lídio manso Tibre inclina a veia.
  819. Com saudades não chores da consorte:
  820. Um reino ali te espera e uma princesa.
  821. Nem eu, Dardânida e de Vênus nora,
  822. Irei servir as Téssalas altivas,
  823. Nem dolopéias damas: cá me impede
  824. A grande mãe Cibele. Adeus, Enéias;
  825. Todo na prenda nossa o amor emprega.”
  826. Nisto, o falar me corta, e às minhas lágrimas
  827. Se furta, e se esvaece em tênues auras.
  828. Três vezes fui lançar ao colo os braços;
  829. Três presa embalde se desfez a imagem,
  830. Igual ao vento leve ou sono alado.
  831. Os sócios, gasta a noite, enfim revisto;
  832. Dos que acho novos a afluência admiro:
  833. Velhos e moços, donas e donzelas,
  834. Vulgo infeliz, concorrem para o exílio
  835. Com quanto salvam, pressurosos querem
  836. Peregrinar comigo o mar e a terra.
  837. A Alva, dos cimos do Ida ressurgindo,
  838. Já traz o dia, e ocupa o Grego as portas;
  839. Nem há mais de esperança um só vislumbre.
  840. Cedo, e aos ombros meu pai, subo a montanha.

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Este livro por Macróbio foi tachado de furto a certo Pisandro, autor desconhecido, e que o não seria se houvesse composto uma narração, que nem em Homero se encontra igual. “Macróbio, reflete Mr. Villenave, aqui se assemelha ao jesuíta Hardouin, que, em suas estranhas opiniões acerca das obras de Horácio e de Virgílio, as quais atribuíra a monges da meia idade, dizia, para justificar tão incríveis asserções: “Credes vós que eu me levanto todas as manhãs às três horas para nada dizer de novo?”

Nota a nota · 25 notas

v. 15Narrá-los vou. Repulsos, quebrantados,
“Contentemo-nos, diz o mesmo autor, de admirar a arte com que Virgílio, abandonando a verossimilhança histórica, quis estabelecer a verossimilhança poética, bastante para a epopéia, por todos os meios a seu alcance. Faz intervir: 1° a religião: o cavalo de madeira era um voto; 2° os prodígios: Laocoon expira miseravelmente com seus dois filhos, entre as constrições das duas serpes vindas de Tenedos; 3° os artificiosos discursos do pérfido Sinon; 4° o destino, que fascina o espírito e olhos dos Troianos.” Esta tradição, anterior a Homero, tem sido variamente interpretada: veja-se La Rue, ou antes M. Villenave, cuja crítica resume e ajuíza as opiniões excelentemente.
↩ voltar ao verso 15
v. 53No bruto não fieis. Mesmo em seus brindes
Insonuere cavae gemitumque dedere cavernae é belo pela harmonia imitativa; há contudo um vicioso pleonasmo, que o ouvido não sente no latim, mas seria insuportável no português. Se cavae cavernae vertêssemos cavas cavernas, a aproximação do nome e do adjetivo faria perceber que caverna já é um lugar côncavo, e sobressairia o vício do pleonasmo.
↩ voltar ao verso 53
v. 57–58Pregada está tremendo, e ao rijo encontro
Com outros críticos, diz Mr. Villenave: “Depois de um cerco de dez anos, havia ainda pastores no campo de Tróia? Tão arruinado estava, que Ulisses e Palamedes eram obrigados a ir à Trácia buscar víveres para o exército grego.” Por mais estragado que estivesse o campo troiano, não era a ponto de faltarem víveres aos cercados; o que supõe a existência de pastores e lavradores, ao menos por onde ainda não tivesse abrangido o assédio. Se já não houvesse nas vizinhanças da cidade seis ou oito campônios, número mais que suficiente para prender Sinon, ela então se teria rendido pela fome: ao contrário, com tantos recursos estava, que, desesperando os Gregos da eficácia do cerco, recorreram a um estratagema e a uma traição. Quanto a irem Ulisses e Palamedes buscar víveres à Trácia, o fato não supõe necessariamente a carência de pastores: é natural que os mantimentos que houvesse, fossem passados à cidade, pelos meios ocultos que os filhos de um país conhecem: os Gregos, não os tendo em assaz quantidade, iam procurá-los mais longe.
↩ voltar à passagem, v. 57
v. 195–196Raso iria este império; e, se vós mesmos
“La crédulité des Troyens, discorre Mr. Tissot, est une invraisemblance sans excuses. On la pardonne à peine dans Virgile, malgré les savants efforts que le poëte a faits pour la justifier, en la rendant vraisemblable par l’éloquence de Sinon et par le mouvement qu’elle excite.” Não alcanço a razão da censura, quando o censor confessa que l’accent du coeur est imité avec une vérité qui fait frémir, que il y a tout un traité d’éloquence dans le discours de Sinon, e que jamais on ne vit un tel triomphe de l’art de persuader en trompant. Mr. Tissot, que tem vivido em tempos difíceis, deve ter observado como se deixa a multidão levar de discursos os mais ilógicos e fúteis; por que pois estranha que este, no qual se contém um tratado de eloqüência, fizesse tamanho efeito nos Troianos, sendo poderosamente ajudado pelo prodígio das duas serpentes? A morte de Laocoon, o irem-se as tais serpentes recolher sob a égide mesma de Palas, como se foram executoras da vingança da deusa, junto à força do discurso onde havia un tel triomphe de l’art de persuader en trompant, devera produzir na chusma a impressão que produziu. Cápis queria examinar o cavalo e deitá-lo ao mar; porém em tais casos mais vence a superstição que o bom conselho. Estou com Delille, o qual pensa: “Qu’il est plus aisé de tromper une nombreuse foule qu’un seul homme d’un sens droit: Sinon n’eût pas trompé un agent de police, mais la populace aurait été sa dupe.” E acrescente-se que naqueles tempos talvez se deixasse iludir a mesma polícia; pois que esta insigne arte não tinha chegado ao apuro a que, em França principalmente, se acha elevada.
↩ voltar à passagem, v. 195
v. 198Fado que abarcaria os nossos netos.”
Mr. Jal, que demonstra a precisão com que Virgílio usa dos termos marítimos, quer que onde o autor diz puppis o tradutor diga popa e não nau, e que haja o mesmo cuidado com as palavras prora, carina, com os nomes dos diferentes ventos; pois que o poeta emprega sempre as vozes próprias, e quando se serve do figurado, por sinédoque, é porque a parte mencionada é a principal na ação. Depois do estudo que fiz da matéria, conclui que um tradutor da Eneida deve recorrer à obra deste sábio para não se enganar ao verter o que diz respeito à marinha. Ora, Mr. Jal opina que o termo carina nem mesmo se pode tomar pela quilha, mas infalivelmente pelo casco ou buco do navio. Que se não tome carina por nau, vou de acordo, e também que se não tome por quilha, para exprimir a qual tem os Latinos a frase trabs ima; posto que neste segundo sentido pareça mais admissível o emprego de carina, como se vê no verso de Lucano: Nubila tanguntur velis, et terra carina. Não dissimulo que neste exemplo pode-se tomar carina por casco do navio; mas parece que Lucano a tomou aqui por quilha, porque esta pode tocar de leve no fundo sem se quebrar a embarcação; a qual se quebraria no caso do casco tocar na terra, visto que então a quilha teria penetrado mais profundamente. Aqui traduzi mille carinae por quilhas mil, não tanto pelo que fica dito, quanto por uma razão peculiar da língua portuguesa, que passo a expor. Para exprimir o carina em latim, em francês carène, temos casco ou buco; mas buco toma-se mais vezes pelo bojo do navio do que pelo casco por fora, e casco tem o inconveniente de significar mui diversas coisas: casco é o capacete, casco é qualquer vaso de tanoa, casco é o crânio, casco é a concha de certos animais, casco é a casa sem móveis; toma-se figuradamente por juízo ou siso, e ainda em outras acepções. Para se conhecer logo se é tomado por carene, é preciso que os antecedentes aclarem o sentido, ou, do contrário, cumpre dizer casco do navio, a fim de se tirar a ambigüidade. Todo homem de gosto vê que seria péssima a tradução de mille carinae por mil cascos de navios; a longura da frase esfriaria tudo; e mil cascos podia significar mil capacetes. Os nossos escritores, tanto em prosa como em verso, para evitarem ou a longura ou a ambigüidade, adotam muitas vezes o termo quilha, não só no sentido próprio de trabs ima, porém igualmente no mais extenso de casco; e, quando querem falar da quilha sem as obras do costado, chamam-na quilha limpa.
↩ voltar ao verso 198
v. 224–225O enlaçam todo os escamosos dorsos,
Segundo o autor dos Études sur Virgile, vem esta comparação interrompre un moment le plaisir douloureux d’une terreur si profonde, et nous désabuser en nous montrant le poëte si bien caché jusqu’alors. Esta crítica parece bem fundada. Com Delille porém deve-se admirar a ousadia da expressão excussit securim e a escolha do epíteto incertam. Por esta ocasião tocarei na vantagem do estilo conciso: quem, não deixando escapar conjunção, o traduzisse em muitos versos, desfeiaria este lugar; tanto melhor o faria, quanto mais se resumisse. No poeta a comparação é tão rápida, que pouco empece o prazer daquela cena de terror.
↩ voltar à passagem, v. 224
v. 255De virentes festões velando fomos.
Por tacitae silentia Lunae entendo que o céu estava escuro, como se descreve quatro versos atrás. Fútil é a objeção de Binet, que os Gregos haviam mister ser esclarecidos, não conhecendo a bússola, e sendo de temer os escolhos junto da praia: 1° porque só a falta de luar, não havendo cerração, nunca produz escuridade que impeça o navegar, mormente em paragem conhecida (litora nota petens); 2° porque é natural que o astuto Ulisses calculasse com uma noite escura para de Tenedos fazer partir a armada. Quando porém digo escura, não se entenda de uma treva absoluta. Estavam bem aviados os navegantes se nos portos só pudessem entrar ao clarão da Lua. A objeção de que Enéias não tardou a reconhecer os companheiros oblati per Lunam, é especiosa: os Gregos sim partiram de Tenedos pelo escuro, e assim abordaram; mas entre a sua chegada e a saída de Enéias meteram-se algumas horas, pois que já os da frota haviam feito junção com os do cavalo, tinham tomado todas as portas, ocupado todas as ruas, incendiado várias casas; e Panto, que de tudo fora testemunha ocular, já tinha tido tempo de salvar os deuses e alfaias sagradas, e de vir à casa de Enéias em um retiro assaz longe da cidade, onde apenas se ouvia o ruído dos combates. Nada implica pois que a Lua, não tendo aparecido no princípio, estivesse fora ao tempo que Enéias reconheceu os companheiros. Do meu voto foram Annibal Caro e infinitos outros. O poeta rejeitou a dúbia tradição de que Tróia foi tomada em uma noite de plenilúnio; adotou aquilo que mais lhe convinha.
↩ voltar ao verso 255
v. 264Sinal flâmeo iça à ré. De iníquos deuses
Observa Delille que a enumeração dos guerreiros que saem do cavalo se termina engenhosamente pelo nome de quem o fabricou: et ipse doli fabricator Epeus. Neste caso convém empregar um verso agudo; o que demonstra o nímio rigor do preceito, que tirámos de alguns Italianos, de proscrever-se o uso do esdrúxulo e do agudo. Os melhores poetas não têm à risca seguido essa regra; e tais versos, quando bem empregados, têm uma graça particular.
↩ voltar ao verso 264
v. 283Ai! quão mudado! Aquele Heitor não era
Por não ser argüido de amar antigualhas, deixei de pôr fuge em vez de foge, à maneira de Camões. Neste passo faria mais efeito o som surdo da letra u. Virgílio mesmo nos fornece exemplos do uso dos termos antiquados em certas ocasiões.
↩ voltar ao verso 283
v. 311–313Sacudo o sono, ao píncaro da torre
Conservei a figura, tomando Ucalegon pela casa de Ucalegon. — Diz-se que então não havia trombetas, e que Virgílio segue a anticipação dos trágicos gregos; asserção ao menos duvidosa.
↩ voltar à passagem, v. 311
v. 333–340Do alcáçar pela mão traz um netinho,
Vou com Heyne, que lê maximus armis; pois, não obstante ser Ifito já velho, podia ser extremado nas armas; mas, se fosse maximus annis, isto é de uma grandíssima velhice, não podia vir em auxílio de Enéias. O jam gravior aevo do vers. 435-436, mostra menor idade do que maximus annis, dado que o poeta se tivesse aqui servido desta expressão.
↩ voltar à passagem, v. 333
v. 354Onde o clamor nos astros retroando.
Dificílimo tem parecido este lugar, por fugirem de o verter ao pé da letra: Mr. Villenave, que o fez, não deixa nada que desejar. Atente-se na vantagem que a nossa aqui leva à língua francesa: Una salus victis, nullam sperare salutem, traduziu ele: Le seul salut pour les vaincus est de n’attendre aucun salut; eu pude dizer: Salvação para os vencidos uma, esperarem salvação nenhuma. A falta do verbo, que é de uma beleza no original, admite-se em português, não em francês.
↩ voltar ao verso 354
v. 355–360Com Rifeu se me agrega o estrênuo Ifito,
Mr. Tissot reprova esta comparação, porque les loups furieux, affamés, perfides et cruels, sont les Grecs; mais je ne vois, diz ele, dans les Troyens que des héros qui veulent mourrir pour leur patrie en cendres. Aqui Virgílio, como em um lugar semelhante Homero, não compara os Troianos com os lobos em todas as suas más qualidades; compara sim a fúria dos Troianos, quando entre armas e inimigos atravessam a cidade, com a raiva dos lobos que, já famintos, deixaram nos covis os cachorrinhos de goelas secas de fome: a comparação pois é com o furor e não com a perfídia e crueza destes animais. — Os perluxos modernos só adotaram o verso da sexta, ou da quarta e oitava longas; rejeitam o da terceira e oitava, ou da quarta e sétima: o contrário praticaram Dante, Ariosto, Petrarca, Tasso, Alfieri, Camões, Sá de Miranda, Ferreira, Côrte-Real, Gabriel Pereira, Francisco Manuel e outros. Em geral, é mais doce o verso com o acento na sexta, ou na quarta e oitava, mas não devemos rejeitar o de qualquer outra medida, não só por variar, como principalmente para às vezes pintar melhor a coisa. O verso da tradução De morrer certos, por dardos, por hostes, representa o per tela, per hostes, do original; e a rapidez com que marcha, pinta a rapidez e o afogo dos que Enéias comandava. Antonio Deniz, em seus belos ditirambos, querendo pintar os saltos e a alegria, serve-se freqüentemente deste metro. Estendo-me sobre a matéria, por ver que os poetas de hoje, à exceção de bem poucos, têm desconhecido a vantagem de variar a medida do nosso hendecassílabo. — No 360 do original fala-se da atra sombra que circunvoa, apesar de que já tenha saído a Lua: ora, como os soldados de Enéias cominhavam pelas diversas ruas da cidade, tortuosas e em diferentes direções, naturalmente a luz da Lua ia aparecendo e desaparecendo, segundo as voltas das mesmas ruas; o que muito bem exprime o circumvolat, que aportuguesei.
↩ voltar à passagem, v. 355
v. 381A soberana antiga das cidades
Na opinião de Delille, conforme com o bom gosto, a palavra attolentem parece despregar a serpente em toda a sua longura: o desenrola as iras produz o mesmo efeito, e há talvez mais arrojo na expressão. Mr. Nisard, falando do puríssimo Fedro, contra quem em suas arriscadas conjecturas se mostra não pouco injusto, o exila e quase o coloca nos tempos da decadência das letras romanas! dizendo que a isso o condena par un emploi affecté et continuel de l’abstrait pour te concret, ce qui donne à sa poésie un faux air de prose, et change sa gravité en froideur: e, entre os exemplos que aponta para fundamentar a sua asserção, cita o coli longitudinem do li. I, fab. 16. Estou com Mr. Nisard na convicção de que é vicioso o continuado emprego do abstrato pelo concreto; mas, longe de pensar que empresta à poesia um falso ar de prosa, penso que é na poesia que mais vezes pode isso ter lugar, pois nela de certo melhor assentam as figuras. O exemplo do coli longitudinem foi mal escolhido: até hoje têm os críticos louvado esta expressão, porque longitudinem em que termina o verso, compondo-se de cinco sílabas, representa o comprimento do pescoço; e assim tem a mesma graça do attolentem iras de Virgílio, do dilatadíssimos caminhos de Basílio da Gama, prodigalidade de moedas de Ferreira. Os Franceses têm sempre na mente o seu La Fontaine quando falam de Esopo e de Fedro, e no gabar a excelência do poeta nacional, como que dão pouca importância aos enumeráveis empréstimos do fabulista moderno; e eles, que na comparação de Virgílio com Homero avaliam em muito menos o estilo que a invenção, na comparação de La Fontaine com os dois como que fazem mais caso do estilo. Se La Fontaine dos mesmos assuntos às vezes tirou mais partido, não o deveu somente ao seu inegável engenho, mas também ao saber e à experiência que tantos séculos amontoaram. Tornando à questão, o coli longitudinem, além da graça referida, encerra maior ênfase do que pescoço longo; assim como na vulgar e chula expressão francesa pied-de-nez há mais energia, do que se se dissesse nez d’un pied. A crítica de Mr. Nisard melhor assenta em alguns escritores da sua nação, e em não poucos Brasileiros e Portugueses que, os imitando, não dizem mais um homem notável, um homem ilustre, e sim uma notabilidade, uma ilustração.
↩ voltar ao verso 381
v. 403–406Gente ignara do sítio e espavorida.
Note-se com que bom gosto, imitando este lugar, muda Camões o epíteto ardentia: Virgílio chama ardentes os olhos da profetisa Cassandra, a quem traziam arrastada; Camões chama piedosos os olhos de Inês, que em lágrimas buscava comover a D. Afonso.
↩ voltar à passagem, v. 403
v. 428E após vamos forçando um bosque de armas.
Alguns interpretam dis aliter visum como um princípio de impiedade, havendo o poeta quatro versos atrás afirmado que nada há seguro sem a vontade divina: Heu! nihil invitis fas quemquam fidere divis. Muitos, entre outros Chateaubriand, disseram com mais acerto que Virgílio adivinhara o estilo cristão; do que nestas palavras enxergo uma prova. Quantas vezes os cristãos, ao referirmos qualquer infortúnio acontecido a um homem virtuoso, exclamamos: altos juízos de Deus! Com isto não queremos significar que Deus foi injusto, mas tão somente que ignoramos as secretas causas dos seus decretos. Virgílio acatava a religião pátria, bem que as lições mormente de Platão lhe tivessem despertado mais amplas idéias da divindade: em vez de se ir tornando ímpio, era o seu intento empregar três anos em corrigir as imperfeições da Eneida, para dar o resto da vida à meditação da filosofia platônica; paixão dominante em seus últimos dias. Tratei pois de o traduzir neste sentido, como o fez João Franco.
↩ voltar ao verso 428
v. 460Nos tira o ruído: a guerra se encruece,
Sobre a posição desta torre consultem-se as curiosas reflexões de Delille. Nela, segundo Mr. Villenave, é que Homero (Iliad., liv. III) mostra a Príamo, sentado com os anciãos de Tróia, a perguntar a Helena os nomes dos capitães que distinguia no acampamento grego.
↩ voltar ao verso 460
v. 471Vendo-se já no extremo, se defendem;
Em duas comparações deste livro entra uma cobra; o que não é defeito, visto que oferece cada comparação uma diferente imagem. Na segunda a justeza é perfeitíssima, e, como diz Binet, não contém palavra inútil e aplica-se inteiramente a Pirro: o jovem herói é tomado por seu pai Aquiles ressuscitado, levantando-se do túmulo com todo o valor a par de todo o brilho da juventude.
↩ voltar ao verso 471
v. 492Nem dardo ou pedra cessa, é tudo tiros.
“A dificuldade de traduzir Virgílio nasce muitas vezes de que ele nada observa a gradação necessária à narrativa. Mostrou já o poeta a Pirro, de machado na mão, arrancando as portas dos seus gonzos: potesque a cardine vellit aeratos; e ao depois é o ariete que insiste em batê-las e as torna a arrancar dos mesmos gonzos: labat ariete crebro janua et emoti procumbunt cardine postes. Pirro pois só tinha abalado as portas, e assim é que se deve entender ou ao menos verter o verbo vellit. Ora, Mr. Mollevault, depois de dizer que Pirro arranca as portas dos seus gonzos de bronze, acrescenta que os redobrados esforços abalam as portas. Que! já tendo sido arrancadas, nem abaladas estavam! Assim, eis as portas arrancadas duas vezes, primeiro pelo machado de Pirro, e ao depois a golpes de ariete.” — Em cada palavra destas reflexões de Mr. Villenave há um erro. O palácio de Príamo tinha um vestíbulo fechado, que oferecia uma primeira entrada, onde Pirro se postou: Vestibulum ante ipsum primoque in limine Pyrrhus; esta primeira porta é que ele fendeu a machado, arrancando-a dos seus gonzos. Feita a brecha, apareceu o palácio interno e longos pátios se manifestaram: Apparet domus intus et atria longa patescunt. Ainda mais dentro (domus interior) ouviam-se prantos e gemidos. Pirro continua (instat vi patria Pyrrhus); não há barreiras que o sustenham; com o vaivém faz abalar a porta principal do palácio interno, e desmantela os portais. Basta ler com um pouco de cuidado para conhecer-se o descuido imperdoável do crítico: o portão do vestíbulo não é o mesmo que a porta principal (janua) da morada régia, onde se achava uma guarda. — A dificuldade de traduzir Virgílio não vem muitas vezes de que ele nada observa a gradação necessária à narrativa: nasce da ousadia das suas imagens, da ignorância de grande parte dos usos antigos, da perfeição do seu estilo; nasce da índole diversa de cada língua, pois o que vai bem n’uma nem sempre cai tão bem em outra; nasce enfim de nós mesmos, que não temos tanto talento para o verter quanto houve o poeta para compor. Não há escritor nenhum, em verso ou em prosa, entre os antigos e os modernos, que observe melhor a gradação necessária à narrativa, e é raríssimo o lugar onde por uma tal falta o devamos repreender: as mais das vezes é de propósito que ele parece faltar a essa gradação; do que tirarei um exemplo deste mesmo livro II. Quando Enéias vê dispostos os amigos a atacar os Gregos apesar do número, faz uma fala breve, nunca excedida por algum orador ou chefe militar, e assim a termina: “Succurritis urbi Incensae: moriamur, et in media arma ruamus; Una salus victis, nullam sperare salutem.” Ora, quem morre não pode romper os inimigos; parece que a ordem das idéias pedia: “In media arma ruamus, et moriamur.” O herói porém, a quem se apresenta a morte como infalível, não recua diante do seu aspecto, e diz: “Morramos embora, mas ataquemos o inimigo.” Esta como desordem na gradação mostra a rápida sucessão das idéias que ele comparava e combinava. Enfiai aqui as palavras como no padre nosso; a energia e a graça desaparecem. O jesuíta Antonio Vieira, falando do guerreiro não recompensado, diz: morra e vingue-se; nada há mais forte. Se dissera: vingue-se e morra, perdia toda a força; além de já ser outro o pensamento.
↩ voltar ao verso 492
v. 506–553Traves descose, firmes robles fende, ⋯ Morrer.” Nisto, ao longevo a mão pegando,
Acusam Enéias de ter visto a morte do rei sem o socorrer. Quando Enéias saiu do seu retiro, já da cidade os Gregos se tinham apoderado e a andavam saqueando; muitas pelejas teve de sustentar antes de chegar ao palácio de Príamo, e o achou todo cercado, só havendo por detrás uma pequena porta esquecida pelo inimigo; e, entrando por ali, perdidos os sócios Corebo, Rifeu, Hípanis, Dímas, Panto, e ficando com o velho Ifito e com Pélias já ferido, não podendo só com estes opor-se à multidão comandada pelos mais bravos chefes gregos, subiu à torre principal para de lá observar o inimigo e tomar conselho das circunstâncias. Da torre alguns lançavam dardos inutilmente; Enéias, que os anima, faz desabar parte dela sobre os esquadrões que se sucediam, e conseguiu matar e ferir uma imensa quantidade. Sendo a torre o ponto mais alto, viu dela a fugida de Príamo com a família, para um grande claustro onde havia um altar, ao momento em que Pirro invadia todo o palácio. Este corre atrás de Polites, mata-o na presença do rei seu pai; o rei brada e repreende o matador, que irado imola o triste velho. Tudo isto sucede rapidamente; e Enéias não podia socorrer a Príamo, porque, além de não ter por onde se comunicar e chegar ao tal claustro, estava sozinho, visto que os seus poucos soldados em desespero se haviam precipitado nas chamas, dando consigo em terra. Digam-me os críticos se era cordato ir Enéias sem um soldado disputar o corpo de Príamo (pois não chegava a tempo de o livrar da morte) a Pirro, Diomedes, Ulisses, Agamenon, Menelau, Ajax e a tantos outros? Fora um sacrifico louco, impróprio do seu valor prudente e refletido. Virgílio, que celebra o pio Enéias e não Orlando furioso, faz a morte do rei excitar no herói o dever de ir salvar a família. Este sentimento é inspirado pela natureza e pela razão; e deixar de valer a pessoas tão queridas, que estavam com vida, para correr após um cadáver, seria um bom lance de novela, mas não uma ação judiciosa: o dever exigia do marido socorrer a mulher, do filho socorrer o pai, e do pai socorrer a seu filho; e a piedosa ternura de Enéias para com Anquises é um distintivo do herói. Mr. Tissot, partindo de uma hipótese falsa, sem custo espraiou-se contra Virgílio.
↩ voltar à passagem, v. 506
v. 567–587A ti que o matas às paternas barbas, ⋯ Quem d’Ásia em povos cem reinou soberbo
Argúem Enéias de baixeza por ter querido matar uma mulher. Se Enéias sucumbisse à tentação, indigno fora; como tornou em si, não há tal baixeza. Era natural que Enéias, vindo cheio de mágoa e furor por ter visto a morte de Príamo sem lhe poder valer, se exasperasse ao encontrar-se com a causa de tantos males; e, se o desejo de a imolar mostra que era sujeito à ira, o não ter a ela fraqueado mostra que sabia vencer-se. Ele mesmo antecipadamente se acusa, dizendo: namque etsi nullum memorabile nomen feminea in poena est, nec habet victoria laudem; mas a raiva lhe fazia acrescentar: extinxisse nefas tamen, et sumpsisse merentis laudabor poenas. Estas palavras manifestam os sentimentos que lutavam em sua alma, onde os mais generosos finalmente prevaleceram. Crêem esses críticos porventura que o herói é um ser perfeito, incapaz de conceber um mau pensamento? A ingenuidade com que Enéias conta a sua fraqueza, a que não cedeu, alguma coisa tem de nobre em si mesma. — Vamos agora a outra censura, nascida da combinação deste lugar com outro do livro VI. Mr. Villenave repete o reparo antigo, de que Enéias não podia encontrar a Helena, porque, no liv. VI, conta a Enéias Deífobo que Helena, de quem era o terceiro marido, havia de Menelau obtido o seu perdão, entregando-lhe Tróia, o palácio e a cabeça do filho de Príamo. Ora Deífobo diz ali: “Põe-me a guapa consorte as armas fora, E até da cabeceira a fida espada; A Menelau acena e as portas abre; Julgando assim mimosear o amante, E o labéu extinguir da antiga ofensa.” Nesta passagem nem em outra alguma disse o poeta que Helena obtivera imediato perdão, sim que abrira as portas e atraiçoara a Deífobo com esse intuito. Segue Virgílio a opinião de que ela, apesar do seu novo crime, nada alcançou nequele momento, e ficou sendo, segundo o verso 573 deste livro, Trojae et patriae communis Erinnys, ocultando-se com medo igual dos Troianos e dos Gregos; pois acontece bem vezes ficarem os traidores em desprezo e ódio daqueles a quem servem. O padre La Rue, citando o parecer de Nascimbeno, mostra que frustrou-se a Helena a esperança de aplacar a Menelau, e que a perfídia não a livrou de ser perseguida, a ponto de se refugiar no templo de Vesta, saindo pela mesma portinha por onde Enéias subira à torre: em prova do que, alega a Eurípides, o qual afirma que Helena foi levada por Menelau entre as cativas, para abandoná-la à vingança daqueles cujos filhos tinham acabado na guerra troiana. Adotada a opinião de Eurípides, autor a quem Virgílio segue não poucas vezes, conciliam-se os dois lugares: obriga a sã hermenêutica a também abraçarmos o que ao poeta salva de uma contradição. Nem obste o posterior aparecimento de Helena no palácio de Menelau, como se lê na Odisséia, liv. VI, vers. 121 e seguintes: Menelau, que em Tróia a quis abandonar à vingança dos Gregos, ao depois tornou-se às boas e lhe perdoou, induzido por Vênus, protetora da formosa culpada.
↩ voltar à passagem, v. 567
v. 593Figuro ao desamparo o tenro Ascânio,
Neste passo é lindíssimo o verso de João Franco: “Dividindo o coral da breve boca.” Mas, belo em si mesmo, não passa ao português todo o sentido: roseo ore não se aplica somente à cor dos lábios, mas também ao cheiro que exalavam as bocas das deusas; o que falta na versão.
↩ voltar ao verso 593
v. 711Quando esturgia o teto em ais desfeita,
Longe servet vestigia, tem dado azo a mil desparates, por se não ter querido tomar longe na significação de muito, que trazem todos os dicionários, não excetuando o pequeno anexo ao livro de Viris illustribus urbis Romae, por onde os meninos aqui em França começam a aprender o latim. Dos tradutores, uns suprimem o advérbio, outros, toda a passagem, como se fosse uma tolice do autor. Desfontaines diz que Enéias queria ir depressa, e fora difícil a Creusa o acompanhá-lo. O padre Catrou, a quem outros se encostam, louva o meio artificioso com que Virgílio se descarta de Creusa, a qual não estaria bem em companhia de Dido, e embaraçaria o casamento com Lavínia. E eis aqui estes meus senhores emprestando ao autor da Eneida e das Geórgicas o erro mais palmar que é possível! Fazem que Enéias diga de propósito à mulher que o siga de longe, a fim de que se perca no caminho; e o herói piedoso, que em busca da consorte se expôs sozinho a todos os perigos, é representado como um traidor por tantos críticos e tradutores! M. Villenave, depois de ter notado os despropósitos alheios, toma também longe por distante, e disso está tão encasquetado, que no seu prólogo cita o longo servet vestigia no sentido absurdo que adotou. Longe aqui significa muito, e serve para reforçar o servet; quer dizer a esposa guarde muito os meus vestígios, faça tudo para não se afastar de mim. Neste sentido otimamente o verteu Delille: “Et qu’observant mes pas, mon épouse me suive et ne me quitte pas.” O que fez Enéias foi o mais razoável: pôs às costas o velho e paralítico pai; guia o filho pela mão, ajudando os seus curtos passos; e à mulher, que era moça e robusta, recomenda que o siga e não o perca de vista. Anquises ouve um rumor, exclama: Nate, fuge, nate; propinquant; e Enéias, apressando-se para salvar tão caros objetos, não deu pela falta de Creusa. Este desaparecimento, ordenado pela própria mãe dos deuses, como se colhe do verso 785-787, é na verdade um engenhoso artifício do poeta: não sendo compatível a existência de Creusa com os futuros interesses dos Troianos, ele imagina uma apoteose, e coloca a filha de Príamo sob a imediata proteção de Cibele. Mas reflita-se que Enéias em nada tem parte, e fora um erro imperdoável fazê-lo intervir no desaparecimento da mulher, ainda sendo para endeusá-la. — Na língua portuguesa, não só adotámos longe na significação de muito, como também o ajuntamos aos verbos para os reforçar; o que se lê no Affonso Africano de Vasco Mausinho, exemplo citado por Moraes e repetido por Constâncio: “Mas meu conselho a todos longe excede.” Ora, tendo o advérbio longe um sentido que o absolve e outro que condena o poeta, é da mais ordinária hermenêutica abraçar o que o justifica. Note-se igualmente, mais adiante, o Pone subit conjux, que La Rue interpreta: “Uxor juxta sequitur.” Os críticos, no furor de censurar, não repararam nestas palavras, que tiram toda e qualquer dúvida.
↩ voltar ao verso 711
v. 740“Sus, meu pai, eu te ajudo, às nossas costas
Alguns, facílimos em achar contradições, dizem que nec post oculis est reddita nostris deve ser vertido, como o fez Delille, o céu não m’a restituiu jamais, e não eu nunca mais a avistei, ou nunca mais apareceu a meus olhos; e isto com o fundamento de que o poeta mais abaixo a faz aparecer aos olhos de Enéias. Não refletiram esses críticos, e Mr. Villenave com eles, que a própria pessoa é coisa diversa do simulacro ou da sombra: Creusa em pessoa nunca mais se apresentou ao marido; mas apresentou-se-lhe Infelix simulacrum atque umbra et nota major imago. Esta distinção é conforme à crença dos antigos: veja-se a nota de La Rue ao verso 385 do liv. IV, e ao verso 748 do liv. VI.
↩ voltar ao verso 740
v. 772–794Ou lassa recostou-se, é duvidoso: ⋯ Rolando em labareda os ares cresta.
Mr. Villenave, subscrevendo a pedagógica declaração de M. Tissot, opina com este que A son froid silence, on ne reconnaît pas l’époux désespéré qui vient d’affronter de nouveaux dangers pour retrouver Creuse. Les mouvements d’une passion ardente ne tombent pas ainsi tout à coup, le coeur ne fait pas si promptemente de cruels sacrifices.... L’exemple d’Homère, mais surtout la nature, devait préserver Virgile d’une faute qui malheureusement reviendra plus d’une fois dans le poëme. Examinemos. Procura Enéias a Creusa por toda parte; não a encontra, mas aparece-lhe a sombra dela de uma grandeza pasmosa: Mr. Tissot, que não acredita em almas do outro mundo, não se arrepiou ao ler; mas Enéias, acreditando naquela visão, ficou mudo e com o cabelo erriçado. Imediatamente a sombra conta-lhe a proteção que recebe da mãe dos deuses e o seu estado de bem-aventurança, com o mais que se contém no seu discurso. E o que faz Enéias? Ainda sob a impressão do extraordinário e milagroso aparecimento, quer falar e não pode, mas verte lágrimas; vai abraçar três vezes o simulacro, três vezes este se lhe escapa, e afinal se esvaece em auras sutis. A esta admirável passagem é que Mr. Tissot argúe de fria! Não sabe que em uma dor grande a voz falta muitas vezes e é suprida pelas lágrimas? Que devia fazer Enéias? soltar a língua e desenrolar uma lamúria de légua, à maneira dos amantes das novelas? Se o fizesse, não seria aqui Virgílio o grande conhecedor do coração humano. Mr. Tissot não deu peso ao extraordinário da visão, ao lacrimantem do original, nem viu que as palavras de Creusa e a honra da sua apoteose haviam de produzir uma certa consolação no espírito religioso de Enéias. Quanto às faltas que desgraçadamente aparecem no poema, sem dúvida o nosso homem as comete, apesar da sua superioridade; mas a máxima parte das que lhe imputam, está unicamente na cabeça de críticos ou desatentos ou caprichosos.
↩ voltar à passagem, v. 772
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