Prontos, à escuta, emudeceram todos
840 versos · 26 notas do tradutor
- Prontos, à escuta, emudeceram todos,
- Ao passo que exordia o padre Enéias
- Do excelso toro: — Mandas-me, ó rainha,
- Renove a dor infanda; o como os Danaos
- D’Ílio a pujança e o reino lamentável
- Derrocaram; misérias que eu vi mesmo
- E em que fui grande parte. Ao relatá-las,
- Dolope ou Mirmidon, de Ulisses duro
- Há soldado que as lágrimas estanque?
- E úmida a noite já do céu descamba,
- E as estrelas caindo ao sono induzem:
- Mas, se é teu gosto ouvir os nossos casos,
- E em breve o extremo afã saber de Tróia,
- Bem que à lembrança luto e horror me esquivam,
- Narrá-los vou. Repulsos, quebrantados,
- Pós tantos anos de fatais reveses,
- Os Danaos um cavalo em ar de monte,
- Divina arte de Palas, edificam,
- Lavram de abeto as intecidas costas:
- Ser da tornada um voto à surda espalham.
- No cego lado, os bravos sorteando,
- A escolha incluem, de hoste armada enchendo
- O antro profundo e lôbregas entranhas.
- Jaz Tenedos à vista, ilha famosa,
- Próspera à sombra do priâmeo cetro;
- Hoje ermo porto, às quilhas mal seguro:
- Numa abra ali se escondem. Nós os cremos
- Velejando na rota de Micenas.
- Têucria do largo nojo enfim respira:
- Abrem-se as portas, vai-se ao dório campo;
- Grato é vê-lo deserto e a praia nua:
- “Os Dolopes aqui, Pelides fero
- Se abarracava; aqui das naus a estância;
- Combatia-se aqui.” Mirando a turba
- A oferta exicial da inupta deusa,
- A mole a espanta: e lembra-nos Timetes,
- Ou fosse dolo ou sina já de Tróia,
- Dos muros pô-lo dentro e no castelo;
- Mas Cápis aconselha, e os de mais tino,
- Que ao pego o dom suspeito e grega insídia
- Se atire ou queime em sotopostas chamas,
- Ou se broque e tenteie o bojo escuro.
- Enquanto incerto e vário alterca o vulgo,
- Ardendo Laocoon da cidadela
- Corre com basto séquito, e de longe:
- “Míseros cidadãos, que tanta insânia!
- De volta os Gregos ou de engano exemptos
- Seus dons julgais? desconheceis Ulisses?
- Ou este lenho é couto de inimigos,
- Ou máquina que, armada contra os muros,
- Vem cimeira espiar e acometer-nos.
- Teucros, seja o que for, há dano oculto:
- No bruto não fieis. Mesmo em seus brindes
- Temo os Danaos.” De esguelha, assim falando,
- À curva liação do ventre eqüino
- Com braço válido hasta ingente arroja:
- Pregada está tremendo, e ao rijo encontro
- Longo geme e retumba a atra caverna.
- E, a não ser o destino e a mente avessa,
- Nos movera os argólicos recantos
- Com ferro a devassar: e inda em pé Tróia,
- Inda, alcáçar de Príamo, estarias.
- Eis atrás maniatado alguns pastores
- Ao rei com vozeria um moço trazem;
- Que arteiro, ignoto, adrede os encontrara,
- De ânimo firme em dar aos Gregos Tróia,
- Ou na empresa acabar. Curiosa acode,
- E ávida se atropela e o cerca e apupa
- A rapazia. Agora ouve a tramóia,
- Por um crime avalia os Danaos todos.
- Perante a multidão, turbado, inerme,
- Pára, e olhando circunda as frígias turmas:
- “Que mar, grita, ou que terra há de acolher-me?
- Ai! que me resta? A pátria proscreveu-me,
- E os Dárdanos meu sangue infensos pedem!”
- Tal pranto nos demove e o furor quebra:
- Sua estirpe o exortamos a contar-nos;
- Que intento o conduziu, que fé mereça.
- Perde o susto o cativo, e assim responde:
- “Toda a verdade, ó rei, sincero expendo.
- D’antemão que sou Grego não to nego:
- Tornar pode a Sinon fortuna escassa
- Mísero sim, mas embusteiro nunca.
- Talvez já te soasse o nome e a glória
- Do afamado Belides Palamedes;
- Que, sendo oposto à guerra, atroz calúnia
- O acusou de traição, e hoje os Pelasgos
- Com tardio pesar extinto o choram:
- Pobre meu pai, com ele seu parente,
- Mandou-me inda novel seguir as armas.
- Quando o reino o atendia e assim medrava,
- De algum nome e esplendor também gozámos:
- Depois que a inveja do manhoso Ulisses,
- Deste mundo o tirou, como é notório,
- Mesto arrastando a vida em treva e luto,
- O suplício traguei do insonte amigo;
- Té que, insano a bramir, vingá-lo juro,
- Se vencedor voltasse ao grêmio de Argos,
- E ásperos ódios imprudente afio.
- Daqui mana meu mal: daqui terrível
- Sempre a assacar-me Ulisses novos crimes,
- A espargir pelo vulgo ambíguas vozes;
- Sempre em remorsos e a tecer meu dano.
- Não descansou, sem que o ministro Calchas...
- Mas que importuna história em vão recordo?
- Por que deter-me? Se os Aquivos todos
- Tendes na mesma conta, assaz ouvistes,
- Em mim puni-os: o Ítaco o deseja,
- Pagá-lo-ão por bom preço os dois Atridas.”
- Do ardil pelasgo e infâmia tanta ignaros,
- Com ardor à porfia o interrogámos.
- Pávido o gesto, e pérfido prossegue:
- “Lassos da guerra, o assédio erguer tentaram...
- Oxalá que os Argivos o acabassem!
- Mas, no abalar, os retiveram sempre
- Crespas tormentas, carrancudos austros.
- Pronta essa mole de tecidos lenhos,
- Mais borrascoso trovejou. Perplexos,
- Ao délio templo Eurípilo enviámos;
- Que este oráculo triste anunciou-nos:
- “Com sangue, ó Danaos, de imolada virgem,
- Ao vir a Tróia, os ventos aplacastes;
- Sangue requer a volta, e de hóstia grega.
- Divulgada a sentença, o espanto cala,
- Gelo os ossos traspassa, e tremem todos
- Sobre a quem busque a Parca e o deus condene.
- Então com grande estrondo ao campo Ulisses
- Traz Calchas, e insta que o mistério aclare:
- Muitos, já do perverso lendo n’alma,
- Em silêncio o porvir me adivinhavam.
- Dez dias encerrado, o vate abstém-se
- De delatar alguém e à morte expô-lo.
- Do Laércio ao clamor, como por força,
- A voz desata enfim, me fada às aras.
- O assenso foi geral: cada um tolera
- Que a sorte que temia em mim recaia.
- Negreja o dia infausto: o rito encetam,
- Cingem-me a venda, o salso farro aprestam.
- Rompo as cordas, confesso, a morte evito;
- Nos juncos de um paul me abriga a noite,
- Enquanto às velas davam, se é que as deram.
- Nem mais espero ver meu ninho antigo,
- Nem meu querido pai, meus doces filhos,
- Que vítimas quiçá por mim padeçam,
- Esta fuga expiando. Pelos deuses
- Que atesto, exoro, se entre humanos inda
- Há limpa fé, tem mágoa de ânsias tantas,
- Perseguida inocência te comova.”
- De puro dó a vida lhe outorgámos;
- E o mesmo rei, mandando aliviá-lo
- De algemas e prisões, lhe disse afável:
- “Qual sejas, serás nosso, os teus deslembra.
- Quem, fala-me a verdade, o imano vulto
- Fabricou desse monstro? a que o destinam?
- É religião? é máquina de guerra?”
- Imbuído o falsário em dolo argivo,
- Soltas palmas levanta, e aos astros clama:
- “Eternos fogos, inviolável nume,
- Aras, cutelos, que evadi, nefandos,
- Mortal banda que a fronte me adornavas,
- Testemunhas me sede: os meus renego;
- Traído eu possa ao claro descobri-los:
- Juramento nem lei me liga à pátria.
- Se alto arcano revelo, em ti fiado,
- Tu, salvada por mim, salva-me, ó Tróia.
- Sempre a Grécia no auxílio de Tritônia
- Estribou seu triunfo, até que ousaram
- Ímpio Tidides, celeroso Ulisses,
- Matando os guardas, o fatal paládio
- Roubar do santuário, e à deusa as fitas
- Virgíneas profanar com mão cruenta.
- Os Danaos, da esperança decaídos,
- Afrouxam de energia. Bem mostraram
- Vários prodígios a aversão de Palas:
- Posta a efígie entre nós, dos hirtos lumes
- Fuzis desprega, em salso humor escorre,
- Do chão três vezes, ó milagre! pula,
- E a rodela desfere e a lança trêmula.
- Que o mar se tente asinha o canta o vate:
- Que em vão dardejam Tróia, se indo em Argos
- O auspício renovar, não reconduzem
- O em curvos bojos transportado nume.
- E, se à pátria Micenas já navegam,
- Vão refazer-se e granjear os deuses;
- Mas, repassando o pélago, improvisos
- Serão convosco: a profecia é esta.
- Da diva em desagravo, amoesta-o Calchas.
- De lígneas traves, em lugar da estátua,
- Esta mole estupenda construíram;
- Que pelas portas, altaneira às nuvens,
- Nem possa entrar na praça, nem do povo,
- Segundo a crença antiga, ser custódia:
- Pois, se braço troiano o dom violasse...
- (Antes ao vate o agouro os céus convertam)
- Raso iria este império; e, se vós mesmos
- Dentro o metêsseis, desceria armada
- Ásia em peso às muralhas pelopéias,
- Fado que abarcaria os nossos netos.”
- Do perjuro Sinon foi crido o engano;
- E aos que Tidides, nem o Larisseu,
- Dez anos, quilhas mil, nunca domaram,
- Vencem dolos e lágrimas traidoras.
- Nisto, o monstro maior, mais formidável,
- Impróvidos nos turba. À sorte eleito,
- O antiste Laocoon com sacra pompa
- A Netuno imolava um touro ingente.
- De Tenedos (refiro horrorizado)
- Juntas, direito à praia, eis duas serpes
- De espiras cento ao pélago se deitam:
- Acima os peitos e as sangüíneas cristas
- Entonam; sulca o resto o mar tranqüilo,
- E se encurva engrossando o imenso tergo.
- Soa espumoso o páramo salgado:
- Já tomam terra; e, em sangue e fogo tintos
- Fulmíneos olhos, com vibradas línguas
- Vinham lambendo as sibilantes bocas.
- Tudo exangue se espalha. O par medonho
- Marchando a Laocoon, primeiro os corpos
- Dos dois filhinhos seus abrange e enreda,
- Morde-os e come as descozidas carnes:
- E ao pai, que armado ocorre, ei-las saltando
- Atam-no em largas voltas; e enroscadas
- Duas vezes à cintura, ao colo duas,
- O enlaçam todo os escamosos dorsos,
- E por cima os pescoços lhes sobejam.
- De baba e atro veneno untada a faixa,
- Ele em trincar os nós com as mãos forceja,
- E de horrendo bramido aturde os ares:
- Qual muge a rês ferida ao fugir d’ara,
- Da cerviz sacudindo o golpe incerto.
- Vão-se os dragões serpeando ao santuário,
- E aos pés da seva deusa, enovelados,
- Sob a égide rotunda ambos se asilam.
- Cresce o pavor, os corações retremem:
- Pregoam justa a pena ao temerário
- Que a ponta de ímpia lança no costado
- Fincou do sacro roble; e o simulacro
- Bradam que se recolha e se ore a Palas.
- Ferve a gente; a muralha e as portas rasga,
- Leves rodas por baixo e ao colo ajeita
- Cabos tendidos. Prenhe de armas, sobe
- A máquina fatal: em torno a coros
- Cantam meninos e devotas virgens,
- De tocarem na corda mui contentes.
- Através da cidade ela soberba
- Vai minaz resvalando. Ó pátria! ó Ílio!
- Invictos muros, divinal estância!
- Berço de heróis! À entrada quatro vezes
- Pára, e quatro restruge um rumor de armas.
- Surdos, cegos instando, o monstro infausto
- Ah! no augusto recinto o colocamos.
- Fadada a não ser crida, então Cassandra
- Abre o futuro; e os templos nós dementes
- Naquele de Dardânia último dia,
- De virentes festões velando fomos.
- Vira o céu, no oceano a noite cai,
- E em basta sombra envolve a terra e o pólo
- E a mirmidônia astúcia: ante as muralhas
- Derramada em silêncio, a tróica gente
- Em modorra ensopava os lassos membros.
- Já, da tácita Lua ao mudo amparo,
- De Tenedos partia às notas praias
- A instructa armada, e a capitânia régia
- Sinal flâmeo iça à ré. De iníquos deuses
- Sinon valido, a furto os píneos claustros
- Laxa; e o cavalo, devassado, às auras
- Rende as falanges que no ventre aloja.
- Por um calabre escorregando, alegres
- Baixam do cavo seio os cabos Toas,
- Tissandro e Stenelo, o maldito Ulisses,
- Atamante e Pelides Neoptolemo,
- E Macaon primeiro e Menelau,
- E autor da máquina o engenheiro Epeu.
- Tróia invadem sepulta em sono e vinho:
- Matam a guarda, os seus na brecha esperam,
- E os batalhões de acordo se encorporam.
- Era quando aos mortais começa e côa,
- Divino dom, gratíssimo descanso:
- Tétrico Heitor em sonhos se me antolha,
- Debulhando-se em pranto; como outrora,
- Negro do pó cruento a biga o arrasta,
- Os loros arrochando os pés tumentes.
- Ai! quão mudado! Aquele Heitor não era
- Que no espólio volveu do próprio Aquiles,
- E lançou teucra flama às popas graias.
- Pegada a grenha em sangue, a barba esquálida,
- Crivam-no golpes cem, que junto aos muros
- Paternos recebeu. Chorando eu mesmo
- Parecia arguí-lo em mesto acento:
- “Ó luz dardânia, segurança e apoio!
- Donde vens? que detença! Em tal estado
- Só te avistamos, caro Heitor, agora
- Oue a cidade agoniza e os teus perecem?
- Que ato indigno afeou teu rosto ameno?
- Que feridas são essas?” Ele nada,
- De vãs queixas não cura, e grave arranca
- Fundo suspiro: “Hui! foge, o incêndio medra,
- Foge, filho da deusa: em preia aos Danaos
- Rui do fastígio Tróia. Assaz fizemos
- Pelo rei, pela pátria. Esta só destra,
- A haver defensa, defendera Pérgamo.
- Seu culto Ílio te fia e seus penates:
- Toma-os contigo; o pélago discorram,
- Té que lhes fundes majestoso alcáçar.”
- Disse, e tirou dos penetrais as fitas
- E a poderosa Vesta e o fogo eterno.
- A cidade se afunde em grita e pranto;
- E, inda que num retiro entre arvoredos
- Meu pai habite, mais clareia o estrondo,
- Recresce mais e mais o horror das armas.
- Sacudo o sono, ao píncaro da torre
- Trepo, ouvidos apuro. Tal, se a queima
- Soprando o bravo sul cai na seara;
- Tal, se grossa torrente despenhada
- Arrasa o campo e as ledas sementeiras,
- Prostra o lavor dos bois, aluídas selvas
- Arrebatando; lá do sáxeo cume
- Pasma néscio o pastor que o ruído escuta.
- Ei-la a fé grega manifesta, e nua
- A traição: de Vulcano ao vivo impulso
- A ampla casa a Deifobo já desaba;
- Já próximo arde Ucalegon; ao largo
- Nos fretos do Sigeu reluz a flama:
- Clangor de tubas e alaridos soam.
- Das armas ferro, desatino, e em armas
- Doido onde vá não sei; mas na ânsia fervo
- De socorrer com gente a fortaleza:
- A ira me precipita; e quanto é belo
- O morrer pelejando à mente ocorre.
- Eis Panto escapo dentre aquivas lanças,
- Panto, filho de Otreu, de Febo antiste,
- Com sacro espólio, com vencidos numes,
- Do alcáçar pela mão traz um netinho,
- Fora de si vem vindo à estância minha.
- “Ah! Panto, que é da pátria? onde o conflito?
- A que posto acudir?” E, ele em soluços:
- “O termo veio, o inelutável dia;
- Já fomos, Tróia foi-se e a glória sua:
- A Argos transferiu tudo o fero Jove;
- Na cidade combusta a Grécia impera.
- Assoberbando a praça, o monstro eqüino
- Batalhões verte; e ufano ateia incêndios
- O insultante Sinon: da gran’ Micenas
- Quantos jamais vieram, se apinhoam
- Nas bipatentes portas, e aos milhares
- As gargantas e ruas pejam de armas:
- O gume do aço agudo a ferir prestes
- Nu lampeja: o combate apenas tentam
- Das portas as primeiras sentinelas,
- E em cego marte resistir se atrevem.”
- O Otríades me instiga e etéreo influxo:
- Vôo, entre o ferro e o fogo, onde a sinistra
- Erínis por mim chama, onde o bramido,
- Onde o clamor nos astros retroando.
- Com Rifeu se me agrega o estrênuo Ifito,
- E em reforço ao luar Dímas e Hípanis
- Reconheço, e o Migdonides Corebo;
- Jovem que, por Cassandra insano ardendo,
- A Ílion pouco havia era chegado
- Em auxílio do sogro e do seu povo:
- Ai! que a pressaga voz descreu da esposa.
- Ao ver tão nobre audácia: “Ó peitos, brado,
- Fortíssimos em vão, se a todo o extremo
- Vosso anelo é seguir-me, o torvo aspecto
- Olhai das coisas. Deste império esteios,
- Os deuses, desertando aras e templos,
- Foram-se todos: à cidade acesa
- Tarde acorreis: morramos, pelas armas
- Rompamos. Salvação para os vencidos
- Uma, esperarem salvação nenhuma.”
- Isto os provoca e atiça. Quais rapaces
- Lobos que, cegos de faminta raiva,
- Saem por névoa escura, ávidas crias
- De goelas secas nos covis deixando;
- De morrer certos, por dardos, por hostes,
- Tróia, abrindo caminho, atravessamos:
- Circunvoa atra noite em ouca sombra.
- Quem poderá contar o estrago horrendo,
- Quem dessa noite as fúnebres tragédias,
- Ou lágrimas terá que a pena igualem?
- A soberana antiga das cidades
- Baqueia; e de cadáveres sem conto
- Ruas, casas, vestíbulos sagrados
- Se alastram. Nem só mana o teucro sangue;
- Brio inato os vigora: a terra mordem
- Os vencidos de envolta e os vencedores:
- Tudo é luto e pavor, crueza é tudo;
- Multiplica-se a morte em vária forma.
- Cópia a guiar de Aqueus, primeiro Andrógeos,
- Do seu bando nos crendo: “Avante, amigos,
- Avante ó bravos; que moleza e inércia!
- Outros saqueiam Pérgamo abrasada;
- Vós de alterosas naus desceis agora?”
- Disse, e a resposta ambígua o desengana;
- Em laço hostil sentiu-se: estupefato
- Reprime o passo e a língua. O viandante,
- Que entre áspero sarçal em cobra oculta
- Senta o pesado pé, trépido salta,
- Foge ao réptil, que desenrola as iras
- E incha o cerúleo colo: assim tremendo
- Recua Andrógeos. Pela férrea mata
- Arremetemos, e aos montões prostramos
- Gente ignara do sítio e espavorida.
- Deste ensaio e bafejo da fortuna
- Animado Corebo, exulta e grita:
- “Por onde, ó sócios, fado amigo aponta,
- Eia, sigamos. Os broquéís mudemos,
- E insígnias graias adaptemos. Vença
- Manha ou valor, quem do inimigo o exige?
- Eles armas nos dêem”. Logo o de Andrógeos
- Luzido escudo enfia, e o elmo enlaça
- Comante, e ajusta ao lado argiva espada.
- Rifeu, Dímas, o imita; os moços folgam;
- Do recente despojo armam-se todos.
- Entre a caterva hostil, sem fausto nume,
- Por cega noite prélios mil travamos;
- Remetemos ao Orco infindos Gregos.
- Uns às praias fiéis e às naus se acolhem;
- Parte com torpe medo o bruto escalam,
- E entram de novo o conhecido bojo.
- Ah! sem querer divino o que é seguro?
- Do ádito de Minerva eis desgrenhada
- Cassandra arrastam priaméia virgem,
- Debalde ao céu levando ardentes olhos;
- Olhos, que as tenras mãos lhe atavam cordas.
- Não o sofreu Corebo, e em fogo e sanha
- Perecedouro aos esquadrões se atira;
- E após vamos forçando um bosque de armas.
- Do sumo templo os nossos, enganados
- Pela armadura e argólicos penachos,
- Nos despedem chuveiros de arremessos,
- E misérrima clade se origina.
- Num corpo os Danaos, retomada a virgem,
- De ira a gemer, daqui dali carregam;
- Acérrimo insta Ajax e os dois Atridas,
- E a hoste dolopéia. Assim contendem
- Soltos num turbilhão Zéfiro e Noto,
- E o Euro ovante nos frisões da Aurora:
- Zune a selva; Nereu braveja e espuma,
- De tridente remexe o equóreo seio.
- Quantos pela cidade afugentámos
- Entre a noturna treva, outra vez surdem;
- Por nosso estranho acento o embuste e as armas
- Descobrem. Turba imensa nos esmaga:
- Primeiro, às mãos de Peneleu, Corebo
- De bruços ante a deusa armipotente
- Tomba, e sucumbe o espelho dos Troianos,
- O único justo, eqüíssimo Rifeu:
- Divino alto juízo! O mortal trago
- Bebe a golpes dos seus Dímas e Hípanis:
- Nem singular piedade, nem te vale
- Na queda, ó Panto, a ínfula de Apolo.
- Dos meus última flama e pátrias cinzas,
- Testemunhai que nunca em vosso ocaso
- Dardo ou risco evadi; que, a ser meu fado
- Morrer então, meu braço o merecia.
- Eu dali me desprendo, e Ifito e Pélias,
- Pesado e anoso Ifito, e Pélias tardo
- De Ulisses vulnerado. À estância régia
- Nos tira o ruído: a guerra se encruece,
- Qual se, o restante em paz, lá só reinasse
- Toda a matança e horror: o infrene Marte
- Compele os Danaos, que o palácio atacam
- E a testudem cerrando as portas cercam.
- Árduas escadas fixam nas paredes,
- E junto aos postes nos degraus se entribam;
- A sinistra no escudo apara os tiros,
- Cimalha e capitéis a destra aferra.
- Os Dárdanos de cima, as cumieiras
- E as torres demolindo, com tais armas,
- Vendo-se já no extremo, se defendem;
- E áureas traves, de avós decoro e pompa,
- Devolvem; densa intrépida coorte
- Dentro a fios de espada o ingresso embarga.
- De socorrer o paço o ardor nos toma,
- De esforçar os vencidos e ajudá-los.
- Atrás comunicava os edifícios
- Postigo inoto e corredor escuso,
- Por onde, ai dela! aos sogros vir soía,
- Durante o reino, Andrômaca sozinha,
- Seu Astianaz no caro avô trazendo.
- Lá monto ao cimo, e estavam pobres Teucros
- Sem fruto a dardejar. Torre em declive
- Pendente, às nuvens sobre o teto alçada,
- Tróia estendida, a frota e arraial grego
- Descortinava: em cerco das junturas,
- Onde as vigas do solho a enfraqueciam,
- A investimos a ferro, e do alto assento
- Destroncada impelimo-la. De chofre
- O baque estronda: a ruína ao longe abafa
- Turmas de Argivos; mas sucedem outras:
- Nem dardo ou pedra cessa, é tudo tiros.
- Pirro à entrada no pórtico ufaneia,
- Como o aço e brilho aêneo relumbrando:
- Tal, cevada em má grama, à luz a cobra,
- Que prenhe o brumal frio a soterrava,
- Nova a pele, se empina, e moça e nédia,
- Lúbrico dorso enrola, árdua o Sol mira,
- Fulge e vibra a trissulca ardente língua.
- Com Perifas membrudo e a flor dos Scírios,
- Assalta o paço Automedonte o pajem,
- Que os de Aquiles picava árdegos brutos;
- Lançam fachos ao cume. À frente Pirro
- A machadadas racha os umbrais duros,
- E éreos portões descrava da couceira;
- Traves descose, firmes robles fende,
- E cava ampla abertura. O interno centro
- Aparece, e átrios longos patenteia;
- Aparecem de Príamo os retretes,
- Mansões de priscos reis; e um corpo em armas
- Cobre o limiar. Envolta a casa em prantos
- Longo ecoa; as abóbadas ululam
- Com femíneo gemer, triste alarido,
- Que áureas estrelas fere. Apavoradas
- Andam mães pelas vastas galerias,
- E ósculos pregam nos portais que abraçam.
- Pirro, emulando o pai, no ataque insiste;
- Nem há barreira ou guardas que o sustenham.
- Do crebro aríete abolada a porta,
- Rui dos gonzos rendida. À força rompem;
- No ádito em postas aos primeiros talham,
- E tudo enchem de tropas e de estragos.
- Bem menos, quando inchado o espúmeo rio
- Marachões quebra e valos sobrepuja,
- Agros furioso inunda, e na torrente
- Roja armento e currais de campo em campo.
- Eu vi Pirro na brecha encarniçado
- E os dois Atridas; Hécuba e as cem noras,
- E o rei no altar vi mesmo com seu sangue
- Maculando os que ali sagrara fogos.
- Os tálamos cinqüenta, em que esperava
- Tantos netos, magníficas portadas
- De ouro e espólio barbárico, arruinam:
- Possui o Danao quanto poupa a chama.
- Talvez de Príamo o destino inquiras.
- Tróia em destroço, o paço contemplando
- Derruído e hostilmente profanado,
- De ociosa armadura o velho os ombros
- Trêmulos veste, inútil ferro à cinta,
- Entre basto inimigo a morrer parte.
- Num pátio, exposto ao eixo nu celeste,
- Louro antigo os penates obumbrava,
- Sobre ara ingente os ramos espalmando.
- Qual da borrasca fugitivas pombas,
- Num grupo ali pousando, Hécuba e as filhas
- Consigo em vão seus divos apertavam.
- Sob armas juvenis ao rei que assoma:
- “Que dira insânia! diz; mísero esposo!
- Onde em bélico apresto assim caminhas?
- Tal defensa não basta e humano auxílio;
- Nem que o meu próprio Heitor surgisse agora.
- Vem nesta ara abrigar-te, ou vem conosco
- Morrer.” Nisto, ao longevo a mão pegando,
- Em sagrada cadeira a par o assenta.
- Fugindo à morte um filho seu, Polites,
- Eis ferido, entre lanças, entre imigos,
- Por átrios longos, pórticos desertos,
- Gira: de golpe feito, o acossa, o apanha
- Já já Pirro feroz, de um bote o aterra:
- Ao tempo que ante os pais ia chegando
- Baqueia, e dessangrado a vida exala.
- A sua o rei sentiu no extremo fio,
- Mas reprimir não pôde a voz e a ira:
- “Pelo atentado, exclama, e audácia tanta,
- Se há no céu providência e piedade,
- Pague-te o céu com merecido prêmio,
- A ti que o matas às paternas barbas,
- E estas cãs me funestas e enxovalhas!
- Não, tal não se houve Aquiles, meu contrário,
- De quem te finges prole: ao suplicar-lhe
- Enrubeceu, direito e fé guardou-me;
- Sepultar permitiu-me Heitor exangue,
- Rever meus reinos.” Disse, e arroja o velho
- Dardo imbele sem gume, que repulso
- Pelo rouco metal, à superfície
- Do embigo do broquel frustrado pende.
- “Pois vai contá-lo ao genitor Pelides;
- Núncio narrar te lembre estas baixezas,
- E o quanto o degenero. É tempo, morre.”
- Falando Neoptolemo o arrasta às aras
- Tremebundo, e do filho em quente sangue
- A resvalar: na esquerda a coma enleia;
- Com a destra saca a lâmina fulgente,
- No vazio lha embebe até aos copos.
- De Príamo este o fado, assim finou-se
- Tróia arder vendo e Pérgamo assolar-se:
- Quem d’Ásia em povos cem reinou soberbo
- É cadáver; na praia o tronco informe
- Jaz sem nome, e a cabeça decepada.
- Pasmei de horror, confesso: o pai querido,
- No eqüevo rei que derramava o alento
- Pela crua estocada, eu me figuro;
- Figuro ao desamparo o tenro Ascânio,
- Creusa em pranto, os lares saqueados.
- Olho atrás, e procuro os companheiros:
- Todos lassos e em dor me abandonaram,
- Despenhando-se em terra ou sobre as chamas.
- Já só de amigos, ao clarão do incêndio
- Erro, e em torno espreitando a cada passo,
- No santuário escondida e taciturna
- A Tindárida enxergo aos pés de Vesta:
- Dos nossos pela queda exasperados,
- Dos seus medrosa, do ofendido esposo,
- Essa Erínis comum de Grécia e Tróia,
- Execrada, entre as aras se acoutava.
- A alma abrasou-se-me; iracundo anseio
- Vingar na infame a pátria agonizante.
- “Que! soberana ir esta à sua Esparta?
- Incólume, em triunfo, entrar Micenas?
- Ver a casa, o marido, e os pais e os filhos?...
- E ornem-lhe a pompa iliacas escravas!
- E a ferro acabe o rei, queime-se Tróia,
- E suem teucro sangue as teucras praias!...
- Não: se é nula a vitória, se é desdouro
- Punir de morte a feminil fraqueza,
- Louvor seja extinguir este ímpio aborto;
- Farto ao menos a sanha e ardente sede,
- Saciarei de prazer dos meus as cinzas.”
- De fúrias transportado isto profiro,
- Quando a meus olhos, como nunca, pura
- A alma Vênus, a noite alumiando,
- Em divindade manifesta brilha,
- Tal qual sói aos celícolas mostrar-se;
- E segurando em mim com rósea boca
- Me atalha a genetriz: “Que mágoa, ó filho,
- Que indômita paixão te desatina?
- Que é dos nossos penhores? onde o idoso
- Cansado pai largaste? onde o filhinho?
- Vive ainda Creusa? Atroz caterva
- Lhes volteia em redor; sem meus desvelos
- Já tragado os houvera ou gládio ou fogo.
- Páris não culpes e a Lacena odiosa;
- Dos deuses sim, dos deuses a inclemência
- É que abate e subverte a excelsa Tróia.
- Repara: a nuvem que ora os mortais visos
- Te embota úmida e baça, eu vou tirar-ta:
- Sem temor obedece à voz materna.
- Lá onde esparsas moles e arrancadas
- Rochas a rochas vês, e undante fumo
- E enovelado pó, Netuno a golpes
- Do grã tridente os muros e alicerces
- Alui, e do orbe desarreiga Tróia.
- Sevíssima e em furor, de aceiro e malha,
- Convoca Juno, ali nas portas Scéias,
- Das naus os batalhões. Já sobre as torres,
- Nota, sentada em lampejante nuvem,
- Tritônia agita a Górgona terrível.
- Jove mesmo acorçoa e esforça os Gregos,
- Suscita os imortais contra Dardânia.
- Foge, anda, filho meu, põe termo às lidas.
- Em salvo ao pai te guio, eu não me aparto.”
- Disse, e na sombra envolve-se. Aparecem
- De infensos numes cataduras torvas:
- Ílio esboroar em cinzas se me antolha,
- Fundir-se toda a neptunina Tróia.
- Assim nos altos montes orno antigo,
- Se extirpá-lo a machado em crebro assalto
- Lenhadores porfiam, nuta, ameaça,
- Trêmula a coma, sacudido o cume,
- Té que aos poucos cerceado, alfim gemendo,
- Cai dos cabeços com ruidoso estrago.
- Côo entre o ferro e o fogo, a par de Vênus;
- Recua o fogo e se desvia o ferro.
- Chego à pátria morada, ao velho corro,
- No Ida ampará-lo mais que tudo anelo;
- Nega-se ele ao desterro, a vida enjeita
- Sem Tróia: “Ó vós, nos clama, a quem robora
- Viçoso inteiro sangue, afervorai-vos,
- Parti. Se os deuses me quisessem vivo,
- Conservavam-me agora o avito assento.
- Sobra uma vez remanescido termos
- Da cativa cidade após o excídio.
- Dizei-me o adeus supremo, ah! despedi-vos
- De um cadáver. A morte eu mesmo a apresso,
- Ou dê-ma compassivo e me despoje
- Qualquer Danao: que importa a sepultura?
- Peso inútil, há muito o céu me odeia,
- Dês que o divino padre, o rei dos homens,
- Assombrou-me e tocou-me com seu raio.”
- Com tal discurso, pertinaz resiste
- Às lágrimas de Ascânio e de Creusa,
- Às da família inteira, que lhe instamos
- Pai não ajude a sorte a aniquilar-nos:
- Quedo à tenção se amarra. Eu torno às armas,
- Meu desejo é morrer. Que mais conselho,
- Que alternativa há mais? “Ó crime... e cuidas
- Que eu possa arredar pé, que te abandone?
- Tu blasfemas, senhor? Se é lei superna
- Que d’Ílio nada fique, e os teus pretendes
- Juntar contigo à moribunda Tróia,
- A estrada franca tens: não tarda Pirro,
- Que, o sangue régio gotejando, à face
- Do pai degole o filho e o pai nas aras.
- Que? de lanças, de incêndios me resguardas,
- Por que, ó madre, em meus lares o inimigo
- Ante mim próprio imole a esposa minha,
- E um no sangue do outro Iulo e Anquises?
- Armas, armas, varões: para os vencidos
- Acena o último dia: ah! consenti-me
- Que volte aos Danaos, que a peleja instaure:
- Nem todos hoje inultos morreremos.”
- De novo empunho a espada, embraço o escudo,
- E no ato de sair se me atravessa
- À soleira Creusa, os pés me abraça,
- E o meu tenrinho Ascânio me apresenta:
- “Vais perecer? a transe igual nos leva;
- Se inda em perícia e esforço te confias,
- O que primeiro cumpre é defender-nos.
- A quem teu pai, a quem teu filho entregas,
- E esta que nomeavas tua esposa?”
- Quando esturgia o teto em ais desfeita,
- Ó prodígio estupendo! estando Iulo
- De aflitos pais entre ósculos e abraços,
- Um resplendor sutil, ígneo turbante,
- Lhe coroa a cabeça, e em mole tato
- Às fontes se apascenta e lambe as comas
- A inócua flama. Trépidos de medo,
- O flagrante cabelo sacudimos,
- Jorros d’água a deitar no sacro lume.
- Mas ledo o genitor na etérea corte
- Fita os olhos, e orando as palmas tende:
- “Júpiter sumo, se te abrandam preces,
- Atende ao menos; se à piedade és grato,
- Auxilia-nos, padre, o agouro assela.”
- Com súbito fragor, mal finda o velho,
- Toa à esquerda, e nas sombras deslizando
- Pelo céu alva estrela acende a cauda;
- Vemo-la a escorregar pelos telhados,
- Na selva Idea a esteira assinalando,
- Sumir-se: longo sulco abre em centelhas,
- À larga odor sulfúreo exala e estende.
- Meu pai rendido se ergue, invoca os deuses,
- E adora o astro santo: “Ó pátrios numes,
- Presto vos sigo o aceno; impulso é vosso:
- Protegei, ressalvai-me o neto e a casa:
- Tróia está sob a vossa potestade.
- Nem mais recuso, filho, eu vou contigo.”
- Nos muros claro então crepita o fogo,
- De perto volve em ala e o esto esparge.
- “Sus, meu pai, eu te ajudo, às nossas costas
- Sobe-te, ó caro, não me agrava o peso:
- Em sucesso qualquer, teremos ambos
- A mesma salvação, comum perigo.
- Ladeie-me o filhinho, e atrás Creusa
- Não se afaste de mim. Sentido, ó servos:
- Ao sair, num outeiro está de Ceres
- Velho templo deserto, ao pé de antigo
- Cipreste, com respeito religioso
- Dos avós longamente conservado:
- Por diverso caminho ali seremos.
- Tu, padre, o que há sagrado e os pátrios divos
- Toma: tinto em matança, ímpio é tocá-los,
- Sem que eu me expurgue em vívida corrente.”
- Nisto, o vestido pelos ombros dobro,
- Envergo de um leão a fulva pele,
- Curvo-me e o pai carrego: o tenro Iulo
- Trava-me a destra, amiúda os curtos passos
- Por alcançar os meus; não longe, a esposa
- Nos vai na trilha por opacos sítios:
- E eu, que há pouco arrostava hostes e dardos,
- De um sopro agora tremo, um som me espanta,
- Pela companha e carga temeroso.
- Propínquo às portas, já me conto livre;
- De repente um tropel ouvir cuidamos;
- Na treva Anquises lobrigando: “Filho!
- Grita; apressa-te, filho; ei-los: diviso
- Broquéis ardentes, fulgurantes malhas.”
- Não sei que nume infausto alucinou-me:
- Por dévia estranha rota extraviado,
- Ai! mísero perdi minha Creusa:
- Se o fado ma roubou, se errou a estrada,
- Ou lassa recostou-se, é duvidoso:
- Nunca mais a avistei. Inadvertido
- Pela ausência não dou, senão no outeiro,
- Próximo ao templo já da prisca Ceres:
- Aí feita a resenha, ela só falta,
- Malogrando o marido e o filho e os sócios.
- Que homem, que deus não acusei demente?
- Que houve de mais cruel no excídio horrível?
- Num fundo vale escondo, e aos companheiros
- Os divos encomendo e Ascânio e Anquises.
- Corro à cidade em refulgentes armas,
- Firme em revirar Tróia e em novas lutas
- Pôr a cabeça na arriscada empresa.
- Lesto às muralhas, ao limiar escuro
- Da porta volto que me deu passagem;
- Retrocedendo, pela noite apalpo,
- Os olhos canso em busca das pegadas:
- Tudo aterra, o silêncio o pavor dobra.
- Talvez, talvez regressaria à casa;
- E lá me envio: os Danaos a invadiram,
- Dominavam-na toda: o voraz fogo,
- Dos ventos irritado, os altos ganha,
- Rolando em labareda os ares cresta.
- Prossigo; à régia e à cidadela passo:
- E já nos vácuos pórticos, no asilo
- De Juno, eleitos a velar na presa,
- Se postam Fênix e o nefando Ulisses;
- Os tesouros de Tróia em montões vejo,
- De acesos tetos, saqueados templos,
- Vasos de ouro maciço, alfaias, mesas,
- Vestes sacerdotais: à roda em fila
- Estão pávidas mães, tenros meninos.
- Ousei bradar na treva, e mesto as ruas
- Enchi de vozes; por demais gemendo,
- Chamei, chamei e rechamei Creusa.
- Furente as casas lustro, e saio e torno,
- Quando a sombra da esposa, imagem triste,
- Maior que dantes se me avulta aos olhos,
- Pasmo, hirta a coma, a voz se apega às fauces.
- Ei-la afável me alenta e assim me acalma:
- “Que vale a dor sobeja, ó doce esposo?
- Sem nume isto não é: levar Creusa
- Te veda o fado, o regedor sublime
- Do Olimpo o não consente. Em longo exílio
- Tens de arar vasto pego até à Hespéria,
- Onde entre pingues populosos campos
- O lídio manso Tibre inclina a veia.
- Com saudades não chores da consorte:
- Um reino ali te espera e uma princesa.
- Nem eu, Dardânida e de Vênus nora,
- Irei servir as Téssalas altivas,
- Nem dolopéias damas: cá me impede
- A grande mãe Cibele. Adeus, Enéias;
- Todo na prenda nossa o amor emprega.”
- Nisto, o falar me corta, e às minhas lágrimas
- Se furta, e se esvaece em tênues auras.
- Três vezes fui lançar ao colo os braços;
- Três presa embalde se desfez a imagem,
- Igual ao vento leve ou sono alado.
- Os sócios, gasta a noite, enfim revisto;
- Dos que acho novos a afluência admiro:
- Velhos e moços, donas e donzelas,
- Vulgo infeliz, concorrem para o exílio
- Com quanto salvam, pressurosos querem
- Peregrinar comigo o mar e a terra.
- A Alva, dos cimos do Ida ressurgindo,
- Já traz o dia, e ocupa o Grego as portas;
- Nem há mais de esperança um só vislumbre.
- Cedo, e aos ombros meu pai, subo a montanha.