Pular para o texto
EneidaLivro XI
LivroXI

Já do oceano a aurora despontava.

886 versos · 5 notas do tradutor


  1. Já do oceano a aurora despontava.
  2. Bem que urja o tempo de inumar seus mortos
  3. E o turbe o funeral, no primo eôo
  4. Piedoso o vencedor cumpria os votos.
  5. Num combro tancha desramada enzinha,
  6. Veste-lhe de Mezêncio o arnês lustroso,
  7. Troféu que a ti, Belipotente, sagra:
  8. Os dardos rotos, as sanguentas crinas
  9. Lhe ata; à esquerda o pavês e a tiracolo
  10. Suspende a ebúrnea espada. E assim de ovantes
  11. Capitães escoltado, exorta os sócios:
  12. “Fora o temor, varões, que pouco resta
  13. Por fazer; eis o espólio, eis as primícias
  14. De um rei soberbo, que estas mãos puniram.
  15. Eia, a Laurento agora: arma, arma, alerta;
  16. Ânimo e fé! dos numes quando o aceno
  17. Mova o campo, as bandeiras arrancadas,
  18. Nem outro acordo vos detenha incautos,
  19. Nem retarde os mancebos frouxo medo.
  20. Entretanto os finados sepultemos,
  21. Conta exigida no ínfimo Aqueronte.
  22. De ferais dons ornai-me os que esta pátria,
  23. Comprada com seu sangue, nos legaram;
  24. Vá primeiro de Evandro aos tristes muros
  25. Palante, a quem não pobre de virtude
  26. Mergulhou trago acerbo em noite escura.”
  27. Disse e à tenda chorando se retira,
  28. Onde o aluno defunto Acetes guarda,
  29. Velho escudeiro do Parrásio Evandro,
  30. Zeloso aio do filho, mas não dado
  31. Com tão feliz auspício. A turba em cerco
  32. E os fâmulos em dó, conforme o estilo
  33. Desgrenhadas o seguem frígias donas.
  34. Pelos altos portões mal entra Enéias,
  35. Levantam crebros ais, nos peitos ferem,
  36. E remuge o real do luto e pranto.
  37. Como ele o níveo corpo, a face e a testa
  38. Sustida olhou, da ausônia choupa o rombo
  39. No seio liso, em lágrimas rebenta:
  40. “Pois sorriu-me a fortuna, e a mim te inveja,
  41. Moço infeliz, que o reino meu não visses,
  42. Nem tornasses em pompa ao lar paterno?
  43. Não foi esta a promessa a Evandro feita;
  44. Que abraçado, à partida, ao grande império
  45. Me propunha, e entre sustos me advertia
  46. De que era áspera a guerra e forte a gente.
  47. E ora talvez, debalde esperançoso,
  48. N’ara devoto of’rendas acumula,
  49. Quando ao jovem, já quite dos Supremos,
  50. Exéquias vãs prestamos. Desgraçado!
  51. O funeral cruel verás do filho!
  52. Que triste volta! ó sonho de triunfos!
  53. Eis a fé minha! Mas com vis feridas
  54. Não te envergonhará, nem, salva a prole,
  55. Tu pai desejarás o eterno sono.
  56. Ai! quanto, Ausônia, quanto, Iulo, perdes!”
  57. Neste lamento, escolhe mil guerreiros,
  58. Que o mísero cadáver acompanhem,
  59. Obséquio extremo, e às lágrimas assistam
  60. Do aflito pai; devida, mas pequena
  61. Consolação do nojo e trago ingente.
  62. Brando esquife engradado alguns de vergas
  63. De medronho e carvalho não remissos
  64. Tecem, de folha o estructo leito ensombram.
  65. Fica na agreste cama o excelso moço,
  66. Qual por virgíneo pólice apanhada
  67. Mole violeta, ou lânguido jacinto;
  68. A quem brilho nem cheiro inda falece,
  69. Mas não vigora e nutre a mãe terrena.
  70. Duas purpúreas opas recamadas
  71. Enéias tira, em que a Sidônia Dido
  72. Com doce esmero trabalhara mesma,
  73. As telas de ouro fino entretecendo:
  74. Mesto, em honra final, veste uma ao jovem,
  75. Com outra a coma para as chamas vela.
  76. Manda lanças, frisões e tanto espólio
  77. Da laurentina pugna, em longa série
  78. Dispor; e atrás das costas maniatados
  79. Os que às sombras destina e regar devem
  80. A pira com seu sangue; e os chefes tragam
  81. De hostis arneses troncos revestidos,
  82. Onde inimigos nomes se insculpiram.
  83. Conduzem de anos gasto o pobre Acetes,
  84. Que a punhadas o peito, o rosto a unhas
  85. Desfigurando, pelo pó se estira.
  86. Vem do rútulo sangue o tinto coche;
  87. E atrás, posto o jaez, úmidas gotas
  88. Eton, fero corcel, dos olhos verte.
  89. Vem o elmo e a lança; o mais roubou-lhe Turno.
  90. Lento a falange marcha etrusca e teucra,
  91. De armas em funeral o arcádio bando.
  92. Dês que em ordem se alonga o saimento,
  93. Retém-se Enéias, e suspira e geme:
  94. “A outros prantos nos chama a fatal morte.
  95. Salve, exímio Palante, e para sempre,
  96. Adeus, amigo, adeus!” Nem mais profere,
  97. E aos arraiais tornando o passo alarga.
  98. Já de oliva enramados oradores
  99. Latinos pedem vênia, a fim que esparsos
  100. Corpos sepultem, vítimas da guerra;
  101. Que a não tenha com mortos e vencidos;
  102. Poupe os hóspedes seus, outrora sogros.
  103. Bom Enéias atende às justas preces:
  104. “Que ruim fado, acrescenta, nesta lide
  105. Vos implicou, Latinos, que de amigos
  106. Nos renegais? E a paz quereis somente
  107. Para os da luz privados nas batalhas?
  108. Eu quereria concedê-la aos vivos.
  109. A não ser o destino, eu cá não vinha;
  110. Nem a gente combato. Ao jus de hospício
  111. Preferiu vosso rei de Turno as armas.
  112. Turno é melhor que à morte se expusera:
  113. Se expulsar-nos pretende, o pleito acabe
  114. Num duelo comigo; e um de nós reste
  115. A quem seu nume ajude ou seu denodo.
  116. Sus, à fogueira os cidadãos mesquinhos.”
  117. Disse: absortos se olhando mudos ficam;
  118. E o velho Drances, que odiento e infesto
  119. Sempre a Turno crimina: “Ó tu, responde,
  120. Varão maior que a fama, como te alças?
  121. Não sei que mais te louve ou mais admire,
  122. Se o valor, se a justiça? Iremos gratos
  123. Na pátria o publicar, e, dado o ensejo,
  124. Ao rei te unir: alianças busque-as Turno.
  125. Altear apraz-nos a fatal cidade,
  126. Troianas pedras carregar aos ombros.”
  127. Finda, e um consenso unânime sussurra.
  128. Doze dias, em tréguas, juntos vagam
  129. Por monte e selva os Teucros e os Latinos:
  130. Da bipene o alto freixo ao corte soa;
  131. Tomba o aéreo pinheiro; as cunhas racham
  132. De contino orno, roble, odoro cedro;
  133. Ao carrear chiando as rodas andam.
  134. E a Fama já, que apregoava há pouco
  135. De Palante as ações, do imenso luto
  136. Enche Evandro e de Evandro a casa e os muros.
  137. O Arcádio às portas rui, e ao modo avito
  138. Pega brandões, que ao longo a via aclaram;
  139. A procissão funérea os agros fende,
  140. Co’a turba frígia encontra-se em lamentos.
  141. As mães, vendo-os entrar, com pranto lúgubre
  142. Toda a cidade acendem. Nada a Evandro
  143. Pôde conter; atira-se no meio;
  144. Sobre o deposto féretro curvado,
  145. Se abraça com Palante, e geme e chora,
  146. Até que a dor à fala abriu caminho:
  147. “Filho, a palavra assim me desempenhas
  148. De entregares-te cauto ao cru Mavorte!
  149. No primeiro certame eu bem sabia
  150. Quanto o louvor é doce e a nova glória.
  151. Tristes primícias, rudimentos duros
  152. Da finítima guerra! ai! preces minhas,
  153. Votos por nenhum deus jamais ouvidos!
  154. Oh! no morrer feliz, mui casta esposa,
  155. Não provas este mal! Sobrei-te em anos
  156. Para carpir extinto o nosso filho!
  157. De hostis lanças coberto, eu dera est’alma
  158. Sob os sócios pendões! Fosse esta pompa
  159. Só para mim, não para ti, Palante!
  160. Vossa aliança e hospício eu não arguo;
  161. Sorte era, ó Teucros, da velhice minha:
  162. Mas, se imaturo cai, mil Volscos mata,
  163. Ao Lácio vos guiando, honrado acaba.
  164. Mais digno enterro não terás, meu filho,
  165. Do que Enéias celebra, e seus magnatas,
  166. E etruscos chefes, e esquadrões etruscos:
  167. Dos que enviaste ao Orco os troféus trazem.
  168. Também grã tronco em armas cá serias,
  169. Se idade igual à tua o roborasse,
  170. Turno. Mas que! pranteio e a pugna tardo?
  171. Frígios, o que lhe digo ao rei contai-o:
  172. Se a luz nesta orfandade eu sofro, Enéias,
  173. A tua destra é causa, ao filho e ao padre
  174. Olha que deves Turno: este o serviço
  175. Que do teu brio espero e da fortuna.
  176. Gostos na vida enjeito, nem me assentam;
  177. Sim, no inferno os receba o meu Palante.”
  178. Almo lume a verter, o albor canseiras
  179. Renovava aos mortais. Na curva praia
  180. Em piras cada qual, Enéias, Tárchon,
  181. Dos seus, usança velha, os corpos queima;
  182. Na caligem dos fogos sotopostos
  183. Se enoita o céu. Três vezes decorrendo
  184. A infantaria, em fulgurantes armas,
  185. A rogal chama fúnebre circula;
  186. Três a cavalaria; e ululam todos:
  187. O choro arneses banha, a terra ensopa;
  188. Grita, clangor, mugindo os ares fere.
  189. Uns lançam na fogueira o ganho espólio,
  190. Guarnecidas espadas, elmos, freios,
  191. Rodas ferventes; uns, de oferta aos donos,
  192. Os broquéis notos e infelizes dardos.
  193. Hecatombes à morte, para a queima
  194. Cerdos e nos contornos apanhada
  195. Imolam grei: na praia arder observam,
  196. Em suas piras semi-ardidas velam
  197. Sem despegar-se, até que úmida a noite
  198. Inverte o céu de estrelas marchetado.
  199. Nem menos tristes os Latinos erguem
  200. Fogueiras mil; dos seus enterram parte,
  201. Levam parte à cidade e às vizinhanças:
  202. Em confuso montão, sem conto e nome,
  203. É consumido o vulgo. Ao longe e ao largo
  204. À competência os fogos alumiam.
  205. Manhã terceira assoma; e, de altas cinzas
  206. Doídos removendo os mistos ossos,
  207. Terra sobre eles tépida amontoam.
  208. Mas na opulenta laurentina corte
  209. O alarido é maior, mais geme o luto.
  210. Mães, irmãs, noras, órfãos miseráveis,
  211. Ferrenha guerra aflitos execrando
  212. E os himeneus de Turno, exigem que ele
  213. No Lácio a primazia à espada obtenha.
  214. Drances agrava o caso, e atesta e jura
  215. Que Turno a desafio é só chamado.
  216. Muito a favor de Turno opinam vários:
  217. Da rainha o respeito e a sombra o amparam;
  218. Seu renome e troféus o herói sustentam.
  219. Neste flagrante, em meio do alvoroto,
  220. Do grã Diomedes pesarosos voltam
  221. Com respostas os legados: nada as preces,
  222. Nada os custos valeram da embaixada,
  223. Nem dons nem ouro; ou busque outra aliança,
  224. Ou paz rogue Latino ao rei troiano.
  225. Esmorece o bom velho em tanta angústia:
  226. Que o céu protege a Enéias lhe confirmam
  227. Irados numes, frescos os sepulcros.
  228. Chama a conselho os principais senhores,
  229. Que logo, ao seu mandado, enchendo as ruas
  230. Ao paço afluem. Do seu trono o digno
  231. Ancião monarca, não com leda fronte,
  232. Aos legados acena, e inquire e indaga
  233. Com toda a pausa a etólica resposta.
  234. Reina o silêncio, e Vênulo obedece:
  235. “Nós vimos, cidadãos, o argivo assento,
  236. E, da jornada os riscos superando,
  237. A mão tocámos que assolou Dardânia.
  238. Ele no apúlio Gárgano Argiripa,
  239. Cognome pátrio, vencedor fundava.
  240. Quando a vez tive, os dons lhe oferecendo,
  241. Quem éramos declaro, e a guerra e causa
  242. De em Arpo nos acharmos. Com sossego
  243. Nos torna o Grego: — “Ó reinos de Saturno,
  244. Priscos Ausônios, venturosos povos!
  245. Que fado a concitar vos solicita
  246. Ignotas guerras? Quantos profanámos
  247. Com ferro Tróia (os transes nela exaustos
  248. Omito, e os que em si volve aquele Simois)
  249. Pelo orbe temos pago infandas penas,
  250. Tais que Príamo próprio as lastimara:
  251. Minerva o testemunhe, o Arcturo infausto,
  252. O ultrice Cafareu, de Eubéia as penhas.
  253. Dali, de praia em praia desterrados,
  254. Menelau de Proteu foi ter às metas,
  255. Aos Ciclopes trinácrios o Laércio.
  256. De Pirro e Idomeneu subversos lares,
  257. Ou lembrarei na Líbia assentes Locros?
  258. De vingar n’Ásia um rapto ufano o Atrida
  259. Rei dos reis, por traição da atroz consorte,
  260. Cai do adúltero ao ferro em seu palácio.
  261. E o céu não me invejou rever a pátria
  262. E a bela Calidona e a cara esposa?
  263. Hoje inda monstros hórridos me assombram:
  264. Perdidos sócios (ai cruéis suplícios!)
  265. Nos ares voam-me, aves da ribeira,
  266. Com flébeis guinchos nos cachopos vagam.
  267. Isto eu prever devia, mal que insano
  268. Corpos violei divinos, golpeando
  269. A destra a Vênus mesma. A tais pelejas
  270. Não me instigueis, oh! não. Dês que assolada
  271. Pérgamo foi, com Teucros nem combato,
  272. Nem me recordo ou folgo desses males.
  273. Os dons que me ofertais rendam-se a Enéias.
  274. Com ele dardo a dardo e braço a braço,
  275. Provei, crede, quão lesto o escudo move,
  276. Com que vórtice esgrime ou gládio ou lança.
  277. No Ida se dois varões como ele houvesse,
  278. Dardânia acometera ináquias plagas,
  279. Trocara a Grécia os louros em ciprestes.
  280. Em Tróia pertinaz susteve os Graios,
  281. Durante o assédio, a mão de Heitor e Enéias,
  282. Que a vitória dez anos retardaram:
  283. Ambos no ânimo iguais, iguais no esforço,
  284. Mais pio esse é. Tratai de congraçá-lo,
  285. E fugi de travar armas com armas.” —
  286. Eis a real sentença, ó rei sublime,
  287. Sobre tamanha guerra.” Disse; e corre
  288. No conselho um murmúrio, como quando,
  289. Seixos detendo o arrebatado rio,
  290. No álveo ronca impedido, e em torno fremem
  291. Da ribanceira as crepitantes ondas.
  292. Quedo o alvoroço e plácido o sussurro,
  293. Ora aos deuses o rei, do trono fala:
  294. “Eu, cidadãos, queria, e melhor fora
  295. Antes deliberar; não quando os muros;
  296. Preme o inimigo. Inoportuna guerra
  297. Temos com tais varões, com diva estirpe,
  298. A quem prélios nem cansam, nem vencidos
  299. Sabem depor o ferro. Se estribáveis
  300. No étolo auxílio, o desengano chega;
  301. Fie em si cada qual: fraca esperança!
  302. Como em ruína as coisas nos declinam,
  303. Vossos olhos o vêem, as mãos o apalpam.
  304. Ninguém acuso: obrou-se o mais possível;
  305. Em peso o reino se bateu brioso.
  306. O que hei na dúbia mente, agora em pouco
  307. Vo-lo explano; atenção. Próximo ao Tibre,
  308. Sobre as sicanas raias, para o ocaso,
  309. Agro antigo possuo; o qual semeiam
  310. Os Rútulos e Auruncos, e as colinas
  311. Arando, em pasto o mais estéril deixam.
  312. Esta região e o celso píneo monte
  313. Ceda-se ao Teucro; e, justas leis ditadas,
  314. Em amizade e em paz nos federemos.
  315. Se o quer, fique e entre nós se estabeleça;
  316. Mas, se outra gente, outro país prefere,
  317. E ir-se daqui, naus vinte ou mais teçamos
  318. De ítalo sobro, as que precisas forem:
  319. Madeira jaz à borda; eles prescrevam
  320. Pontal, número, forma; nós prestemos
  321. Dinheiro, arsenais, braços. E oradores
  322. Cem dentre os nobres deputar me agrada;
  323. Que, nas mãos a oliveira, em brinde ofertem
  324. Marfim, talentos de ouro, e a trábea e a sela
  325. Curul, do reino insígnias. Em consulta,
  326. Provede ao bem do combalido estado.”
  327. Drances, a quem de Turno a glória punge
  328. De vesga e amara inveja, em bens profuso,
  329. Mais largo em língua, timorato e imbele,
  330. Não mau no alvitre, em sedições potente,
  331. De incerto pai, da ilustre mãe soberbo;
  332. Se ergue, e em Turno carrega e incita as iras:
  333. “Coisa, ó bom rei, suades nada obscura,
  334. E escusas consultar. O que insta e cumpre
  335. Cada um murmura, e expô-lo não se atreve.
  336. Falar conceda, e a tumidez remita
  337. Quem, por funesto auspício, ambicioso
  338. (Digo, e armado ele a morte me comine)
  339. Extinguiu tantos cabos, e a cidade
  340. E o povo enluta; enquanto, em pés fiado,
  341. Tenta o frígio arraial e aterra o mundo.
  342. Aos dons que ao Teucro, ótimo rei, prodigas,
  343. Um acrescentes, um; ninguém violento
  344. Vede ao pai dar a filha a genro egrégio,
  345. Em laço eterno e honroso a paz segures.
  346. Se é tanto o susto, humildes o obtestemos,
  347. Peçamos vênia; à pátria e ao rei se digne
  348. O jus nosso outorgar. Autor de angústias,
  349. Por que impeles o Lácio a tais perigos?
  350. Infausta guerra! a paz queremos, Turno;
  351. O inviolável penhor a paz confirme.
  352. E eu, que a ti crês infenso (o que ora passo),
  353. Eu te suplico para os teus piedade;
  354. Cessa, e repulso vai-te. Assaz matanças,
  355. Vimos assaz os campos desolados.
  356. Ou, se a fama te pica e ínsito esforço,
  357. Em dote se esta régia obter anseias,
  358. Ousa, ao rival te afoites peito a peito;
  359. Nem, para que a princesa espose Turno,
  360. Nós, vil turba insepulta e ilagrimada,
  361. O agro junquemos! Tu, se o pátrio brio
  362. Te anima e alenta, provocado arrosta-o.”
  363. De Turno arde a violência a tais dictérios;
  364. Do imo suspira, em cólera trasborda:
  365. “Sempre em frases abundas, quando a guerra
  366. Pede obras, Drances; nos debates primas.
  367. Conter mal pode a cúria essas bravatas,
  368. Que, entrincheirado a salvo, te borbolham,
  369. Enquanto em sangue os fossos não se inundam.
  370. Toa a usual facúndia: eu sou cobarde,
  371. Sim; tu Frígios em pilha amontoaste,
  372. Mil troféus as façanhas te assinalam.
  373. Teu vivido valor provar te cumpre:
  374. É não longe o inimigo, os nossos muros
  375. Em roda assalta; vamos encontrá-lo.
  376. Como! tardas? ou sempre tens Mavorte
  377. Nessa balofa língua e fugaz planta?
  378. Eu repulso! há, vilão, quem tal me assaque?
  379. Será quem viu de sangue o Tibre inchar-se,
  380. Quem de Evandro abatida a estirpe e casa,
  381. O Árcade profligado? Certo Bícias
  382. Não me argüirá, nem Pândaro e milhares
  383. Que, na trincheira hostil encurralado,
  384. Mandei num dia à Estige vitorioso.
  385. Infausta a guerra? ao capitão dardânio
  386. E a ti, louco, esse agouro. Embrulha, espanta,
  387. Nem cesses de exaltar os bi-cativos
  388. E deprimir as armas de Latino.
  389. Do Frígio ora estremecem Mirmidones,
  390. Tidides ora e o Larisseu Aquiles;
  391. O Aufido o curso adríaco desanda!
  392. Finge o manhoso que de mim se teme,
  393. Com seu medo falaz me azeda o crime.
  394. Nunca, descansa, mancharei meu braço;
  395. Num peito more torpe essa alma indigna.
  396. Volto-me, ó padre, agora aos teus projetos.
  397. Se não tens confiança em nossas armas,
  398. Se não muda a fortuna, e uma derrota
  399. Nos destrói e nos perde sem regresso,
  400. Paz roguemos, tendendo inermes destras:
  401. Bem que oh! se nos restasse o brio antigo,
  402. Feliz na morte fora e o mais egrégio
  403. Quem, por não vê-lo, o pó mordeu caindo.
  404. Mas, por nós frescas tropas se inda temos,
  405. Florentes povos de ítalas cidades;
  406. Se com tormenta igual de sangue e estragos
  407. Também veio aos Troianos a vitória,
  408. Por que à primeira ignavos desmaiamos?
  409. Trememos antes que a trombeta soe!
  410. Do tempo o vário andar melhora as coisas:
  411. A muitos, que iludiu, fortuna instável
  412. Repôs em firme estado. Se Arpo etólia
  413. O nega, auxílio nos darão Messapo
  414. E o próspero Tolúmnio, e os tantos cabos
  415. De possantes nações; nem glória escassa
  416. Aguarda a flor do Lácio e de Laurento;
  417. E Camila pugnaz, de ilustres Volscos,
  418. Turmas luzidas move e eqüestres forças.
  419. Desafiado, apraz que eu só combata
  420. Em proveito comum? não se me esquiva
  421. Tanto a vitória, que intentada enjeite
  422. Essa esperança. Um próprio Aquiles seja,
  423. Vista e maneje o herói vulcânias armas,
  424. Contra animoso irei. Somenos Turno
  425. A nenhum dos avós, te voto, ó pátria,
  426. E sagro esta alma. Enéias só me chama?
  427. Chame, eu peço. Nem antes pague-o Drances,
  428. Caso que o céu funesto se nos torne;
  429. Nem sua intrepidez nos tire a palma.”
  430. Entre a dúbia contenda, o campo Enéias
  431. Levanta e marcha. Um núncio alvoroçado
  432. Corre ao paço, e a Laurento enche de susto:
  433. Que o teucro e tusco exército em batalha
  434. Desce do Tibre, invade-se a campanha.
  435. Turba-se o vulgo, os peitos se conturbam,
  436. Não leve estímulo os furores cresce:
  437. Armam-se à pressa, o moço armado freme,
  438. Lamenta e rosna o velho; os ares fere
  439. O discorde multíplice alarido:
  440. Al não sucede, se voláteis bandos
  441. Pousam no bosque, ou soam do piscoso
  442. Pado em loquazes tanques roucos cisnes.
  443. Turno o instante aproveita: “É bem, consócios,
  444. Reuni conselho, a paz louvai sentados;
  445. Eles de assalto ruam.” Nem mais disse;
  446. Larga impetuoso a régia: “Tu, Voluso,
  447. Volscas esquadras prestes, guia os Rútulos;
  448. Messapo, e vós irmãos Catilo e Coras,
  449. Derramai na planície os cavaleiros;
  450. Parte as entradas guarde e ocupe as torres;
  451. A mais hoste me siga.” Eis da cidade
  452. Corre-se aos muros. O conselho o mesmo
  453. Latino pai suspende, e seus projetos
  454. Nesta consternação tristonho adia:
  455. Muito se acusa de não ter a Enéias
  456. Por genro aceito e associado ao reino.
  457. Pedras e estrepes carretam, fossos cavam:
  458. Roncam buzinas o cruento a l’arma.
  459. O muro, em vários grupos, lance extremo!
  460. Coroaram matronas e meninos.
  461. Dádivas, de Minerva ao celso alcáçar,
  462. Com suas damas a rainha leva;
  463. E ao pé, submissos os decoros olhos,
  464. Vai, do mal causa insonte, a virgem filha.
  465. As mães da comitiva o templo incensam,
  466. Espargem do limiar carpidas vozes:
  467. “Deusa da guerra, armipotente Palas,
  468. Quebra ao frígio ladrão tu mesma a lança,
  469. Prostrado o abate, às portas o destroça.”
  470. Turno fogoso aos prélios se aparelha:
  471. Já rútula coiraça eri-escamosa
  472. Veste horrente, e nas pernas grevas de ouro,
  473. Inda nu da cabeça, a espada à cinta,
  474. Do castelo, fulgindo, alegre pula,
  475. E na idéia o triunfo se afigura:
  476. Como, o cabresto quando enfim rebenta,
  477. Livre o cavalo o aberto campo goza;
  478. Ou vai-se ao pasto e às éguas; ou, do rio
  479. Noto o banho, se deita à funda veia,
  480. A cerviz a entonar, viçoso rincha,
  481. Brincam-lhe as crinas pelo colo e espáduas.
  482. Vem Camila encontrá-lo, e descavalga
  483. Às portas a rainha, antes que o façam
  484. As volscas turmas, que depois a imitam.
  485. “Turno, diz, se tem jus uma alma nobre
  486. De em si crer, de arrostar eu só te fico
  487. Ílias coortes, cavaleiros tuscos.
  488. Estrear me permite a guerra e os transes;
  489. Tu defende as muralhas a pé firme.”
  490. Turno olhos fixa na tremenda virgem:
  491. “Que assaz graças te posso, honra de Itália,
  492. Aqui render? mas, que já que a tua audácia
  493. Tudo excede, comigo os riscos parte.
  494. Enéias, como espias mo confirmam,
  495. Cavalaria avança que ligeira
  496. Bata a campanha, e de ermos e árduos montes
  497. Contra a cidade se despenha astuto:
  498. Traço estar de emboscada em curvo atalho,
  499. Soldadesca cercando as fauces bívias.
  500. Tu, juntos os pendões, cai nos Tirrenos;
  501. O acre Messapo e as tiburtinas hostes
  502. E as do Lácio terás: comanda em chefe.”
  503. Volto a Messapo, o exorta e os cabos todos,
  504. E em busca do conflito o passo aperta.
  505. Apto ao bélico dolo, um vale inflexo,
  506. Negra espessura o encerra; onde uma trilha
  507. Por estreita garganta a custo guia.
  508. Jaz de cima num cume, a cavaleiro,
  509. Planura ignota, abrigo retirado,
  510. Quer tentes atacar à destra e à sestra,
  511. Quer volver do cabeço enormes galgas.
  512. Lá chega o jovem por sabidas sendas,
  513. E de atalaia está na iníqua selva.
  514. Entretanto Latônia à veloz Opis,
  515. Do seu virgíneo coro uma das ninfas,
  516. Lá no Olimpo sentida assim falava:
  517. “Camila, a quem mais prezo, à cruel guerra
  518. Parte, cingida em vão das armas nossas;
  519. Nem, Opis, este amor veio improviso
  520. Obrar com doce estímulo em Diana.
  521. Metabo, de Priverno antiga expulso
  522. Por ódio e prepotência, entre os conflitos
  523. Salva a trouxe do exílio companheira,
  524. Tenra menina; com mudança pouca,
  525. Da mãe Casmila a nomeou Camila.
  526. Com ela ao colo por desertos soutos,
  527. Longínquos serros, circunfusos Volscos
  528. A persegui-lo a dardos o oprimiam.
  529. Da fuga em meio, as nuvens desabando,
  530. Eis o Amaseno aluvioso espuma:
  531. Quis nadar, mas temendo se reteve
  532. Pela querida carga. Em si revolve,
  533. E decide-se enfim: na mão robusta
  534. Guerreiro tinha, de tostado sobro,
  535. Rija e nodosa lança; embrulha a filha
  536. Num cortiço, acomoda e a liga n’hástia;
  537. E, com força a librá-la, assim depreca:
  538. “Alma virgem Latônia, a ti, cultora
  539. Dos bosques, eu seu pai t’a voto serva;
  540. Súplice na tua arma ei-la que foge
  541. Do inimigo; recebe-a, deusa, é tua,
  542. Eu t’a encomendo pelas dúbias auras.”
  543. Disse, e o bucho contrai, o hastil contorce:
  544. Brame o rio; a infeliz por cima voa
  545. No estridente arremesso. Então Metabo,
  546. Urgido mais e mais, se entrega às águas;
  547. Da relva, em que a depôs, na lança a virgem
  548. Arranca vencedor. Nem teto ou muro
  549. O acolheu, nem as mãos altivo dera:
  550. Solitário pastor vivia em brenhas;
  551. E ali, criando a filha em gruta brava,
  552. De égua armental às tetas, lhe mungia
  553. Ferino leite nos mimosos lábios.
  554. Mal que a pino a menina as plantas firma,
  555. Dardo agudo pejando-lhe as mãozinhas,
  556. Pendura-se-lhe ao ombro aljava e arco;
  557. Por áurea coifa, por comprido manto,
  558. Às costas lhe descai tigrina pele:
  559. Já frechas pueris brincando joga,
  560. Da cabeça em redor volteia a funda,
  561. Grou derriba estrimônio ou branco cisne.
  562. Nora a desejam muitas mães tirrenas;
  563. Mas, dedicada a Febe, amor eterno
  564. Rende às setas pudica e à virgindade.
  565. Oh! se belaz não provocasse os Teucros,
  566. E ora me fosse companheira cara!
  567. Sus, ninfa, já que a preme atroz destino,
  568. Do pólo baixa manso onde os Latinos
  569. Pugnam com sestro agouro. Ouve, e do coldre
  570. Ultriz frecha prepara: Ítalo ou Frígio,
  571. Quem quer que a vulnerar sagrada e bela,
  572. Com seu sangue mo pague. Em nuvem cava
  573. Trarei não desarmada a miseranda,
  574. Por que em pátrio jazigo a deposite.“
  575. Não mais; e ela, em nublado escuro envolta,
  576. Pelas auras sonoras se desliza.
  577. Mas já Teucros e Etruscos se apropínquam,
  578. Toda a cavalaria em turmas certas:
  579. Freme o sonípede, a pular garboso,
  580. E aqui virado e ali, reluta ao freio;
  581. Hórrida em férrea messe, arde a campina.
  582. Com os latinos céleres Messapo,
  583. E Coras com o irmão, Camila e os Volscos,
  584. Aparecendo opostos, longe vibram
  585. Zargunchos e hastas, retraindo os braços:
  586. De homens ferve o tropel, relinchos fervem.
  587. A tiro, as hostes ambas fazem alto:
  588. Rompe a cuquiada, incitam-se os cavalos;
  589. Granizam como neve espessos dardos,
  590. Que o céu tornam sombrio. Em riste as lanças.
  591. Tirreno e Acônteo acérrimo ruidosos
  592. Se investem logo, e os brutos se abalroam
  593. Peito com peito: sacudido Acônteo,
  594. Qual por trabuco o peso, ou como raio,
  595. Se precipita, e no ar a vida esparge.
  596. Turbam-se; e, adargas para trás virando,
  597. Os Latinos de trote aos muros voltam.
  598. No alcance, o bravo Asilas quase às portas
  599. Leva os Troas; e, em grita os colos dóceis.
  600. Revirando o inimigo, à rédea solta
  601. Por turno retrocedem: não diverso
  602. Da maré que, alternada, ou rola às terras,
  603. E os cachopos orvalha, espuma e ronca,
  604. Té lavar sinuosa a extrema areia;
  605. Ou, ressorvidos os revoltos seixos,
  606. Na ressaca lambendo às praias foge,
  607. Ora, o Toscano ao Rútulo rechaça,
  608. Ora o broquel também lhe ampara as costas;
  609. Mas, no terceiro choque, barba a barba
  610. Travam geral batalha: em ais e em gritos
  611. Varões, corcéis morrendo, e corpos e armas
  612. Em sangue rodam, n’áspera carnagem.
  613. A hasta ao frisão (que a Rêmulo tem medo)
  614. Brande Orsíloco, espeta-o sob a orelha:
  615. Da ferida o quadrúpede impaciente,
  616. Empinado, aos corcovos, escoiceia;
  617. Vasa em terra o senhor, Catilo a Iolas
  618. Derriba, e ao forte e corpulento Hermínio,
  619. Que nu de ombros, sem elmo a flava coma,
  620. Rojões despreza, aberto afronta os golpes.
  621. Fixo na larga espádua o dardo treme;
  622. O varão se contorce e à dor se encurva.
  623. O cruor mana, estragos multiplicam;
  624. Mata-se, ou busca-se acabar com honra.
  625. De aljava, cérceo um peito, em ar Camila
  626. De Amazona, entre a clade ufana e salta;
  627. Já com pulso indefesso amiúda setas,
  628. Já pronta esgrime a válida bipene;
  629. Soa o áureo carcás, da Trívia as armas,
  630. Se o dorso alquando vira, em retirada
  631. O arco frechas alígeras despede.
  632. Tula a escolta e Larina, e érea secure
  633. A manejar Tarpéia; ítalas virgens
  634. Que, à divina senhora a corte ornando,
  635. São ministras na guerra e paz ditosa:
  636. Quais, de pintado arnês guerreiras trácias,
  637. O Termodonte as Amazonas pulsam;
  638. Ou de Hipólite em cerco, ou da mavórcia
  639. Rainha após o coche, uivando exulta
  640. Com lunados broquéis femínea turba.
  641. Quem primeiro, quem último, acre virgem,
  642. Provou teu braço irado? a quantos prostras?
  643. De Clício o filho Euneu, com longo abeto
  644. O oposto seio traspassado, arroios
  645. Vomita rubros, traga o chão cruento,
  646. Na chaga moribundo a convulsar-se.
  647. Págaso e Liris cai, um que ao varado
  648. Bruto a cambalear sustinha as rédeas,
  649. O outro ao sócio tendendo a inerme destra;
  650. A par os precipita. Ajunta o Hipótio
  651. Amastro; enrista a lança, e a Demofoonte,
  652. Cromis, Tereu e Harpálico, persegue:
  653. A moça a cada bote um varão mata.
  654. Caçador, mas bisonho, Omito assoma
  655. Em ginete iapígio; os ombros largos
  656. Lhe arreia o espólio de brigão novilho;
  657. Tem por elmo lupina ampla goela
  658. E a queixada em que alveja a dentadura;
  659. Empunha agreste chuça, e bizarreia
  660. E sobrepuja a todos. Ela o aterra
  661. Sem trabalho, as catervas derrotadas;
  662. Sobre o corpo chasqueia: “Que! Tirreno,
  663. Creste que monteavas? chega o dia
  664. Em que hasta mulheril te abata as roncas;
  665. Porém, não leve glória, aos pátrios manes
  666. Conta que a Camila às mãos sucumbes.”
  667. Rompe a Arsíloco e Butes, dois gigantes:
  668. Entre o casco e a loriga a ponta em Butes
  669. Crava, onde ao cavaleiro brilha o colo
  670. E à sestra o escudo pende; em grande giro
  671. Do outro fugir simula, e mais por dentro
  672. Corta as voltas, seguindo o que a seguia:
  673. Ei-la, alçada, a secure em armas e ossos
  674. Mete ao varão que implora, os golpes dobra;
  675. Quente no rosto o cérebro se esparge.
  676. Com ela topa, estupefato embaça
  677. Do apeninículo Auno o pugnaz filho,
  678. Lígure em tretas guapo, enquando pôde.
  679. Vendo que sem remédio era o combate,
  680. Pois que instava a rainha; ardis e astúcias
  681. Consigo meditando, assim começa:
  682. “Em ligeiro frisão, mulher, te fias?
  683. Não fujas, de mais perto em livre campo
  684. A pé vem pelejar: saberás presto
  685. A quem seja danosa a fofa glória.”
  686. Disse: ela em fúria, acesa em dor austera,
  687. Dando o ginete à sócia, a pé galharda,
  688. Ferro nu, puro o escudo, igual o espera.
  689. Ele, o dolo eficaz julgando, abala,
  690. Torce a brida na pressa, e com ferrado
  691. Calcanhar o quadrúpede esporeia.
  692. “Lígure fanfarrão, debalde ufano,
  693. As pátrias artes lúbrico tentaste;
  694. Salvo a teu pai a fraude não te renda.”
  695. Nisto, ígnea a virgem com velozes plantas
  696. Passa o cavalo, adversa o freio prende,
  697. E se despica no inimigo sangue:
  698. O sacro açor tão fácil de alta penha
  699. Adeja, empolga a remontada pomba,
  700. De unhas aduncas no ar a desentranha;
  701. Chove o cruor de cima e avulsas penas.
  702. Não descuidado olhando, o pai supremo
  703. Do Olimpo isto contempla; e, ao sevo marte
  704. O etrusco Tárchon suscitando, o irrita
  705. E estimula e exaspera. Entre a matança
  706. E as frouxas alas ei-lo a trote corre,
  707. Grita aos seus, um por um nomeia e instiga,
  708. Alenta e o prélio instaura: “Ó vis Tirrenos,
  709. Fracos sempre e insensíveis, tanta ignávia,
  710. Tal medo vos quebranta? as vossas turmas
  711. Uma mulher derrota e as afugenta.
  712. Por que o ferro cingis e empunhais lanças?
  713. Lerdos não sois de noite em cíprias lides,
  714. Ou, se aos coros vos soa a curva tíbia,
  715. Para o banquete lauto e lieus copos;
  716. Vosso amor, vosso estudo: aos bosques santos
  717. Ide, hóstia gorda e o áugur vos convida.”
  718. Então, perecedouro, o bruto pica,
  719. Túrbido aferra a Vênulo e o desmonta,
  720. Abraçado com ímpeto o arrebata.
  721. Clamor se ergue; ante os olhos dos Latinos,
  722. Tárchon fulgúreo voa, e pelo campo
  723. Leva o armado varão: quebra-lhe a choupa
  724. Da haste, e a parte esquadrinha onde lha enterre.
  725. Força ele opondo à força, renitente
  726. Sustém, repele do pescoço a destra.
  727. Quando águia fulva a surto preia a serpe,
  728. Pés nela e a garra implica, vulnerado
  729. O dragão volve as sinuosas roscas,
  730. Hirta a escama, se enrija e silva e empina-se;
  731. A águia de bico adunco urge-o lutante
  732. Mais e mais, e aleando açoita os ares:
  733. Tárchon não menos da tibúrcia presa
  734. Folga; os Meônios com o exemplo investem.
  735. Aqui, fadado à morte, o dardo em punho.
  736. À pista Arunte da veloz Camila,
  737. Catando a ocasião, por onde as turbas
  738. Furente ela penetra, cauteloso
  739. A rodeia, e por onde vencedora
  740. Do inimigo reverte, a furto o jovem
  741. Retorce tácito a ligeira brida;
  742. Esta aberta em circuito e aquela tenta,
  743. Improbo o dardo a menear certeiro.
  744. Cloreu sacro a Cibele, outrora antiste,
  745. Brilhando em frígio arnês, metia o espúmeo
  746. Ginete em obra, com xairel de pele
  747. De énea malha e áureas plumas recamado:
  748. Luz em ferrenha púrpura estrangeira,
  749. Lício o corno a vibrar cortínias frechas;
  750. Dourados arco e morrião lhe tinem;
  751. Crócea a roupa, do linho os rugidores
  752. Seios colhe em nó fulvo, e tem bordadas
  753. A túnica e as barbáricas polainas.
  754. A virgem, por que em templo insígnias tróicas
  755. Fixe, ou caçando fulja em áureo espólio,
  756. Cega após ele, sem que os mais lhe importem,
  757. Incauta se abrasava, entre as fileiras,
  758. No amor femíneo da vistosa presa.
  759. Eis que a tempo à traição dardeja Arunte,
  760. Depois que assim depreca: “Sumo Apolo,
  761. Do Soracte custódio venerado,
  762. Em cujo culto píneo ardor cevamos,
  763. E afoitos na piedade, em vivas brasas
  764. Entre a fogueira os passos imprimimos,
  765. Dá-me apagar, ó padre, a nossa injúria.
  766. Troféu não peço da prostrada virgem,
  767. Nem seus despojos, honrem-me outros feitos:
  768. Como ao golpe desta arma a dira peste
  769. Derribe, à pátria me retiro inglório.”
  770. Parte lhe ouviu do rogo o deus benigno,
  771. Parte em auras dissipa: à morte anui
  772. Da surpresa Camila, mas lhe nega
  773. Rever a excelsa pátria; e pelos notos
  774. As procelas a voz lhe dispersaram.
  775. Ao despregar da rechinante vira,
  776. Convergem todos à rainha os Volscos
  777. Túrbidos olhos. Ela não pressente
  778. O ar, o estridor, a farpa, até que à cércea
  779. Mama ferra-se a ponta e funda o sangue
  780. Virgíneo bebe. Açodem logo as sócias,
  781. Trépidas a senhora sustentando.
  782. Entre alegria e susto Arunte escapa-se;
  783. Nem mais confia em dardo, nem da virgem
  784. Arrostar ousa as lanças. Quando o lobo,
  785. Antes que os tiros chovam, por desvios
  786. Vai-se, morto o pastor ou nédio almalho,
  787. Na montanha esconder; cônscio da audácia,
  788. Pávido o rabo encolhe e as selvas busca:
  789. De evadir-se contente, assim medroso,
  790. Arunte no tropel desaparece.
  791. A haste ela a morrer saca; mas o ferro
  792. Pregado às costas fica-lhe entre os ossos.
  793. Desmaia, baça a vista, exangue e fria;
  794. Desbotam-lhe no rosto as frescas rosas.
  795. A donzela, a expirar, dos seus cuidados
  796. À confidente e mui querida fala:
  797. “Mais, Aca irmã, não posso; ao golpe acerbo
  798. Faleço, e tudo se me enoita em roda.
  799. Já, leva de Camila o final termo:
  800. Turno suceda-me, e repila os Teucros.
  801. Adeus, adeus.” E então largando as rédeas,
  802. Da sela cai; gelada a morte aos poucos
  803. Solve-lhe o corpo, lânguida a cabeça
  804. E o colo pousa, demitindo as armas;
  805. Geme e agastada a vida aos manes baixa;
  806. Súbito grita imensa atroa os astros,
  807. Mais se encruece a pugna; em mó concorrem
  808. Teucros, Tirrenos e de Evandro as alas.
  809. Mas, por Diana, há muito em celso monte
  810. Espreita Opis impávida as pelejas;
  811. E, avistando entre os jovens clamorosos
  812. Ao passamento a vítima rendida,
  813. Exclamou suspirosa: “Ai! triste virgem!
  814. De encarares o Frígio atroz castigo!
  815. Honrar a Trívia por desertos matos,
  816. Nem ombrear valeu-te aljavas nossas.
  817. Porém tua rainha em tal afronta
  818. Não sem lustre ou renome te abandona,
  819. Nem morrerás inulta. As justas penas,
  820. Quem quer que seja o temerário, pague-as.”
  821. De um teso às faldas, sob azinha opaca,
  822. Do lácio rei Derceno havia antigo
  823. De térreo acervo o mausoléu: parando
  824. O ímpeto ali, do combro a ninfa bela
  825. Pesquisa Arunte; a relumbrar tumente
  826. Como o avistou: “Vem cá; por que te afastas?
  827. Recebe de Camila os dignos prêmios.
  828. Que! vão manchar-se em ti de Febe as armas?”
  829. Disse, e do áureo carcás ligeira seta
  830. Qual Trácia tira, e infensa o corno atesa,
  831. Encurva e puxa, até que ajunta as pontas,
  832. E toca a sestra mão no ferro agudo,
  833. Na teta o nervo e a destra: simultâneo
  834. Ouve Arunte o zunido e o ar sonoro,
  835. Sente o farpão no corpo. Em mortais vascas
  836. No ignito pó gemendo, os seus o esquecem;
  837. E Opis libra-se, adeja à casa etérea.
  838. Morta a rainha, a leve turma foge;
  839. Fogem Rútulos, foge o mesmo Atinas;
  840. Chefes e esquadras, por salvar-se, ao muro
  841. Em confusão galopam destroçados.
  842. Ninguém resiste aos sitibundos Frígios
  843. E aos letíferos dardos: mal sustentam
  844. Os bambos arcos nos languentes ombros;
  845. No trote o chão pulvéreo as patas batem.
  846. Volve às muralhas túrbida caligem;
  847. E dos balcões, os peitos lacerando,
  848. Aos céus clamor femíneo as mães levantam.
  849. Os que atingem primeiro as francas portas,
  850. Baralhado o inimigo os acabrunha:
  851. Ao pátrio umbral, da morte não se evadem;
  852. Em seus lares expiram traspassados.
  853. Parte, os portões cerrando, abrir não ousa,
  854. Nem recolher os sócios que o suplicam:
  855. Dos que proíbem, dos que entrar forcejam,
  856. Nasce triste matança; atroz conflito!
  857. Os de fora, ante os pais e as mães chorosas,
  858. Uns, na ânsia, aos fossos em despenho rolam,
  859. Uns, solta a brida, no alvoroto cegos,
  860. De encontro a ombreiras e batentes marram.
  861. Camila ao verem (santo amor da pátria!),
  862. No último transe intrépidas matronas
  863. Das ameias por ferro precipitam
  864. Pértigas, fustes, achas; e as primeiras
  865. Por morrer na defensa ali se inflamam.
  866. Na emboscada porém, cruel notícia!
  867. Aca enche a Turno do tumulto ingente:
  868. Que, perdida Camila e os Volscos rotos,
  869. O hostil próspero marte arrasa tudo;
  870. Que avança o Frígio, e o medo ganha os muros.
  871. Furente (assim o quer severo Jove)
  872. O áspero cole e fauces desocupa.
  873. Extra-alcance, mal que ele os campos toca,
  874. Entra a livre espessura o padre Enéias,
  875. Supera o cume, sai da escura selva.
  876. E entre si longos passos não distando,
  877. Ambos em veloz marcha aos muros correm.
  878. Tanto que a fumear enxerga Enéias
  879. Poento o plaino e os batalhões laurentes;
  880. Turno as armas conhece e o bravo chefe,
  881. E o nitrido e o tropel dos brutos ouve.
  882. Logo a batalha e as brigas travar-se-iam,
  883. Se já no ibero ponto o róseo Febo
  884. Os cavalos cansados não tingira,
  885. Cedendo à noite o dia. Ante a cidade
  886. Assentam-se arraiais e se entrincheiram.

Nota a nota · 5 notas

v. 22–181De ferais dons ornai-me os que esta pátria, ⋯ Dos seus, usança velha, os corpos queima;
As belezas que há nestes funerais, na pintura do aio Acetes, e na do mísero Evandro que ficava sem posteridade, não se podem enumerar; é mister senti-las. Esta nota é para justificar Virgílio de duas argüições: 1° que o pio Enéias imola no túmulo de Palante alguns dos prisioneiros; 2° que ele mata, no desfecho do poema, o seu rival Turno, apesar das preces do vencido. — Quanto à primeira argüição, oponho que pius significa religioso, temente aos deuses, amante de seu pai e família; e, ainda que extensivamente signifique compassivo, a superstição e o hábito arrastavam o chefe a crer indespensável tão bárbaro sacrifício para aplacar os manes do morto. Enéias, bem que amigo da justiça, tinha as preocupações do seu tempo, e a dureza de guerreiro o assaltava também: o seu natural o levava à compaixão; a cólera, que lhe acendera a morte de Palante, emprestou-lhe a crueldade que exerceu. Virgílio certamente não aprovava esta ação; mas quis nela pintar aquele século feroz, em que os próprios homens bem formados não sabiam sopear sempre os impetos da vingança. E nós os cristãos, criados com o leite puro da vera doutrina, esclarecidos à luz do evangelho, não temos por grandes e pios, mesmo por santos, a homens que obraram pior que Enéias? Se lhes perdoamos, devemos desculpar o furor de um pagão. Repetirei o que disse em outra nota, que Enéias só foi duro depois que lhe roubaram Palante; e com tais rigores também tinha em vista aterrar e abreviar a guerra. Demais, a experiência mostra que a ira é desmedida nos que raramente são dela assaltados. — Quanto à morte de Turno, a crítica nem mereceria resposta, se não fosse tantas vezes renovada. Escolhi este lugar para a combater, por ser nele que vem a plena justificação do poeta. Enéias, acolhido pelo antigo hóspede de Anquises, tudo obtém da sua benevolência, guerreiros, cavalos, víveres, a aliança de Tárchon e dos Tirrenos: e até um filho único lhe confia Evandro, apesar dos seus tristes pressentimentos. Palante, na flor dos anos, bravo, generoso, depois de ter obrado prodígios de valor, morre às mãos de Turno, não em um encontro fortuito, mas por querer de propósito o rei dos Rútulos causar tamanha dor ao pai, e mesmo na ocasião diz que desejava ali a Evandro para testemunhar a cena. Soube-o Enéias, acusa-se de não ter precavido aquele desastre; faz ao morto um pomposo funeral, e o envia a Palantéia. Evandro solta-se em pranto; mas afinal, como se Enéias estivesse presente, rompe nestas vozes: “Se a luz nesta orfandade eu sofro, Enéias, A tua destra é causa, ao filho e ao padre Olha que deves Turno: este o serviço Que do teu brio espero e da fortuna.” E este recado é enviado ao herói troiano. Encontram-se os dois rivais, rende-se Turno, e aos seus rogos Enéias quase ia cedendo, quando vê o talim de Palante ao ombro do seu vencedor; então, lembrado das preces de Evandro e dos seus deveres para com ele, imola a Turno, dizendo-lhe que era Palante quem naquele golpe o matava. Se Enéias em tais circunstâncias lhe perdoasse, por certo obraria como um anticipado discípulo de Cristo, mas não obraria bem segundo as idéias e opiniões do seu século, e segundo as obrigações contraídas para com Evandro. Eu sublinhei o advérbio quase, porque Virgílio, que julgava ser uma necessidade para Enéias aquela morte, não diz que tivesse lugar só por causa do talim, mas que tal aparecimento lhe apagou a momentânea compaixão. Se acontecesse o contrário, então é que devia Enéias ser tido por um bom corte de frade capucho, como alguns lhe têm chamado. — Nos versos que abrange esta nota lê-se o que ele tornou em resposta aos embaixadores latinos, quando vieram pedir tréguas para enterrar os mortos: “E a paz, diz entre outras razões, quereis somente Para os da luz privados nas batalhas? Eu quereria concedê-la aos vivos.” Isto, a repugnância com que matou a Lauso, o duelo que oferece para evitar efusão de sangue, as generosas condições que propôs no caso de vencer, ao revés das de Turno e Latino, convencem da injustiça com que Mr. Amar, comparando Enéias a Aquiles, diz assim de Virgílio: “Si du moins il prêtait de temps en temps à son héros ces retours de sensibilité que l’on retrouve avec tant de plaisir dans Achille lui-même!...” De sorte que, na opinião de Mr. Amar, em Aquiles há mais toques de sensibilidade que em Enéias! E este nem de tempos a tempos a tem!!
↩ voltar à passagem, v. 22
v. 225–293Esmorece o bom velho em tanta angústia: ⋯ Ora aos deuses o rei, do trono fala:
Este pedaço, bem pouco apreciado, é um dos mais belos, e em que mais se mostra a filosofia do autor. Latino e Turno deputam Vênulo a Diomedes, pedindo-lhe auxílio contra Enéias: Diomedes recusa, e o poeta põe o elogio da paz na boca desse guerreiro, que outrora só conhecia o jus da espada, e se atreveu a acometer e ferir o próprio deus Marte. Repare-se na habilidade do poeta em o fazer tecer os louvores de Enéias, lembrando o combate que ambos tiveram, como consta da Ilíada liv. V. O que porém assinaladamente se deve aprovar, é o patriotismo com que Virgílio aproveita a ocasião de recomendar o repouso de que necessitava o seu país, depois de tantas e tão cruas guerras intestinas.
↩ voltar à passagem, v. 225
v. 300–485No étolo auxílio, o desengano chega; ⋯ “Turno, diz, se tem jus uma alma nobre
No conselho por Latino convocado, que principiou alguns versos atrás, são admiráveis os discursos do rei, de Drances, e mormente o de Turno: a prudência e o fim pacífico de um, as insinuações cavilosas e o zelo emprestado ao outro pela inveja, a força de razões e movimentos que há no terceiro, colocam Virgílio entre os mais eloqüentes oradores, que têm sabido graduar as paixões e casar a facúndia com a lógica. — Observe-se como Turno, ao anúncio de que vinha o rival sobre a cidade, por si delibera, toma todas as medidas, marcha a encontrar o inimigo. — No meio da consternação, mulheres e meninos estão defendendo os muros; e com suas damas leva dons a Minerva a rainha Amata, ao pé da qual se acha Lavínia de olhos baixos e calada. Alguns críticos, supondo que as donzelas na antiguidade eram como certas modernas, bem falantes e retóricas, a cortar em política e a decidir questões de química e mesmo de anatomia, ralham contra a introdução desta personagem muda; mas Virgílio, que melhor conhecia estas coisas do que quanto La Harpe tem havido, viu bem que a princesa, criada ao bafo materno e submissa à vontade paternal, sem ter amor a nenhum, devia sujeitar-se ao que fosse de proveito ao reino; e, se as instâncias da mãe advogavam por Turno, os desejos do pai e os oráculos, a que por sua idade e educação dava assaz peso, a punham em balança; e eram próprias da sua situação a expectativa e a neutralidade. O caráter de Lavínia, longe de ser uma falta no poeta, é mais uma prova do seu juízo.
↩ voltar à passagem, v. 300
v. 649O outro ao sócio tendendo a inerme destra;
Deste verso em diante Camila, atrás já mencionada, aparece na cena e a enche quase toda até o fim deste livro. Atente-se em que o poeta, havendo no VII descrito as outras personagens contrárias aos Troianos, menciona Camila com menos extensão: esta reserva foi calculada; porque, se ali se tivesse contado o nascimento e a educação da virgem, o leitor poderia ter esquecido essas miudezas, e ter-se-ia perdido parte do interesse da sua morte; interesse que em grande parte mana das primeiras circunstâncias da vida da heroína. Acha-se na mesma página tudo o que a torna insigne: seu nascimento, as cenas da infância, as esperanças da mocidade, sua glória, sua morte enfim, ante a qual vai tudo murchar.
↩ voltar ao verso 649
v. 689Ele, o dolo eficaz julgando, abala,
Mr. Amar deste aplauso que se dá Camila, dizendo que é honroso cair às mãos de uma heroína como ela, a justifica pelo calor da ação e pela embriaguez do triunfo. Mas acrescenta que o herói não tem a mesma excusa, porque, sendo pio, não devera (liv. X, v. 830, ou 815-816 da tradução) dizer a Lauso que era uma consolação morrer às mãos do grande Enéias. — Mas entre os guerreiros, como se vê aqui e se lê em Ossian, era consolador acabar às mãos dos bravos; e o dito de Enéias, que em outra ocasião seria uma jactância, mostra a compaixão do herói, que assim quis adoçar os derradeiros momentos de Lauso.
↩ voltar ao verso 689
↑ voltar ao topo das notas
Próximo livroXIITurno, lendo nos olhos dos Latinos