Já do oceano a aurora despontava.
886 versos · 5 notas do tradutor
- Já do oceano a aurora despontava.
- Bem que urja o tempo de inumar seus mortos
- E o turbe o funeral, no primo eôo
- Piedoso o vencedor cumpria os votos.
- Num combro tancha desramada enzinha,
- Veste-lhe de Mezêncio o arnês lustroso,
- Troféu que a ti, Belipotente, sagra:
- Os dardos rotos, as sanguentas crinas
- Lhe ata; à esquerda o pavês e a tiracolo
- Suspende a ebúrnea espada. E assim de ovantes
- Capitães escoltado, exorta os sócios:
- “Fora o temor, varões, que pouco resta
- Por fazer; eis o espólio, eis as primícias
- De um rei soberbo, que estas mãos puniram.
- Eia, a Laurento agora: arma, arma, alerta;
- Ânimo e fé! dos numes quando o aceno
- Mova o campo, as bandeiras arrancadas,
- Nem outro acordo vos detenha incautos,
- Nem retarde os mancebos frouxo medo.
- Entretanto os finados sepultemos,
- Conta exigida no ínfimo Aqueronte.
- De ferais dons ornai-me os que esta pátria,
- Comprada com seu sangue, nos legaram;
- Vá primeiro de Evandro aos tristes muros
- Palante, a quem não pobre de virtude
- Mergulhou trago acerbo em noite escura.”
- Disse e à tenda chorando se retira,
- Onde o aluno defunto Acetes guarda,
- Velho escudeiro do Parrásio Evandro,
- Zeloso aio do filho, mas não dado
- Com tão feliz auspício. A turba em cerco
- E os fâmulos em dó, conforme o estilo
- Desgrenhadas o seguem frígias donas.
- Pelos altos portões mal entra Enéias,
- Levantam crebros ais, nos peitos ferem,
- E remuge o real do luto e pranto.
- Como ele o níveo corpo, a face e a testa
- Sustida olhou, da ausônia choupa o rombo
- No seio liso, em lágrimas rebenta:
- “Pois sorriu-me a fortuna, e a mim te inveja,
- Moço infeliz, que o reino meu não visses,
- Nem tornasses em pompa ao lar paterno?
- Não foi esta a promessa a Evandro feita;
- Que abraçado, à partida, ao grande império
- Me propunha, e entre sustos me advertia
- De que era áspera a guerra e forte a gente.
- E ora talvez, debalde esperançoso,
- N’ara devoto of’rendas acumula,
- Quando ao jovem, já quite dos Supremos,
- Exéquias vãs prestamos. Desgraçado!
- O funeral cruel verás do filho!
- Que triste volta! ó sonho de triunfos!
- Eis a fé minha! Mas com vis feridas
- Não te envergonhará, nem, salva a prole,
- Tu pai desejarás o eterno sono.
- Ai! quanto, Ausônia, quanto, Iulo, perdes!”
- Neste lamento, escolhe mil guerreiros,
- Que o mísero cadáver acompanhem,
- Obséquio extremo, e às lágrimas assistam
- Do aflito pai; devida, mas pequena
- Consolação do nojo e trago ingente.
- Brando esquife engradado alguns de vergas
- De medronho e carvalho não remissos
- Tecem, de folha o estructo leito ensombram.
- Fica na agreste cama o excelso moço,
- Qual por virgíneo pólice apanhada
- Mole violeta, ou lânguido jacinto;
- A quem brilho nem cheiro inda falece,
- Mas não vigora e nutre a mãe terrena.
- Duas purpúreas opas recamadas
- Enéias tira, em que a Sidônia Dido
- Com doce esmero trabalhara mesma,
- As telas de ouro fino entretecendo:
- Mesto, em honra final, veste uma ao jovem,
- Com outra a coma para as chamas vela.
- Manda lanças, frisões e tanto espólio
- Da laurentina pugna, em longa série
- Dispor; e atrás das costas maniatados
- Os que às sombras destina e regar devem
- A pira com seu sangue; e os chefes tragam
- De hostis arneses troncos revestidos,
- Onde inimigos nomes se insculpiram.
- Conduzem de anos gasto o pobre Acetes,
- Que a punhadas o peito, o rosto a unhas
- Desfigurando, pelo pó se estira.
- Vem do rútulo sangue o tinto coche;
- E atrás, posto o jaez, úmidas gotas
- Eton, fero corcel, dos olhos verte.
- Vem o elmo e a lança; o mais roubou-lhe Turno.
- Lento a falange marcha etrusca e teucra,
- De armas em funeral o arcádio bando.
- Dês que em ordem se alonga o saimento,
- Retém-se Enéias, e suspira e geme:
- “A outros prantos nos chama a fatal morte.
- Salve, exímio Palante, e para sempre,
- Adeus, amigo, adeus!” Nem mais profere,
- E aos arraiais tornando o passo alarga.
- Já de oliva enramados oradores
- Latinos pedem vênia, a fim que esparsos
- Corpos sepultem, vítimas da guerra;
- Que a não tenha com mortos e vencidos;
- Poupe os hóspedes seus, outrora sogros.
- Bom Enéias atende às justas preces:
- “Que ruim fado, acrescenta, nesta lide
- Vos implicou, Latinos, que de amigos
- Nos renegais? E a paz quereis somente
- Para os da luz privados nas batalhas?
- Eu quereria concedê-la aos vivos.
- A não ser o destino, eu cá não vinha;
- Nem a gente combato. Ao jus de hospício
- Preferiu vosso rei de Turno as armas.
- Turno é melhor que à morte se expusera:
- Se expulsar-nos pretende, o pleito acabe
- Num duelo comigo; e um de nós reste
- A quem seu nume ajude ou seu denodo.
- Sus, à fogueira os cidadãos mesquinhos.”
- Disse: absortos se olhando mudos ficam;
- E o velho Drances, que odiento e infesto
- Sempre a Turno crimina: “Ó tu, responde,
- Varão maior que a fama, como te alças?
- Não sei que mais te louve ou mais admire,
- Se o valor, se a justiça? Iremos gratos
- Na pátria o publicar, e, dado o ensejo,
- Ao rei te unir: alianças busque-as Turno.
- Altear apraz-nos a fatal cidade,
- Troianas pedras carregar aos ombros.”
- Finda, e um consenso unânime sussurra.
- Doze dias, em tréguas, juntos vagam
- Por monte e selva os Teucros e os Latinos:
- Da bipene o alto freixo ao corte soa;
- Tomba o aéreo pinheiro; as cunhas racham
- De contino orno, roble, odoro cedro;
- Ao carrear chiando as rodas andam.
- E a Fama já, que apregoava há pouco
- De Palante as ações, do imenso luto
- Enche Evandro e de Evandro a casa e os muros.
- O Arcádio às portas rui, e ao modo avito
- Pega brandões, que ao longo a via aclaram;
- A procissão funérea os agros fende,
- Co’a turba frígia encontra-se em lamentos.
- As mães, vendo-os entrar, com pranto lúgubre
- Toda a cidade acendem. Nada a Evandro
- Pôde conter; atira-se no meio;
- Sobre o deposto féretro curvado,
- Se abraça com Palante, e geme e chora,
- Até que a dor à fala abriu caminho:
- “Filho, a palavra assim me desempenhas
- De entregares-te cauto ao cru Mavorte!
- No primeiro certame eu bem sabia
- Quanto o louvor é doce e a nova glória.
- Tristes primícias, rudimentos duros
- Da finítima guerra! ai! preces minhas,
- Votos por nenhum deus jamais ouvidos!
- Oh! no morrer feliz, mui casta esposa,
- Não provas este mal! Sobrei-te em anos
- Para carpir extinto o nosso filho!
- De hostis lanças coberto, eu dera est’alma
- Sob os sócios pendões! Fosse esta pompa
- Só para mim, não para ti, Palante!
- Vossa aliança e hospício eu não arguo;
- Sorte era, ó Teucros, da velhice minha:
- Mas, se imaturo cai, mil Volscos mata,
- Ao Lácio vos guiando, honrado acaba.
- Mais digno enterro não terás, meu filho,
- Do que Enéias celebra, e seus magnatas,
- E etruscos chefes, e esquadrões etruscos:
- Dos que enviaste ao Orco os troféus trazem.
- Também grã tronco em armas cá serias,
- Se idade igual à tua o roborasse,
- Turno. Mas que! pranteio e a pugna tardo?
- Frígios, o que lhe digo ao rei contai-o:
- Se a luz nesta orfandade eu sofro, Enéias,
- A tua destra é causa, ao filho e ao padre
- Olha que deves Turno: este o serviço
- Que do teu brio espero e da fortuna.
- Gostos na vida enjeito, nem me assentam;
- Sim, no inferno os receba o meu Palante.”
- Almo lume a verter, o albor canseiras
- Renovava aos mortais. Na curva praia
- Em piras cada qual, Enéias, Tárchon,
- Dos seus, usança velha, os corpos queima;
- Na caligem dos fogos sotopostos
- Se enoita o céu. Três vezes decorrendo
- A infantaria, em fulgurantes armas,
- A rogal chama fúnebre circula;
- Três a cavalaria; e ululam todos:
- O choro arneses banha, a terra ensopa;
- Grita, clangor, mugindo os ares fere.
- Uns lançam na fogueira o ganho espólio,
- Guarnecidas espadas, elmos, freios,
- Rodas ferventes; uns, de oferta aos donos,
- Os broquéis notos e infelizes dardos.
- Hecatombes à morte, para a queima
- Cerdos e nos contornos apanhada
- Imolam grei: na praia arder observam,
- Em suas piras semi-ardidas velam
- Sem despegar-se, até que úmida a noite
- Inverte o céu de estrelas marchetado.
- Nem menos tristes os Latinos erguem
- Fogueiras mil; dos seus enterram parte,
- Levam parte à cidade e às vizinhanças:
- Em confuso montão, sem conto e nome,
- É consumido o vulgo. Ao longe e ao largo
- À competência os fogos alumiam.
- Manhã terceira assoma; e, de altas cinzas
- Doídos removendo os mistos ossos,
- Terra sobre eles tépida amontoam.
- Mas na opulenta laurentina corte
- O alarido é maior, mais geme o luto.
- Mães, irmãs, noras, órfãos miseráveis,
- Ferrenha guerra aflitos execrando
- E os himeneus de Turno, exigem que ele
- No Lácio a primazia à espada obtenha.
- Drances agrava o caso, e atesta e jura
- Que Turno a desafio é só chamado.
- Muito a favor de Turno opinam vários:
- Da rainha o respeito e a sombra o amparam;
- Seu renome e troféus o herói sustentam.
- Neste flagrante, em meio do alvoroto,
- Do grã Diomedes pesarosos voltam
- Com respostas os legados: nada as preces,
- Nada os custos valeram da embaixada,
- Nem dons nem ouro; ou busque outra aliança,
- Ou paz rogue Latino ao rei troiano.
- Esmorece o bom velho em tanta angústia:
- Que o céu protege a Enéias lhe confirmam
- Irados numes, frescos os sepulcros.
- Chama a conselho os principais senhores,
- Que logo, ao seu mandado, enchendo as ruas
- Ao paço afluem. Do seu trono o digno
- Ancião monarca, não com leda fronte,
- Aos legados acena, e inquire e indaga
- Com toda a pausa a etólica resposta.
- Reina o silêncio, e Vênulo obedece:
- “Nós vimos, cidadãos, o argivo assento,
- E, da jornada os riscos superando,
- A mão tocámos que assolou Dardânia.
- Ele no apúlio Gárgano Argiripa,
- Cognome pátrio, vencedor fundava.
- Quando a vez tive, os dons lhe oferecendo,
- Quem éramos declaro, e a guerra e causa
- De em Arpo nos acharmos. Com sossego
- Nos torna o Grego: — “Ó reinos de Saturno,
- Priscos Ausônios, venturosos povos!
- Que fado a concitar vos solicita
- Ignotas guerras? Quantos profanámos
- Com ferro Tróia (os transes nela exaustos
- Omito, e os que em si volve aquele Simois)
- Pelo orbe temos pago infandas penas,
- Tais que Príamo próprio as lastimara:
- Minerva o testemunhe, o Arcturo infausto,
- O ultrice Cafareu, de Eubéia as penhas.
- Dali, de praia em praia desterrados,
- Menelau de Proteu foi ter às metas,
- Aos Ciclopes trinácrios o Laércio.
- De Pirro e Idomeneu subversos lares,
- Ou lembrarei na Líbia assentes Locros?
- De vingar n’Ásia um rapto ufano o Atrida
- Rei dos reis, por traição da atroz consorte,
- Cai do adúltero ao ferro em seu palácio.
- E o céu não me invejou rever a pátria
- E a bela Calidona e a cara esposa?
- Hoje inda monstros hórridos me assombram:
- Perdidos sócios (ai cruéis suplícios!)
- Nos ares voam-me, aves da ribeira,
- Com flébeis guinchos nos cachopos vagam.
- Isto eu prever devia, mal que insano
- Corpos violei divinos, golpeando
- A destra a Vênus mesma. A tais pelejas
- Não me instigueis, oh! não. Dês que assolada
- Pérgamo foi, com Teucros nem combato,
- Nem me recordo ou folgo desses males.
- Os dons que me ofertais rendam-se a Enéias.
- Com ele dardo a dardo e braço a braço,
- Provei, crede, quão lesto o escudo move,
- Com que vórtice esgrime ou gládio ou lança.
- No Ida se dois varões como ele houvesse,
- Dardânia acometera ináquias plagas,
- Trocara a Grécia os louros em ciprestes.
- Em Tróia pertinaz susteve os Graios,
- Durante o assédio, a mão de Heitor e Enéias,
- Que a vitória dez anos retardaram:
- Ambos no ânimo iguais, iguais no esforço,
- Mais pio esse é. Tratai de congraçá-lo,
- E fugi de travar armas com armas.” —
- Eis a real sentença, ó rei sublime,
- Sobre tamanha guerra.” Disse; e corre
- No conselho um murmúrio, como quando,
- Seixos detendo o arrebatado rio,
- No álveo ronca impedido, e em torno fremem
- Da ribanceira as crepitantes ondas.
- Quedo o alvoroço e plácido o sussurro,
- Ora aos deuses o rei, do trono fala:
- “Eu, cidadãos, queria, e melhor fora
- Antes deliberar; não quando os muros;
- Preme o inimigo. Inoportuna guerra
- Temos com tais varões, com diva estirpe,
- A quem prélios nem cansam, nem vencidos
- Sabem depor o ferro. Se estribáveis
- No étolo auxílio, o desengano chega;
- Fie em si cada qual: fraca esperança!
- Como em ruína as coisas nos declinam,
- Vossos olhos o vêem, as mãos o apalpam.
- Ninguém acuso: obrou-se o mais possível;
- Em peso o reino se bateu brioso.
- O que hei na dúbia mente, agora em pouco
- Vo-lo explano; atenção. Próximo ao Tibre,
- Sobre as sicanas raias, para o ocaso,
- Agro antigo possuo; o qual semeiam
- Os Rútulos e Auruncos, e as colinas
- Arando, em pasto o mais estéril deixam.
- Esta região e o celso píneo monte
- Ceda-se ao Teucro; e, justas leis ditadas,
- Em amizade e em paz nos federemos.
- Se o quer, fique e entre nós se estabeleça;
- Mas, se outra gente, outro país prefere,
- E ir-se daqui, naus vinte ou mais teçamos
- De ítalo sobro, as que precisas forem:
- Madeira jaz à borda; eles prescrevam
- Pontal, número, forma; nós prestemos
- Dinheiro, arsenais, braços. E oradores
- Cem dentre os nobres deputar me agrada;
- Que, nas mãos a oliveira, em brinde ofertem
- Marfim, talentos de ouro, e a trábea e a sela
- Curul, do reino insígnias. Em consulta,
- Provede ao bem do combalido estado.”
- Drances, a quem de Turno a glória punge
- De vesga e amara inveja, em bens profuso,
- Mais largo em língua, timorato e imbele,
- Não mau no alvitre, em sedições potente,
- De incerto pai, da ilustre mãe soberbo;
- Se ergue, e em Turno carrega e incita as iras:
- “Coisa, ó bom rei, suades nada obscura,
- E escusas consultar. O que insta e cumpre
- Cada um murmura, e expô-lo não se atreve.
- Falar conceda, e a tumidez remita
- Quem, por funesto auspício, ambicioso
- (Digo, e armado ele a morte me comine)
- Extinguiu tantos cabos, e a cidade
- E o povo enluta; enquanto, em pés fiado,
- Tenta o frígio arraial e aterra o mundo.
- Aos dons que ao Teucro, ótimo rei, prodigas,
- Um acrescentes, um; ninguém violento
- Vede ao pai dar a filha a genro egrégio,
- Em laço eterno e honroso a paz segures.
- Se é tanto o susto, humildes o obtestemos,
- Peçamos vênia; à pátria e ao rei se digne
- O jus nosso outorgar. Autor de angústias,
- Por que impeles o Lácio a tais perigos?
- Infausta guerra! a paz queremos, Turno;
- O inviolável penhor a paz confirme.
- E eu, que a ti crês infenso (o que ora passo),
- Eu te suplico para os teus piedade;
- Cessa, e repulso vai-te. Assaz matanças,
- Vimos assaz os campos desolados.
- Ou, se a fama te pica e ínsito esforço,
- Em dote se esta régia obter anseias,
- Ousa, ao rival te afoites peito a peito;
- Nem, para que a princesa espose Turno,
- Nós, vil turba insepulta e ilagrimada,
- O agro junquemos! Tu, se o pátrio brio
- Te anima e alenta, provocado arrosta-o.”
- De Turno arde a violência a tais dictérios;
- Do imo suspira, em cólera trasborda:
- “Sempre em frases abundas, quando a guerra
- Pede obras, Drances; nos debates primas.
- Conter mal pode a cúria essas bravatas,
- Que, entrincheirado a salvo, te borbolham,
- Enquanto em sangue os fossos não se inundam.
- Toa a usual facúndia: eu sou cobarde,
- Sim; tu Frígios em pilha amontoaste,
- Mil troféus as façanhas te assinalam.
- Teu vivido valor provar te cumpre:
- É não longe o inimigo, os nossos muros
- Em roda assalta; vamos encontrá-lo.
- Como! tardas? ou sempre tens Mavorte
- Nessa balofa língua e fugaz planta?
- Eu repulso! há, vilão, quem tal me assaque?
- Será quem viu de sangue o Tibre inchar-se,
- Quem de Evandro abatida a estirpe e casa,
- O Árcade profligado? Certo Bícias
- Não me argüirá, nem Pândaro e milhares
- Que, na trincheira hostil encurralado,
- Mandei num dia à Estige vitorioso.
- Infausta a guerra? ao capitão dardânio
- E a ti, louco, esse agouro. Embrulha, espanta,
- Nem cesses de exaltar os bi-cativos
- E deprimir as armas de Latino.
- Do Frígio ora estremecem Mirmidones,
- Tidides ora e o Larisseu Aquiles;
- O Aufido o curso adríaco desanda!
- Finge o manhoso que de mim se teme,
- Com seu medo falaz me azeda o crime.
- Nunca, descansa, mancharei meu braço;
- Num peito more torpe essa alma indigna.
- Volto-me, ó padre, agora aos teus projetos.
- Se não tens confiança em nossas armas,
- Se não muda a fortuna, e uma derrota
- Nos destrói e nos perde sem regresso,
- Paz roguemos, tendendo inermes destras:
- Bem que oh! se nos restasse o brio antigo,
- Feliz na morte fora e o mais egrégio
- Quem, por não vê-lo, o pó mordeu caindo.
- Mas, por nós frescas tropas se inda temos,
- Florentes povos de ítalas cidades;
- Se com tormenta igual de sangue e estragos
- Também veio aos Troianos a vitória,
- Por que à primeira ignavos desmaiamos?
- Trememos antes que a trombeta soe!
- Do tempo o vário andar melhora as coisas:
- A muitos, que iludiu, fortuna instável
- Repôs em firme estado. Se Arpo etólia
- O nega, auxílio nos darão Messapo
- E o próspero Tolúmnio, e os tantos cabos
- De possantes nações; nem glória escassa
- Aguarda a flor do Lácio e de Laurento;
- E Camila pugnaz, de ilustres Volscos,
- Turmas luzidas move e eqüestres forças.
- Desafiado, apraz que eu só combata
- Em proveito comum? não se me esquiva
- Tanto a vitória, que intentada enjeite
- Essa esperança. Um próprio Aquiles seja,
- Vista e maneje o herói vulcânias armas,
- Contra animoso irei. Somenos Turno
- A nenhum dos avós, te voto, ó pátria,
- E sagro esta alma. Enéias só me chama?
- Chame, eu peço. Nem antes pague-o Drances,
- Caso que o céu funesto se nos torne;
- Nem sua intrepidez nos tire a palma.”
- Entre a dúbia contenda, o campo Enéias
- Levanta e marcha. Um núncio alvoroçado
- Corre ao paço, e a Laurento enche de susto:
- Que o teucro e tusco exército em batalha
- Desce do Tibre, invade-se a campanha.
- Turba-se o vulgo, os peitos se conturbam,
- Não leve estímulo os furores cresce:
- Armam-se à pressa, o moço armado freme,
- Lamenta e rosna o velho; os ares fere
- O discorde multíplice alarido:
- Al não sucede, se voláteis bandos
- Pousam no bosque, ou soam do piscoso
- Pado em loquazes tanques roucos cisnes.
- Turno o instante aproveita: “É bem, consócios,
- Reuni conselho, a paz louvai sentados;
- Eles de assalto ruam.” Nem mais disse;
- Larga impetuoso a régia: “Tu, Voluso,
- Volscas esquadras prestes, guia os Rútulos;
- Messapo, e vós irmãos Catilo e Coras,
- Derramai na planície os cavaleiros;
- Parte as entradas guarde e ocupe as torres;
- A mais hoste me siga.” Eis da cidade
- Corre-se aos muros. O conselho o mesmo
- Latino pai suspende, e seus projetos
- Nesta consternação tristonho adia:
- Muito se acusa de não ter a Enéias
- Por genro aceito e associado ao reino.
- Pedras e estrepes carretam, fossos cavam:
- Roncam buzinas o cruento a l’arma.
- O muro, em vários grupos, lance extremo!
- Coroaram matronas e meninos.
- Dádivas, de Minerva ao celso alcáçar,
- Com suas damas a rainha leva;
- E ao pé, submissos os decoros olhos,
- Vai, do mal causa insonte, a virgem filha.
- As mães da comitiva o templo incensam,
- Espargem do limiar carpidas vozes:
- “Deusa da guerra, armipotente Palas,
- Quebra ao frígio ladrão tu mesma a lança,
- Prostrado o abate, às portas o destroça.”
- Turno fogoso aos prélios se aparelha:
- Já rútula coiraça eri-escamosa
- Veste horrente, e nas pernas grevas de ouro,
- Inda nu da cabeça, a espada à cinta,
- Do castelo, fulgindo, alegre pula,
- E na idéia o triunfo se afigura:
- Como, o cabresto quando enfim rebenta,
- Livre o cavalo o aberto campo goza;
- Ou vai-se ao pasto e às éguas; ou, do rio
- Noto o banho, se deita à funda veia,
- A cerviz a entonar, viçoso rincha,
- Brincam-lhe as crinas pelo colo e espáduas.
- Vem Camila encontrá-lo, e descavalga
- Às portas a rainha, antes que o façam
- As volscas turmas, que depois a imitam.
- “Turno, diz, se tem jus uma alma nobre
- De em si crer, de arrostar eu só te fico
- Ílias coortes, cavaleiros tuscos.
- Estrear me permite a guerra e os transes;
- Tu defende as muralhas a pé firme.”
- Turno olhos fixa na tremenda virgem:
- “Que assaz graças te posso, honra de Itália,
- Aqui render? mas, que já que a tua audácia
- Tudo excede, comigo os riscos parte.
- Enéias, como espias mo confirmam,
- Cavalaria avança que ligeira
- Bata a campanha, e de ermos e árduos montes
- Contra a cidade se despenha astuto:
- Traço estar de emboscada em curvo atalho,
- Soldadesca cercando as fauces bívias.
- Tu, juntos os pendões, cai nos Tirrenos;
- O acre Messapo e as tiburtinas hostes
- E as do Lácio terás: comanda em chefe.”
- Volto a Messapo, o exorta e os cabos todos,
- E em busca do conflito o passo aperta.
- Apto ao bélico dolo, um vale inflexo,
- Negra espessura o encerra; onde uma trilha
- Por estreita garganta a custo guia.
- Jaz de cima num cume, a cavaleiro,
- Planura ignota, abrigo retirado,
- Quer tentes atacar à destra e à sestra,
- Quer volver do cabeço enormes galgas.
- Lá chega o jovem por sabidas sendas,
- E de atalaia está na iníqua selva.
- Entretanto Latônia à veloz Opis,
- Do seu virgíneo coro uma das ninfas,
- Lá no Olimpo sentida assim falava:
- “Camila, a quem mais prezo, à cruel guerra
- Parte, cingida em vão das armas nossas;
- Nem, Opis, este amor veio improviso
- Obrar com doce estímulo em Diana.
- Metabo, de Priverno antiga expulso
- Por ódio e prepotência, entre os conflitos
- Salva a trouxe do exílio companheira,
- Tenra menina; com mudança pouca,
- Da mãe Casmila a nomeou Camila.
- Com ela ao colo por desertos soutos,
- Longínquos serros, circunfusos Volscos
- A persegui-lo a dardos o oprimiam.
- Da fuga em meio, as nuvens desabando,
- Eis o Amaseno aluvioso espuma:
- Quis nadar, mas temendo se reteve
- Pela querida carga. Em si revolve,
- E decide-se enfim: na mão robusta
- Guerreiro tinha, de tostado sobro,
- Rija e nodosa lança; embrulha a filha
- Num cortiço, acomoda e a liga n’hástia;
- E, com força a librá-la, assim depreca:
- “Alma virgem Latônia, a ti, cultora
- Dos bosques, eu seu pai t’a voto serva;
- Súplice na tua arma ei-la que foge
- Do inimigo; recebe-a, deusa, é tua,
- Eu t’a encomendo pelas dúbias auras.”
- Disse, e o bucho contrai, o hastil contorce:
- Brame o rio; a infeliz por cima voa
- No estridente arremesso. Então Metabo,
- Urgido mais e mais, se entrega às águas;
- Da relva, em que a depôs, na lança a virgem
- Arranca vencedor. Nem teto ou muro
- O acolheu, nem as mãos altivo dera:
- Solitário pastor vivia em brenhas;
- E ali, criando a filha em gruta brava,
- De égua armental às tetas, lhe mungia
- Ferino leite nos mimosos lábios.
- Mal que a pino a menina as plantas firma,
- Dardo agudo pejando-lhe as mãozinhas,
- Pendura-se-lhe ao ombro aljava e arco;
- Por áurea coifa, por comprido manto,
- Às costas lhe descai tigrina pele:
- Já frechas pueris brincando joga,
- Da cabeça em redor volteia a funda,
- Grou derriba estrimônio ou branco cisne.
- Nora a desejam muitas mães tirrenas;
- Mas, dedicada a Febe, amor eterno
- Rende às setas pudica e à virgindade.
- Oh! se belaz não provocasse os Teucros,
- E ora me fosse companheira cara!
- Sus, ninfa, já que a preme atroz destino,
- Do pólo baixa manso onde os Latinos
- Pugnam com sestro agouro. Ouve, e do coldre
- Ultriz frecha prepara: Ítalo ou Frígio,
- Quem quer que a vulnerar sagrada e bela,
- Com seu sangue mo pague. Em nuvem cava
- Trarei não desarmada a miseranda,
- Por que em pátrio jazigo a deposite.“
- Não mais; e ela, em nublado escuro envolta,
- Pelas auras sonoras se desliza.
- Mas já Teucros e Etruscos se apropínquam,
- Toda a cavalaria em turmas certas:
- Freme o sonípede, a pular garboso,
- E aqui virado e ali, reluta ao freio;
- Hórrida em férrea messe, arde a campina.
- Com os latinos céleres Messapo,
- E Coras com o irmão, Camila e os Volscos,
- Aparecendo opostos, longe vibram
- Zargunchos e hastas, retraindo os braços:
- De homens ferve o tropel, relinchos fervem.
- A tiro, as hostes ambas fazem alto:
- Rompe a cuquiada, incitam-se os cavalos;
- Granizam como neve espessos dardos,
- Que o céu tornam sombrio. Em riste as lanças.
- Tirreno e Acônteo acérrimo ruidosos
- Se investem logo, e os brutos se abalroam
- Peito com peito: sacudido Acônteo,
- Qual por trabuco o peso, ou como raio,
- Se precipita, e no ar a vida esparge.
- Turbam-se; e, adargas para trás virando,
- Os Latinos de trote aos muros voltam.
- No alcance, o bravo Asilas quase às portas
- Leva os Troas; e, em grita os colos dóceis.
- Revirando o inimigo, à rédea solta
- Por turno retrocedem: não diverso
- Da maré que, alternada, ou rola às terras,
- E os cachopos orvalha, espuma e ronca,
- Té lavar sinuosa a extrema areia;
- Ou, ressorvidos os revoltos seixos,
- Na ressaca lambendo às praias foge,
- Ora, o Toscano ao Rútulo rechaça,
- Ora o broquel também lhe ampara as costas;
- Mas, no terceiro choque, barba a barba
- Travam geral batalha: em ais e em gritos
- Varões, corcéis morrendo, e corpos e armas
- Em sangue rodam, n’áspera carnagem.
- A hasta ao frisão (que a Rêmulo tem medo)
- Brande Orsíloco, espeta-o sob a orelha:
- Da ferida o quadrúpede impaciente,
- Empinado, aos corcovos, escoiceia;
- Vasa em terra o senhor, Catilo a Iolas
- Derriba, e ao forte e corpulento Hermínio,
- Que nu de ombros, sem elmo a flava coma,
- Rojões despreza, aberto afronta os golpes.
- Fixo na larga espádua o dardo treme;
- O varão se contorce e à dor se encurva.
- O cruor mana, estragos multiplicam;
- Mata-se, ou busca-se acabar com honra.
- De aljava, cérceo um peito, em ar Camila
- De Amazona, entre a clade ufana e salta;
- Já com pulso indefesso amiúda setas,
- Já pronta esgrime a válida bipene;
- Soa o áureo carcás, da Trívia as armas,
- Se o dorso alquando vira, em retirada
- O arco frechas alígeras despede.
- Tula a escolta e Larina, e érea secure
- A manejar Tarpéia; ítalas virgens
- Que, à divina senhora a corte ornando,
- São ministras na guerra e paz ditosa:
- Quais, de pintado arnês guerreiras trácias,
- O Termodonte as Amazonas pulsam;
- Ou de Hipólite em cerco, ou da mavórcia
- Rainha após o coche, uivando exulta
- Com lunados broquéis femínea turba.
- Quem primeiro, quem último, acre virgem,
- Provou teu braço irado? a quantos prostras?
- De Clício o filho Euneu, com longo abeto
- O oposto seio traspassado, arroios
- Vomita rubros, traga o chão cruento,
- Na chaga moribundo a convulsar-se.
- Págaso e Liris cai, um que ao varado
- Bruto a cambalear sustinha as rédeas,
- O outro ao sócio tendendo a inerme destra;
- A par os precipita. Ajunta o Hipótio
- Amastro; enrista a lança, e a Demofoonte,
- Cromis, Tereu e Harpálico, persegue:
- A moça a cada bote um varão mata.
- Caçador, mas bisonho, Omito assoma
- Em ginete iapígio; os ombros largos
- Lhe arreia o espólio de brigão novilho;
- Tem por elmo lupina ampla goela
- E a queixada em que alveja a dentadura;
- Empunha agreste chuça, e bizarreia
- E sobrepuja a todos. Ela o aterra
- Sem trabalho, as catervas derrotadas;
- Sobre o corpo chasqueia: “Que! Tirreno,
- Creste que monteavas? chega o dia
- Em que hasta mulheril te abata as roncas;
- Porém, não leve glória, aos pátrios manes
- Conta que a Camila às mãos sucumbes.”
- Rompe a Arsíloco e Butes, dois gigantes:
- Entre o casco e a loriga a ponta em Butes
- Crava, onde ao cavaleiro brilha o colo
- E à sestra o escudo pende; em grande giro
- Do outro fugir simula, e mais por dentro
- Corta as voltas, seguindo o que a seguia:
- Ei-la, alçada, a secure em armas e ossos
- Mete ao varão que implora, os golpes dobra;
- Quente no rosto o cérebro se esparge.
- Com ela topa, estupefato embaça
- Do apeninículo Auno o pugnaz filho,
- Lígure em tretas guapo, enquando pôde.
- Vendo que sem remédio era o combate,
- Pois que instava a rainha; ardis e astúcias
- Consigo meditando, assim começa:
- “Em ligeiro frisão, mulher, te fias?
- Não fujas, de mais perto em livre campo
- A pé vem pelejar: saberás presto
- A quem seja danosa a fofa glória.”
- Disse: ela em fúria, acesa em dor austera,
- Dando o ginete à sócia, a pé galharda,
- Ferro nu, puro o escudo, igual o espera.
- Ele, o dolo eficaz julgando, abala,
- Torce a brida na pressa, e com ferrado
- Calcanhar o quadrúpede esporeia.
- “Lígure fanfarrão, debalde ufano,
- As pátrias artes lúbrico tentaste;
- Salvo a teu pai a fraude não te renda.”
- Nisto, ígnea a virgem com velozes plantas
- Passa o cavalo, adversa o freio prende,
- E se despica no inimigo sangue:
- O sacro açor tão fácil de alta penha
- Adeja, empolga a remontada pomba,
- De unhas aduncas no ar a desentranha;
- Chove o cruor de cima e avulsas penas.
- Não descuidado olhando, o pai supremo
- Do Olimpo isto contempla; e, ao sevo marte
- O etrusco Tárchon suscitando, o irrita
- E estimula e exaspera. Entre a matança
- E as frouxas alas ei-lo a trote corre,
- Grita aos seus, um por um nomeia e instiga,
- Alenta e o prélio instaura: “Ó vis Tirrenos,
- Fracos sempre e insensíveis, tanta ignávia,
- Tal medo vos quebranta? as vossas turmas
- Uma mulher derrota e as afugenta.
- Por que o ferro cingis e empunhais lanças?
- Lerdos não sois de noite em cíprias lides,
- Ou, se aos coros vos soa a curva tíbia,
- Para o banquete lauto e lieus copos;
- Vosso amor, vosso estudo: aos bosques santos
- Ide, hóstia gorda e o áugur vos convida.”
- Então, perecedouro, o bruto pica,
- Túrbido aferra a Vênulo e o desmonta,
- Abraçado com ímpeto o arrebata.
- Clamor se ergue; ante os olhos dos Latinos,
- Tárchon fulgúreo voa, e pelo campo
- Leva o armado varão: quebra-lhe a choupa
- Da haste, e a parte esquadrinha onde lha enterre.
- Força ele opondo à força, renitente
- Sustém, repele do pescoço a destra.
- Quando águia fulva a surto preia a serpe,
- Pés nela e a garra implica, vulnerado
- O dragão volve as sinuosas roscas,
- Hirta a escama, se enrija e silva e empina-se;
- A águia de bico adunco urge-o lutante
- Mais e mais, e aleando açoita os ares:
- Tárchon não menos da tibúrcia presa
- Folga; os Meônios com o exemplo investem.
- Aqui, fadado à morte, o dardo em punho.
- À pista Arunte da veloz Camila,
- Catando a ocasião, por onde as turbas
- Furente ela penetra, cauteloso
- A rodeia, e por onde vencedora
- Do inimigo reverte, a furto o jovem
- Retorce tácito a ligeira brida;
- Esta aberta em circuito e aquela tenta,
- Improbo o dardo a menear certeiro.
- Cloreu sacro a Cibele, outrora antiste,
- Brilhando em frígio arnês, metia o espúmeo
- Ginete em obra, com xairel de pele
- De énea malha e áureas plumas recamado:
- Luz em ferrenha púrpura estrangeira,
- Lício o corno a vibrar cortínias frechas;
- Dourados arco e morrião lhe tinem;
- Crócea a roupa, do linho os rugidores
- Seios colhe em nó fulvo, e tem bordadas
- A túnica e as barbáricas polainas.
- A virgem, por que em templo insígnias tróicas
- Fixe, ou caçando fulja em áureo espólio,
- Cega após ele, sem que os mais lhe importem,
- Incauta se abrasava, entre as fileiras,
- No amor femíneo da vistosa presa.
- Eis que a tempo à traição dardeja Arunte,
- Depois que assim depreca: “Sumo Apolo,
- Do Soracte custódio venerado,
- Em cujo culto píneo ardor cevamos,
- E afoitos na piedade, em vivas brasas
- Entre a fogueira os passos imprimimos,
- Dá-me apagar, ó padre, a nossa injúria.
- Troféu não peço da prostrada virgem,
- Nem seus despojos, honrem-me outros feitos:
- Como ao golpe desta arma a dira peste
- Derribe, à pátria me retiro inglório.”
- Parte lhe ouviu do rogo o deus benigno,
- Parte em auras dissipa: à morte anui
- Da surpresa Camila, mas lhe nega
- Rever a excelsa pátria; e pelos notos
- As procelas a voz lhe dispersaram.
- Ao despregar da rechinante vira,
- Convergem todos à rainha os Volscos
- Túrbidos olhos. Ela não pressente
- O ar, o estridor, a farpa, até que à cércea
- Mama ferra-se a ponta e funda o sangue
- Virgíneo bebe. Açodem logo as sócias,
- Trépidas a senhora sustentando.
- Entre alegria e susto Arunte escapa-se;
- Nem mais confia em dardo, nem da virgem
- Arrostar ousa as lanças. Quando o lobo,
- Antes que os tiros chovam, por desvios
- Vai-se, morto o pastor ou nédio almalho,
- Na montanha esconder; cônscio da audácia,
- Pávido o rabo encolhe e as selvas busca:
- De evadir-se contente, assim medroso,
- Arunte no tropel desaparece.
- A haste ela a morrer saca; mas o ferro
- Pregado às costas fica-lhe entre os ossos.
- Desmaia, baça a vista, exangue e fria;
- Desbotam-lhe no rosto as frescas rosas.
- A donzela, a expirar, dos seus cuidados
- À confidente e mui querida fala:
- “Mais, Aca irmã, não posso; ao golpe acerbo
- Faleço, e tudo se me enoita em roda.
- Já, leva de Camila o final termo:
- Turno suceda-me, e repila os Teucros.
- Adeus, adeus.” E então largando as rédeas,
- Da sela cai; gelada a morte aos poucos
- Solve-lhe o corpo, lânguida a cabeça
- E o colo pousa, demitindo as armas;
- Geme e agastada a vida aos manes baixa;
- Súbito grita imensa atroa os astros,
- Mais se encruece a pugna; em mó concorrem
- Teucros, Tirrenos e de Evandro as alas.
- Mas, por Diana, há muito em celso monte
- Espreita Opis impávida as pelejas;
- E, avistando entre os jovens clamorosos
- Ao passamento a vítima rendida,
- Exclamou suspirosa: “Ai! triste virgem!
- De encarares o Frígio atroz castigo!
- Honrar a Trívia por desertos matos,
- Nem ombrear valeu-te aljavas nossas.
- Porém tua rainha em tal afronta
- Não sem lustre ou renome te abandona,
- Nem morrerás inulta. As justas penas,
- Quem quer que seja o temerário, pague-as.”
- De um teso às faldas, sob azinha opaca,
- Do lácio rei Derceno havia antigo
- De térreo acervo o mausoléu: parando
- O ímpeto ali, do combro a ninfa bela
- Pesquisa Arunte; a relumbrar tumente
- Como o avistou: “Vem cá; por que te afastas?
- Recebe de Camila os dignos prêmios.
- Que! vão manchar-se em ti de Febe as armas?”
- Disse, e do áureo carcás ligeira seta
- Qual Trácia tira, e infensa o corno atesa,
- Encurva e puxa, até que ajunta as pontas,
- E toca a sestra mão no ferro agudo,
- Na teta o nervo e a destra: simultâneo
- Ouve Arunte o zunido e o ar sonoro,
- Sente o farpão no corpo. Em mortais vascas
- No ignito pó gemendo, os seus o esquecem;
- E Opis libra-se, adeja à casa etérea.
- Morta a rainha, a leve turma foge;
- Fogem Rútulos, foge o mesmo Atinas;
- Chefes e esquadras, por salvar-se, ao muro
- Em confusão galopam destroçados.
- Ninguém resiste aos sitibundos Frígios
- E aos letíferos dardos: mal sustentam
- Os bambos arcos nos languentes ombros;
- No trote o chão pulvéreo as patas batem.
- Volve às muralhas túrbida caligem;
- E dos balcões, os peitos lacerando,
- Aos céus clamor femíneo as mães levantam.
- Os que atingem primeiro as francas portas,
- Baralhado o inimigo os acabrunha:
- Ao pátrio umbral, da morte não se evadem;
- Em seus lares expiram traspassados.
- Parte, os portões cerrando, abrir não ousa,
- Nem recolher os sócios que o suplicam:
- Dos que proíbem, dos que entrar forcejam,
- Nasce triste matança; atroz conflito!
- Os de fora, ante os pais e as mães chorosas,
- Uns, na ânsia, aos fossos em despenho rolam,
- Uns, solta a brida, no alvoroto cegos,
- De encontro a ombreiras e batentes marram.
- Camila ao verem (santo amor da pátria!),
- No último transe intrépidas matronas
- Das ameias por ferro precipitam
- Pértigas, fustes, achas; e as primeiras
- Por morrer na defensa ali se inflamam.
- Na emboscada porém, cruel notícia!
- Aca enche a Turno do tumulto ingente:
- Que, perdida Camila e os Volscos rotos,
- O hostil próspero marte arrasa tudo;
- Que avança o Frígio, e o medo ganha os muros.
- Furente (assim o quer severo Jove)
- O áspero cole e fauces desocupa.
- Extra-alcance, mal que ele os campos toca,
- Entra a livre espessura o padre Enéias,
- Supera o cume, sai da escura selva.
- E entre si longos passos não distando,
- Ambos em veloz marcha aos muros correm.
- Tanto que a fumear enxerga Enéias
- Poento o plaino e os batalhões laurentes;
- Turno as armas conhece e o bravo chefe,
- E o nitrido e o tropel dos brutos ouve.
- Logo a batalha e as brigas travar-se-iam,
- Se já no ibero ponto o róseo Febo
- Os cavalos cansados não tingira,
- Cedendo à noite o dia. Ante a cidade
- Assentam-se arraiais e se entrincheiram.