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EneidaLivro V
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Firme o herói já dirige ao meio a frota

896 versos · 23 notas do tradutor


  1. Firme o herói já dirige ao meio a frota,
  2. Com o Aquilão talhando as negras vagas;
  3. Olha atrás, e da pobre Elisa os muros
  4. Em chamas vê luzindo. A causa os Teucros
  5. De tanto incêndio estranham; mas conhecem
  6. O amor poluto como dói, o que ousa
  7. Femínea raiva, e triste agouro tiram.
  8. Some-se a terra aos empegados lenhos,
  9. Tudo é céu, tudo é mar; torvo negrume
  10. Sobre as cabeças borrascoso pesa,
  11. E horrenda espessa treva enoita as ondas.
  12. Té lá da popa o cauto Palinuro:
  13. “Hui! que feia tormenta enluta o pólo!
  14. Tu que ameaças, Netuno?” Disse, e a tolda
  15. Manda desempachar, pôr peito aos remos;
  16. Mete à orça, e voltou-se: “Ínclito Enéias,
  17. Nem que mo afirme Jove, eu não prometo
  18. C’um tempo destes abordar a Itália.
  19. De través salta o vento, engrossa e ruge
  20. Do atro Vésper, e o ar se enubla e densa.
  21. Nem agüentar-nos nem surdir podemos:
  22. Quer e acena a fortuna, ora de rumo
  23. Toca a mudar. Não longe as d’Erix julgo
  24. Fraternas praias, a fiel Sicânia,
  25. Se os remedidos astros não me iludem.”
  26. A quem Enéias: “Claro observo há muito
  27. Que o pede o vento, e por demais resistes:
  28. Ronda e curva o caminho. Onde mais doce
  29. As lassas naus refocilar me fora
  30. Que no grato país do tróico Acestes,
  31. Dos ossos de meu pai jazigo amado?”
  32. Zéfiro, então servindo, o pano atesa:
  33. Por vagalhões a frota ao porto voa,
  34. E alegre enfim atraca à nota areia.
  35. De excelso cume enxerga os sócios vasos,
  36. Admira a vinda, e em pele de ursa líbia
  37. E em dardos ouriçado, acorre Acestes.
  38. Que em mãe teucra o gerou Crimiso rio
  39. Não lhe esquece: os parentes que ali tornam
  40. Gratulando consola, e com refrescos,
  41. Lhana agreste abundância, acolhe e trata.
  42. O albor os astros mal do eôo expulsa,
  43. De toda a praia os seus convoca Enéias,
  44. E de elevado combro assim lhes fala:
  45. “Dos deuses prole, ó Dárdanos sublimes,
  46. A anual volta os meses completaram,
  47. Dês que as relíquias de meu pai divino,
  48. Fúnebre altar sagrando, sepultámos.
  49. Se não erro, eis o dia (ó céu, quiseste-o)
  50. Sempre agro para mim, sempre solene.
  51. Fosse eu nas sirtes Gétulas banido,
  52. No seio Argólico e em Micenas preso,
  53. Celebrara com pompa o aniversário,
  54. De aceitos votos cumulando as aras.
  55. Não, dos deuses não foi sem providência
  56. Esta nossa arribada a porto amigo:
  57. Junto às cinzas de Anquises nos achamos.
  58. Eia, a memória sua honremos todos:
  59. Peçamos-lhe bom vento, e em novos muros
  60. Templos dicar me outorgue, onde cad’ano
  61. Estes meus sacrifícios lhe ofereça.
  62. Duas reses por nau vos dá benigno
  63. O hóspede e sangue nosso: os pátrios divos
  64. Convidai para a festa, e os que ele adora.
  65. E, se arraiando o mundo a nova aurora,
  66. Limpo o dia trouxer, proporei jogos,
  67. Pela esquadra ligeira começando:
  68. Ouem ágil tenha o pé, quem destro e forte,
  69. Ou tire o dardo e a seta, ou mais se atreva
  70. A cru cesto brigar, nenhum se exima;
  71. Devido prêmio cada qual espere.
  72. Orai, silêncio! as frontes enramai-vos.”
  73. Cessa, e velou-se do materno mirto;
  74. Helimo, o ancião Trinácrio, o moço Ascânio
  75. Fê-lo, e a mais juventude. Infindo povo,
  76. Mesto cortejo da assembléia o seguem
  77. Para o sepulcro. Ali de mero baco,
  78. Libando em regra, jarras duas vasa,
  79. Duas de leite fresco, cheias duas
  80. De cruor sacro, e esparge rubras flores:
  81. “Salve, disse, alma santa, ó sombra salve,
  82. Cinzas do caro pai, que em vão recobro!
  83. Contigo não me coube entrar na Itália,
  84. Gozar desse fatal ausônio Tibre.”
  85. Súbito, em roscas sete e sete giros,
  86. Sai do imo penetral vultosa cobra;
  87. Mansa o túmulo abraça, pelas aras
  88. Lúbrica resvalando: azul o dorso,
  89. A maculada escama em áureas pintas
  90. Fulgura acesa; o arco assim nas nuvens
  91. Toma do oposto Sol mil várias cores.
  92. Dela Enéias pasmou. Desenrolando-se
  93. Entre os copos serpeia e lisas taças,
  94. E, iguarias e altares delibados,
  95. Busca o túmulo e inócua se recolhe.
  96. Incerto se é de Anquises a ministra,
  97. Se o gênio do lugar, mais fervoroso
  98. Ao pai renova as honras: cinco ovelhas
  99. Bimas conforme ao rito, cinco porcos,
  100. Tergi-nigrantes corta almalhos cinco;
  101. Vinhos das copas verte, e a alma evoca
  102. E do Aqueronte os remetidos manes
  103. Do grande genitor. Segundo as posses,
  104. Ninguém se escusa: as aras espontâneos
  105. De dons oneram, vítimas derribam;
  106. As caldeiras em fila outros colocam,
  107. Ou, na relva espalhados, em brasidos
  108. Viram espetos e as entranhas assam.
  109. Alvo o dia anelado já conduzem
  110. De Faetonte os cavalos; e os vizinhos
  111. O ruído alvoroça, e o claro nome
  112. De Acestes: quais por ver o herói e os sócios,
  113. Quais prontos ao certame, a praia inundam.
  114. Láureas no médio circo se alardeiam,
  115. Trípodes sacras, preciosas palmas
  116. Aos vencedores; vestes purpurinas,
  117. Talentos de ouro e prata, e ricas armas:
  118. D’alto apregoa a tuba e os ludos canta.
  119. O páreo encetam com pausado remo
  120. Quatro cascos irmãos, da frota eleitos.
  121. Mnesteu, que de Ítalo o apelido teve,
  122. Mnesteu, de Mêmio tronco, a veloz Pristis
  123. Com acre chusma; e a grã Quimera Gias
  124. Manda, móbil cidade e mole imensa,
  125. Que os Teucros jovens de concerto impelem,
  126. Com três aclamações às três pancadas
  127. Da voga desferida: autor Sergesto
  128. Dos nobres Sérgios, na Centauro ingente;
  129. E na azul Cila embarca-se Cloanto,
  130. Que é, Romano Cluêncio, a origem tua.
  131. Contra a espumosa praia, além demora
  132. Penedo, que submerso, enquanto o hiberno
  133. Cauro os astros esconde, o açoitam vagas
  134. Túmidas: calmo o tempo, adormecido
  135. Cala, e da imóvel onda um campo surge,
  136. De apriscos mergulhões jucundo pouso.
  137. Lá de frondente azinho o padre aos nautas
  138. Pôs verde meta, que o regresso marque,
  139. Depois de em longo cerco o tornearem.
  140. Regra os postos a sorte; e à popa alçados,
  141. Ostro e ouro trajando, os cabos fulgem.
  142. De choupo engrinaldada, a mais companha
  143. Nus reluzindo em óleo ostenta os ombros:
  144. Abancam-se, estirando ao remo os braços
  145. E ouvidos ao sinal; da ânsia de glória,
  146. Do afogo e susto, os corações latejam.
  147. Ao clangor da trombeta, ei-los despedem;
  148. Os ares fere a náutica alarida;
  149. Revolto o mar ao retrair dos buchos,
  150. De iguais sulcos trilhado, alveja e ferve,
  151. Dos remos todo e dos tridentes rostros
  152. Convulso e hiante. Em bíjugo certame,
  153. Carros do cárcere precipitados
  154. Na liça menos desenvolto rodam;
  155. Nem tanto aurigas, aos fogosos tiros
  156. Undantes loros sacudindo, pendem
  157. Pronos a verberar. Do estrondo e aplauso,
  158. Do parcial favor consona o bosque:
  159. O eco, nas praias côncavas rolando,
  160. Repulsado retumba nos outeiros.
  161. Entre os vivas da turba, avante Gias,
  162. Primeiro escoa-se: ao depois Cloanto,
  163. Melhor de remo, se o pinho o retarda
  164. Ronceiro. À cola, a Pristis e a Centauro
  165. Competem no marchar: vence ora a Pristis,
  166. Ora a Centauro; ou pares, frente a frente,
  167. Aram com buco extenso os vaus salgados.
  168. Aproximam-se à meta, e ao pé do escolho,
  169. Já no perau, o dianteiro Gias
  170. Grita ao piloto: “À destra assim me empuxas?
  171. Anda a bombordo; a pá que rasque as penhas;
  172. Abeira a praia: quem quiser se amare.”
  173. Ordens vãs; teme o velho oculto banco,
  174. Desvia ao largo a proa. “Onde, Menetes,
  175. Onde ao revés te vais? À esquerda, às pedras!”
  176. Gias brama e rebrama; e olha a Cloanto,
  177. Que interno, à sestra, forcejando o aperta;
  178. Que entre as sonantes lages e a Quimera
  179. Desliza, e a meta súbito pospondo,
  180. O pretere, e em mais fundo vai nadando.
  181. Nos ossos arde ao moço a dor violenta,
  182. Não sem água nas faces; e esquecido
  183. De si, do comum risco, o frouxo mestre
  184. D’alta popa despenha, e salta ao leme:
  185. Piloto, os nautas exortando, o clavo
  186. Às praias torce. A custo acima veio
  187. Menetes já pesado; e, gotejando
  188. O mádido vestido, à roca trepa,
  189. E em seco ali se assenta. A rapazia
  190. Riu do seu tombo, do mergulho e nado,
  191. Riu das salsas golfadas que alijava.
  192. Atrás, Mnesteu, Sergesto aqui se inflamam,
  193. A Gias contam superar moroso.
  194. Junto ao cachopo, não com todo o casco,
  195. Sergesto avança; em parte só, que em parte
  196. O cerra com seu beque emula a Pristis.
  197. Mnesteu de banco em banco a gente incita:
  198. “Forçai-me a voga, Hectóreos verdadeiros,
  199. Que de Tróia escolhi no extremo arranco:
  200. Mostrai-me agora o brio, o alento agora,
  201. Qual nas Líbicas sirtes, qual no Jônio,
  202. Qual do Málea em correntes impulsoras.
  203. Mnesteu já pela palma não contende:
  204. Oh! se eu... primem, Netuno, os teus mimosos.
  205. Ser derradeiro, amigos, é vergonha:
  206. Poupai-nos o labéu.” Quem mais, se afanam
  207. Deitados sobre o remo; aos vastos golpes
  208. Retreme a brônzea popa, o chão subtrai-se;
  209. Crebro o anélito abala os membros todos,
  210. E as bocas seca; em bica o suor mana.
  211. O acaso trouxe o lanço a que aspiravam:
  212. Acostado Sergesto, avante a proa
  213. Cose à rocha, e abocando um passo estreito,
  214. Ai! que em recife pretendido pega.
  215. Ao choque ronca a pedra, e numa ostreira
  216. Pontuda os remos se estribando estralam;
  217. Contusa a proa suspendeu-se. Em gritos
  218. Consurge, pára a chusma, e os croques safa
  219. E agudas varas; os partidos remos
  220. Do pego apanha. Então, com mais veemência,
  221. Ledo Mnesteu os ventos convocando,
  222. Certa e basta a remada, ao som das ondas,
  223. Fácil no aberto pélago decorre.
  224. Qual a pomba, que aninha em oca lapa
  225. Seus doces ovos, salteada ao campo
  226. Foge, e ao sair com a asa dá medrosa
  227. Rijo encontrão no teto; e escorregando
  228. Pela fluida via, o ar sereno
  229. Rasa, nem move as expeditas penas:
  230. Tal Mnesteu, com tal ímpeto, enfiada
  231. Pelas últimas águas, voa a Pristis.
  232. Já deixa às lutas no rochedo e alfaques
  233. A Sergesto, que auxílio em vão clamando,
  234. A andar aprende com lascados remos.
  235. Presto a Gias se bota, e a nau possante
  236. Cede, que está sem mestre. Só lhe falta
  237. Quase no fim Cloanto, em cujo alcance
  238. Urge com sumo afinco. Esperta a grita,
  239. Aura geral o instiga a lhe dar caça,
  240. E ribomba o fragor no espaço etéreo.
  241. Uns raivam de perder o ganho e as honras,
  242. Trocam pela vitória a própria vida;
  243. Alenta os outros o sucesso: podem,
  244. Porque julgam poder. E compartiram
  245. Parelhos esporões talvez o prêmio,
  246. Se em rogos solto, ao ponto as mãos tendidas,
  247. A si Cloanto os numes não chamasse:
  248. “Ó deuses, cujo império equóreo trilho,
  249. Voto alegre imolar-vos nestas praias
  250. Branco touro, e entornando castos vinhos
  251. As entranhas verter no salso argento.”
  252. Disse: e o coro de Forco e das Nereidas
  253. De baixo o atende, e Panopéia virgem;
  254. Té do ancião Portuno o braço grande
  255. O empurra: mais que Noto ou leve xara,
  256. A nau se lança à terra, e o porto ganha.
  257. Ao povo o Anquíseo, com pregões do estilo,
  258. Então proclama vencedor Cloanto,
  259. Venda-lhe a fronte com virente louro;
  260. De prata um mor talento às naus, de mimo.
  261. Três novilhos à escolha e vinhos manda;
  262. Com dons especiais distingue os chefes.
  263. Ao vencedor, orlando-a recamada
  264. Púrpura melibéia em dois meandros,
  265. Áurea clâmide anexa: inda na tela
  266. Régio menino, sôfrego, açodado,
  267. No Ida selvoso os despedidos cervos
  268. Corre e a dardo os fatiga; e lá nas garras
  269. Altaneira às estrelas o arrebata
  270. A armígera de Jove; embalde as palmas
  271. Velhos aios levantam, contra as auras
  272. Dos galgos o ladrar se assanha embalde.
  273. Ao segundo em valor, de fina malha,
  274. Que o decore e defenda, auritrílice
  275. Loriga dá, que a Demoleu vencido
  276. Ante o rápido Simois, de Ílio às abas,
  277. O herói tirou: multíplice a textura,
  278. Mal carregavam-na ajoujados pajens
  279. Sagaris e Fegeu; com ela o dono
  280. Punha em vil fuga os Troas. O terceiro
  281. Dois caldeirões de cobre e umas navetas
  282. De prata obteve com gentis relevos.
  283. Já se ia cada qual soberbo e rico,
  284. De puníceos listões bandada a fronte,
  285. Quando apenas Sergesto, à força de arte
  286. Do sevo escolho despegado, a barca,
  287. De remos falha, um bordo raso e débil,
  288. Traz inglório entre vaias. Qual serpente,
  289. Se no lombo da estrada a colhe oblíqua
  290. Ênea roda, ou com seixo grave a esmaga,
  291. Deixando-a semi-morta, o viandante;
  292. Fugindo em vão se torce em largos orbes;
  293. Parte feroz sibila, incende os olhos,
  294. Altiva empina o colo; manca em parte
  295. Pelo golpe, retém-se, e enovelada
  296. Em seus membros se implica e se revolve:
  297. Tal vogando a nau tarda se movia;
  298. Mas, cheio o pano, à vela a foz remonta.
  299. Salvos navio e gente, alegre Enéias
  300. A Sergesto não falta: a Cressa Fóloe,
  301. Perita escrava em obras de Minerva,
  302. Doa-lhe, e os gêmeos filhos que amamenta.
  303. Findo o jogo, a relvado ameno vale,
  304. Que outeiros fecham curvos e frondosos,
  305. Passa Enéias: milhares o acompanham
  306. Ao circo teatral que entremeava,
  307. E, a turba acomodada, o herói se assenta.
  308. Com dons que expõe de preço, excita a quantos
  309. Certar queiram na rápida carreira.
  310. Mistos concorrem Teucros e Sicanos:
  311. Primeiros Niso e Euríalo, este em verde
  312. Juventude e beleza, aquele insigne
  313. Do moço em pio amor; depois, Diores,
  314. Priâmeo garfo egrégio; e logo Sálio
  315. Com Patron, um Tegeu de arcádio sangue,
  316. De Acarnânia o segundo; e os de Trinácria
  317. Jovens monteiros, Hélimo e Panopes,
  318. Que assíduos ao bom velho a selva batem;
  319. E muitos que sepulta escura fama.
  320. Deles o herói cercado: “Ouvi-me atentos,
  321. Folgai, mancebos; que nenhum sem prêmio
  322. De mim se irá: de assacalado ferro
  323. A cada um darei dois gnósios piques,
  324. E de entalhos de prata uma bipene.
  325. Terão de flava oliva ornada a fronte
  326. Os vencedores três: guardo ao primeiro
  327. Magnífico ginete ajaezado;
  328. Ao outro, cheia de treícias frechas
  329. Uma aljava amazônia, à qual circula
  330. Boldrié largo de ouro, e ata fivela
  331. De arredondada gema; o derradeiro
  332. Com este argólico elmo vá contente.”
  333. Todos postados, ao sinal que escutam,
  334. Solto chuveiro, à despedida rompem,
  335. Do ponto pelo corro se desparzem,
  336. Olhos fitos na meta. Os contendores
  337. Transpõe Niso, e ligeiro deslumbrando
  338. Excede os ventos e do raio as asas.
  339. Segue-o, mas com larguíssimo intervalo,
  340. Sálio. Não longe, Euríalo é terceiro.
  341. Hélimo é quarto. Próximo Diores
  342. Arranca, e ao ombro a vezes se lhe encosta,
  343. Roça-o de ilharga, artelho com artelho:
  344. E houvesse espaço, avante escapulira,
  345. Ou balançara ao menos a vitória.
  346. Quando ao termo afrontados se apropínquam,
  347. Niso escorrega dos novilhos mortos
  348. No cruor que a verdura e o chão molhara.
  349. Já de vencida e ovante, o infeliz moço,
  350. Titubando-lhe os pés, de bruços tomba
  351. Sobre o sagrado sangue e esterco imundo.
  352. Mas não lhe esquece Euríalo querido:
  353. A resvalar se erguendo, a Sálio opõe-se,
  354. Que tropeça e revolto jaz na areia.
  355. Salta Euríalo; e, graças à amizade,
  356. Voa o primeiro com ruidoso aplauso.
  357. Vence Hélimo em segundo, e alfim Diores.
  358. A amplidão da platéia atroa Sálio,
  359. Perante os padres reclamando a glória
  360. Que se lhe rouba. A Euríalo defende
  361. Geral favor, e as lágrimas decoras,
  362. E a virtude mais bela em gentil corpo.
  363. Gritando o apoia com fervor Diores,
  364. Que, último vindo, a palma não consegue,
  365. Se conferem a Sálio as mores honras.
  366. Decide Enéias: “Sossegai, mancebos,
  367. Que do triunfo a ordem não se altera:
  368. Compadecer me caiba o insonte amigo.”
  369. E a Sálio dá velosa e de áureas unhas,
  370. A de um leão numídio ingente pele.
  371. Niso aqui: “Dos vencidos que resvalam
  372. Se hás dó tamanho, a Niso o que reservas,
  373. Que, a não ter ao de Sálio igual desastre,
  374. Merecera a coroa e a primazia?”
  375. E ao falar mostra a cara e os membros torpes
  376. De atra sangueira. O padre riu benigno,
  377. E um, que do umbral sagrado de Netuno
  378. Os Danaos despregaram, trazer manda
  379. Broquel didimaônio, obra excelente
  380. Com que brinda e compensa o moço egrégio.
  381. Quando os cursos termina e os dons reparte:
  382. “Agora quem valor no peito encerra
  383. Sus, os braços levante, as mãos ligadas.”
  384. Então propõe dois prêmios da peleja:
  385. De ouro coberto e fitas, um novilho
  386. Ao vencedor; fino elmo e fina espada,
  387. Ao vencido conforto. Sem demora
  388. Dares, entre murmúrios e alvoroto,
  389. Sai a terreiro, válido e robusto:
  390. É quem soía combater com Páris:
  391. E a Butes giganteu, que vir de Amico,
  392. Rei de Bebrícia, invicto blasonava,
  393. Junto à campa do excelso Heitor ferindo,
  394. Moribundo o estendeu na fulva areia.
  395. Tal o campeão se ostende: espadaúdo,
  396. Alta a cabeça, alterno os braços tesos
  397. Esgrime, e açoita os ares com punhadas.
  398. Buscam-lhe um contendor: nenhum de tantos
  399. Ousa contra o varão travar dos cestos.
  400. Triunfo pois cantando, aos pés de Enéias
  401. Ficou; sem mais detença, ao touro os cornos
  402. Da esquerda ferra e diz: “Se a contrastar-me
  403. Ninguém, filho da deusa, aqui se afouta
  404. Que me retém? que espero? O touro ordena
  405. Me conduzam.” Nos seus lavra um sussurro,
  406. Querem que se lhe entregue. Eis volto Acestes
  407. A Entelo ao pé sentado em leito ervoso,
  408. Turvo o acoima e aguilhoa: “Ó dos antigos
  409. Tu fortíssimo herói, sofres, Entelo,
  410. Que prêmios tais se levem sem combate?
  411. Onde Erix, nosso deus, frustrado mestre,
  412. Onde o renome teu, que enche a Trinácria,
  413. E os cem troféus que nos salões penduras?”
  414. “O medo, retorquiu-lhe, o amor da glória
  415. Não me embotou; mas tardo gela o sangue,
  416. E o vigor se me esfria e se entorpece.
  417. A me assistir a idade em que ora ufano
  418. Confia esse arrogante, eu sim viera,
  419. Não do preço movido ou guapo touro:
  420. De interesses não curo.” E nisto à praça
  421. Dois cestos arrojou desmesurados,
  422. Que o bravo Erix nos prélios maneava,
  423. No duro tergo os braços enlaçando.
  424. Tudo enfiou: de bois sete amplos coiros
  425. Reforçava cosido o ferro e o chumbo.
  426. Dares é que mais pasma e até recusa:
  427. O bizarro Anquisíades sopesa,
  428. Volve a enleada massa e vulto enorme.
  429. “Quanto mais, torna o velho, se alguém visse
  430. Os de Hércules tremendo, e a luta infausta
  431. Sobre esta mesma praia! Ei-las, Enéias,
  432. Do teu valente irmão contempla as armas,
  433. De cérebro e de sangue inda com laivos.
  434. Com elas arrastou-se ao próprio Alcides;
  435. Servi-me eu delas, quando me aquecia
  436. O verdor, nem velhice porfiosa
  437. Pelas fontes esparsa branquejava.
  438. Mas se rejeita o Frígio as armas nossas,
  439. Com Enéias se aprova o autor Acestes,
  440. Não temas, renuncio os coiros D’Erix;
  441. Despe esses teus: iguale-se a contenda.”
  442. Do ombro dúplice capa então desprende,
  443. Desnuda a ossada, as juntas e os lagartos;
  444. Musculoso e nervudo está na arena.
  445. Cestos iguais presenta o Anquísio padre,
  446. E ata-os às palmas de ambos. Sobre os dedos
  447. Cada qual se endireita, e no ar os pulsos
  448. Vibra intrépido e firme. Árdua a cabeça
  449. Do vulnífico aceno atrás afastam;
  450. Misturam mãos com mãos, e a pugna incitam.
  451. Um por moço é ligeiro; outro é forçoso,
  452. Grande e membrudo, mas dos joelhos frouxo,
  453. Tardo e tremente, a vastidão lhe agita
  454. Egro anelar. Muita ferida baldam,
  455. Muita no lado côncavo amiúdam;
  456. Os peitos aos varões harto rouquejam;
  457. O punho erra por fontes, por ouvidos;
  458. Ao crebro áspero embate os queixos ringem.
  459. Afincado num posto, o grave Entelo
  460. Aos tiros vigilante o corpo furta.
  461. Dares, como quem bate uma alta praça,
  462. Ou rouqueiro castelo opugna e cerca,
  463. Por esta aberta e aquela, o assalta e urge;
  464. Frustra os tentames, os ardis malogra.
  465. Minaz Entelo se alça, e a destra brande;
  466. O outro prevendo o sobranceiro bote,
  467. Num salto o esquiva: Entelo pelas auras
  468. Derrama as forças, por si mesmo em terra
  469. Com o vasto peso mais pesadamente
  470. Rui, como em cimos do Ida ou no Erimanto
  471. Desraigado baqueia oco pinheiro.
  472. Frígios, Trinácrios, êmulos consurgem;
  473. Monta o clamor ao céu; primeiro acode
  474. E ergue Acestes com pena o eqüevo amigo.
  475. Sem perturbá-lo a queda, o herói mais agro
  476. Volta impávido à luta, e a ira o esforça;
  477. Pejo, cônscio valor o abrasa, e ardendo
  478. Rápido pelo campo acossa a Dares:
  479. Ora a destra, ora a esquerda os golpes dobra.
  480. Nem respiro, nem pausa: qual nos tetos
  481. Saltão granizo crepitando chove,
  482. Tal com uma e outra mão basta pancada
  483. Desfecha, e traz num vórtice o contrário.
  484. Que o furor se encrueça, e Entelo em sanha
  485. Mais se exaspere, o padre o não consente:
  486. À pugna se interpondo, ao moído jovem
  487. Salva, e o mitiga assim: “Que insânia a tua!
  488. Triste! um poder não sentes sobre-humano?
  489. Cede ao nume.” E falando a briga aparta.
  490. Fiéis sócios com Dares, que a nutante
  491. Cabeça e os fracos joelhos mal sustendo,
  492. Mistos coalhado sangue e dentes cospe,
  493. Vão-se às naus; advertidos, com a espada
  494. O elmo tomando, a rês e a palma deixam
  495. Ao vencedor, que altivo se ufaneia:
  496. “Olhai, de Vênus filho, e vós Troianos.
  497. O que eu seria em moço, e a morte certa
  498. De que o livrastes.” Pára, em se afrontando
  499. Ao touro, prêmio seu, que em pé se tinha,
  500. Libra-se a prumo, atrás retira a destra,
  501. Entre os cornos assenta os duros cestos,
  502. Quebra-lhe o crânio, o cérebro esmigalha:
  503. Prostra-se, arca e no chão se estira o boi.
  504. Sobre ele o herói exclama: “Em vez do Frígio
  505. Melhor te sagro est’alma; os cestos, Erix,
  506. E a arte vitorioso aqui reponho.”
  507. Já, com dons, a quem jogue a seta alada
  508. Convida Enéias; faz que a gente erija
  509. Do baixel de Seresto um mastro, e apensa
  510. Do tope num cordel volante pomba,
  511. Alvo dos tiros. Os varões concorrem,
  512. E em brônzeo capacete as sortes lançam:
  513. Começou pelo Hirtácio Hipocoonte
  514. Com ruidoso favor; Mnesteu seguiu-se,
  515. Mnesteu que inda cingia a verde oliva
  516. Do certame naval; saiu terceiro
  517. Seu irmão Euricion, Pândaro exímio,
  518. Que, mandado a romper outrora os pactos,
  519. Contra os Aqueus a vira disparaste:
  520. Do elmo ficou no fundo o velho Acestes,
  521. Que lidas juvenis tentar ousava.
  522. Com ânsia cada qual seu fléxil arco
  523. Forte encurva, e da aljava o tiro apronta.
  524. Primeiro o Hirtácio, o nervo rechinando,
  525. Zimbra agilíssimo as volúveis auras,
  526. E no fronteiro mastro a ponta ferra:
  527. Treme a árvore, assustada esvoaça a pomba,
  528. E em roda estronda o aplauso. Árdego e lesto,
  529. Arma o lanço Mnesteu, põe alto a mira,
  530. Olhos estende e a seta: ah! que não pôde
  531. Na ave tocar; do pé só quebra os fios
  532. De que inexa pendia: ela adejando
  533. Por entre notos e negrumes foge.
  534. Mas, prestes e embebida a frecha tendo,
  535. Invocando Euricion fraterno auxílio,
  536. Fita a que o céu fendendo aleia e exulta,
  537. E sob a nuvem bruna a encrava: a pomba
  538. Cai morrendo, e nos astros larga a vida,
  539. E traz caindo a farpa atravessada.
  540. Resta Acestes sem palma; e o tiro aos ventos,
  541. Do arco sonoro e de arte gloriando,
  542. Enfim remete. Aqui súbito ocorre
  543. Monstro e agouro espantoso, que o futuro
  544. Vindo aclarar, terrífícos os vates
  545. Tarde o cantaram; pois que ardeu, voando,
  546. E ígneo sulco traçou na etérea via
  547. A haste arundínea, e em ar se esvaiu tênue:
  548. Qual se descrava a estrela, o céu transcorre,
  549. E no vôo inflamada arrasta o crino.
  550. Frígio ou Trinácrio, estáticos de assombro,
  551. Levantam preces: nem repulsa o aviso,
  552. Mas a Acestes abraça o herói prestante,
  553. Largo o premeia, e ajunta: “Aceita, ó padre,
  554. Senão da sorte, por insigne auspício
  555. Do sumo rei do Olimpo, esta esculpida
  556. Cratera, deixa do longevo Anquises;
  557. Gage, com que o prendou Cisseu de Trácia,
  558. De amizade e lembrança.” E às fontes o orna
  559. De verde louro, vencedor o aclama:
  560. Sem ciúme Euricion, que só das nuvens
  561. A ave precipitou, de grado acede.
  562. Entra o que o nó desfez próximo em honras;
  563. Último, a frecha quem pregou no tronco.
  564. Inda os certames não despede Enéias;
  565. Chama a Epítides; aio e companheiro
  566. Do impube Iulo, e diz-lhe à puridade:
  567. “Anda; e Ascânio, se instruto o eqüestre ludo
  568. E os meninos já tem, que as turmas guie,
  569. E em memória do avô se mostre em armas.”
  570. Dali faz que esvazie o infuso povo,
  571. E haja campo. Ante os pais, medindo o passo,
  572. Por igual em cavalos enfreados
  573. Os meninos relumbram. Surpreendida
  574. Freme a sicana e teucra mocidade.
  575. Do uso os coroa tonsa rama: trazem
  576. Dois hastis de corniso em férreas choupas,
  577. E alguns ao ombro aljavas luzidias;
  578. Retorcida lhes desce áurea cadeia,
  579. Do colo ao peito em círculo flexível.
  580. Três as turmas, três chefes as percorrem;
  581. Sob cada chefe doze cavaleiros
  582. Bizarreiam, fulgindo em sua esquadra.
  583. Uma folga, ó Polites, de que a reja
  584. O teu Príamo, herdeiro de um tal nome,
  585. Que há de a Itália aumentar: cavalga em trácio
  586. Ginete bicolor de brancas malhas,
  587. Que a mão calça de branco, e fero ostenta
  588. Branca silva na testa. O guia é de outra,
  589. Caro ao menino Iulo, Átis menino,
  590. Átis o tronco dos Latinos Átios.
  591. Mais que todos formoso, o lindo Ascânio
  592. Trota postremo num corcel fenício,
  593. Que em monumento e prova de ternura
  594. Deu-lhe a cândida Elisa. O resto monta
  595. Em trinácrios frisões do velho Acestes.
  596. Pávidos marcham; dos avós retratos,
  597. Com júbilo os aviva o tróico aplauso.
  598. Depois que alegres ante os seus campeiam,
  599. Prontos à senha, Epítides gritando
  600. Longe o flagelo estala. A par desfilam,
  601. Formam-se em corpos três, e à voz dos cabos
  602. Infestas lanças, desandando, enristam.
  603. Carreiras a carreiras contrapondo,
  604. Voltas impedem com trocadas voltas;
  605. Baralham-se em renhida escaramuça,
  606. De um conflito arremedo: ora dão costas,
  607. Ora atacam de frente; ou, pazes feitas,
  608. Levam-se emparelhados. N’alta Creta
  609. O labirinto, é fama que o teciam
  610. Paredes cegas, mil dolosas ruas
  611. De incompreendido error, que inextricável
  612. Enganados vestígios transviava:
  613. Não com diverso enredo embaraçada,
  614. A prole teucra folgazã correndo,
  615. Fugas urde e pelejas; como a nado,
  616. No úmido pélago os delfins brincando,
  617. Ondas carpátia e líbica retalham.
  618. Ao munir Alba-longa, estes Ascânio
  619. Cursos, torneios, quais jogou na infância,
  620. No prisco Lácio introduziu: de Albânia
  621. Transmitiram-se a Roma; e Roma augusta
  622. Em honra avita os guarda: o jogo Tróia,
  623. O pueril esquadrão se diz Troiano.
  624. Ao divo padre a festa ia findar-se:
  625. Instável a fortuna então falseia.
  626. Durante os ludos fúnebres Satúrnia
  627. Envia à tróica armada Íris celeste,
  628. Com ventos a aligeira, e em cem projetos
  629. A inveterada queixa não sacia.
  630. Pelo arco multicor, de golpe a virgem
  631. Ganha um declive atalho; atenta invisa
  632. Tropel tão basto, e vê, lustrando as praias,
  633. Deserto o porto, abandonada a frota.
  634. Lá sós, em borda escusa, o morto Anquises
  635. As Troades choravam, e o profundo
  636. Ponto olhavam chorando: “Ai! tão cansadas
  637. Que abismo que nos resta!” à uma exclamam.
  638. Pedem cidade; a rota longa entejam.
  639. Nada inóxia, deposto e o trajo e o vulto,
  640. Chega-se a deusa, em Béroe disfarçada,
  641. Cônjuge anosa do Ismaro Doriclo,
  642. Célebre dantes por fecunda e nobre;
  643. Entre elas se insinua, e diz: “Mesquinhas!
  644. Que às mãos gregas a morte não tragámos
  645. Sob os muros da pátria! Infeliz gente!
  646. A que exício a desgraça te reserva?
  647. Volvem sete verões que, acesa Tróia,
  648. Fretos medindo, inóspitos rochedos,
  649. Climas tantos e céus, por mar tamanho
  650. Da fugitiva Itália em busca, vamos
  651. Pelas ondas rolando. Hóspede Acestes,
  652. D’Erix quem lhe obsta no país fraterno
  653. A nos fundar cidade? Ó pátria! ó numes
  654. Do inimigo sem fruto arrebatados!
  655. Nunca um sítio verei que eu chame Tróia?
  656. Nunca os rios de Heitor, um Xanto, um Simois?
  657. Presto, abrasai comigo infaustas popas.
  658. Cassandra em sonhos, dando acesas tochas,
  659. Me bradava esta noite: Ílio aqui tendes,
  660. Aqui vossa morada. Obrai, que é tempo;
  661. Nem tais prodígios dilação permitem:
  662. Eis sacros a Netuno altares quatro;
  663. O mesmo deus ministra ânimo e fachos.”
  664. Nisto, agarrando infenso, a destra eleva,
  665. Brande um tição com força, e coruscante
  666. O propele. As Ilíades suspensas
  667. De espanto enfiam. Pirgo, a mais idosa,
  668. Que tantos filhos a seu rei criara:
  669. “Esta, ó matronas, disse, a de Doriclo
  670. Béroe não é Retéia: o ar divino,
  671. O garbo lhe notai, da vista o fogo,
  672. O hálito, o som da voz, o andar e o gesto,
  673. A Béroe eu venho de deixar doente,
  674. Pesando-lhe só ela em tais exéquias
  675. Faltar com dons e merecido pranto.”
  676. Cala; e as matronas os malignos olhos
  677. Nos lenhos cravam, balançando ambíguas
  678. Do ficar entre o mísero desejo
  679. E as fatídicas ordens; quando as asas
  680. Libra e desfere a deusa, e à retirada
  681. Assinala entre as nuvens arco ingente.
  682. Em fúria, do prodígio estupefactas,
  683. Do imo foco bramindo a chama tiram:
  684. As aras despojando, às naus remessam
  685. Galhos, folhas, tições: Vulcano em bancos
  686. E em remos enfurece, à rédea solta
  687. Raiva de abeto nas pintadas popas.
  688. Ao sepulcro, à platéia, Eumelo a nova
  689. Do incêndio leva; e em rolo atra fagulha
  690. Se enxerga a revoar. Primeiro Ascânio,
  691. Quão ledo conduzia a eqüestre pugna,
  692. Ágil galopa aos arraiais turbados;
  693. Aios retê-lo exânimes não podem.
  694. “Que tentais, cidadãs? que insânia! ai tristes!
  695. Não pavilhões hostis, não graias quilhas,
  696. Queimais vossa esperança. Aqui me tendes,
  697. Eis vosso Ascânio.” E aos pés o elmo vão lança,
  698. De que armado exercia a falsa guerra.
  699. Enéias se acelera, e o frígio bando.
  700. A buscar brenha ou lapa em que se escondam,
  701. Pelas praias com medo elas se esgarram:
  702. À luz fogem de pejo, e arrependidas
  703. Juno removem d’alma, aos seus tornadas.
  704. Nem por isso domou-se a voraz peste:
  705. Sob o molhado roble viva a estopa
  706. Tardo fumo vomita, e o vapor lento
  707. Rói os porões, no âmago se ateia;
  708. Não valem jorros d’água e heróico esforço.
  709. Dos ombros rasga a veste, e aos céus Enéias
  710. Súplice as palmas tende: “Ó Jove excelso!
  711. Se um por um, padre, os Frígios não detestas,
  712. Se inda humanos trabalhos te apiadam,
  713. Da chama agora a frota me preserves,
  714. D’Ílio a tênue relíquia ao menos poupes;
  715. Ou, que mais resta? esmague-me o teu raio,
  716. Mata-me, se o mereço.” Acaba; e ronca
  717. Desmedida, furiosa, atra procela,
  718. Dos trovões estremece o monte e o vale;
  719. Turvo, engrossado pelos densos austros,
  720. Aguaceiro estupendo alaga as popas:
  721. Semi-ardidos carvalhos se umedecem,
  722. Té que extinto o vapor, tragadas quatro,
  723. No corpo das demais cessa o contágio.
  724. Do agro desastre Enéias combatido,
  725. Cem razões versa n’alma, hesita incerto
  726. Se na fértil Sicília esqueça os fados,
  727. Ou se à Itália prossiga. O velho Nautes,
  728. Sábio adivinho de Minerva aluno,
  729. Tramas de irosos deuses explicando
  730. E o que ordena o destino, assim o anima:
  731. “Da fortuna aos vaivéns nos resignemos,
  732. Ó dionéia prole; em todo aperto
  733. Sofrendo é que se vence a adversidade.
  734. Tens cá divina estirpe, o tróico Acestes:
  735. Consulta o seu querer. Das naus combustas
  736. Lhe confia o sobejo, e os que se anojam
  737. Da empresa tua; as aborridas madres,
  738. Decrépitos e inválidos segrega,
  739. E os que afrontar contigo os riscos temem:
  740. Em terra hajam descanso; ergam cidade,
  741. A que Acestes conceda o nome Acesta.”
  742. Nos conselhos do amigo o herói se acende;
  743. Mas os projetos seus medita e pesa.
  744. Na biga a parda Noite o pólo ocupa:
  745. Eis do céu deslizando a sombra anquísea
  746. Tais vozes difundir se lhe afigura:
  747. “Filho, que em vida mais amei que a vida,
  748. Filho, a quem de Ílion molesta o fado,
  749. A ti me expede Jove, que do Olimpo
  750. Doeu-se e desviou da armada o incêndio.
  751. De Nautes o maduro aviso adota:
  752. Vais debelar gente áspera indomada;
  753. Dos teus conduz ao Lácio a flor guerreira.
  754. D’antemão baixa a Dite e ao centro escuro;
  755. Pelo alto Averno, ó filho, vem falar-me:
  756. Não no ímpio Tártaro, entre os manes tristes;
  757. Moro sim, entre os bons, no Elísio ameno.
  758. Muita rês negra fere, e a mim te guie
  759. Casta Sibila; aprenderás teus netos,
  760. E o dado império. Adeus, que úmida a noite
  761. Vira e descai, e já do sevo oriente
  762. Respirando os Etontes me bafejam.”
  763. Disse, e em ar se esvaece. “Onde, onde partes?
  764. Tem-te, espera; a meus braços quem te arranca?”
  765. Tal Enéias discorre, e esperta o lume
  766. Sopito em cinza; humilde à branca Vesta
  767. O sacrário venera e os teucros lares,
  768. Com turíbulo pleno e farro pio.
  769. Depois consulta o rei, declara aos sócios
  770. De Jove o mando, os paternais preceitos,
  771. E o seu pensar. De pronto anui Acestes.
  772. Para a cidade o vulgo e as mães se alistam,
  773. Almas a quem não toca o amor da glória.
  774. Gastos robles da chama outros renovam,
  775. Remos, bancos, enxárcias aparelham;
  776. Poucos sim, mas de vívida coragem.
  777. Risca os muros Enéias com o arado;
  778. Sorteia as casas; manda ali ser Tróia,
  779. Pérgamo ali. Do aumento folga Acestes;
  780. O senado institui, regula o foro.
  781. Templo, aos astros vizinho, à deusa Idália
  782. No Erix se eleva; ao túmulo de Anquises
  783. Um luco amplo se anexa e um sacerdote.
  784. Festins e oblatas novenais se fazem,
  785. Enquanto aragem meiga aplane as vagas.
  786. Fresco ao largo de novo o sul convida:
  787. Nas curvas praias se ouve um mesto choro;
  788. Dia e noite abraçados se demoram.
  789. E agora as mães, e aqueles que assustava
  790. Do áspero mar a torva catadura,
  791. As fadigas do mar padecer querem.
  792. Terno os conforta, e lagrimoso Enéias
  793. Ao régio consangüíneo os recomenda.
  794. A Erix vitelos três e às tempestades
  795. Cordeira imola, e vai desamarrando.
  796. Tonsa oliva na testa, em pé na proa,
  797. Taça na destra, as vísceras despeja,
  798. De estremes vinhos o salgado asperge.
  799. De popa o vento surge; e os navegantes
  800. Varrem, qual mais, as percutidas ondas.
  801. Entretanto, a Netuno aflita Vênus
  802. Tais queixas despregou: “Senhor, a ativa
  803. Atroz ira de Juno insaciável
  804. Me abate a suplicar. Nem dó, nem tempo,
  805. Jove nem destino, infandos ódios
  806. Quebra ou lhe adoça. Haver não basta aos Frígios
  807. Consumido e apagado a grã cidade,
  808. E as relíquias trazer de transe em transe;
  809. De Tróia inda persegue a cinza e os ossos:
  810. Desta sanha o motivo ela que o saiba.
  811. Longo não há que em Líbia (és testemunha)
  812. Mal afouta em Eolo, o pego em brenhas,
  813. Misturou de repente os céus e os mares:
  814. E isto ousar em teus reinos! Ei-la, oh crime!
  815. Iliça as Teucras, incendeia as popas,
  816. Naus estraga, e a largar meu filho obriga
  817. Sócios em terra estranha. O resto, ó padre,
  818. Possa, eu to rogo, navegar seguro;
  819. Aborde, se é que as Parcas lho concedem,
  820. Ao Tibre laurentino e assentos funde.”
  821. Do alto oceano o domador Satúrnio:
  822. “É justo, respondeu, que em mim confies
  823. E em reinos, Citeréia, origem tua.
  824. Mereço-o; que não raro hei por teu filho
  825. Marulhos comprimido e o céu raivoso.
  826. Nem menos (testefique o Xanto e o Simois)
  827. Dele em terra curei: quando às muralhas
  828. Pálidas turmas rebatendo Aquiles,
  829. Milhares dava à Estige e o Xanto, os rios
  830. Entulhados gemendo, não sabia
  831. Como volver-se ao mar; eu mesmo em nuvem
  832. Cava ao Pelides fero Enéias roubo,
  833. Que, ímpar em força e divos, o acomete;
  834. Bem que anelasse, destas mãos erectos,
  835. D’Ílio extirpar os fementidos muros,
  836. No mesmo ânimo estou; bane os temores.
  837. Aportará no Averno quem desejas:
  838. Deve um só perecer no aquoso fundo;
  839. Uma cabeça pagará por todos.”
  840. Tendo assim animado a leda Vênus,
  841. Junge os brutos, e impondo espúmeos freios,
  842. Ele a brida relaxa, e à tona equórea
  843. Voa de leve no cerúleo carro:
  844. Cai sob o eixo tonante o inchado argento,
  845. Amansa a vaga, espalham-se os negrumes.
  846. Surde a marinha escolta: Glauco e Forco,
  847. Seu velho coro, formidáveis cetos,
  848. Tritões ligeiros, Melicerta Inôo;
  849. Tétis à esquerda, Pánope e Niséia,
  850. Melite e Spio, Cimódoce e Tália.
  851. Brandos gostos revezam-se de Enéias
  852. Na mente absorta: erguer faz logo os mastros,
  853. Desenvergar o pano e desfraldá-lo.
  854. Toda a frota num ponto escotas ala;
  855. Solta a bombordo os seios, a estibordo;
  856. Árduos os lais braceia, rebraceia;
  857. Té que o sopro à feição lhe enfuna as velas.
  858. Palinuro abre o rumo à densa armada;
  859. De lhe irem na conserva os mais têm ordem.
  860. Da celeste baliza ao meio a noite
  861. Já rórida atingia; de cansaço
  862. Por duros bancos a maruja os membros
  863. Em seus remos pousava: é quando o Sono
  864. Do éter sidéreo plácido escorrega,
  865. Afugenta e dissolve a espessa treva;
  866. Busca-te, Palinuro, a ti mesquinho
  867. Funestos sonhos traz: na popa, em Forbas
  868. Transformado, se assenta, e arteiro fala:
  869. “Iaside Palinuro, ao som das águas
  870. Desliza a frota; a viração é certa;
  871. Encosta a fronte, as pálpebras descansa,
  872. Furta uma hora ao trabalho: espaço breve
  873. Tomo o teu cargo.” Palinuro os olhos
  874. Descerra a custo: “Queres que eu, lhe torna,
  875. Creia em tal monstro, em céu risonho estribe?
  876. Que entregue Enéias a traidores austros?”
  877. Em discursando, ao clavo mais se aferra,
  878. Fito os astros contempla: as fontes ambas
  879. Eis lhe borrifa, em Letes embebido,
  880. Por força estígia um ramo soporado;
  881. Nadam-lhe os frouxos renitentes lumes.
  882. Indo-lhe adormecendo o corpo laxo,
  883. Morfeu se achega; ao líquido elemento,
  884. Com pedaço da popa e o leme, o empurra:
  885. Despenha-se ele, em vão clamando aos sócios;
  886. O deus nos ares desapareceu.
  887. Inda assim, em Netuno assegurada,
  888. Sulca impávida a frota o plaino amaro:
  889. Já remonta os cachopos das Sereias,
  890. Que, então riscosos, de ossos alvejavam;
  891. Roucas do salso choque as rochas soam.
  892. Sem piloto à matroca o barco Enéias
  893. Sente, e em pessoa por noturnas ondas
  894. Magoado o rege, lamentando o amigo:
  895. “Ai! nu, que em céu fiaste e em mar tranqüilo,
  896. Jazerás, Palinuro, em praia ignota”.

Nota a nota · 23 notas

v. 1–15Firme o herói já dirige ao meio a frota, ⋯ Manda desempachar, pôr peito aos remos;
Medium iter é a rota feita ao largo da praia africana. Para se estar ao largo não é forçoso ter perdido a terra de vista, como cuidava Desfontaines: parece que os marítimos se consideram ao largo desde que podem manobrar em todo o sentido, quer ainda se enxergue a terra, quer já tenha desaparecido. — Aquilone é tomado na acepção própria de vento norte, e não por qualquer vento, como julga La Rue: partiram com o mau que soprava, por executarem as ordens celestes; e, sendo escasso, foram orçando o mais possível, ajudando-se dos remos, até que, surgindo um bravo oeste, Palinuro propôs a Enéias arribar às praias de Eryx junto ao Lilibeu ou capo di Marsella; o que aprovou o chefe, não só pela necessidade, como para sufragar as cinzas de Anquises. Com que arte sabe tecer o poeta os episódios na sua fábula! — Colligere arma não é enrizar as velas como quer Sérvio, porque arma compreende mastreamento, velame, aparelhos, todo o necessário à navegação; colligere arma é desempachar o navio de quanto possa dar pega ao vento, desafogá-lo para melhor se manobrar. Tendo Palinuro de pedir licença a Enéias para arribar, da qual devera estar certo pela confiança que lhe inspirava, enrizar as velas, operação longa e difícil, para ao depois desfazer os rizes quando obtivesse a licença, fora perder tempo e trabalho. Veja-se o Virgilius nauticus, de pag. 49-53, e de pag. 105-106.
↩ voltar à passagem, v. 1
v. 28–33Ronda e curva o caminho. Onde mais doce
Flecte viam velis é o que em frase marítima se chama virar pelo redondo. Com demasiado vento, vira-se dando uma grande volta e correndo muitos rumos, até chegar ao que se quer; operação mais segura, bem que faça perder caminho. — O Zéfiro, ou oeste, que há pouco era contrário, mudado o rumo, tornou-se favorável; mas eram grossos os mares, e mais o pareciam a quem então navegava em popa. Todas estas miudezas provam com quanta razão nomeia Mr. Jal a Virgílio o poeta marinheiro. Os críticos e comentadores que, sem conhecerem da matéria, se metem a emendar o autor acerca da escolha dos ventos e de outras particularidades, bem se podem apelidar de água doce, como se diz dos maus versificadores.
↩ voltar à passagem, v. 28
v. 36–38Admira a vinda, e em pele de ursa líbia
A respeito de Acestes, dos ursos na Líbia, da exatidão deste lugar, vejam-se as notas de Mr. Villenave; que é mais feliz quando defende, que quando censura o poeta. Com Buffon prova-se que há ursos na África, mas não dos negros.
↩ voltar à passagem, v. 36
v. 51–54Fosse eu nas sirtes Gétulas banido,
Faz Gaston aqui um reparo assaz razoável: “Se o herói tivesse a faculdade de refletir, nada prometeria acima das suas posses. Cativo em Micenas, poderia celebrar em honra de Anquises pompas fúnebres e solenes? Por certo que não; mas folga-se de ver um terno e religioso filho crer que nada é impossível ao amor que tem a seu pai.”
↩ voltar à passagem, v. 51
v. 64–71Convidai para a festa, e os que ele adora.
Delille faz começarem os jogos no outro dia, começando-os o poeta no nono. O ore favete omnes, equivalente ao Favete linguis de Horácio, era a fórmula com que os sacerdotes, no encetar o sacrifício, impunham o silêncio. Segundo porém Sêneca (de Vita beata, cap. 27) o silêncio podia não ser absoluto, mas vedava-se toda palavra profana. Diz também Horácio: “Male ominatis parcite verbis.”
↩ voltar à passagem, v. 64
v. 77–83Para o sepulcro. Ali de mero baco,
Virgílio, a quem seguiu Ovídio, atribui a Enéias as instituições religiosas dos Romanos, e as descreve quais ainda se usavam; o que era interessantíssimo aos contemporâneos: isto mostra o caso que nos cumpre fazer de La Harpe, o qual julga demasiados os sacrifícios que celebra o herói piedoso. Este crítico, bom no ajuizar a literatura francesa, pouco versado era na antiga, e não muito na literatura estrangeira. — Jarra verte carchesium; que era, segundo Ateneu, poculum oblongum, in medio leviter compressum, auribus utrimque ad fundum usque pertinentibus: as jarras têm uma forma semelhante. Para os que julgarem o termo português insuficiente, adotando eu o latino, assim mudo os meus versos 78-79: “Libando em regra, dois carchesios vasa, De leite fresco dois, dois outros... etc.”
↩ voltar à passagem, v. 77
v. 84–95Gozar desse fatal ausônio Tibre.”
Sob a forma de serpentes se representavam os gênios dos heróis e dos lugares, como aqui Virgílio. Era a serpente o símbolo da pátria, da vida, da saúde, da imortalidade, da astúcia, do ano, entre os povos antigos. Gaston cita o reparo de alguns sobre ser este animal venenoso consagrado como atributo do deus da saúde, e diz que, segundo Pausânias, este privilégio tinha só uma espécie de cor tirante ao amarelo, destituída de peçonha. Em verdade, assim no velho, como no novo mundo, muitas há inocentes: podiam contudo as mesmas que o não são vir a ser o atributo daquele deus, por alusão à medicina que emprega os venenos para cura de muita moléstia; e a vida longa delas, que supõe constante saúde, explica a razão por que eram dedicadas a Mercúrio, e simbolizavam a imortalidade. Os selvagens da nossa América acerca destes animais têm opiniões bem semelhantes às dos antigos.
↩ voltar à passagem, v. 84
v. 96–97Incerto se é de Anquises a ministra,
Bimas quer dizer de dois anos; corresponde a bidentes, de que o autor usa bem vezes. Para variar, sirvo-me ora de bimas, ora de bianejas, adjetivo composto de bis e de anejo com a mesma significação; mas, para os fins da tradução, ponho só ovelhas do estilo, ou do rito, ou do costume, porque já se sabe de que ovelhas se trata. Tergi-nigrante, isto é de dorso tirante à cor negra, vem nos Martyres de Francisco Manuel.
↩ voltar à passagem, v. 96
v. 114–115Láureas no médio circo se alardeiam,
Gravibus remis, como o demonstra o autor da Archeologia naval, não significa fortes remos. Os navios eram iguais nos cascos; no começo do páreo, a remada era pausada ou grave, esperando os contendores pelo sinal para vogarem com força. É natural o que diz Mr. Jal; pois, sempre que se entra em aposta que requer esforço, este só se emprega no ponto fixo, por evitar-se uma fadiga intempestiva. Os tradutores verteram mal este passo, nem atenderam ao termo carinae; o qual mostra que a igualdade dos navios consistia nos cascos; pois que a forma dos cascos é que mais influi no andar e ligeireza. — Fraguier, nas Mémoires de l’Académie des belles-lettres, tom. II, pag, 160, diz que estes jogos são os de Homero na Ilíada; mas que lá vem mais a propósito, bem que Virgílio os varie com agradável gosto, e que seja da sua invenção o páreo naval. Eu digo porém que os jogos de Homero têm a melhoria de serem celebrados logo depois da morte de Patroclo, o que torna importante quanto faz Aquiles em desafogo da sua dor; e os funerais de Anquises, morto há um ano, cujos feitos heróicos não eram recentes, não oferecem a mesma espécie de interesse: os jogos todavia são a propósito como os de Homero, sendo uns e outros para honrar um finado querido; e se os que celebra Aquiles são devidos à amizade, o pio amor filial exige os que Enéias consagra à memória de seu pai. Virgílio tem nestes jogos um mérito especial, o de os fazer entrar no plano geral do poema, cujo fim era comemorar as coisas de Roma; porquanto neles se descobre a origem dos que duravam no tempo de Augusto. Julga Pope que o poeta latino, imitando o grego só nos jogos do cesto, do arco e da carreira pedestre, e acrescentando o das galeras, temeu não poder exceder a Homero no curso dos carros; alguns opinam que Virgílio assim obrou, não só porque Píndaro e Sófocles e outros haviam descrito muitas vezes o tal curso dos carros, como porque o das galeras era mais próprio de homens que há sete anos erravam pelos mares. Eu cuido que ele o fez por três razões conjuntamente: por não ser possível exceder, sendo mui difícil igualar o grande poeta naquela descrição; por não querer trilhar uma vereda batida por tantos; por patentear o seu talento inventivo. Mas, se não era capaz de exceder o seu mestre no curso dos carros, soube criar outro em que nada lhe é inferior.
↩ voltar à passagem, v. 114
v. 119–120O páreo encetam com pausado remo
Para os que não se contentarem com a nova interpretação que prefiro, aqui verto segundo a antiga: “Em três filas por banda, em tríplice ordem A voga desferindo...” Em justificação da que adotei, vou reproduzir os convincentes argumentos de Mr. Jal. “Creio, diz no Virgilius nauticus, que o poeta não fez triremes da Chimera e dos três navios que lhe disputavam o páreo. Já mostrei que ele nunca foge do termo próprio: mostrarei agora que no liv. I chama alguns dos navios phrygias biremes, e que o nono traz: Geminas legit de classe biremes. Se expressamente nomeia as biremes, porque evita nomear as triremes? Porque não diz: Quatuor ex omni delectae classe triremes, em vez de delectae carinae? Isto fora mais lúcido e simples, e no técnico sabe-se que Virgílio procura a simplicidade e a lucidez. Porque, sequer por alguma alusão, n’um longo poema em que tanto os navios figuram, não dá jamais a presumir que estes são de três ordens de remeiros? Emprega o termo navis 45 vezes, 22 o termo ratis, 23 carina, 2 biremis; nem uma só escreveu triremis. Por que singular capricho desdenharia um termo que fielmente representara a sua idéia? Passa ele acaso por caprichoso? Virgílio é um espírito razoável e forte, que não condescende com a fantasia, repele expressões vagas de que se teriam revestido mal os seus conceitos, sempre tão claros, e só admite a perífrase quando esta não lança um véu obscuro no objeto que busca designar. Tem ele noventa ocasiões, sem contarmos as em que, segundo os seus comentadores, toma puppis e prora por nau, de escrever triremis, e nunca o faz, parecendo mesmo evitar a palavra com cuidado; o que basta para julgar-se da questão. — Opor-me-ão os versos: Amissis remis, atque ordine debilis, uno, Irrisam sine honore ratem Sergestus agebat; dir-me-ão que ordine debilis uno prova que a Centauro tinha várias ordens de remos: sei que vem nos comentários que era debilis uno ordine, aut quia non nisi unum ordinem remigum retinuerat, aut quia uno e tribus ordinibus spoliatus fuerat (Ascêncio, f. 92). Respondo porém que os versos isto significam: “Estando muito maltratada a série de remos de uma banda, e da outra inteiramente sem eles, Sergesto reconduzia o navio entre as vaias dos que das praias o apupavam.” Ordo não é um andar, é uma fila; é todo o lado de estribordo ou de bombordo: no caso presente, é a fila da esquerda. O poeta nos mostra a Centauro tendo perdido muitos dos seus remos da direita, ao esforçar-se por desprender-se do rochedo, e falha de todos os de bombordo, que se quebraram no recife, obrigada contudo, para voltar ao porto, a servir-se dos pedaços (fractis remis) e a fazer deles uma série que remediasse a falta. Isto me parece evidente. É mais lastimável Sergesto nesta situação, que o reduziu a uns cotos de remos, do que seria se, perdidas as vogas de uma ordem, lhe restassem as de duas, ou mesmo se, perdidas as das duas, lhe restassem as de uma só. — Acresce que amissis remis é totalmente contrário à suposição dos três andares de remos. Que significaria ordine debilis uno, depois das palavras que anunciavam a perda dos remos das duas outras ordens? Se perdeu Sergesto os dos três andares, claro é que está desprovido dos de uma fila; debilis uno ordine seria uma simpleza das de que Virgílio era incapaz. E não tendo mais que uma ordem de remos, se a Centauro de um bordo se acha inteiramente falha (ordine debilis uno) e se do outro apenas restam algumas vogas, porque dele perdeu muitas, remará com alguns cotos, e reconduzirá sine honore o seu navio, de que zombavam, por estar como ratis, que n’água desliza à mercê da corrente e dos ventos, jangada apenas dirigível. — Ratem é preferido pelo poeta a navem; porque sua imagem é mais completa e maior: não é um vão sinônimo. Ratem perderia todo o seu valor se Sergesto ainda tivesse duas ordens de remos sobrepostas, embora incompletas e danificadas. Para que o termo conserve a energia que lhe imprimiu o poeta, é mister, por exemplo, que dos seus cinqüenta remos (25 de cada banda em uma fila) a Centauro perdesse tantos, que volte apenas com uma meia dúzia, repartidos por ambos os bordos. — Amissis remis não se refere a ordine debilis uno; ordine debilis uno pinta o estado da esquerda do navio, cujos remos todos se quebraram, quer de encontro roçando pelo escolho, quer labutando por se descoser do recife; amissis remis denota que o estribordo perdera muitos, assim pelos esforços da chusma para arrancar a nau do recife, como porque os sacaram do fundo com fustes e croques (ferratas sudes et contos). Cuido que tudo isto é incontestável, a não se querer entender o verso desta singular maneira: Amissis remis unius ordinis, atque ordine debilis eodem. Mas ousar-se-ia emprestar a Virgílio tal sintaxe e locução tão obscura? — Já me guardo para uma objeção. Se terno ordine me parece dizer três vezes consecutivas, como é que vejo uma fileira de remos em uno ordine? Eis o que se me perguntará. É bem simples a resposta: Ordo em Virgílio não significa sempre o mesmo. Pone ordine vites, na écloga I, tem certamente outro sentido que ponere ordine remos: o alinhamento das cepas nada tem de comum com o assento e a destribuição dos remos nas bordas de um navio. No livro IV das Geórgicas (Manibus liquidos dant ordine fontes Germanae, tonsisque ferunt mantilia villis... Totiusque ordine gentis Mores et studia et populos et praelia dicam) ordine quer dizer por seu turno, sucessivamente; é o sentido que atribuo a terno ordine. Quanto à inteligência da palavra ordo significando fileira de remos, é questão em que não se está de acordo; e, segundo o padre La Rue, valde ambiguum est. O Holandês Meibom (de Fabrica triremium; Amsterdam, 1671) disserta largamente sobre o sentido verdadeiro dos termos versus e ordo; pretende que versus é multitudo in directum posita, e que ordo é multitudo non solum in directum posita, sed etiam loci prioris et sequentis, considerationem conjunctam habens. Scheffer, adversário de Meibom, confunde versus e ordo, na pag. 87: Non tam ex numero remorum, sicut praecedentes, quam ex versibus quibusdam, vel potius ordinibus, sua nomina sortita esse. Não me quero ingerir nesta questão, cujo desfecho pouco importa ao leitor; assaz é ter mostrado que dois críticos hábeis não entendem versus do mesmo modo, e que em Virgílio ordo não tem um sentido invariável. Não nego que versus possa tomar-se por fila de remos; estou porém convencido que, no caso do triplici versu, exprime idéia bem diferente. Não nego que ordo muitas vezes designe um certo alinhamento (desconhecido) das vogas; mas creio que o terno ordine do liv. V da Eneida se deve entender como ordine do liv. IV das Geórgicas. — Virgílio não diz expressamente que a Centauro e a Chimera fossem triremes; o que nos dá a conhecer dos remos da Centauro, prova que este navio não tinha mais que uma fila deles; nunca em seu poema nomeia as triremes, quando nomeia duas vezes as biremes: não é pois de triremes que se trata nesta passagem, que eu explico diversamente que todos os tradutores. E o triplice versu, a meu ver, exprime um canto três vezes repetido, um clamor, um hourra, uma espécie de celeuma, de que ainda é viva a tradição em nossos navios, onde em todos os trabalhos de força, v.g. quando se alam as bolinas, um marujo, o verdadeiro hortator das embarcações antigas, canta: Ouane, tou, tri, hourra! (one, two, tri, hourra! — em inglês). A tradição velha estava cheia de vigor na meia idade, em Veneza, onde a chusma do Bucentauro, sempre que o navio ducal passava ante a capela da Virgem, construída à entrada do Arsenal, gritava três vezes: Ah! Ah! Ah! dando uma pancada com o remo depois de cada uma destas aclamações. Pretendeu Virgílio consagrar em dois versos a lembrança de um estilo observado no seu tempo, em certas ocasiões; e eis aqui tudo. Ascêncio, que de certo cuidava serem triremes os navios do páreo, hesitou sobre a acepção do vocábulo versus; diz com efeito: “Triplici versu, id est, ordine aut impulsu quo aequora verrunt, aut cantu quo utuntur, ut simul verrant, aut omnibus his.” Esta interpretação tímida é pouco mais ou menos a de Sérvio. Todavia Sérvio não se aventurou a traduzir versus por cantus. Ascêncio enxergou a verdade, mas não ousou demorar-se nela. Em abraçando a sua hipótese, demonstrei ser a única admissível; mas demonstrei-o com razões que talvez o comentador não teria aceitado, porque derribam a sua opinião sobre o terno ordine.”
↩ voltar à passagem, v. 119
v. 139–150Depois de em longo cerco o tornearem.
Este livro, colocado entre o patético do quarto e o sublime do sexto, não apraz tanto ao comum dos leitores, posto que não seja menos belo. O autor nele emprega maior número de onomatopéias que de ordinário; e é sem dúvida pela perfeição do estilo que a sua tradução é ainda mais difícil que a dos outros. Em todo este harmonioso trecho tratando eu de imitar a variedade e a metrificação do autor, escrevi o meu verso 153, que ao vulgo parecerá mal modulado; mas fi-lo de propósito, ajuntando cinco breves consecutivas, para pintar a precipitação dos carros. Versos desta medida acham-se em Camões, Ferreira, Francisco Manuel, Basílio da Gama e Alvarenga.
↩ voltar à passagem, v. 139
v. 177Que interno, à sestra, forcejando o aperta;
O leme de que se trata, era um remo de pá larga, semelhante aos que chamamos hoje no Brasil esparrelas. O Virgilius nauticus, pag 63-64 explica a forma desta espécie de leme. Verti clavus por clavo, porque a nossa palavra cavilha, empregada para significar outras coisas, não daria uma idéia clara do objeto: veja-se cavilha em Moraes e Constâncio. O clavo não era a haste da esparela, mas uma peça de pau que em cruz atravessava a haste. As nossas jangadas servem-se destes lemes, com a diferença que, em vez de os colocarem de um lado, os colocam no meio.
↩ voltar ao verso 177
v. 198“Forçai-me a voga, Hectóreos verdadeiros,
Sou do parecer de Sérvio e Mr. Jal, e não do de Annibal Caro e João Franco: aerea puppis quer dizer forte popa, tomando-se aerea figuradamente; porque as popas não são ferradas ou cobertas de metal, como cuidavam os dois tradutores poetas, e Velasco que os segue. Mas conservo a mesma figura, vertendo brônzea popa: em português, peito de bronze diz peito forte, peito robusto.
↩ voltar ao verso 198
v. 248“Ó deuses, cujo império equóreo trilho,
Diz La Rue que talentum, tanto aqui como no verso 112, não se toma pelo talento ático; pois que Homero, na carreira eqüestre, pôs em primeiro prêmio uma mulher com um caldeirão; em segundo, uma mulher prenhe; em terceiro, outro caldeirão; em quarto, dois talentos de ouro. Ora, conclui o comentador, se o quarto prêmio era o menor, os talentos de que se trata não podiam ser dos grandes. Tem razão quanto a Homero; mas no magnum talentum de Virgílio, que não é senão o talento ático, eu vejo outra coisa. Enéias mandou distribuir um grande talento pela equipagem das três naus; e, posto que valesse mais que cada um dos prêmios dos chefes, sendo repartido por todos, cabia a cada marinheiro uma quantia incomparavelmente menor que o valor do que recebera o chefe que menos ganhou. E na palavra addit do verso 249 descubro um costume que tem vindo até os nossos tempos: os chefes tiveram a sua porção do talento que se destribuiu pela equipagem, além da recompensa especial; e essa destribuição é provável que fosse proporcional à categoria dos premiados, conforme ao que hoje acontece na divisão das presas.
↩ voltar ao verso 248
v. 272Dos galgos o ladrar se assanha embalde.
La Cerda julga que o ter Virgílio dado a Sergesto a pior no páreo das naus, foi para designar Catilina, que pertence à família Sérgia: eu não o creio. Por força um dos contendores tinha de chegar o derradeiro; e, elegendo o poeta a Sergesto, não deixou de honrá-lo, mostrando o seu ardor e coragem, que lhe iam dando a melhoria sobre Mnesteu, segundo se vê do verso 202-203, a não ser o desastre de ficar pegada a sua nau em um escolho ou restinga.
↩ voltar ao verso 272
v. 294Altiva empina o colo; manca em parte
O livro V não só nos recomenda as cerimônias fúnebres; celebra também jogos e comemora os do tempo de Augusto, o que muito quadra com o assunto principal; faz aparecerem na cena as figuras que nos livros subseqüentes hão de representar um papel mais ou menos brilhante; para lisonjear várias famílias d’Itália, deriva a origem delas dos diferentes contendores nestes jogos. Tudo isto prova a excelência com que o poeta liga os episódios e caminha sempre a seu fim, e o como este não é somenos aos demais livros do poema. No páreo naval, afora outros chefes ilustres, se ostenta o valente Mnesteu, que tanto se distingue no livro IX regendo os Troianos em ausência de Enéias: na carreira pedestre, os primeiros que saem a terreiro são Euríalo e Niso, ternos amigos e magnânimos, cujo heróico sacrifício tem de nos mover e comiserar no mesmo liv. IX. Para mais admirarmos o V, convém confrontá-lo com os seguintes; e então conhecer-se-á que não só pelo estilo, mas principalmente em relação ao todo do poema, é que o filósofo Montaigne o amava em particular; pois Montaigne não era homem que preferisse o belo do estilo ao grandioso dos pensamentos: se tanto se contentava deste liv. V, é pela suma arte e ligação com que foi escrito; é porque desempenha uma das dificuldades maiores da tragédia e da epopéia, a de preparar os movimentos e lances vindouros.
↩ voltar ao verso 294
v. 319–324E muitos que sepulta escura fama.
No emicat vejo eu mais que um salto. Quando passa por nós qualquer objeto apressadamente, o ar vibrado pelo moto e a luz nos causam um certo tremor na vista: parece-me ser o pensamento que exprime o verbo emicat; e, se não é, nem por isso a minha tradução ofende o texto, antes lhe acrescenta uma idéia conveniente. A minha convicção é que apenas deixei de ser infiel ao original. — O calcanhar de Diores não podia roçar o de Hélimo que voava adiante: calcem calce entende-se pois dos artelhos; pois, quando um emparelhava com o outro, os artelhos de ambos bem se podiam tocar. Ao menos, assim entendida, a coisa vem a ser mais clara.
↩ voltar à passagem, v. 319
v. 337–338Transpõe Niso, e ligeiro deslumbrando
Mr. Tissot diz de Euríalo: “Porque, por exemplo, na idade em que tanta retidão e nobreza há nos primeiros movimentos, não teria ele o temor de parecer usurpar a vitória, e a generosidade de se limitar ao segundo prêmio? Então é que todos comovidos repetiríamos: Gratior et pulchro veniens in corpore virtus.” Respondo que a juventude é nobre e generosa, mas que está bem longe da retidão que lhe atribui o crítico. Virgílio conhecia melhor o homem, sabia que no moço aduna-se a nobreza e a vaidade: no afogo de vencer em que Euríalo se achava, o seu primeiro natural movimento era o de aceitar a vantagem que lhe tinha procurado o seu Niso; e mesmo este poderia levar a mal que o amigo reprovasse o ardil. Euríalo tinha virtude e generosidade, com os defeitos próprios dos seus anos. É inconcebível o que pretende Mr. Tissot: ora censura o autor (como já atrás vimos) por fazer os seus heróis inteiramente perfeitos; ora julga esses mesmos heróis impróprios para governar os homens que mandam; ora exige que o poeta ponha em um menino, não só toda a generosidade, mas também toda a justiça; qualidade que nasce do fundo do coração, mas que se reforça com a experiência. Chateaubriand, segundo a poética versão portuguesa, assim diz a este respeito: “Moldou Jove à piedade os anos tenros: Se nós outros anciãos, vergando curvos C’o pendor de Saturno, agasalhamos Na alma a justiça e a paz, privados somos Da compaixão, dos meigos pensamentos, Que ornam da vida os mais formosos dias.” Eu suspeito que os estudos de Virgílio e de Chateaubriand, na matéria, eram mais profundos que os de Mr. Tissot. Não me demorarei em refutar os desparates de Mme Dacier acerca desta passagem da Eneida.
↩ voltar à passagem, v. 337
v. 362–484E a virtude mais bela em gentil corpo. ⋯ Que o furor se encrueça, e Entelo em sanha
Todos estes versos emprega o poeta no combate de Dares com Entelo. Muitas páginas me seriam precisas para apontar as belezas do estilo e da versificação: o leitor instruído facilmente as discernirá; e o que o não for, advertido como está nas anteriores notas, poderá por si mesmo descobri-las. Veja-se Delille sobre a harmonia imitativa do liv. V. — Falarei apenas da nota de Mr. Villenave ao verso 413; o qual, com justiça reprovando a censura de Heyne, acrescenta: “Ele criticaria os chiens dévorants que se desputavam des lambeaux affreux! Ele acharia algumas vezes Racine e Corneille fastidiosos!” Estas admirações provam que Mr. Villenave pensava que era mais fácil encontrar em Virgílio coisas fastidiosas, do que em Racine e Corneille. Fora vaidade nacional! Os dois grandes e sublimes trágicos tal não diriam: Racine certamente cria fastidiosas quase todas as cenas da infanta de Castela no Cid; e Corneille não achava boa a tragédia Alexandre. — O mesmo crítico, acerca da tradução dos versos 451-452 por Delille, ajunta: “É o privilégio do poeta, a quem é permitida a imitação; mas o prosador se deve limitar a traduzir.” Eu digo: “O poeta não deve imitar, mas traduzir o poema; do contrário, seria mais fácil uma versão poética do que em prosa.” Traduções livres são cômodas; porque, se o autor sabe traduzir a passagem, fá-lo, e se não sabe, lança-se em uma vaga imitação: assim, nem tem o mérito da invenção, nem o de vencer as dificuldades em se transformando no original.
↩ voltar à passagem, v. 362
v. 485–544Mais se exaspere, o padre o não consente: ⋯ Vindo aclarar, terrífícos os vates
Aqui trata-se do jogo do arco e seta, em que Virgílio excede ao mestre grego. Vejam-se os autores tantas vezes citados, sobre todos Mr. Villenave, a respeito de todo este certame.
↩ voltar à passagem, v. 485
v. 600–602Longe o flagelo estala. A par desfilam,
O poeta, não perdendo de vista o assunto principal, neste jogo eqüestre pinta o que ainda em Roma se usava, e que se cria derivado dos Troianos; e faz algumas famílias descenderem dos contendores. La Rue dá sobre a matéria excelentes explicações.
↩ voltar à passagem, v. 600
v. 667–672De espanto enfiam. Pirgo, a mais idosa,
O poeta começa a preparar Ascânio para desempenhar o papel que representará nos últimos livros: até aqui era um menino que amava as distrações da sua idade; mas agora, sem se querer sujeitar a mestres, a si toma o cuidado de ir apaziguar as mulheres que incendiaram as naus, e o seu discurso tem já uma certa madureza.
↩ voltar à passagem, v. 667
v. 722Té que extinto o vapor, tragadas quatro,
Mr. Villenave, com a mania de ajuizar dos antigos pelas idéias modernas, escreveu: “Os comentadores, que tudo querem explicar, dizem que trata-se aqui da imagem, da aparência de Anquises, isto é da sombra da sombra; mas que é uma sombra senão uma imagem, uma aparência?” A observação é razoável segundo as idéias atuais, mas não segundo as idéias daqueles tempos. São bem conhecidos estes versos atribuídos a Ovídio: Bis duo sunt homini: manes, caro, spiritus, umbra: Quatuor ista, loci bis duo suscipiunt. Terra tegit carnem, tumulum circumvolat umbra, Orcus habet manes, spiritus astra petit. Esta distinção nos parece mal, como parecerão mal aos vindouros não poucas das nossas.
↩ voltar ao verso 722
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