Firme o herói já dirige ao meio a frota
896 versos · 23 notas do tradutor
- Firme o herói já dirige ao meio a frota,
- Com o Aquilão talhando as negras vagas;
- Olha atrás, e da pobre Elisa os muros
- Em chamas vê luzindo. A causa os Teucros
- De tanto incêndio estranham; mas conhecem
- O amor poluto como dói, o que ousa
- Femínea raiva, e triste agouro tiram.
- Some-se a terra aos empegados lenhos,
- Tudo é céu, tudo é mar; torvo negrume
- Sobre as cabeças borrascoso pesa,
- E horrenda espessa treva enoita as ondas.
- Té lá da popa o cauto Palinuro:
- “Hui! que feia tormenta enluta o pólo!
- Tu que ameaças, Netuno?” Disse, e a tolda
- Manda desempachar, pôr peito aos remos;
- Mete à orça, e voltou-se: “Ínclito Enéias,
- Nem que mo afirme Jove, eu não prometo
- C’um tempo destes abordar a Itália.
- De través salta o vento, engrossa e ruge
- Do atro Vésper, e o ar se enubla e densa.
- Nem agüentar-nos nem surdir podemos:
- Quer e acena a fortuna, ora de rumo
- Toca a mudar. Não longe as d’Erix julgo
- Fraternas praias, a fiel Sicânia,
- Se os remedidos astros não me iludem.”
- A quem Enéias: “Claro observo há muito
- Que o pede o vento, e por demais resistes:
- Ronda e curva o caminho. Onde mais doce
- As lassas naus refocilar me fora
- Que no grato país do tróico Acestes,
- Dos ossos de meu pai jazigo amado?”
- Zéfiro, então servindo, o pano atesa:
- Por vagalhões a frota ao porto voa,
- E alegre enfim atraca à nota areia.
- De excelso cume enxerga os sócios vasos,
- Admira a vinda, e em pele de ursa líbia
- E em dardos ouriçado, acorre Acestes.
- Que em mãe teucra o gerou Crimiso rio
- Não lhe esquece: os parentes que ali tornam
- Gratulando consola, e com refrescos,
- Lhana agreste abundância, acolhe e trata.
- O albor os astros mal do eôo expulsa,
- De toda a praia os seus convoca Enéias,
- E de elevado combro assim lhes fala:
- “Dos deuses prole, ó Dárdanos sublimes,
- A anual volta os meses completaram,
- Dês que as relíquias de meu pai divino,
- Fúnebre altar sagrando, sepultámos.
- Se não erro, eis o dia (ó céu, quiseste-o)
- Sempre agro para mim, sempre solene.
- Fosse eu nas sirtes Gétulas banido,
- No seio Argólico e em Micenas preso,
- Celebrara com pompa o aniversário,
- De aceitos votos cumulando as aras.
- Não, dos deuses não foi sem providência
- Esta nossa arribada a porto amigo:
- Junto às cinzas de Anquises nos achamos.
- Eia, a memória sua honremos todos:
- Peçamos-lhe bom vento, e em novos muros
- Templos dicar me outorgue, onde cad’ano
- Estes meus sacrifícios lhe ofereça.
- Duas reses por nau vos dá benigno
- O hóspede e sangue nosso: os pátrios divos
- Convidai para a festa, e os que ele adora.
- E, se arraiando o mundo a nova aurora,
- Limpo o dia trouxer, proporei jogos,
- Pela esquadra ligeira começando:
- Ouem ágil tenha o pé, quem destro e forte,
- Ou tire o dardo e a seta, ou mais se atreva
- A cru cesto brigar, nenhum se exima;
- Devido prêmio cada qual espere.
- Orai, silêncio! as frontes enramai-vos.”
- Cessa, e velou-se do materno mirto;
- Helimo, o ancião Trinácrio, o moço Ascânio
- Fê-lo, e a mais juventude. Infindo povo,
- Mesto cortejo da assembléia o seguem
- Para o sepulcro. Ali de mero baco,
- Libando em regra, jarras duas vasa,
- Duas de leite fresco, cheias duas
- De cruor sacro, e esparge rubras flores:
- “Salve, disse, alma santa, ó sombra salve,
- Cinzas do caro pai, que em vão recobro!
- Contigo não me coube entrar na Itália,
- Gozar desse fatal ausônio Tibre.”
- Súbito, em roscas sete e sete giros,
- Sai do imo penetral vultosa cobra;
- Mansa o túmulo abraça, pelas aras
- Lúbrica resvalando: azul o dorso,
- A maculada escama em áureas pintas
- Fulgura acesa; o arco assim nas nuvens
- Toma do oposto Sol mil várias cores.
- Dela Enéias pasmou. Desenrolando-se
- Entre os copos serpeia e lisas taças,
- E, iguarias e altares delibados,
- Busca o túmulo e inócua se recolhe.
- Incerto se é de Anquises a ministra,
- Se o gênio do lugar, mais fervoroso
- Ao pai renova as honras: cinco ovelhas
- Bimas conforme ao rito, cinco porcos,
- Tergi-nigrantes corta almalhos cinco;
- Vinhos das copas verte, e a alma evoca
- E do Aqueronte os remetidos manes
- Do grande genitor. Segundo as posses,
- Ninguém se escusa: as aras espontâneos
- De dons oneram, vítimas derribam;
- As caldeiras em fila outros colocam,
- Ou, na relva espalhados, em brasidos
- Viram espetos e as entranhas assam.
- Alvo o dia anelado já conduzem
- De Faetonte os cavalos; e os vizinhos
- O ruído alvoroça, e o claro nome
- De Acestes: quais por ver o herói e os sócios,
- Quais prontos ao certame, a praia inundam.
- Láureas no médio circo se alardeiam,
- Trípodes sacras, preciosas palmas
- Aos vencedores; vestes purpurinas,
- Talentos de ouro e prata, e ricas armas:
- D’alto apregoa a tuba e os ludos canta.
- O páreo encetam com pausado remo
- Quatro cascos irmãos, da frota eleitos.
- Mnesteu, que de Ítalo o apelido teve,
- Mnesteu, de Mêmio tronco, a veloz Pristis
- Com acre chusma; e a grã Quimera Gias
- Manda, móbil cidade e mole imensa,
- Que os Teucros jovens de concerto impelem,
- Com três aclamações às três pancadas
- Da voga desferida: autor Sergesto
- Dos nobres Sérgios, na Centauro ingente;
- E na azul Cila embarca-se Cloanto,
- Que é, Romano Cluêncio, a origem tua.
- Contra a espumosa praia, além demora
- Penedo, que submerso, enquanto o hiberno
- Cauro os astros esconde, o açoitam vagas
- Túmidas: calmo o tempo, adormecido
- Cala, e da imóvel onda um campo surge,
- De apriscos mergulhões jucundo pouso.
- Lá de frondente azinho o padre aos nautas
- Pôs verde meta, que o regresso marque,
- Depois de em longo cerco o tornearem.
- Regra os postos a sorte; e à popa alçados,
- Ostro e ouro trajando, os cabos fulgem.
- De choupo engrinaldada, a mais companha
- Nus reluzindo em óleo ostenta os ombros:
- Abancam-se, estirando ao remo os braços
- E ouvidos ao sinal; da ânsia de glória,
- Do afogo e susto, os corações latejam.
- Ao clangor da trombeta, ei-los despedem;
- Os ares fere a náutica alarida;
- Revolto o mar ao retrair dos buchos,
- De iguais sulcos trilhado, alveja e ferve,
- Dos remos todo e dos tridentes rostros
- Convulso e hiante. Em bíjugo certame,
- Carros do cárcere precipitados
- Na liça menos desenvolto rodam;
- Nem tanto aurigas, aos fogosos tiros
- Undantes loros sacudindo, pendem
- Pronos a verberar. Do estrondo e aplauso,
- Do parcial favor consona o bosque:
- O eco, nas praias côncavas rolando,
- Repulsado retumba nos outeiros.
- Entre os vivas da turba, avante Gias,
- Primeiro escoa-se: ao depois Cloanto,
- Melhor de remo, se o pinho o retarda
- Ronceiro. À cola, a Pristis e a Centauro
- Competem no marchar: vence ora a Pristis,
- Ora a Centauro; ou pares, frente a frente,
- Aram com buco extenso os vaus salgados.
- Aproximam-se à meta, e ao pé do escolho,
- Já no perau, o dianteiro Gias
- Grita ao piloto: “À destra assim me empuxas?
- Anda a bombordo; a pá que rasque as penhas;
- Abeira a praia: quem quiser se amare.”
- Ordens vãs; teme o velho oculto banco,
- Desvia ao largo a proa. “Onde, Menetes,
- Onde ao revés te vais? À esquerda, às pedras!”
- Gias brama e rebrama; e olha a Cloanto,
- Que interno, à sestra, forcejando o aperta;
- Que entre as sonantes lages e a Quimera
- Desliza, e a meta súbito pospondo,
- O pretere, e em mais fundo vai nadando.
- Nos ossos arde ao moço a dor violenta,
- Não sem água nas faces; e esquecido
- De si, do comum risco, o frouxo mestre
- D’alta popa despenha, e salta ao leme:
- Piloto, os nautas exortando, o clavo
- Às praias torce. A custo acima veio
- Menetes já pesado; e, gotejando
- O mádido vestido, à roca trepa,
- E em seco ali se assenta. A rapazia
- Riu do seu tombo, do mergulho e nado,
- Riu das salsas golfadas que alijava.
- Atrás, Mnesteu, Sergesto aqui se inflamam,
- A Gias contam superar moroso.
- Junto ao cachopo, não com todo o casco,
- Sergesto avança; em parte só, que em parte
- O cerra com seu beque emula a Pristis.
- Mnesteu de banco em banco a gente incita:
- “Forçai-me a voga, Hectóreos verdadeiros,
- Que de Tróia escolhi no extremo arranco:
- Mostrai-me agora o brio, o alento agora,
- Qual nas Líbicas sirtes, qual no Jônio,
- Qual do Málea em correntes impulsoras.
- Mnesteu já pela palma não contende:
- Oh! se eu... primem, Netuno, os teus mimosos.
- Ser derradeiro, amigos, é vergonha:
- Poupai-nos o labéu.” Quem mais, se afanam
- Deitados sobre o remo; aos vastos golpes
- Retreme a brônzea popa, o chão subtrai-se;
- Crebro o anélito abala os membros todos,
- E as bocas seca; em bica o suor mana.
- O acaso trouxe o lanço a que aspiravam:
- Acostado Sergesto, avante a proa
- Cose à rocha, e abocando um passo estreito,
- Ai! que em recife pretendido pega.
- Ao choque ronca a pedra, e numa ostreira
- Pontuda os remos se estribando estralam;
- Contusa a proa suspendeu-se. Em gritos
- Consurge, pára a chusma, e os croques safa
- E agudas varas; os partidos remos
- Do pego apanha. Então, com mais veemência,
- Ledo Mnesteu os ventos convocando,
- Certa e basta a remada, ao som das ondas,
- Fácil no aberto pélago decorre.
- Qual a pomba, que aninha em oca lapa
- Seus doces ovos, salteada ao campo
- Foge, e ao sair com a asa dá medrosa
- Rijo encontrão no teto; e escorregando
- Pela fluida via, o ar sereno
- Rasa, nem move as expeditas penas:
- Tal Mnesteu, com tal ímpeto, enfiada
- Pelas últimas águas, voa a Pristis.
- Já deixa às lutas no rochedo e alfaques
- A Sergesto, que auxílio em vão clamando,
- A andar aprende com lascados remos.
- Presto a Gias se bota, e a nau possante
- Cede, que está sem mestre. Só lhe falta
- Quase no fim Cloanto, em cujo alcance
- Urge com sumo afinco. Esperta a grita,
- Aura geral o instiga a lhe dar caça,
- E ribomba o fragor no espaço etéreo.
- Uns raivam de perder o ganho e as honras,
- Trocam pela vitória a própria vida;
- Alenta os outros o sucesso: podem,
- Porque julgam poder. E compartiram
- Parelhos esporões talvez o prêmio,
- Se em rogos solto, ao ponto as mãos tendidas,
- A si Cloanto os numes não chamasse:
- “Ó deuses, cujo império equóreo trilho,
- Voto alegre imolar-vos nestas praias
- Branco touro, e entornando castos vinhos
- As entranhas verter no salso argento.”
- Disse: e o coro de Forco e das Nereidas
- De baixo o atende, e Panopéia virgem;
- Té do ancião Portuno o braço grande
- O empurra: mais que Noto ou leve xara,
- A nau se lança à terra, e o porto ganha.
- Ao povo o Anquíseo, com pregões do estilo,
- Então proclama vencedor Cloanto,
- Venda-lhe a fronte com virente louro;
- De prata um mor talento às naus, de mimo.
- Três novilhos à escolha e vinhos manda;
- Com dons especiais distingue os chefes.
- Ao vencedor, orlando-a recamada
- Púrpura melibéia em dois meandros,
- Áurea clâmide anexa: inda na tela
- Régio menino, sôfrego, açodado,
- No Ida selvoso os despedidos cervos
- Corre e a dardo os fatiga; e lá nas garras
- Altaneira às estrelas o arrebata
- A armígera de Jove; embalde as palmas
- Velhos aios levantam, contra as auras
- Dos galgos o ladrar se assanha embalde.
- Ao segundo em valor, de fina malha,
- Que o decore e defenda, auritrílice
- Loriga dá, que a Demoleu vencido
- Ante o rápido Simois, de Ílio às abas,
- O herói tirou: multíplice a textura,
- Mal carregavam-na ajoujados pajens
- Sagaris e Fegeu; com ela o dono
- Punha em vil fuga os Troas. O terceiro
- Dois caldeirões de cobre e umas navetas
- De prata obteve com gentis relevos.
- Já se ia cada qual soberbo e rico,
- De puníceos listões bandada a fronte,
- Quando apenas Sergesto, à força de arte
- Do sevo escolho despegado, a barca,
- De remos falha, um bordo raso e débil,
- Traz inglório entre vaias. Qual serpente,
- Se no lombo da estrada a colhe oblíqua
- Ênea roda, ou com seixo grave a esmaga,
- Deixando-a semi-morta, o viandante;
- Fugindo em vão se torce em largos orbes;
- Parte feroz sibila, incende os olhos,
- Altiva empina o colo; manca em parte
- Pelo golpe, retém-se, e enovelada
- Em seus membros se implica e se revolve:
- Tal vogando a nau tarda se movia;
- Mas, cheio o pano, à vela a foz remonta.
- Salvos navio e gente, alegre Enéias
- A Sergesto não falta: a Cressa Fóloe,
- Perita escrava em obras de Minerva,
- Doa-lhe, e os gêmeos filhos que amamenta.
- Findo o jogo, a relvado ameno vale,
- Que outeiros fecham curvos e frondosos,
- Passa Enéias: milhares o acompanham
- Ao circo teatral que entremeava,
- E, a turba acomodada, o herói se assenta.
- Com dons que expõe de preço, excita a quantos
- Certar queiram na rápida carreira.
- Mistos concorrem Teucros e Sicanos:
- Primeiros Niso e Euríalo, este em verde
- Juventude e beleza, aquele insigne
- Do moço em pio amor; depois, Diores,
- Priâmeo garfo egrégio; e logo Sálio
- Com Patron, um Tegeu de arcádio sangue,
- De Acarnânia o segundo; e os de Trinácria
- Jovens monteiros, Hélimo e Panopes,
- Que assíduos ao bom velho a selva batem;
- E muitos que sepulta escura fama.
- Deles o herói cercado: “Ouvi-me atentos,
- Folgai, mancebos; que nenhum sem prêmio
- De mim se irá: de assacalado ferro
- A cada um darei dois gnósios piques,
- E de entalhos de prata uma bipene.
- Terão de flava oliva ornada a fronte
- Os vencedores três: guardo ao primeiro
- Magnífico ginete ajaezado;
- Ao outro, cheia de treícias frechas
- Uma aljava amazônia, à qual circula
- Boldrié largo de ouro, e ata fivela
- De arredondada gema; o derradeiro
- Com este argólico elmo vá contente.”
- Todos postados, ao sinal que escutam,
- Solto chuveiro, à despedida rompem,
- Do ponto pelo corro se desparzem,
- Olhos fitos na meta. Os contendores
- Transpõe Niso, e ligeiro deslumbrando
- Excede os ventos e do raio as asas.
- Segue-o, mas com larguíssimo intervalo,
- Sálio. Não longe, Euríalo é terceiro.
- Hélimo é quarto. Próximo Diores
- Arranca, e ao ombro a vezes se lhe encosta,
- Roça-o de ilharga, artelho com artelho:
- E houvesse espaço, avante escapulira,
- Ou balançara ao menos a vitória.
- Quando ao termo afrontados se apropínquam,
- Niso escorrega dos novilhos mortos
- No cruor que a verdura e o chão molhara.
- Já de vencida e ovante, o infeliz moço,
- Titubando-lhe os pés, de bruços tomba
- Sobre o sagrado sangue e esterco imundo.
- Mas não lhe esquece Euríalo querido:
- A resvalar se erguendo, a Sálio opõe-se,
- Que tropeça e revolto jaz na areia.
- Salta Euríalo; e, graças à amizade,
- Voa o primeiro com ruidoso aplauso.
- Vence Hélimo em segundo, e alfim Diores.
- A amplidão da platéia atroa Sálio,
- Perante os padres reclamando a glória
- Que se lhe rouba. A Euríalo defende
- Geral favor, e as lágrimas decoras,
- E a virtude mais bela em gentil corpo.
- Gritando o apoia com fervor Diores,
- Que, último vindo, a palma não consegue,
- Se conferem a Sálio as mores honras.
- Decide Enéias: “Sossegai, mancebos,
- Que do triunfo a ordem não se altera:
- Compadecer me caiba o insonte amigo.”
- E a Sálio dá velosa e de áureas unhas,
- A de um leão numídio ingente pele.
- Niso aqui: “Dos vencidos que resvalam
- Se hás dó tamanho, a Niso o que reservas,
- Que, a não ter ao de Sálio igual desastre,
- Merecera a coroa e a primazia?”
- E ao falar mostra a cara e os membros torpes
- De atra sangueira. O padre riu benigno,
- E um, que do umbral sagrado de Netuno
- Os Danaos despregaram, trazer manda
- Broquel didimaônio, obra excelente
- Com que brinda e compensa o moço egrégio.
- Quando os cursos termina e os dons reparte:
- “Agora quem valor no peito encerra
- Sus, os braços levante, as mãos ligadas.”
- Então propõe dois prêmios da peleja:
- De ouro coberto e fitas, um novilho
- Ao vencedor; fino elmo e fina espada,
- Ao vencido conforto. Sem demora
- Dares, entre murmúrios e alvoroto,
- Sai a terreiro, válido e robusto:
- É quem soía combater com Páris:
- E a Butes giganteu, que vir de Amico,
- Rei de Bebrícia, invicto blasonava,
- Junto à campa do excelso Heitor ferindo,
- Moribundo o estendeu na fulva areia.
- Tal o campeão se ostende: espadaúdo,
- Alta a cabeça, alterno os braços tesos
- Esgrime, e açoita os ares com punhadas.
- Buscam-lhe um contendor: nenhum de tantos
- Ousa contra o varão travar dos cestos.
- Triunfo pois cantando, aos pés de Enéias
- Ficou; sem mais detença, ao touro os cornos
- Da esquerda ferra e diz: “Se a contrastar-me
- Ninguém, filho da deusa, aqui se afouta
- Que me retém? que espero? O touro ordena
- Me conduzam.” Nos seus lavra um sussurro,
- Querem que se lhe entregue. Eis volto Acestes
- A Entelo ao pé sentado em leito ervoso,
- Turvo o acoima e aguilhoa: “Ó dos antigos
- Tu fortíssimo herói, sofres, Entelo,
- Que prêmios tais se levem sem combate?
- Onde Erix, nosso deus, frustrado mestre,
- Onde o renome teu, que enche a Trinácria,
- E os cem troféus que nos salões penduras?”
- “O medo, retorquiu-lhe, o amor da glória
- Não me embotou; mas tardo gela o sangue,
- E o vigor se me esfria e se entorpece.
- A me assistir a idade em que ora ufano
- Confia esse arrogante, eu sim viera,
- Não do preço movido ou guapo touro:
- De interesses não curo.” E nisto à praça
- Dois cestos arrojou desmesurados,
- Que o bravo Erix nos prélios maneava,
- No duro tergo os braços enlaçando.
- Tudo enfiou: de bois sete amplos coiros
- Reforçava cosido o ferro e o chumbo.
- Dares é que mais pasma e até recusa:
- O bizarro Anquisíades sopesa,
- Volve a enleada massa e vulto enorme.
- “Quanto mais, torna o velho, se alguém visse
- Os de Hércules tremendo, e a luta infausta
- Sobre esta mesma praia! Ei-las, Enéias,
- Do teu valente irmão contempla as armas,
- De cérebro e de sangue inda com laivos.
- Com elas arrastou-se ao próprio Alcides;
- Servi-me eu delas, quando me aquecia
- O verdor, nem velhice porfiosa
- Pelas fontes esparsa branquejava.
- Mas se rejeita o Frígio as armas nossas,
- Com Enéias se aprova o autor Acestes,
- Não temas, renuncio os coiros D’Erix;
- Despe esses teus: iguale-se a contenda.”
- Do ombro dúplice capa então desprende,
- Desnuda a ossada, as juntas e os lagartos;
- Musculoso e nervudo está na arena.
- Cestos iguais presenta o Anquísio padre,
- E ata-os às palmas de ambos. Sobre os dedos
- Cada qual se endireita, e no ar os pulsos
- Vibra intrépido e firme. Árdua a cabeça
- Do vulnífico aceno atrás afastam;
- Misturam mãos com mãos, e a pugna incitam.
- Um por moço é ligeiro; outro é forçoso,
- Grande e membrudo, mas dos joelhos frouxo,
- Tardo e tremente, a vastidão lhe agita
- Egro anelar. Muita ferida baldam,
- Muita no lado côncavo amiúdam;
- Os peitos aos varões harto rouquejam;
- O punho erra por fontes, por ouvidos;
- Ao crebro áspero embate os queixos ringem.
- Afincado num posto, o grave Entelo
- Aos tiros vigilante o corpo furta.
- Dares, como quem bate uma alta praça,
- Ou rouqueiro castelo opugna e cerca,
- Por esta aberta e aquela, o assalta e urge;
- Frustra os tentames, os ardis malogra.
- Minaz Entelo se alça, e a destra brande;
- O outro prevendo o sobranceiro bote,
- Num salto o esquiva: Entelo pelas auras
- Derrama as forças, por si mesmo em terra
- Com o vasto peso mais pesadamente
- Rui, como em cimos do Ida ou no Erimanto
- Desraigado baqueia oco pinheiro.
- Frígios, Trinácrios, êmulos consurgem;
- Monta o clamor ao céu; primeiro acode
- E ergue Acestes com pena o eqüevo amigo.
- Sem perturbá-lo a queda, o herói mais agro
- Volta impávido à luta, e a ira o esforça;
- Pejo, cônscio valor o abrasa, e ardendo
- Rápido pelo campo acossa a Dares:
- Ora a destra, ora a esquerda os golpes dobra.
- Nem respiro, nem pausa: qual nos tetos
- Saltão granizo crepitando chove,
- Tal com uma e outra mão basta pancada
- Desfecha, e traz num vórtice o contrário.
- Que o furor se encrueça, e Entelo em sanha
- Mais se exaspere, o padre o não consente:
- À pugna se interpondo, ao moído jovem
- Salva, e o mitiga assim: “Que insânia a tua!
- Triste! um poder não sentes sobre-humano?
- Cede ao nume.” E falando a briga aparta.
- Fiéis sócios com Dares, que a nutante
- Cabeça e os fracos joelhos mal sustendo,
- Mistos coalhado sangue e dentes cospe,
- Vão-se às naus; advertidos, com a espada
- O elmo tomando, a rês e a palma deixam
- Ao vencedor, que altivo se ufaneia:
- “Olhai, de Vênus filho, e vós Troianos.
- O que eu seria em moço, e a morte certa
- De que o livrastes.” Pára, em se afrontando
- Ao touro, prêmio seu, que em pé se tinha,
- Libra-se a prumo, atrás retira a destra,
- Entre os cornos assenta os duros cestos,
- Quebra-lhe o crânio, o cérebro esmigalha:
- Prostra-se, arca e no chão se estira o boi.
- Sobre ele o herói exclama: “Em vez do Frígio
- Melhor te sagro est’alma; os cestos, Erix,
- E a arte vitorioso aqui reponho.”
- Já, com dons, a quem jogue a seta alada
- Convida Enéias; faz que a gente erija
- Do baixel de Seresto um mastro, e apensa
- Do tope num cordel volante pomba,
- Alvo dos tiros. Os varões concorrem,
- E em brônzeo capacete as sortes lançam:
- Começou pelo Hirtácio Hipocoonte
- Com ruidoso favor; Mnesteu seguiu-se,
- Mnesteu que inda cingia a verde oliva
- Do certame naval; saiu terceiro
- Seu irmão Euricion, Pândaro exímio,
- Que, mandado a romper outrora os pactos,
- Contra os Aqueus a vira disparaste:
- Do elmo ficou no fundo o velho Acestes,
- Que lidas juvenis tentar ousava.
- Com ânsia cada qual seu fléxil arco
- Forte encurva, e da aljava o tiro apronta.
- Primeiro o Hirtácio, o nervo rechinando,
- Zimbra agilíssimo as volúveis auras,
- E no fronteiro mastro a ponta ferra:
- Treme a árvore, assustada esvoaça a pomba,
- E em roda estronda o aplauso. Árdego e lesto,
- Arma o lanço Mnesteu, põe alto a mira,
- Olhos estende e a seta: ah! que não pôde
- Na ave tocar; do pé só quebra os fios
- De que inexa pendia: ela adejando
- Por entre notos e negrumes foge.
- Mas, prestes e embebida a frecha tendo,
- Invocando Euricion fraterno auxílio,
- Fita a que o céu fendendo aleia e exulta,
- E sob a nuvem bruna a encrava: a pomba
- Cai morrendo, e nos astros larga a vida,
- E traz caindo a farpa atravessada.
- Resta Acestes sem palma; e o tiro aos ventos,
- Do arco sonoro e de arte gloriando,
- Enfim remete. Aqui súbito ocorre
- Monstro e agouro espantoso, que o futuro
- Vindo aclarar, terrífícos os vates
- Tarde o cantaram; pois que ardeu, voando,
- E ígneo sulco traçou na etérea via
- A haste arundínea, e em ar se esvaiu tênue:
- Qual se descrava a estrela, o céu transcorre,
- E no vôo inflamada arrasta o crino.
- Frígio ou Trinácrio, estáticos de assombro,
- Levantam preces: nem repulsa o aviso,
- Mas a Acestes abraça o herói prestante,
- Largo o premeia, e ajunta: “Aceita, ó padre,
- Senão da sorte, por insigne auspício
- Do sumo rei do Olimpo, esta esculpida
- Cratera, deixa do longevo Anquises;
- Gage, com que o prendou Cisseu de Trácia,
- De amizade e lembrança.” E às fontes o orna
- De verde louro, vencedor o aclama:
- Sem ciúme Euricion, que só das nuvens
- A ave precipitou, de grado acede.
- Entra o que o nó desfez próximo em honras;
- Último, a frecha quem pregou no tronco.
- Inda os certames não despede Enéias;
- Chama a Epítides; aio e companheiro
- Do impube Iulo, e diz-lhe à puridade:
- “Anda; e Ascânio, se instruto o eqüestre ludo
- E os meninos já tem, que as turmas guie,
- E em memória do avô se mostre em armas.”
- Dali faz que esvazie o infuso povo,
- E haja campo. Ante os pais, medindo o passo,
- Por igual em cavalos enfreados
- Os meninos relumbram. Surpreendida
- Freme a sicana e teucra mocidade.
- Do uso os coroa tonsa rama: trazem
- Dois hastis de corniso em férreas choupas,
- E alguns ao ombro aljavas luzidias;
- Retorcida lhes desce áurea cadeia,
- Do colo ao peito em círculo flexível.
- Três as turmas, três chefes as percorrem;
- Sob cada chefe doze cavaleiros
- Bizarreiam, fulgindo em sua esquadra.
- Uma folga, ó Polites, de que a reja
- O teu Príamo, herdeiro de um tal nome,
- Que há de a Itália aumentar: cavalga em trácio
- Ginete bicolor de brancas malhas,
- Que a mão calça de branco, e fero ostenta
- Branca silva na testa. O guia é de outra,
- Caro ao menino Iulo, Átis menino,
- Átis o tronco dos Latinos Átios.
- Mais que todos formoso, o lindo Ascânio
- Trota postremo num corcel fenício,
- Que em monumento e prova de ternura
- Deu-lhe a cândida Elisa. O resto monta
- Em trinácrios frisões do velho Acestes.
- Pávidos marcham; dos avós retratos,
- Com júbilo os aviva o tróico aplauso.
- Depois que alegres ante os seus campeiam,
- Prontos à senha, Epítides gritando
- Longe o flagelo estala. A par desfilam,
- Formam-se em corpos três, e à voz dos cabos
- Infestas lanças, desandando, enristam.
- Carreiras a carreiras contrapondo,
- Voltas impedem com trocadas voltas;
- Baralham-se em renhida escaramuça,
- De um conflito arremedo: ora dão costas,
- Ora atacam de frente; ou, pazes feitas,
- Levam-se emparelhados. N’alta Creta
- O labirinto, é fama que o teciam
- Paredes cegas, mil dolosas ruas
- De incompreendido error, que inextricável
- Enganados vestígios transviava:
- Não com diverso enredo embaraçada,
- A prole teucra folgazã correndo,
- Fugas urde e pelejas; como a nado,
- No úmido pélago os delfins brincando,
- Ondas carpátia e líbica retalham.
- Ao munir Alba-longa, estes Ascânio
- Cursos, torneios, quais jogou na infância,
- No prisco Lácio introduziu: de Albânia
- Transmitiram-se a Roma; e Roma augusta
- Em honra avita os guarda: o jogo Tróia,
- O pueril esquadrão se diz Troiano.
- Ao divo padre a festa ia findar-se:
- Instável a fortuna então falseia.
- Durante os ludos fúnebres Satúrnia
- Envia à tróica armada Íris celeste,
- Com ventos a aligeira, e em cem projetos
- A inveterada queixa não sacia.
- Pelo arco multicor, de golpe a virgem
- Ganha um declive atalho; atenta invisa
- Tropel tão basto, e vê, lustrando as praias,
- Deserto o porto, abandonada a frota.
- Lá sós, em borda escusa, o morto Anquises
- As Troades choravam, e o profundo
- Ponto olhavam chorando: “Ai! tão cansadas
- Que abismo que nos resta!” à uma exclamam.
- Pedem cidade; a rota longa entejam.
- Nada inóxia, deposto e o trajo e o vulto,
- Chega-se a deusa, em Béroe disfarçada,
- Cônjuge anosa do Ismaro Doriclo,
- Célebre dantes por fecunda e nobre;
- Entre elas se insinua, e diz: “Mesquinhas!
- Que às mãos gregas a morte não tragámos
- Sob os muros da pátria! Infeliz gente!
- A que exício a desgraça te reserva?
- Volvem sete verões que, acesa Tróia,
- Fretos medindo, inóspitos rochedos,
- Climas tantos e céus, por mar tamanho
- Da fugitiva Itália em busca, vamos
- Pelas ondas rolando. Hóspede Acestes,
- D’Erix quem lhe obsta no país fraterno
- A nos fundar cidade? Ó pátria! ó numes
- Do inimigo sem fruto arrebatados!
- Nunca um sítio verei que eu chame Tróia?
- Nunca os rios de Heitor, um Xanto, um Simois?
- Presto, abrasai comigo infaustas popas.
- Cassandra em sonhos, dando acesas tochas,
- Me bradava esta noite: Ílio aqui tendes,
- Aqui vossa morada. Obrai, que é tempo;
- Nem tais prodígios dilação permitem:
- Eis sacros a Netuno altares quatro;
- O mesmo deus ministra ânimo e fachos.”
- Nisto, agarrando infenso, a destra eleva,
- Brande um tição com força, e coruscante
- O propele. As Ilíades suspensas
- De espanto enfiam. Pirgo, a mais idosa,
- Que tantos filhos a seu rei criara:
- “Esta, ó matronas, disse, a de Doriclo
- Béroe não é Retéia: o ar divino,
- O garbo lhe notai, da vista o fogo,
- O hálito, o som da voz, o andar e o gesto,
- A Béroe eu venho de deixar doente,
- Pesando-lhe só ela em tais exéquias
- Faltar com dons e merecido pranto.”
- Cala; e as matronas os malignos olhos
- Nos lenhos cravam, balançando ambíguas
- Do ficar entre o mísero desejo
- E as fatídicas ordens; quando as asas
- Libra e desfere a deusa, e à retirada
- Assinala entre as nuvens arco ingente.
- Em fúria, do prodígio estupefactas,
- Do imo foco bramindo a chama tiram:
- As aras despojando, às naus remessam
- Galhos, folhas, tições: Vulcano em bancos
- E em remos enfurece, à rédea solta
- Raiva de abeto nas pintadas popas.
- Ao sepulcro, à platéia, Eumelo a nova
- Do incêndio leva; e em rolo atra fagulha
- Se enxerga a revoar. Primeiro Ascânio,
- Quão ledo conduzia a eqüestre pugna,
- Ágil galopa aos arraiais turbados;
- Aios retê-lo exânimes não podem.
- “Que tentais, cidadãs? que insânia! ai tristes!
- Não pavilhões hostis, não graias quilhas,
- Queimais vossa esperança. Aqui me tendes,
- Eis vosso Ascânio.” E aos pés o elmo vão lança,
- De que armado exercia a falsa guerra.
- Enéias se acelera, e o frígio bando.
- A buscar brenha ou lapa em que se escondam,
- Pelas praias com medo elas se esgarram:
- À luz fogem de pejo, e arrependidas
- Juno removem d’alma, aos seus tornadas.
- Nem por isso domou-se a voraz peste:
- Sob o molhado roble viva a estopa
- Tardo fumo vomita, e o vapor lento
- Rói os porões, no âmago se ateia;
- Não valem jorros d’água e heróico esforço.
- Dos ombros rasga a veste, e aos céus Enéias
- Súplice as palmas tende: “Ó Jove excelso!
- Se um por um, padre, os Frígios não detestas,
- Se inda humanos trabalhos te apiadam,
- Da chama agora a frota me preserves,
- D’Ílio a tênue relíquia ao menos poupes;
- Ou, que mais resta? esmague-me o teu raio,
- Mata-me, se o mereço.” Acaba; e ronca
- Desmedida, furiosa, atra procela,
- Dos trovões estremece o monte e o vale;
- Turvo, engrossado pelos densos austros,
- Aguaceiro estupendo alaga as popas:
- Semi-ardidos carvalhos se umedecem,
- Té que extinto o vapor, tragadas quatro,
- No corpo das demais cessa o contágio.
- Do agro desastre Enéias combatido,
- Cem razões versa n’alma, hesita incerto
- Se na fértil Sicília esqueça os fados,
- Ou se à Itália prossiga. O velho Nautes,
- Sábio adivinho de Minerva aluno,
- Tramas de irosos deuses explicando
- E o que ordena o destino, assim o anima:
- “Da fortuna aos vaivéns nos resignemos,
- Ó dionéia prole; em todo aperto
- Sofrendo é que se vence a adversidade.
- Tens cá divina estirpe, o tróico Acestes:
- Consulta o seu querer. Das naus combustas
- Lhe confia o sobejo, e os que se anojam
- Da empresa tua; as aborridas madres,
- Decrépitos e inválidos segrega,
- E os que afrontar contigo os riscos temem:
- Em terra hajam descanso; ergam cidade,
- A que Acestes conceda o nome Acesta.”
- Nos conselhos do amigo o herói se acende;
- Mas os projetos seus medita e pesa.
- Na biga a parda Noite o pólo ocupa:
- Eis do céu deslizando a sombra anquísea
- Tais vozes difundir se lhe afigura:
- “Filho, que em vida mais amei que a vida,
- Filho, a quem de Ílion molesta o fado,
- A ti me expede Jove, que do Olimpo
- Doeu-se e desviou da armada o incêndio.
- De Nautes o maduro aviso adota:
- Vais debelar gente áspera indomada;
- Dos teus conduz ao Lácio a flor guerreira.
- D’antemão baixa a Dite e ao centro escuro;
- Pelo alto Averno, ó filho, vem falar-me:
- Não no ímpio Tártaro, entre os manes tristes;
- Moro sim, entre os bons, no Elísio ameno.
- Muita rês negra fere, e a mim te guie
- Casta Sibila; aprenderás teus netos,
- E o dado império. Adeus, que úmida a noite
- Vira e descai, e já do sevo oriente
- Respirando os Etontes me bafejam.”
- Disse, e em ar se esvaece. “Onde, onde partes?
- Tem-te, espera; a meus braços quem te arranca?”
- Tal Enéias discorre, e esperta o lume
- Sopito em cinza; humilde à branca Vesta
- O sacrário venera e os teucros lares,
- Com turíbulo pleno e farro pio.
- Depois consulta o rei, declara aos sócios
- De Jove o mando, os paternais preceitos,
- E o seu pensar. De pronto anui Acestes.
- Para a cidade o vulgo e as mães se alistam,
- Almas a quem não toca o amor da glória.
- Gastos robles da chama outros renovam,
- Remos, bancos, enxárcias aparelham;
- Poucos sim, mas de vívida coragem.
- Risca os muros Enéias com o arado;
- Sorteia as casas; manda ali ser Tróia,
- Pérgamo ali. Do aumento folga Acestes;
- O senado institui, regula o foro.
- Templo, aos astros vizinho, à deusa Idália
- No Erix se eleva; ao túmulo de Anquises
- Um luco amplo se anexa e um sacerdote.
- Festins e oblatas novenais se fazem,
- Enquanto aragem meiga aplane as vagas.
- Fresco ao largo de novo o sul convida:
- Nas curvas praias se ouve um mesto choro;
- Dia e noite abraçados se demoram.
- E agora as mães, e aqueles que assustava
- Do áspero mar a torva catadura,
- As fadigas do mar padecer querem.
- Terno os conforta, e lagrimoso Enéias
- Ao régio consangüíneo os recomenda.
- A Erix vitelos três e às tempestades
- Cordeira imola, e vai desamarrando.
- Tonsa oliva na testa, em pé na proa,
- Taça na destra, as vísceras despeja,
- De estremes vinhos o salgado asperge.
- De popa o vento surge; e os navegantes
- Varrem, qual mais, as percutidas ondas.
- Entretanto, a Netuno aflita Vênus
- Tais queixas despregou: “Senhor, a ativa
- Atroz ira de Juno insaciável
- Me abate a suplicar. Nem dó, nem tempo,
- Jove nem destino, infandos ódios
- Quebra ou lhe adoça. Haver não basta aos Frígios
- Consumido e apagado a grã cidade,
- E as relíquias trazer de transe em transe;
- De Tróia inda persegue a cinza e os ossos:
- Desta sanha o motivo ela que o saiba.
- Longo não há que em Líbia (és testemunha)
- Mal afouta em Eolo, o pego em brenhas,
- Misturou de repente os céus e os mares:
- E isto ousar em teus reinos! Ei-la, oh crime!
- Iliça as Teucras, incendeia as popas,
- Naus estraga, e a largar meu filho obriga
- Sócios em terra estranha. O resto, ó padre,
- Possa, eu to rogo, navegar seguro;
- Aborde, se é que as Parcas lho concedem,
- Ao Tibre laurentino e assentos funde.”
- Do alto oceano o domador Satúrnio:
- “É justo, respondeu, que em mim confies
- E em reinos, Citeréia, origem tua.
- Mereço-o; que não raro hei por teu filho
- Marulhos comprimido e o céu raivoso.
- Nem menos (testefique o Xanto e o Simois)
- Dele em terra curei: quando às muralhas
- Pálidas turmas rebatendo Aquiles,
- Milhares dava à Estige e o Xanto, os rios
- Entulhados gemendo, não sabia
- Como volver-se ao mar; eu mesmo em nuvem
- Cava ao Pelides fero Enéias roubo,
- Que, ímpar em força e divos, o acomete;
- Bem que anelasse, destas mãos erectos,
- D’Ílio extirpar os fementidos muros,
- No mesmo ânimo estou; bane os temores.
- Aportará no Averno quem desejas:
- Deve um só perecer no aquoso fundo;
- Uma cabeça pagará por todos.”
- Tendo assim animado a leda Vênus,
- Junge os brutos, e impondo espúmeos freios,
- Ele a brida relaxa, e à tona equórea
- Voa de leve no cerúleo carro:
- Cai sob o eixo tonante o inchado argento,
- Amansa a vaga, espalham-se os negrumes.
- Surde a marinha escolta: Glauco e Forco,
- Seu velho coro, formidáveis cetos,
- Tritões ligeiros, Melicerta Inôo;
- Tétis à esquerda, Pánope e Niséia,
- Melite e Spio, Cimódoce e Tália.
- Brandos gostos revezam-se de Enéias
- Na mente absorta: erguer faz logo os mastros,
- Desenvergar o pano e desfraldá-lo.
- Toda a frota num ponto escotas ala;
- Solta a bombordo os seios, a estibordo;
- Árduos os lais braceia, rebraceia;
- Té que o sopro à feição lhe enfuna as velas.
- Palinuro abre o rumo à densa armada;
- De lhe irem na conserva os mais têm ordem.
- Da celeste baliza ao meio a noite
- Já rórida atingia; de cansaço
- Por duros bancos a maruja os membros
- Em seus remos pousava: é quando o Sono
- Do éter sidéreo plácido escorrega,
- Afugenta e dissolve a espessa treva;
- Busca-te, Palinuro, a ti mesquinho
- Funestos sonhos traz: na popa, em Forbas
- Transformado, se assenta, e arteiro fala:
- “Iaside Palinuro, ao som das águas
- Desliza a frota; a viração é certa;
- Encosta a fronte, as pálpebras descansa,
- Furta uma hora ao trabalho: espaço breve
- Tomo o teu cargo.” Palinuro os olhos
- Descerra a custo: “Queres que eu, lhe torna,
- Creia em tal monstro, em céu risonho estribe?
- Que entregue Enéias a traidores austros?”
- Em discursando, ao clavo mais se aferra,
- Fito os astros contempla: as fontes ambas
- Eis lhe borrifa, em Letes embebido,
- Por força estígia um ramo soporado;
- Nadam-lhe os frouxos renitentes lumes.
- Indo-lhe adormecendo o corpo laxo,
- Morfeu se achega; ao líquido elemento,
- Com pedaço da popa e o leme, o empurra:
- Despenha-se ele, em vão clamando aos sócios;
- O deus nos ares desapareceu.
- Inda assim, em Netuno assegurada,
- Sulca impávida a frota o plaino amaro:
- Já remonta os cachopos das Sereias,
- Que, então riscosos, de ossos alvejavam;
- Roucas do salso choque as rochas soam.
- Sem piloto à matroca o barco Enéias
- Sente, e em pessoa por noturnas ondas
- Magoado o rege, lamentando o amigo:
- “Ai! nu, que em céu fiaste e em mar tranqüilo,
- Jazerás, Palinuro, em praia ignota”.