Pular para o texto
EneidaLivro VIII
LivroVIII

Mal Turno, os cornos rouco estrepitando

730 versos · 13 notas do tradutor


  1. Mal Turno, os cornos rouco estrepitando,
  2. Pendões arvora no laurente alcáçar,
  3. E os brutos afogueia e incita as armas,
  4. Revolto o Lácio em trépido tumulto
  5. Se conjura, e esbraveja a mocidade.
  6. Chefes Messapo e Ufente, o ateu Mezêncio,
  7. Organizando levas, despovoam
  8. Toda a campanha. A requerer o auxílio
  9. Do grã Diomedes, Vênulo deputam;
  10. A informar que, abordado há pouco Enéias,
  11. Os vencidos penates recolhendo,
  12. Rei se inculcava por querer dos fados;
  13. Que atrai cem povos, e n’Ausônia lavra
  14. Seu prestígio. Ao que tenda, e o que resulte
  15. Se a fortuna o insufla, é manifesto
  16. Mais a Diomedes que a Latino ou Turno.
  17. Derramada a notícia, o Laomedôncio
  18. Em cuidados flutua, e a mente vaga
  19. Divide e agita, a meditar em tudo:
  20. Como em bacia d’água o tremulante
  21. Raio da Lua ou Sol, repercutido,
  22. A regirar volúvel, monta aos ares
  23. Do sumo teto os artesões ferindo.
  24. Noite era; e gados, aves e alimárias,
  25. Quando lassos na terra adormeciam,
  26. Dos perigos aflito, à riba Enéias,
  27. Tardo repouso aos membros concedendo,
  28. Sob o eixo do céu frio recostou-se.
  29. Deus do sítio, a surgir do leito ameno,
  30. Entre alemos se antolha o Tiberino:
  31. Ao velho tênue bisso um verdoengo
  32. Sendal compõe, e a touca umbrosa cana.
  33. Ao Teucro fala e o peito lhe mitiga:
  34. “Divo renovo, que dos Gregos salva
  35. Pérgamo eterna à Hespéria nos transportas,
  36. Nestas laurentes veigas esperado,
  37. Casa tens certa, certos os penates;
  38. Avante! não te assuste a feia guerra:
  39. O tumente furor cessou dos deuses.
  40. Por que isto um sonho fútil não reputes,
  41. Em litóreo azinhal grande alva porca
  42. Deitada encontrarás parida, e em roda
  43. Nela a mamar trinta alvos bacorinhos.
  44. Descanso aqui tereis; trinta anos voltos,
  45. Aqui fundando-a Iulo, deste agouro
  46. Alba derivará seu claro nome.
  47. Não dúbio o vaticino. O modo em suma
  48. Te ensinarei de conseguir vitória.
  49. Lá d’Arcádia emigrados que de Evandro
  50. Sob a real bandeira aqui vieram,
  51. Do bisavô Palante por memória,
  52. Em montes assentaram Palantéia:
  53. Com eles anda o Lácio em guerra assídua;
  54. O arraial em comum, liga-te a eles.
  55. Eu, por meu rio e margens te ajudando,
  56. Farei que a remos a corrente venças.
  57. Sus! roga a Juno; assim que os astros caiam,
  58. Devoto e súplice, ó de Vênus filho,
  59. O ódio minaz lhe adoça: ao triunfares
  60. Me honres depois. Sou eu que em ampla cheia
  61. Premo estas bordas, sulco e adubo as vargens,
  62. Aos céus gratíssimo, o cerúleo Tibre.
  63. Meu paço é cá, de altas cidades mano.”
  64. Disse, e imergiu-se: a noite a Enéias deixa.
  65. Desperto olhando ao lúcido oriente,
  66. Nas covas palmas, como é uso, apanha
  67. Do licor fluvial, dest’arte orando:
  68. “Ninfas, laurentes ninfas, geradoras
  69. Dos mananciais, com santa veia ó Tibre,
  70. Recebei vós a Enéias, resguardai-me.
  71. Qualquer que seja a fonte, ou lago ou solo,
  72. Donde formoso nasças e onde as nossas
  73. Penas, rio cornígero, apiadas,
  74. Sempre terás meu culto, of’rendas sempre,
  75. Tu das águas hespéricas monarca.
  76. Assim me valhas e os augúrios firmes.”
  77. Da frota escolhe então birremes duas,
  78. E de armas e remeiros as fornece.
  79. Súbito, ó maravilha! entre arvoredos,
  80. Deitada em verde ribanceira, avistam
  81. Com sua alva ninhada uma alva porca;
  82. E a ti, máxima Juno, o pio Enéias
  83. Com todo o parto a imola e te oferece.
  84. Durante a noite amaina o inchado Tibre,
  85. E em tácito remanso refluindo,
  86. Qual tanque fica-se ou lagoa estofa,
  87. Que não obste ao remar. Crenado o pinho,
  88. Com propício rumor, no equóreo plaino
  89. Ligeiro se desliza; e a onda e o bosque
  90. Arneses a fulgir de longe estranha,
  91. Estranha os bucos a nadar pintados.
  92. Afadigando à voga a noite e o dia,
  93. E os estirões e as voltas alcançando,
  94. Sob a folhuda abóbada, cortavam
  95. No aquoso espelho as verdejantes ramas.
  96. Ígneo o Sol meridiano, é quando enxergam
  97. Uns muros, um castelo e tetos raros,
  98. De Evandro haver mesquinho; que a pujança
  99. Romana elevou tanto e aos céus o iguala:
  100. Viram proas e ao burgo se aproximam.
  101. Acaso o árcade rei, num luco em face,
  102. O Anfitriônio festejava e os divos.
  103. Solene, o seu Palante, a flor dos jovens,
  104. Pobre senado, o incenso ministravam,
  105. Em cruor tépido a fumar as aras.
  106. Surdir vendo os baixéis pela espessura,
  107. E o nauta aos mudos remos debruçar-se,
  108. Das mesas todos erguem-se assustados.
  109. Veda romper-se o rito o audaz Palante;
  110. Saca uma lança e voa, e de afastado
  111. Outeiro: “O que tentar vos força, ó moços,
  112. Ignotas vias? de que partes vindes?
  113. Quem sois? onde ides? paz quereis ou guerra?”
  114. Maneando Enéias da alterosa popa
  115. Fausta oliva, responde: “Frígios dardos
  116. Te apresento e inimigos dos Latinos,
  117. Que em bárbara agressão nos repulsaram.
  118. Saiba teu rei que os principais Troianos
  119. Lhe vêm pedir junção e apoio de armas.”
  120. Logo a tal nome atônito Palante:
  121. “Salta, e a meu pai dirige-te em pessoa;
  122. Quem sejas, te agasalha em nossos lares.”
  123. E a mão lhe aperta, cordial o abraça.
  124. Transposto o rio, ao bosque se encaminham;
  125. E amigável o padre: “Ótimo Evandro,
  126. Timbre dos Graios, a fortuna enseja
  127. Que, enastrado este ramo, eu te suplique;
  128. Certo não te hei receio por Arcádio,
  129. Chefe aqueu, dos Atridas consangüíneo:
  130. Meu gosto e leal peito, oragos santos,
  131. Parentesco de avós, tua alta fama,
  132. Por fatídico impulso, a ti me enlaçam.
  133. Dárdano, de Ílio autor, de Electra nado,
  134. Para os Troas passou-se, a Grécia o afirma;
  135. Do estelífero Atlante Electra é prole:
  136. Vós de Mercúrio o sois, e em frio cume
  137. Cilênio o concebeu cândida Maia;
  138. Maia, é crença geral, o mesmo Atlante,
  139. O que os orbes sustenta, procriou-a.
  140. De um tronco somos pois. Eis por que afoito
  141. Núncios não ensaiei que te sondassem:
  142. Eu próprio, eu vim expor-me e suplicar-te.
  143. A Dáunia, que te aprema em feroz guerra,
  144. Cuida, a nos rechaçar, que nada a estorva
  145. De meter sob o jugo a Hespéria inteira,
  146. E o superior e o baixo mar que a lavam.
  147. Presta e aceita-me a fé. Briosa temos
  148. Aguerrida e valente mocidade.”
  149. Atento ao seu discurso, Evandro os olhos
  150. Curioso lhe examina e a boca e o talhe;
  151. Foi breve assaz: “Fortíssimo dos Teucros,
  152. Com que prazer te hospedo! eu reconheço
  153. De teu pai a facúndia, o tom e o gesto!
  154. A Hesíone irmã sua o Laomedôncio,
  155. Lembra-me, visitando em Salamina,
  156. Honrou-me os gelos da vizinha Arcádia.
  157. De flóreo buço a face então pungida,
  158. Bem me admirei de Príamo e seus cabos;
  159. Mas na grandeza os superava Anquises.
  160. Cúpido jovem, por tratá-lo ardia
  161. E a mão do herói cerrar: obtendo acesso,
  162. Aos muros de Feneu lhe fui companha.
  163. Partindo, insigne coldre e lícias frechas,
  164. Clâmide auribordada e uns áureos freios
  165. Deu-me, de que ora é dono o meu Palante.
  166. Confirmo aquele pacto; e satisfeitos
  167. Vou na alvorada, amigos, despedir-vos
  168. Com socorro de gente e o mais que eu possa.
  169. Entanto, embora celebrai conosco
  170. Festa anual que diferir é crime,
  171. E dos sócios à mesa habituai-vos.”
  172. Disse, e os copos repor e os pratos manda,
  173. Senta os varões na relva; em toro e pele
  174. De leão veloso a Enéias acomoda,
  175. Cede trono de bordo a herói tamanho.
  176. Moços, do antiste às ordens, lestos servem
  177. Táureas tostas fressuras, dons de Baco,
  178. De obras de Ceres cumuladas cestas.
  179. De rês inteira o dorso e os intestinos
  180. Lustrais ministram pasto ao chefe e Troas.
  181. Refreado o apetite e a fome exausta,
  182. Disserta el-rei: “De tanto nume est’ara,
  183. Esta pompa e festim, hóspede, usamos,
  184. Não por superstição que os priscos deuses
  185. Desconheça; de atroz perigo exemptos,
  186. Mérito culto renovamos gratos.
  187. Nota em penha suspensa aquela pedra:
  188. Dispersa a mole jaz, do monte a furna
  189. Deserta, e ao longe as ruínas dos rochedos.
  190. Esta, em recesso vasto ao Sol defeso,
  191. Era a espelunca do semi-homem Caco,
  192. Monstro imano; e, em recente morticínio
  193. Sempre o chão tépido, aos portais soberbos
  194. De homens saniosas lívidas cabeças
  195. Fixas pendiam. De Vulcano filho,
  196. Túrbidos fogos vomitando, a enorme
  197. Corpulência movia. Ao suspirarmos
  198. Por divo auxílio, o vingador Alcides
  199. Chega a tempo, e do espólio e morte ufano
  200. Do trigêmeo Gerion de gado enchia,
  201. Vencedor pastorando, o rio e vale.
  202. Caco, infrene e brutal, que não se abstinha
  203. Do mor flagício ou dolo, da malhada
  204. Touros quatro furtou-lhe os mais robustos,
  205. Quatro novilhas de excelente forma;
  206. E, para nenhum rasto haver direto,
  207. Puxando a cauda e a recuar, no opaco
  208. Pétreo bojo os fechou; pegada alguma
  209. Não guiava à caverna. O Anfitriônio,
  210. Já gordo o gado e farto dos pastios,
  211. Retirar-se dispunha, e os bois saudosos
  212. Monte e bosque estrugiam de queixumes.
  213. Do amplo encerro igualmente uma das vacas
  214. Muge, e de Caco as esperanças frustra.
  215. Da injúria ardendo e em negro fel, das armas
  216. Hércules pega e do nodoso roble,
  217. Corre ao cabeço aéreo. Aos nossos Caco
  218. Trêmulo e demudado aqui mostrou-se:
  219. Fugindo euros transcende, e aos pés o medo
  220. Asas lhe empresta. Já na gruta, abate
  221. Penhasco ingente, rotas as cadeias
  222. Com que acima o ligava arte paterna,
  223. E de espeques reforça e escora a entrada;
  224. Ei-lo, o Tiríntio em sanha os dentes range
  225. Acesso a perscrutar: férvido e iroso,
  226. Todo o Aventino vezes três rodeia;
  227. Três contra a sáxea porta o esforço balda;
  228. Três descansou no vale. Aguda roca,
  229. Asado ninho de funestas aves,
  230. Entre fraguras e a perder de vista,
  231. Do antro estava no dorso: à esquerda o cimo
  232. Sobre o rio inclinava; à destra Alcides
  233. Carrega, e do imo a desarreiga e impele:
  234. Ao baque repentino o etéreo espaço
  235. Retumba; e, as ribanceiras retremendo,
  236. Reflui medroso o rio. A imensa régia
  237. De Caco descobriu-se, e apareceram
  238. Umbrosos penetrais: qual se abalada
  239. Rasgasse a terra hiante o dos infernos
  240. Pálido reino, aos deuses detestável;
  241. De cá se vendo, no profundo abismo,
  242. Da luz difusa a trepidar os manes.
  243. Do súbito clarão se assusta o bruto,
  244. A urrar disforme, na caverna preso;
  245. De cima o ataca o deus, atira o que acha,
  246. Calhas e galgas e lascados ramos,
  247. Ele, ó monstro! não tendo outro refúgio,
  248. Rouba-se à vista, a jacular das fauces
  249. Tetro vapor; em cega névoa baça
  250. Envolve a gruta, e mescla a luz e as trevas,
  251. A fumífera noite aglomerando.
  252. Não o suporta Alcides, e de um pulo
  253. Se arroja onde corisca e ondeia o fumo,
  254. E em caligem mais basta a cova estua.
  255. No incêndio vão que expira agarra a Caco,
  256. O estreita e afoga, e lhe esbugalha os olhos,
  257. Seco na goela o sangue. Arranca as portas,
  258. O antro escancara escuro; os bois e os furtos
  259. Abjurados ao claro patenteia.
  260. O corpo informe pelos pés arrastam:
  261. Ninguém do semífero a catadura
  262. De olhar se cansa, e os peitos sedeúdos,
  263. E na garganta os apagados fogos.
  264. D’então ledos o dia celebramos;
  265. Primeiro o fez Potício, e a consagrada
  266. Pinária tribo ergueu no bosque est’ara,
  267. Chamada sempre máxima, e que sempre
  268. Máxima nos será. Mancebos, eia,
  269. Brindai-me a nobre ação, de destra em destra
  270. Os copos a girar, frondosa a coma,
  271. Comum deus o invocai, bebei contentes.”
  272. Presto as cãs lhe entretece e enfolha o choupo
  273. De sombra hercúlea, bicolor pendendo;
  274. Sagrado sifo empunha. Alegres todos
  275. Em roda libam, deprecando os numes.
  276. Já Vésper ao declive Olimpo avança:
  277. Tochas nas mãos, do estilo as peles cintas,
  278. Potício à frente, os sacerdotes cobrem
  279. De gratos postres a instaurada mesa;
  280. Bandejas de mil dons o altar oneram.
  281. Com popúlea capela, em torno os Sálios
  282. Da ara incensada ao cântico presentes,
  283. Jovens em coro, em coro o entoam velhos
  284. De Hércules em louvor: como estupendos
  285. Os dragões da madrasta esmaga infante;
  286. Como as grandes arrasa Ecália e Tróia;
  287. Como, o sabor de Juno, árduos trabalhos
  288. Sob Euristeu passou. “Tu mesmo, invicto,
  289. A Folo e Hileu, nubígenas bimembres,
  290. Tu cretenses prodígios, tu mataste
  291. Na brenha o leão Nemeu desmesurado.
  292. De ti a Estige, na cruenta cova
  293. Tremeu do Orco o porteiro, sobre ossadas
  294. Meio roídas a jazer. Fantasma
  295. Nenhum lá, nem Tifeu de cota enorme
  296. Te foi terror; não te esmorece e atalha
  297. Da hidra Lernéia a turba de cabeças.
  298. Salve, ornamento aos divos acrescido,
  299. Vera prole de Jove: ao teu festejo
  300. Com pé desce propício, e nos assistas.”
  301. Cantam proezas tais; por fim memoram
  302. A furna e Caco resfolgando chamas.
  303. Ressoa a selva e o eco nos outeiros.
  304. Cheia a função, para a cidade voltam.
  305. El-rei de anos cercado ia adiante,
  306. Entre Enéias e o filho, em vários modos
  307. Praticando o caminho aligeirava.
  308. Por tudo ávido o herói passeia os olhos,
  309. Mira, e cada vestígio dos maiores
  310. Inquire e aprende. Evandro, que os primórdios
  311. Lançou da celsa Roma, então começa:
  312. “Indígenas moravam nestas matas
  313. Faunos e ninfas, e homens raça dura
  314. Dos robles; que nem bois jungir sabiam,
  315. Adquirir, nem poupar, sem lei, sem culto;
  316. Montês caça os mantinha e agrestes frutas.
  317. De Júpiter fugindo, aqui Saturno
  318. Do Olimpo veio, expulso do seu trono.
  319. Selvagem povo indócil ajuntando,
  320. Legislou, chamou Lácio a plaga antiga,
  321. Onde um latente couto deparara.
  322. No célebre reinou século de ouro,
  323. De justiça e de paz; mas pouco a pouco
  324. Em pior descorou-se a idade nossa,
  325. Raiva belaz surgindo e atroz cobiça.
  326. De Ausônios e Sicanos invadida,
  327. Variou de nomes a satúrnia terra:
  328. De um seu rei, Tibre aspérrimo gigante,
  329. O Albula velho apelidou-se Tibre.
  330. Cá nos confins do pego, expatriado,
  331. A onipotente sorte inelutável,
  332. De minha mãe Carmenta o sério aviso
  333. E Apolo inspirador, me depuseram.”
  334. Progredindo, ele mostra o altar e a porta
  335. Que se intitula Carmental em Roma,
  336. Por memória da ninfa que primeiro
  337. Fatídica os Enêiadas sublimes
  338. E o brilho palanteu vaticinara;
  339. Mostra a mata em que asilo abriu Quirino
  340. Sagaz, e o Lupercal, gélida gruta
  341. De Pã liceu, vocábulo parrásio;
  342. Mostra o Argileto bosque, e atesta e narra
  343. De Argos hóspede a morte merecida.
  344. Dali guia ao Tarpeio, ao Capitólio,
  345. Hoje áureo, outrora de urzes erriçado.
  346. Os campestres então, da rocha e luco
  347. Já com pavor tremiam religioso.
  348. “No cimo, diz, frondente habita um nume;
  349. Qual seja é dúbio: Arcádios crêem ter visto
  350. Jove nubícogo a vibrar por vezes
  351. A égide negrejante. Observa aqueles
  352. Dois muros em ruínas; monumentos
  353. São dos varões passados, são relíquias
  354. De Satúrnia e Janículo, cidades
  355. Que o pai Jano e Saturno edificaram.”
  356. Do pobre Evandro à casa entanto sobem;
  357. No foro e lauto Bairro das Carinas
  358. Balava o armento. Ao limiar chegou-se:
  359. “De Alcides vencedor foi este o alvergue,
  360. Nesta régia o deus coube. Hóspede, imita-o,
  361. A desprezar atreve-te as riquezas;
  362. Desta míngua de haveres não te enfades.”
  363. Calou-se, e leva o herói pela estreitura
  364. Do exíguo teto, e em leito o põe de folhas,
  365. Do espólio de ursa líbia tapetado.
  366. Cai ali-fusca noite e abrange o globo.
  367. Não sem causa, aterrada a madre Vênus
  368. Do cru tumulto e ameaços dos Laurentes,
  369. Carinhosa ao marido amor divino
  370. No áureo tálamo inspira, assim falando:
  371. “Enquanto argivos reis com fogo e ferro
  372. A malfadada Pérgamo assolavam,
  373. Nunca, esposo querido, ajuda ou armas
  374. Roguei do teu lavor, nem quis tua arte
  375. Por miseráveis empenhar debalde;
  376. Bem que eu devesse muito aos Priamidas,
  377. E muito houvesse a Enéias deplorado.
  378. No rútulo país ora o tem Jove:
  379. Mãe, nume augusto, enfim suplico-te armas
  380. Que o protejam. Dobrou-te em pranto a esposa
  381. Titônia, a filha de Nereu dobrou-te:
  382. Olha que povos, que cerradas praças
  383. Em meu dano e dos meus o alfanje amolam.”
  384. Aqui recurva a Cípria os níveos braços,
  385. Com mole amplexo afaga o deus remisso;
  386. A nota chama aquece-lhe os tutanos,
  387. Penetra o ardor nos quebrantados ossos:
  388. Como quando estrondoso ignito sulco
  389. Percorre coruscante as rotas nuvens.
  390. A bela o aventa, e cônscia o ardil aplaude.
  391. De eterno amor cativo, então Vulcano:
  392. “Que remotas razões! de mim, ó déia,
  393. Já duvidas? Se igual empenho houveras,
  394. Armáramos os Frígios; não vedavam
  395. O pai sumo e o destino que dez anos
  396. Príamo inda reinasse. E pois desejas
  397. Combater, esmerar-me eu te prometo
  398. No que de ferro e de fundido electro
  399. Possa obrar sopro ou forja. Os rogos cessem,
  400. Confia em teus encantos.” E abraçando
  401. A gozosa consorte, em seu regaço
  402. Num suave repouso adormeceu-se.
  403. Do primo sono, ao descair das horas,
  404. Se despertava; e a dona que só vive
  405. Da roca e tênues obras de Minerva,
  406. Suscita as cinzas e sopitas brasas,
  407. Adindo a noite às lidas, e em tarefa
  408. Longa ante o lume as fâmulas exerce,
  409. Por manter ao marido o casto leito
  410. E criar tenros filhos; não mais tíbio,
  411. Da fofa cama salta o ignipotente,
  412. E vai de golpe à férvida oficina.
  413. Junto à Sicânia e Liparis eólia
  414. Se ergue sáxea fumante ilha escarpada;
  415. Lá toa etnéia gruta por ciclópias
  416. Fornalhas carcomida, e em safras malhos
  417. Se ouvem gemer, dos Cálibes as chispas
  418. Rugir e as frágoas resfolgar em ala:
  419. De Vulcano apelida-se Vulcânia.
  420. Dos céus o alto forgeiro aqui descende.
  421. No antro espaçoso o ferro trabalhavam
  422. Nus Piracmón e Estéropes e Brontes.
  423. Nas mãos polido em parte, inda imperfeito,
  424. Corisco tinham, dos que do éter Jove
  425. Crebros joga: três raios de saraiva
  426. Torta ajuntaram, três de aquosa nuvem,
  427. Três de rútilo fogo e de austro alado;
  428. Fulgor terrífico e estampido e medo
  429. Mesclavam-lhe e iras de sequazes flamas.
  430. Rodas leves e o carro outros consertam
  431. Com que homens e cidades Marte excita;
  432. A égide horrível da agastada Palas
  433. De áureas escamas à porfia brunem,
  434. Onde ao seio da deusa enrosca as serpes
  435. E inda olhos vira a Górgona estroncada.
  436. “Fora tudo, lhes clama, etneus Ciclopes,
  437. Deponde esses trabalhos e atendei-me.
  438. Vão-se armas fabricar a herói famoso:
  439. Força agora e primor, destreza e pressa.”
  440. Nem acaba, e o serviço eles sorteiam:
  441. Flui ouro e cobre a jorros, e em fornalha
  442. Ampla o aço vulnífico liquesce.
  443. Broquel tremendo formam, só bastante
  444. Contra todos os tiros dos Latinos;
  445. Lâminas sete em orbes o roboram:
  446. Ventosos foles o ar sorvido expelem;
  447. No tanque ao temperar-se o metal chia;
  448. O antro a bramir, os golpes nas bigornas
  449. Braços nervudos em cadência alternam,
  450. Com tenaz pegam, rubra a massa volvem.
  451. Na Eólia enquanto o Lêmnio os aferventa,
  452. A alma luz da cabana a Evandro acorda,
  453. No teto matinais cantando as aves.
  454. Enfia a túnica, as sandálias tuscas,
  455. Ata às plantas o velho; e, a tiracolo
  456. Tegéia espada, lança do ombro esquerdo
  457. E sobraça uma pele de pantera.
  458. Marcham dois cães fiéis, que a porta guardam,
  459. Pós seu dono. Em descargo da promessa,
  460. O ancião buscava o camarim de Enéias,
  461. Que também madrugara e já saía.
  462. A um Palante acompanha, ao outro Acates.
  463. Juntas as destras, no salão do meio
  464. Sentam-se, e francamente enfim se explicam.
  465. El-rei começa: “Ó mor dos frígios cabos,
  466. Livre estás, por vencida eu não dou Tróia.
  467. Para um tal nome é fraco o auxílio nosso:
  468. Cá tusco rio, lá me aperta armado
  469. Circunsonando o Rútulo à muralha.
  470. Mas bons guerreiros e opulentos reinos
  471. Aliar-te vou: dos fados conduzido,
  472. Conjunção tens aqui para salvar-te.
  473. Não distante, em vetustos alicerces
  474. De Agila, outrora a brava gente lídia
  475. Fundou cidade nos etruscos serros.
  476. Florente prosperava, até que veio
  477. Mezêncio, mau tirano, a subjugá-la.
  478. Por que assassínios tais e atrocidades
  479. Referirei? Sobre ele e os seus recaiam!
  480. Vivos ligava a mortos, contrapondo
  481. Mãos a mãos (que tormento!) e boca a boca,
  482. E em triste abraço e pútrida sangueira
  483. Nesta agonia longa os acabava.
  484. Lassos porém da infanda crueldade,
  485. Munidos cidadãos cercam-no em casa,
  486. Queimam-na; os vis asseclas lhe degolam.
  487. Da morte escapo, em Ardea achou guarida,
  488. Do hóspede Turno as armas o defendem.
  489. A Etrúria toda, em fúria e justo marte,
  490. Pede insurgida o rei para o suplício.
  491. Vou por-te à frente de milhares destes.
  492. Querendo içar bandeira as popas fremem
  493. Densas na praia: arúspice longevo
  494. As retém profetando: — “Ó flor meônia,
  495. Que, avito brio herdando, o agravo acende
  496. Em mérito furor contra Mezêncio,
  497. Não pode Ítalo algum domar tal gente;
  498. Chefe externo escolhei.” — D’então, confuso
  499. Do anúncio, o tusco exército acampou-se.
  500. Tárchon mesmo enviou-me insígnias régias;
  501. Aos arraiais tirrenos me convida
  502. E o cetro me oferece. Mas velhice
  503. Tarda e frígida inveja-me este império,
  504. E as débeis gastas forças me acobardam.
  505. Suadira o filho, se daqui não fora,
  506. Gerado em mãe sabela. Tu, que a idade,
  507. Que a pátria favoneia, e os céus designam,
  508. Vai, cabo egrégio de Ítalos e Teucros.
  509. Confio-te a só prole, meu conforto,
  510. Minha esperança. A militar contigo
  511. Aprenda e a ter em pouco o márcio peso;
  512. Novel, te observe e admire-te as façanhas,
  513. Dar-te-ei duzentos guapos cavaleiros
  514. De escolha, e iguais te ofertará Palante.“
  515. O Anquíseo, a vozes tais, e o fido Acates
  516. No mesto coração mil duros transes,
  517. Fixos em terra os vultos, pressagiam,
  518. Se não acena do alto Citeréia.
  519. Eis o ar vibrado relampeia e ronca:
  520. Tudo estralar parece e de trombeta
  521. Mugir clangor tirreno. A vista elevam:
  522. Trovão brama e rebrama; em nuvem clara,
  523. Serena a região, pulsadas armas
  524. Vêem rutilar toando. Os mais se espantam
  525. Mas o herói, conhecendo o som divino:
  526. “Hóspede, brada, o anúncio do portento
  527. Não me inquiras; o Olimpo me reclama.
  528. Prometeu minha mãe, se a guerra instasse,
  529. Transmitir-me o sinal e pelas auras
  530. Armadura vulcânia. Ah! que de estragos
  531. Ameaça os Laurentinos! Caro, ó Turno,
  532. Mo pagarás! Que escudos, corpos e elmos,
  533. Pai Tiberino, envolverás nas ondas!
  534. Que ora peçam batalha e o pacto quebrem.”
  535. Do sólio aqui se ergueu; sopitas aras
  536. Com teda hercúlea esperta; e alegre o de ontem
  537. Lar busca e humildes hospedeiros divos;
  538. Reses do estilo bianejas mata:
  539. O mesmo faz Evandro e os jovens teucros.
  540. Às naus depois caminha; e dentre os sócios
  541. Elege os mais guerreiros e prestantes;
  542. Outros vão rio abaixo, ao tom das águas,
  543. O que obteve seu pai contar a Ascânio.
  544. Corcéis arreiam para o campo etrusco;
  545. A Enéias um loução: leonino o amanta
  546. Fulvo teliz de auriluzentes unhas.
  547. Veloz no exíguo burgo a nova grassa
  548. De ir a cavalaria às tuscas tendas.
  549. As mães duplicam votos, medra o susto,
  550. Mor o perigo e a lide se afigura.
  551. Na despedida Evandro ao filho a destra,
  552. Lagrimando insaciado, aperta e fala:
  553. “Oxalá que eu tornasse ao vigor d’antes!
  554. Quando, a vanguarda ufano destruindo,
  555. Em Preneste incendiei montões de escudos;
  556. E, remetendo ao Orco o régio Herilo,
  557. Três almas, que ao nascer a mãe Ferônia
  558. Lhe infundira, ó prodígio! este meu braço
  559. Lhas desfez, derribando-o com três mortes,
  560. E o despojei da tríplice armadura:
  561. Então, meu doce filho, do teu lado
  562. Nunca me apartaria; nem Mezêncio,
  563. Às minhas barbas tanto horror cevando,
  564. A viúva cidade funestara.
  565. Mas, vós deuses, tu Júpiter supremo,
  566. Do aflito arcádio rei compadecei-vos,
  567. Prece escutai paterna: se Palante
  568. O vosso nume e os fados mo conservam,
  569. Se hei de vê-lo e aduná-lo, a vida imploro;
  570. Tragarei quaisquer penas: mas, Fortuna,
  571. Se ameaças caso horrendo, agora, agora
  572. Estale a cruel teia, enquanto ambíguo
  573. Temo e espero o futuro, enquanto, ó caro,
  574. Meu só e último gosto, aqui te abraço:
  575. Núncio ingrato os ouvidos não me fira.”
  576. Tal neste adeus se exprime e chora o velho;
  577. Desfalecido, os servos o recolhem.
  578. Pelas portas as turmas já despedem,
  579. À testa o herói e Acates, e outros Frígios
  580. Dos mais grados: no centro luz Palante,
  581. De arnês pintado e clâmide vistoso;
  582. Qual, do oceano orvalhada, a estrela d’alva,
  583. A quem sobre os mais astros Vênus ama,
  584. Alteia aos céus a fronte e solve as trevas.
  585. Pávidas mães aos muros, de olhos seguem
  586. Nuvem pulvérea e o bando eri-fulgente.
  587. Por encurtar jornada, espinhais trilham;
  588. Formam-se ao grito, a esboroá-lo bate
  589. Com som quadrupedante a úngula o campo.
  590. Bosque ante o frio Cérite se estende,
  591. Antigo e venerado; o qual circundam
  592. Negros abetos, curvos montes fecham.
  593. Priscos Pelasgos, íncolas do Lácio,
  594. Um dia e o luco é fama que a Silvano,
  595. Deus das lavras e gados, consagraram.
  596. Tárchon lá tinha os arraiais seguros;
  597. De uma colina o exército espalhado
  598. Já se descortinava e ao largo as tendas.
  599. Com seus guerreiros se adianta Enéias;
  600. Lassos, dos corpos, dos cavalos curam.
  601. A cândida Ciprina os dons pelo éter
  602. Nimboso traz, e ao filho em vale escuso
  603. Retraído enxergando à fresca margem,
  604. Lhe disse rosto a rosto: “Eis os presentes
  605. Que engenhou meu consorte: não receies
  606. Laurentes soberbões nem fero Turno
  607. Provocar.” Nisto, enreda-se nos braços
  608. Do seu querido, e à sombra de um carvalho
  609. Depôs fronteiro as fulgurantes armas.
  610. Gostoso de honra tanta, em si não cabe;
  611. Mira tudo e remira; embraça e apalpa,
  612. Meneia e prova, de terrível crista
  613. O elmo flamívomo, a letal espada;
  614. Bronzi-rija e sangüínea a grã couraça,
  615. Qual se aos raios do Sol cerúlea nuvem
  616. Longe esplende e rubeja; as finas grevas
  617. De electro e ouro acendrado, e a cota e a lança,
  618. E a do broquel textura inexplicável.
  619. Nele, o porvir sabendo e as profecias,
  620. O artífice gravou de Itália as coisas
  621. E os triunfos romanos, desde Iulo
  622. A estirpe toda, e a série das batalhas.
  623. De Marte em verde gruta ali parida
  624. Loba jaz, e a brincar das tetas pendem
  625. Gêmeos que a chupam sem pavor, e afagos,
  626. Nédia a cerviz dobrando, a mãe reveza,
  627. E os corpinhos lambendo os afeiçoa.
  628. Gravou Roma, e as Sabinas do teatro
  629. Raptas sem modo nos circenses ludos;
  630. Entre os Romúleos e dos severos Cures
  631. Do velho Tácio a disparada guerra.
  632. Depois, da ara de Jove os reis armados,
  633. Posto o certame, tendo em mãos as taças,
  634. Em penhor da aliança a porca ferem.
  635. Perto, opostas quadrigas fustigadas,
  636. Mécio esquartejam; vísceras e membros
  637. (Tu Albano perjuro, a fé guardasses)
  638. Roja Tulo, e os sarçais goteiam sangue.
  639. Lá, para impor Tarquínio expulso a Roma,
  640. Porsena a cerca e oprime: a libertá-la
  641. Contra o ferro os Enêiadas remetem.
  642. Como indignar-se o viras, torvo e irado,
  643. Porque ouse Cocles só cortar a ponte,
  644. E as prisões rompa Clélia e trane o rio.
  645. No cimo, a rocha a vigiar Tarpéia,
  646. Mânlio o templo defende e o Capitólio;
  647. Colmo romúleo o paço novo encrespa.
  648. Argênteo ganso ao pórtico dourado
  649. A esvoaçar dos Galos dá rebate,
  650. Que entre o mato, a favor da opaca noite,
  651. Vinham-se aproximando à fortaleza.
  652. Áureo o crino, áurea a veste, e o saio em listras,
  653. Luzem de áurea cadeia aos lácteos colos;
  654. Cada qual dois rojões alpinos brande,
  655. Com oblongos escudos se resguardam.
  656. Abriu Sálios dançando e nus Lupercos,
  657. Topes lanosos, e do céu caídas
  658. Ancílias: castas mães em moles andas
  659. Guiam pela cidade as sacras pompas.
  660. Longe, o Tártaro abriu, plutônias fauces,
  661. E os castigos da culpa; e a ti suspenso,
  662. Ó Catilina, de um minaz rochedo,
  663. Ante as Fúrias tremendo; e à parte os justos,
  664. A quem rígidas leis Catão ditava.
  665. Também de ouro, a espumar com branca vaga,
  666. Representa o cerúleo inchado plaino;
  667. Delfins de argênteo brilho, às voltas, o esto
  668. Rasgam, de cauda o pélago açoitando.
  669. No meio, êneas armadas, ácias guerras,
  670. Todo a ferver Leucate em marte instruto,
  671. Com o ouro viras fulgurar as ondas.
  672. Cá, n’alta popa, Augusto arrasta aos prélios
  673. Senado e povo, os deuses e os penates;
  674. De ambas as fontes ledo exala flamas;
  675. Na cabeça lhe fulge a estrela pátria,
  676. Agripa lá, propícios vento e numes.
  677. Árduo comanda; e a frota vitoriosa
  678. Rostrada se orna da naval coroa.
  679. Antônio além, ovante com o auxílio
  680. Bárbaro e vário, as forças traz do extremo
  681. Báctro e eôos confins e roxas praias;
  682. Com todo o Egito, ó pejo! segue a esposa.
  683. À uma ruem, se empegam; freme e alveja
  684. O mar dos remos e esporões tridentes.
  685. Crês despregadas Cícladas nadarem,
  686. Montes baterem monte: com tal mole
  687. Instam varões das torreadas popas!
  688. Fachos estúpeos voam, farpas zunem,
  689. Rubra do fresco estrago a azul campina.
  690. Sem ver pós si dois áspides, com pátrio
  691. Sistro anima Cleópatra os soldados.
  692. Contra Palas, Netuno e Vênus, se arma
  693. Com omnígenos deuses monstruosos
  694. O ladrador Anúbis: no conflito
  695. Marte, em ferro entalhado, se embravece;
  696. Do éter as negras Diras, e ufanosa
  697. Marcha a Discórdia, espedaçado o manto;
  698. Com sangüento flagelo atrás Belona.
  699. O áccio Apolo atentando o arco atesa
  700. De cima: de terror o Árabe, o Egípcio,
  701. O Indo, o Sabeu, voltaram todos costas.
  702. Mesmo a rainha parecia os ventos
  703. Invocar, soltar cabos, dar as velas.
  704. Já da futura morte em palor tinta,
  705. Da clade o rei do fogo fez que a tirem
  706. O Iapix e a corrente: mas defronte
  707. Mesto abre o seio, e a veste arregaçando,
  708. Ao verde grêmio e latebrosas fontes
  709. Chama os vencidos o gigante Nilo.
  710. Com tríplice triunfo entrado em Roma,
  711. De Itália aos deuses cumpre os votos César,
  712. Trezentos sagra amplíssimos delubros.
  713. Festa, aplauso, alegria as ruas soam:
  714. Em cada templo um coro há de matronas,
  715. Aras em todos há, perante as aras
  716. Touros imolam, de que a terra juncam.
  717. Sentado ao níveo limiar de Febo,
  718. Reconhece ele as dádivas dos povos,
  719. E dos portais soberbos as pendura.
  720. As vencidas nações longo desfilam,
  721. Tão diversas em língua, em trajo, em armas.
  722. Nômades e Afros descingidos, Cares,
  723. Lelagas, sagitíferos Gelonos
  724. Mulciber esculpira; e já mais brando
  725. O Eufrates, e os Morinos derradeiros,
  726. E os indômitos Daas, e o bicorne
  727. Reno, e da ponte o Araxes indignado.
  728. O herói admira o dom, primor vulcânío;
  729. Da imagem do porvir gozando ignaro,
  730. Dos seus glória e destino ao ombro leva.

Nota a nota · 13 notas

v. 1–6Mal Turno, os cornos rouco estrepitando,
A tropa romana, quando cada soldado jurava não largar as armas antes do fim da guerra, chamava-se militia legitima ou sacramentum. Quando, em grande perigo e tumulto, o general subia ao Capitólio, e levantando dois estandartes convocava os que o quisessem acompanhar, essa tropa, que jurava em massa e por aclamação, chamava-se conjuratio: o estandarte vermelho era para a infantaria; o azul, para a cavalaria. Quando se mandavam fazer levas à força, a tropa se dizia evocatio: alguns afirmam que a evocatio era quando o povo em armas se ajuntava tumultuariamente; mas a primeira opinião, que é a de Sérvio, parece a mais seguida. Virgílio aqui, segundo a sua maneira, alude ao costume romano e o deriva de uma alta antiguidade. O estandarte que em latim se nomeava vexillum, quadrado e suspenso de uma haste, em português comumente se diz pendão.
↩ voltar à passagem, v. 1
v. 31–65Ao velho tênue bisso um verdoengo ⋯ Desperto olhando ao lúcido oriente,
Enéias fatigado se deita à borda do Tibre, e em sonhos lhe aparece o deus; aconselha-o que vá a Palantéia pedir socorro a Evandro, que andava em guerra com os Latinos: desta bela criação aproveita-se o poeta para falar ainda dos primórdios de Roma. Camões imitou-o no canto IV dos Lusíadas; e a imitação é superior ao original: não só o estilo do Português é ali de uma perfeição que nem a Virgílio cede, mas a causa da apresentação do Indo e do Ganges a D. Manuel é muito e muito maior: o Tiberino avisa a Enéias que ajunte o seu campo com o de Evandro e peça-lhe auxílio; o Ganges, o mais grave na pessoa, brada ao monarca português que mande receber os tributos que os povos das suas ribeiras e das do Indo haviam de lhe pagar, posto que depois de uma guerra sanguinolenta: a causa, repetirei, da aparição dos dois rios da Ásia é mais importante; e, assim como não poucas vezes Virgílio imitando excede a Homero, desta feita o seu imitador o sobreleva evidentemente. A visão que o rei teve das várias nações que lhe deviam obedecer; o andar majestoso dos dois velhos, baços e denegridos, como os que habitam as margens regadas por suas águas; a cansada presença do Ganges, que vinha de mais longe; os ramos e ervas desconhecidas que ambos nas mãos traziam, tudo é da mais sublime poesia; tudo encerra finos e tantos pensamentos, que excedem as palavras. Em nenhuma outra parte das suas obras Camões foi mais digno de ser comparado ao poeta latino pela precisão e beleza das imagens. — Quanto ao celsis caput urbibus exit, escreve Mr. Bonstetten: “Plínio assevera que no seu tempo o Tibre era ornado de mais palácios do que havia no resto do mundo. Perto de Ancio, no fundo, ao longo da praia, avistam-se palácios tão bem conservados nos alicerces, que parece terem-se desenhado nas águas plantas de arquitetura, e em terra se deixam ver outras imensas ruínas.”
↩ voltar à passagem, v. 31
v. 68–77“Ninfas, laurentes ninfas, geradoras
O costume dos antigos de se voltarem ao oriente, quando oravam, foi adotado pelos cristãos. A água benta vem da água lustral dos pagãos. Dá-se aos rios o epíteto cornígero, porque eram honrados sob a figura de um touro, ou por causa dos mugidos das suas ondas, ou por terem muitos braços: eram também representados sob a figura humana, mas de cornos na testa.
↩ voltar à passagem, v. 68
v. 97–114Uns muros, um castelo e tetos raros, ⋯ Maneando Enéias da alterosa popa
Ao se aproximarem as embarcações ao pobre e pequeno burgo de Palantéia, assento futuro de Roma, Palante se ergue da mesa, onde se achava com seu pai Evandro e com os principais da terra, em um festim solene em honra de Hércules; pega da lança, e de um outeiro exclama aos Troianos: “Juvenes, quae causa subegit Ignotas tentare vias? quo tenditis?..., etc.” Delille com razão admira as poucas palavras empregadas para informar-se de tanta coisa. Esta concisão lembra-me a estância L do canto VI dos Lusíadas, onde o autor em dois versos diz que aos doze de Inglaterra as damas escreveram, cada uma ao seu; todas a D. João I, e o duque de Alencastro, a cada um dos cavaleiros e ao rei.
↩ voltar à passagem, v. 97
v. 127Que, enastrado este ramo, eu te suplique;
123-128. - Mr. Tissot, a quem segue Mr. Villenave, pondera: “Aqui não há esforço de virtude, nem ocasião de blasonar da coragem de vir expor a cabeça a um perigo imaginário. Apenas poderia assim falar Enéias a um tirano cruel e feroz como era Mezêncio.” Ora, posto que Evandro fosse bom de coração, o ter sido um dos chefes dos Gregos, ser parente dos Atridas, inimigo dos Troianos outrora, eram circunstâncias que deviam ser atendíveis a um príncipe que, por qualquer imprudência, podia comprometer a grande causa: todavia as outras considerações, que ele expende abaixo, venceram esse tal qual receio. E é por um artifício oratório que Enéias faz valer a franqueza com que se expõe a pedir auxílio a um antagonista de Tróia; pois deste modo se insinuava no espírito de Evandro, mostrando-lhe a seguridade que lhe inspiravam as pessoais virtudes do grego monarca. De mais, Mr. Tissot interpretou mal o mea virtus do verso 131: aqui não significa esforço de virtude e coragem da parte de Enéias; significa sim, como reflete o padre La Rue, a consciência de nada ter feito para incorrer no ódio de Evandro, a confiança na própria lealdade. Neste sentido verti este lugar; e o mesmo fizeram o Snr. João Gualberto e Barreto Fêo.
↩ voltar ao verso 127
v. 162–163Aos muros de Feneu lhe fui companha.
“Mr. Tissot, diz Mr. Villenave, com razão se maravilha de que Evandro nada ache louvável em seu amigo velho senão a estatura: Cunctis altior ibat.” Os dois críticos se mostraram bem pouco sabedores da opinião dos antigos neste ponto: eles criam que a altura era própria dos heróis, e que só por exceção podia ser valente um homem de pequeno talhe. Chateaubriand, que girava em outra esfera de erudição, no livro II dos Martyres, na boca de Demodoco põe o que dou aqui traduzido por Francisco Manuel: “Bem que aos pais nunca em talhe igualem filhos, E ao pai ceda em vigor e em talhe Eudoro, Pelo talhe de herói o eu conhecera.” Evandro pois da superioridade da estatura de Anquises infiria que ele se avantajava em forças e denodo. O mais forte e corajoso dos Gregos, segundo Homero, era também o mais alto e esbelto.
↩ voltar à passagem, v. 162
v. 190–267Esta, em recesso vasto ao Sol defeso, ⋯ Chamada sempre máxima, e que sempre
O poeta não tirou o episódio de Caco da sua imaginação; o fato era contado pelos historiadores: Dionísio de Halicarnasso e Tito Lívio o referem. É sabido que este pedaço é uma obra prima, pela harmonia, pelas imagens, pela beleza das expressões e pelo todo da narração. Delille traz excelentes reflexões acerca deste episódio, e a Delille me reporto. Observe-se a arte com que se introduz esta fábula: como Enéias encontra a Evandro no ato de celebrar um sacrifício a Hércules, sacrifício a que se associou por convite do mesmo Evandro, era bem factível que este lhe explicasse a causa; e assim o episódio nasce da ação com naturalidade. Tem-se opinado que a pompa do estilo e a rapidez parecem não conformar com a velhice do rei, cuja imaginação devera ser mais lenta; porém a excitação em que ele se achava, a religiosidade própria do seu caráter e mesmo dos seus anos, justificam plenamente o tom solene da narração de uma façanha de que fora testemunha: os velhos tomam fogo ao se transportarem às coisas do seu tempo. — A opinião dos antigos, fundada em inscrições, bem como a da maior parte dos modernos, é que a caverna de Caco era vulcânica, junto ao monte Aventino; mas Mr. Bonstetten difere: “Não há aí caverna de Caco; a de Virgílio existiu certamente nos arredores de Roma. Uma conheço eu não longe do Aventino, da outra banda do Tibre, no Monte-Verde, pouco mais ou menos como ele descreveu a de Caco. O governo a fechou para que não servisse de couto aos Cacos modernos, isto é aos ladrões. É voz que a fábula de Caco tinha por fundamento histórico a lembrança de um vulcão; não há probabilidade alguma de que o houvesse no Aventino, cujo local a isso repugna absolutamente.”
↩ voltar à passagem, v. 190
v. 271–272Comum deus o invocai, bebei contentes.”
Heyne e outros pensam que há aqui interpolação. Refere porém Sérvio que o altar de Hércules, chamado Ara Maxima, existia em seu tempo no forum Boarium, e era de prodígiosa grandeza. Ora sendo assim, conforme também se colhe de Propércio e de Ovídio, não vejo o porque Heyne acha o lugar indigno do poeta; o qual tinha em vista, como por vezes havemos notado, celebrar as antiguidades romanas, mormente as do sítio em que é fundada a cidade eterna. Repare-se que, ao diante, ele não se descuida do seu propósito, falando da porta Camental, do Lupercal no Palatino, do bosque Argileto, do Capitólio, do Tarpeio, e fazendo o contraste de começos tão humildes com a magnificência da corte de Augusto.
↩ voltar à passagem, v. 271
v. 363–453Calou-se, e leva o herói pela estreitura ⋯ No teto matinais cantando as aves.
Este episódio entre Vulcano e Vênus, tudo que se passa na oficina dos Ciclopes, é da mais alta poesia. Ao depois, no fim do livro, se faz a descrição das armas pelo deus encomendadas, e do broquel em que ele próprio trabalhou. Sendo uma imitação de Homero, concordam todos que é muito superior ao lugar da Ilíada; pois o que vem gravado no broquel de Aquiles, podia pertencer a qualquer outro guerreiro; e o que vem no de Enéias, lhe é próprio e particular, por ser um vaticínio do que tinha de acontecer aos seus descendentes.
↩ voltar à passagem, v. 363
v. 558–593Lhe infundira, ó prodígio! este meu braço ⋯ Priscos Pelasgos, íncolas do Lácio,
A fala de Evandro é uma das mais ternas do poema, e realça o caráter do rei. — É admirável o perfeito quadro que representam os dois versos 592-593, vertidos nos meus 587-588. — Veja-se Delille, tanto acerca da fala, como dos versos.
↩ voltar à passagem, v. 558
v. 594–596Um dia e o luco é fama que a Silvano,
É bem conhecida esta passagem por causa do último verso, cuja onomatopéia imita o galope dos cavalos. Tratei de exprimi-la, e para isso preferi o termo antigo úngula ao moderno unha ou casco, que não tinham um som conveniente.
↩ voltar à passagem, v. 594
v. 670Todo a ferver Leucate em marte instruto,
Na descrição do escudo vem a figura de Catão de Útica a ditar o direito. Este só rasgo mostra o rigorismo dos que chamam o poeta adulador de Augusto. O pobre filho do camponês que, sendo despojado da sua herdade, a recuperou por graça do senhor do mundo, necessariamente lh’o havia de agradecer, e o meio era louvá-lo em seus versos; nem ele se tinha jamais apresentado como homem político, para ser esse louvor uma contradição com a sua vida passada. Reflita-se que Virgílio só gaba o bom que Augusto praticava para apagar o péssimo que fez quando Otávio; e, escrevendo a respeito das guerras civis, fulmina a todas, sem distinguir entre o seu protetor e os contrários. Louvou porém ao mesmo tempo os inimigos de Augusto em quem achava merecimento e virtude, como nesta passagem a Catão, como a Galo na écloga X. Não se podia exigir nem esperar mais do pacífico burguês de Mântua. — Horácio, que tem sido acusado da mesma tacha, encontrou defensor habilíssimo em Mr. Patin; o qual, com o lírico latino em mão, demonstra que este sujeitou-se ao vencedor quatro anos depois, quando os maiores republicanos tinham cedido à necessidade, como aconteceu a Pollion, ao filho de Cícero, a Messala, tão brilhante na batalha de Filipos; e que o ilustre filho do liberto, apesar dos afagos do seu poderoso amigo, nunca renegou o seu caro Bruto, e ousava jactar-se de ter merecido a confiança daquele grande cidadão. Quantos autores há, mesmo entre os vivos, que, depois de haverem troado contra as lisonjas de Horácio e Virgílio, vão acender podre incenso a reis e magnatas, que sem possuírem as nobres qualidades de Augusto, só têm seus vícios e hipocrisia! — De mais, havia entre os dois grandes poetas e o imperador um ponto de contato que os tornava amigos: apaixonados eram os três da poesia e das belas artes. Os poetas folgavam de louvar um príncipe esclarecido que as protegia, que tinha o mesmo gosto que eles: nada há mais natural. E note-se que Augusto com tanta igualdade os tratava, que os visitava em suas casas, e até compôs versos em honra de Virgílio. Luiz XIV, que fazia sentir que era monarca a Racine e aos outros seus protegidos, foi todavia lisonjeado por todos; e não é tanto moda chamar a Racine adulador, como ao épico e ao lírico romanos. Suponde que Augusto os houvesse olhado com desdém: em vez de estalar como o trágico francês, provavelmente Virgílio teria deixado a corte sem nímio desprazer, indo para a sua Mântua ou para a sua aldeia de Andes; e o filósofo Horácio, em alguma sátira ou carta familiar, com finíssimas alusões, teria rido da pequenez e do orgulho dos homens.
↩ voltar ao verso 670
v. 731
O verso do remate, que Addison cria um dos mais belos da Eneida, foi condenado por Sérvio. Em matérias de erudição é recomendável o comentador, não em matérias de gosto. “Nesta descrição, diz Delille, o leitor havia perdido de vista a Enéias para só pensar em Augusto; mas Virgílio chama a atenção sobre ele do modo mais destro e engenhoso. N’um verso teve a arte de louvar os Romanos, lisonjear a Augusto e celebrar o herói. O presente, o passado, e o futuro, tudo ali se contém, e o assunto da Eneida se acha inteiro nesta imagem pitoresca.”
↩ voltar ao verso 731
↑ voltar ao topo das notas
Próximo livroIXEntretanto que ao longe isto sucede