Mal Turno, os cornos rouco estrepitando
730 versos · 13 notas do tradutor
- Mal Turno, os cornos rouco estrepitando,
- Pendões arvora no laurente alcáçar,
- E os brutos afogueia e incita as armas,
- Revolto o Lácio em trépido tumulto
- Se conjura, e esbraveja a mocidade.
- Chefes Messapo e Ufente, o ateu Mezêncio,
- Organizando levas, despovoam
- Toda a campanha. A requerer o auxílio
- Do grã Diomedes, Vênulo deputam;
- A informar que, abordado há pouco Enéias,
- Os vencidos penates recolhendo,
- Rei se inculcava por querer dos fados;
- Que atrai cem povos, e n’Ausônia lavra
- Seu prestígio. Ao que tenda, e o que resulte
- Se a fortuna o insufla, é manifesto
- Mais a Diomedes que a Latino ou Turno.
- Derramada a notícia, o Laomedôncio
- Em cuidados flutua, e a mente vaga
- Divide e agita, a meditar em tudo:
- Como em bacia d’água o tremulante
- Raio da Lua ou Sol, repercutido,
- A regirar volúvel, monta aos ares
- Do sumo teto os artesões ferindo.
- Noite era; e gados, aves e alimárias,
- Quando lassos na terra adormeciam,
- Dos perigos aflito, à riba Enéias,
- Tardo repouso aos membros concedendo,
- Sob o eixo do céu frio recostou-se.
- Deus do sítio, a surgir do leito ameno,
- Entre alemos se antolha o Tiberino:
- Ao velho tênue bisso um verdoengo
- Sendal compõe, e a touca umbrosa cana.
- Ao Teucro fala e o peito lhe mitiga:
- “Divo renovo, que dos Gregos salva
- Pérgamo eterna à Hespéria nos transportas,
- Nestas laurentes veigas esperado,
- Casa tens certa, certos os penates;
- Avante! não te assuste a feia guerra:
- O tumente furor cessou dos deuses.
- Por que isto um sonho fútil não reputes,
- Em litóreo azinhal grande alva porca
- Deitada encontrarás parida, e em roda
- Nela a mamar trinta alvos bacorinhos.
- Descanso aqui tereis; trinta anos voltos,
- Aqui fundando-a Iulo, deste agouro
- Alba derivará seu claro nome.
- Não dúbio o vaticino. O modo em suma
- Te ensinarei de conseguir vitória.
- Lá d’Arcádia emigrados que de Evandro
- Sob a real bandeira aqui vieram,
- Do bisavô Palante por memória,
- Em montes assentaram Palantéia:
- Com eles anda o Lácio em guerra assídua;
- O arraial em comum, liga-te a eles.
- Eu, por meu rio e margens te ajudando,
- Farei que a remos a corrente venças.
- Sus! roga a Juno; assim que os astros caiam,
- Devoto e súplice, ó de Vênus filho,
- O ódio minaz lhe adoça: ao triunfares
- Me honres depois. Sou eu que em ampla cheia
- Premo estas bordas, sulco e adubo as vargens,
- Aos céus gratíssimo, o cerúleo Tibre.
- Meu paço é cá, de altas cidades mano.”
- Disse, e imergiu-se: a noite a Enéias deixa.
- Desperto olhando ao lúcido oriente,
- Nas covas palmas, como é uso, apanha
- Do licor fluvial, dest’arte orando:
- “Ninfas, laurentes ninfas, geradoras
- Dos mananciais, com santa veia ó Tibre,
- Recebei vós a Enéias, resguardai-me.
- Qualquer que seja a fonte, ou lago ou solo,
- Donde formoso nasças e onde as nossas
- Penas, rio cornígero, apiadas,
- Sempre terás meu culto, of’rendas sempre,
- Tu das águas hespéricas monarca.
- Assim me valhas e os augúrios firmes.”
- Da frota escolhe então birremes duas,
- E de armas e remeiros as fornece.
- Súbito, ó maravilha! entre arvoredos,
- Deitada em verde ribanceira, avistam
- Com sua alva ninhada uma alva porca;
- E a ti, máxima Juno, o pio Enéias
- Com todo o parto a imola e te oferece.
- Durante a noite amaina o inchado Tibre,
- E em tácito remanso refluindo,
- Qual tanque fica-se ou lagoa estofa,
- Que não obste ao remar. Crenado o pinho,
- Com propício rumor, no equóreo plaino
- Ligeiro se desliza; e a onda e o bosque
- Arneses a fulgir de longe estranha,
- Estranha os bucos a nadar pintados.
- Afadigando à voga a noite e o dia,
- E os estirões e as voltas alcançando,
- Sob a folhuda abóbada, cortavam
- No aquoso espelho as verdejantes ramas.
- Ígneo o Sol meridiano, é quando enxergam
- Uns muros, um castelo e tetos raros,
- De Evandro haver mesquinho; que a pujança
- Romana elevou tanto e aos céus o iguala:
- Viram proas e ao burgo se aproximam.
- Acaso o árcade rei, num luco em face,
- O Anfitriônio festejava e os divos.
- Solene, o seu Palante, a flor dos jovens,
- Pobre senado, o incenso ministravam,
- Em cruor tépido a fumar as aras.
- Surdir vendo os baixéis pela espessura,
- E o nauta aos mudos remos debruçar-se,
- Das mesas todos erguem-se assustados.
- Veda romper-se o rito o audaz Palante;
- Saca uma lança e voa, e de afastado
- Outeiro: “O que tentar vos força, ó moços,
- Ignotas vias? de que partes vindes?
- Quem sois? onde ides? paz quereis ou guerra?”
- Maneando Enéias da alterosa popa
- Fausta oliva, responde: “Frígios dardos
- Te apresento e inimigos dos Latinos,
- Que em bárbara agressão nos repulsaram.
- Saiba teu rei que os principais Troianos
- Lhe vêm pedir junção e apoio de armas.”
- Logo a tal nome atônito Palante:
- “Salta, e a meu pai dirige-te em pessoa;
- Quem sejas, te agasalha em nossos lares.”
- E a mão lhe aperta, cordial o abraça.
- Transposto o rio, ao bosque se encaminham;
- E amigável o padre: “Ótimo Evandro,
- Timbre dos Graios, a fortuna enseja
- Que, enastrado este ramo, eu te suplique;
- Certo não te hei receio por Arcádio,
- Chefe aqueu, dos Atridas consangüíneo:
- Meu gosto e leal peito, oragos santos,
- Parentesco de avós, tua alta fama,
- Por fatídico impulso, a ti me enlaçam.
- Dárdano, de Ílio autor, de Electra nado,
- Para os Troas passou-se, a Grécia o afirma;
- Do estelífero Atlante Electra é prole:
- Vós de Mercúrio o sois, e em frio cume
- Cilênio o concebeu cândida Maia;
- Maia, é crença geral, o mesmo Atlante,
- O que os orbes sustenta, procriou-a.
- De um tronco somos pois. Eis por que afoito
- Núncios não ensaiei que te sondassem:
- Eu próprio, eu vim expor-me e suplicar-te.
- A Dáunia, que te aprema em feroz guerra,
- Cuida, a nos rechaçar, que nada a estorva
- De meter sob o jugo a Hespéria inteira,
- E o superior e o baixo mar que a lavam.
- Presta e aceita-me a fé. Briosa temos
- Aguerrida e valente mocidade.”
- Atento ao seu discurso, Evandro os olhos
- Curioso lhe examina e a boca e o talhe;
- Foi breve assaz: “Fortíssimo dos Teucros,
- Com que prazer te hospedo! eu reconheço
- De teu pai a facúndia, o tom e o gesto!
- A Hesíone irmã sua o Laomedôncio,
- Lembra-me, visitando em Salamina,
- Honrou-me os gelos da vizinha Arcádia.
- De flóreo buço a face então pungida,
- Bem me admirei de Príamo e seus cabos;
- Mas na grandeza os superava Anquises.
- Cúpido jovem, por tratá-lo ardia
- E a mão do herói cerrar: obtendo acesso,
- Aos muros de Feneu lhe fui companha.
- Partindo, insigne coldre e lícias frechas,
- Clâmide auribordada e uns áureos freios
- Deu-me, de que ora é dono o meu Palante.
- Confirmo aquele pacto; e satisfeitos
- Vou na alvorada, amigos, despedir-vos
- Com socorro de gente e o mais que eu possa.
- Entanto, embora celebrai conosco
- Festa anual que diferir é crime,
- E dos sócios à mesa habituai-vos.”
- Disse, e os copos repor e os pratos manda,
- Senta os varões na relva; em toro e pele
- De leão veloso a Enéias acomoda,
- Cede trono de bordo a herói tamanho.
- Moços, do antiste às ordens, lestos servem
- Táureas tostas fressuras, dons de Baco,
- De obras de Ceres cumuladas cestas.
- De rês inteira o dorso e os intestinos
- Lustrais ministram pasto ao chefe e Troas.
- Refreado o apetite e a fome exausta,
- Disserta el-rei: “De tanto nume est’ara,
- Esta pompa e festim, hóspede, usamos,
- Não por superstição que os priscos deuses
- Desconheça; de atroz perigo exemptos,
- Mérito culto renovamos gratos.
- Nota em penha suspensa aquela pedra:
- Dispersa a mole jaz, do monte a furna
- Deserta, e ao longe as ruínas dos rochedos.
- Esta, em recesso vasto ao Sol defeso,
- Era a espelunca do semi-homem Caco,
- Monstro imano; e, em recente morticínio
- Sempre o chão tépido, aos portais soberbos
- De homens saniosas lívidas cabeças
- Fixas pendiam. De Vulcano filho,
- Túrbidos fogos vomitando, a enorme
- Corpulência movia. Ao suspirarmos
- Por divo auxílio, o vingador Alcides
- Chega a tempo, e do espólio e morte ufano
- Do trigêmeo Gerion de gado enchia,
- Vencedor pastorando, o rio e vale.
- Caco, infrene e brutal, que não se abstinha
- Do mor flagício ou dolo, da malhada
- Touros quatro furtou-lhe os mais robustos,
- Quatro novilhas de excelente forma;
- E, para nenhum rasto haver direto,
- Puxando a cauda e a recuar, no opaco
- Pétreo bojo os fechou; pegada alguma
- Não guiava à caverna. O Anfitriônio,
- Já gordo o gado e farto dos pastios,
- Retirar-se dispunha, e os bois saudosos
- Monte e bosque estrugiam de queixumes.
- Do amplo encerro igualmente uma das vacas
- Muge, e de Caco as esperanças frustra.
- Da injúria ardendo e em negro fel, das armas
- Hércules pega e do nodoso roble,
- Corre ao cabeço aéreo. Aos nossos Caco
- Trêmulo e demudado aqui mostrou-se:
- Fugindo euros transcende, e aos pés o medo
- Asas lhe empresta. Já na gruta, abate
- Penhasco ingente, rotas as cadeias
- Com que acima o ligava arte paterna,
- E de espeques reforça e escora a entrada;
- Ei-lo, o Tiríntio em sanha os dentes range
- Acesso a perscrutar: férvido e iroso,
- Todo o Aventino vezes três rodeia;
- Três contra a sáxea porta o esforço balda;
- Três descansou no vale. Aguda roca,
- Asado ninho de funestas aves,
- Entre fraguras e a perder de vista,
- Do antro estava no dorso: à esquerda o cimo
- Sobre o rio inclinava; à destra Alcides
- Carrega, e do imo a desarreiga e impele:
- Ao baque repentino o etéreo espaço
- Retumba; e, as ribanceiras retremendo,
- Reflui medroso o rio. A imensa régia
- De Caco descobriu-se, e apareceram
- Umbrosos penetrais: qual se abalada
- Rasgasse a terra hiante o dos infernos
- Pálido reino, aos deuses detestável;
- De cá se vendo, no profundo abismo,
- Da luz difusa a trepidar os manes.
- Do súbito clarão se assusta o bruto,
- A urrar disforme, na caverna preso;
- De cima o ataca o deus, atira o que acha,
- Calhas e galgas e lascados ramos,
- Ele, ó monstro! não tendo outro refúgio,
- Rouba-se à vista, a jacular das fauces
- Tetro vapor; em cega névoa baça
- Envolve a gruta, e mescla a luz e as trevas,
- A fumífera noite aglomerando.
- Não o suporta Alcides, e de um pulo
- Se arroja onde corisca e ondeia o fumo,
- E em caligem mais basta a cova estua.
- No incêndio vão que expira agarra a Caco,
- O estreita e afoga, e lhe esbugalha os olhos,
- Seco na goela o sangue. Arranca as portas,
- O antro escancara escuro; os bois e os furtos
- Abjurados ao claro patenteia.
- O corpo informe pelos pés arrastam:
- Ninguém do semífero a catadura
- De olhar se cansa, e os peitos sedeúdos,
- E na garganta os apagados fogos.
- D’então ledos o dia celebramos;
- Primeiro o fez Potício, e a consagrada
- Pinária tribo ergueu no bosque est’ara,
- Chamada sempre máxima, e que sempre
- Máxima nos será. Mancebos, eia,
- Brindai-me a nobre ação, de destra em destra
- Os copos a girar, frondosa a coma,
- Comum deus o invocai, bebei contentes.”
- Presto as cãs lhe entretece e enfolha o choupo
- De sombra hercúlea, bicolor pendendo;
- Sagrado sifo empunha. Alegres todos
- Em roda libam, deprecando os numes.
- Já Vésper ao declive Olimpo avança:
- Tochas nas mãos, do estilo as peles cintas,
- Potício à frente, os sacerdotes cobrem
- De gratos postres a instaurada mesa;
- Bandejas de mil dons o altar oneram.
- Com popúlea capela, em torno os Sálios
- Da ara incensada ao cântico presentes,
- Jovens em coro, em coro o entoam velhos
- De Hércules em louvor: como estupendos
- Os dragões da madrasta esmaga infante;
- Como as grandes arrasa Ecália e Tróia;
- Como, o sabor de Juno, árduos trabalhos
- Sob Euristeu passou. “Tu mesmo, invicto,
- A Folo e Hileu, nubígenas bimembres,
- Tu cretenses prodígios, tu mataste
- Na brenha o leão Nemeu desmesurado.
- De ti a Estige, na cruenta cova
- Tremeu do Orco o porteiro, sobre ossadas
- Meio roídas a jazer. Fantasma
- Nenhum lá, nem Tifeu de cota enorme
- Te foi terror; não te esmorece e atalha
- Da hidra Lernéia a turba de cabeças.
- Salve, ornamento aos divos acrescido,
- Vera prole de Jove: ao teu festejo
- Com pé desce propício, e nos assistas.”
- Cantam proezas tais; por fim memoram
- A furna e Caco resfolgando chamas.
- Ressoa a selva e o eco nos outeiros.
- Cheia a função, para a cidade voltam.
- El-rei de anos cercado ia adiante,
- Entre Enéias e o filho, em vários modos
- Praticando o caminho aligeirava.
- Por tudo ávido o herói passeia os olhos,
- Mira, e cada vestígio dos maiores
- Inquire e aprende. Evandro, que os primórdios
- Lançou da celsa Roma, então começa:
- “Indígenas moravam nestas matas
- Faunos e ninfas, e homens raça dura
- Dos robles; que nem bois jungir sabiam,
- Adquirir, nem poupar, sem lei, sem culto;
- Montês caça os mantinha e agrestes frutas.
- De Júpiter fugindo, aqui Saturno
- Do Olimpo veio, expulso do seu trono.
- Selvagem povo indócil ajuntando,
- Legislou, chamou Lácio a plaga antiga,
- Onde um latente couto deparara.
- No célebre reinou século de ouro,
- De justiça e de paz; mas pouco a pouco
- Em pior descorou-se a idade nossa,
- Raiva belaz surgindo e atroz cobiça.
- De Ausônios e Sicanos invadida,
- Variou de nomes a satúrnia terra:
- De um seu rei, Tibre aspérrimo gigante,
- O Albula velho apelidou-se Tibre.
- Cá nos confins do pego, expatriado,
- A onipotente sorte inelutável,
- De minha mãe Carmenta o sério aviso
- E Apolo inspirador, me depuseram.”
- Progredindo, ele mostra o altar e a porta
- Que se intitula Carmental em Roma,
- Por memória da ninfa que primeiro
- Fatídica os Enêiadas sublimes
- E o brilho palanteu vaticinara;
- Mostra a mata em que asilo abriu Quirino
- Sagaz, e o Lupercal, gélida gruta
- De Pã liceu, vocábulo parrásio;
- Mostra o Argileto bosque, e atesta e narra
- De Argos hóspede a morte merecida.
- Dali guia ao Tarpeio, ao Capitólio,
- Hoje áureo, outrora de urzes erriçado.
- Os campestres então, da rocha e luco
- Já com pavor tremiam religioso.
- “No cimo, diz, frondente habita um nume;
- Qual seja é dúbio: Arcádios crêem ter visto
- Jove nubícogo a vibrar por vezes
- A égide negrejante. Observa aqueles
- Dois muros em ruínas; monumentos
- São dos varões passados, são relíquias
- De Satúrnia e Janículo, cidades
- Que o pai Jano e Saturno edificaram.”
- Do pobre Evandro à casa entanto sobem;
- No foro e lauto Bairro das Carinas
- Balava o armento. Ao limiar chegou-se:
- “De Alcides vencedor foi este o alvergue,
- Nesta régia o deus coube. Hóspede, imita-o,
- A desprezar atreve-te as riquezas;
- Desta míngua de haveres não te enfades.”
- Calou-se, e leva o herói pela estreitura
- Do exíguo teto, e em leito o põe de folhas,
- Do espólio de ursa líbia tapetado.
- Cai ali-fusca noite e abrange o globo.
- Não sem causa, aterrada a madre Vênus
- Do cru tumulto e ameaços dos Laurentes,
- Carinhosa ao marido amor divino
- No áureo tálamo inspira, assim falando:
- “Enquanto argivos reis com fogo e ferro
- A malfadada Pérgamo assolavam,
- Nunca, esposo querido, ajuda ou armas
- Roguei do teu lavor, nem quis tua arte
- Por miseráveis empenhar debalde;
- Bem que eu devesse muito aos Priamidas,
- E muito houvesse a Enéias deplorado.
- No rútulo país ora o tem Jove:
- Mãe, nume augusto, enfim suplico-te armas
- Que o protejam. Dobrou-te em pranto a esposa
- Titônia, a filha de Nereu dobrou-te:
- Olha que povos, que cerradas praças
- Em meu dano e dos meus o alfanje amolam.”
- Aqui recurva a Cípria os níveos braços,
- Com mole amplexo afaga o deus remisso;
- A nota chama aquece-lhe os tutanos,
- Penetra o ardor nos quebrantados ossos:
- Como quando estrondoso ignito sulco
- Percorre coruscante as rotas nuvens.
- A bela o aventa, e cônscia o ardil aplaude.
- De eterno amor cativo, então Vulcano:
- “Que remotas razões! de mim, ó déia,
- Já duvidas? Se igual empenho houveras,
- Armáramos os Frígios; não vedavam
- O pai sumo e o destino que dez anos
- Príamo inda reinasse. E pois desejas
- Combater, esmerar-me eu te prometo
- No que de ferro e de fundido electro
- Possa obrar sopro ou forja. Os rogos cessem,
- Confia em teus encantos.” E abraçando
- A gozosa consorte, em seu regaço
- Num suave repouso adormeceu-se.
- Do primo sono, ao descair das horas,
- Se despertava; e a dona que só vive
- Da roca e tênues obras de Minerva,
- Suscita as cinzas e sopitas brasas,
- Adindo a noite às lidas, e em tarefa
- Longa ante o lume as fâmulas exerce,
- Por manter ao marido o casto leito
- E criar tenros filhos; não mais tíbio,
- Da fofa cama salta o ignipotente,
- E vai de golpe à férvida oficina.
- Junto à Sicânia e Liparis eólia
- Se ergue sáxea fumante ilha escarpada;
- Lá toa etnéia gruta por ciclópias
- Fornalhas carcomida, e em safras malhos
- Se ouvem gemer, dos Cálibes as chispas
- Rugir e as frágoas resfolgar em ala:
- De Vulcano apelida-se Vulcânia.
- Dos céus o alto forgeiro aqui descende.
- No antro espaçoso o ferro trabalhavam
- Nus Piracmón e Estéropes e Brontes.
- Nas mãos polido em parte, inda imperfeito,
- Corisco tinham, dos que do éter Jove
- Crebros joga: três raios de saraiva
- Torta ajuntaram, três de aquosa nuvem,
- Três de rútilo fogo e de austro alado;
- Fulgor terrífico e estampido e medo
- Mesclavam-lhe e iras de sequazes flamas.
- Rodas leves e o carro outros consertam
- Com que homens e cidades Marte excita;
- A égide horrível da agastada Palas
- De áureas escamas à porfia brunem,
- Onde ao seio da deusa enrosca as serpes
- E inda olhos vira a Górgona estroncada.
- “Fora tudo, lhes clama, etneus Ciclopes,
- Deponde esses trabalhos e atendei-me.
- Vão-se armas fabricar a herói famoso:
- Força agora e primor, destreza e pressa.”
- Nem acaba, e o serviço eles sorteiam:
- Flui ouro e cobre a jorros, e em fornalha
- Ampla o aço vulnífico liquesce.
- Broquel tremendo formam, só bastante
- Contra todos os tiros dos Latinos;
- Lâminas sete em orbes o roboram:
- Ventosos foles o ar sorvido expelem;
- No tanque ao temperar-se o metal chia;
- O antro a bramir, os golpes nas bigornas
- Braços nervudos em cadência alternam,
- Com tenaz pegam, rubra a massa volvem.
- Na Eólia enquanto o Lêmnio os aferventa,
- A alma luz da cabana a Evandro acorda,
- No teto matinais cantando as aves.
- Enfia a túnica, as sandálias tuscas,
- Ata às plantas o velho; e, a tiracolo
- Tegéia espada, lança do ombro esquerdo
- E sobraça uma pele de pantera.
- Marcham dois cães fiéis, que a porta guardam,
- Pós seu dono. Em descargo da promessa,
- O ancião buscava o camarim de Enéias,
- Que também madrugara e já saía.
- A um Palante acompanha, ao outro Acates.
- Juntas as destras, no salão do meio
- Sentam-se, e francamente enfim se explicam.
- El-rei começa: “Ó mor dos frígios cabos,
- Livre estás, por vencida eu não dou Tróia.
- Para um tal nome é fraco o auxílio nosso:
- Cá tusco rio, lá me aperta armado
- Circunsonando o Rútulo à muralha.
- Mas bons guerreiros e opulentos reinos
- Aliar-te vou: dos fados conduzido,
- Conjunção tens aqui para salvar-te.
- Não distante, em vetustos alicerces
- De Agila, outrora a brava gente lídia
- Fundou cidade nos etruscos serros.
- Florente prosperava, até que veio
- Mezêncio, mau tirano, a subjugá-la.
- Por que assassínios tais e atrocidades
- Referirei? Sobre ele e os seus recaiam!
- Vivos ligava a mortos, contrapondo
- Mãos a mãos (que tormento!) e boca a boca,
- E em triste abraço e pútrida sangueira
- Nesta agonia longa os acabava.
- Lassos porém da infanda crueldade,
- Munidos cidadãos cercam-no em casa,
- Queimam-na; os vis asseclas lhe degolam.
- Da morte escapo, em Ardea achou guarida,
- Do hóspede Turno as armas o defendem.
- A Etrúria toda, em fúria e justo marte,
- Pede insurgida o rei para o suplício.
- Vou por-te à frente de milhares destes.
- Querendo içar bandeira as popas fremem
- Densas na praia: arúspice longevo
- As retém profetando: — “Ó flor meônia,
- Que, avito brio herdando, o agravo acende
- Em mérito furor contra Mezêncio,
- Não pode Ítalo algum domar tal gente;
- Chefe externo escolhei.” — D’então, confuso
- Do anúncio, o tusco exército acampou-se.
- Tárchon mesmo enviou-me insígnias régias;
- Aos arraiais tirrenos me convida
- E o cetro me oferece. Mas velhice
- Tarda e frígida inveja-me este império,
- E as débeis gastas forças me acobardam.
- Suadira o filho, se daqui não fora,
- Gerado em mãe sabela. Tu, que a idade,
- Que a pátria favoneia, e os céus designam,
- Vai, cabo egrégio de Ítalos e Teucros.
- Confio-te a só prole, meu conforto,
- Minha esperança. A militar contigo
- Aprenda e a ter em pouco o márcio peso;
- Novel, te observe e admire-te as façanhas,
- Dar-te-ei duzentos guapos cavaleiros
- De escolha, e iguais te ofertará Palante.“
- O Anquíseo, a vozes tais, e o fido Acates
- No mesto coração mil duros transes,
- Fixos em terra os vultos, pressagiam,
- Se não acena do alto Citeréia.
- Eis o ar vibrado relampeia e ronca:
- Tudo estralar parece e de trombeta
- Mugir clangor tirreno. A vista elevam:
- Trovão brama e rebrama; em nuvem clara,
- Serena a região, pulsadas armas
- Vêem rutilar toando. Os mais se espantam
- Mas o herói, conhecendo o som divino:
- “Hóspede, brada, o anúncio do portento
- Não me inquiras; o Olimpo me reclama.
- Prometeu minha mãe, se a guerra instasse,
- Transmitir-me o sinal e pelas auras
- Armadura vulcânia. Ah! que de estragos
- Ameaça os Laurentinos! Caro, ó Turno,
- Mo pagarás! Que escudos, corpos e elmos,
- Pai Tiberino, envolverás nas ondas!
- Que ora peçam batalha e o pacto quebrem.”
- Do sólio aqui se ergueu; sopitas aras
- Com teda hercúlea esperta; e alegre o de ontem
- Lar busca e humildes hospedeiros divos;
- Reses do estilo bianejas mata:
- O mesmo faz Evandro e os jovens teucros.
- Às naus depois caminha; e dentre os sócios
- Elege os mais guerreiros e prestantes;
- Outros vão rio abaixo, ao tom das águas,
- O que obteve seu pai contar a Ascânio.
- Corcéis arreiam para o campo etrusco;
- A Enéias um loução: leonino o amanta
- Fulvo teliz de auriluzentes unhas.
- Veloz no exíguo burgo a nova grassa
- De ir a cavalaria às tuscas tendas.
- As mães duplicam votos, medra o susto,
- Mor o perigo e a lide se afigura.
- Na despedida Evandro ao filho a destra,
- Lagrimando insaciado, aperta e fala:
- “Oxalá que eu tornasse ao vigor d’antes!
- Quando, a vanguarda ufano destruindo,
- Em Preneste incendiei montões de escudos;
- E, remetendo ao Orco o régio Herilo,
- Três almas, que ao nascer a mãe Ferônia
- Lhe infundira, ó prodígio! este meu braço
- Lhas desfez, derribando-o com três mortes,
- E o despojei da tríplice armadura:
- Então, meu doce filho, do teu lado
- Nunca me apartaria; nem Mezêncio,
- Às minhas barbas tanto horror cevando,
- A viúva cidade funestara.
- Mas, vós deuses, tu Júpiter supremo,
- Do aflito arcádio rei compadecei-vos,
- Prece escutai paterna: se Palante
- O vosso nume e os fados mo conservam,
- Se hei de vê-lo e aduná-lo, a vida imploro;
- Tragarei quaisquer penas: mas, Fortuna,
- Se ameaças caso horrendo, agora, agora
- Estale a cruel teia, enquanto ambíguo
- Temo e espero o futuro, enquanto, ó caro,
- Meu só e último gosto, aqui te abraço:
- Núncio ingrato os ouvidos não me fira.”
- Tal neste adeus se exprime e chora o velho;
- Desfalecido, os servos o recolhem.
- Pelas portas as turmas já despedem,
- À testa o herói e Acates, e outros Frígios
- Dos mais grados: no centro luz Palante,
- De arnês pintado e clâmide vistoso;
- Qual, do oceano orvalhada, a estrela d’alva,
- A quem sobre os mais astros Vênus ama,
- Alteia aos céus a fronte e solve as trevas.
- Pávidas mães aos muros, de olhos seguem
- Nuvem pulvérea e o bando eri-fulgente.
- Por encurtar jornada, espinhais trilham;
- Formam-se ao grito, a esboroá-lo bate
- Com som quadrupedante a úngula o campo.
- Bosque ante o frio Cérite se estende,
- Antigo e venerado; o qual circundam
- Negros abetos, curvos montes fecham.
- Priscos Pelasgos, íncolas do Lácio,
- Um dia e o luco é fama que a Silvano,
- Deus das lavras e gados, consagraram.
- Tárchon lá tinha os arraiais seguros;
- De uma colina o exército espalhado
- Já se descortinava e ao largo as tendas.
- Com seus guerreiros se adianta Enéias;
- Lassos, dos corpos, dos cavalos curam.
- A cândida Ciprina os dons pelo éter
- Nimboso traz, e ao filho em vale escuso
- Retraído enxergando à fresca margem,
- Lhe disse rosto a rosto: “Eis os presentes
- Que engenhou meu consorte: não receies
- Laurentes soberbões nem fero Turno
- Provocar.” Nisto, enreda-se nos braços
- Do seu querido, e à sombra de um carvalho
- Depôs fronteiro as fulgurantes armas.
- Gostoso de honra tanta, em si não cabe;
- Mira tudo e remira; embraça e apalpa,
- Meneia e prova, de terrível crista
- O elmo flamívomo, a letal espada;
- Bronzi-rija e sangüínea a grã couraça,
- Qual se aos raios do Sol cerúlea nuvem
- Longe esplende e rubeja; as finas grevas
- De electro e ouro acendrado, e a cota e a lança,
- E a do broquel textura inexplicável.
- Nele, o porvir sabendo e as profecias,
- O artífice gravou de Itália as coisas
- E os triunfos romanos, desde Iulo
- A estirpe toda, e a série das batalhas.
- De Marte em verde gruta ali parida
- Loba jaz, e a brincar das tetas pendem
- Gêmeos que a chupam sem pavor, e afagos,
- Nédia a cerviz dobrando, a mãe reveza,
- E os corpinhos lambendo os afeiçoa.
- Gravou Roma, e as Sabinas do teatro
- Raptas sem modo nos circenses ludos;
- Entre os Romúleos e dos severos Cures
- Do velho Tácio a disparada guerra.
- Depois, da ara de Jove os reis armados,
- Posto o certame, tendo em mãos as taças,
- Em penhor da aliança a porca ferem.
- Perto, opostas quadrigas fustigadas,
- Mécio esquartejam; vísceras e membros
- (Tu Albano perjuro, a fé guardasses)
- Roja Tulo, e os sarçais goteiam sangue.
- Lá, para impor Tarquínio expulso a Roma,
- Porsena a cerca e oprime: a libertá-la
- Contra o ferro os Enêiadas remetem.
- Como indignar-se o viras, torvo e irado,
- Porque ouse Cocles só cortar a ponte,
- E as prisões rompa Clélia e trane o rio.
- No cimo, a rocha a vigiar Tarpéia,
- Mânlio o templo defende e o Capitólio;
- Colmo romúleo o paço novo encrespa.
- Argênteo ganso ao pórtico dourado
- A esvoaçar dos Galos dá rebate,
- Que entre o mato, a favor da opaca noite,
- Vinham-se aproximando à fortaleza.
- Áureo o crino, áurea a veste, e o saio em listras,
- Luzem de áurea cadeia aos lácteos colos;
- Cada qual dois rojões alpinos brande,
- Com oblongos escudos se resguardam.
- Abriu Sálios dançando e nus Lupercos,
- Topes lanosos, e do céu caídas
- Ancílias: castas mães em moles andas
- Guiam pela cidade as sacras pompas.
- Longe, o Tártaro abriu, plutônias fauces,
- E os castigos da culpa; e a ti suspenso,
- Ó Catilina, de um minaz rochedo,
- Ante as Fúrias tremendo; e à parte os justos,
- A quem rígidas leis Catão ditava.
- Também de ouro, a espumar com branca vaga,
- Representa o cerúleo inchado plaino;
- Delfins de argênteo brilho, às voltas, o esto
- Rasgam, de cauda o pélago açoitando.
- No meio, êneas armadas, ácias guerras,
- Todo a ferver Leucate em marte instruto,
- Com o ouro viras fulgurar as ondas.
- Cá, n’alta popa, Augusto arrasta aos prélios
- Senado e povo, os deuses e os penates;
- De ambas as fontes ledo exala flamas;
- Na cabeça lhe fulge a estrela pátria,
- Agripa lá, propícios vento e numes.
- Árduo comanda; e a frota vitoriosa
- Rostrada se orna da naval coroa.
- Antônio além, ovante com o auxílio
- Bárbaro e vário, as forças traz do extremo
- Báctro e eôos confins e roxas praias;
- Com todo o Egito, ó pejo! segue a esposa.
- À uma ruem, se empegam; freme e alveja
- O mar dos remos e esporões tridentes.
- Crês despregadas Cícladas nadarem,
- Montes baterem monte: com tal mole
- Instam varões das torreadas popas!
- Fachos estúpeos voam, farpas zunem,
- Rubra do fresco estrago a azul campina.
- Sem ver pós si dois áspides, com pátrio
- Sistro anima Cleópatra os soldados.
- Contra Palas, Netuno e Vênus, se arma
- Com omnígenos deuses monstruosos
- O ladrador Anúbis: no conflito
- Marte, em ferro entalhado, se embravece;
- Do éter as negras Diras, e ufanosa
- Marcha a Discórdia, espedaçado o manto;
- Com sangüento flagelo atrás Belona.
- O áccio Apolo atentando o arco atesa
- De cima: de terror o Árabe, o Egípcio,
- O Indo, o Sabeu, voltaram todos costas.
- Mesmo a rainha parecia os ventos
- Invocar, soltar cabos, dar as velas.
- Já da futura morte em palor tinta,
- Da clade o rei do fogo fez que a tirem
- O Iapix e a corrente: mas defronte
- Mesto abre o seio, e a veste arregaçando,
- Ao verde grêmio e latebrosas fontes
- Chama os vencidos o gigante Nilo.
- Com tríplice triunfo entrado em Roma,
- De Itália aos deuses cumpre os votos César,
- Trezentos sagra amplíssimos delubros.
- Festa, aplauso, alegria as ruas soam:
- Em cada templo um coro há de matronas,
- Aras em todos há, perante as aras
- Touros imolam, de que a terra juncam.
- Sentado ao níveo limiar de Febo,
- Reconhece ele as dádivas dos povos,
- E dos portais soberbos as pendura.
- As vencidas nações longo desfilam,
- Tão diversas em língua, em trajo, em armas.
- Nômades e Afros descingidos, Cares,
- Lelagas, sagitíferos Gelonos
- Mulciber esculpira; e já mais brando
- O Eufrates, e os Morinos derradeiros,
- E os indômitos Daas, e o bicorne
- Reno, e da ponte o Araxes indignado.
- O herói admira o dom, primor vulcânío;
- Da imagem do porvir gozando ignaro,
- Dos seus glória e destino ao ombro leva.