Depois que em mal os deuses derribaram
750 versos · 28 notas do tradutor
- Depois que em mal os deuses derribaram
- Ásia e a nação priaméia, altivos muros
- E Ílio a neptúnia em fumo resolvendo,
- A buscar nos suadiu celeste aviso
- Vários desterros e desertos climas;
- E no Ida frígio, ao pé da mesma Antandro
- Fabricámos as naus, do fado incertos,
- Do rumo e pousadia. Alisto os sócios;
- E, entrada a primavera, ordena Anquises
- Velas dar à ventura: então da pátria
- Deixo os portos chorando, a borda e campos
- Onde foi Tróia; com Iulo e os Teucros
- Exul me engolfo, e os divos e os penates.
- Campinas que regera o audaz Licurgo,
- Vasta mavórcia terra, os Traces lavram:
- Nela doce agasalho e amigos lares,
- Enquanto quis fortuna, achava Tróia.
- Ruim fado aí me aporta, e em curvo seio
- Planto Enéia e do meu seu nome formo:
- Aos de começo tais auspices numes
- E à mãe Dionéia sacrifico, e um touro
- Nédio imolo na praia ao deus superno.
- Um combro ali, coroava-o de hastes crespa
- Densa touça de murta e pilriteiro.
- Cheguei-me, e no arrancar o verde mato,
- Para os altares enfolhar com ramos,
- Assombroso portento arrepiou-me:
- O arbusto que primeiro desarreigo
- De negro-rubras gotas o terreno
- Tábido mancha. Os membros me convulsa
- Frígido horror, coalhado gela o sangue.
- Puxo outro lento vime, o arcano sondo;
- Atro cruor de novo a casca estila.
- Mil cuidos penso; às Hamadrias oro,
- Ao do gético chão fautor Gradivo,
- Que a visão ominosa em bem convertam.
- Firmo os joelhos na areia, o esforço envido,
- Terceira haste acometo; eis de um sepulcro
- (Falar devo ou calar?) imo suspiro,
- Gemente som, no ouvido me estremece:
- “Ai! por que me laceras? poupa, Enéias,
- Um finado; as mãos pias não profanes.
- Gerou-me Tróia, nem te sou estranho,
- Nem este humor do tronco mana. Ah! foge,
- Foge o país cruel, a avara praia.
- Sou Polidoro: aqui varou-me e cobre
- De hastas férrea seara, que em vergônteas
- Agudas verdeceu.” De susto opressa
- Títuba a mente, estaco horripilado,
- Presa a voz à garganta. Ao rei treício
- Com grande peso de ouro às escondidas
- Mandara o infeliz Príamo este filho
- A se educar, já quando, estreito o assédio,
- Do sucesso das armas receava.
- Tróia abatida, o pérfido servindo
- A vitória e fortuna agamenônia,
- Degola o moço e empolga-lhe o tesouro.
- Os corações mortais a que os não forças,
- De ouro fome execranda! Assim que os ossos
- Deixa o pavor, consulto os mais conspícuos,
- E primeiro a meu pai conto o prodígio.
- Convêm todos que, à frota os austros dando,
- Do malvado lugar, poluto hospício,
- Nos afastemos. Logo a Polidoro
- O funeral se instaura, e amontoamos
- Sobre o túmulo terra. Altar aos manes,
- De azuis listões e exequial cipreste
- Enlutado, elevamos; destrançadas,
- Como é rito, as Ilíades o cercam.
- Tépido espúmeo leite e de hóstias sangue
- De navetas e taças lhe infundimos;
- A alma a vozes no túmulo encerramos,
- Três vezes proferindo o extremo vale.
- Mal abonança o mar, segura o tempo,
- E Austro brando sussurra e ao largo invita,
- Em nado a praia enchendo, as naus velejam;
- Vai recuando a praia e os novos muros.
- Sacra à mãe das Nereidas e a Netuno
- Egeu, ilha gratíssima cultivam;
- Que a errar boiava, e o pio arcitenente
- Com Mícon celsa atou-a e com Giaro,
- E a fez imota, que dos ventos zombe.
- Lá fui ter; placidíssima cansados
- Nos recebe e agasalha. Ao desembarque
- A cidade acatamos apolínea.
- Ânio rei, que une o cetro e o sacerdócio,
- Do febeu louro e fitas adornado
- Sai, reconhece o amigo velho Anquises,
- Nos toma a destra, nos recolhe e hospeda.
- Venero o templo ereto em penha antiga:
- “Laços dá-nos, Timbreu, dá-nos progênie
- E estáveis muros; salva est’outra Pérgamo,
- Restos dos Gregos e do imite Aquiles.
- Quem nos guia? onde ir cumpre? onde assentarmos?
- Padre, em nós te insinua, o agouro aclara.”
- Então, sinto agitar-se e tremer tudo,
- Portas, louro do deus, e o monte em roda;
- Muge a cortina, aberto o santuário.
- No chão prostrados esta voz nos soa:
- “O ubérrimo torrão, Dárdanos duros,
- Vossa origem primeira, há de acolher-vos:
- Ao grêmio vos tornai da prisca madre.
- A casa ali de Enéias no orbe inteiro
- Tem de imperar, e os filhos de seus filhos,
- E os que deles nascerem.” Tal anúncio
- Ledo alvoroto inspira; indagam todos
- A que paragem Febo os mande errantes
- E a reverter convide. Anciãs memórias
- Recordando meu pai: “Ó chefes, disse,
- Ouvi-me, roborai vossa esperança.
- Creta, berço de Tróia e do alto nume,
- Equórea jaz, com o Ida e estados pingues
- E amplas cidades cem; donde abordando
- Junto ao Reteu, se a tradição me lembra,
- Teucro, avô nosso, ao reino escolheu sítio.
- Ílio nem seu castelo inda existia,
- Inda em profundos vales se habitava.
- Daqui Réia cultora, e os coribântios
- Sistros, e o monte Ideu; fiel silêncio
- Daqui veio aos mistérios, e jungidos
- Leões tirarem de senhora o carro.
- Eia, o céu quer, os ventos aplacando,
- Vamos já demandar as gnósias ribas:
- Não distam muito, com favor de Jove
- Lá podemos surgir à luz terceira.”
- Termina; e um touro mata, honras devidas
- A Netuno; a ti outro, ó belo Apolo;
- Rês negra aos temporais, branca aos favônios.
- Expulso Idomeneu do pátrio sólio,
- Corre que, evacuada de inimigos,
- Livre Creta ficou. Largando Ortígia,
- No pélago a voar, passamos Naxos
- E os montes seus que em bacanais ressoam,
- Donisa verde, Olearo e a nívea Paros,
- Na azul campanha as Cícladas esparsas,
- Fretos de bastas ilhas semeados.
- Na faina se ergue a náutica celeuma.
- Vozes cruzam: “À Creta, ao ninho avito”.
- De ré nos venta a brisa, e dos Curetes
- A vetérrima plaga enfim tocámos.
- Ávido a nova Pérgamo começo;
- E, ufana com tal nome, incito a gente
- A exalçar o castelo e amar seus fogos.
- Já varadas em seco as popas eram;
- Cuida-se em bodas, cuida-se em lavouras;
- Casas regulo e marco: eis plantas e homens
- Salteia corrupção que infecta os ares,
- Triste ano, peçonhento às sementeiras.
- Ia-se a doce vida, ou se arrastavam
- Corpos a definhar: queimando Sírio
- Estéreis agros, ressequidas ervas,
- Enfezada a seara o pão negava.
- Que eu, ressulcando o mar, de novo em Delos
- Consulte humilde a Febo exorta Anquises:
- Onde o refúgio, o termo a tanta angústia,
- Convém tentar; que rota nos prescreva.
- Noite era, e o sono os animais prendia:
- As divinas efígies e os penates,
- Que o ilíaco incêndio ressalvámos,
- Resplendecendo em sonhos me aparecem,
- Donde pelas janelas mal cerradas
- Cheia a Lua enfiava o argênteo raio;
- Ei-los que do cuidado assim me tiram:
- “Não mais o ortígio oráculo demandes;
- Por nós de grado Apolo aqui to envia:
- Nós, Tróia em chamas, sob as armas tuas,
- Remedimos contigo o inchado pélago;
- Aos teus glória perene, eterno império
- Daremos nós: tu longo afã não temas,
- Procura a tal grandeza igual cidade.
- Muda-te, parte, o Délio o determina;
- Nem ele aconselhou-te a vir a Creta.
- Um país há vetusto, em grego Hespéria,
- Fecundo e belacíssimo, colônia
- De Enótrios a princípio; Itália é fama
- Que, de um rei seu, modernos a nomeiam:
- Lá, por Dárdano e Jásio, a estirpe nossa
- Origem teve; o assento lá teremos.
- Vai-te ledo ao bom velho, e o desengana;
- Sus, de Corito e Ausônia a rota segue.
- Júpiter nega-te as dictéias lavras”.
- Desta fala e visão estupefato
- (Nem foi letargo, não; veladas comas,
- Vultos, feições, eu divisar cuidava,
- E em suor frio o corpo me escorria),
- Da cama salto; ao céu tendendo as palmas,
- Oro, e holocausto intemerato libo.
- Completo o sacrifício, expendo alegre
- Tudo a meu pai; que os troncos dois e a prole
- Ambígua reconhece, e o novo engano
- Em que antigos lugares o induziram.
- “Filho, a quem de Ílion persegue o fado,
- Rememorando ajunta, só Cassandra
- Tal me predisse, e uns reinos prometeu-nos,
- Que ou Hespéria ou Itália apelidava.
- Mas quem tão longe crera a estância nossa?
- E a quem jamais persuadiu Cassandra?
- Febo o melhor nos mostra, eia, cedamos.”
- Tudo ovante obedece. Alguns se ficam;
- Os mais soltamos novamente as velas,
- Cursando em cavo lenho o imenso plaino.
- Ao largo os barcos, desparece terra,
- Céu daqui, mar dali. Bulcão cerúleo
- Feia borrasca sobre nós carrega,
- Treva e horror pelas águas estendendo.
- O vento em brenhas escarcéus levanta,
- Nos joga e espalha pelo vasto pego.
- Tolda-se o dia, e pluviosa a noite
- Nos rouba a luz polar; rasgadas nuvens
- Trovejam, relampeiam. Flutuamos
- Sem rumo à toa; Palinuro mesmo
- Perde o tino, e confunde a noite e o dia.
- Nem fulge estrela nas opacas horas,
- E em cerração três dúbios sóis vagamos:
- Ao quarto, arrumação, que a olho aumenta,
- Serros descobre, os topes já fumeiam.
- O pano arreia-se, a vogar surdimos:
- Estribada a maruja a espuma estorce,
- Varre o páramo azul. Das ondas livre,
- Ilhas do grande Jônio, em grego Estrófades,
- Nas praias me recebem: nestas ilhas
- Mora a cruel Celeno e as mais Hárpias,
- Dês que, enxotadas, os festins medrosas
- E a vivenda finéia abandonaram.
- Monstro maior, nem divinal flagelo,
- Nem peste mais voraz brotou da Estige:
- Tem laxo imundo ventre e garra adunca,
- Aves nojosas, com virgíneos rostos,
- Magros, pálidos sempre e esfomeados.
- No arribar, gordo armento se oferece,
- Fato, sem pegureiro, pelo prado:
- Investimos a ferro, e aquinhoamos
- Na presa o mesmo Jove e os outros numes.
- Camilhas na enseada construímos;
- Regalado manjar nos banqueteia.
- Súbito em lapso horrífico as Hárpias
- Descem dos montes, a adejar ruidosas;
- Pilham tudo, enxovalham, contaminam,
- Mesclando a tetro odor funestos gritos.
- Sob sáxea lapa ao longe retirados,
- Cobertos de arvoredo e escura sombra,
- N’ara o fogo outra vez e as mesas pomos:
- De outro escond’rijo lôbrego, estrondando,
- Revoa a turba em roda, e as iguarias
- Polui com boca impura e tortas unhas.
- Arma, arma, à dirá gente eis guerra intimo.
- Dito e feito; escondemos sob a relva
- Prestes gládios e escudos. Mal deslizam
- Por curvas praias a grasnar, Miseno,
- Que do alto espreita, o cavo bronze entoa:
- Tenta-se, estranho ataque! a ferro obscenas
- Marinhas aves escalar; mas golpes
- No dorso ou plumas nem lesão consentem,
- E em fuga, alando-se às estrelas, deixam
- A presa mossegada e infecto rasto.
- Num alcantil Celeno só pousando,
- Rompe aziaga em tais vozes: “Guerra, em cima
- De novilhos e bois nos estragardes!
- Guerra e esbulhar quereis do pátrio reino
- As insontes Hárpias! Pois ouvi-me,
- Gravai n’alma o que a Febo, ó Laomedôncios,
- O sumo rei predisse, e a mim Apolo,
- E eu rainha das fúrias vos declaro.
- Itália demandais, à Itália os fados
- Com viração galerna ir vos concedem;
- Mas antes que mureis o assento vosso,
- Desta matança em pena, há de obrigar-vos
- Crua fome a roer as próprias mesas.”
- Cala, e de surto à selva se recolhe.
- Gélido o sangue, esmorecemos todos.
- Armas não mais; com votos paz rogamos,
- Sejam déias, ou fúrias, torpes aves.
- Da praia as mãos levanta, e os grandes numes
- Com devida oferenda implora Anquises:
- “Deuses, fora o ameaço, arredo o agouro;
- À vossa pia gente auxílio, ó deuses!”
- Depressa faz colher a amarra, e soltos
- Os calabres safar. Noto incha as velas;
- Arando o espúmeo golfo, navegamos
- À discrição do vento e do piloto.
- Já surge à flor Zacintos nemorosa,
- Dulíquio e Samos, Néritos alpestre:
- Do Ítaco sevo a praguejar o berço,
- Os laércios cachopos esquivamos.
- Descobrem-se de Leucate os nimbosos
- Topes, e Apolo aos nautas formidável:
- Subimos lassos o pequeno burgo.
- Da proa âncora deita-se, amarramos
- À borda as popas. Do insperado solo
- De posse enfim, celebro o lustro a Jove,
- Com votos ara acendo, e em tróicos ludos
- A acíaca ribeira festejamos;
- Taís, nus e ungidos, pátria luta exercem:
- É grato, a salvo de inimigos, termos
- Tanta cidade argólica passado.
- Do ano maior a volta o Sol completa,
- Gelo hiemal com nortada encrespa os mares.
- O éreo cavo broquel do grande Abantes
- Do portão prego em meio, e em baixo inscrevo:
- “Ao Danao vencedor ganhou-o Enéias.”
- Largar mando, e em seus bancos os remeiros
- Varrem, qual mais, as percutidas vagas.
- Dos Feaces escondo aéreos cimos,
- Costeio o Épiro, aporto na Caônia,
- Monto à celsa Butroto. Incrível soa
- Que reina aqui Priamides Heleno,
- Que do Eacide o toro e graio cetro
- Ele os desfruta, e Andrômaca de novo
- A cair veio a natural marido.
- Confuso e em curiosa ânsia abrasado
- De escutar ao varão tamanhos casos,
- Traspasso o porto, praia e naus deixando.
- N’aba de um Simois falso, à hectórea cinza
- Festim solene acaso e dons funéreos,
- Num luco fora, Andrômaca libava,
- Os manes evocando ao que de ervosa
- Céspide vácuo túmulo sagrara,
- E altares dois, a prantear motivo.
- Ao distinguir-me e ao ver troianas armas,
- Se espanta e embaça, atônita desmaia;
- Só quando os ossos o calor cobraram:
- “Vives? murmura; és tu, divina prole?
- Ou se incorpóreo núncio a luz não gozas,
- Que é de Heitor?” E inundando-se-lhe as faces,
- De lamento enche o bosque e de suspiros.
- Bem pouco respondendo a seus transportes,
- Conturbado boquejo em troncas frases:
- “Sim vivo, e a todo o extremo arrasto a vida;
- É real quanto vês. Ai! despenhada
- Do ínclito esposo a tanto aviltamento,
- Como o decoro enfim recuperaste?
- Andrômaca de Heitor, inda és de Pirro?”
- De pejo o rosto abaixa, e em tom submisso:
- “Ó só feliz a priaméia virgem
- Que imolada morreu sobre hostil campa
- Nos pátrios muros! Não provou da sorte
- Lance algum, nem cativa a heril alcova
- Tocou do vencedor! Nós, Tróia em fogo,
- De mar em mar rojadas, suportámos,
- Na servidão parindo, o fausto e orgulho
- Do Aquileu caprichoso; o qual à Esparta
- Indo aliar-se a Hermione Ledéia,
- Escrava me transmite a Heleno escravo.
- Mas, do roubo da esposa ardendo em zelos,
- Das fúrias agitado, o atroz Orestes
- De improviso o degola às pátrias aras.
- Recaiu, morto Pirro, em parte o reino
- A Heleno, que chamou Caônio o campo,
- Caônia a terra, de Caon Troiano;
- Pérgamo, Ílio, é no morro a cidadela.
- Qual porém te dirige ou vento ou fado?
- Que deus te arroja ignaro às nossas praias?
- Onde o que te nasceu já Tróia em sítio?
- D’aura mantém-se Ascânio? inda saudoso
- Da mãe se lembra que perdeu na infância?
- Hombridade lhe inspira e esforço antigo
- Ser Enéias seu pai e Heitor seu tio?”
- Tal num contínuo choro em vão carpia;
- Quando com toda a corte o herói priâmeo
- Das muralhas se adianta, e prazenteiro,
- Os seus reconhecendo, os encaminha,
- E entre falando largo pranto verte.
- No irmos, deparo as tênues Ílio e Tróia,
- E árido arroio que simula o Xanto;
- Abraço-me aos umbrais da porta Scéia.
- Desta sócia acolhida os meus se logram:
- Régios pórticos amplos os recebem.
- Copos do paço em meio a Baco encetam,
- Sobre ouro comem, taças de ouro empunham.
- Corre dia após dia: ao sopro austrino,
- Que nos convida, o cárbaso intumesce.
- Entro a Heleno e o conjuro: “Ó tróico vate,
- Que, dos divos intérprete, os influxos
- Do Clário Febo, as trípodes, os louros,
- Que os astros, que dos pássaros as línguas
- Sentes, e avisos da ligeira pena
- (Pois feliz curso oráculos me cantam,
- E, a ir dos deuses todos persuadido
- Da Itália em busca a regiões remotas,
- Celeno só me augura um monstro infando,
- E iras fatais e depravada fome),
- Dize, eia, que perigo evitar urge?
- Como superarei trabalhos tantos?”
- Já do uso as reses mata, e exora o antiste
- Aos divos paz, da fronte sacra a touca
- Desata, e a mim venerabundo e absorto
- Pela mão, Febo, ao templo teu me guia,
- E a profética boca desencerra:
- “Com mor auspício é fé que tu navegas,
- Filho de Vênus: tal baralha as sortes,
- E as encadeia e liga o rei dos numes,
- Por que sulques melhor ignotos mares,
- E ancores a teu salvo em porto ausônio,
- Vai do muito expender-te um pouco Heleno;
- Que o mais, sabê-lo as Parcas me proíbem,
- Ou falar veda-me a Satúrnia Juno.
- Primeiro, a Itália próxima, onde cuidas
- Que aportas breve, t’a separa e afasta
- Com longas terras ínvia longa via.
- N’água sicana o remo vergar deves,
- E o salso golfo Ausônio, o lago Averno,
- E a ilha percorrer de Circe Eéia,
- Antes que assento firme estabeleças.
- Dou-te os sinais, conserva-os: quando achares,
- Cuidoso à margem de secreto rio,
- De enzinha litoral deitada à sombra,
- Grande e recém-parida, uma alva porca
- A trinta alvos leitões amamentando,
- Ali terás descanso, ali cidade.
- Quanto a roer as mesas, não te assustes:
- Rumo há de achar o fado e ouvir-te Apolo.
- Destas partes porém, da extrema Itália
- Que as das marés do Jônio enchentes lavam,
- Safa-te; são de Gregos infestadas.
- Aqui fixaram-se os Narícios Locros,
- E o Líctio Idomeneu cercou de tropas
- Os campos de Salento; aqui munida
- A pequena Petília Filoctetes
- Melibeu tem. Mas quando, além dos mares
- Surta a frota e na praia erguidas aras,
- Os votos cumpras, de purpúreo amicto
- Vela a cabeça; a fim que hostil aspecto
- Não turbe o agouro. Aos teus nos sacrifícios
- Tal seja o rito, observa-o; permaneçam
- Nesta religião sem falha os netos.
- Como à Sicânia te aproxime o vento,
- Já claro o estreito passo do Peloro,
- Costeia à esquerda com circuito longo,
- A destra borda foge e destras ondas.
- Por convulsão violenta e vasta ruína,
- Este lugar, se conta, há largas eras
- (Do tempo o que não muda a vetustade?)
- Se espedaçou, formava um continente:
- Neptunina irrupção rasgou da Hespéria
- Sicília; augusto braço as lavras parte,
- Banha as cidades e limita as praias.
- Cila a direita ocupa; e d’água, à sestra,
- Grandes golpes três vezes no atro abismo
- Caribdes implacada a pique sorve,
- Três revessa e esguichando açouta os astros.
- Presa arreganha a boca e as naus às pedras
- Cila atrai, em cego antro: cara de homem,
- Do colo ao púbis moça linda, em ceto
- Remata enorme, e em útero de lobos
- Se lhe articulam de delfins as caudas.
- O Pachino dobrado, em roda a viagem
- Antes ir prolongando, que a disforme
- Cila encarar sequer, e a furna horrenda
- Com seus cerúleos cães saxissonante.
- Sobretudo, se hás fé no auspice Heleno,
- Se prudência lhe assiste e o enche Apolo,
- Só te isto, ó prole diva, amoesto e prego,
- E repito e reitero: a Juno excelsa
- De grado o nume adora, e a soberana
- Preces, votos e súplicas abrandem:
- É como finalmente vitorioso,
- A Trinácria trasposta, irás à Itália.
- A Cumas tu chegado, e aos lagos santos
- Lucrino e Averno de sonoras matas,
- Verás no imo rochedo a vate insana
- Que os fados canta, e letras, nomes, carmes
- Grava e encomenda às folhas, e os numera.
- Na gruta eles fechados, não se bolem,
- Em ordem se mantêm; mas, se uma aragem
- Da porta os gonzos vira, encana, e as tenras
- Folhas baralha, avoejar a virgem
- Pela caverna os deixa, nem mais cura
- De arranjar, de os colher: e os inconsultos
- Vaõ-se, a cova e a Sibila esconjurando.
- Posto que da tardança os teus murmurem,
- Que plenas velas amarar te possam
- Boleadas à feição, dali não partas,
- Sem que a teus rogos ela a voz desprenda
- E oráculos resolva. Há de a Cuméia
- As guerras te explicar, d’Itália os povos,
- Trabalhos como evites, como os sofras;
- E obter-te venerada o salvamento.
- Basta; nem de al me é lícito avisar-te.
- Anda, engrandece a Tróia, aos céus te exalça.”
- Tal profetava amigo, e às naus dons manda
- Graves de ouro e elefântico embutido,
- De argênteos vasos e dodôneos cassos
- Abarrota os porões; de malha ajunta
- Loriga auritrílice e um capacete
- De comante cocar, cimeira insigne,
- De Pirro arnês. Presentes faz a Anquises.
- De práticos nos supre e de remeiros,
- Cavalos doa, os sócios provê de armas.
- Meu pai de verga d’alto apresta a frota,
- Que os ventos de servir não desperdice.
- Cortês o augur o acata: “Aceito esposo
- Da Cípria em celso toro, ó caro aos deuses,
- Das perdas ambas de Ílion salvado,
- Ei-la, à fronteira Ausônia aproa e voga.
- Todavia hás mister passar avante:
- Dista a paragem que te Apolo inculca.
- Vai-te, ó pai venturoso de um tal filho!...
- Que! tardo, estorvo os astros que já surgem?”
- Não menos boa Andrômaca, à partida,
- Frígia clâmide a Ascânio traz saudosa,
- E roupas de matiz de áureo brocado;
- De finas teias o acumula, e fala:
- “Do próprio meu lavor, toma estes mimos,
- Que testifiquem sempre e te relembrem
- Da viúva de Heitor, filho, a ternura:
- Dos teus recebe as derradeiras prendas,
- Só do meu Astianaz tu viva imagem:
- Tinha teus olhos, tuas mãos, teu rosto,
- E eqüevo hoje contigo enrubescera!”
- O adeus lhes digo, em lágrimas desfeito:
- “Vivei felizes, vosso fado encheu-se;
- De transe em transe o nosso nos repulsa.
- Já descansais; de arar não tendes mares,
- Nem de ir à Itália, que se furta e alonga:
- D’Ílio e do Xanto contemplais a efígie,
- Feitura vossa; com melhor auspício,
- Oh! menos seja exposta ao dolo argivo!
- Se os campos chego a ver que banha o Tibre,
- E à minha gente os prometidos muros,
- Das propínquas cidades consangüíneas
- E dos povos irmãos, no Lácio e Épiro,
- Faremos na harmonia uma só Tróia:
- Guarde-se este cuidado aos nossos netos.”
- Os litorais Cerâunios perpassamos,
- Donde à Itália é brevíssimo o trajeto.
- Cai o Sol, cobre a treva opacos montes:
- Sorteiam-se os remeiros, e encostados
- No seco doce grêmio, à borda, em ranchos
- As forças reparamos; lassos corpos
- Rega um sono ferrado. Em meio giro
- Nem inda a noite as horas conduziam:
- Da cama esperta Palinuro; explora,
- Cata os ventos, fareja e escuta os ares;
- Fita as constelações que resvalavam
- No mudo espaço; as Híadas chuvosas,
- Os gêminos Triões, o Arcturo observa,
- E Orion de alfanje de ouro. O céu sereno
- Acha; e ao claro sinal que fez da popa,
- Tentando a via, os arraiais movemos,
- E às naus as pandas asas desfraldamos.
- Já rubra aurora afugentava os astros,
- Quando obscuros outeiros enxergamos
- E a baixa Itália. Itália eis brada Acates;
- Todos Itália a jubilar saúdam.
- Uma grande cratera o padre Anquises
- Então coroa, do mais puro cheia,
- E em pé na celsa popa: “Ó deuses, clama,
- Que regeis mar e terra e tempestades,
- Fácil caminho e sopros dai favônios.”
- Refresca o vento; e, a barra já patente,
- Num morro o templo de Minerva alteia.
- Colhida a vela, ao porto proejamos:
- Ele ao nascente arqueia; em face, espúmea
- Salsi-aspergida rocha o esconde, o abrangem
- Com duplo muro torreadas penhas,
- Vai-se da praia o templo retirando.
- Primeiro agouro, aqui ginetes quatro,
- Alvos de neve, o prado à larga tosam.
- E meu pai: “Guerra inculcas; para a guerra
- Se armam, solo hospedeiro, esses cavalos;
- Guerra o armento ameaça. Ao carro afeitos
- Todavia os quadrúpedes no jugo
- Inda podem sofrer concordes freios:
- Esperança há de paz.” À deusa oramos
- Armíssona, que à entrada agasalhou-nos
- Ovantes; e, ante as aras frígio amicto
- Nos velando as cabeças, como Heleno
- Prescrevera, incensada especialmente
- Juno honramos Argiva. À risca e em ordem
- Cumprido o voto, as pontas reviramos
- Das antenas velíferas, suspeitos
- Sítios que habitam Gregos desertando.
- De Tarento se avista o seio, hercúlea,
- Se é vera a fama: em frente se levanta
- Lacínia diva, e o Cilaceu navífrago,
- E as torres de Caulon. Distante assoma
- O sículo Etna: ouvimos longe o equóreo
- Rouco gemido, o embate nos cachopos,
- Quebrado o eco na praia; os vaus ressaltam,
- As areias remexe a marulhada.
- E Anquises: “Não me engano, esta é Caribdes,
- O de Heleno cantado imano escolho.
- Certa a voga puxai, livrai-nos, sócios.”
- Disse e cumprem: no instante Palinuro
- Contorce à esquerda a rugidora proa;
- Mareia à esquerda a frota, à esquerda rema.
- Curvado o pego ao éter já nos sobe,
- Já desfeito o escarcéu nos baixa aos manes.
- O sáxeo boqueirão três vezes ronca;
- Três espadana a espuma e os céus orvalha.
- Fatigados nos deixa o Sol e o vento:
- Dos Ciclopes à costa arribo às cegas.
- Vasto e abrigado o porto, ao pé, cimeiro
- Com horríficas ruínas o Etna toa:
- Ora, atra pícea fumegante nuvem
- E candentes fagulhas borbotando,
- Flâmeos globos despede e os astros lambe;
- Ora extirpadas vísceras do monte
- Vomita e expulsa, e a lava no ar glomera,
- E a mugir no imo abismo o vulcão ferve.
- De um raio chamuscado, é voz que pesa
- Sobre Encélado a mole do Etna ingente,
- Que das rotas fornalhas fogo expira;
- E, se de lado por cansaço muda,
- Do rebramar toda a Trinácria treme
- E o céu do fumo tolda. A noite, ocultos
- Nas selvas, tais fenômenos curtimos,
- Sem do horroroso estrondo a causa vermos;
- Que astro nem ar sidéreo esclarecia
- O carregado pólo, e envolta a Febe
- Tinha em manto nimboso a escuridade.
- O albor já despontava, e a nova aurora
- Removera a noturna umente sombra:
- Da mata rompe estranha forma de homem,
- Magro e mirrado, inculto e miserando;
- E às praias suplicante as mãos estende.
- Olhamos: sujo, ascoso, hirsuta a barba,
- De espinhos cobre-o andrajo apontoado;
- Grego no mais, dos que invadiram Tróia.
- A armadura avistando e o frígio trajo,
- Retém-se um pouco, aterrorado estaca;
- Logo precipitando-se, a nós corre
- Com pranto e rogo: “Pelos céus obsecro,
- Pelos deuses e est’aura que respiro,
- Por onde fordes me levai, Troianos:
- É quanto basta. Fui da armada grega,
- Sim fiz guerra aos ilíacos penates:
- Se é tamanho o meu crime, ao ponto fundo
- Atirai-me, afogai-me nestas vagas.
- De homens se morro às mãos, contente morro.”
- Prostra-se, os pés me abraça, e tem-se às voltas,
- A confessar quem seja o acorçoamos,
- Qual sua origem, que fortuna o agite.
- Sem mais demora dá-lhe a destra Anquises;
- Deste penhor se anima, e diz afoito:
- “Ítaco sou, do infortunado Ulisses
- Companheiro, Aqueménides me chamo:
- Pobre (oxalá durara nesse estado!)
- Adamasto meu pai fez-me ir a Tróia.
- Na pressa de escapar da estância crua,
- Os meus cá me olvidaram, do Ciclope
- Na cova. Opaca, enorme, em sânie escorre
- Da carniça: ele (ó céus, bani tal peste!)
- Árduo empinando-se, as estrelas pulsa;
- Taciturno, feroz, desconversável,
- Cruor o ceva e entranhas de infelizes.
- Eu mesmo o vi, na furna ressupino,
- A mão disforme a dois lançar dos nossos,
- Num rochedo esbarrá-los, e em sangueira
- A espelunca nadar; vi mastigados,
- Tábido humor os membros estilando,
- Tépidos entre os dentes lhe tremerem,
- Que impune folgue, Ulisses não suporta,
- Nem de quem é se esquece em tanta afronta.
- Mal, sepulto em vinhaça e farto impando,
- Pousa o inflexo pescoço e jaz na gruta
- Imenso, e carnes e o bebido e o sangue
- Alija a ressonar; por sorte a postos,
- Orando, a um tempo e em roda o acometemos;
- E, em vingança dos manes dos amigos,
- D’haste aguda o só lume lhe furamos,
- Na torva testa oculto, e na grandura
- Broquel argivo ou lâmpada febéia.
- Sus a amarra picai, fugi, mesquinhos;
- Pois tais, qual Polifemo em antro escuro
- O lanígero gado amalha e munge,
- Moram Ciclopes cem por essas praias,
- Descompassados pelos montes vagam.
- Três luas têm de luz enchido os cornos,
- Dês que entre brenhas por covis me arrasto,
- De um serro espreito os monstros, e estremeço
- Do estrupido e da voz. Mísero pasto,
- Colho bagas, pilritos lapidosos,
- De ervas e raízes arrancadas vivo.
- Sempre alerta, avistando a frota vossa,
- De ir-me a ela assentei, qualquer que fosse:
- Não é pouco evadir-me à gente infanda.
- Matai-me, se o quereis; prefiro a morte.”
- Nem acabava, e num cabeço vemos,
- Entre os gados movendo a vasta mole,
- O pastor Polifemo, às notas praias
- A descer; monstro horrendo, informe, ingente,
- A quem vazou-se o olho, e tenteando
- Num pinheiro esgalhado se abordoa.
- Grei lanosa o acompanha, o só deleite,
- O alívio seu: do colo a flauta pende.
- Depois que as águas toca e mais se engolfa,
- Do olho escavado lava o humor cruento,
- E a gemer range os dentes. Já no meio
- Anda, e as altas espáduas não molhava.
- Acelerando a fuga, o suplicante
- Com razão recolhido, nós cortamos
- Tácitos as amarras, e encurvados
- Remando à competência, o mar varremos.
- Sentiu-nos, e ao sonido os passos torce.
- Mas, deitar-nos a destra não podendo,
- Nem ao alcance igualar do Jônio a altura,
- Desmarcado urro dá, com que de espanto
- Tremeu toda a Trinácria, e o ponto e as ondas;
- Do Etna as cavernas ocas remugiram.
- Da espessura e montanhas rui e acode
- Dos Ciclopes a raça e inunda as praias.
- Quedos e embalde a olhar com torvo lume,
- Esses etneus irmãos, congresso horrível!
- Mostram-se desferindo aos céus as frontes:
- Quais aéreos carvalhos, no mor auge,
- Ou ciprestes coníferos topetam,
- De Jove em mata ou luco de Diana.
- Urge o medo a soltar cabos e velas,
- E ir à feição dos ventos. Mas Heleno
- Entre Cila e Caribdes proibiu-nos
- Seguir a letal via: à orça o linho,
- Toca a virar. Eis Bóreas venta amigo,
- Do estreito do Peloro: a foz transponho
- Do Pantágias aberta em roca viva,
- E o sino de Megara e Tapso humilde.
- Tendo a costa Aqueménides corrido
- Com o Ítaco infeliz, tudo apontava.
- Contra o Plemírio undoso, ilhota ao golfo
- Sículo opõe-se: a Ortígia dos antigos.
- O Alfeu d’Élide, é fama, aqui rompera
- Submarino; hoje mescla-se, Aretusa,
- Por tua boca nas sicanas ondas:
- Lembrado, os numes do lugar venero.
- Passo do Heloro o pingue alagadiço;
- Terra a terra, os penedos do Paquino
- E o saliente cabo. A não mover-se
- Fadada, lá nos surge Camarina,
- De Gela os campos e a cidade amplíssima,
- Que do rio que os banha se apelidam.
- O árduo Agragante, gerador outrora
- De briosos corcéis, de longe ostenta
- Grã muralha. De ti me aparta o vento,
- Palmífera Selinis; e traspasso
- Os parcéis lilibeus de escolhos cegos;
- Drépano desalegre enfim me aloja.
- Aqui, repulso à força de borrascas,
- Ah! perco o genitor, na angústia e penas
- Meu só conforto: a mim desconsolado
- Ai! tu, de riscos mil vãmente ileso,
- Aqui, ótimo pai, tu me abandonas.
- Tais lutos, augurando Heleno horrores,
- Não mos predisse, nem a infausta Hárpia.
- Eis o último trabalho, eis a baliza
- De navegações longas. Deste porto
- Um deus fez-me arribar às vossas praias”.
- Assim, tudo em silêncio, o padre Enéias
- Divinos fados enarrava, e expunha
- Tanto peregrinar. Calou-se a ponto,
- E, findo o seu dizer, foi repousar-se.