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EneidaLivro III
LivroIII

Depois que em mal os deuses derribaram

750 versos · 28 notas do tradutor


  1. Depois que em mal os deuses derribaram
  2. Ásia e a nação priaméia, altivos muros
  3. E Ílio a neptúnia em fumo resolvendo,
  4. A buscar nos suadiu celeste aviso
  5. Vários desterros e desertos climas;
  6. E no Ida frígio, ao pé da mesma Antandro
  7. Fabricámos as naus, do fado incertos,
  8. Do rumo e pousadia. Alisto os sócios;
  9. E, entrada a primavera, ordena Anquises
  10. Velas dar à ventura: então da pátria
  11. Deixo os portos chorando, a borda e campos
  12. Onde foi Tróia; com Iulo e os Teucros
  13. Exul me engolfo, e os divos e os penates.
  14. Campinas que regera o audaz Licurgo,
  15. Vasta mavórcia terra, os Traces lavram:
  16. Nela doce agasalho e amigos lares,
  17. Enquanto quis fortuna, achava Tróia.
  18. Ruim fado aí me aporta, e em curvo seio
  19. Planto Enéia e do meu seu nome formo:
  20. Aos de começo tais auspices numes
  21. E à mãe Dionéia sacrifico, e um touro
  22. Nédio imolo na praia ao deus superno.
  23. Um combro ali, coroava-o de hastes crespa
  24. Densa touça de murta e pilriteiro.
  25. Cheguei-me, e no arrancar o verde mato,
  26. Para os altares enfolhar com ramos,
  27. Assombroso portento arrepiou-me:
  28. O arbusto que primeiro desarreigo
  29. De negro-rubras gotas o terreno
  30. Tábido mancha. Os membros me convulsa
  31. Frígido horror, coalhado gela o sangue.
  32. Puxo outro lento vime, o arcano sondo;
  33. Atro cruor de novo a casca estila.
  34. Mil cuidos penso; às Hamadrias oro,
  35. Ao do gético chão fautor Gradivo,
  36. Que a visão ominosa em bem convertam.
  37. Firmo os joelhos na areia, o esforço envido,
  38. Terceira haste acometo; eis de um sepulcro
  39. (Falar devo ou calar?) imo suspiro,
  40. Gemente som, no ouvido me estremece:
  41. “Ai! por que me laceras? poupa, Enéias,
  42. Um finado; as mãos pias não profanes.
  43. Gerou-me Tróia, nem te sou estranho,
  44. Nem este humor do tronco mana. Ah! foge,
  45. Foge o país cruel, a avara praia.
  46. Sou Polidoro: aqui varou-me e cobre
  47. De hastas férrea seara, que em vergônteas
  48. Agudas verdeceu.” De susto opressa
  49. Títuba a mente, estaco horripilado,
  50. Presa a voz à garganta. Ao rei treício
  51. Com grande peso de ouro às escondidas
  52. Mandara o infeliz Príamo este filho
  53. A se educar, já quando, estreito o assédio,
  54. Do sucesso das armas receava.
  55. Tróia abatida, o pérfido servindo
  56. A vitória e fortuna agamenônia,
  57. Degola o moço e empolga-lhe o tesouro.
  58. Os corações mortais a que os não forças,
  59. De ouro fome execranda! Assim que os ossos
  60. Deixa o pavor, consulto os mais conspícuos,
  61. E primeiro a meu pai conto o prodígio.
  62. Convêm todos que, à frota os austros dando,
  63. Do malvado lugar, poluto hospício,
  64. Nos afastemos. Logo a Polidoro
  65. O funeral se instaura, e amontoamos
  66. Sobre o túmulo terra. Altar aos manes,
  67. De azuis listões e exequial cipreste
  68. Enlutado, elevamos; destrançadas,
  69. Como é rito, as Ilíades o cercam.
  70. Tépido espúmeo leite e de hóstias sangue
  71. De navetas e taças lhe infundimos;
  72. A alma a vozes no túmulo encerramos,
  73. Três vezes proferindo o extremo vale.
  74. Mal abonança o mar, segura o tempo,
  75. E Austro brando sussurra e ao largo invita,
  76. Em nado a praia enchendo, as naus velejam;
  77. Vai recuando a praia e os novos muros.
  78. Sacra à mãe das Nereidas e a Netuno
  79. Egeu, ilha gratíssima cultivam;
  80. Que a errar boiava, e o pio arcitenente
  81. Com Mícon celsa atou-a e com Giaro,
  82. E a fez imota, que dos ventos zombe.
  83. Lá fui ter; placidíssima cansados
  84. Nos recebe e agasalha. Ao desembarque
  85. A cidade acatamos apolínea.
  86. Ânio rei, que une o cetro e o sacerdócio,
  87. Do febeu louro e fitas adornado
  88. Sai, reconhece o amigo velho Anquises,
  89. Nos toma a destra, nos recolhe e hospeda.
  90. Venero o templo ereto em penha antiga:
  91. “Laços dá-nos, Timbreu, dá-nos progênie
  92. E estáveis muros; salva est’outra Pérgamo,
  93. Restos dos Gregos e do imite Aquiles.
  94. Quem nos guia? onde ir cumpre? onde assentarmos?
  95. Padre, em nós te insinua, o agouro aclara.”
  96. Então, sinto agitar-se e tremer tudo,
  97. Portas, louro do deus, e o monte em roda;
  98. Muge a cortina, aberto o santuário.
  99. No chão prostrados esta voz nos soa:
  100. “O ubérrimo torrão, Dárdanos duros,
  101. Vossa origem primeira, há de acolher-vos:
  102. Ao grêmio vos tornai da prisca madre.
  103. A casa ali de Enéias no orbe inteiro
  104. Tem de imperar, e os filhos de seus filhos,
  105. E os que deles nascerem.” Tal anúncio
  106. Ledo alvoroto inspira; indagam todos
  107. A que paragem Febo os mande errantes
  108. E a reverter convide. Anciãs memórias
  109. Recordando meu pai: “Ó chefes, disse,
  110. Ouvi-me, roborai vossa esperança.
  111. Creta, berço de Tróia e do alto nume,
  112. Equórea jaz, com o Ida e estados pingues
  113. E amplas cidades cem; donde abordando
  114. Junto ao Reteu, se a tradição me lembra,
  115. Teucro, avô nosso, ao reino escolheu sítio.
  116. Ílio nem seu castelo inda existia,
  117. Inda em profundos vales se habitava.
  118. Daqui Réia cultora, e os coribântios
  119. Sistros, e o monte Ideu; fiel silêncio
  120. Daqui veio aos mistérios, e jungidos
  121. Leões tirarem de senhora o carro.
  122. Eia, o céu quer, os ventos aplacando,
  123. Vamos já demandar as gnósias ribas:
  124. Não distam muito, com favor de Jove
  125. Lá podemos surgir à luz terceira.”
  126. Termina; e um touro mata, honras devidas
  127. A Netuno; a ti outro, ó belo Apolo;
  128. Rês negra aos temporais, branca aos favônios.
  129. Expulso Idomeneu do pátrio sólio,
  130. Corre que, evacuada de inimigos,
  131. Livre Creta ficou. Largando Ortígia,
  132. No pélago a voar, passamos Naxos
  133. E os montes seus que em bacanais ressoam,
  134. Donisa verde, Olearo e a nívea Paros,
  135. Na azul campanha as Cícladas esparsas,
  136. Fretos de bastas ilhas semeados.
  137. Na faina se ergue a náutica celeuma.
  138. Vozes cruzam: “À Creta, ao ninho avito”.
  139. De ré nos venta a brisa, e dos Curetes
  140. A vetérrima plaga enfim tocámos.
  141. Ávido a nova Pérgamo começo;
  142. E, ufana com tal nome, incito a gente
  143. A exalçar o castelo e amar seus fogos.
  144. Já varadas em seco as popas eram;
  145. Cuida-se em bodas, cuida-se em lavouras;
  146. Casas regulo e marco: eis plantas e homens
  147. Salteia corrupção que infecta os ares,
  148. Triste ano, peçonhento às sementeiras.
  149. Ia-se a doce vida, ou se arrastavam
  150. Corpos a definhar: queimando Sírio
  151. Estéreis agros, ressequidas ervas,
  152. Enfezada a seara o pão negava.
  153. Que eu, ressulcando o mar, de novo em Delos
  154. Consulte humilde a Febo exorta Anquises:
  155. Onde o refúgio, o termo a tanta angústia,
  156. Convém tentar; que rota nos prescreva.
  157. Noite era, e o sono os animais prendia:
  158. As divinas efígies e os penates,
  159. Que o ilíaco incêndio ressalvámos,
  160. Resplendecendo em sonhos me aparecem,
  161. Donde pelas janelas mal cerradas
  162. Cheia a Lua enfiava o argênteo raio;
  163. Ei-los que do cuidado assim me tiram:
  164. “Não mais o ortígio oráculo demandes;
  165. Por nós de grado Apolo aqui to envia:
  166. Nós, Tróia em chamas, sob as armas tuas,
  167. Remedimos contigo o inchado pélago;
  168. Aos teus glória perene, eterno império
  169. Daremos nós: tu longo afã não temas,
  170. Procura a tal grandeza igual cidade.
  171. Muda-te, parte, o Délio o determina;
  172. Nem ele aconselhou-te a vir a Creta.
  173. Um país há vetusto, em grego Hespéria,
  174. Fecundo e belacíssimo, colônia
  175. De Enótrios a princípio; Itália é fama
  176. Que, de um rei seu, modernos a nomeiam:
  177. Lá, por Dárdano e Jásio, a estirpe nossa
  178. Origem teve; o assento lá teremos.
  179. Vai-te ledo ao bom velho, e o desengana;
  180. Sus, de Corito e Ausônia a rota segue.
  181. Júpiter nega-te as dictéias lavras”.
  182. Desta fala e visão estupefato
  183. (Nem foi letargo, não; veladas comas,
  184. Vultos, feições, eu divisar cuidava,
  185. E em suor frio o corpo me escorria),
  186. Da cama salto; ao céu tendendo as palmas,
  187. Oro, e holocausto intemerato libo.
  188. Completo o sacrifício, expendo alegre
  189. Tudo a meu pai; que os troncos dois e a prole
  190. Ambígua reconhece, e o novo engano
  191. Em que antigos lugares o induziram.
  192. “Filho, a quem de Ílion persegue o fado,
  193. Rememorando ajunta, só Cassandra
  194. Tal me predisse, e uns reinos prometeu-nos,
  195. Que ou Hespéria ou Itália apelidava.
  196. Mas quem tão longe crera a estância nossa?
  197. E a quem jamais persuadiu Cassandra?
  198. Febo o melhor nos mostra, eia, cedamos.”
  199. Tudo ovante obedece. Alguns se ficam;
  200. Os mais soltamos novamente as velas,
  201. Cursando em cavo lenho o imenso plaino.
  202. Ao largo os barcos, desparece terra,
  203. Céu daqui, mar dali. Bulcão cerúleo
  204. Feia borrasca sobre nós carrega,
  205. Treva e horror pelas águas estendendo.
  206. O vento em brenhas escarcéus levanta,
  207. Nos joga e espalha pelo vasto pego.
  208. Tolda-se o dia, e pluviosa a noite
  209. Nos rouba a luz polar; rasgadas nuvens
  210. Trovejam, relampeiam. Flutuamos
  211. Sem rumo à toa; Palinuro mesmo
  212. Perde o tino, e confunde a noite e o dia.
  213. Nem fulge estrela nas opacas horas,
  214. E em cerração três dúbios sóis vagamos:
  215. Ao quarto, arrumação, que a olho aumenta,
  216. Serros descobre, os topes já fumeiam.
  217. O pano arreia-se, a vogar surdimos:
  218. Estribada a maruja a espuma estorce,
  219. Varre o páramo azul. Das ondas livre,
  220. Ilhas do grande Jônio, em grego Estrófades,
  221. Nas praias me recebem: nestas ilhas
  222. Mora a cruel Celeno e as mais Hárpias,
  223. Dês que, enxotadas, os festins medrosas
  224. E a vivenda finéia abandonaram.
  225. Monstro maior, nem divinal flagelo,
  226. Nem peste mais voraz brotou da Estige:
  227. Tem laxo imundo ventre e garra adunca,
  228. Aves nojosas, com virgíneos rostos,
  229. Magros, pálidos sempre e esfomeados.
  230. No arribar, gordo armento se oferece,
  231. Fato, sem pegureiro, pelo prado:
  232. Investimos a ferro, e aquinhoamos
  233. Na presa o mesmo Jove e os outros numes.
  234. Camilhas na enseada construímos;
  235. Regalado manjar nos banqueteia.
  236. Súbito em lapso horrífico as Hárpias
  237. Descem dos montes, a adejar ruidosas;
  238. Pilham tudo, enxovalham, contaminam,
  239. Mesclando a tetro odor funestos gritos.
  240. Sob sáxea lapa ao longe retirados,
  241. Cobertos de arvoredo e escura sombra,
  242. N’ara o fogo outra vez e as mesas pomos:
  243. De outro escond’rijo lôbrego, estrondando,
  244. Revoa a turba em roda, e as iguarias
  245. Polui com boca impura e tortas unhas.
  246. Arma, arma, à dirá gente eis guerra intimo.
  247. Dito e feito; escondemos sob a relva
  248. Prestes gládios e escudos. Mal deslizam
  249. Por curvas praias a grasnar, Miseno,
  250. Que do alto espreita, o cavo bronze entoa:
  251. Tenta-se, estranho ataque! a ferro obscenas
  252. Marinhas aves escalar; mas golpes
  253. No dorso ou plumas nem lesão consentem,
  254. E em fuga, alando-se às estrelas, deixam
  255. A presa mossegada e infecto rasto.
  256. Num alcantil Celeno só pousando,
  257. Rompe aziaga em tais vozes: “Guerra, em cima
  258. De novilhos e bois nos estragardes!
  259. Guerra e esbulhar quereis do pátrio reino
  260. As insontes Hárpias! Pois ouvi-me,
  261. Gravai n’alma o que a Febo, ó Laomedôncios,
  262. O sumo rei predisse, e a mim Apolo,
  263. E eu rainha das fúrias vos declaro.
  264. Itália demandais, à Itália os fados
  265. Com viração galerna ir vos concedem;
  266. Mas antes que mureis o assento vosso,
  267. Desta matança em pena, há de obrigar-vos
  268. Crua fome a roer as próprias mesas.”
  269. Cala, e de surto à selva se recolhe.
  270. Gélido o sangue, esmorecemos todos.
  271. Armas não mais; com votos paz rogamos,
  272. Sejam déias, ou fúrias, torpes aves.
  273. Da praia as mãos levanta, e os grandes numes
  274. Com devida oferenda implora Anquises:
  275. “Deuses, fora o ameaço, arredo o agouro;
  276. À vossa pia gente auxílio, ó deuses!”
  277. Depressa faz colher a amarra, e soltos
  278. Os calabres safar. Noto incha as velas;
  279. Arando o espúmeo golfo, navegamos
  280. À discrição do vento e do piloto.
  281. Já surge à flor Zacintos nemorosa,
  282. Dulíquio e Samos, Néritos alpestre:
  283. Do Ítaco sevo a praguejar o berço,
  284. Os laércios cachopos esquivamos.
  285. Descobrem-se de Leucate os nimbosos
  286. Topes, e Apolo aos nautas formidável:
  287. Subimos lassos o pequeno burgo.
  288. Da proa âncora deita-se, amarramos
  289. À borda as popas. Do insperado solo
  290. De posse enfim, celebro o lustro a Jove,
  291. Com votos ara acendo, e em tróicos ludos
  292. A acíaca ribeira festejamos;
  293. Taís, nus e ungidos, pátria luta exercem:
  294. É grato, a salvo de inimigos, termos
  295. Tanta cidade argólica passado.
  296. Do ano maior a volta o Sol completa,
  297. Gelo hiemal com nortada encrespa os mares.
  298. O éreo cavo broquel do grande Abantes
  299. Do portão prego em meio, e em baixo inscrevo:
  300. “Ao Danao vencedor ganhou-o Enéias.”
  301. Largar mando, e em seus bancos os remeiros
  302. Varrem, qual mais, as percutidas vagas.
  303. Dos Feaces escondo aéreos cimos,
  304. Costeio o Épiro, aporto na Caônia,
  305. Monto à celsa Butroto. Incrível soa
  306. Que reina aqui Priamides Heleno,
  307. Que do Eacide o toro e graio cetro
  308. Ele os desfruta, e Andrômaca de novo
  309. A cair veio a natural marido.
  310. Confuso e em curiosa ânsia abrasado
  311. De escutar ao varão tamanhos casos,
  312. Traspasso o porto, praia e naus deixando.
  313. N’aba de um Simois falso, à hectórea cinza
  314. Festim solene acaso e dons funéreos,
  315. Num luco fora, Andrômaca libava,
  316. Os manes evocando ao que de ervosa
  317. Céspide vácuo túmulo sagrara,
  318. E altares dois, a prantear motivo.
  319. Ao distinguir-me e ao ver troianas armas,
  320. Se espanta e embaça, atônita desmaia;
  321. Só quando os ossos o calor cobraram:
  322. “Vives? murmura; és tu, divina prole?
  323. Ou se incorpóreo núncio a luz não gozas,
  324. Que é de Heitor?” E inundando-se-lhe as faces,
  325. De lamento enche o bosque e de suspiros.
  326. Bem pouco respondendo a seus transportes,
  327. Conturbado boquejo em troncas frases:
  328. “Sim vivo, e a todo o extremo arrasto a vida;
  329. É real quanto vês. Ai! despenhada
  330. Do ínclito esposo a tanto aviltamento,
  331. Como o decoro enfim recuperaste?
  332. Andrômaca de Heitor, inda és de Pirro?”
  333. De pejo o rosto abaixa, e em tom submisso:
  334. “Ó só feliz a priaméia virgem
  335. Que imolada morreu sobre hostil campa
  336. Nos pátrios muros! Não provou da sorte
  337. Lance algum, nem cativa a heril alcova
  338. Tocou do vencedor! Nós, Tróia em fogo,
  339. De mar em mar rojadas, suportámos,
  340. Na servidão parindo, o fausto e orgulho
  341. Do Aquileu caprichoso; o qual à Esparta
  342. Indo aliar-se a Hermione Ledéia,
  343. Escrava me transmite a Heleno escravo.
  344. Mas, do roubo da esposa ardendo em zelos,
  345. Das fúrias agitado, o atroz Orestes
  346. De improviso o degola às pátrias aras.
  347. Recaiu, morto Pirro, em parte o reino
  348. A Heleno, que chamou Caônio o campo,
  349. Caônia a terra, de Caon Troiano;
  350. Pérgamo, Ílio, é no morro a cidadela.
  351. Qual porém te dirige ou vento ou fado?
  352. Que deus te arroja ignaro às nossas praias?
  353. Onde o que te nasceu já Tróia em sítio?
  354. D’aura mantém-se Ascânio? inda saudoso
  355. Da mãe se lembra que perdeu na infância?
  356. Hombridade lhe inspira e esforço antigo
  357. Ser Enéias seu pai e Heitor seu tio?”
  358. Tal num contínuo choro em vão carpia;
  359. Quando com toda a corte o herói priâmeo
  360. Das muralhas se adianta, e prazenteiro,
  361. Os seus reconhecendo, os encaminha,
  362. E entre falando largo pranto verte.
  363. No irmos, deparo as tênues Ílio e Tróia,
  364. E árido arroio que simula o Xanto;
  365. Abraço-me aos umbrais da porta Scéia.
  366. Desta sócia acolhida os meus se logram:
  367. Régios pórticos amplos os recebem.
  368. Copos do paço em meio a Baco encetam,
  369. Sobre ouro comem, taças de ouro empunham.
  370. Corre dia após dia: ao sopro austrino,
  371. Que nos convida, o cárbaso intumesce.
  372. Entro a Heleno e o conjuro: “Ó tróico vate,
  373. Que, dos divos intérprete, os influxos
  374. Do Clário Febo, as trípodes, os louros,
  375. Que os astros, que dos pássaros as línguas
  376. Sentes, e avisos da ligeira pena
  377. (Pois feliz curso oráculos me cantam,
  378. E, a ir dos deuses todos persuadido
  379. Da Itália em busca a regiões remotas,
  380. Celeno só me augura um monstro infando,
  381. E iras fatais e depravada fome),
  382. Dize, eia, que perigo evitar urge?
  383. Como superarei trabalhos tantos?”
  384. Já do uso as reses mata, e exora o antiste
  385. Aos divos paz, da fronte sacra a touca
  386. Desata, e a mim venerabundo e absorto
  387. Pela mão, Febo, ao templo teu me guia,
  388. E a profética boca desencerra:
  389. “Com mor auspício é fé que tu navegas,
  390. Filho de Vênus: tal baralha as sortes,
  391. E as encadeia e liga o rei dos numes,
  392. Por que sulques melhor ignotos mares,
  393. E ancores a teu salvo em porto ausônio,
  394. Vai do muito expender-te um pouco Heleno;
  395. Que o mais, sabê-lo as Parcas me proíbem,
  396. Ou falar veda-me a Satúrnia Juno.
  397. Primeiro, a Itália próxima, onde cuidas
  398. Que aportas breve, t’a separa e afasta
  399. Com longas terras ínvia longa via.
  400. N’água sicana o remo vergar deves,
  401. E o salso golfo Ausônio, o lago Averno,
  402. E a ilha percorrer de Circe Eéia,
  403. Antes que assento firme estabeleças.
  404. Dou-te os sinais, conserva-os: quando achares,
  405. Cuidoso à margem de secreto rio,
  406. De enzinha litoral deitada à sombra,
  407. Grande e recém-parida, uma alva porca
  408. A trinta alvos leitões amamentando,
  409. Ali terás descanso, ali cidade.
  410. Quanto a roer as mesas, não te assustes:
  411. Rumo há de achar o fado e ouvir-te Apolo.
  412. Destas partes porém, da extrema Itália
  413. Que as das marés do Jônio enchentes lavam,
  414. Safa-te; são de Gregos infestadas.
  415. Aqui fixaram-se os Narícios Locros,
  416. E o Líctio Idomeneu cercou de tropas
  417. Os campos de Salento; aqui munida
  418. A pequena Petília Filoctetes
  419. Melibeu tem. Mas quando, além dos mares
  420. Surta a frota e na praia erguidas aras,
  421. Os votos cumpras, de purpúreo amicto
  422. Vela a cabeça; a fim que hostil aspecto
  423. Não turbe o agouro. Aos teus nos sacrifícios
  424. Tal seja o rito, observa-o; permaneçam
  425. Nesta religião sem falha os netos.
  426. Como à Sicânia te aproxime o vento,
  427. Já claro o estreito passo do Peloro,
  428. Costeia à esquerda com circuito longo,
  429. A destra borda foge e destras ondas.
  430. Por convulsão violenta e vasta ruína,
  431. Este lugar, se conta, há largas eras
  432. (Do tempo o que não muda a vetustade?)
  433. Se espedaçou, formava um continente:
  434. Neptunina irrupção rasgou da Hespéria
  435. Sicília; augusto braço as lavras parte,
  436. Banha as cidades e limita as praias.
  437. Cila a direita ocupa; e d’água, à sestra,
  438. Grandes golpes três vezes no atro abismo
  439. Caribdes implacada a pique sorve,
  440. Três revessa e esguichando açouta os astros.
  441. Presa arreganha a boca e as naus às pedras
  442. Cila atrai, em cego antro: cara de homem,
  443. Do colo ao púbis moça linda, em ceto
  444. Remata enorme, e em útero de lobos
  445. Se lhe articulam de delfins as caudas.
  446. O Pachino dobrado, em roda a viagem
  447. Antes ir prolongando, que a disforme
  448. Cila encarar sequer, e a furna horrenda
  449. Com seus cerúleos cães saxissonante.
  450. Sobretudo, se hás fé no auspice Heleno,
  451. Se prudência lhe assiste e o enche Apolo,
  452. Só te isto, ó prole diva, amoesto e prego,
  453. E repito e reitero: a Juno excelsa
  454. De grado o nume adora, e a soberana
  455. Preces, votos e súplicas abrandem:
  456. É como finalmente vitorioso,
  457. A Trinácria trasposta, irás à Itália.
  458. A Cumas tu chegado, e aos lagos santos
  459. Lucrino e Averno de sonoras matas,
  460. Verás no imo rochedo a vate insana
  461. Que os fados canta, e letras, nomes, carmes
  462. Grava e encomenda às folhas, e os numera.
  463. Na gruta eles fechados, não se bolem,
  464. Em ordem se mantêm; mas, se uma aragem
  465. Da porta os gonzos vira, encana, e as tenras
  466. Folhas baralha, avoejar a virgem
  467. Pela caverna os deixa, nem mais cura
  468. De arranjar, de os colher: e os inconsultos
  469. Vaõ-se, a cova e a Sibila esconjurando.
  470. Posto que da tardança os teus murmurem,
  471. Que plenas velas amarar te possam
  472. Boleadas à feição, dali não partas,
  473. Sem que a teus rogos ela a voz desprenda
  474. E oráculos resolva. Há de a Cuméia
  475. As guerras te explicar, d’Itália os povos,
  476. Trabalhos como evites, como os sofras;
  477. E obter-te venerada o salvamento.
  478. Basta; nem de al me é lícito avisar-te.
  479. Anda, engrandece a Tróia, aos céus te exalça.”
  480. Tal profetava amigo, e às naus dons manda
  481. Graves de ouro e elefântico embutido,
  482. De argênteos vasos e dodôneos cassos
  483. Abarrota os porões; de malha ajunta
  484. Loriga auritrílice e um capacete
  485. De comante cocar, cimeira insigne,
  486. De Pirro arnês. Presentes faz a Anquises.
  487. De práticos nos supre e de remeiros,
  488. Cavalos doa, os sócios provê de armas.
  489. Meu pai de verga d’alto apresta a frota,
  490. Que os ventos de servir não desperdice.
  491. Cortês o augur o acata: “Aceito esposo
  492. Da Cípria em celso toro, ó caro aos deuses,
  493. Das perdas ambas de Ílion salvado,
  494. Ei-la, à fronteira Ausônia aproa e voga.
  495. Todavia hás mister passar avante:
  496. Dista a paragem que te Apolo inculca.
  497. Vai-te, ó pai venturoso de um tal filho!...
  498. Que! tardo, estorvo os astros que já surgem?”
  499. Não menos boa Andrômaca, à partida,
  500. Frígia clâmide a Ascânio traz saudosa,
  501. E roupas de matiz de áureo brocado;
  502. De finas teias o acumula, e fala:
  503. “Do próprio meu lavor, toma estes mimos,
  504. Que testifiquem sempre e te relembrem
  505. Da viúva de Heitor, filho, a ternura:
  506. Dos teus recebe as derradeiras prendas,
  507. Só do meu Astianaz tu viva imagem:
  508. Tinha teus olhos, tuas mãos, teu rosto,
  509. E eqüevo hoje contigo enrubescera!”
  510. O adeus lhes digo, em lágrimas desfeito:
  511. “Vivei felizes, vosso fado encheu-se;
  512. De transe em transe o nosso nos repulsa.
  513. Já descansais; de arar não tendes mares,
  514. Nem de ir à Itália, que se furta e alonga:
  515. D’Ílio e do Xanto contemplais a efígie,
  516. Feitura vossa; com melhor auspício,
  517. Oh! menos seja exposta ao dolo argivo!
  518. Se os campos chego a ver que banha o Tibre,
  519. E à minha gente os prometidos muros,
  520. Das propínquas cidades consangüíneas
  521. E dos povos irmãos, no Lácio e Épiro,
  522. Faremos na harmonia uma só Tróia:
  523. Guarde-se este cuidado aos nossos netos.”
  524. Os litorais Cerâunios perpassamos,
  525. Donde à Itália é brevíssimo o trajeto.
  526. Cai o Sol, cobre a treva opacos montes:
  527. Sorteiam-se os remeiros, e encostados
  528. No seco doce grêmio, à borda, em ranchos
  529. As forças reparamos; lassos corpos
  530. Rega um sono ferrado. Em meio giro
  531. Nem inda a noite as horas conduziam:
  532. Da cama esperta Palinuro; explora,
  533. Cata os ventos, fareja e escuta os ares;
  534. Fita as constelações que resvalavam
  535. No mudo espaço; as Híadas chuvosas,
  536. Os gêminos Triões, o Arcturo observa,
  537. E Orion de alfanje de ouro. O céu sereno
  538. Acha; e ao claro sinal que fez da popa,
  539. Tentando a via, os arraiais movemos,
  540. E às naus as pandas asas desfraldamos.
  541. Já rubra aurora afugentava os astros,
  542. Quando obscuros outeiros enxergamos
  543. E a baixa Itália. Itália eis brada Acates;
  544. Todos Itália a jubilar saúdam.
  545. Uma grande cratera o padre Anquises
  546. Então coroa, do mais puro cheia,
  547. E em pé na celsa popa: “Ó deuses, clama,
  548. Que regeis mar e terra e tempestades,
  549. Fácil caminho e sopros dai favônios.”
  550. Refresca o vento; e, a barra já patente,
  551. Num morro o templo de Minerva alteia.
  552. Colhida a vela, ao porto proejamos:
  553. Ele ao nascente arqueia; em face, espúmea
  554. Salsi-aspergida rocha o esconde, o abrangem
  555. Com duplo muro torreadas penhas,
  556. Vai-se da praia o templo retirando.
  557. Primeiro agouro, aqui ginetes quatro,
  558. Alvos de neve, o prado à larga tosam.
  559. E meu pai: “Guerra inculcas; para a guerra
  560. Se armam, solo hospedeiro, esses cavalos;
  561. Guerra o armento ameaça. Ao carro afeitos
  562. Todavia os quadrúpedes no jugo
  563. Inda podem sofrer concordes freios:
  564. Esperança há de paz.” À deusa oramos
  565. Armíssona, que à entrada agasalhou-nos
  566. Ovantes; e, ante as aras frígio amicto
  567. Nos velando as cabeças, como Heleno
  568. Prescrevera, incensada especialmente
  569. Juno honramos Argiva. À risca e em ordem
  570. Cumprido o voto, as pontas reviramos
  571. Das antenas velíferas, suspeitos
  572. Sítios que habitam Gregos desertando.
  573. De Tarento se avista o seio, hercúlea,
  574. Se é vera a fama: em frente se levanta
  575. Lacínia diva, e o Cilaceu navífrago,
  576. E as torres de Caulon. Distante assoma
  577. O sículo Etna: ouvimos longe o equóreo
  578. Rouco gemido, o embate nos cachopos,
  579. Quebrado o eco na praia; os vaus ressaltam,
  580. As areias remexe a marulhada.
  581. E Anquises: “Não me engano, esta é Caribdes,
  582. O de Heleno cantado imano escolho.
  583. Certa a voga puxai, livrai-nos, sócios.”
  584. Disse e cumprem: no instante Palinuro
  585. Contorce à esquerda a rugidora proa;
  586. Mareia à esquerda a frota, à esquerda rema.
  587. Curvado o pego ao éter já nos sobe,
  588. Já desfeito o escarcéu nos baixa aos manes.
  589. O sáxeo boqueirão três vezes ronca;
  590. Três espadana a espuma e os céus orvalha.
  591. Fatigados nos deixa o Sol e o vento:
  592. Dos Ciclopes à costa arribo às cegas.
  593. Vasto e abrigado o porto, ao pé, cimeiro
  594. Com horríficas ruínas o Etna toa:
  595. Ora, atra pícea fumegante nuvem
  596. E candentes fagulhas borbotando,
  597. Flâmeos globos despede e os astros lambe;
  598. Ora extirpadas vísceras do monte
  599. Vomita e expulsa, e a lava no ar glomera,
  600. E a mugir no imo abismo o vulcão ferve.
  601. De um raio chamuscado, é voz que pesa
  602. Sobre Encélado a mole do Etna ingente,
  603. Que das rotas fornalhas fogo expira;
  604. E, se de lado por cansaço muda,
  605. Do rebramar toda a Trinácria treme
  606. E o céu do fumo tolda. A noite, ocultos
  607. Nas selvas, tais fenômenos curtimos,
  608. Sem do horroroso estrondo a causa vermos;
  609. Que astro nem ar sidéreo esclarecia
  610. O carregado pólo, e envolta a Febe
  611. Tinha em manto nimboso a escuridade.
  612. O albor já despontava, e a nova aurora
  613. Removera a noturna umente sombra:
  614. Da mata rompe estranha forma de homem,
  615. Magro e mirrado, inculto e miserando;
  616. E às praias suplicante as mãos estende.
  617. Olhamos: sujo, ascoso, hirsuta a barba,
  618. De espinhos cobre-o andrajo apontoado;
  619. Grego no mais, dos que invadiram Tróia.
  620. A armadura avistando e o frígio trajo,
  621. Retém-se um pouco, aterrorado estaca;
  622. Logo precipitando-se, a nós corre
  623. Com pranto e rogo: “Pelos céus obsecro,
  624. Pelos deuses e est’aura que respiro,
  625. Por onde fordes me levai, Troianos:
  626. É quanto basta. Fui da armada grega,
  627. Sim fiz guerra aos ilíacos penates:
  628. Se é tamanho o meu crime, ao ponto fundo
  629. Atirai-me, afogai-me nestas vagas.
  630. De homens se morro às mãos, contente morro.”
  631. Prostra-se, os pés me abraça, e tem-se às voltas,
  632. A confessar quem seja o acorçoamos,
  633. Qual sua origem, que fortuna o agite.
  634. Sem mais demora dá-lhe a destra Anquises;
  635. Deste penhor se anima, e diz afoito:
  636. “Ítaco sou, do infortunado Ulisses
  637. Companheiro, Aqueménides me chamo:
  638. Pobre (oxalá durara nesse estado!)
  639. Adamasto meu pai fez-me ir a Tróia.
  640. Na pressa de escapar da estância crua,
  641. Os meus cá me olvidaram, do Ciclope
  642. Na cova. Opaca, enorme, em sânie escorre
  643. Da carniça: ele (ó céus, bani tal peste!)
  644. Árduo empinando-se, as estrelas pulsa;
  645. Taciturno, feroz, desconversável,
  646. Cruor o ceva e entranhas de infelizes.
  647. Eu mesmo o vi, na furna ressupino,
  648. A mão disforme a dois lançar dos nossos,
  649. Num rochedo esbarrá-los, e em sangueira
  650. A espelunca nadar; vi mastigados,
  651. Tábido humor os membros estilando,
  652. Tépidos entre os dentes lhe tremerem,
  653. Que impune folgue, Ulisses não suporta,
  654. Nem de quem é se esquece em tanta afronta.
  655. Mal, sepulto em vinhaça e farto impando,
  656. Pousa o inflexo pescoço e jaz na gruta
  657. Imenso, e carnes e o bebido e o sangue
  658. Alija a ressonar; por sorte a postos,
  659. Orando, a um tempo e em roda o acometemos;
  660. E, em vingança dos manes dos amigos,
  661. D’haste aguda o só lume lhe furamos,
  662. Na torva testa oculto, e na grandura
  663. Broquel argivo ou lâmpada febéia.
  664. Sus a amarra picai, fugi, mesquinhos;
  665. Pois tais, qual Polifemo em antro escuro
  666. O lanígero gado amalha e munge,
  667. Moram Ciclopes cem por essas praias,
  668. Descompassados pelos montes vagam.
  669. Três luas têm de luz enchido os cornos,
  670. Dês que entre brenhas por covis me arrasto,
  671. De um serro espreito os monstros, e estremeço
  672. Do estrupido e da voz. Mísero pasto,
  673. Colho bagas, pilritos lapidosos,
  674. De ervas e raízes arrancadas vivo.
  675. Sempre alerta, avistando a frota vossa,
  676. De ir-me a ela assentei, qualquer que fosse:
  677. Não é pouco evadir-me à gente infanda.
  678. Matai-me, se o quereis; prefiro a morte.”
  679. Nem acabava, e num cabeço vemos,
  680. Entre os gados movendo a vasta mole,
  681. O pastor Polifemo, às notas praias
  682. A descer; monstro horrendo, informe, ingente,
  683. A quem vazou-se o olho, e tenteando
  684. Num pinheiro esgalhado se abordoa.
  685. Grei lanosa o acompanha, o só deleite,
  686. O alívio seu: do colo a flauta pende.
  687. Depois que as águas toca e mais se engolfa,
  688. Do olho escavado lava o humor cruento,
  689. E a gemer range os dentes. Já no meio
  690. Anda, e as altas espáduas não molhava.
  691. Acelerando a fuga, o suplicante
  692. Com razão recolhido, nós cortamos
  693. Tácitos as amarras, e encurvados
  694. Remando à competência, o mar varremos.
  695. Sentiu-nos, e ao sonido os passos torce.
  696. Mas, deitar-nos a destra não podendo,
  697. Nem ao alcance igualar do Jônio a altura,
  698. Desmarcado urro dá, com que de espanto
  699. Tremeu toda a Trinácria, e o ponto e as ondas;
  700. Do Etna as cavernas ocas remugiram.
  701. Da espessura e montanhas rui e acode
  702. Dos Ciclopes a raça e inunda as praias.
  703. Quedos e embalde a olhar com torvo lume,
  704. Esses etneus irmãos, congresso horrível!
  705. Mostram-se desferindo aos céus as frontes:
  706. Quais aéreos carvalhos, no mor auge,
  707. Ou ciprestes coníferos topetam,
  708. De Jove em mata ou luco de Diana.
  709. Urge o medo a soltar cabos e velas,
  710. E ir à feição dos ventos. Mas Heleno
  711. Entre Cila e Caribdes proibiu-nos
  712. Seguir a letal via: à orça o linho,
  713. Toca a virar. Eis Bóreas venta amigo,
  714. Do estreito do Peloro: a foz transponho
  715. Do Pantágias aberta em roca viva,
  716. E o sino de Megara e Tapso humilde.
  717. Tendo a costa Aqueménides corrido
  718. Com o Ítaco infeliz, tudo apontava.
  719. Contra o Plemírio undoso, ilhota ao golfo
  720. Sículo opõe-se: a Ortígia dos antigos.
  721. O Alfeu d’Élide, é fama, aqui rompera
  722. Submarino; hoje mescla-se, Aretusa,
  723. Por tua boca nas sicanas ondas:
  724. Lembrado, os numes do lugar venero.
  725. Passo do Heloro o pingue alagadiço;
  726. Terra a terra, os penedos do Paquino
  727. E o saliente cabo. A não mover-se
  728. Fadada, lá nos surge Camarina,
  729. De Gela os campos e a cidade amplíssima,
  730. Que do rio que os banha se apelidam.
  731. O árduo Agragante, gerador outrora
  732. De briosos corcéis, de longe ostenta
  733. Grã muralha. De ti me aparta o vento,
  734. Palmífera Selinis; e traspasso
  735. Os parcéis lilibeus de escolhos cegos;
  736. Drépano desalegre enfim me aloja.
  737. Aqui, repulso à força de borrascas,
  738. Ah! perco o genitor, na angústia e penas
  739. Meu só conforto: a mim desconsolado
  740. Ai! tu, de riscos mil vãmente ileso,
  741. Aqui, ótimo pai, tu me abandonas.
  742. Tais lutos, augurando Heleno horrores,
  743. Não mos predisse, nem a infausta Hárpia.
  744. Eis o último trabalho, eis a baliza
  745. De navegações longas. Deste porto
  746. Um deus fez-me arribar às vossas praias”.
  747. Assim, tudo em silêncio, o padre Enéias
  748. Divinos fados enarrava, e expunha
  749. Tanto peregrinar. Calou-se a ponto,
  750. E, findo o seu dizer, foi repousar-se.

Sobre este livro · 2 notas

Comentário
O livro terceiro, escrito com a lógica mais rigorosa, contendo em 718 versos uma variedade estupenda de sucessos, tanta moral e tantos rasgos sensíveis; o livro terceiro, chamado por críticos mais imparciais a Odisséia de Virgílio, tem largamente sofrido injustas censuras de muitos; porque os homens medíocres, por fragilidade da nossa natureza, folgamos de descobrir faltas nos gênios sublimes; e os próprios amigos do poeta inconsideradamente vão abraçando não poucos desses indiscretos juízos. Averiguarei os principais erros e as críticas mais salientes.
Comentário
Permita-se-me recorrer finalmente a um argumento aritmético, ajuntando e somando as passagens aprovadas pelos críticos e as que não têm sido censuradas. O exórdio, que todos gabam, compõe-se de 12 versos: o túmulo de Polidoro e o que se passa na Trácia, compõe-se de 60: a descrição de Naxos, Donysa, Olearo, Paros e das Cycladas em geral, até chegar-se a Creta, compõe-se de 8: a estada em Creta, com a pintura da peste, que Mr. Tissot queria estirada, compõe-se de 11: a bela descrição da escuridade e alguns fenômenos náuticos, até chegar-se às Estrófades, compõe-se de 18: a fábula das Hárpias, de 54: a continuação da viagem, na qual avistam Zacynthos, Dulichio, Samos, Neritos, Ítaca e reinos Laércios, compõe-se de 6: a visitação do templo de Apolo em Leucate, a celebração do lustro e dos votos, e a saída daquele porto, compreendem 17: Buthroto, encontro de Andrômaca, encontro de Heleno, a maviosa pintura da pequena Tróia, o festim, a consulta de Enéias quando resolvem partir, compõem-se de 78: a descrição de Scylla e de Carybdis, compõe-se de 23: a despedida saudosa, os presentes de Heleno, os de Andrômaca a Iulo, a sua patética fala, resposta de Enéias (na qual o poeta alude habilmente ao fato de ter passado Buthroto a ser colônia romana e à fundação de Nicopolis por Augusto), tudo isto compõe-se de 43: a viagem até enxergarem a Itália, a exploração dos ventos e dos astros por Palinuro, oração de Anquises, desembarque, visitação do templo de Minerva, adoração a Juno segundo os preceitos de Heleno, compreendem 42, incluída a descrição do porto Salentino: a saída, o que se passa ao se aproximarem de Charybdis, a vista do templo de Juno Lacinia, de Gaulon, do Scyllaceu e a do Etna ao longe, contêm-se em 20: a chegada à terra dos Ciclopes, pintura do Etna, encontro de Aquemênides, caverna de Polifemo, enfim todo esse magnifico e variado episódio contêm-se em 114: a explicação de Aquemênides sobre as diferentes paragens, o que vai ocorrendo até ao porto de Drépano, mais a conclusão da narrativa, contêm-se em 34: o remate do poeta e a transição para o livro seguinte contêm-se em três versos. Ora, somando todos estes em 547, e sendo o livro de 718, segue-se que os reprovados são 171. Se aos 547 ajuntarmos os que eu provei que foram injustamente censurados, a conseqüência é que o livro III da Eneida é belíssimo como todos os outros; e então o leitor apreciará devidamente a crítica de Mr. Villenave, assim concebida: “Mais le tombeau de Polydore (vem Polymnestor por erro de imprensa), la fable des Harpyes, le touchant épisode de la veuve d’Hector, le tableau de l’Etna et celui des Cyclopes, où le poëte l’emporte sur Homère, surtout la richesse du style et l’harmonie des vers, empêchent de reconnaître ce qui manque trop souvent de grandeur aux peintures et d’éclat à l’imagination (!!!).” Peço ao leitor que repare que as passagens aprovadas, e louvadas nesta fútil censura, já compreendem a maior parte do livro.

Nota a nota · 26 notas

v. 1–9Depois que em mal os deuses derribaram
Neste esplêndido exórdio, como o caracteriza Heyne, julgam alguns intérpretes que o adjetivo desertas é mal escolhido, porque já Creusa, isto é a sombra de Creusa, tinha dito a Enéias que ele se estabeleceria em terras férteis e povoadas: esses intérpretes não viram que, antes de se fixar definitivamente na Itália, o herói, em sua viagem ao princípio incerta, houve de errar por terras desertas e brenhas, na Trácia, nas Estrófades, nos sertões da Líbia. De mais, como pondera M. Villenave, Enéias, para excitar a compaixão da rainha, opõe a superbum Ilium o grande contraste de desertas terras. — O autor, que justifica o poeta neste ponto, se espanta de que o herói troiano, enquanto construía a frota, não fosse perturbado pelos vencedores. Considere-se que naquela época, em razão da raridade dos caminhos e comunicações, qualquer distância parecia grande, e que Enéias nas selvas do Ida, sob a proteção de Cibele, não é inverossímil que se ocultasse aos Gregos; os quais, embebidos na vitória, entregando-se ao descanso e aos prazeres anelados depois de uma guerra prolixa, não cuidaram em perseguir os fugitivos. É todavia este reparo um dos mais plausíveis, e seria sem réplica, se o caso tivesse lugar nos nossos tempos. — Quanto à incerta viagem dos Troianos, o mesmo crítico tem por uma inadvertência do poeta, não só porque o simulacro de Creusa tinha designado a embocadura do Tibre, mas também porque Ilioneu em seu discurso a Dido falara duas vezes da Itália. Se Enéias esqueceu ou não aceitou logo o aviso de Creusa, foi porque também Cassandra, como se vê desde o verso 103-187 deste livro, vaticinara o mesmo a Anquises, e era mister não se dar peso ao conselho da sombra que coincidia com o da profetisa, cujo irrevogável destino era não ser nunca acreditada. Pelo que toca ao discurso de Ilioneu, a inadvertência não é de Virgílio, é sim de Mr. Villenave e dos outros críticos: cumpria-lhes observar que os acontecimentos do livro II e do III são muito anteriores aos que o poeta canta no primeiro: Dido pede ao herói a narração inteira das suas aventuras; ele, contando o que se tinha passado há sete anos, refere também a incerteza de pousada com que partiu de Tróia; incerteza que tinha cessado com as ordens de Apolo, comunicadas em sonhos a Enéias pelas imagens dos deuses, segundo se lê neste livro desde o verso 153-171. Não admira pois que o Troiano, ao tempo que se passava o referido no II e III livros, ignorasse o que se menciona no primeiro. — De ter Virgílio, à maneira da Odisséia, começado o poema do meio dos acontecimentos, para por via da narração fazer vir o passado, tiram alguns isto como regra infalível da epopéia; regra na verdade seguida por grande parte dos poetas épicos, mas que deve subordinar-se às concepções e aos diferentes planos do gênio.
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v. 10–12Velas dar à ventura: então da pátria
“Todos os Troianos, diz Mr. Tissot, emudecem, e até as mulheres parecem insensíveis: não saúdam pela última vez os lugares em que foram mães; não caem de joelhos para invocar, em uma comemoração religiosa, os maridos que repousam no seio da terra natal.” Seria plausível esta crítica, se minutos antes (convém não esquecer que a narrativa é durante o festim) não tivesse acabado Virgílio de pintar, com as mais tristes e vivas cores, as mães a ulular e a gemer, abraçando e beijando os portais do palácio que iam largar; cena da qual a imaginação naturalmente se transporta às casas dos particulares e a toda a cidade em luto. Havendo assim enternecido os ouvintes e representado a mágoa das Troianas, Enéias, dizendo que chorava ao apartar-se, e que se engolfou com o filho e os sócios e os deuses, abandonando os campos onde foi Tróia, assaz explica a sua dor e a de todos, em cujo nome fala. Fiel ao sistema de concisão e de deixar o ouvinte ou o leitor desenvolver por si o complexo de pensamentos que ele tem o segredo de grupar em sua brevidade, fiou-se no seu nunca igualado campos ubi Troja fuit, crendo com razão que estas quatro palavras tinham a magia de suscitar as demais idéias acessórias na presente situação. O certo é que nenhuma outra move a mais saudade; o que era impossível se, ou expresso ou facilmente subentendido, não contivesse o essencial para despertar este sentimento.
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v. 13–16Exul me engolfo, e os divos e os penates.
“É pena, diz Mr. Tissot, que o poeta só consagrasse três versos à descrição deste país, ilustrado por tantas lembranças poéticas. O Hebro, que rolou os restos inanimados do esposo de Eurícide, o Ródope de névoas coroado, onde as Amazonas e as Bacantes celebravam coréias em honra de Baco, nem sequer são mencionados.” Esta crítica é uma cópia do livro IV das Geórgicas no episódio de Orfeu. Não devendo o poeta introduzi-lo na Eneida, omitiu aqui isso que não podia reproduzir com tanto sucesso. Além de que a repetição teria os ares de um lugar comum, se os críticos o repreendem por haver na sua epopéia metido um ou outro verso das Geórgicas, o que não discorreriam se ele nesta passagem tivesse copiado um trecho inteiro, que tão formosamente quadra ao plano daquele poema? É forte mania a de quererem alongar a Eneida! Seu autor é tão recomendável pelo que exprime, como o é muitas vezes pelo que sabe calar: a precisão é o cunho das suas poesias.
↩ voltar à passagem, v. 13
v. 18Ruim fado aí me aporta, e em curvo seio
Traduzi Enéia, e não Enos, porque esta cidade era mais antiga do que a edificada por Enéias, na Trácia. Veja-se o dicionário de Calepino e a nota acurada de Mr. Villenave.
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v. 21E à mãe Dionéia sacrifico, e um touro
“Espantam-se os intérpretes de que Virgílio fizesse imolar um touro a Júpiter, quando os antigos convêm em que nunca se lhe sacrificava touro ou carneiro. Crê Macróbio que este erro de Enéias agastou o senhor dos deuses, e produziu o horrível prodígio aterrador do filho de Vênus. Portanto, em vez de enxergar uma falta em Virgílio, descobre um rasgo de engenho. É abusar um pouco do privilégio da interpretação.” Isto é do citado Mr. Villenave; e eu respondo que condenar sem exame é abusar um pouco do privilégio de crítico. Se consultasse os comentários do eruditíssimo João de la Cerda, pag. 271 do tom. I, veria que, segundo Heródoto, liv. VI, Demarato sacrificou um touro ao pai dos deuses; que o mesmo fez publicamente Aristides; que Juliano Cesar, na epist. a Libânio, diz: mactavi Jovi regaliter taurum candentem; e Arnóbio, liv. VII: Quid applicitum Jupiter ad tauri habeat sanguinem, ut ei debeat immolari, non debeat Mercurio, Libero? Os cônsules romanos (costume do seu Enéias derivado, como opina o mesmo sábio comentador) ofereciam hecatombes a Júpiter.
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v. 22–68Nédio imolo na praia ao deus superno. ⋯ Enlutado, elevamos; destrançadas,
Este episódio, útil ao andamento do poema, foi imitado por Ariosto e por Tasso, e recordado por Camões: teve porém a mofina de desagradar a Mr. Tissot, que acha aqui Virgílio inferior a Eurípides e a Ovídio, por se ter privado da presença, da dor, do desespero e da vingança de Hécuba. Eurípides e Ovídio podiam e deviam servir-se da personagem de Hécuba; ao passo que Enéias, desembarcando na Trácia um ano, ao menos, depois da morte de Polidoro, já não podia encontrar-se com Hécuba: sem embargo do que, o autor fez o episódio interessantíssimo, descrevendo o prodígio com pincel de mestre, e aproveitando o ensejo para nos recomendar o respeito que se deve aos túmulos e nos dar profícuas lições morais. O episódio, como eu disse, aduna-se ao todo, pois devia o poeta mostrar o porque largara Enéias a Trácia; e o motivo, rico parto da sua imaginação, é inteiramente da índole da epopéia. — Não responderei aos que, destituídos de gosto, condenam o poeta pela impossibilidade do fato, querendo medir os vôos do gênio pelo compasso de Euclides; direi porém que, muitos anos depois, a nação romana se regozijava com o formosíssimo poema das Metamorfoses, essencialmente composto de coisas não menos maravilhosas, e que esse primor do engenhosíssimo Ovídio é hoje em dia lido com sumo prazer por quem nada crê naquelas transformações. Sobre este ponto consulte-se o alegado padre João de la Cerda.
↩ voltar à passagem, v. 22
v. 70Tépido espúmeo leite e de hóstias sangue
O barão de Walckenaer censura este lugar, porque o vento Austro era diretamente contrário e com ele os Troianos não poderiam sair de Enos (a mesma que traduzo Enéia); porém Mr. Jal, que demonstra que os antigos já conheciam a navegação à bolina, responde que fora justa a crítica, se os Latinos e os Gregos não soubessem navegar senão a uma larga ou em popa, ou com o vento entre as duas escotas; mas que eles sabiam orçar e bordejar. Quanto à objeção de que o Austro era ponteiro, e nem orçando muito era possível sair, responde que o que não poderia fazer-se à vela somente, se faz com o socorro dos remos, sobretudo se o vento é fraco (lenis crepitans); que nada pois impedia Enéias de pôr-se ao largo com o Austro pela proa. E com efeito vemos, na nossa baía do Rio de Janeiro, o arrais negro menos perito navegar à bolina estreita com vento de menos de seis quartas, ajudando-se dos remos quando o vento é brando, e só trata de bordejar quando refresca. Não é absurdo que o mesmo quase fizesse Enéias: era do seu interesse dali partir quanto antes, e partiu com o vento que soprava; porque, se ficasse à espera de melhor, poderia retardar a viagem.
↩ voltar ao verso 70
v. 76Em nado a praia enchendo, as naus velejam;
A ilha Mícon, hoje Mícoli, é chamada celsa por causa do monte Dímasto. Há quem censure este epíteto, porque são pouco elevadas as montanhas de Mícoli. Porém em uma ilha pequena qualquer elevação parece considerável, e o monte Dímasto é alto relativamente.
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v. 78Sacra à mãe das Nereidas e a Netuno
“Porque, pergunta Senadon, depois da predição de Creusa, diverte-se Enéias em edificar uma cidade na Trácia? Porque em Delos pede a Apolo que lhe marque o lugar em que se deva estabelecer?” Para responder ao padre, é preciso repetir que o Troiano ou esqueceu ou não abraçou logo o aviso de Creusa por coincidir com o de Cassandra, fadada a nunca ser crida. Buscou pois a Trácia por mais vizinha, sendo do interesse comum achar quanto antes um assento; além de que era esse país governado pelo genro de Príamo, Polimnestor, em quem se esperava encontrar acolhimento e socorro; mas, advertido por Polidoro da perfídia e crueza de Polimnestor, depois de já ter começado a edificar, foi constrangido a largar a terra, onde com efeito se tinha querido fixar. Respondida à primeira, passemos à segunda. Ainda na incerteza (pois não tinha ocorrido o aviso dos penates, que o decidiu) em sua viagem errante chega a Delos; e é natural que o religioso capitão aí consultasse o oráculo por via do rei e sacerdote Ânio, amigo velho de Anquises. Un oracle toujours se plaît à se cacher, diz Racine: aquele foi ambíguo; e, tendo-se de buscar a Itália ou Creta, Anquises se declarou pela última donde era Teucro, mais antigo do que o genro Dárdano, vindo da Itália. Acrescia que, sendo Creta mais próxima da Trácia, em caso de dúvida pedia a prudência que fossem primeiro a Creta, não havendo tanto que desandar, quanto haveria se, demandando primeiro a Itália, se vissem na precisão de voltar ao país de Teucro. Respondo com isto à segunda pergunta de Senadon, e ainda a uma terceira, pois também quer saber porque Enéias se demorou a edificar em Creta.
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v. 136–141Fretos de bastas ilhas semeados.
Pretendendo os Troianos ficar em Creta pela interpretação de Anquises, imagina o poeta uma peste que dali os expulse. Delille, com prudente reserva, insinua que a descrição devera ser mais longa; e Mr. Tissot, que toma e explana o pensamento do poeta francês, decide e corta a questão: “Virgílio, tão fecundo, rico, variado nas cenas diversas da ruína d’Ílion, é apenas um frio narrador no livro terceiro. Crer-se-ia, por exemplo, que um poeta se contente de esboçar em seis versos o quadro de um acontecimento qual o da peste que expulsa Enéias da pátria de Idomeneu?” Mais acrescenta, e com Delille quer que a peste ataque a Iulo, que o pai trema pelos dias do filho; quer enfim uma daquelas descrições que, podendo ser belas em certas conjunturas, aqui só prestariam para retardar a narração. Enéias, que rememora as suas aventuras à mesa durante o sarau, depois de ter comovido o auditório com a ruína de Tróia, trata de o entreter com o mais essencial; a grandes traços descreve a sua viagem, e basta-lhe às vezes um epíteto para caracterizar um fato ou uma terra: assim a fome de ouro é sacra, porque nem ao sagrado perdoa; a Trácia é mavórcia, por ser o berço do deus da guerra; Donisa é a verde, Paros é a nívea, pela cor dos seus mármores. Seu fim não era pintar uma peste, era motivar o abandono dos seus estabelecimentos em Creta. Em uma longa pintura corria o poeta o risco de se repetir, pois que no terceiro das Geórgicas trata já de uma peste, sobre ser fresca a lembrança da da Ática descrita pela mão hábil de Lucrécio: a longura pois me parece que não fora a propósito, e pudera excitar a idéia de um lugar comum. Com ser breve, não deixa todavia de ser enérgica a descrição desta peste: em um pequeno quadro, vê-se a corrupção infectando os ares e as plantas e os homens, os campos estéreis, a seara enfezada negando o pão, as ervas secas, os corpos a definhar. Observe-se que neste livro Enéias se apressa, ad eventum festinat; só se demora no mais interessante, ou quando os acontecimentos têm relação com o fato que mais o magoava, a queda de Tróia. Isso convinha a uma narrativa de sua natureza extensa, e o bom gosto impunha-lhe a obrigação de resumir-se. — Nenhum dos outros livros encerra tanta variedade como este. Aos críticos tem aprazido alcunhá-lo de frio, esquecidos de que há nele o encontro de Enéias com Andrômaca, o túmulo de Polidoro, o painel do Etna e dos Ciclopes, superior ao de Homero, o episódio de Aquemênides, a fábula das Hárpias, a pintura de Scylla e de Charybdis. Este livro corre fado contrário ao todo da Eneida: os amadores acham-na excelente, mas, se fossem verdadeiros os senões que lhe notam, pouquíssimo lhe restava de bom; o livro é tachado de seco, sem grandeza nem imaginação, mas, contados os versos dos lugares que louvam, conclui-se que em geral é obra de primor, sobretudo ninguém lhe negando harmonia e riqueza de estilo. Reprova-se a miúda relação geográfica aí contida, sem se lembrarem que, na era de Virgílio estando a navegação bem atrasada, essa relação excitava um interesse vivíssimo. Em tempo comparativamente moderno, há três séculos, fez Camões a descrição circunstanciada da Europa no seu imortal poema, o que então foi ótimo e aceito; hoje tacham-no também da mesma pecha que a Virgílio: nós os Brasileiros e Portugueses perdoamos aos estrangeiros esse juízo de mau gosto, porque eles pela maior parte não conhecem assaz o português para saborearem a erudição recôndita, os toques sublimes e maviosos, a harmonia contínua dessa bela passagem, e falam de Camões sem o terem meditado, e alguns, nem lido.
↩ voltar à passagem, v. 136
v. 147–171Salteia corrupção que infecta os ares, ⋯ Muda-te, parte, o Délio o determina;
“On est tenté de trouver quelque ridicule dans les oracles, qui ne s’expliquent qu’à moitié, et qui égarent, par une funeste ambiguité, de malheureux bannis; ainsi que dans l’apparition de ces dieux pénates, qui redressent les torts de l’oracle de Delphes.” Quem ouve a Delille esta, que tem sido a cantilena de outros críticos, pensará que Virgílio traz por todo o Mediterrâneo a Enéias iludido pelos oráculos: a verdade é que, saindo ele de Tróia, vai a Trácia, donde o aparta o prodígio de Polidoro; chega a Delos, onde consulta a Ânio, e uma só vez a má interpretação do oráculo o leva a Creta em vez de ser à Itália. Se é isto condenável, quanto não deve ser argüido Racine que, durante cinco atos, faz do equívoco do nome Ifigênia o nó da sua bela tragédia? Os oráculos não se explicavam jamais com bastante clareza, e, se o poeta lhe tirasse toda a ambigüidade, faltaria à tradição e à história, e então é que seria repreensível. Chegado Enéias a Creta, edifica, planta e se estabelece; mas uma horrível peste o dispõe a tornar a Delos; aonde não foi, porque os tutelares penates, em nome de Apolo, dizem-lhe que busque definitivamente a Itália. Ora, depois de ter guiado os Troianos à Trácia e a Delos, depois de os levar a Creta, esta vez única iludidos pelo oráculo, nunca mais duvida Enéias do rumo que tinha de seguir; se transviou-se da Itália, foi pelos obstáculos de Juno, borrascas e cerrações. A intervenção dos penates não é ridícula, é necessária: para contrapesar o efeito do prognóstico de Cassandra era mister um sucesso extraordinário, era mister que interferisse um deus, como interferiu Apolo. — Sente-se que Delille às vezes condescende com os críticos, para isentar-se da balda, que tem os tradutores, de julgar impecável o autor original.
↩ voltar à passagem, v. 147
v. 221Nas praias me recebem: nestas ilhas
Fato por grei de cabras é freqüente em Bernardim Ribeiro, Bernardes, Rodrigues Lobo e outros. Mr. Millié, cant.III, est. 49, para traduzir o verso dos Lusíadas: Recolhe o fato e foge para a aldeia, disse: Rassemblent leurs vêtements épars et fuient vers le hameau voisin; e devia dizer: Rassemblent leur troupeau de chèvres, etc. No uso vulgar fato é também vêtements; mas, por ocasião de um ataque, a comparação dos Mouros com o pastor que ajunta a sua roupa antes de fugir, seria pouco digna da epopéia, por trazer uma circunstância bem insignificante. Sinto principiar censurando Mr. Millié, cuja tradução muito aprecio; a qual, pondo de parte a harmonia e beleza dos versos de Camões, que a prosa e uma língua menos poética não podem igualar, é uma das que em francês reproduzem melhor o original, e são bem trabalhadas as notas que se lhe ajuntaram, e bem escrita a vida de Camões por Mr. Charles Magnin, que vem à frente da obra. Só quisera que este judicioso biógrafo não tivesse adotado a injusta opinião de Manuel de Faria, o qual, por fanatismo para com Luiz de Camões, atribuiu-lhe várias obras que diz usurpadas por Diogo Bernardes; pois um exame imparcial do estilo e maneira de tão ameno poeta, ajudado pelo estudo das mesmas obras, convence de que elas são realmente de Bernardes e não de Camões.
↩ voltar ao verso 221
v. 225–258Monstro maior, nem divinal flagelo, ⋯ De novilhos e bois nos estragardes!
Tratemos do episódio das Hárpias. Enéias arriba às Estrófades, não por se enganar com o oráculo, mas por uma tempestade e cerração, tal que o mesmo Palinuro, sem tino e confundindo a noite com o dia, navegava à toa, até que a frota abrigou-se às tais ilhas. Celeno toca na viagem ao Lácio como fixa e ordenada pelos deuses; mas, em vingança dos bois que lhe mataram, prognostica aos Troianos a fome que os havia de obrigar a roer as próprias mesas. Mr. Tissot reprova que eles tremam diante de um prodígio, e afirma que os oráculos de Celeno contrabalançam as palavras de Júpiter; tendo por contrário aos costumes heróicos aquele tremor, e por contradição o que profetiza a Hárpia. Quanto aos costumes heróicos, soem combinar-se com a superstição e com o horror do que se nos figura sobrenatural; e, para uma empresa merecer o nome de heróica, não é preciso que todos os que entram nela sejam desabusados, e não tremam à vista de um prodígio: os soldados e homens de chusma que, ao comando de chefes corajosos, têm concorrido para os feitos estrondosos, batiam-se valentes, e tinham pavor de visões e do que lhes parecia portentoso: Virgílio prometeu cantar uma ação grande, mas não prometeu apresentar em cada Troiano um espírito forte. Wieland, no seu imaginoso poema Oberon, representa em Scherasmin um soldado velho pronto a bater-se com dois ou três homens, tendo contudo um medo indizível de trasgos e visões: isto é o que se vê comumente, e não exércitos de filósofos. Acerca da decantada contradição, direi que Celeno em nada contrabalança nem discrepa das palavras de Júpiter: Júpiter afirma a Vênus que Enéias tem de estabelecer-se no Lácio, e a rainha das Hárpias o confirma deste modo: “A Itália demandais, à Itália os fados Com viração galerna ir vos concede; Mas, antes que mureis o assento vosso, Desta matança em pena há de obrigar-vos Crua fome a roer as próprias mesas.” Ora, só uma cega preocupação pode achar que estas palavras contrabalançam e não confirmam as de Júpiter. O ridículo que descobrem alguns nesta fábula, vem de que certos críticos, presumidos de filósofos, julgam os antigos pelas idéias modernas; sem se lembrarem que esta era uma tradição histórica, e que o poeta, procurando na Eneida ajuntar as tradições relativas à fundação de Roma, não a devera omitir: do mesmo modo que um historiador que tratar da sagração dos reis de França em Reims, tem de falar da santa ambula milagrosa, como bem adverte Voltaire, que não foi dos mais credeiros.
↩ voltar à passagem, v. 225
v. 268–288Crua fome a roer as próprias mesas.” ⋯ Da proa âncora deita-se, amarramos
Na derrota para Itália, passaram os Troianos por Zacynthos, Dulichio, Samos, Neritos e Ítaca, e descobriram os cumes de Leucate, onde foram refrescar, por não o terem podido fazer nas Estrófades, nem querido aportar nas ilhas pertencentes a Ulisses; além de que, tendo Anquises feito um voto, em Leucate o podia ele pagar a Apolo, e celebrar ao mesmo tempo o lustro a Júpiter. O lustramur Jovi tomo no sentido em que o tomou o meu falecido amigo Barreto Fêo, a cuja obra remeto o leitor; bem como para a explicação do magnum annum, que ele julga ser o quinto ou o último do lustro que decorrera, desde que Enéias deixou Tróia até abordar a Leucate. Repare-se na arte com que Virgílio traz ali Enéias para celebrar jogos no promontório de Accio, aludindo aos quinquenais instituídos por Augusto, depois da batalha em que desbaratou a Marco Antonio. — Neritos ardua saxis verto Neritos alpestre, como Annibal Caro Nerito alpestre, porque em italiano e em português este adjetivo diz fragoso e elevado como os Alpes. O fragosa de João Franco não o pude adotar, por ser consoante de nemorosa do verso antecedente, bem que neste lugar seja tão expressivo como alpestre.
↩ voltar à passagem, v. 268
v. 291Com votos ara acendo, e em tróicos ludos
Daqui em diante refere-se como os Troianos, depois de largarem o porto de Leucate e de costearem o Épiro, sobem enfim a Buthroto. Já então Enéias não ia navegando ao acaso, mas para Itália; e, se desembarca na Caônia, é porque, tendo ouvido que lá estava seu primo e cunhado Heleno, nada há mais natural do que desejar ver-se com Andrômaca, viúva de Heitor; tanto mais, que essa demora em casa dos parentes pouco retardava a sua viagem. Aqui é que traz Virgílio o seu famoso encontro de Enéias com Andrômaca, uma das criações mais sublimes e patéticas da poesia antiga e moderna, e onde não há palavra que deixe de conter um pensamento profundo. Há porém alguns críticos, e bem respeitáveis, que preferem o caráter que deu Racine a Andrômaca na sua tragédia deste nome: eu creio que ambos os poetas fizeram o melhor, cada um em relação ao seu plano. Racine pinta em Andrômaca, alterada a história, a viúva de Heitor sempre fiel a seu falecido esposo, e resolvida a casar com Pirro para defender a vida do seu Astianaz; de sorte que sacrifica o escrúpulo de esposa unicamente ao amor maternal: é isto sem dúvida belo, moral e sublime; e aqui Racine, como bem reflete Chateaubriand, escreve já inspirado pelas idéias do cristianismo. Virgílio, seguindo a história quase à risca, mostra em Andrômaca um triste exemplo das mudanças da fortuna: filha e nora de reis, a mulher do rival de Aquiles é constrangida a entrar no leito de um senhor e a parir na escravidão. A Andrômaca de Racine é mais venerável por sua virtude; a de Virgílio excita a mais compaixão. Racine quis fazer da principal personagem uma heroína perfeita, que atraísse a admiração; e Virgílio quis mostrar novas e desgraçadas conseqüências da ruína de Tróia nos infortúnios da lamentável princesa. A ter Virgílio antecipado o plano do poeta francês, desapareceriam as maiores belezas: o abaixar dos olhos da infeliz e a exclamação a respeito de Polycena, quando Enéias lhe pergunta se ainda é de Pirro; o seu heri tetigit captiva cubile; o juvenem superbum servitio enixae tulimus; o dejectam conjuge tanto. Que, a ser pintada Andrômaca uma heroína perfeita, não seria tão patética, é da natureza humana, da teoria dos mestres, da prática de Eurípides e Sófocles e dos trágicos de mais nomeada; e o mesmo Racine se encosta a esta opinião, segundo o escreveu no prefácio da Fedra. Acresce a vantagem que o poeta soube colher do arrependimento de Andrômaca, pois, recobrada do seu abatimento, a que forçava a desgraça, procura pôr em esquecimento essa fraqueza desculpável, prestando culto às cinzas do seu lamentado Heitor.
↩ voltar ao verso 291
v. 340Na servidão parindo, o fausto e orgulho
Dos versos inacabados é este o que não oferece um sentido completo. Para que o tivesse, li-o como alguns o emendam: Quem tibi jam Troja obssessa est enixa Creusa; omitindo na tradução o nome Creusa, que facilmente se subentende. N’um tal caso não há meio de acertar.
↩ voltar ao verso 340
v. 348A Heleno, que chamou Caônio o campo,
A preposição entre com o gerúndio sem razão está em desuso: é insuprível às vezes, salvo por um rodeio, que sempre enerva o pensamento.
↩ voltar ao verso 348
v. 358–462Tal num contínuo choro em vão carpia; ⋯ Grava e encomenda às folhas, e os numera.
Enéias quer partir, e consulta o profeta Heleno sobre os meios de evitar os males prenunciados por Celeno. A resposta é longa, mas necessária, como o confessa Delille, que todavia a chama pouco interessante. Pouco interessante o que é necessário! Contém a resposta, segundo o mesmo Delille, toutes les leçons qui devaient diriger Enée dans sa navigation et dans sa conduite. Contém, além disso, a descrição de ritos que Roma conservava, conducente ao fim do poema; a de Scylla e de Charybdis, riquíssima de poesia; a razão por que Enéias rodeou a Sicília e arribou a Cartago, parte essencial ao plano da Eneida: contém enfim o anúncio de que o herói deve consultar a Sibila e a maneira de se portar na gruta, o que tudo é muito e muito necessário e interessante; nem havia melhor ocasião de serem estas coisas tratadas. Quem ler a Virgílio, deve em certo modo fazer-se Romano para o saborear. — Compus saxi-sonante, por onomatopéia, e para evitar a fria longura que soa nas pedra.
↩ voltar à passagem, v. 358
v. 369–611Sobre ouro comem, taças de ouro empunham. ⋯ Tinha em manto nimboso a escuridade.
Aqui há uma lição de humanidade: Aquemênides, inimigo de Tróia e companheiro de Ulisses, é acolhido por Enéias, que o livra dos Ciclopes. Não me estenderei em gabos da pintura do Etna e da cova de Polifemo, superior à da Odisséia na opinião de todos; esta nota é para combater o Mr. Villenave acerca dos dois versos: “Ingens, quod torva solum sub fronte latebat, Argolici clypei aut Phebeae lampadis instar.” “A comparação, diz ele, peca menos pela exageração que pela inexatidão: como poderia o olho do gigante estar oculto sob a fronte, se assemelhava ao disco brilhante do Sol? Delille traduziu latebat por brilhava: razoável infidelidade..... A comparação excede toda a medida ao estender-se ao disco do Sol. Que proporção dar-se pode entre o broquel de um soldado e o primeiro astro do universo?” Esta argumentação é especiosa. Trata Aquemênides de Polifemo, na ocasião em que o gigante com a vinhaça ressonava e dormia, e quem dorme fecha os olhos; eis porque se ocultava o olho sob a fronte coberto com a pálpebra: se o compara ao Sol, é porque pouco antes o tinha visto brilhar, quando Polifemo estava acordado; e a grandura conhecia-se mesmo por cima, e pelo tamanho da abertura em que o olho se achava metido. Quanto à falta de proporção entre o broquel de um soldado e o Sol, seria boa a crítica se a comparação fosse com o verdadeiro disco do astro; mas é só com o disco aparente, que não é maior que um broquel, sobretudo no zênite. No livro II dos Martyres, Chateaubriand adotou esta comparação, como aqui dou a ler traduzida no homérico estilo dos versos de Francisco Manuel: “Enquanto estas razões do peito solta Lastenes, para o lúcido oriente Olímpio, desce o Sol de Foloe aos cumes; Como imóvel ali suspenso pára, Qual broquel de ouro fosse, e cresce em vulto.” Ora, o bom gosto do maior épico francês, e um dos maiores do mundo, acolheu com amor o que rejeita Mr. Villenave; o que não é pequeno argumento a favor de Virgílio. — Agora passemos a outro grande poeta, cuja autoridade creio não recusará o crítico. La Fontaine, fab. 25 do liv. IV, acha que a Lua é do tamanho de um queijo; e, na 17 do terceiro, que o Sol tem uns três pés de redondo: crítico nenhum tem censurado a La Fontaine; nem valha a desculpa de que isso é posto na boca de irracionais, pois que o fabulista presta aos outros animais os costumes, as paixões e o discurso dos homens; no que sem dúvida consiste o encanto de tais composições. Delille pois verteu infiel e pessimamente.
↩ voltar à passagem, v. 369
v. 491Cortês o augur o acata: “Aceito esposo
“Cada língua tem suas belezas: o pubesceret não pode passar a qualquer outra.” Mr. Villenave, que assim discorre, não contou com a portuguesa, onde o verbo empubescer casa belissimamente.
↩ voltar ao verso 491
v. 493Das perdas ambas de Ílion salvado,
Sobre esta despedida, e em geral sobre a hospedagem do herói na Caônia, as observações de Delille e Mr. Villenave me dispensam de falar.
↩ voltar ao verso 493
v. 506–520Dos teus recebe as derradeiras prendas, ⋯ Das propínquas cidades consangüíneas
“Um douto comentador quis pôr o Provehimur pelago mais abaixo, depois do Tentamus viam et velorum pandimus alas; pensa com razão que, já se tendo lançado a frota de Enéias a vogar, o poeta não a podia mostrar ainda ancorada.” Assim discorre Mr. Villenave, que, com o seu douto comentador, não viu que a frota largou duas vezes: depois que desaferra das praias da Caônia e que voga (provehimur pelago), passa os montes Cerâunios, ao pé dos quais toma de novo terra (in litore sicco corpora curamus); foi daí que Palinuro tornou a mandar soltar as velas, e portanto foi bem colocado pelo poeta o Tentamus viam, e o Provehimur pelago. Nove décimos, ao menos, das censuras feitas a Virgílio são como esta.
↩ voltar à passagem, v. 506
v. 522–553Faremos na harmonia uma só Tróia: ⋯ Ele ao nascente arqueia; em face, espúmea
O padre La Rue, Delille e Mr. Villenave esclarecem estas diferentes passagens. Os Troianos avistaram a Itália, tocaram n’um porto, que se julga ser o de Salento; em vez de tomarem o estreito do Peloro ou Capo di Faro, tomaram à esquerda, segundo os conselhos de Heleno, com medo de Scylla e de Charybdis; rodearam o Pachino ou Capo Passaro, e descobriram o Etna.
↩ voltar à passagem, v. 522
v. 690–691Anda, e as altas espáduas não molhava.
Chateaubriand, no livro IV dos Martyres, introduz um Grego entusiasta que, à imitação de Aquemênides, ia ensinando ao jovem Eudoro os sítios da Grécia que navegando avistavam. O poeta moderno ali excede a Virgílio; porque, no enumerar e apontar as diferentes paragens, a cada uma acrescenta a comemoração de um fato notável, e a escolha não pode ser melhor. O nosso grande contemporâneo no imitar o antigo se tornou original. Porque a poesia desta epopéia não foi escrita em verso? É sim harmoniosa e elegante a sua prosa; mas há delicadezas para as quais a prosa não basta. Francisco Manuel, quanto à graça da linguagem, na sua tradução me parece preferível ao mesmo autor; e a obra, apesar de não poucas incorreções, considero-a como o modelo do seu gênero: não conheço um tradutor poeta que tanto me agrade, em língua nenhuma.
↩ voltar à passagem, v. 690
v. 714Do estreito do Peloro: a foz transponho
Penso que o hemistíquio De navegações longas, qual o de Camões, no princípio da sua epopéia, As navegações grandes, representa a longura da consonância longarum viarum, porque, além do vocábulo navegações ter muitas sílabas, caindo a sua última na quinta do verso e devendo a voz demorar-se na sexta, é-se obrigado a ligar as duas palavras, como se fossem uma ainda mais comprida. Em Camões, Francisco Manuel, Garção e em outros desta ordem, é que se podem beber os segredos da versificação portuguesa: entre os contemporâneos, no meu sentir, é o Snr. Almeida Garret um dos que nesta parte mais se distinguem.
↩ voltar ao verso 714
v. 715Do Pantágias aberta em roca viva,
Fecha Enéias a narração com a arribada a Cartago, aonde o arrojou a tempestade do liv. I. Lê-se ali que, circundando ele a Sicília pelo cabo de Passaro, e já nas águas do mar Toscano, foi contra seu querer dar à costa d’África, tendo perdido uma nau e chegando com as outras destroçadas. Sanadon pergunta porque o herói se estabelece em Cartago e se esposa com Dido; e eu respondo que o herói não se estabeleceu em Cartago, nem com Dido se esposou. Arribado sem víveres, necessitando de refazer e fabricar as embarcações, ele aceitou a hospitalidade da rainha, a quem nunca propôs um casamento; ela, incitada por Vênus e Cupido, é que ardeu em uma paixão violenta, e procurou demorá-lo enganando o seu amor com o véu do matrimônio; e Enéias, que se deixou vencer, ao depois tornando em si, amoestado por Mercúrio, rompeu com mágoa esses laços perigosos, e seguiu para Itália: Virgílio põe-no em luta com uma das mais fortes paixões, para fazer o homem triunfar da sua fraqueza e aparecer o heroísmo. — Permita-se-me agora um resumo da viagem, a fim de se tornar mais evidente que não há contradições de oráculos nem incoerência alguma. Enéias larga as velas à ventura, porque, não crendo na sombra de Creusa cujo aviso coincidia com o de Cassandra, não quis ir logo para Itália: tentou estabelecer-se na Trácia, por supor encontrar abrigo em um genro de Príamo, e por ser do seu interesse dar quanto antes assento aos companheiros; e saiu da Trácia, quando soube da traição de Polimnestor: foi a Delos consultar Apolo: a ambigüidade essencial do oráculo o faz ir a Creta, em Creta edifica e planta; mas, urgido pela peste, quando meditava tornar a Delos a reconsultar Apolo, os penates em nome dele aclaram o oráculo; e desde então a frota caminha diretamente ao Lácio. Uma cerração no mar Jônio, com a qual nem Palinuro se soube haver, leva Enéias às Estrófades; e já mostrei que aí a Hárpia Celeno confirmou os vaticinios: das Estrófades, indo avistando várias ilhas onde não pôde refrescar, foi refrescar a Leucate; e dali partiu, não obstante as nortadas, havendo celebrado jogos e sacrifícios: passa Córcira, e aporta na Caônia para se encontrar com Andrômaca e seu parente Heleno, de quem recebe esclarecimentos importantes: amoestado por ele a não ir pelo estreito por causa de Scylla e de Charybdis, mas a rodear a Sicília, sai de Buthroto, perpassa os Cerâunios; salta perto para descansar algumas horas, e para com dia poder avistar as praias de Itália, o que sucedeu ao romper da aurora: aproxima-se, reconhece a boca do estreito para o evitar: desembarca no promontório Salentino para adorar a Minerva, como era natural que o pio Enéias o quisesse fazer no primeiro templo que avistava no país desejado: larga de novo o pano, vai vendo diferentes lugares, até que um temporal o atira às praias dos Ciclopes, onde recolhe a bordo o companheiro de Ulisses: com o Boreas navega, dá vista de várias paragens famosas, e só desembarca em Drépano; e dali, tendo perdido seu pai, uma tempestade o lança às costas de Cartago. Esta breve análise demonstra que o livro III é escrito com rigoroso cuidado.
↩ voltar ao verso 715
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