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EneidaLivro IV
LivroIV

Já traspassada, em veias cria a chaga

765 versos · 25 notas do tradutor


  1. Já traspassada, em veias cria a chaga,
  2. E se fina a rainha em cego fogo.
  3. O alto valor do herói, sua alta origem
  4. Revolve; estampou n’alma o gesto e as falas;
  5. Do cuidado não dorme, não sossega.
  6. A alva espanca do pólo a noite lenta,
  7. Lustrando o mundo a lâmpada febéia;
  8. Louca à irmã confidente então se explica:
  9. “Suspensa que visões, Ana, me aterram?
  10. Que hóspede novo aporta às nossas plagas?
  11. Quão gentil parecer! que ações! que esforço!
  12. Creio, nem creio em vão, provém dos deuses.
  13. Temor vileza argúi. Dos fados jogo,
  14. Ai! que exaustas batalhas decantava!
  15. Se em grilhões nupciais não mais prender-me
  16. Fixo não fosse em mim, dês que traiu-me
  17. Com morte o amor falaz; ao toro e fachas
  18. Tédio se não tivesse, eu talvez, Ana,
  19. A esta só culpa sucumbir pudera.
  20. Depois que o meu Siqueu me foi roubado,
  21. Mão fraterna os penates cruentando,
  22. Este único abalou-me, eu to confesso,
  23. E a vontade impeliu-me titubante:
  24. Sinto os vestígios da primeira chama.
  25. Mas engula-me o abismo, antes me arroje
  26. Do Onipotente um raio às sombras fundas,
  27. Pálidas sombras do enoitado inferno,
  28. Que eu te viole, ó Pudor, e as leis te infrinja:
  29. Quem a si conjuntou-me e a flor colheu-me,
  30. Consigo minha fé sepulto guarde.”
  31. Cala, e em seu seio as lágrimas borbulham,
  32. E Ana: “Ó mais do que a vida irmã dileta,
  33. Murcharás teu verdor, viúva e triste,
  34. Sem de Vênus gozar, sem doces filhos?
  35. Crês disto a campa cure e a cinza e os manes?
  36. Bem: magoada enjeitaste esposos tírios,
  37. E há pouco Iarbas e outros que em triunfos
  38. África nutre: pois também repugnas
  39. Ao grato amor? Nem onde estás refletes?
  40. Cá te cerca a pugnaz Getúlia invicta,
  41. E a Sirte inóspita e Numídia infrene;
  42. Lá por sequiosa a região deserta,
  43. E à larga soltos os Barceus furentes.
  44. Das guerras que direi que em Tiro engrossam?
  45. Das ameaças do irmão? Divino auspício,
  46. Mercê de Juno, esta arribada julgo
  47. Das quilhas de Ílion. Como a cidade
  48. Verás crescer? com tal consórcio, quantos
  49. Reinos pular? A que auge irá das armas
  50. Teucras a glória púnica ajudada?
  51. Vênia, irmã, pede aos céus, e abençoados
  52. Os sacrifícios, o hóspede agasalha;
  53. De o reter causas tece, até que as ondas
  54. A invernada embraveça e Orion chuvoso,
  55. E, em destroço os baixéis, embrusque o tempo.”
  56. Com tais razões lhe atiça o interno incêndio,
  57. E alenta de esperança o ânimo dúbio,
  58. E desata o pudor. Primeiro correm
  59. Aos delubros, e a paz nas aras catam:
  60. Bimas ovelhas rituais degolam
  61. À legífera Ceres, mais a Febo
  62. E ao pai Lieu, mormente a Juno, guarda
  63. Dos vínculos jugais. Taça na destra,
  64. Por entre os cornos de alvadia vaca
  65. Verte-a Dido pulquérríma, ou dos deuses
  66. Passeia em face pelas aras pingues;
  67. Sagra o dia a oblações; consulta as reses
  68. Pelos peitos abertas, respirantes
  69. Entranhas, congoxosa. Ai! néscios vates!
  70. Delubros, votos, à paixão que montam?
  71. Rói as medulas mole flama, e a chaga
  72. No âmago vive tácita. A rainha
  73. Arde insana, e infeliz vaga a cidade;
  74. Qual cerva, a quem de sibilante seta,
  75. A atirar o pastor nos créssios bosques,
  76. Varou de longe incauta, e ínscio o volátil
  77. Farpão lhe prega e deixa: ela na fuga
  78. Discorre as selvas e dictéias matas;
  79. A letal cana ao lado se lhe aferra.
  80. Ora o guia entre as obras, e as riquezas
  81. Tírias e prestes a cidade ostenta:
  82. Vai falar, e se atalha a voz troncando;
  83. Ora, o Sol descaindo, à mesa os casos
  84. D’Ílio outra vez sem tino ouvir demanda,
  85. E da narrante boca outra vez pende.
  86. Já retirados, quando à Lua obscura
  87. Encolher toca o lume e sono infundem
  88. Cadentes astros, só na vácua sala
  89. Mesta ao sofá se encosta em que ele esteve:
  90. N’ausência o escuta e o vê n’ausência; ou tendo
  91. No grêmio Ascânio, enleva-se na imagem
  92. Do pai, como iludindo o amor infando.
  93. Nem medram torres, nem se exerce em armas
  94. A mocidade; os portos não consertam,
  95. Nem, defensas da guerra, os baluartes;
  96. Impendentes merlões, fábricas param;
  97. Já não labora a máquina altaneira.
  98. Tanto que a persentiu da peste iscada,
  99. Sem à paixão a fama obstar, Satúrnia,
  100. Cara esposa de Jove, nestes termos
  101. Comete a Vênus: “Tu e o teu menino,
  102. Certo, exímio louvor e espólios amplos
  103. Ganhais e grã renome, a ser vencida
  104. Uma mulher por dolo de dois numes!
  105. Não me escapou, receaste os nossos muros,
  106. D’alta Cartago a estância te é suspeita.
  107. Onde isto irá? tantas contendas onde?
  108. Por que antes não firmamos paz eterna
  109. E ajustes conjugais? Lograste o intento:
  110. Ama Dido, o furor nos ossos prende.
  111. Os povos em comum, partindo o auspício,
  112. Rejamos pois: servir marido frígio,
  113. Com seus Tírios dotar-te, se lhe outorgue.”
  114. Vênus, sentindo-a cavilar, da Itália
  115. Por que o reino transfira às margens líbias,
  116. Retorque assim: “Quem há que a tal se furte,
  117. Ou doido queira guerrear contigo?
  118. Seja o que lembras, se a fortuna o aprova.
  119. Mas traz-me o fado incerta se é do gosto
  120. De Júpiter manter numa cidade
  121. Com os de Tróia os Tírios, ou lhe apraza
  122. Os povos confundir ou federá-los.
  123. És consorte: com preces a ti cabe
  124. Tentar seu pensamento. Anda, eu te sigo.”
  125. “Tomo isso a mim, replica a real Juno:
  126. De efeituar o que urge ao plano atende.
  127. A misérrima Dido ir com Enéias
  128. Caçar propõe-se, mal Titã no oriente,
  129. O orbe arraiando, crástino desponte.
  130. Eu com basto granizo atro chuveiro,
  131. No açodar-se o tropel de alãos e tralhas
  132. Cingindo a mata, soltarei das nuvens,
  133. Crebros trovões estremecendo o pólo.
  134. Derramada a companha, há de abafá-la
  135. Noite opaca: o Troiano ir-se-á com Dido
  136. À mesma gruta. Eu lá, se teu consenso
  137. Me asseguras, atada em jugo estável
  138. Lha ofertarei, sendo Himeneu presente.”
  139. Não adversando, ao rogo Citeréia
  140. Anui, e riu do solapado engano.
  141. A aurora do oceano entanto surge:
  142. Dos mancebos a flor madruga às portas,
  143. Com laços, redes raras, com venábulos
  144. De larga choupa; os éqüites massilos
  145. Com farejantes cães de trote rompem.
  146. No camarim detendo-se a rainha,
  147. À entrada os Penos principais a esperam;
  148. Em ostro e ouro o palafrém cosido,
  149. Tasca o freio espumante, árdego e fero.
  150. Assoma alfim da corte ladeada:
  151. A clâmide sidônia lhe circunda
  152. Multicor franja; à banda aljava de ouro,
  153. Trança em ouro a madeixa, e lhe conchega
  154. Fivela de ouro a purpurina veste.
  155. Não falta a frígia companhia, e alegre
  156. Marcha Iulo. Galhardo mais que todos,
  157. Sócio Enéias se agrega, e a sua escolta.
  158. Febo, quando abandona a Lícia hiberna
  159. E o caudal Xanto; e, ao visitar a Delos
  160. Materna, instaura os coros, pelas aras
  161. Mistos Cressos e Dríopes fremindo
  162. E Agatirsos pintados; por cabeços
  163. Do Cinto airoso pisa, e o crino undante
  164. Atilando, enredado em mole folha,
  165. De ouro enastra; o carcás aos ombros tine:
  166. Não menos senhoril Enéias ia;
  167. Tanto garbo transluz no egrégio rosto!
  168. Chega-se a alpestres montes e ínvias furnas:
  169. Eis, de íngreme rochedo despenhando-se,
  170. Bravias cabras pelos picos pulam;
  171. D’além cervos, ligeiros a planície
  172. Transpondo, aos esquadrões pulverulentos
  173. Enovelam na fuga, e as brenhas deixam.
  174. Mas no ardido ginete o moço Ascânio
  175. Dos vales folga em meio; e aqueles passa,
  176. Estes pretere, e anela que um javardo
  177. Surda espumante dentre o bando inerte,
  178. Ou que fulvo leão da serra desça.
  179. Entra a embrulhar-se o céu múrmuro e rouco:
  180. De envolta cai saraiva e grossa chuva;
  181. E a tíria comitiva e os jovens teucros,
  182. Do medo atropelados, e o dardânio
  183. De Vênus neto, agreste abrigo esparsos
  184. Buscam: ribeiras das montanhas ruem.
  185. Vão-se à mesma caverna Dido e Enéias;
  186. Telus sinal deu logo e Juno prônuba:
  187. Corisca, e o éter sabedor das bodas
  188. Fulge, e no cimo as ninfas ulularam.
  189. Este o dia letal, dos males causa:
  190. Reputação, decoro, nada a move;
  191. Nem mais Dido medita amor furtivo;
  192. Chama-o consórcio, e o nome é véu da culpa.
  193. Já corre a Fama as líbicas cidades;
  194. Nem há contágio mais veloz que a Fama.
  195. Móbil vigora, e força adquire andando:
  196. Tímida e fraca, eis se remonta às auras;
  197. No chão caminha, e a fronte enubla e esconde.
  198. Da ira dos deuses Terra mãe picada,
  199. Póstuma a Celo e Encélado, é constante,
  200. De pés leve engendrou-a e de asas lestes:
  201. Horrendo monstro ingente, que, oh prodígio!
  202. No corpo quantas plumas tem, com tantos
  203. Olhos por baixo vela, tantas línguas,
  204. Tantas bocas lhe soam, tende e alerta
  205. Ouvidos tantos. Pelo céu de noite
  206. Revoa, e ruge na terrena sombra,
  207. Nem os lumes declina ao meigo sono:
  208. De dia, em celsa torre ou sumo alcáçar,
  209. Sentada espia e as capitais aterra;
  210. Do falso e ruim tenaz, do vero núncia.
  211. Vária e palreira então com gáudio os povos
  212. Aturde, e o feito e por fazer pregoa:
  213. Que o varão teucro é vindo, ao qual dignava
  214. Juntar-se a bela Dido; e, longo o inverno,
  215. Em braços da volúpia, em luxo torpe
  216. Se acalentando, os reinos esqueciam.
  217. Isto de boca em boca a feia deusa
  218. Difunde, e o curso para Iarbas torce;
  219. Brada, inflama-lhe o peito, iras cumula.
  220. De Amon filho e da rapta Garamante
  221. Ninfa, em amplo domínio ao pai cem bravos
  222. Templos, cem aras pôs; e um fogo eterno
  223. Sagrou, dos deuses vivas sentinelas;
  224. E o solo pingue do cruor das reses,
  225. E em mil festões florentes liminares.
  226. Fora de si, da nova amarga aceso,
  227. É voz que aos céus humilde alçara as palmas:
  228. “Soberano, a quem brinda a maura gente,
  229. Banqueteada em marchetados leitos,
  230. Reparas nisto, ó padre? ou com torcidos
  231. Raios, cegos fuzis, trovões ruidosos,
  232. Por demais nos assustas e apavoras?
  233. Mulher que merca, errante em nossa extrema,
  234. Para exígua cidade um chão foreiro
  235. E ara uma praia, as bodas repulsou-nos,
  236. No reino admite por senhor a Enéias!
  237. E esse Páris, guiando uns semíviros,
  238. Guedelha mádida em meônia mitra
  239. Sob o mento enlaçada, o rapto logra:
  240. Templos encher-te, fomentar nos baste
  241. Estéril nome!” — Assim queixoso, e às aras
  242. Pegado, ouvido foi do Onipotente;
  243. Que os olhos volve à corte em que os amantes
  244. A fama esquecem: “Vai, Mercúrio, invoca
  245. Os zéfiros, nas penas te desliza,
  246. Filho; e a Birsa, onde aguarda em ócio Enéias,
  247. Sem respeito às muralhas concedidas,
  248. Sobre as asas do vento este recado
  249. Leva-lhe. Tal a genetriz formosa
  250. Não no-lo prometeu, nem duas vezes
  251. Para isso o vindicou das armas gregas;
  252. Antes seria quem regesse a Itália
  253. De impérios grávida e a bramir por guerras,
  254. Quem, propagando o altivo sangue teucro,
  255. Avassalasse o orbe. Honra tamanha
  256. Se o não incende, nem se afana e lida
  257. No alcance do louvor; é pai de Ascânio
  258. E lhe inveja as romanas fortalezas?
  259. Que faz? que espera entre inimiga gente?
  260. Nem lhe importa Lavino e a prole ausônia?...
  261. Navegue: em suma, esta a messagem; parte.”
  262. À voz do excelso pai se inclina e apresta:
  263. Calça os áureos talares com que adeja
  264. Sublime sobre as terras, sobre os mares,
  265. Como rápido sopro. A vara empunha,
  266. Com que as pálidas almas do Orco evoca,
  267. No Tártaro sombrio, outras afunda,
  268. Tira e dá sonos, e da morte o selo
  269. Nas pálpebras imprime. Afoito as brisas
  270. Com ela parte, e os nevoeiros trana.
  271. E já no surto avista o pino e encostas
  272. Árduas de Atlante duro, que em seu tope
  273. Agüenta o firmamento; o velho Atlante
  274. Que de assíduos bulcões tolda a cabeça
  275. Pinífera, açoitado de aguaceiros
  276. E vendavais: de infusa neve a espádua
  277. Forra, do queixo precipita rios,
  278. E em caramelo enrija hórrida barba.
  279. Mercúrio, equilibrando-se nas asas,
  280. Paira; de chofre atira o corpo às ondas:
  281. Qual gaivota que, as praias e piscosos
  282. Cachopos rodeando, humilde aleia
  283. À flor das águas; entre o céu e a terra
  284. Cilênio, ao longo da arenosa costa,
  285. Do avô desce materno e os ares sulca.
  286. Assim que a planta alada os palhais toca,
  287. A fundar casas, torreões, castelos,
  288. Descobre Enéias, cuja espada o fulvo
  289. Jaspe estrelava, e aos ombros a descuido
  290. A capa em tírio múrice lhe ardia,
  291. Lavor das próprias mãos da rica Dido,
  292. De áurea tela a mais fina entrelaçado:
  293. “Que! lanças de Cartago os alicerces
  294. E lindos muros maridoso traças?
  295. Teu reino, ah! tudo esqueces! O alto nume,
  296. Cujo acenar abala o Olimpo e o mundo,
  297. Veloz do claro pólo a ti me envia:
  298. Que meditas? na Líbia com que intuito
  299. Gastas esse vagar? Se não te excita
  300. Glória tanta, nem lidas e te afanas
  301. Trás o louvor, no teu herdeiro atenta,
  302. No pululante esperançoso Iulo,
  303. De Itália ao cetro e a Roma destinado.”
  304. Nem acaba o Cilênio, e os mortais visos,
  305. Depondo, em fumo se esvaece tênue.
  306. Deste aspecto hirta a coma, a língua presa,
  307. Do aviso e mando sumo o herói pasmado,
  308. Ir-se e largar anseia as doces margens.
  309. Ai! que ousará? frenética a rainha,
  310. Com que ambages dispô-la, com que exórdios?
  311. Aqui e ali, por tudo a mente versa;
  312. Muda, varia, alterna, enfim resolve.
  313. Cloanto convocou, Mnesteu, Sergesto;
  314. Que, à surda aparelhando e a marinhagem
  315. À frota recolhendo, aprontem armas,
  316. Da novidade a causa dissimulem:
  317. Que ele, como romper-se amor tamanho
  318. A boníssima Dido não receie,
  319. De conversá-la o ensejo tentaria,
  320. A senda mais suave e o melhor jeito.
  321. Todos com alvoroço as ordens cumprem.
  322. Mas a rainha os dolos (quem a amante
  323. Pode enganar!) pressente, e o que se urdia
  324. Primeiro aventa, e o mais seguro teme.
  325. Ímpia a Fama a exaspera, e lhe delata
  326. Que a vogar se arma a frota. Urra, chameja,
  327. Debaca pelas praças, pelas ruas:
  328. Qual Tias quando, ao sacudir dos vultos
  329. E tirsos incitada, evoé bramindo,
  330. Trietéricas orgias a estimulam,
  331. E o Citeron noturno a invoca a brados.
  332. Topa a Enéias por fim: “Pérfido, exclama,
  333. Poder inda encobrir tão feio embuste
  334. E te escoar do meu país contavas?
  335. Nosso amor, a fé dada não te embarga,
  336. Nem de Elisa a funesta morte crua?
  337. E até na hiberna quadra as naus fabricas,
  338. E na força dos áquilos te apressas
  339. A emarar-te, cruel? Que! se não fosses
  340. A estranho solo e clima, Tróia antiga
  341. Se em pé tivesses, pelas crespas vagas
  342. Navegaras a Tróia?... A mim me foges?
  343. Por este pranto meu, por essa destra
  344. (Pois nada já me reservei mesquinha),
  345. Por nosso matrimônio, pelas núpcias
  346. Encetadas, se um’hora te fui doce
  347. Ou bem te mereci, doa-te a minha
  348. Casa em ruína; e, se é que as preces valem,
  349. Despe tal pensamento, eu to suplico.
  350. Por ti me odeiam nômades tiranos,
  351. E a Líbia inteira, infensos os meus Tírios;
  352. Por ti mesmo extinguiu-se o pejo, e aquela
  353. Fama que dantes me elevava aos astros.
  354. Moribunda em que mãos me desamparas,
  355. Hóspede?... Este só nome à esposa resta.
  356. Que mais me falta? que os fraternos muros
  357. Pigmalião me tale? que à Getúlia
  358. Seu rei me leve escrava? Antes da fuga,
  359. Se de ti concebera, se em meus paços
  360. Pequenino outro Enéias, cópia tua,
  361. Me brincasse, eu de todo escarnecida
  362. Nem em tanto abandono me julgara.”
  363. Disse. Ele, imota a vista e a mente em Jove,
  364. Sopeia a dor a custo, enfim responde:
  365. “Eu nunca negarei favores tantos,
  366. E outros que enumerar, senhora, podes;
  367. Nem de Elisa a lembrança há de enfadar-me,
  368. Enquanto eu mesmo for de mim lembrado,
  369. E est’alma o corpo reja. A escusa é breve.
  370. Nem a furto ausentar-me, tal não penses,
  371. Cuidei; nem pretendi jamais as tedas,
  372. Ou vim nunca em firmar esta aliança.
  373. Se a meu gosto compor se me outorgasse
  374. Da vida o curso, preferira em Tróia
  375. As dos meus cultivar doces relíquias;
  376. Refizera de Príamo os palácios,
  377. Reconstruíra Pérgamo aos vencidos.
  378. Mas Grineu Febo a Itália, a Itália agora
  379. As sortes lícias demandar me ordenam:
  380. Este o amor, esta a pátria. As líbias torres
  381. De Cartago se a ti Fenisa prendem,
  382. Na Ausônia estranhas que os Troianos fundem?
  383. Novos reinos é lícito habitarmos.
  384. A mim do padre Anquises, quantas vezes
  385. De úmida sombra a noite enluta o globo,
  386. Quantas surgem igníferos luzeiros,
  387. Insta em sonhos, me aterra a torva imagem;
  388. Turba-me o tenro Ascânio, o vitupério
  389. De cabeça tão cara, a quem defraudo
  390. Do hespérico domínio e fatais campos.
  391. Inda há pouco, da parte do Tonante
  392. O intérprete divino (ambos atesto)
  393. Frechando as auras trouxe-me recados:
  394. Às claras eu vi mesmo entrando os muros
  395. O deus, bebi-lhe a voz nestes ouvidos.
  396. De inflamar cessa a mágoa tua e minha:
  397. Não espontâneo para Itália sigo.”
  398. Enquanto ele discorre, aversa o encara;
  399. Tácitos lumes volve, e o mede e estronda:
  400. “Nem mãe deusa, nem Dárdano hás por tronco;
  401. Gerou-te o Cáucaso em penhascos duros,
  402. Traidor! mamaste nas hircanas tigres.
  403. Que dissimulo? a que desdém me guardo?
  404. Deu-me ao pranto uma lágrima, um suspiro?
  405. Da amante se doeu? dignou-se olhar-me?
  406. Que afronta é mais pungente?... Ah! que até Juno
  407. Nem Satúrnio isto vê com retos olhos.
  408. Fé segura não há. Náufrago e pobre
  409. O recolhi, demente o pus no trono,
  410. Do estrago as naus remi, da morte os sócios.
  411. Ai! que incendida as fúrias me arrebatam!
  412. Ora agoureiro Apolo ou sortes lícias,
  413. Ora expedido o intérprete de Jove
  414. Traz pelas auras hórridos mandados.
  415. Dos supremos que emprego! uma tal ânsia
  416. Quebra o seu repousar. Nem te detenho,
  417. Nem te refuto. Para Itália segue,
  418. Sim, busca impérios pelas bravas ondas.
  419. Se os numes valem pios, certo espero
  420. Que entre escolhos suplícios mil devores,
  421. E invoques amiúde o nome Dido.
  422. Com negro facho ao longe hei de acercar-te;
  423. E, quando a morte fria aos órgãos solva
  424. O almo alento, ser-te-ei contínua sombra;
  425. Terás o pago, hei de, perverso, ouvi-lo,
  426. A nova há de baixar-me ao centro escuro.”
  427. Nisto, corta-lhe a prática, à luz foge,
  428. Some-se aflita, e o deixa embaraçado,
  429. Muito dizer querendo e receando.
  430. Levam-na em braços à marmórea alcova,
  431. E a deitam nos coxins desfalecida.
  432. Bem que deseje mitigá-la Enéias
  433. E remover-lhe as penas compassivo,
  434. Solto em ais, do amor grande combalido,
  435. Cumpre as ordens contudo, as naus revista.
  436. Afervoram-se os Teucros, desencalham
  437. Celsos baixéis; crenado o casco nada;
  438. Frondentes remos trazem, toscos robles,
  439. No afogo de abalar. De muda os viras,
  440. Da cidade em torrentes borbotando.
  441. Em tulha assim de farro dão formigas
  442. E em casa o põem, do inverno precatadas;
  443. Campeia o negro exército, entre as ervas
  444. Por trilha estreita acarretando a presa:
  445. Parte ombros mete e grossos grãos empurra;
  446. Parte urge os pelotões, pune as ronceiras:
  447. Da pressa e afã toda a vereda ferve.
  448. Ao contemplá-lo, que sentias, Dido?
  449. Quais teus gemidos, de cimeira torre
  450. Das praias enxergando o borborinho
  451. E antolhando com grita o mar fundir-se?
  452. Os mortais, fero amor, a quanto obrigas!
  453. De novo ao rogo, às lágrimas recorre,
  454. Do amor se humilha ao jugo; por que ao menos
  455. Por tentar nada fique antes que expire.
  456. “Ana, eis revolto o litoral; de roda
  457. Concorre a chusma; o brim convida as auras,
  458. E as popas já coroa o alegre nauta.
  459. Se eu esperasse, irmã, sofrera o golpe.
  460. Ana, um serviço: o ingrato, que te estima,
  461. Só contigo se abria, só conheces
  462. O modo e ensejo de amolgar esse homem;
  463. Ao soberbo inimigo vai, suplica,
  464. Por mim lhe fala, irmã: que eu nunca aos Danaos
  465. Em Aulíde jurei de Tróia o excídio,
  466. Nem contra Pérgamo esquipei navios,
  467. Nem os ossos cavei do padre Anquises;
  468. Por que duro a escutar-me se recusa?
  469. De tropel onde corre? À triste amante
  470. Renda um favor: monção aguarde e fuja.
  471. O traído himeneu já não requeiro;
  472. Nem do reino desista e pulcro Lácio.
  473. Curto espaço ao furor, vã trégua peço,
  474. Té que a sorte me vença e à dor me aveze.
  475. Da irmã tem pena, esta mercê me obtenhas;
  476. Ser-lhe-á paga sobeja a morte minha.”
  477. Tais lamentos, misérrima, tais preces
  478. Ana leva e releva; ele inconcusso
  479. Razões nem choro admite: os fados obstam,
  480. Um deus lhe obstrui os plácidos ouvidos.
  481. Se, de anos rijo o válido carvalho,
  482. Daqui dali soprando alpinos bóreas,
  483. Extirpá-lo porfiam, berram, silvam,
  484. E, do tronco as entranhas sacudidas,
  485. Juncam o solo as folhas; aos rochedos
  486. Ele se agarra, e quanto com seu pico
  487. Penetra o etéreo céu, tanto profunda
  488. No Tártaro a raiz: não de outro modo
  489. Assíduas vozes mil o herói combatem,
  490. E a grande alma suspira; a mente imóvel
  491. Persiste, e rodam lágrimas baldias.
  492. Dos fados treme Dido e a morte exora;
  493. Da azul abóbada aborrece o aspecto.
  494. Na tenção mais se afinca e a luz detesta,
  495. Quando o leite (que horror!) nos sacros vasos
  496. Vê negrejar, e os derramados vinhos
  497. Irem-se convertendo em sangue impuro.
  498. Tal visão cala, nem da irmã confia.
  499. Ao defunto Siqueu nos paços houve
  500. Marmóreo templo, em que ela se esmerava,
  501. De velos níveos e festões ornado.
  502. Ali, tanto que a noite obumbra as terras,
  503. Crê perceber queixumes e o marido
  504. Mesto chamá-la, e solitário bufo
  505. Nas grimpas feral verso estar carpindo
  506. E com tristura em flébil tom piando:
  507. Cem velhas predições a atemorizam.
  508. Enfurecida, o mesmo fero Enéias
  509. Em sonhos a perturba, e se imagina
  510. Sempre sozinha, ao desamparo sempre,
  511. Ir por veigas extensas, por desertos,
  512. Em busca dos seus Tírios. Tal, demente,
  513. Penteu figura batalhões de Eumênides,
  514. Gêmeo o Sol, duas Tebas: tal, nas cenas,
  515. Da mãe foge aos brandões e às negras serpes
  516. Vexado o Agamenônio, e as flagelantes
  517. Erinies topa ao limiar sentadas.
  518. Mal que à dor cede e, as fúrias concebendo,
  519. Morrer decreta, e como e o quando elege;
  520. E a triste Ana acorrendo, com disfarce,
  521. De serena esperança a fronte ameiga:
  522. “Os parabéns, irmã, que achei maneira
  523. De atraí-lo ou soltar-me desse ingrato.
  524. Nos confins do Oceano, para o ocaso,
  525. Um lugar derradeiro há na Etiópia,
  526. Onde o máximo Atlante ao ombro o ardente
  527. Eixo estrelado vira. Entre os Massilos
  528. Dali sacerdotisa me inculcaram
  529. Do templo das Hespérides, que os sacros
  530. Ramos guardando n’árvore, a comida
  531. Ao dragão ministrava, untada em suco
  532. De mel e dormideiras. Com seus carmes
  533. Solver, gerar paixões; rios promete,
  534. Astros atrás tornar, e infernos manes
  535. Revocar: sob os pés mugindo a terra,
  536. Verás descerem da montanha os ornos.
  537. Pelo céu, cara irmã, por vida tua,
  538. Juro que invita à mágica recorro.
  539. Tu lá dentro ergue ao ar secreta pira,
  540. E a roupa e as armas sobrepõe desse homem,
  541. Que ímpio as deixou na câmara pregadas,
  542. E o toro em que eu perdi-me: do malvado,
  543. A maga o ordena, apaguem-se as memórias.”
  544. Cala e tingiu-se de palor. Contudo
  545. Que os funerais no sacrifício encubra
  546. Nem Ana o crê, nem tal furor suspeita,
  547. Ou nada mais sinistro que na morte
  548. De Siqueu teme: tudo enfim prepara.
  549. Ao ar, com achas de azinheira e pinho,
  550. Num claustro escuro ereta ingente pira,
  551. Colgado de capelas, a rainha
  552. De rama fúnebre o lugar coroa;
  553. Não do futuro ignara, sobre o leito
  554. Coloca a teucra espada, a roupa, a efígie.
  555. De altares cerca-se, e em cabelo a saga
  556. Toa a invocar trezentas divindades,
  557. O Érebo, o Caos, e a trina Hécate virgem,
  558. Tergêmina Diana. Ali despeja
  559. Simulado licor da fonte Averna;
  560. Segadas ao luar com foice aênea,
  561. O leite espreme de pubentes ervas,
  562. Veneno tétrico; extraído ajunta
  563. O amor da fronte de nascente poldro
  564. E subtraído à mãe. Frouxa a petrina,
  565. Mola nas pias mãos, de um pé descalça,
  566. Dido, entre as aras morredoura, os deuses
  567. Atesta e os astros, do seu fado cônscios;
  568. E, se há nume que amantes patrocine,
  569. Da ingratidão vingança lhe depreca.
  570. Era noite, e em sossego os lassos corpos
  571. Descansam: dorme a selva, o mar sanhudo;
  572. Em meio giro os astros escorregam;
  573. Todo o campo emudece; as alimárias
  574. E as aves de cores mil, quanto povoa
  575. Líquidos lagos, ásperas charnecas,
  576. No silêncio noturno os seus trabalhos
  577. Adormentando, a pena aliviavam.
  578. Só nos olhos ou peito a insone Tíria
  579. Não colhe a noite: as aflições lhe brotam;
  580. Surgindo e ressurgindo o amor braveja,
  581. Num fervedouro de iras flutuando,
  582. E a mente em si volteia: “Que! zombada,
  583. Requestando os primeiros pretendentes,
  584. Hei de em Numídia mendigar consórcios
  585. Tão rejeitados? ou partir na frota,
  586. Conforme às teucras derradeiras ordens?
  587. Gratos ao benefício, oh! quão lembrados
  588. Dos meus favores são! E há, quando eu queira,
  589. Quem mo consinta, ou nos soberbos lenhos
  590. Execrada me aceite? Nem tu sabes,
  591. Nem inda sentes, mísera, os perjúrios
  592. Da raça laomedôncia? E então! sozinha
  593. Irei atrás de aventureiros nautas,
  594. Ou com todo o poder dos meus Sidônios?
  595. E os que arranquei de Tiro, hei de arriscá-los
  596. De novo, e dar as velas?... Antes morre,
  597. Que o mereces; com ferro a dor atalha.
  598. Tu por meu pranto, irmã, tu me agravaste
  599. O furor e ao tirano me expuseste.
  600. Não pudera eu viver de crime isenta,
  601. Como fera, solteira e sem martírios?
  602. Fementida a Siqueu manchei as cinzas.”
  603. Tais do seu peito as queixas rebentavam.
  604. Já, tudo a ponto, certo de ir Enéias
  605. Adormecia a ré. Torna-lhe em sonhos
  606. E o repreende a visão: Mercúrio é toda
  607. Em vulto, em cor, em voz, na loura coma,
  608. No talhe esbelto e juvenil meneio.
  609. “Como! filho da deusa, em tal perigo
  610. No sono pegas? nem, demente! enxergas
  611. O que há de roda? os zéfiros suaves
  612. Não ouves respirar? Perecedoura,
  613. Ela enganos rumina e atroz maldade,
  614. E num fluxo e refluxo irosa ondeia.
  615. Podes inda, e o fugir não precipitas?
  616. Com madeiros verás turbar-se o pego,
  617. Tochas luzir, ferver em fogo as praias,
  618. Se a aurora aqui te apanha. Eia, a tardança
  619. Rompe: é sempre a mulher vária e mudável.“
  620. E assim na treva se envolveu da noite.
  621. Espavorido acorda: “Acima, alerta,
  622. Brada o herói; panos fora, gente aos remos:
  623. Insta comigo o mensageiro etéreo
  624. A que abale no instante e pique amarras.
  625. Nós, santo deus, quem sejas, te seguimos,
  626. E ovantes outra vez te obedecemos.
  627. Oh! sê propício e plácido, e nos tragas
  628. Faustas estrelas.” Disse, e da bainha
  629. Saca o fulmíneo gume e os cabos talha.
  630. Tudo arde, à faina acode; as bordas largam:
  631. De naus coalha-se o pélago; estribados,
  632. Varrendo a azul campina, a espuma enrolam.
  633. Já, de Titon deixando a crócea cama,
  634. A Aurora de luz nova alaga o mundo:
  635. Mal Dido alvorecer e arfar em cheio
  636. Viu da atalaia a frota, e a praia e os portos
  637. Nus da chusma sentiu, quatro e mais vezes
  638. Lacera o belo peito e os áureos fios
  639. Arrepela: “Ó deus sumo! há de um estranho
  640. Ir-se do nosso reino escarnecendo?
  641. Meu povo armas não toma, e o corre e os vasos
  642. Dos arsenais despede?... Já, de pronto,
  643. Brandi fachos, dai velas, forçai remos.
  644. Que profiro? onde estou? desvairo insana?
  645. Ai! Dido, hoje em ti pesa a mão do fado!
  646. Quando entregaste o cetro, é que era tempo.
  647. Que fé, que destra aquela! E é quem se afirma
  648. Que da pátria os penates conduzira,
  649. Que o pai caduco aos ombros carregara?
  650. E empolgá-lo não pude, esquartejá-lo,
  651. Pelo mar desparzi-lo, os seus à espada
  652. Passar, e o mesmo Ascânio, e por comida
  653. Pô-lo à paterna mesa? Mas do prélio
  654. Fora a fortuna duvidosa... Fosse:
  655. Vou morrer; qual o medo? Às naus, de assalto,
  656. De fogo enchera o bojo; com tal raça
  657. Pai e filho extinguira, e a mim com eles.
  658. Sol, que lustras o globo e tudo aclaras;
  659. Juno, intérprete e cônscia destas penas;
  660. Pelas cidades em noturnos trívios
  661. Tu Hécate ululada, ultrices Fúrias,
  662. Ouvi-me, ó deuses da expirante Elisa,
  663. Vosso nume volvei contra os perversos,
  664. E atendei nossos rogos. Se é fadado
  665. E quer Jove que o monstro, em fixo termo,
  666. Poje em terra, audaz povo o ataque e avexe;
  667. E errante, foragido, arrebatado
  668. Dos abraços de Iulo, auxílio implore,
  669. Veja dos seus os funerais indignos;
  670. Ou, curvo à iníqua paz, não goze o reino
  671. E apetecida luz; mas ante tempo
  672. Caia, e insepulto sobre a areia jaza:
  673. Com meu sangue esta praga última verto.
  674. Tírios! vosso rancor lhe acosse a estirpe,
  675. De oferta à cinza minha: aliança os povos
  676. Nunca irmane. Dos ossos tu me nasces,
  677. Tais colonos persegue a fogo e ferro,
  678. Ó vingador: já, logo, em todo o sempre
  679. Que haja forças, com praias travem praias,
  680. Ondas com ondas guerras, armas com armas;
  681. Com seus netos, impreco, os meus pelejem.”
  682. Por tudo o ânimo versa, e a teia odiosa
  683. Traça em breve troncar. A Barce fala,
  684. Do bom Siqueu nutriz, que em pó na antiga
  685. Pátria a sua ficou: “Nutriz querida,
  686. Chama cá minha irmã; que asperja o corpo
  687. Com água fluvial; não tarde, e as reses
  688. Venham com ela e as purgações prescritas:
  689. E tu com pia fita as fontes venda.
  690. Os que encetei solenes sacrifícios
  691. A Jove Estígio concluir tenciono,
  692. Findar meus males e entregar à pira
  693. A imagem do infiel.” Termina; a serva
  694. Com senil zelo acelerava o passo.
  695. Trépida e em fera empresa encarniçada,
  696. Vibrando olhos sangüíneos, e às trementes
  697. Faces de nódoas salpicada, o interno
  698. Claustro penetra, pálida a rainha
  699. Já da futura morte, e furibunda
  700. Sobe à fogueira, o tróico ferro despe,
  701. Não para tal crueza reservado.
  702. No ilíaco despojo e nota cama
  703. Depois que atenta, em lágrimas, cuidosa,
  704. Um pouco está suspensa, e reclinada
  705. Finais vozes repete: “Ó doces prendas,
  706. Quando o queira um deus e o fado, est’alma
  707. Recebei, libertai-me de pesares.
  708. Vivi, perfiz o destinado curso:
  709. Grande irá minha sombra agora ao Orco.
  710. Fundei clara cidade, eu vi meus muros;
  711. No truculento irmão vinguei o esposo.
  712. Feliz, ah! mui feliz, se as quilhas teucras
  713. Aqui nunca abordassem!” Disse, e o rosto
  714. No leito impresso: “inulta morreremos?...
  715. Pois morramos, sussurra; assim aos manes,
  716. Assim desço contente. O cru Dardânio
  717. Do mar embeba os olhos nestas chamas,
  718. E estes mortais agouros o acompanhem.”
  719. Não acabava; e sobre o estoque as damas
  720. A vêem cair, de sangue as mãos tingidas
  721. E a lâmina espumando. O clamor altos
  722. Átrios atroa; às tontas corre a Fama
  723. De cabo a cabo; com soluços, gritos,
  724. Com femíneo ululado os tetos fremem;
  725. Todo o ar retumba do alarido e pranto:
  726. Qual, de hostil assaltada, se em ruínas
  727. Cartago, ou Tiro antiga ardesse em alas
  728. Furentes, ateadas nas dos homens,
  729. Nas cumieiras dos deuses. Aturdida,
  730. A irmã convulsa, exânime, açodada,
  731. Carpe-se, afeia o rosto, os peitos fere,
  732. Rompe o tropel, à moribunda exclama:
  733. “Irmã, tu me iludias? Que! foi isto
  734. Que aras, tochas, fogueiras me aprestavam?
  735. Qual mais dói? o abandono, o desprezares
  736. Por sócia a irmã? Teus fados repartisses;
  737. Uma hora, um ferro, uma ânsia nos tragasse.
  738. Armei-te a pira eu mesma, e os deuses pátrios
  739. Invoquei, para assim, cruel, jazeres
  740. Na minha ausência? A mim e a ti mataste,
  741. E o povo e os padres e a cidade tua.
  742. Dai-me água, eu lave o golpe; e nos seus lábios,
  743. Se alento algum vagueia, os meus o colham.”
  744. Não mais, e os degraus salva; ao colo aperta,
  745. Beija a irmã semiviva; entre ais enxuga
  746. Na touca o tetro sangue. Os olhos graves
  747. Quis ela alçar, desmaia: a chaga dentro
  748. Range a golfar. Três vezes, arrimada
  749. Ao cotovelo foi-se erguer, três vezes
  750. Rolou no toro; e, baça a vista errante,
  751. A luz no céu procura, e achando-a geme.
  752. A onipotente Juno da agonia
  753. E angústia longa então comiserada,
  754. Do Olimpo Íris despacha, que a luctante
  755. Alma desate dos liados membros:
  756. Pois nem de merecida ou fatal morte,
  757. Mas súbito imatura, ah! perecia
  758. De ira acesa; tirado a flava coma
  759. Não lhe tinha Prosérpina, e a cabeça
  760. À Estige condenado. Em cróceas penas,
  761. Cambiando cores mil do Sol oposto,
  762. Róscida a núncia vem parar sobre ela:
  763. “O tributo a Plutão mandada levo;
  764. Do corpo eu to desligo.” Disse, e o corta:
  765. Foi-se o calor e evaporou-se a vida.

Sobre este livro · 5 notas

Comentário
Este livro é dos mais gabados, porque pinta o amor; paixão que forma o principal assunto dos romances e poesias modernas: o hábito advoga pelo poeta, sendo contudo a causa de algumas injustiças. Nos demais livros consegui exprimir o autor em menos versos que no quarto; porque as paixões ternas são mais expansivas, os vocábulos portugueses em tais matérias contêm mais sílabas; nem quis expor-me ao perigo do brevis esse laboro obscurus fio: em 765 é que pude verter os 705 versos do original, quando em poucos mais ou ainda em menos, efeito da energia e precisão do português, obtive a tradução dos outros, sobretudo dos últimos, que o escritor das Geórgicas não teve tempo de emendar, e oferecem algumas redundâncias que é mister cercear. Ocasião tive de verificar o que asseverava Manuel Severim de Faria: “Esta brevidade, graça e decoro, se vêm praticadas nas comédias de Francisco de Sá e de Antonio Ferreira, e em algumas de Jorge Ferreira.... E quanto às traduções claramente se mostra, assim nas de verso que fizeram Antonio Ferreira e Luiz de Camões, como nas de prosa do bispo D. Antonio Pinheiro e outros, que a língua portuguesa, se não é mais breve que a latina, ao menos não é mais larga.”
Comentário
Permita-se-me agora terminar as observações a este livro IV mostrando a injustiça de Delille para com Luiz de Camões. Delille, cujas reflexões acerca desta parte da Eneida são as mais justas e recomendáveis, conclui a sua análise pelos poetas que têm imitado o romano, e diz assim: “Todos os épicos julgaram dever consagrar um dos seus cantos ao amor: Camões faz também desembarcar os Portugueses em uma ilha, onde as Nereidas inflamadas por Vênus e Cupido, de concerto com o Padre-Eterno, se esforçam por demorá-los. Independente da mistura monstruosa das divindades do paganismo com a religião cristã, este episódio se descreve com tão pouca circunspecção, que a ilha encantada dos Lusíadas muito mais se assemelha a um alcouce que a uma residência de deuses. Comparar iguais produções às de Virgílio fora ultrajá-lo.” — Delille não leu a Camões, como acontece à maioria dos Franceses que de Camões falam; os quais, logo que se trata do Homero português, clamam: “Como é belo o episódio de Inês! E o do gigante Adamastor!! Assim não tivesse o poeta confundido o paganismo com o cristianismo!” Tudo isto porém não é deles, é apenas o apressado juízo de Voltaire com ênfase repetido. Delille fez mais que ler a Voltaire, leu a péssima e ridícula tradução de La Harpe, e leu-a mesmo sem atenção. — A ilha dos amores não é imitada de Virgílio, é totalmente original; nem pode ser confrontada com o episódio de Dido, por ser matéria hetorogênea. O grande épico imagina que Vênus, a protetora dos Portugueses, fez nascer no meio dos mares uma ilha encantada em que os seus validos repousem das fadigas da viagem, e com auxílio de Cupido inflama as Nereidas; as quais, vencidas dos navegantes, em danças e tangeres, os recebem e alegram, rendidas às suas carícias. A descrição do pomar e jardim, a das ninfas que, estando a banhar-se, se escondem n’água para não lhes aparecerem nuas; a pintura das aves e outros animais, tudo, tudo é primoroso. Se Camões porém neste episódio não imita o seu mestre, com ele se assemelha no estilo, sempre conciso e imaginoso; a harmonia imitativa é tanta e perfeitíssima, estupenda a variedade, a melodia inteiramente virgiliana. Quão poética não é a lembrança de introduzir Tétis, a esposa de Netuno, acolhendo a Vasco da Gama com pompa honesta e régia, e tomando-o pela mão para lhe explicar a rica fábrica do mundo! O descobridor da nova rota das Índias merecia bem estas honras da parte da rainha do oceano. Quão sublime não é o canto da ninfa (a quem, pela voz, Camões chama angélica Sirena, e alguns críticos têm crido ser uma sereia) quando vaticina as façanhas futuras dos Portugueses! Aqui é que o poeta imita a Virgílio no livro VI da Eneida, mas com quanta originalidade! — Ora, comparar tudo isto aos amores de Dido é comparar uma tragédia com um idílio, uma nênia com um hino de alegria. Em vez de recorrer a Voltaire, gênio extraordinário, mas que se enganou lendo os Lusíadas por uma inexata versão inglesa; em vez de recorrer ao pedantesco juízo de La Harpe, e a estas misérias de Delille; em vez de recorrer às inexatidões de Sismondi, o qual confessa não ter lido muitas das obras que se atreve a criticar, todo Francês que ignora o português, se quiser conhecer a Camões razoavelmente, recorra a Mr. Ferdinand Denis, seu autor o mais instruído nas coisas do Brasil e de Portugal, ou também à tradução de Mr. Millié, bem como às notas que lhe vêm anexas: nelas fala-se da ficção da ilha encantada, mostra-se que é uma alegoria desconhecida pelos críticos, e defende-se o autor acerca da mistura do cristianismo com o paganismo. Verdade é que uma ou outra vez algum mau uso faz ele da fábula, defeito que lhe era comum com os contemporâneos, e que se lhe lança em rosto exclusivamente; mas é também verdade, como notou o sagaz engenho de Mme de Staël, que só emprega o maravilhoso do paganismo na pintura dos prazeres, e o do cristianismo nas coisas graves e sérias da vida: o herói Vasco da Gama, por exemplo, nunca se dirige a Mercúrio ou a Júpiter; e para a ficção da ilha dos amores não houve concerto do Padre-Eterno com Vênus e Cupido, como inexatamente o afirma o parafraseador da Eneida. O seu triste juízo a respeito de Camões foi para mim uma ocasião de grande prazer, o de ler mais uma vez o episódio da ilha dos amores. — Se Delille tivesse meditado, e não se contentasse de ostentar a este respeito uma falsa erudição, observaria que, a ser este canto indigno de emparelhar com a poesia de Virgílio, não teria sido o modelo da ilha de Armida. A idéia principal tirou-a Tasso de Camões, a quem tanto amava, e do poeta latino imitou muitos rasgos sensíveis; tecendo porém tudo com tanta arte, e do seu acrescentando belezas tais, que esta parte da Jerusalém, não sendo a ilha do bom Luiz, como ele chama o seu único rival nesses tempos, nem o livro IV de Virgílio, é um dos melhores trechos entre antigos e modernos.
Comentário
Na mesma passagem em que Delille tanto se desmanda, afirma que o palácio encantado, obra do Amor, tão caro a Armida, enquanto é habitado por Reinaldo, e entregue às chamas depois da sua partida, é uma das idéias mais felizes concebida jamais por nenhum poeta épico. — Posto que seja uma digressão, consintam-me refutar esta afirmativa; refutação que redunda em honra da literatura da nossa língua. Francisco de Moraes, no Palmeirim de Inglaterra (em prosa, mas bela composição poética do gênero épico) concebeu o palácio de Leonarda; palácio encantado onde essa princesa, fruto de um amor infeliz, foi encerrada, e que também desapareceu, depois que ela desencantada saiu dali para casar. A imaginação do poeta português não é menos fértil que a do italiano, e a aventura da copa, que precede ao desencantamento, é igual ao melhor de Ariosto. A mais atreveu-se Francisco de Moraes, compôs dois desencantamentos, este que mencionámos, e o da mesma Leonarda pelo cavaleiro do selvagem e por Daliarte do Vale-Escuro; isto com tal invenção, que nos dois desencantamentos não há lance em que um se pareça com o outro. Não é debalde que Cervantes queria uma caixa onde o Palmeirim fosse guardado com as obras do poeta Homero; não é debalde que Walter Scott fala dele com tanto louvor.
Comentário
Quem atentamente examinar o episódio de Camões e o poema de Moraes, autores que escreveram antes do Tasso, verá que este se aproveitou assim de um como do outro, se bem de um modo magistral e com toques originais. O palácio de Armida não é o mesmo que o de Leonarda, mas oferece muitos pontos de contato; e no desencantamento da selva, operado pelo bravo Reinaldo, bem se conhece que não foi inútil a Tasso a leitura de Moraes, assim como a este não o tinha sido a do Orlando furioso. Os poetas aprendem uns dos outros; o que nada obsta ao talento e à força criadora; antes, como diz Mme de Staël, falando de Petrarca e de seus profundos estudos, conhecer muito serve para inventar, e o gênio é tanto mais original, quanto, semelhante às forças eternas, sabe estar presente a todos os séculos.
Comentário
Ao concluir esta refutação, não quero dissimular que na ilha dos amores há quatro ou seis versos condenáveis, por conterem idéias lascivas, se bem exprimidas com palavras decentes; e não é só nesta linda composição que deve ser Camões repreendido por tais descuidos, de que Virgílio nunca lhe deu o exemplo. Esses versos contudo não podem embaciar o esplendor de um episódio que abrange boa parte do canto nono e entra muito pelo décimo, no fim do qual há pensamentos grandiosos, da mais bela poesia e da moral mais sublime.

Nota a nota · 20 notas

v. 55E, em destroço os baixéis, embrusque o tempo.”
A paixão de Dido parece mal a alguns, e diz Mr. Tissot: “Il m’est survenu un scrupule sur le fond des choses: Didon devait-elle être ainsi transformée à nos yeux? Je sais que sa passion a été allumée par le plus puissant des dieux, et qu’elle doit être portée aux dernières extrémités; mais ne fallait-il pas conserver à la vertu quelque respect d’elle-même? Une femme si courageuse, une si grande reine, ne devait-elle pas garder quelque soin de sa gloire!..... Dans Valerius Flaccus, une légère précaution suffit pour éviter un reproche au poëte. Il peint Médée semblable à la Bacchante qui résiste à son premier transport, et s’abandonne ensuite au dieu.” — Quis Virgílio dar uma origem antiquíssima ao ódio entre Roma e Cartago, e imaginou o abandono de Dido por Enéias, derivando esse ódio dos fundadores dos dois estados. Para honra sua, foi a rainha de exemplar virtude, e se ressuscitasse com o poeta romano, deveria tentar um pleito e pedir-lhe a injúria; a nós toca averiguar se, dada a ficção, tirou-se dela todo o proveito: os mais escrupulosos o afirmam, nem mesmo o duvida Mr. Tissot, apesar das suas restrições. Com o que não me acomodo é com o passe a Valério Flacco: se este eximiu-se da culpa, com pintar Medéia ao modo da Bacante que resiste ao primeiro transporte e ao depois se entrega ao deus, então absolva o crítico ao pobre Virgílio; porquanto, antes de se entregar a Enéias, Dido andou insana pela cidade, consultou entranhas de reses, fez sacrifícios e oblações, sem que nada lhe apagasse o amor; e, se o comunicou logo a Ana, só daí a dias, quando já lhe tinha mostrado e quase oferecido a nova cidade, é que se foi descobrindo ao amante: se a paixão andou rápida, não foi sem combates e remorsos. Contra Medéia não se empenhou Cupido, como contra Dido, a rogos da própria Vênus; o que sobra a desculpá-la e a justificar esta parte da ficção. — Quanto à pergunta se não era mister conservar à virtude algum respeito para consigo mesma, respondo que Virgílio não faz da rainha de Cartago uma devassa e vil mulher, sem respeito algum à virtude; fá-la uma triste vítima dos deuses, que no meio das mais pungentes mágoas sucumbe à violência do amor; e é por ser uma grande rainha, tão boa e generosa, que mais nos dói a sua dor, que a sua fraqueza é trágica e tão patética. Tanto ela cuidava na sua glória, que preferiu a morte à vergonha. O ser corajosa e magnânima não obsta, infelizmente, a tornar-se a mulher apaixonada e louca; e, ainda mais infelizmente, as próprias suas boas qualidades não poucas vezes lhe têm sido fatais em matérias de amor. A nobreza mesma do coração de Dido concorreu à sua perda: o estrondo e fama das desgraças de Tróia, que ela já tinha pintadas nas paredes do templo, a vista inopinada do herói na sua corte, a semelhança de ambos em terem emigrado, a esperança que lhe suscitou Ana de aumentar a colônia com o casamento, o desejo natural ao seu sexo de enlaçar o seu nome ao nome de um varão famigerado, o esforço de Vênus e de Cupido, uniu-se tudo enfim para sua afronta e cegueira. As rainhas e senhoras, cujas empresas e feitos têm passado aos vindouros, todas com raras exceções se mostraram filhas de Eva, e muitas o foram sem se matarem. — Mr. de Lamartine (Voyage en Orient, pag. 69; 1835) diz também: “Virgile, comme tous les poëtes qui veulent faire mieux que la vérité, l’histoire et la nature, a bien plutôt gâté qu’embelli l’image de Didon. La Didon historique, veuve de Sychée et fidèle aux mânes de son premier époux, fait dresser son bûcher sur le cap da Carthage, et y monte sublime et volontaire victime d’un amour pur et d’une fidélité, même à la mort! Cela est un peu plus beau, un peu plus saint, un peu plus pathétique, que les froides galanteries que le poëte romais lui prête, avec son ridicule et pieux Enée, et son désespoir amoureux, auquel le lecteur ne peut sympathiser. Mais l’Anna soror et le magnifique adieu, et l’immortelle imprécation qui suivent, feront toujours pardonner à Virgile.” — Quando acabei de ler este julgamento e refleti sobre todas as suas partes, me perguntei se com efeito seria do autor das Meditações, e afinal vim a crê-lo por três razões: uma é que o poeta francês tem deixado correr por sua conta um juízo tão estrambótico; a segunda é que é raríssimo um escritor como Horácio, ao mesmo tempo grande filósofo, grande poeta e grande crítico; a terceira é a época em que apareceu a Viagem ao Oriente, quando havia uma néscia prevenção contra os chamados clássicos, e Mr. de Lamartine quis sacrificar ao ídolo do dia uma vítima pingue. — Que a Dido histórica seja mais santa e respeitável, ninguém o duvida; mas que seja mais bela poeticamente e mais patética, é o que negará quem tiver meditado na natureza humana, quem tiver estudado os poetas, principalmente os trágicos, em cuja alçada entra o patético mais amiúde. “Quando eu nada mais devesse a Eurípides, nos diz Racine, que a idéia do caráter de Fedra, poderia afirmar que lhe devo o que talvez de mais razoável expus no teatro. Não me assombra que este caráter fosse do mais feliz êxito naquele tempo, e que ainda saísse tão bem neste século, pois que tem quantas qualidades requer Aristóteles nos heróis da tragédia, e que são próprias para excitar a compaixão e o terror. Na verdade, Fedra nem é de todo culpada, nem de todo inocente.” — E eis aqui um dos mais sublimes gênios da França, modelo em seu gênero, achando belo e patético o caráter de Fedra, incomparavelmente mais culpada que Dido; a qual, generosa e benéfica e heróica, só contra si pecou e contra seus escrúpulos, mas não caluniou o enteado, concorrendo para a sua morte. O belo poético nem sempre é o belo moral: se o fosse, não seriam suportáveis os melhores trechos do Dante, muitos de Homero, de Sófocles, de Shakespeare, de Corneille, de Voltaire, de Goethe, e de outros engenhos desta primeira plana. — É para notar que Mr. de Lamartine, fazendo esta crítica do ridicule Enée, considere bom unicamente l’Anna soror, le magnifique adieu et l’immortelle imprécation qui suivent. O Anna soror do crítico é difícil de saber ao que se reporta: no começo do livro há um discurso que principia por estas palavras, mas não é seguido de le magnifique adieu, nem de l’immortelle imprécation; e, no caso de referir-se ao que fica antes da imprecação, a qual abrange do verso 590 a 629, então lá não se trata de Anna soror, trata-se da partida de Enéias ao romper do dia. Isto me convence da pressa com que foi feita a crítica, talvez não tendo à mão M. de Lamartine um exemplar da Eneida para refrescar a sua lembrança. Não achar conforme à natureza o andamento dos amores de Dido em Virgílio, é opinião singular do nosso ilustre contemporâneo: Mr. Tissot mesmo, com quantos têm censurado um ou outro lugar do episódio, não se atreve a envolver na censura o episódio inteiro. Santo Agustinho, gênio superior, sendo bem iniciado e experiente em matérias amatórias, com especialidade se deleitava lendo este livro IV. Aqui dou, na tradução de Francisco Manuel, o que dele escreveu o autor dos Martyres, do monumento maior da literatura francesa nestes últimos tempos: “Pelas ribas, Que o vate descantou de imortal fama, Com a Eneida nas mãos ia Agustinho Ao lago Averno, à gruta da Cuméia, A Elísios campos, à Acheronte, à Estige; De Dido acerbos fados ler mormente Folgava sobre a lousa desse engenho, Terno e sublime quando os transes narra Da lastimada mísera rainha.” — Mme de Staël, senhora de finíssimo tato, no seu livro da Literatura, diz: “L’émotion produite par les tragédies de Voltaire est donc plus forte, quoiqu’on admire davantage celles de Racine. Les sentiments, les situations, les caractères que Voltaire nous présente, tiennent de plus près à nos souvenirs. Il importe ao perfectionnement de la morale elle-même que le théâtre nous offre toujours quelques modêles au-dessus de nous; mais l’attendrissement est d’autant plus profond, que l’auteur sait mieux retracer nos propres affections à notre pensée.” Estas reflexões concordam com as de Racine no prefácio da Fedra quanto ao patético, e igualmente mostram que o poeta pode, não digo ir de encontro, mas aperfeiçoar a natureza (permita-se-me a expressão) e modificar a história, ora para criar modelos acima de nós por interesse da moral, ora para comover com a pintura das nossas fraquezas e das nossas afeições. E que! Mr. de Lamartine, quando quer antes ser grande poeta do que mau crítico, não pratica o mesmo que reprova em teoria? Acaso em suas belas páginas segue ele sempre a história, sem nada pôr, sem nada tirar? Acaso escreve só a verdade nua e crua, ou lhe prefere às vezes a verossimilhança, conformando-se ao plano de suas concepções? Se os poetas fossem coartados nesta liberdade, adeus poesia! — Quanto às frias galanterias, direi que em toda esta verdadeira tragédia não há um colóquio amoroso: a primeira vez que há um diálogo entre Enéias e Dido, é quando ela, pressentindo que a frota vai partir, vem acusá-lo de traição, e misturando súplicas e queixas (admirável passagem!) acaba por lhe deitar em rosto os benefícios, e sem lhe admitir as desculpas, o ameaça e foge, caindo nos braços das fâmulas. Serão estas as frias galanterias da rainha de Cartago? — A propósito desta questão, oferecerei o juízo de Ferreira, cuja musa era a razão esclarecida. À vista de um retrato de Dido, em nome dela, tomando o tom do filósofo que reclama o rigor da história, fez o seguinte epigrama: “À mão do pintor devo nova vida. Maro me deve a honra difamada: Nem Dido foi de Enéias conhecida, Nem viu Cartago sua frota errada. Eu mesma me matei, porque sostida Fosse a fé casta a meu Siqueu só dada; Vinguei sua morte, ergui nova cidade. Valha mais que os poetas a verdade.” Esta ótima composição parece provar que o Horácio Lusitano rejeitava esta ficção de Virgílio; porém não: como filósofo, pugnava pela verdade histórica; como poeta, conhecia o proveito que da mesma ficção podia tirar-se, e a seguiu à risca na sua écloga VIII. De ambas as maneiras, patenteou o seu tino e delicadeza em discernir quando cumpre ou invocar a verdade ou ceder aos vôos da imaginação. Mas Ferreira não se contentava só do seu talento, folgava de o temperar com o saber acumulado pela experiência dos antigos, e escrevia depois de longo exame.
↩ voltar ao verso 55
v. 58E desata o pudor. Primeiro correm
O povo caçador, mesmo o pastor, guia-se antes por costumes que por leis; o povo agricultor precisa mais delas: por isso é que Virgílio chama legífera a Ceres ou a agricultura. O adjetivo legislador se aplica propriamente à pessoa ou corporação que faz as leis; legífero significa o que traz leis, isto é o que traz a precisão de as fazer: adotei pois a palavra latina como necessária. Já temos frugífero, alífero, sagitífero, e outros adjetivos deste cunho.
↩ voltar ao verso 58
v. 90–128N’ausência o escuta e o vê n’ausência; ou tendo ⋯ Caçar propõe-se, mal Titã no oriente,
Esta cena entre Juno e Vênus, onde cada uma, sobretudo Juno, dissimula e tenta chamar a outra ao seu partido, caiu debaixo da férula de Mr. Tissot: “Empruntée peut-être d’une riante fiction de l’Iliade, cette scène, peu digne de la gravité épique, n’a ni ce naturel exquis, ni cette grâce naïve, ni ces traits d’imagination, qui donnent du charme à tout dans Homère. L’invention est pauvre et les détails mesquins; le rire malin de Vénus suffit seul pour faire la critique d’une invention convenable tout au plus dans une épopée comique. Junon, el faut l’avouer, se prépare à jouer un rôle assez étrange; Vénus elle-même en est étonnée.” — Antes de tratar do único reparo positivo que há nesta parlanda, cumpre lembrar que tanta não é a autoridade do crítico, nem a sua superioridade sobre Virgílio tamanha, que o dispense de comprovar asserções desta natureza: sob a sua palavra não creio que a invenção seja pobre, nem mesquinhas as particularidades; era mister que isso nos fosse demonstrado. Acerca da positiva censura do riso de Vênus, direi que Virgílio, à imitação de Homero e com mais comedimento, presta aos deuses as paixões humanas; porque eles, segundo a sua fabulosa história, tinham fraquezas, cometiam crimes; e não é muito que o poeta a Vênus atribua um riso maligno, quando percebeu as segundas tenções de Juno: querer julgar das falsas divindades segundo a idéia sublime da perfeição de Deus, é confundir os séculos e as crenças. O que mais cabe notar é a parcialidade em favor de Homero: pôde o bom velho grego dar aos deuses uma risada inextinguível, quando apanharam em flagrante a mesma Vênus e Marte, sem que a cena fosse peu digne de la gravité épique; pôde fazer o sábio Ulisses esbordoar a Térsites, que se assenta choramingando e enxugando as lágrimas, com o inchado vergão nas costas, entre as gargalhadas e vaias dos Argivos; pôde pintar a Juno agarrando os braços de Diana com a esquerda, arrancando-lhe o arco e a aljava, chamando-a cadela atrevida. Quem, a não estar preocupado, negará que tudo isto pertence mais a uma epopéia cômica do que o riso de Vênus? Todavia não condeno a Homero, pois que empresta a seus deuses os costumes dos homens e retrata os homens desses tempos. De mais, não reputo indigno de um poema sério um ou outro gracejo, contanto que se use desta liberdade com discrição: como o fez Camões a respeito de Velloso; como o fizera Virgílio mesmo, no livro V, a respeito do piloto Menetes.
↩ voltar à passagem, v. 90
v. 129–159O orbe arraiando, crástino desponte. ⋯ E o caudal Xanto; e, ao visitar a Delos
Aqui descreve-se a caçada, episódio no episódio principal, com que soube variar o poeta o assunto deste livro. A Delille remeto o leitor, ou antes a Mr. Villenave, que traz boas coisas sobre todo este lugar. O verbo madrugar me parece exprimir fielmente o It jubare exorto. O verso 152 tem a onomatopéia conservada no 170 da versão, e em geral guardei a harmonia imitativa de toda esta porção da Eneida.
↩ voltar à passagem, v. 129
v. 160–164Materna, instaura os coros, pelas aras
Usei do hipérbaton para pintar a confusão dos caçadores, ao fugirem da chuva que obrigou Dido e Enéias a recolher-se à mesma caverna.
↩ voltar à passagem, v. 160
v. 173–188Enovelam na fuga, e as brenhas deixam. ⋯ Fulge, e no cimo as ninfas ulularam.
Eis uma alegoria, cujas imagens parecem exageradas, mas que se baseia na verdade. Gabando alguns a descrição, pensam contudo que o monstro enorme, o qual toca o chão com os pés e oculta a cabeça nas nuvens, não podia sentar-se nas cumieiras dos palácios; mas não advertem que a Fama de Virgílio, posto que gigantesca, segundo convinha à irmã de Celo e de Encelado, é levíssima e como aérea, com a faculdade de aumentar e diminuir, conforme se colhe do verso: Parva metu primo, mox sese attollit in auras. Assim, podia ela estar sentada em cima dos palácios, não obstante a sua grandeza. — Reparem no contraste entre o verso: Revoa e ruge na terrena sombra, e o que segue: Nem os lumes declina ao meigo sono. Isto me foi sugerido pelos versos de Camões: Não em plectro belígero de Marte, Mas em suave e doce melodia; onde há igual harmonia imitativa.
↩ voltar à passagem, v. 173
v. 242–244Pegado, ouvido foi do Onipotente;
Entendo lumina morte resignat como Delille, não como La Rue; que interpreta: ex morte aperit oculos; porque esta virtude da vara de Mercúrio está já exprimida no animas ille evocat Orco.
↩ voltar à passagem, v. 242
v. 249Leva-lhe. Tal a genetriz formosa
Duvida-se que haja pinheiros na África: se os não há em toda, os há no Atlante. Não é pois necessário ler-se penniferum, como insinua Heyne.
↩ voltar ao verso 249
v. 266Com que as pálidas almas do Orco evoca,
Verto uxorius como o eruditíssimo Antonio Ribeiro nas Odes de Horácio, bem que maridoso não venha em dicionários: significa o mulherengo.
↩ voltar ao verso 266
v. 293–294“Que! lanças de Cartago os alicerces
Mr. Villenave não contou com o português, ao asseverar que a expressão do poeta aditus et quae mollissima tempora não podia ser traspassada a nenhuma outra língua: a tradução me parece ter conservado o arrojo do original.
↩ voltar à passagem, v. 293
v. 331–361E o Citeron noturno a invoca a brados. ⋯ Me brincasse, eu de todo escarnecida
Esta resposta é bem censurada; e com efeito fora melhor que o poeta suprimisse os versos onde Enéias afirma que, a não ser o fado, preferiria voltar para a sua pátria: são inexcusáveis, mesmo naqueles tempos em que os heróis tão facilmente sacrificavam as mulheres. Entrando porém no fundo da questão, direi que Enéias obrou mal em se deixar vencer do amor e em se envolver na precisão de abandonar a Dido, mas que em tal caso pior fora ficar-se com ela do que seguir as ordens e querer dos fados: que mau conceito não merecera, a ter imolado à paixão o interesse do filho e de seus compatriotas? O partido que se toma a favor da rainha, é a prova maior da excelência desta insigne tragédia: o poeta quis excitar o mais possível a comiseração para com Dido; e, pelo que toca a Enéias, o seu fim era mostrar o esforço deste por vencer, além de tantos perigos, uma das paixões mais fortes, só para cumprir com o mais imperioso dever. Concedendo eu que Enéias obrou mal, estou longe de conceder que pecou nisso o poeta: pintando a queda do chefe troiano e o triunfo que este obteve de si mesmo, apresentou-nos a um tempo a fraqueza humana e o heroísmo que a supera. Se Enéias sacrificasse a infeliz Dido ao seu interesse individual, como de ordinário fazem os homens desamparando as mulheres crédulas, fora um cruel sem piedade; mas ele não podia pôr de parte o bem dos Troianos e a glória da sua descendência, que em suas mãos tinha depositado o destino.
↩ voltar à passagem, v. 331
v. 362–392Nem em tanto abandono me julgara.” ⋯ O intérprete divino (ambos atesto)
A réplica da rainha e a brusca maneira de cortar as desculpas de Enéias, são lugares em que os rigoristas não têm podido aferrar o dente, são de todo conformes à natureza. Tais lances e afetos, imitou-os Racine, Lefranc de Pompignan, e muitos outros.
↩ voltar à passagem, v. 362
v. 402–407Traidor! mamaste nas hircanas tigres.
“Alguns comentadores, diz Mr. Villenave, têm achado esta bela comparação pouco digna da epopéia; sem atenderem a que na Ilíada Homero tira uma comparação das moscas, e que Apolônio nos Argonautas as tira das moscas e das formigas.” Eu acrescento que não eram precisos tais exemplos para justificar a Virgílio: a comparação dos Troianos, carregando o necessário para a partida, com as formigas ao levarem o sustento para as covas, é da mais perfeita justeza; e o fino gosto de Camões imitou o poeta romano com felicíssimo êxito.
↩ voltar à passagem, v. 402
v. 408–436Fé segura não há. Náufrago e pobre ⋯ Afervoram-se os Teucros, desencalham
Falando do Littora et vacuos sensit sine remige portus, assevera Delille que Virgílio é inferior a Catulo, quando pinta a mágoa de Dido à partida de Enéias, por se contentar de a fazer contemplar da torre a frota que largava as praias; e que então o poeta se dirige à amante abandonada, perguntando-lhe o que sentia naquele momento. Confundiu o tradutor francês a passagem que vai adiante com a presente: é nesta que Virgílio pergunta à rainha o que experimentava, não quando partia a frota, porém antes, quando a chusma acarretava o necessário para a viagem. A pergunta não foi na ocasião da saída; pois Dido ainda mandou a irmã fazer proposições a Enéias, e não tinha chegado ao último apuro a sua desesperação. Mas quando o herói ficou inabalável, Dido, em vez de subir a uma montanha para com os olhos seguir a nau que desaparecia, em vez de desmaiar e enfurecer, em si recolheu toda a sua dor, concebeu o projeto de se matar, e dissimulando o pôs em execução: isto é mais forte e mais terrível do que o fez Ariadna. A preferência dada a Catulo não é portanto justa, bem que por alguns tenha sido abraçada sem exame. O que há em Catulo de melhor que em Virgílio, é a passagem: Omnia muta, Omnia consternata, ostentant omnia mortem, ainda mais bela que o verso: Littoraque et vacuos, etc., que representa a mesma idéia; e também a comparação de Ariadna com a efígie de pedra de uma Bacante: em tudo o mais é Virgílio superior a Catulo, mais terrível e mais patético. — Os dicionários latinos trazem videre com a significação de ouvir, e todos citam a Virgílio, sem dúvida fundados neste lugar: Prospiceres arce ex summa totumque videres Misceri ante oculos tantis clamoribus aequor. Eu penso que o verbo videres não significa ouvir; mas que exprime uma fina observação do poeta. Quando há um ruído que se não ouve bem, feito pela multidão, os movimentos e os gestos, percebidos pela vista, ajudam a ouvir e a distinguir os sons: é isto o que pinta Virgílio, e a minha versão é neste sentido. — Viri do verso 424 é omitido pelos tradutores, sendo contudo essencial; porque Dido com esta palavra exprobra a dureza ordinária dos homens para com as mulheres. — Leio o verso 436: Quam mihi cum dederit, cumulatam morte remittam, referindo cumulatam a veniam, e traduzo o lugar à maneira de Delille e de Mr. Tissot.
↩ voltar à passagem, v. 408
v. 440–449Da cidade em torrentes borbotando.
“Aqui Virgílio, para desculpar a Enéias, não se contenta com dizer que este obedece aos deuses, acrescenta que um deus lhe tapa os ouvidos às preces de Dido. Não se podia melhor pintar aquela virtuosa inflexibilidade, do que pela comparação que se segue, tão insigne pela beleza das imagens como pela harmonia.” Tal é o parecer de Delille; o de Mr. Tissot, em cujas palavras jura Mr. Villenave, é o contrário: “Quem se poderia comparar a um carvalho já velho, é Anquises, não Enéias, no vigor da idade; Enéias, reposto em todo o brilho da mocidade por sua mãe. Aliás, o herói aqui tão pouco de grandeza ostenta, que não merece um paralelo tão ambicioso. Duas mulheres a chorar e a suplicar não se assemelham aos aquilões soltos sobre os Alpes: apenas se poderia sofrer esta imagem, se se tratasse de duas amantes furiosas e desesperadas, como Camila e Hermione... A exageração minuciosa agrava mais a falta do poeta; que a leva ao cúmulo ajuntando que Enéias, exposto a contínuos assaltos, sente uma dor profunda; suposição desmentida no momento por estas palavras: Il reste inébranlable, et seulement quelques larmes inutiles coulent de ses yeux. — A maior parte desta crítica nasce de não ter seu autor meditado no texto. Uma árvore muito nova não tem robustez; é preciso ter chegado (peço vênia) à sua virilidade para chamar-se válida: o válido carvalho de Virgílio não era velho, estava na força dos anos, único sentido da expressão annoso robore; e assim é bem comparado com Enéias, que não estava na primeira mocidade, mas na que se tem nomeado a idade heróica, isto é cerca dos quarenta anos; porquanto, sendo homem feito e casado no começo da guerra que durou dez anos, e tendo-se já passado sete depois do triunfo grego, é evidente que andava pelos seus trinta e seis a trinta e oito. Com Anquises é que fora uma sandice comparar o válido carvalho no vigor da idade; com Anquises, decrépito e paralítico, fugindo carregado por seu filho: o carvalho comparável a Anquises seria um já carcomido, que fosse extirpado pelos aquilões, e não um tão rijo que resistiu aos ventos dos Alpes. Quanto à incongruência de assemelhar Enéias a um carvalho, paralelo que o crítico apelida ambicioso, atrás já refutámos as razões em que se estriba a sentença; e repito que ele obrou mal em se enamorar de Dido com quem não podia casar, mas cumpriu um dever sacrificando a paixão ao interesse do filho e dos seus nacionais, e portou-se briosamente esforçando-se por vencê-la: do contrário, merecera que os Troianos o apedrejassem. — Se o poeta assemelha as preces e argüições de Dido, por intermedio e boca de Ana, aos embates dos furacões dos Alpes, não é por serem de duas mulheres, é pela força que havia nessas preces e argüições; as quais punham patente aos olhos do amante a mágoa da infeliz Dido e o dano que ele fizera com o seu erro e fraqueza. Ora, a força dessas razões é que lhe comovia o coração, é que lhe fazia verter as lágrimas que nada remediavam a dor e desgraça da rainha. Neste ponto Mr. Tissot não fez a diferença que faz o poeta: o que era inabalável foi a resolução de partir, que lhe aconselhava o interesse dos Troianos; mas o coração do herói estava grandemente comovido, segundo se vê do verso: “Multa gemens magnoque animum labefactus amore.” A frase mens immota se refere à razão, à potência intelectiva de Enéias, não à sensibilidade de sua alma. Mr. Tissot é que traduziu incorretamente: Il reste inébranlable; devera dizer: A sua razão, ou a sua mente, ficou imóvel; isto é que, posto fosse profunda a sua mágoa, os esforços da razão o tinham tornado firme e inconcusso, ajudado mesmo por um deus que lhe fechava os ouvidos às palavras de Ana. Ele até quis ver se conciliava o amor com o dever de ir buscar a Itália, e por via de Ana propôs a Dido que se embarcasse e o seguisse, como o demonstra o verso 537 e os seguintes; mas a nobre e generosa rainha, recusando ou deixar os seus ou fazê-los de novo entregar-se aos mares e aos acasos, preferiu a morte. Esta proposta de Enéias, do embarque de Dido, não tem sido atentada pelos críticos e comentadores que conheço.
↩ voltar à passagem, v. 440
v. 450–503Das praias enxergando o borborinho ⋯ Crê perceber queixumes e o marido
La Rue, cujos comentários têm voga nas escolas do Brasil e de Portugal, traz muitos esclarecimentos sobre todos estes versos; e como nada tenho que refutar ou acrescentar, às suas notas remeto o leitor, ou a La Cerda ou a Mr. Villenave, que as trazem curiosas e eruditas.
↩ voltar à passagem, v. 450
v. 518Mal que à dor cede e, as fúrias concebendo,
O in veste recincta tomo no sentido em que Nascimbeno e os antigos o tomaram; não achando suficiente, para enjeitar-se a interpretação comum, a razão de que era preciso colher o vestido a fim de se verem os pés nus; sendo mais forte para mim o que diz o mesmo Nascimbeno, isto é que nihil in sacrificiis non solutum esse oportebat. — Sobre este sacrifício e mágica, descritos neste verso, nos de cima e nos subseqüentes, de novo remeto o leitor aos intérpretes citados; e peço licença para o adjetivo pubentes: convinha conservar a idéia de Virgílio, que assim compara a lanugem das ervas com o buço dos adolescentes.
↩ voltar ao verso 518
v. 555De altares cerca-se, e em cabelo a saga
“Júpiter e o destino, exclama Mr. Villenave, acaso lhe ordenavam esta ultrajante insensibilidade? Aqui nem se vê o homem nem o herói..... Ele dorme tranqüilo em seu navio, até que Mercúrio o desperte.” Devagar, senhor crítico, devagar: o carpebat somnos, colhia o sono, pegara no sono, são expressões que não indicam um dormir pesado, e os sonhos, de que despertou sobressaltado, provam de sobejo que Enéias não dormia tranqüilo. Tinha trabalhado muito nos preparativos da viagem, tinha-se afligido muito com os pesares e queixumes da rainha: fatigado pois de corpo e de espírito, o pegar no sono está bem longe de mostrar nele insensibilidade, antes é um efeito e conseqüência dessa fatiga; o sono em tais casos é caminho que a natureza busca para aliviá-la. Médicos experientes, de saber e de gosto, a cuja autoridade recorri sobre este ponto, me fizeram ver que, depois do cansaço e de tantas aflições, o adormecimento não era indício de dureza; que uma boa parte dos condenados à morte, apesar do terror, não deixam de adormecer, e às vezes profundamente, como aconteceu ao marechal Ney, a quem vieram despertar para o matarem. Virgílio, que a tão variados conhecimentos ajuntava os da medicina, soube o que escrevia e o fez com madureza; e, introduzindo na ação a Mercúrio que por ordem suprema adverte a Enéias do perigo e intima-lhe que parta, o poeta nos deixa entrever que nesse adormecimento, aliás natural, interveio o destino. Tudo portanto é conforme à razão e à natureza, e não merece a menor censura.
↩ voltar ao verso 555
v. 586–629Conforme às teucras derradeiras ordens? ⋯ Saca o fulmíneo gume e os cabos talha.
É aqui a famosa imprecação de Dido, ao enxergar de cima de uma torre a frota que se ia apartando. Mr. Tissot, com a sua usual sem-cerimônia, supõe em Enéias o dom da ubiqüidade: “Que papel, nesse momento, representa um herói que atraiu sobre si tão cruéis ameaças?” Respondo que nesse momento, estando ele a navegar, não podia ouvir as ameaças da rainha, e o papel que representava era o de um chefe que, se bem compungido e com sinistros pressentimentos, conduz os seus compatriotas a um lugar prometido pelos fados, cumprindo assim um restrito dever. Pasma o crítico de que Enéias, o homem do destino, a quem Júpiter fez tão magníficas promessas, fuja carregado de maldições: e o que devia ele fazer? Enéias não ouvia essas maldições, e se as ouvisse, não havia de voltar para Cartago, frustrando assim a esperança e os interesses dos que nele se tinham confiado; e, por mais que se esforçasse, era-lhe impossível apaziguar a amante exacerbada, salvo se ficasse com ela e traísse os Troianos. Escolha Mr. Tissot.
↩ voltar à passagem, v. 586
v. 664E atendei nossos rogos. Se é fadado
“O poeta, pondera Mr. Villenave, parece esquecer que Dido afastou todas as mulheres do palácio e todas as testemunhas do horrível sacrifício que meditava.” Eu digo porém, com os olhos no texto, que o poeta não afastou todas as mulheres; afastou sim a irmã e a Barce ama de Siqueu, não do palácio, mas do claustro em que acendera a fogueira, porque estas duas deviam estar perto e baldariam o sacrifício; e quanto às outras mulheres, como lhes cumpria ficar no posto em que a rainha as colocara, não ouviam as palavras de Dido sobre a fogueira, e só conheceram a funesta resolução no momento de ser executada, e então romperam em grande alarido. A infeliz, dissimulada e precavida, não quis mandar embora as mulheres para não despertar a desconfiança das duas mais atentas. Considere-se o lugar da cena, e ver-se-á que as damas, em um espaçoso claustro, podiam estar à vista e contudo em uma distância que as impedisse de ouvir: elas criam que a senhora desempenhava o rito mágico, e não que se despunha a morrer. Todas estas cautelas provam a irrevogável tenção da rainha, e aumentam o terror.
↩ voltar ao verso 664
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Próximo livroVFirme o herói já dirige ao meio a frota