Já traspassada, em veias cria a chaga
765 versos · 25 notas do tradutor
- Já traspassada, em veias cria a chaga,
- E se fina a rainha em cego fogo.
- O alto valor do herói, sua alta origem
- Revolve; estampou n’alma o gesto e as falas;
- Do cuidado não dorme, não sossega.
- A alva espanca do pólo a noite lenta,
- Lustrando o mundo a lâmpada febéia;
- Louca à irmã confidente então se explica:
- “Suspensa que visões, Ana, me aterram?
- Que hóspede novo aporta às nossas plagas?
- Quão gentil parecer! que ações! que esforço!
- Creio, nem creio em vão, provém dos deuses.
- Temor vileza argúi. Dos fados jogo,
- Ai! que exaustas batalhas decantava!
- Se em grilhões nupciais não mais prender-me
- Fixo não fosse em mim, dês que traiu-me
- Com morte o amor falaz; ao toro e fachas
- Tédio se não tivesse, eu talvez, Ana,
- A esta só culpa sucumbir pudera.
- Depois que o meu Siqueu me foi roubado,
- Mão fraterna os penates cruentando,
- Este único abalou-me, eu to confesso,
- E a vontade impeliu-me titubante:
- Sinto os vestígios da primeira chama.
- Mas engula-me o abismo, antes me arroje
- Do Onipotente um raio às sombras fundas,
- Pálidas sombras do enoitado inferno,
- Que eu te viole, ó Pudor, e as leis te infrinja:
- Quem a si conjuntou-me e a flor colheu-me,
- Consigo minha fé sepulto guarde.”
- Cala, e em seu seio as lágrimas borbulham,
- E Ana: “Ó mais do que a vida irmã dileta,
- Murcharás teu verdor, viúva e triste,
- Sem de Vênus gozar, sem doces filhos?
- Crês disto a campa cure e a cinza e os manes?
- Bem: magoada enjeitaste esposos tírios,
- E há pouco Iarbas e outros que em triunfos
- África nutre: pois também repugnas
- Ao grato amor? Nem onde estás refletes?
- Cá te cerca a pugnaz Getúlia invicta,
- E a Sirte inóspita e Numídia infrene;
- Lá por sequiosa a região deserta,
- E à larga soltos os Barceus furentes.
- Das guerras que direi que em Tiro engrossam?
- Das ameaças do irmão? Divino auspício,
- Mercê de Juno, esta arribada julgo
- Das quilhas de Ílion. Como a cidade
- Verás crescer? com tal consórcio, quantos
- Reinos pular? A que auge irá das armas
- Teucras a glória púnica ajudada?
- Vênia, irmã, pede aos céus, e abençoados
- Os sacrifícios, o hóspede agasalha;
- De o reter causas tece, até que as ondas
- A invernada embraveça e Orion chuvoso,
- E, em destroço os baixéis, embrusque o tempo.”
- Com tais razões lhe atiça o interno incêndio,
- E alenta de esperança o ânimo dúbio,
- E desata o pudor. Primeiro correm
- Aos delubros, e a paz nas aras catam:
- Bimas ovelhas rituais degolam
- À legífera Ceres, mais a Febo
- E ao pai Lieu, mormente a Juno, guarda
- Dos vínculos jugais. Taça na destra,
- Por entre os cornos de alvadia vaca
- Verte-a Dido pulquérríma, ou dos deuses
- Passeia em face pelas aras pingues;
- Sagra o dia a oblações; consulta as reses
- Pelos peitos abertas, respirantes
- Entranhas, congoxosa. Ai! néscios vates!
- Delubros, votos, à paixão que montam?
- Rói as medulas mole flama, e a chaga
- No âmago vive tácita. A rainha
- Arde insana, e infeliz vaga a cidade;
- Qual cerva, a quem de sibilante seta,
- A atirar o pastor nos créssios bosques,
- Varou de longe incauta, e ínscio o volátil
- Farpão lhe prega e deixa: ela na fuga
- Discorre as selvas e dictéias matas;
- A letal cana ao lado se lhe aferra.
- Ora o guia entre as obras, e as riquezas
- Tírias e prestes a cidade ostenta:
- Vai falar, e se atalha a voz troncando;
- Ora, o Sol descaindo, à mesa os casos
- D’Ílio outra vez sem tino ouvir demanda,
- E da narrante boca outra vez pende.
- Já retirados, quando à Lua obscura
- Encolher toca o lume e sono infundem
- Cadentes astros, só na vácua sala
- Mesta ao sofá se encosta em que ele esteve:
- N’ausência o escuta e o vê n’ausência; ou tendo
- No grêmio Ascânio, enleva-se na imagem
- Do pai, como iludindo o amor infando.
- Nem medram torres, nem se exerce em armas
- A mocidade; os portos não consertam,
- Nem, defensas da guerra, os baluartes;
- Impendentes merlões, fábricas param;
- Já não labora a máquina altaneira.
- Tanto que a persentiu da peste iscada,
- Sem à paixão a fama obstar, Satúrnia,
- Cara esposa de Jove, nestes termos
- Comete a Vênus: “Tu e o teu menino,
- Certo, exímio louvor e espólios amplos
- Ganhais e grã renome, a ser vencida
- Uma mulher por dolo de dois numes!
- Não me escapou, receaste os nossos muros,
- D’alta Cartago a estância te é suspeita.
- Onde isto irá? tantas contendas onde?
- Por que antes não firmamos paz eterna
- E ajustes conjugais? Lograste o intento:
- Ama Dido, o furor nos ossos prende.
- Os povos em comum, partindo o auspício,
- Rejamos pois: servir marido frígio,
- Com seus Tírios dotar-te, se lhe outorgue.”
- Vênus, sentindo-a cavilar, da Itália
- Por que o reino transfira às margens líbias,
- Retorque assim: “Quem há que a tal se furte,
- Ou doido queira guerrear contigo?
- Seja o que lembras, se a fortuna o aprova.
- Mas traz-me o fado incerta se é do gosto
- De Júpiter manter numa cidade
- Com os de Tróia os Tírios, ou lhe apraza
- Os povos confundir ou federá-los.
- És consorte: com preces a ti cabe
- Tentar seu pensamento. Anda, eu te sigo.”
- “Tomo isso a mim, replica a real Juno:
- De efeituar o que urge ao plano atende.
- A misérrima Dido ir com Enéias
- Caçar propõe-se, mal Titã no oriente,
- O orbe arraiando, crástino desponte.
- Eu com basto granizo atro chuveiro,
- No açodar-se o tropel de alãos e tralhas
- Cingindo a mata, soltarei das nuvens,
- Crebros trovões estremecendo o pólo.
- Derramada a companha, há de abafá-la
- Noite opaca: o Troiano ir-se-á com Dido
- À mesma gruta. Eu lá, se teu consenso
- Me asseguras, atada em jugo estável
- Lha ofertarei, sendo Himeneu presente.”
- Não adversando, ao rogo Citeréia
- Anui, e riu do solapado engano.
- A aurora do oceano entanto surge:
- Dos mancebos a flor madruga às portas,
- Com laços, redes raras, com venábulos
- De larga choupa; os éqüites massilos
- Com farejantes cães de trote rompem.
- No camarim detendo-se a rainha,
- À entrada os Penos principais a esperam;
- Em ostro e ouro o palafrém cosido,
- Tasca o freio espumante, árdego e fero.
- Assoma alfim da corte ladeada:
- A clâmide sidônia lhe circunda
- Multicor franja; à banda aljava de ouro,
- Trança em ouro a madeixa, e lhe conchega
- Fivela de ouro a purpurina veste.
- Não falta a frígia companhia, e alegre
- Marcha Iulo. Galhardo mais que todos,
- Sócio Enéias se agrega, e a sua escolta.
- Febo, quando abandona a Lícia hiberna
- E o caudal Xanto; e, ao visitar a Delos
- Materna, instaura os coros, pelas aras
- Mistos Cressos e Dríopes fremindo
- E Agatirsos pintados; por cabeços
- Do Cinto airoso pisa, e o crino undante
- Atilando, enredado em mole folha,
- De ouro enastra; o carcás aos ombros tine:
- Não menos senhoril Enéias ia;
- Tanto garbo transluz no egrégio rosto!
- Chega-se a alpestres montes e ínvias furnas:
- Eis, de íngreme rochedo despenhando-se,
- Bravias cabras pelos picos pulam;
- D’além cervos, ligeiros a planície
- Transpondo, aos esquadrões pulverulentos
- Enovelam na fuga, e as brenhas deixam.
- Mas no ardido ginete o moço Ascânio
- Dos vales folga em meio; e aqueles passa,
- Estes pretere, e anela que um javardo
- Surda espumante dentre o bando inerte,
- Ou que fulvo leão da serra desça.
- Entra a embrulhar-se o céu múrmuro e rouco:
- De envolta cai saraiva e grossa chuva;
- E a tíria comitiva e os jovens teucros,
- Do medo atropelados, e o dardânio
- De Vênus neto, agreste abrigo esparsos
- Buscam: ribeiras das montanhas ruem.
- Vão-se à mesma caverna Dido e Enéias;
- Telus sinal deu logo e Juno prônuba:
- Corisca, e o éter sabedor das bodas
- Fulge, e no cimo as ninfas ulularam.
- Este o dia letal, dos males causa:
- Reputação, decoro, nada a move;
- Nem mais Dido medita amor furtivo;
- Chama-o consórcio, e o nome é véu da culpa.
- Já corre a Fama as líbicas cidades;
- Nem há contágio mais veloz que a Fama.
- Móbil vigora, e força adquire andando:
- Tímida e fraca, eis se remonta às auras;
- No chão caminha, e a fronte enubla e esconde.
- Da ira dos deuses Terra mãe picada,
- Póstuma a Celo e Encélado, é constante,
- De pés leve engendrou-a e de asas lestes:
- Horrendo monstro ingente, que, oh prodígio!
- No corpo quantas plumas tem, com tantos
- Olhos por baixo vela, tantas línguas,
- Tantas bocas lhe soam, tende e alerta
- Ouvidos tantos. Pelo céu de noite
- Revoa, e ruge na terrena sombra,
- Nem os lumes declina ao meigo sono:
- De dia, em celsa torre ou sumo alcáçar,
- Sentada espia e as capitais aterra;
- Do falso e ruim tenaz, do vero núncia.
- Vária e palreira então com gáudio os povos
- Aturde, e o feito e por fazer pregoa:
- Que o varão teucro é vindo, ao qual dignava
- Juntar-se a bela Dido; e, longo o inverno,
- Em braços da volúpia, em luxo torpe
- Se acalentando, os reinos esqueciam.
- Isto de boca em boca a feia deusa
- Difunde, e o curso para Iarbas torce;
- Brada, inflama-lhe o peito, iras cumula.
- De Amon filho e da rapta Garamante
- Ninfa, em amplo domínio ao pai cem bravos
- Templos, cem aras pôs; e um fogo eterno
- Sagrou, dos deuses vivas sentinelas;
- E o solo pingue do cruor das reses,
- E em mil festões florentes liminares.
- Fora de si, da nova amarga aceso,
- É voz que aos céus humilde alçara as palmas:
- “Soberano, a quem brinda a maura gente,
- Banqueteada em marchetados leitos,
- Reparas nisto, ó padre? ou com torcidos
- Raios, cegos fuzis, trovões ruidosos,
- Por demais nos assustas e apavoras?
- Mulher que merca, errante em nossa extrema,
- Para exígua cidade um chão foreiro
- E ara uma praia, as bodas repulsou-nos,
- No reino admite por senhor a Enéias!
- E esse Páris, guiando uns semíviros,
- Guedelha mádida em meônia mitra
- Sob o mento enlaçada, o rapto logra:
- Templos encher-te, fomentar nos baste
- Estéril nome!” — Assim queixoso, e às aras
- Pegado, ouvido foi do Onipotente;
- Que os olhos volve à corte em que os amantes
- A fama esquecem: “Vai, Mercúrio, invoca
- Os zéfiros, nas penas te desliza,
- Filho; e a Birsa, onde aguarda em ócio Enéias,
- Sem respeito às muralhas concedidas,
- Sobre as asas do vento este recado
- Leva-lhe. Tal a genetriz formosa
- Não no-lo prometeu, nem duas vezes
- Para isso o vindicou das armas gregas;
- Antes seria quem regesse a Itália
- De impérios grávida e a bramir por guerras,
- Quem, propagando o altivo sangue teucro,
- Avassalasse o orbe. Honra tamanha
- Se o não incende, nem se afana e lida
- No alcance do louvor; é pai de Ascânio
- E lhe inveja as romanas fortalezas?
- Que faz? que espera entre inimiga gente?
- Nem lhe importa Lavino e a prole ausônia?...
- Navegue: em suma, esta a messagem; parte.”
- À voz do excelso pai se inclina e apresta:
- Calça os áureos talares com que adeja
- Sublime sobre as terras, sobre os mares,
- Como rápido sopro. A vara empunha,
- Com que as pálidas almas do Orco evoca,
- No Tártaro sombrio, outras afunda,
- Tira e dá sonos, e da morte o selo
- Nas pálpebras imprime. Afoito as brisas
- Com ela parte, e os nevoeiros trana.
- E já no surto avista o pino e encostas
- Árduas de Atlante duro, que em seu tope
- Agüenta o firmamento; o velho Atlante
- Que de assíduos bulcões tolda a cabeça
- Pinífera, açoitado de aguaceiros
- E vendavais: de infusa neve a espádua
- Forra, do queixo precipita rios,
- E em caramelo enrija hórrida barba.
- Mercúrio, equilibrando-se nas asas,
- Paira; de chofre atira o corpo às ondas:
- Qual gaivota que, as praias e piscosos
- Cachopos rodeando, humilde aleia
- À flor das águas; entre o céu e a terra
- Cilênio, ao longo da arenosa costa,
- Do avô desce materno e os ares sulca.
- Assim que a planta alada os palhais toca,
- A fundar casas, torreões, castelos,
- Descobre Enéias, cuja espada o fulvo
- Jaspe estrelava, e aos ombros a descuido
- A capa em tírio múrice lhe ardia,
- Lavor das próprias mãos da rica Dido,
- De áurea tela a mais fina entrelaçado:
- “Que! lanças de Cartago os alicerces
- E lindos muros maridoso traças?
- Teu reino, ah! tudo esqueces! O alto nume,
- Cujo acenar abala o Olimpo e o mundo,
- Veloz do claro pólo a ti me envia:
- Que meditas? na Líbia com que intuito
- Gastas esse vagar? Se não te excita
- Glória tanta, nem lidas e te afanas
- Trás o louvor, no teu herdeiro atenta,
- No pululante esperançoso Iulo,
- De Itália ao cetro e a Roma destinado.”
- Nem acaba o Cilênio, e os mortais visos,
- Depondo, em fumo se esvaece tênue.
- Deste aspecto hirta a coma, a língua presa,
- Do aviso e mando sumo o herói pasmado,
- Ir-se e largar anseia as doces margens.
- Ai! que ousará? frenética a rainha,
- Com que ambages dispô-la, com que exórdios?
- Aqui e ali, por tudo a mente versa;
- Muda, varia, alterna, enfim resolve.
- Cloanto convocou, Mnesteu, Sergesto;
- Que, à surda aparelhando e a marinhagem
- À frota recolhendo, aprontem armas,
- Da novidade a causa dissimulem:
- Que ele, como romper-se amor tamanho
- A boníssima Dido não receie,
- De conversá-la o ensejo tentaria,
- A senda mais suave e o melhor jeito.
- Todos com alvoroço as ordens cumprem.
- Mas a rainha os dolos (quem a amante
- Pode enganar!) pressente, e o que se urdia
- Primeiro aventa, e o mais seguro teme.
- Ímpia a Fama a exaspera, e lhe delata
- Que a vogar se arma a frota. Urra, chameja,
- Debaca pelas praças, pelas ruas:
- Qual Tias quando, ao sacudir dos vultos
- E tirsos incitada, evoé bramindo,
- Trietéricas orgias a estimulam,
- E o Citeron noturno a invoca a brados.
- Topa a Enéias por fim: “Pérfido, exclama,
- Poder inda encobrir tão feio embuste
- E te escoar do meu país contavas?
- Nosso amor, a fé dada não te embarga,
- Nem de Elisa a funesta morte crua?
- E até na hiberna quadra as naus fabricas,
- E na força dos áquilos te apressas
- A emarar-te, cruel? Que! se não fosses
- A estranho solo e clima, Tróia antiga
- Se em pé tivesses, pelas crespas vagas
- Navegaras a Tróia?... A mim me foges?
- Por este pranto meu, por essa destra
- (Pois nada já me reservei mesquinha),
- Por nosso matrimônio, pelas núpcias
- Encetadas, se um’hora te fui doce
- Ou bem te mereci, doa-te a minha
- Casa em ruína; e, se é que as preces valem,
- Despe tal pensamento, eu to suplico.
- Por ti me odeiam nômades tiranos,
- E a Líbia inteira, infensos os meus Tírios;
- Por ti mesmo extinguiu-se o pejo, e aquela
- Fama que dantes me elevava aos astros.
- Moribunda em que mãos me desamparas,
- Hóspede?... Este só nome à esposa resta.
- Que mais me falta? que os fraternos muros
- Pigmalião me tale? que à Getúlia
- Seu rei me leve escrava? Antes da fuga,
- Se de ti concebera, se em meus paços
- Pequenino outro Enéias, cópia tua,
- Me brincasse, eu de todo escarnecida
- Nem em tanto abandono me julgara.”
- Disse. Ele, imota a vista e a mente em Jove,
- Sopeia a dor a custo, enfim responde:
- “Eu nunca negarei favores tantos,
- E outros que enumerar, senhora, podes;
- Nem de Elisa a lembrança há de enfadar-me,
- Enquanto eu mesmo for de mim lembrado,
- E est’alma o corpo reja. A escusa é breve.
- Nem a furto ausentar-me, tal não penses,
- Cuidei; nem pretendi jamais as tedas,
- Ou vim nunca em firmar esta aliança.
- Se a meu gosto compor se me outorgasse
- Da vida o curso, preferira em Tróia
- As dos meus cultivar doces relíquias;
- Refizera de Príamo os palácios,
- Reconstruíra Pérgamo aos vencidos.
- Mas Grineu Febo a Itália, a Itália agora
- As sortes lícias demandar me ordenam:
- Este o amor, esta a pátria. As líbias torres
- De Cartago se a ti Fenisa prendem,
- Na Ausônia estranhas que os Troianos fundem?
- Novos reinos é lícito habitarmos.
- A mim do padre Anquises, quantas vezes
- De úmida sombra a noite enluta o globo,
- Quantas surgem igníferos luzeiros,
- Insta em sonhos, me aterra a torva imagem;
- Turba-me o tenro Ascânio, o vitupério
- De cabeça tão cara, a quem defraudo
- Do hespérico domínio e fatais campos.
- Inda há pouco, da parte do Tonante
- O intérprete divino (ambos atesto)
- Frechando as auras trouxe-me recados:
- Às claras eu vi mesmo entrando os muros
- O deus, bebi-lhe a voz nestes ouvidos.
- De inflamar cessa a mágoa tua e minha:
- Não espontâneo para Itália sigo.”
- Enquanto ele discorre, aversa o encara;
- Tácitos lumes volve, e o mede e estronda:
- “Nem mãe deusa, nem Dárdano hás por tronco;
- Gerou-te o Cáucaso em penhascos duros,
- Traidor! mamaste nas hircanas tigres.
- Que dissimulo? a que desdém me guardo?
- Deu-me ao pranto uma lágrima, um suspiro?
- Da amante se doeu? dignou-se olhar-me?
- Que afronta é mais pungente?... Ah! que até Juno
- Nem Satúrnio isto vê com retos olhos.
- Fé segura não há. Náufrago e pobre
- O recolhi, demente o pus no trono,
- Do estrago as naus remi, da morte os sócios.
- Ai! que incendida as fúrias me arrebatam!
- Ora agoureiro Apolo ou sortes lícias,
- Ora expedido o intérprete de Jove
- Traz pelas auras hórridos mandados.
- Dos supremos que emprego! uma tal ânsia
- Quebra o seu repousar. Nem te detenho,
- Nem te refuto. Para Itália segue,
- Sim, busca impérios pelas bravas ondas.
- Se os numes valem pios, certo espero
- Que entre escolhos suplícios mil devores,
- E invoques amiúde o nome Dido.
- Com negro facho ao longe hei de acercar-te;
- E, quando a morte fria aos órgãos solva
- O almo alento, ser-te-ei contínua sombra;
- Terás o pago, hei de, perverso, ouvi-lo,
- A nova há de baixar-me ao centro escuro.”
- Nisto, corta-lhe a prática, à luz foge,
- Some-se aflita, e o deixa embaraçado,
- Muito dizer querendo e receando.
- Levam-na em braços à marmórea alcova,
- E a deitam nos coxins desfalecida.
- Bem que deseje mitigá-la Enéias
- E remover-lhe as penas compassivo,
- Solto em ais, do amor grande combalido,
- Cumpre as ordens contudo, as naus revista.
- Afervoram-se os Teucros, desencalham
- Celsos baixéis; crenado o casco nada;
- Frondentes remos trazem, toscos robles,
- No afogo de abalar. De muda os viras,
- Da cidade em torrentes borbotando.
- Em tulha assim de farro dão formigas
- E em casa o põem, do inverno precatadas;
- Campeia o negro exército, entre as ervas
- Por trilha estreita acarretando a presa:
- Parte ombros mete e grossos grãos empurra;
- Parte urge os pelotões, pune as ronceiras:
- Da pressa e afã toda a vereda ferve.
- Ao contemplá-lo, que sentias, Dido?
- Quais teus gemidos, de cimeira torre
- Das praias enxergando o borborinho
- E antolhando com grita o mar fundir-se?
- Os mortais, fero amor, a quanto obrigas!
- De novo ao rogo, às lágrimas recorre,
- Do amor se humilha ao jugo; por que ao menos
- Por tentar nada fique antes que expire.
- “Ana, eis revolto o litoral; de roda
- Concorre a chusma; o brim convida as auras,
- E as popas já coroa o alegre nauta.
- Se eu esperasse, irmã, sofrera o golpe.
- Ana, um serviço: o ingrato, que te estima,
- Só contigo se abria, só conheces
- O modo e ensejo de amolgar esse homem;
- Ao soberbo inimigo vai, suplica,
- Por mim lhe fala, irmã: que eu nunca aos Danaos
- Em Aulíde jurei de Tróia o excídio,
- Nem contra Pérgamo esquipei navios,
- Nem os ossos cavei do padre Anquises;
- Por que duro a escutar-me se recusa?
- De tropel onde corre? À triste amante
- Renda um favor: monção aguarde e fuja.
- O traído himeneu já não requeiro;
- Nem do reino desista e pulcro Lácio.
- Curto espaço ao furor, vã trégua peço,
- Té que a sorte me vença e à dor me aveze.
- Da irmã tem pena, esta mercê me obtenhas;
- Ser-lhe-á paga sobeja a morte minha.”
- Tais lamentos, misérrima, tais preces
- Ana leva e releva; ele inconcusso
- Razões nem choro admite: os fados obstam,
- Um deus lhe obstrui os plácidos ouvidos.
- Se, de anos rijo o válido carvalho,
- Daqui dali soprando alpinos bóreas,
- Extirpá-lo porfiam, berram, silvam,
- E, do tronco as entranhas sacudidas,
- Juncam o solo as folhas; aos rochedos
- Ele se agarra, e quanto com seu pico
- Penetra o etéreo céu, tanto profunda
- No Tártaro a raiz: não de outro modo
- Assíduas vozes mil o herói combatem,
- E a grande alma suspira; a mente imóvel
- Persiste, e rodam lágrimas baldias.
- Dos fados treme Dido e a morte exora;
- Da azul abóbada aborrece o aspecto.
- Na tenção mais se afinca e a luz detesta,
- Quando o leite (que horror!) nos sacros vasos
- Vê negrejar, e os derramados vinhos
- Irem-se convertendo em sangue impuro.
- Tal visão cala, nem da irmã confia.
- Ao defunto Siqueu nos paços houve
- Marmóreo templo, em que ela se esmerava,
- De velos níveos e festões ornado.
- Ali, tanto que a noite obumbra as terras,
- Crê perceber queixumes e o marido
- Mesto chamá-la, e solitário bufo
- Nas grimpas feral verso estar carpindo
- E com tristura em flébil tom piando:
- Cem velhas predições a atemorizam.
- Enfurecida, o mesmo fero Enéias
- Em sonhos a perturba, e se imagina
- Sempre sozinha, ao desamparo sempre,
- Ir por veigas extensas, por desertos,
- Em busca dos seus Tírios. Tal, demente,
- Penteu figura batalhões de Eumênides,
- Gêmeo o Sol, duas Tebas: tal, nas cenas,
- Da mãe foge aos brandões e às negras serpes
- Vexado o Agamenônio, e as flagelantes
- Erinies topa ao limiar sentadas.
- Mal que à dor cede e, as fúrias concebendo,
- Morrer decreta, e como e o quando elege;
- E a triste Ana acorrendo, com disfarce,
- De serena esperança a fronte ameiga:
- “Os parabéns, irmã, que achei maneira
- De atraí-lo ou soltar-me desse ingrato.
- Nos confins do Oceano, para o ocaso,
- Um lugar derradeiro há na Etiópia,
- Onde o máximo Atlante ao ombro o ardente
- Eixo estrelado vira. Entre os Massilos
- Dali sacerdotisa me inculcaram
- Do templo das Hespérides, que os sacros
- Ramos guardando n’árvore, a comida
- Ao dragão ministrava, untada em suco
- De mel e dormideiras. Com seus carmes
- Solver, gerar paixões; rios promete,
- Astros atrás tornar, e infernos manes
- Revocar: sob os pés mugindo a terra,
- Verás descerem da montanha os ornos.
- Pelo céu, cara irmã, por vida tua,
- Juro que invita à mágica recorro.
- Tu lá dentro ergue ao ar secreta pira,
- E a roupa e as armas sobrepõe desse homem,
- Que ímpio as deixou na câmara pregadas,
- E o toro em que eu perdi-me: do malvado,
- A maga o ordena, apaguem-se as memórias.”
- Cala e tingiu-se de palor. Contudo
- Que os funerais no sacrifício encubra
- Nem Ana o crê, nem tal furor suspeita,
- Ou nada mais sinistro que na morte
- De Siqueu teme: tudo enfim prepara.
- Ao ar, com achas de azinheira e pinho,
- Num claustro escuro ereta ingente pira,
- Colgado de capelas, a rainha
- De rama fúnebre o lugar coroa;
- Não do futuro ignara, sobre o leito
- Coloca a teucra espada, a roupa, a efígie.
- De altares cerca-se, e em cabelo a saga
- Toa a invocar trezentas divindades,
- O Érebo, o Caos, e a trina Hécate virgem,
- Tergêmina Diana. Ali despeja
- Simulado licor da fonte Averna;
- Segadas ao luar com foice aênea,
- O leite espreme de pubentes ervas,
- Veneno tétrico; extraído ajunta
- O amor da fronte de nascente poldro
- E subtraído à mãe. Frouxa a petrina,
- Mola nas pias mãos, de um pé descalça,
- Dido, entre as aras morredoura, os deuses
- Atesta e os astros, do seu fado cônscios;
- E, se há nume que amantes patrocine,
- Da ingratidão vingança lhe depreca.
- Era noite, e em sossego os lassos corpos
- Descansam: dorme a selva, o mar sanhudo;
- Em meio giro os astros escorregam;
- Todo o campo emudece; as alimárias
- E as aves de cores mil, quanto povoa
- Líquidos lagos, ásperas charnecas,
- No silêncio noturno os seus trabalhos
- Adormentando, a pena aliviavam.
- Só nos olhos ou peito a insone Tíria
- Não colhe a noite: as aflições lhe brotam;
- Surgindo e ressurgindo o amor braveja,
- Num fervedouro de iras flutuando,
- E a mente em si volteia: “Que! zombada,
- Requestando os primeiros pretendentes,
- Hei de em Numídia mendigar consórcios
- Tão rejeitados? ou partir na frota,
- Conforme às teucras derradeiras ordens?
- Gratos ao benefício, oh! quão lembrados
- Dos meus favores são! E há, quando eu queira,
- Quem mo consinta, ou nos soberbos lenhos
- Execrada me aceite? Nem tu sabes,
- Nem inda sentes, mísera, os perjúrios
- Da raça laomedôncia? E então! sozinha
- Irei atrás de aventureiros nautas,
- Ou com todo o poder dos meus Sidônios?
- E os que arranquei de Tiro, hei de arriscá-los
- De novo, e dar as velas?... Antes morre,
- Que o mereces; com ferro a dor atalha.
- Tu por meu pranto, irmã, tu me agravaste
- O furor e ao tirano me expuseste.
- Não pudera eu viver de crime isenta,
- Como fera, solteira e sem martírios?
- Fementida a Siqueu manchei as cinzas.”
- Tais do seu peito as queixas rebentavam.
- Já, tudo a ponto, certo de ir Enéias
- Adormecia a ré. Torna-lhe em sonhos
- E o repreende a visão: Mercúrio é toda
- Em vulto, em cor, em voz, na loura coma,
- No talhe esbelto e juvenil meneio.
- “Como! filho da deusa, em tal perigo
- No sono pegas? nem, demente! enxergas
- O que há de roda? os zéfiros suaves
- Não ouves respirar? Perecedoura,
- Ela enganos rumina e atroz maldade,
- E num fluxo e refluxo irosa ondeia.
- Podes inda, e o fugir não precipitas?
- Com madeiros verás turbar-se o pego,
- Tochas luzir, ferver em fogo as praias,
- Se a aurora aqui te apanha. Eia, a tardança
- Rompe: é sempre a mulher vária e mudável.“
- E assim na treva se envolveu da noite.
- Espavorido acorda: “Acima, alerta,
- Brada o herói; panos fora, gente aos remos:
- Insta comigo o mensageiro etéreo
- A que abale no instante e pique amarras.
- Nós, santo deus, quem sejas, te seguimos,
- E ovantes outra vez te obedecemos.
- Oh! sê propício e plácido, e nos tragas
- Faustas estrelas.” Disse, e da bainha
- Saca o fulmíneo gume e os cabos talha.
- Tudo arde, à faina acode; as bordas largam:
- De naus coalha-se o pélago; estribados,
- Varrendo a azul campina, a espuma enrolam.
- Já, de Titon deixando a crócea cama,
- A Aurora de luz nova alaga o mundo:
- Mal Dido alvorecer e arfar em cheio
- Viu da atalaia a frota, e a praia e os portos
- Nus da chusma sentiu, quatro e mais vezes
- Lacera o belo peito e os áureos fios
- Arrepela: “Ó deus sumo! há de um estranho
- Ir-se do nosso reino escarnecendo?
- Meu povo armas não toma, e o corre e os vasos
- Dos arsenais despede?... Já, de pronto,
- Brandi fachos, dai velas, forçai remos.
- Que profiro? onde estou? desvairo insana?
- Ai! Dido, hoje em ti pesa a mão do fado!
- Quando entregaste o cetro, é que era tempo.
- Que fé, que destra aquela! E é quem se afirma
- Que da pátria os penates conduzira,
- Que o pai caduco aos ombros carregara?
- E empolgá-lo não pude, esquartejá-lo,
- Pelo mar desparzi-lo, os seus à espada
- Passar, e o mesmo Ascânio, e por comida
- Pô-lo à paterna mesa? Mas do prélio
- Fora a fortuna duvidosa... Fosse:
- Vou morrer; qual o medo? Às naus, de assalto,
- De fogo enchera o bojo; com tal raça
- Pai e filho extinguira, e a mim com eles.
- Sol, que lustras o globo e tudo aclaras;
- Juno, intérprete e cônscia destas penas;
- Pelas cidades em noturnos trívios
- Tu Hécate ululada, ultrices Fúrias,
- Ouvi-me, ó deuses da expirante Elisa,
- Vosso nume volvei contra os perversos,
- E atendei nossos rogos. Se é fadado
- E quer Jove que o monstro, em fixo termo,
- Poje em terra, audaz povo o ataque e avexe;
- E errante, foragido, arrebatado
- Dos abraços de Iulo, auxílio implore,
- Veja dos seus os funerais indignos;
- Ou, curvo à iníqua paz, não goze o reino
- E apetecida luz; mas ante tempo
- Caia, e insepulto sobre a areia jaza:
- Com meu sangue esta praga última verto.
- Tírios! vosso rancor lhe acosse a estirpe,
- De oferta à cinza minha: aliança os povos
- Nunca irmane. Dos ossos tu me nasces,
- Tais colonos persegue a fogo e ferro,
- Ó vingador: já, logo, em todo o sempre
- Que haja forças, com praias travem praias,
- Ondas com ondas guerras, armas com armas;
- Com seus netos, impreco, os meus pelejem.”
- Por tudo o ânimo versa, e a teia odiosa
- Traça em breve troncar. A Barce fala,
- Do bom Siqueu nutriz, que em pó na antiga
- Pátria a sua ficou: “Nutriz querida,
- Chama cá minha irmã; que asperja o corpo
- Com água fluvial; não tarde, e as reses
- Venham com ela e as purgações prescritas:
- E tu com pia fita as fontes venda.
- Os que encetei solenes sacrifícios
- A Jove Estígio concluir tenciono,
- Findar meus males e entregar à pira
- A imagem do infiel.” Termina; a serva
- Com senil zelo acelerava o passo.
- Trépida e em fera empresa encarniçada,
- Vibrando olhos sangüíneos, e às trementes
- Faces de nódoas salpicada, o interno
- Claustro penetra, pálida a rainha
- Já da futura morte, e furibunda
- Sobe à fogueira, o tróico ferro despe,
- Não para tal crueza reservado.
- No ilíaco despojo e nota cama
- Depois que atenta, em lágrimas, cuidosa,
- Um pouco está suspensa, e reclinada
- Finais vozes repete: “Ó doces prendas,
- Quando o queira um deus e o fado, est’alma
- Recebei, libertai-me de pesares.
- Vivi, perfiz o destinado curso:
- Grande irá minha sombra agora ao Orco.
- Fundei clara cidade, eu vi meus muros;
- No truculento irmão vinguei o esposo.
- Feliz, ah! mui feliz, se as quilhas teucras
- Aqui nunca abordassem!” Disse, e o rosto
- No leito impresso: “inulta morreremos?...
- Pois morramos, sussurra; assim aos manes,
- Assim desço contente. O cru Dardânio
- Do mar embeba os olhos nestas chamas,
- E estes mortais agouros o acompanhem.”
- Não acabava; e sobre o estoque as damas
- A vêem cair, de sangue as mãos tingidas
- E a lâmina espumando. O clamor altos
- Átrios atroa; às tontas corre a Fama
- De cabo a cabo; com soluços, gritos,
- Com femíneo ululado os tetos fremem;
- Todo o ar retumba do alarido e pranto:
- Qual, de hostil assaltada, se em ruínas
- Cartago, ou Tiro antiga ardesse em alas
- Furentes, ateadas nas dos homens,
- Nas cumieiras dos deuses. Aturdida,
- A irmã convulsa, exânime, açodada,
- Carpe-se, afeia o rosto, os peitos fere,
- Rompe o tropel, à moribunda exclama:
- “Irmã, tu me iludias? Que! foi isto
- Que aras, tochas, fogueiras me aprestavam?
- Qual mais dói? o abandono, o desprezares
- Por sócia a irmã? Teus fados repartisses;
- Uma hora, um ferro, uma ânsia nos tragasse.
- Armei-te a pira eu mesma, e os deuses pátrios
- Invoquei, para assim, cruel, jazeres
- Na minha ausência? A mim e a ti mataste,
- E o povo e os padres e a cidade tua.
- Dai-me água, eu lave o golpe; e nos seus lábios,
- Se alento algum vagueia, os meus o colham.”
- Não mais, e os degraus salva; ao colo aperta,
- Beija a irmã semiviva; entre ais enxuga
- Na touca o tetro sangue. Os olhos graves
- Quis ela alçar, desmaia: a chaga dentro
- Range a golfar. Três vezes, arrimada
- Ao cotovelo foi-se erguer, três vezes
- Rolou no toro; e, baça a vista errante,
- A luz no céu procura, e achando-a geme.
- A onipotente Juno da agonia
- E angústia longa então comiserada,
- Do Olimpo Íris despacha, que a luctante
- Alma desate dos liados membros:
- Pois nem de merecida ou fatal morte,
- Mas súbito imatura, ah! perecia
- De ira acesa; tirado a flava coma
- Não lhe tinha Prosérpina, e a cabeça
- À Estige condenado. Em cróceas penas,
- Cambiando cores mil do Sol oposto,
- Róscida a núncia vem parar sobre ela:
- “O tributo a Plutão mandada levo;
- Do corpo eu to desligo.” Disse, e o corta:
- Foi-se o calor e evaporou-se a vida.