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EneidaLivro IX
LivroIX

Entretanto que ao longe isto sucede

800 versos · 4 notas do tradutor


  1. Entretanto que ao longe isto sucede,
  2. A Satúrnia do Olimpo Íris despacha
  3. A Turno audaz: que em vale e sacro bosque
  4. Do avô Pilumno acaso descansava.
  5. “Turno, a Taumância diz com rósea boca,
  6. O andar do tempo e o ensejo te oferece
  7. Que um deus a prometer não se atrevera:
  8. Deixada a frota e a praça, foi-se Enéias
  9. À palatina corte; e em Córito inda,
  10. Seus confins penetrando, agrestes Lídios
  11. Recruta e apresta. Hesitas? sem demora
  12. Tu carros e frisões demanda, assalta
  13. O confuso arraial.” Nas asas presto
  14. Librada, monta às nuvens, onde o ingente
  15. Arco descreve. Ao conhecê-la o jovem,
  16. As palmas exalçando, com tais vozes
  17. A fuginte acompanha: “Íris, das auras
  18. Quem, eterno ornamento, a mim te envia?
  19. Donde esta repentina claridade?
  20. Rasgado o céu, diviso errantes astros:
  21. Quem sejas, por teu mando ao prélio corro.”
  22. Nisto, à margem caminha; e, haurindo a linfa
  23. À tona da corrente, aos deuses roga,
  24. De muitos votos carregando os ares.
  25. De auri-bordada veste e corcéis rico,
  26. Já na planície o exército marchava.
  27. Messapo à frente, a retaguarda cobrem
  28. Os Tirridas; no centro, as armas Turno
  29. Sustenta em chefe, e a todos sobreleva:
  30. Tal surge o Ganges, que silente em rios
  31. Sete engrossa: ou, dos agros refluindo,
  32. No álveo recolhe o Nilo a enchente pingue.
  33. Crescendo escuro na campina, os Teucros
  34. Um turbilhão de pó súbito avistam.
  35. De adverso bastião Caíco brada:
  36. “Qual em globo volteia atra caligem?
  37. Arma, arma, sócios, o inimigo avança,
  38. Os muros socorrei.” Trancam-se as portas,
  39. Aturde a grita, apinham-se às trincheiras.
  40. Ao partir, ordem foi do sábio Enéias
  41. Que, em sucesso fortuito, não se atrevam
  42. No raso, mas de dentro se defendam:
  43. Bem que à pugna os instigue ira e vergonha,
  44. Encerram-se, e o preceito executando,
  45. No valo e torreões o ataque atendem.
  46. Turno, com vinte insignes cavaleiros,
  47. Transpõe tardia tropa, aos muros voa;
  48. Pluma o adorna vermelha em casco de ouro,
  49. Fouveiro trácio alípede cavalga.
  50. “Quem enceta e a meu lado investe, ó bravos?
  51. Quem?...” E um dardo arremessa em desafio,
  52. À praça árduo se arroja. Os seus o aplaudem,
  53. Atrás dele com frêmito bramando
  54. Horríssono: da inércia frígia pasmam,
  55. De que homens tais combate em plaino evitem
  56. À sombra do arraial. Furioso trota,
  57. Ínvios sítios perlustra e ingresso tenta.
  58. Se alta noite, insidiando o curral cheio,
  59. Uiva na sebe o lobo ao vento e à chuva,
  60. Berram cordeiros ao materno bafo;
  61. Com gana à preia ausente, ele braveja;
  62. Secas de sangue as fauces, longa o anseia
  63. A raiva de comer curtida e junta:
  64. Não com menos violência, ante os reparos
  65. Arde ao Rútulo a dor nos ossos duros;
  66. Por onde e como desaloje os Teucros,
  67. E no campo os derrame, idéia e pensa.
  68. A frota, que às trincheiras abrigada
  69. Ondas fluviais e marachões torneiam,
  70. Invade-a: pega de um flagrante pinho,
  71. Provoca férvido os contentes moços;
  72. Que, do exemplo incitados, arrebatam,
  73. Fachos, tições: enrolam-se nos ares
  74. Cinza e fagulhas, fumo e píceo lume.
  75. Que deus, Musas, livrou do incêndio os vasos?
  76. Quem extinguiu, dizei-me, o fogo horrível?
  77. É prisco o fato, mas perene a fama.
  78. No Ida as naus quando Enéias construía
  79. Para entregar-se ao pélago, assim contam
  80. Que a Jove orara a Berecíntia madre:
  81. “O que, domado o céu, pedir-te venho,
  82. Dá, filho, à tua genetriz querida.
  83. Há muito amo um pinhal, a mim dicado
  84. Nesse gárgaro cimo, umbroso e opaco
  85. De alvares troncos, de alentados bordos:
  86. Leda o cedi para a dardânia frota;
  87. Hoje um temor solícita me rala:
  88. Solve-o; possam contigo as preces minhas,
  89. As naus viagem nem tufão destroce:
  90. Valha o terem nascido em nossos montes.”
  91. O que as estrelas gira: “Ó mãe, responde,
  92. Que fado exiges tu para estas quilhas?
  93. Conseguir obra humana imortal vida!
  94. Certo empreender o Teucro incertos riscos!
  95. Tal potência a que deus foi permitida?
  96. Antes, o porto ausônio as que a aferrarem,
  97. Salvo a Laurento Enéias transportando,
  98. A mortal forma desfarei; que sejam
  99. Marítimas deidades algum dia,
  100. E o ponto espúmeo com seu peito rasguem,
  101. Como a Neréia Doto ou Galatéia.”
  102. Isto ao jurar, do irmão pela água estígia
  103. E torrentes de pez e atra voragem,
  104. Anui; e ao senho treme o Olimpo todo.
  105. Raia o dia aprazado pelas Parcas;
  106. De Turno a injúria dos baixéis as tedas
  107. Faz que Cibele aparte. Aos olhos brilha
  108. Nova luz, e da aurora em vasta nuvem
  109. Os coros do Ida pelo céu transcorrem;
  110. Aos Rútulos e Troas voz terrível,
  111. Talhando os ares tomba: “Apressurados,
  112. Frígios, não vos armeis por esses lenhos;
  113. Os mares queimará mais fácil Turno
  114. Que os meus sacros pinheiros. Ide soltas,
  115. Ide, Ops vos ordena, equóreas deusas.”
  116. Súbito as popas, cada qual das ribas
  117. Cabos rompendo, os beques mergulhados,
  118. Se afundam quais delfins. Do pego, ó pasmo!
  119. Quantas retinha a praia brônzeas proas
  120. Surdem, mudadas em virgíneos rostos,
  121. E vão-se ao largo. Os Rútulos se espantam,
  122. Messapo enfia, turbam-se os cavalos;
  123. Rouco o Tibre, assustado, o passo encolhe.
  124. Só Turno, firme e afoito, anima, exprobra:
  125. “São contra Enéias, grita, esses portentos;
  126. Roubou-lhe Jove o sólito recurso:
  127. Já nem tiros, nem fogo as naus aguardam.
  128. Fechado o mar, vedou-se a fuga aos Teucros,
  129. Falta-lhes o mais orbe; e a terra é nossa,
  130. Mil ítalas nações por nós conspiram.
  131. Nada os fatais oráculos me assombram,
  132. Se de alguns o inimigo ora se jacta.
  133. Basta a Vênus que os seus na pingue Ausônia
  134. Toquem: tenho outro fado, é retalhá-los...
  135. Nefandos! que usurpar-me a esposa querem.
  136. Nem só pene aos Atridas uma afronta,
  137. Nem se arme só Micenas. Suficiente
  138. É cair uma vez: ter já pecado
  139. Sobrara a escarmentar os que inda o sexo
  140. Não entejam femíneo. Esses que estribam
  141. Em valo e fosso, à morte curto empeço,
  142. Em cinza resolvidas as muralhas
  143. De Ílio não viram, por Netuno obradas?
  144. Quem, varões, a tranqueira a ferro escala,
  145. E o trépido arraial comigo expugna?
  146. Não vulcânia armadura, não mil quilhas
  147. Hei mister. Confederem toda a Etrúria;
  148. Não temam do paládio inertes furtos,
  149. Noturnos atalaias degolados,
  150. Ou que no eqüino ventre nos metamos:
  151. Sitiando às claras, queimarei seus muros.
  152. Nem o hão com Danaos certo e Aqueus bisonhos,
  153. Que Heitor foi por dez anos entretendo.
  154. Gasto o melhor do dia, o resto, amigos,
  155. Refocilai-vos do começo alegres,
  156. E a combater a tento apercebei-vos.”
  157. Manter entanto a cargo tem Messapo
  158. Velas às portas e ao redor fogueiras.
  159. Cabos catorze aos muros põe de guarda,
  160. Com cem soldados cada qual, flamantes
  161. De ouro e purpúreos de lustrosas plumas.
  162. Patrulham, rendem-se, e na relva bebem
  163. De êneos pichéis vasando. Os fogos luzem,
  164. E a folgar se despende a noite insone.
  165. Do valo os Troas vigiando, em armas
  166. Têm-se ao merlões; a medo as portas rondam,
  167. Pontes comunicando e baluartes.
  168. A Seresto e Mnesteu, que ardidos instam,
  169. Foi que Enéias fiou, se urgisse o caso,
  170. Ter cobro em tudo e moderar os moços.
  171. Cada esquadrão por sorte expõe-se aos muros,
  172. E se reveza em postos arriscados.
  173. Era de um sentinela o Hirtácio Niso,
  174. Valente, ágil, perito em dardo e seta,
  175. Que Ida fragueira a Enéias deu por sócio.
  176. Com ele estava Euríalo: um mais lindo
  177. Não houve que vestisse arnês troiano;
  178. Sombreava-lhe o buço intensas faces.
  179. Ternura os une; à lide a par correndo,
  180. Então a mesma porta ambos velavam.
  181. “Euríalo, diz Niso, um deus mo inspira,
  182. Ou quem quer chama deus o ardor que o punge?
  183. A empreender um combate, um feito insigne,
  184. Me excita a mente; inquieta-me o repouso.
  185. Nota a fidúcia: os lumes quase mortos,
  186. Com sono e vinho os Rútulos prostrados,
  187. Reina à larga o silêncio. Ouve o que n’alma
  188. Fermento e cuido: anelam por Enéias
  189. Senado e povo, e quem lhes traga novas
  190. Cogitam; se o meu prêmio te asseguram
  191. (Fique-me a fama), ao pé daquele outeiro
  192. Achar posso o caminho a Palantéia.”
  193. Da glória estimulado, absorto o jovem
  194. Impugna o acre amigo: “E tu me enjeitasl
  195. Abandonar-te eu, Niso, em dúbio lance!
  196. Nem tal meu pai, o marcial Ofeltes,
  197. Criou-me em terror graio e tróicas lidas,
  198. Nem tal me houve contigo, dês que abraço
  199. Do exímio cabo a sorte. A luz desprezo,
  200. E da que esperas honra em troco a vendo.”
  201. Niso então: “Assim Jove, ou deus propício,
  202. A ti me torne ovante, que o teu brio
  203. Não me é suspeito, nem podia sê-lo.
  204. Mas, se algum (riscos tantos considera),
  205. Se algum nume ou revés me descaminha,
  206. Deves sobreviver-me; és tão menino!
  207. Haja, para enterrar-me, quem da pugna
  208. Me subtraia ou resgate; e, se a desdita
  209. Mo tolhe, quem sufrague o ausente corpo
  210. E me adorne um sepulcro. Nem dor tanta
  211. Eu cause a tua mãe, que só das muitas
  212. Seguir-te ousou, de Acesta não curando.”
  213. E ele: “Fúteis razões por demais teces;
  214. Não mudo parecer: eia, partamos.”
  215. Desperta os guardas, que no posto os rendem,
  216. E com seu Niso ao príncipe caminha.
  217. O Sono pelo globo derramava
  218. O esquecimento e alívio dos trabalhos:
  219. Sós em conselho os generais dardânios,
  220. Arrimados ao pique e à sestra o escudo,
  221. Em pleno campo a discutir, pesquisam
  222. Quem a Enéias ou como expediriam.
  223. Niso e Euríalo à pressa, alvoroçados,
  224. Audiência pedem; que o negócio é grave,
  225. Nem sofre dilação. Iulo acolhe-os,
  226. E com licença o Hirtácides começa:
  227. “Atendei-nos, Enêiadas benignos;
  228. Por nossa idade não julgueis do intento.
  229. Modorra e vinho os Rútulos sepulta;
  230. Sítio azado observámos, onde a estrada
  231. Junto à porta do mar se abre em dois ramos;
  232. Raros os fogos, negro fumo deitam:
  233. Se permitis que o lance aproveitemos,
  234. Enéias cedo cá tereis de volta,
  235. Feita grande matança e rica presa.
  236. Não há temor de errar: de escuros vales
  237. Em contínuas caçadas Palantéia
  238. Descobrimos, e o rio conhecemos”.
  239. Aqui logo o maduro e anoso Aletes:
  240. “Pátrios deuses, de Tróia arrimo eterno,
  241. Não quereis extirpar-nos, pois criastes
  242. Em peitos juvenis valor tamanho.
  243. Qual... (nisto, ambos abraça, as destras cerra.
  244. E lhes inunda em lágrimas os rostos)
  245. Qual, varões, vos será condigno prêmio
  246. À tanta audácia? O mais gentil vos paguem
  247. Vossa virtude e o céu; depois, Enéias;
  248. E na idade completa nunca Iulo
  249. Deslembre este serviço.” — “Antes eu, Niso,
  250. Que em meu pai só me salvo, ajunta Iulo,
  251. Obtesto o lar de Assáraco e os penates,
  252. E o juro aos penetrais da branca Vesta,
  253. Minha fé, minha dita, em vós deponho:
  254. Meu pai restituí-me; ao seu conspecto
  255. Nada infausto haverá. Dois belos copos
  256. De prata e com relevos, que de Arisba
  257. Cativa ele tomou, dois grandes áureos
  258. Talentos ganharás, mais duas trípodes,
  259. E a que Elisa me deu cratera antiga.
  260. E se, a Itália domada, o cetro alcanço
  261. E os despojos partir; viste o cavalo,
  262. Viste o arnês em que Turno campeava?
  263. O broquel nítido, o cocar vermelho?
  264. Serão teus, Niso, do sorteio exemptos.
  265. Doze meu pai te brindará formosas
  266. Mães e crias, escravos doze armados,
  267. E as mesmas lavras que possui Latino.
  268. A ti porém, que em anos me semelhas,
  269. N’alma te abraço e adoto por consórcio,
  270. Venerando menino: em qualquer ponto
  271. Sem ti não terei glória; em paz e em guerra
  272. Ser-me-ás fiel agente e conselheiro.”
  273. Euríalo acudiu: “Nunca estes ausos,
  274. Rode a fortuna próspera ou contrária,
  275. Desmentirei; mas dom maior te imploro:
  276. Minha mãe, do priâmeo prisco sangue,
  277. De Ílio comigo se apartou mesquinha,
  278. Por mim de Acestes enjeitou o asilo;
  279. Não saudada, ignorando esta aventura,
  280. Vou deixá-la; eu não posso com seu pranto,
  281. Por tua destra e pela noite o afirmo:
  282. Rogo-te que a socorras e a consoles
  283. Na penúria e viuvez; se esta esperança
  284. Tenho de ti, com mais denodo parto.”
  285. Abalados os Teucros lagrimavam,
  286. Mormente Ascânio; a imagem da paterna
  287. Piedade o comovia, e assim perora:
  288. “Tudo prometo, que mereces tudo.
  289. Mãe ser-me-á, de Creusa exceto o nome:
  290. A quem tal parto produziu compete,
  291. Seja o evento qual for, mercê não leve.
  292. Por vida minha, pela qual jurava
  293. Meu pai, a tua mãe e aos teus respondo
  294. Por quanto aqui reservo e te asseguro
  295. Para o feliz regresso.” Então, choroso,
  296. Do ombro a lâmina despe, obra mui prima
  297. Do Gnósio Licaon, de punhos de ouro,
  298. Embainhada em marfim. Mnesteu, leonino
  299. Hirto espólio veloso a Niso doa;
  300. Troca o morrião com este o fido Aletes.
  301. Marcham prestes; e às portas, entre votos,
  302. De jovens e anciãos o que há de ilustre
  303. Os conduz: manda ao padre o nobre Ascânio.
  304. Já com viril prudência, avisos cautos;
  305. Que o vento espalha e em auras se esvaecem.
  306. Transpondo os fossos, pela treva em busca
  307. Do inimigo arraial, vão ser primeiro
  308. De exício a muitos. Vêem na grama esparsos
  309. Ebri-dormentes corpos; empinados
  310. Na praia os carros; vinhos e homens e armas,
  311. Entre as rodas e os loros, de mistura.
  312. “Amigo, adverte Niso, ânimo! é tempo.
  313. O caminho eis aqui: tu longe atenta,
  314. Não nos dêem por detrás, vigia em torno,
  315. Que eu te abro devastando e alargo a trilha.”
  316. Preme a voz, e de espada agride o altivo
  317. Ramnetes, que em felpudas alcatifas,
  318. Solto a roncar, evaporava o sono:
  319. Rei e augur diletíssimo ao rei Turno,
  320. Da mortal peste o agouro não o esquiva,
  321. Três dos seus, que entre as armas jazem néscios,
  322. Fere, e o pajem de Remo e o seu cocheiro
  323. Sob os corcéis deitado: ao talho os colos
  324. Pendem. Corta a cabeça ao próprio Remo,
  325. E em sangue fica a soluçar o tronco,
  326. Do cruor quente a cama e o chão molhado.
  327. Mata a Lamo e Lamiro, e o flóreo e belo
  328. Serrano; que, passada a noite ao jogo,
  329. Ao deus se rende os membros estirando:
  330. Oh! feliz, a jogar se amanhecera!
  331. Tal, da fome esganado, o leão de salto
  332. No redil mansa grei, de susto muda,
  333. Roja, a boca ensangüenta e voraz brama.
  334. Não menor clade Euríalo abrasado
  335. No ignóbil vulgo exerce, e inadvertidos
  336. Salteia Abaris, Fado, Hebeso e Reto;
  337. Reto que alerta espia, e atrás se agacha
  338. De ampla cratera pávido; no erguer-se
  339. Toda a espada enterrou-se-lhe, e dos peitos
  340. Se lhe extrai mais a vida; em ânsias a alma,
  341. Sangue e vinho a golfar, purpúrea exala.
  342. Férvido o Teucro no furtivo estrago,
  343. Já vai-se aos do Messapo, onde a fogueira
  344. Via apagar-se, e em peias os cavalos
  345. Pascer em ordem; quando Niso em breve
  346. (Sentiu nímia a do ferro crua sede):
  347. “Basta, lhe diz, radeia o infenso dia.
  348. Foi sobejo o castigo; a estrada é feita.”
  349. Armas de argênteo engaste e argênteas copas
  350. E tapetes lindíssimos perpassam.
  351. Euríalo o jaez toma a Ramnetes
  352. E o cinto auri-tauxiado; que opulento,
  353. Por contrair n’ausência o jus de hospício,
  354. Mandou Cédico a Rêmulo Tibúrcio;
  355. Este ao neto os legando, e o neto em guerra
  356. Morto, o Rútulo os houve. Embalde o jovem
  357. Ao forte ombro os ajeita, e de Messapo
  358. O casco enlaça de gentil cimeira.
  359. Ao irem do arraial se pondo em salvo,
  360. Trezentos cavaleiros adargados
  361. Sob Volscente, no campo atrás deixando
  362. Um corpo instruto, com respostas vinham
  363. De Laurento ao rei Turno. E já propínquos
  364. Ao muro, aos dois lobrigam pelo atalho
  365. Dobrando à esquerda; sob a noite escassa,
  366. O dilúculo no elmo refletindo
  367. Trai o impróvido Euríalo. Volscente:
  368. “Alto! varões, clamou; bem vemos, alto!
  369. Donde, aonde, a que fim marchais em armas?”
  370. Sem boquejar, nas trevas mal fiados,
  371. Para a espessura fogem, mas, cercando-os
  372. Aqui e ali por cógnitas veredas,
  373. Trancam-lhes todo o passo os cavaleiros.
  374. Basto escuro azinhal houve enredado
  375. Com silveiras e espinhos; lá guiavam
  376. Trilhos ocultos e azinhaga estreita:
  377. Empece a Euríalo intrincada a sombra,
  378. Grave a presa, e o temor de extraviar-se.
  379. Niso escapole, e vai sem tento ao sítio
  380. Que ao depois, de Alba, foi chamado Albano;
  381. Lá seus gados Latino encurralava.
  382. Pára, e em redor o amigo em vão procura:
  383. “Euríalo infeliz! onde encontrar-te?
  384. Onde te abandonei?” Remexe a cata
  385. Falaz perplexa mata, retrocede,
  386. Vagueia em mudas brenhas. Dos cavalos
  387. Ouve o rincho e o tropel, ouve as trombetas,
  388. Nem tarda a ouvir clamor e a ver o sócio,
  389. Que em túrbido tumulto às mãos colhido,
  390. Pelo transvio e pela noite opresso,
  391. Contra o esquadrão inteiro o esforço balda.
  392. Como, com que arma ousar, com que denodo
  393. Libertá-lo? hostis golpes arrostando
  394. Irá ganhar, perdendo-a, eterna vida?
  395. Ei-lo, o braço contrai, sopesa uma hástia,
  396. E olhando a celsa Lua assim lhe implora:
  397. “Dos astros honra, tutelar dos bosques,
  398. Neste aperto, Latônia, tu me ajuda.
  399. Por mim se Hirtaco padre encheu-te as aras,
  400. Se eu do fecho e artesões do sacro teto
  401. Da caça os dons te pendurei, concede
  402. Turbar aquela mó, rege esta lança.”
  403. Disse; o corpo esforçando, a farpa atira:
  404. Zimbra alígero hastil noturnas sombras,
  405. No dorso de Sulmon se espeta e quebra,
  406. No pericárdio as lascas se lhe encarnam;
  407. Ele frígido rola, arca em soluços,
  408. Do fundo a borbotar cálido rio.
  409. Olham de espanto em roda; Niso ativo
  410. Libra de sobre a orelha outro arremesso,
  411. Que a Tago as fontes a silvar traspassa,
  412. E adere quente ao cérebro encravado.
  413. Em brasa e atroz, sem ver o autor dos tiros,
  414. Nem por onde acometa, urra Volscente:
  415. “Por ambos vai pagar teu morno sangue.”
  416. Despida a espada, a Euríalo se envia;
  417. Niso atônito grita, nem se encobre
  418. Na treva mais, que a dor o não consente:
  419. “A mim o ferro, a mim que tenho a culpa,
  420. Rútulos, convertei: nada ousou este,
  421. Nem pôde, aos céus o juro e aos cônscios astros;
  422. Sim quis muito a um amigo desgraçado.”
  423. A tais razões, o estoque iroso as costas
  424. Vara e ao coitado o branco seio rasga;
  425. Tomba Euríalo, em sangue os pulcros membros,
  426. No ombro a cerviz debruça moribundo:
  427. Ao talho assim do arado, falecendo
  428. Murcha a rosa; ou, das chuvas agravada,
  429. O colo inclina a lânguida papoila.
  430. Niso arremete, ao só Volscente busca,
  431. Só quer-se com Volscente; em massa o atacam:
  432. Desenvolto rodeia, e pela boca
  433. No Rútulo bramante esconde o gume
  434. Fulmíneo; a vida arranca-lhe morrendo.
  435. Aberto em chagas, sobre o amigo exânime
  436. Se deita, e expira em plácido sossego.
  437. Par ditoso! terás, se em verso eu valho,
  438. Perpétua fama, enquanto o pai de Roma
  439. O orbe domine, e a geração de Enéias
  440. Do Capitólio habite a rocha imóvel.
  441. A presa, o espólio, o morto os vencedores
  442. Levam chorando. É mor no campo o luto,
  443. Num morticínio achados com Ramnetes
  444. Numa exangue, Serrano e tantos cabos:
  445. Os semivivos corpos e os finados
  446. Contempla a turba, e o chão que da carnagem
  447. Fuma, e em regatos o espumante sangue.
  448. Nos despojos conhecem de Messapo
  449. O elmo, os jaezes com suor cobrados.
  450. Já largando a titônia crócea cama,
  451. Radiava no mundo a prima Aurora:
  452. Turno, difusa em tudo a luz febéia,
  453. Arma-se e arma os varões, e as bronzeadas
  454. Esquadras cada chefe estimulando,
  455. Com rumor vário lhes aguça as iras;
  456. E sobre hastas erectas, insultando-os
  457. Com algazarra, aspecto lastimoso!
  458. Pregam de Niso e Euríalo as cabeças.
  459. À esquerda os Teucros firmes se postaram,
  460. Que a destra os cinge o rio; estão mantendo
  461. Fossos e torreões, com mágoa as frontes,
  462. Bem conhecidas, contemplando fixas
  463. A estilar negra sânie. A Fama adeja
  464. Pelos pávidos muros empenada,
  465. E de Euríalo à mãe toa aos ouvidos:
  466. Enfia e gela a triste; a lançadeira
  467. Das mãos lhe cai, e o fio que tramava:
  468. Demente voa, carpe-se ululando;
  469. Entre armas e esquadrões, sobe às ameias,
  470. Sem lhe importar perigo, e os ares parte
  471. Com femíneo queixume: “És tu, meu filho?
  472. Báculo dos meus anos, tu pudeste,
  473. Cruel, negar-me o arrimo? nem, a tantos
  474. Riscos mandado, à genetriz mesquinha
  475. Deste um adeus sequer? Ai! filho, jazes
  476. Preia de aves e cães em terra estranha!
  477. Eu mãe, nem te cerrei funérea os olhos,
  478. Nem as chagas lavei, te expondo envolto
  479. Na teia que lavrava dia e noite,
  480. Consolando os pesares da velhice!
  481. Onde os láceros órgãos, rotos membros,
  482. Onde achar? Isto só de ti me resta,
  483. Peregrinei para isto e afrontei mares?
  484. Se há piedade em vós, morra eu primeira,
  485. Com vossos dardos, Rútulos, varai-me;
  486. Ou, pai supremo, um raio teu me abisme,
  487. Por compaixão, no Tártaro maldito,
  488. Já que a dor não me atalha a infausta vida.”
  489. Tudo geme, e o lamento conturbados
  490. Os corações consterna e os entorpece:
  491. Pois que o luto acendia, ao mando e aviso
  492. De Ilioneu e de Ascânio lagrimoso,
  493. Ideu e Actor em braços a recolhem.
  494. Medonho éreo clangor reboa ao longe,
  495. A grita se une à tuba, e o céu remuge.
  496. Conchada a manta, os Volscos se aforçuram
  497. A entulhar fossos, a arrombar tranqueiras;
  498. Tais insistem na brecha ou na escalada,
  499. Por onde a guarnição raleia e em pinha
  500. Menos densa entreluz. Com duros fustes,
  501. Com omnígeno tiro os defensores,
  502. A longo assédio afeitos, os repelem;
  503. Pesadas galgam pedras, por que rompam
  504. A espessa manta, a cujo abrigo o choque
  505. Os de fora sustêm: mas já não podem;
  506. Que, onde o grosso adensava-se, o inimigo
  507. Volve impetuosa mole, que os esmaga
  508. E a testudem separa: em cego marte
  509. Não pugnam mais; intrépidos a dardos
  510. Lançar porfiam da estacada os Frígios.
  511. D’além, torvo e feroz, Mezêncio o etrusco
  512. Pinho e brandões fumíferos sacode;
  513. De frisões domador, neptúnia prole,
  514. Valos destrói Messapo e escadas pede.
  515. Agora tu, Calíope, me ensina;
  516. Lembrai, narrai-me, ó deusas da memória,
  517. Que ruína e pranto fez de Turno o ferro,
  518. Por quem foi cada qual metido no Orco;
  519. Desdobrai-me as da guerra ingentes orlas.
  520. Torre altaneira havia e de árduas pontes
  521. Em lugar próprio: os Ítalos as forças
  522. Por derrocá-la envidam; propugnando-a,
  523. Soltam calhaus os Troas, das seteiras
  524. Despedem frechas mil. Turno o primeiro
  525. Joga ardente lanterna, e afixa ao lado
  526. Flama, que ateia ao vento e em solhos prende,
  527. Rói e agarra aos portais. Confuso e trépido
  528. O tropel dentro em vão se refugia:
  529. Recuam e amontoam-se onde a peste
  530. Não grassa; a torre, desabando ao peso,
  531. Rebenta, e do fragor todo o céu troa.
  532. De seu ferro passados, semimortos,
  533. O amplo destroço os cobre, ou vem de peitos
  534. Sobre o rijo madeiro. Escapa Lico,
  535. E o florente Helenor, a quem Licímnia
  536. Serva ao meônio rei gerou bastardo,
  537. E o mandou, contra o jus, armado a Tróia;
  538. Leve, em branco a rodela, inglório esgrime.
  539. De Turno acha-se o moço entre as fileiras,
  540. Aqui e ali de batalhões cercado;
  541. Perecedouro envia-se aos Latinos,
  542. Onde as lanças mais chovem: qual, de bastos
  543. Monteiros acuada, em sanha a fera,
  544. Não ignara afrontando a morte certa,
  545. De um só pulo aos venábulos se arroja.
  546. E Lico, mais ligeiro, entre hostes e armas
  547. Deita a fugir; a ameia quer pendente
  548. Apreender, segurar-se às mãos dos sócios:
  549. Turno à carreira dardejando o acossa,
  550. Vitorioso o invectiva: “O alcance nosso,
  551. Louco! evadir contavas?” Pelas pernas
  552. O aferra, e traz com grã porção do muro:
  553. No surto assim a armígera de Jove
  554. Preia nas unhas lebre ou alvo cisne;
  555. Assim rouba do aprisco o márcio lobo
  556. Anho à mãe, que o reclama em seu balido.
  557. A vozeria ecoa: invadem, fossos
  558. Entupem de faxina; aos altos parte
  559. Achas vibra. Do monte c’um fragmento,
  560. Pedra enorme, Ilioneu prostra a Lucécio,
  561. Que à porta achega fogo: a Emátio Ligro,
  562. A Corineu Asilas, bom na seta
  563. Falaz de longe aquele, este no dardo.
  564. Ceneu derriba a Ortígio, a Ceneu Turno;
  565. Turno a Clônio, Itis, Sagaris, Dioxipo,
  566. Prômulo, Idas, na estância dos cubelos.
  567. Cápis mata a Priverno, a quem Temilas
  568. D’hasta roçara: ao descobrir-se incauto
  569. Apalpando a ferida, ao lado esquerdo
  570. Rápida a letal seta a mão lhe prega,
  571. Dentro os d’alma espiráculos rompendo.
  572. Formoso, em pulcro arnês, de Arcente o filho
  573. Broslada a farda em cerco e de ferrenha
  574. Tinta ibera, o expediu seu pai, que em bosque
  575. Márcio o criara, onde às simétias margens
  576. Ara pingue e placável tem Palico:
  577. Deposta a lança, vezes três Mezêncio
  578. Volteia a funda, zunidora a impele;
  579. E, com líquido chumbo a do contrário
  580. Testa rachando, n’ampla arena o estende.
  581. Consta que Iulo, usado à montaria,
  582. A guerra então provou, com ágil frecha
  583. Rendendo o acre Numano, apelidado
  584. Rêmulo, que à menor irmã de Turno
  585. De fresco se enlaçara; e ante as falanges,
  586. Vociferando infâmias com doestos,
  587. Dessa aliança túmido e orgulhoso,
  588. Anda, e arrogante em gritos bizarreia:
  589. “Não vos peja outro assédio e à morte, ó Frígios
  590. Bi-cativos, trincheira e valo opordes?
  591. Eis os campeões que as bodas nos disputam!
  592. Que deus, que insânia vos lançou na Itália?
  593. Atridas cá, nem fraudulento Ulisses;
  594. Rija estirpe encontrais. No rio e ao forte
  595. Gelo os recém-nascidos roboramos:
  596. Caçam ledos, a mata infantes batem,
  597. Do arco asseteiam córneo, amansam poldros:
  598. Moços, trabalho aturam, comem pouco,
  599. Domam de ancinho a terra, expugnam praças.
  600. Gasta a idade em batalhas, de hasta inversa
  601. Picamos nossos bois; nem torpe as forças
  602. A velhice nos míngua e o vigor d’alma;
  603. O elmo nos preme as cãs; recentes presas
  604. Nos praz sempre acarrear, viver de roubos.
  605. Trajais múrice ardente, em cróceas galas
  606. Amoleceis; agradam-vos coréias,
  607. Laços nas coifas, túnicas de mangas.
  608. Frígias, não Frígios, pelo Dindimo ide;
  609. À tíbia afeitas bíssona, esses gládios
  610. A homens largai: da Berecíntia o buxo
  611. Ideu vos chama, e adufes e timbales.”
  612. Pragas, jactâncias, não lhas sofre Ascânio:
  613. De frente ajusta a seta ao nervo eqüino;
  614. Encurva as pontas, e detido a Jove
  615. Implora humilde: “Onipotente padre,
  616. Anui à nova audácia; eu dons solenes
  617. Te ofertarei no templo, e ante os altares
  618. Branco novilho de dourada fronte,
  619. Que à mãe se iguala e entona-se, remete
  620. Já de corno e de pés a areia esparge.”
  621. Do céu sereno, à esquerda, o rei troveja:
  622. O arco estala mortífero, e despede
  623. Horríssono farpão, que as fontes cavas
  624. De Rêmulo atravessa. “Vai, moteja
  625. Do dardânio valor. Dos bi-cativos
  626. Esta a resposta às rútulas bazófias.”
  627. Não mais Ascânio; o teucro aplauso estronda,
  628. Fremem de gosto, exaltam-no às estrelas.
  629. De cima a deus crinito, em lata nuvem
  630. Sentado, olhava o exército e a cidade,
  631. E ao vencedor menino: “Em brios, disse,
  632. Medra, Iulo; assim, garfo e tronco divo,
  633. Se monta aos astros: no porvir, das guerras
  634. O jus terá de Assáraco a prosápia;
  635. Tu não cabes em Tróia.” A tais palavras
  636. Do éter se atira, e as virações talhando,
  637. A Ascânio busca; transformou-se em Butes,
  638. De Anquises pajem, seu leal e antigo
  639. Porteiro mor, acrescentado em aio
  640. Do filho por Enéias. Ia Apolo
  641. Semelhando-o na voz, tez, cãs, e em armas
  642. Sevi-sonoras; e ao fogoso aluno:
  643. “Baste, Enêiada; impune ao grã Numano
  644. Frechaste; belo ensaio! a Febo o deves,
  645. Que não te inveja em feitos o emparelhes:
  646. Mas poupa-te, menino”. Aqui, despindo
  647. Mortal aspecto e no ar se esvaecendo,
  648. Na fuga o deus aos próceres mostrou-se,
  649. Que sentem chocalhar na aljava as setas.
  650. Por mando pois de Febo o ávido moço
  651. Coíbem do conflito, e a ele tornam,
  652. Metendo a vida em manifestos riscos.
  653. Muros, baluartes o alarido afunde.
  654. O arco atesam robusto, amentos libram,
  655. Juncam dardos o solo; escudos e elmos
  656. Rugem do atrito; endura-se a peleja:
  657. Tal de ocíduo aguaceiro o chão verberam
  658. Os cabritos nimbosos; tal graniza
  659. No mar, quando o Tonante horrendo esguelha
  660. Austral procela e despedaça as nuvens.
  661. Pândaro e Bícias, de Alcanor progênie,
  662. Que, a abetos do seu monte iguais, criou-os
  663. No ideu bosque de Jove a agreste Hiera,
  664. A porta abrem que Enéias cometeu-lhes,
  665. E afoitos o inimigo desafiam.
  666. Dentro, em face das torres, de aço e malha,
  667. De altas plumas, à destra e à sestra luzem:
  668. Qual, nas margens do Pado ou nas que ameno
  669. O Atesis rega, gêminos carvalhos,
  670. Intonsos desferindo aéreos topes,
  671. Verde a coma balançam. Livre a entrada,
  672. Os Rútulos investem. Já Quercente,
  673. Tmaro assomado, Equícolo galhardo
  674. E o márcio Hemom as tropas retraíam,
  675. Ou junto ao limiar as vidas punham.
  676. Ceva-se e cresce a raiva, e em globo os Teucros
  677. De fora ousam travar renhida pugna.
  678. Turno, que alhures bravo estrói e arrasa,
  679. Soube que, franco o acesso, os Teucros fervem
  680. Do fresco estrago; e, indômito bramindo,
  681. O ataque larga, e à porta rui Dardânia
  682. Contra os feros irmãos: topando abate
  683. A Antífates audaz, que uma Tebana
  684. Ao grã Sarpédon engendrou furtiva:
  685. O ítalo córneo dardo os ares frecha,
  686. Rasga-lhe o estômago e o profundo peito;
  687. Verte a negra ferida espúmeas ondas,
  688. E no pulmão varado o ferro aquece.
  689. A Méropo e Erimanto e Afídno prostra;
  690. Prostra a Bícias, fremente e de ígneos olhos,
  691. Não com dardo, que o dardo inútil fora,
  692. Mas fulgúrea falárica rechina,
  693. Bote a que dois não bastam couros táureos,
  694. Fiel dupla loriga de ouro e escamas;
  695. O chão da queda geme, e o corpo enorme
  696. Sobre o imenso pavês se estira e toa:
  697. Qual, em Baias eubóica despenhado
  698. Sáxeo pilar, com mole ingente erguido,
  699. Cai no golfo arruinando e em vaus se acrava;
  700. Túrbido o mar, remexe areia e lodo,
  701. Treme a alta Prochita, Inarime ecoa,
  702. Covil duro a Tifeu por Jove imposto.
  703. Fuga e atro medo aos Teucros infundido,
  704. Marte aos Latinos o acre ardor aviva;
  705. Que, dado o ensejo, intrépidos concorrem,
  706. E o deus armipotente embebem n’alma.
  707. Ao ver o irmão por terra, o angusto caso
  708. E má fortuna, Pândaro a couceira
  709. Torce, à porta arrimando os ombros largos;
  710. Mas, fora em transe amaro os seus deixados,
  711. Recolhe uma torrente de inimigos:
  712. Néscio! em Turno impetuoso não repara,
  713. Que entre a chusma na praça está metido,
  714. Como entre gado imbele imano tigre.
  715. De olhos corisca, horrendo as armas soam;
  716. No cimo a tremular sangüíneas cristas,
  717. Áscuas fuzila o escudo. A catadura
  718. Conhecem logo do membrudo chefe
  719. Turvados Teucros, e o gigante pula,
  720. Férvido e iroso da fraterna morte:
  721. “Esta a régia dotal não é de Amata,
  722. Nem de Ardea o pátrio muro a Turno encerra;
  723. Vês hostis arraiais sair não podes.”
  724. Turno sorri tranqüilo: “Anda, se és homem,
  725. Vem combater; e a Príamo refiras
  726. Que outro Aquiles achaste.” Aqui sacode
  727. Com suma força Pândaro escabrosa
  728. Lança de ásperos nós; que, no ar frustrada,
  729. Por Satúrnia, retorce e o portal ferra.
  730. “Pois da arma que manejo não te eximes;
  731. É diferente o golpe e a mão que o vibra.”
  732. Ei-lo, se alça nos pés, roda o montante;
  733. E, as têmporas partindo e impubes queixos,
  734. A cutilada a fronte escacha em duas.
  735. Do abalo a terra estronda: ali, morrendo,
  736. Os frouxos membros roja e dos miolos
  737. O arnês cruento; por igual fendida,
  738. De um ombro e do outro pende-lhe a cabeça.
  739. De assustados o dorso os Teucros viram;
  740. E, romper a estacada se ocorresse
  741. Ao vencedor e introduzir os sócios,
  742. Nesse dia findara a guerra e Tróia;
  743. Mas crua ardente sede o arrasta e cega.
  744. A Sagaris jarreta e a Giges logo,
  745. Hastas que saca aos fugitivos darda,
  746. E Juno a persegui-los o acorçoa.
  747. A Halis e pela adarga a Fegeu crava;
  748. Tronca a Noemom, Pritanis, Hálio, Alcandro,
  749. Que ínscios no muro o assalto rechaçavam.
  750. Estribado à trincheira, destro o gládio
  751. Brande a Linceu, que investe e auxílio clama;
  752. A cabeça de um talho cerceada
  753. Longe com o elmo jaz. Terror das feras
  754. De um revés tomba Amico, sem segundo
  755. No ervar a frecha e empeçonhar o ferro;
  756. Mais o Eólides Clício, e Creteu vate,
  757. Caro às musas; Creteu, cujo gosto era
  758. Tender acorde os nervos do alaúde,
  759. Armas cantar, varões, corcéis, batalhas.
  760. À nova do destroço, ardido acode
  761. Com Seresto Mnesteu, que dentro encontram
  762. O inimigo, e os consócios derrotados:
  763. “Onde, brada Mnesteu, fugis, Troianos?
  764. Que outros muros tereis, que outra guarida?
  765. Um só homem, fechado em vossa estância,
  766. Faz impune tamanhos morticínios?
  767. Tantos guerreiros precipita no Orco?
  768. Sem pejo do rei nosso e nossos deuses,
  769. Não vos instiga e move a pátria mesta?”
  770. Isto os alenta e inflama, em mó carregam;
  771. E Turno, em retirada, a parte busca
  772. Pelas águas cingida: a grandes brados
  773. Com mais vigor o acossa o tropel todo.
  774. Se a leão truculento de azagaias
  775. Vexa a turba, aterrado e acerbo olhando
  776. Recua; nem dar costas lhe consente
  777. Ira ou valor, nem ousa, embora o anele,
  778. Acometer zargunchos e monteiros:
  779. Não de outra forma Turno, dúbio e lento,
  780. Retrocede, estuoso e furibundo;
  781. Invadiu mesmo as hostes vezes duas,
  782. Duas as pôs em fuga e debandada.
  783. Mas já num corpo o exército se apressa:
  784. Nem a própria Satúrnia a mais se atreve;
  785. Que o soberano irmão lhe mandou Íris
  786. Com ordens pouco brandas, se insistindo
  787. Seu valido as muralhas não despeja.
  788. De um chuveiro de lanças molestado,
  789. Nem braço nem broquel já basta ao jovem:
  790. O elmo em torno estrepita e crebro tine;
  791. O éreo sólido arnês abolam pedras;
  792. Desmanchado o cocar, desfeita a malha,
  793. Dobram-lhe os tiros, golpes lhe amiúda
  794. O fulmíneo Mnesteu. Revê dos poros
  795. Largo suor e píceo arroio mana;
  796. Egro respira, o fôlego açodado
  797. Lhe agita os lassos membros. Todo em armas
  798. No flavo Tibre se atirou de um salto;
  799. Mansa a veia o recebe, ufano o leva,
  800. E da matança puro aos seus o entrega.

Sobre este livro · 1 nota

Comentário
As melhores passagens são a metamorfose das naus em ninfas, o episódio de Euríalo e Niso, e o último combate de Turno. A metamorfose contém-se em 47 versos; o episódio, em 321; o combate, em 128: mais da metade do livro. Se a isto ajuntarmos o ensaio de Ascânio em matar a Numano, a comparação de Turno com o Nilo, os outros seus combates, as façanhas de Pândaro e Bicias, a resistência de Mnesteu, e os dotes do estilo, é este nono igual aos mais gabados. — Mr. Amar, tradutor dos quatro últimos, observa: “Os dois livros precedentes prepararam os sucessos vindouros. Todo o Lácio está em armas; vai reaparecer Enéias, com numerosos auxiliares; mas quanto se passa em ausência realça o interesse da sua volta. Turno e seu conselho de guerra lançaram mão de uma circunstância favorável; e o poeta aproveita-se dela para abrir campo ao valor do rei dos Rútulos, e nos mostrar o digno rival que tem de disputar ao herói troiano Lavínia e o cetro de Itália. Assim, bem que só neste livro Enéias deixe de aparecer em pessoa, ele o enche inteiro por esta mesma ausência: é a de Aquiles, na Ilíada. Tudo se lhe refere necessariamente, como a um centro único, donde parte o movimento geral.” — A estas reflexões acrescento que há notável diferença na ausência dos dois heróis: a que teve lugar pela cólera de Aquiles, é danosa aos seus; esta, a que a prudência de Enéias o obrigou, decidiu a vitória.

Nota a nota · 3 notas

v. 176–502Com ele estava Euríalo: um mais lindo ⋯ A longo assédio afeitos, os repelem;
Passo a metamorfose das naus, guardando-me para as notas ao livro X. Mas falarei das censuras parciais ao sobreexcelente episódio de Euríalo e Niso. A principal é que os dois exercem uma carnificina inútil; o que mal assentava sobretudo em Euríalo, a quem o poeta pinta meigo e terno. Mas no coração humano cabem sentimentos bem diversos: Euríalo, tão piedoso para com sua mãe, tão fiel e dedicado amigo, sendo aluno e filho de um guerreiro, tendo vivido sempre entre armas, estava habituado a considerar como lícito o mal feito ao inimigo; e o ardor da idade o levava a pensar que exterminar os chefes e soldados contrários, era uma obra meritória e heróica. Chateaubriand faz sobressair estes sentimentos opostos, quando nota que as mulheres indianas, que tinham chorado e lamentado a Chactas, mostravam-se ao depois duras na ocasião em que o iam sacrificar, não considerando já nele o homem, porém só o inimigo. Euríalo fazia quase o mesmo, porque o fanatismo de partido sufoca em nós a humanidade; e as idéias daquele tempo sobre o direito da guerra não eram tão razoáveis como as do nosso; se bem que a melhoria dos modernos é as mais das vezes antes em teoria que na execução. — Há outra censura mais forte: como puderam os dois fazer tanta mortandade? era possível que estivesse dormindo todo o exército latino? Com efeito é difícil de conceber que eles tanto obrassem impunemente; mas não é mister supor que dormisse todo o exército: basta que dormisse a porção do lado que Euríalo e Niso guardavam; e por eles terem visto as fogueiras extintas por aquela banda, é que suspeitaram que dali os Rútulos dormiam. — Concedido o defeito apontado, esta é tênue mancha em uma composição onde Virgílio provaria o seu imenso talento para a tragédia, se já o não tivesse mostrado no livro IV. — Escuso especificar belezas que têm sido analisadas pelos autores que alego, e por muitos outros; mas em resumo direi algumas, para que o leitor as observe. A pintura dos chefes, encostados em suas lanças, de broquel no braço, deliberando no meio do campo; a chegada repentina dos mancebos; a exclamação do velho Aletes; o sublime discurso de Ascânio; a recomendação de Euríalo em favor de sua mãe, e a promessa do mesmo Ascânio; os presentes que os varões fazem aos dois jovens; as adequadas comparações; mais que tudo, a catástrofe com as diferentes peripécias, e a dor e desespero da mãe de Euríalo, são da mais elevada poesia. Bem se vê que Virgílio aproveitou a lição dos trágicos gregos, a quem tanto admirava. — Nos versos da tradução 204-206 há uma construção que forra palavras, a exemplo de Ferreira, e do moderno Garção: o nosso Moraes a explica no epítome de gramática, pag. 22 da edição de 1831.
↩ voltar à passagem, v. 176
v. 665E afoitos o inimigo desafiam.
Amenta eram certas lanças com uma correia que as ligava: veja-se a nota de La Rue. Adotei o termo, porque não temos equivalente: em análogo sentido o adotaram os Castelhanos, cuja língua, como irmã filha da romana, tem com a nossa tanta relação. — De passagem direi que há em Paris um professor de nomeada que, ignorando o português, ensina que este é uma corrupção do espanhol! A presunção de saber o que não se estuda pode gerar ainda maiores paradoxos.
↩ voltar ao verso 665
v. 798–818No flavo Tibre se atirou de um salto;
A retirada de Turno, depois de se ter mostrado um Aquiles, é descrita superiormente: o símile com o leão que, perseguido pelos monteiros, vai recuando lentamente, sem querer fugir, pinta o brio do rei dos Rútulos. Afinal, acossado pela multidão e por Mnesteu, lança-se ao rio e salva-se a nado, com todas as suas armas. Repare-se porém que essas façanhas são em ausência de Enéias, à vista de quem empalidece Turno, como um astro ao resplendor do Sol.
↩ voltar à passagem, v. 798
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