Entretanto que ao longe isto sucede
800 versos · 4 notas do tradutor
- Entretanto que ao longe isto sucede,
- A Satúrnia do Olimpo Íris despacha
- A Turno audaz: que em vale e sacro bosque
- Do avô Pilumno acaso descansava.
- “Turno, a Taumância diz com rósea boca,
- O andar do tempo e o ensejo te oferece
- Que um deus a prometer não se atrevera:
- Deixada a frota e a praça, foi-se Enéias
- À palatina corte; e em Córito inda,
- Seus confins penetrando, agrestes Lídios
- Recruta e apresta. Hesitas? sem demora
- Tu carros e frisões demanda, assalta
- O confuso arraial.” Nas asas presto
- Librada, monta às nuvens, onde o ingente
- Arco descreve. Ao conhecê-la o jovem,
- As palmas exalçando, com tais vozes
- A fuginte acompanha: “Íris, das auras
- Quem, eterno ornamento, a mim te envia?
- Donde esta repentina claridade?
- Rasgado o céu, diviso errantes astros:
- Quem sejas, por teu mando ao prélio corro.”
- Nisto, à margem caminha; e, haurindo a linfa
- À tona da corrente, aos deuses roga,
- De muitos votos carregando os ares.
- De auri-bordada veste e corcéis rico,
- Já na planície o exército marchava.
- Messapo à frente, a retaguarda cobrem
- Os Tirridas; no centro, as armas Turno
- Sustenta em chefe, e a todos sobreleva:
- Tal surge o Ganges, que silente em rios
- Sete engrossa: ou, dos agros refluindo,
- No álveo recolhe o Nilo a enchente pingue.
- Crescendo escuro na campina, os Teucros
- Um turbilhão de pó súbito avistam.
- De adverso bastião Caíco brada:
- “Qual em globo volteia atra caligem?
- Arma, arma, sócios, o inimigo avança,
- Os muros socorrei.” Trancam-se as portas,
- Aturde a grita, apinham-se às trincheiras.
- Ao partir, ordem foi do sábio Enéias
- Que, em sucesso fortuito, não se atrevam
- No raso, mas de dentro se defendam:
- Bem que à pugna os instigue ira e vergonha,
- Encerram-se, e o preceito executando,
- No valo e torreões o ataque atendem.
- Turno, com vinte insignes cavaleiros,
- Transpõe tardia tropa, aos muros voa;
- Pluma o adorna vermelha em casco de ouro,
- Fouveiro trácio alípede cavalga.
- “Quem enceta e a meu lado investe, ó bravos?
- Quem?...” E um dardo arremessa em desafio,
- À praça árduo se arroja. Os seus o aplaudem,
- Atrás dele com frêmito bramando
- Horríssono: da inércia frígia pasmam,
- De que homens tais combate em plaino evitem
- À sombra do arraial. Furioso trota,
- Ínvios sítios perlustra e ingresso tenta.
- Se alta noite, insidiando o curral cheio,
- Uiva na sebe o lobo ao vento e à chuva,
- Berram cordeiros ao materno bafo;
- Com gana à preia ausente, ele braveja;
- Secas de sangue as fauces, longa o anseia
- A raiva de comer curtida e junta:
- Não com menos violência, ante os reparos
- Arde ao Rútulo a dor nos ossos duros;
- Por onde e como desaloje os Teucros,
- E no campo os derrame, idéia e pensa.
- A frota, que às trincheiras abrigada
- Ondas fluviais e marachões torneiam,
- Invade-a: pega de um flagrante pinho,
- Provoca férvido os contentes moços;
- Que, do exemplo incitados, arrebatam,
- Fachos, tições: enrolam-se nos ares
- Cinza e fagulhas, fumo e píceo lume.
- Que deus, Musas, livrou do incêndio os vasos?
- Quem extinguiu, dizei-me, o fogo horrível?
- É prisco o fato, mas perene a fama.
- No Ida as naus quando Enéias construía
- Para entregar-se ao pélago, assim contam
- Que a Jove orara a Berecíntia madre:
- “O que, domado o céu, pedir-te venho,
- Dá, filho, à tua genetriz querida.
- Há muito amo um pinhal, a mim dicado
- Nesse gárgaro cimo, umbroso e opaco
- De alvares troncos, de alentados bordos:
- Leda o cedi para a dardânia frota;
- Hoje um temor solícita me rala:
- Solve-o; possam contigo as preces minhas,
- As naus viagem nem tufão destroce:
- Valha o terem nascido em nossos montes.”
- O que as estrelas gira: “Ó mãe, responde,
- Que fado exiges tu para estas quilhas?
- Conseguir obra humana imortal vida!
- Certo empreender o Teucro incertos riscos!
- Tal potência a que deus foi permitida?
- Antes, o porto ausônio as que a aferrarem,
- Salvo a Laurento Enéias transportando,
- A mortal forma desfarei; que sejam
- Marítimas deidades algum dia,
- E o ponto espúmeo com seu peito rasguem,
- Como a Neréia Doto ou Galatéia.”
- Isto ao jurar, do irmão pela água estígia
- E torrentes de pez e atra voragem,
- Anui; e ao senho treme o Olimpo todo.
- Raia o dia aprazado pelas Parcas;
- De Turno a injúria dos baixéis as tedas
- Faz que Cibele aparte. Aos olhos brilha
- Nova luz, e da aurora em vasta nuvem
- Os coros do Ida pelo céu transcorrem;
- Aos Rútulos e Troas voz terrível,
- Talhando os ares tomba: “Apressurados,
- Frígios, não vos armeis por esses lenhos;
- Os mares queimará mais fácil Turno
- Que os meus sacros pinheiros. Ide soltas,
- Ide, Ops vos ordena, equóreas deusas.”
- Súbito as popas, cada qual das ribas
- Cabos rompendo, os beques mergulhados,
- Se afundam quais delfins. Do pego, ó pasmo!
- Quantas retinha a praia brônzeas proas
- Surdem, mudadas em virgíneos rostos,
- E vão-se ao largo. Os Rútulos se espantam,
- Messapo enfia, turbam-se os cavalos;
- Rouco o Tibre, assustado, o passo encolhe.
- Só Turno, firme e afoito, anima, exprobra:
- “São contra Enéias, grita, esses portentos;
- Roubou-lhe Jove o sólito recurso:
- Já nem tiros, nem fogo as naus aguardam.
- Fechado o mar, vedou-se a fuga aos Teucros,
- Falta-lhes o mais orbe; e a terra é nossa,
- Mil ítalas nações por nós conspiram.
- Nada os fatais oráculos me assombram,
- Se de alguns o inimigo ora se jacta.
- Basta a Vênus que os seus na pingue Ausônia
- Toquem: tenho outro fado, é retalhá-los...
- Nefandos! que usurpar-me a esposa querem.
- Nem só pene aos Atridas uma afronta,
- Nem se arme só Micenas. Suficiente
- É cair uma vez: ter já pecado
- Sobrara a escarmentar os que inda o sexo
- Não entejam femíneo. Esses que estribam
- Em valo e fosso, à morte curto empeço,
- Em cinza resolvidas as muralhas
- De Ílio não viram, por Netuno obradas?
- Quem, varões, a tranqueira a ferro escala,
- E o trépido arraial comigo expugna?
- Não vulcânia armadura, não mil quilhas
- Hei mister. Confederem toda a Etrúria;
- Não temam do paládio inertes furtos,
- Noturnos atalaias degolados,
- Ou que no eqüino ventre nos metamos:
- Sitiando às claras, queimarei seus muros.
- Nem o hão com Danaos certo e Aqueus bisonhos,
- Que Heitor foi por dez anos entretendo.
- Gasto o melhor do dia, o resto, amigos,
- Refocilai-vos do começo alegres,
- E a combater a tento apercebei-vos.”
- Manter entanto a cargo tem Messapo
- Velas às portas e ao redor fogueiras.
- Cabos catorze aos muros põe de guarda,
- Com cem soldados cada qual, flamantes
- De ouro e purpúreos de lustrosas plumas.
- Patrulham, rendem-se, e na relva bebem
- De êneos pichéis vasando. Os fogos luzem,
- E a folgar se despende a noite insone.
- Do valo os Troas vigiando, em armas
- Têm-se ao merlões; a medo as portas rondam,
- Pontes comunicando e baluartes.
- A Seresto e Mnesteu, que ardidos instam,
- Foi que Enéias fiou, se urgisse o caso,
- Ter cobro em tudo e moderar os moços.
- Cada esquadrão por sorte expõe-se aos muros,
- E se reveza em postos arriscados.
- Era de um sentinela o Hirtácio Niso,
- Valente, ágil, perito em dardo e seta,
- Que Ida fragueira a Enéias deu por sócio.
- Com ele estava Euríalo: um mais lindo
- Não houve que vestisse arnês troiano;
- Sombreava-lhe o buço intensas faces.
- Ternura os une; à lide a par correndo,
- Então a mesma porta ambos velavam.
- “Euríalo, diz Niso, um deus mo inspira,
- Ou quem quer chama deus o ardor que o punge?
- A empreender um combate, um feito insigne,
- Me excita a mente; inquieta-me o repouso.
- Nota a fidúcia: os lumes quase mortos,
- Com sono e vinho os Rútulos prostrados,
- Reina à larga o silêncio. Ouve o que n’alma
- Fermento e cuido: anelam por Enéias
- Senado e povo, e quem lhes traga novas
- Cogitam; se o meu prêmio te asseguram
- (Fique-me a fama), ao pé daquele outeiro
- Achar posso o caminho a Palantéia.”
- Da glória estimulado, absorto o jovem
- Impugna o acre amigo: “E tu me enjeitasl
- Abandonar-te eu, Niso, em dúbio lance!
- Nem tal meu pai, o marcial Ofeltes,
- Criou-me em terror graio e tróicas lidas,
- Nem tal me houve contigo, dês que abraço
- Do exímio cabo a sorte. A luz desprezo,
- E da que esperas honra em troco a vendo.”
- Niso então: “Assim Jove, ou deus propício,
- A ti me torne ovante, que o teu brio
- Não me é suspeito, nem podia sê-lo.
- Mas, se algum (riscos tantos considera),
- Se algum nume ou revés me descaminha,
- Deves sobreviver-me; és tão menino!
- Haja, para enterrar-me, quem da pugna
- Me subtraia ou resgate; e, se a desdita
- Mo tolhe, quem sufrague o ausente corpo
- E me adorne um sepulcro. Nem dor tanta
- Eu cause a tua mãe, que só das muitas
- Seguir-te ousou, de Acesta não curando.”
- E ele: “Fúteis razões por demais teces;
- Não mudo parecer: eia, partamos.”
- Desperta os guardas, que no posto os rendem,
- E com seu Niso ao príncipe caminha.
- O Sono pelo globo derramava
- O esquecimento e alívio dos trabalhos:
- Sós em conselho os generais dardânios,
- Arrimados ao pique e à sestra o escudo,
- Em pleno campo a discutir, pesquisam
- Quem a Enéias ou como expediriam.
- Niso e Euríalo à pressa, alvoroçados,
- Audiência pedem; que o negócio é grave,
- Nem sofre dilação. Iulo acolhe-os,
- E com licença o Hirtácides começa:
- “Atendei-nos, Enêiadas benignos;
- Por nossa idade não julgueis do intento.
- Modorra e vinho os Rútulos sepulta;
- Sítio azado observámos, onde a estrada
- Junto à porta do mar se abre em dois ramos;
- Raros os fogos, negro fumo deitam:
- Se permitis que o lance aproveitemos,
- Enéias cedo cá tereis de volta,
- Feita grande matança e rica presa.
- Não há temor de errar: de escuros vales
- Em contínuas caçadas Palantéia
- Descobrimos, e o rio conhecemos”.
- Aqui logo o maduro e anoso Aletes:
- “Pátrios deuses, de Tróia arrimo eterno,
- Não quereis extirpar-nos, pois criastes
- Em peitos juvenis valor tamanho.
- Qual... (nisto, ambos abraça, as destras cerra.
- E lhes inunda em lágrimas os rostos)
- Qual, varões, vos será condigno prêmio
- À tanta audácia? O mais gentil vos paguem
- Vossa virtude e o céu; depois, Enéias;
- E na idade completa nunca Iulo
- Deslembre este serviço.” — “Antes eu, Niso,
- Que em meu pai só me salvo, ajunta Iulo,
- Obtesto o lar de Assáraco e os penates,
- E o juro aos penetrais da branca Vesta,
- Minha fé, minha dita, em vós deponho:
- Meu pai restituí-me; ao seu conspecto
- Nada infausto haverá. Dois belos copos
- De prata e com relevos, que de Arisba
- Cativa ele tomou, dois grandes áureos
- Talentos ganharás, mais duas trípodes,
- E a que Elisa me deu cratera antiga.
- E se, a Itália domada, o cetro alcanço
- E os despojos partir; viste o cavalo,
- Viste o arnês em que Turno campeava?
- O broquel nítido, o cocar vermelho?
- Serão teus, Niso, do sorteio exemptos.
- Doze meu pai te brindará formosas
- Mães e crias, escravos doze armados,
- E as mesmas lavras que possui Latino.
- A ti porém, que em anos me semelhas,
- N’alma te abraço e adoto por consórcio,
- Venerando menino: em qualquer ponto
- Sem ti não terei glória; em paz e em guerra
- Ser-me-ás fiel agente e conselheiro.”
- Euríalo acudiu: “Nunca estes ausos,
- Rode a fortuna próspera ou contrária,
- Desmentirei; mas dom maior te imploro:
- Minha mãe, do priâmeo prisco sangue,
- De Ílio comigo se apartou mesquinha,
- Por mim de Acestes enjeitou o asilo;
- Não saudada, ignorando esta aventura,
- Vou deixá-la; eu não posso com seu pranto,
- Por tua destra e pela noite o afirmo:
- Rogo-te que a socorras e a consoles
- Na penúria e viuvez; se esta esperança
- Tenho de ti, com mais denodo parto.”
- Abalados os Teucros lagrimavam,
- Mormente Ascânio; a imagem da paterna
- Piedade o comovia, e assim perora:
- “Tudo prometo, que mereces tudo.
- Mãe ser-me-á, de Creusa exceto o nome:
- A quem tal parto produziu compete,
- Seja o evento qual for, mercê não leve.
- Por vida minha, pela qual jurava
- Meu pai, a tua mãe e aos teus respondo
- Por quanto aqui reservo e te asseguro
- Para o feliz regresso.” Então, choroso,
- Do ombro a lâmina despe, obra mui prima
- Do Gnósio Licaon, de punhos de ouro,
- Embainhada em marfim. Mnesteu, leonino
- Hirto espólio veloso a Niso doa;
- Troca o morrião com este o fido Aletes.
- Marcham prestes; e às portas, entre votos,
- De jovens e anciãos o que há de ilustre
- Os conduz: manda ao padre o nobre Ascânio.
- Já com viril prudência, avisos cautos;
- Que o vento espalha e em auras se esvaecem.
- Transpondo os fossos, pela treva em busca
- Do inimigo arraial, vão ser primeiro
- De exício a muitos. Vêem na grama esparsos
- Ebri-dormentes corpos; empinados
- Na praia os carros; vinhos e homens e armas,
- Entre as rodas e os loros, de mistura.
- “Amigo, adverte Niso, ânimo! é tempo.
- O caminho eis aqui: tu longe atenta,
- Não nos dêem por detrás, vigia em torno,
- Que eu te abro devastando e alargo a trilha.”
- Preme a voz, e de espada agride o altivo
- Ramnetes, que em felpudas alcatifas,
- Solto a roncar, evaporava o sono:
- Rei e augur diletíssimo ao rei Turno,
- Da mortal peste o agouro não o esquiva,
- Três dos seus, que entre as armas jazem néscios,
- Fere, e o pajem de Remo e o seu cocheiro
- Sob os corcéis deitado: ao talho os colos
- Pendem. Corta a cabeça ao próprio Remo,
- E em sangue fica a soluçar o tronco,
- Do cruor quente a cama e o chão molhado.
- Mata a Lamo e Lamiro, e o flóreo e belo
- Serrano; que, passada a noite ao jogo,
- Ao deus se rende os membros estirando:
- Oh! feliz, a jogar se amanhecera!
- Tal, da fome esganado, o leão de salto
- No redil mansa grei, de susto muda,
- Roja, a boca ensangüenta e voraz brama.
- Não menor clade Euríalo abrasado
- No ignóbil vulgo exerce, e inadvertidos
- Salteia Abaris, Fado, Hebeso e Reto;
- Reto que alerta espia, e atrás se agacha
- De ampla cratera pávido; no erguer-se
- Toda a espada enterrou-se-lhe, e dos peitos
- Se lhe extrai mais a vida; em ânsias a alma,
- Sangue e vinho a golfar, purpúrea exala.
- Férvido o Teucro no furtivo estrago,
- Já vai-se aos do Messapo, onde a fogueira
- Via apagar-se, e em peias os cavalos
- Pascer em ordem; quando Niso em breve
- (Sentiu nímia a do ferro crua sede):
- “Basta, lhe diz, radeia o infenso dia.
- Foi sobejo o castigo; a estrada é feita.”
- Armas de argênteo engaste e argênteas copas
- E tapetes lindíssimos perpassam.
- Euríalo o jaez toma a Ramnetes
- E o cinto auri-tauxiado; que opulento,
- Por contrair n’ausência o jus de hospício,
- Mandou Cédico a Rêmulo Tibúrcio;
- Este ao neto os legando, e o neto em guerra
- Morto, o Rútulo os houve. Embalde o jovem
- Ao forte ombro os ajeita, e de Messapo
- O casco enlaça de gentil cimeira.
- Ao irem do arraial se pondo em salvo,
- Trezentos cavaleiros adargados
- Sob Volscente, no campo atrás deixando
- Um corpo instruto, com respostas vinham
- De Laurento ao rei Turno. E já propínquos
- Ao muro, aos dois lobrigam pelo atalho
- Dobrando à esquerda; sob a noite escassa,
- O dilúculo no elmo refletindo
- Trai o impróvido Euríalo. Volscente:
- “Alto! varões, clamou; bem vemos, alto!
- Donde, aonde, a que fim marchais em armas?”
- Sem boquejar, nas trevas mal fiados,
- Para a espessura fogem, mas, cercando-os
- Aqui e ali por cógnitas veredas,
- Trancam-lhes todo o passo os cavaleiros.
- Basto escuro azinhal houve enredado
- Com silveiras e espinhos; lá guiavam
- Trilhos ocultos e azinhaga estreita:
- Empece a Euríalo intrincada a sombra,
- Grave a presa, e o temor de extraviar-se.
- Niso escapole, e vai sem tento ao sítio
- Que ao depois, de Alba, foi chamado Albano;
- Lá seus gados Latino encurralava.
- Pára, e em redor o amigo em vão procura:
- “Euríalo infeliz! onde encontrar-te?
- Onde te abandonei?” Remexe a cata
- Falaz perplexa mata, retrocede,
- Vagueia em mudas brenhas. Dos cavalos
- Ouve o rincho e o tropel, ouve as trombetas,
- Nem tarda a ouvir clamor e a ver o sócio,
- Que em túrbido tumulto às mãos colhido,
- Pelo transvio e pela noite opresso,
- Contra o esquadrão inteiro o esforço balda.
- Como, com que arma ousar, com que denodo
- Libertá-lo? hostis golpes arrostando
- Irá ganhar, perdendo-a, eterna vida?
- Ei-lo, o braço contrai, sopesa uma hástia,
- E olhando a celsa Lua assim lhe implora:
- “Dos astros honra, tutelar dos bosques,
- Neste aperto, Latônia, tu me ajuda.
- Por mim se Hirtaco padre encheu-te as aras,
- Se eu do fecho e artesões do sacro teto
- Da caça os dons te pendurei, concede
- Turbar aquela mó, rege esta lança.”
- Disse; o corpo esforçando, a farpa atira:
- Zimbra alígero hastil noturnas sombras,
- No dorso de Sulmon se espeta e quebra,
- No pericárdio as lascas se lhe encarnam;
- Ele frígido rola, arca em soluços,
- Do fundo a borbotar cálido rio.
- Olham de espanto em roda; Niso ativo
- Libra de sobre a orelha outro arremesso,
- Que a Tago as fontes a silvar traspassa,
- E adere quente ao cérebro encravado.
- Em brasa e atroz, sem ver o autor dos tiros,
- Nem por onde acometa, urra Volscente:
- “Por ambos vai pagar teu morno sangue.”
- Despida a espada, a Euríalo se envia;
- Niso atônito grita, nem se encobre
- Na treva mais, que a dor o não consente:
- “A mim o ferro, a mim que tenho a culpa,
- Rútulos, convertei: nada ousou este,
- Nem pôde, aos céus o juro e aos cônscios astros;
- Sim quis muito a um amigo desgraçado.”
- A tais razões, o estoque iroso as costas
- Vara e ao coitado o branco seio rasga;
- Tomba Euríalo, em sangue os pulcros membros,
- No ombro a cerviz debruça moribundo:
- Ao talho assim do arado, falecendo
- Murcha a rosa; ou, das chuvas agravada,
- O colo inclina a lânguida papoila.
- Niso arremete, ao só Volscente busca,
- Só quer-se com Volscente; em massa o atacam:
- Desenvolto rodeia, e pela boca
- No Rútulo bramante esconde o gume
- Fulmíneo; a vida arranca-lhe morrendo.
- Aberto em chagas, sobre o amigo exânime
- Se deita, e expira em plácido sossego.
- Par ditoso! terás, se em verso eu valho,
- Perpétua fama, enquanto o pai de Roma
- O orbe domine, e a geração de Enéias
- Do Capitólio habite a rocha imóvel.
- A presa, o espólio, o morto os vencedores
- Levam chorando. É mor no campo o luto,
- Num morticínio achados com Ramnetes
- Numa exangue, Serrano e tantos cabos:
- Os semivivos corpos e os finados
- Contempla a turba, e o chão que da carnagem
- Fuma, e em regatos o espumante sangue.
- Nos despojos conhecem de Messapo
- O elmo, os jaezes com suor cobrados.
- Já largando a titônia crócea cama,
- Radiava no mundo a prima Aurora:
- Turno, difusa em tudo a luz febéia,
- Arma-se e arma os varões, e as bronzeadas
- Esquadras cada chefe estimulando,
- Com rumor vário lhes aguça as iras;
- E sobre hastas erectas, insultando-os
- Com algazarra, aspecto lastimoso!
- Pregam de Niso e Euríalo as cabeças.
- À esquerda os Teucros firmes se postaram,
- Que a destra os cinge o rio; estão mantendo
- Fossos e torreões, com mágoa as frontes,
- Bem conhecidas, contemplando fixas
- A estilar negra sânie. A Fama adeja
- Pelos pávidos muros empenada,
- E de Euríalo à mãe toa aos ouvidos:
- Enfia e gela a triste; a lançadeira
- Das mãos lhe cai, e o fio que tramava:
- Demente voa, carpe-se ululando;
- Entre armas e esquadrões, sobe às ameias,
- Sem lhe importar perigo, e os ares parte
- Com femíneo queixume: “És tu, meu filho?
- Báculo dos meus anos, tu pudeste,
- Cruel, negar-me o arrimo? nem, a tantos
- Riscos mandado, à genetriz mesquinha
- Deste um adeus sequer? Ai! filho, jazes
- Preia de aves e cães em terra estranha!
- Eu mãe, nem te cerrei funérea os olhos,
- Nem as chagas lavei, te expondo envolto
- Na teia que lavrava dia e noite,
- Consolando os pesares da velhice!
- Onde os láceros órgãos, rotos membros,
- Onde achar? Isto só de ti me resta,
- Peregrinei para isto e afrontei mares?
- Se há piedade em vós, morra eu primeira,
- Com vossos dardos, Rútulos, varai-me;
- Ou, pai supremo, um raio teu me abisme,
- Por compaixão, no Tártaro maldito,
- Já que a dor não me atalha a infausta vida.”
- Tudo geme, e o lamento conturbados
- Os corações consterna e os entorpece:
- Pois que o luto acendia, ao mando e aviso
- De Ilioneu e de Ascânio lagrimoso,
- Ideu e Actor em braços a recolhem.
- Medonho éreo clangor reboa ao longe,
- A grita se une à tuba, e o céu remuge.
- Conchada a manta, os Volscos se aforçuram
- A entulhar fossos, a arrombar tranqueiras;
- Tais insistem na brecha ou na escalada,
- Por onde a guarnição raleia e em pinha
- Menos densa entreluz. Com duros fustes,
- Com omnígeno tiro os defensores,
- A longo assédio afeitos, os repelem;
- Pesadas galgam pedras, por que rompam
- A espessa manta, a cujo abrigo o choque
- Os de fora sustêm: mas já não podem;
- Que, onde o grosso adensava-se, o inimigo
- Volve impetuosa mole, que os esmaga
- E a testudem separa: em cego marte
- Não pugnam mais; intrépidos a dardos
- Lançar porfiam da estacada os Frígios.
- D’além, torvo e feroz, Mezêncio o etrusco
- Pinho e brandões fumíferos sacode;
- De frisões domador, neptúnia prole,
- Valos destrói Messapo e escadas pede.
- Agora tu, Calíope, me ensina;
- Lembrai, narrai-me, ó deusas da memória,
- Que ruína e pranto fez de Turno o ferro,
- Por quem foi cada qual metido no Orco;
- Desdobrai-me as da guerra ingentes orlas.
- Torre altaneira havia e de árduas pontes
- Em lugar próprio: os Ítalos as forças
- Por derrocá-la envidam; propugnando-a,
- Soltam calhaus os Troas, das seteiras
- Despedem frechas mil. Turno o primeiro
- Joga ardente lanterna, e afixa ao lado
- Flama, que ateia ao vento e em solhos prende,
- Rói e agarra aos portais. Confuso e trépido
- O tropel dentro em vão se refugia:
- Recuam e amontoam-se onde a peste
- Não grassa; a torre, desabando ao peso,
- Rebenta, e do fragor todo o céu troa.
- De seu ferro passados, semimortos,
- O amplo destroço os cobre, ou vem de peitos
- Sobre o rijo madeiro. Escapa Lico,
- E o florente Helenor, a quem Licímnia
- Serva ao meônio rei gerou bastardo,
- E o mandou, contra o jus, armado a Tróia;
- Leve, em branco a rodela, inglório esgrime.
- De Turno acha-se o moço entre as fileiras,
- Aqui e ali de batalhões cercado;
- Perecedouro envia-se aos Latinos,
- Onde as lanças mais chovem: qual, de bastos
- Monteiros acuada, em sanha a fera,
- Não ignara afrontando a morte certa,
- De um só pulo aos venábulos se arroja.
- E Lico, mais ligeiro, entre hostes e armas
- Deita a fugir; a ameia quer pendente
- Apreender, segurar-se às mãos dos sócios:
- Turno à carreira dardejando o acossa,
- Vitorioso o invectiva: “O alcance nosso,
- Louco! evadir contavas?” Pelas pernas
- O aferra, e traz com grã porção do muro:
- No surto assim a armígera de Jove
- Preia nas unhas lebre ou alvo cisne;
- Assim rouba do aprisco o márcio lobo
- Anho à mãe, que o reclama em seu balido.
- A vozeria ecoa: invadem, fossos
- Entupem de faxina; aos altos parte
- Achas vibra. Do monte c’um fragmento,
- Pedra enorme, Ilioneu prostra a Lucécio,
- Que à porta achega fogo: a Emátio Ligro,
- A Corineu Asilas, bom na seta
- Falaz de longe aquele, este no dardo.
- Ceneu derriba a Ortígio, a Ceneu Turno;
- Turno a Clônio, Itis, Sagaris, Dioxipo,
- Prômulo, Idas, na estância dos cubelos.
- Cápis mata a Priverno, a quem Temilas
- D’hasta roçara: ao descobrir-se incauto
- Apalpando a ferida, ao lado esquerdo
- Rápida a letal seta a mão lhe prega,
- Dentro os d’alma espiráculos rompendo.
- Formoso, em pulcro arnês, de Arcente o filho
- Broslada a farda em cerco e de ferrenha
- Tinta ibera, o expediu seu pai, que em bosque
- Márcio o criara, onde às simétias margens
- Ara pingue e placável tem Palico:
- Deposta a lança, vezes três Mezêncio
- Volteia a funda, zunidora a impele;
- E, com líquido chumbo a do contrário
- Testa rachando, n’ampla arena o estende.
- Consta que Iulo, usado à montaria,
- A guerra então provou, com ágil frecha
- Rendendo o acre Numano, apelidado
- Rêmulo, que à menor irmã de Turno
- De fresco se enlaçara; e ante as falanges,
- Vociferando infâmias com doestos,
- Dessa aliança túmido e orgulhoso,
- Anda, e arrogante em gritos bizarreia:
- “Não vos peja outro assédio e à morte, ó Frígios
- Bi-cativos, trincheira e valo opordes?
- Eis os campeões que as bodas nos disputam!
- Que deus, que insânia vos lançou na Itália?
- Atridas cá, nem fraudulento Ulisses;
- Rija estirpe encontrais. No rio e ao forte
- Gelo os recém-nascidos roboramos:
- Caçam ledos, a mata infantes batem,
- Do arco asseteiam córneo, amansam poldros:
- Moços, trabalho aturam, comem pouco,
- Domam de ancinho a terra, expugnam praças.
- Gasta a idade em batalhas, de hasta inversa
- Picamos nossos bois; nem torpe as forças
- A velhice nos míngua e o vigor d’alma;
- O elmo nos preme as cãs; recentes presas
- Nos praz sempre acarrear, viver de roubos.
- Trajais múrice ardente, em cróceas galas
- Amoleceis; agradam-vos coréias,
- Laços nas coifas, túnicas de mangas.
- Frígias, não Frígios, pelo Dindimo ide;
- À tíbia afeitas bíssona, esses gládios
- A homens largai: da Berecíntia o buxo
- Ideu vos chama, e adufes e timbales.”
- Pragas, jactâncias, não lhas sofre Ascânio:
- De frente ajusta a seta ao nervo eqüino;
- Encurva as pontas, e detido a Jove
- Implora humilde: “Onipotente padre,
- Anui à nova audácia; eu dons solenes
- Te ofertarei no templo, e ante os altares
- Branco novilho de dourada fronte,
- Que à mãe se iguala e entona-se, remete
- Já de corno e de pés a areia esparge.”
- Do céu sereno, à esquerda, o rei troveja:
- O arco estala mortífero, e despede
- Horríssono farpão, que as fontes cavas
- De Rêmulo atravessa. “Vai, moteja
- Do dardânio valor. Dos bi-cativos
- Esta a resposta às rútulas bazófias.”
- Não mais Ascânio; o teucro aplauso estronda,
- Fremem de gosto, exaltam-no às estrelas.
- De cima a deus crinito, em lata nuvem
- Sentado, olhava o exército e a cidade,
- E ao vencedor menino: “Em brios, disse,
- Medra, Iulo; assim, garfo e tronco divo,
- Se monta aos astros: no porvir, das guerras
- O jus terá de Assáraco a prosápia;
- Tu não cabes em Tróia.” A tais palavras
- Do éter se atira, e as virações talhando,
- A Ascânio busca; transformou-se em Butes,
- De Anquises pajem, seu leal e antigo
- Porteiro mor, acrescentado em aio
- Do filho por Enéias. Ia Apolo
- Semelhando-o na voz, tez, cãs, e em armas
- Sevi-sonoras; e ao fogoso aluno:
- “Baste, Enêiada; impune ao grã Numano
- Frechaste; belo ensaio! a Febo o deves,
- Que não te inveja em feitos o emparelhes:
- Mas poupa-te, menino”. Aqui, despindo
- Mortal aspecto e no ar se esvaecendo,
- Na fuga o deus aos próceres mostrou-se,
- Que sentem chocalhar na aljava as setas.
- Por mando pois de Febo o ávido moço
- Coíbem do conflito, e a ele tornam,
- Metendo a vida em manifestos riscos.
- Muros, baluartes o alarido afunde.
- O arco atesam robusto, amentos libram,
- Juncam dardos o solo; escudos e elmos
- Rugem do atrito; endura-se a peleja:
- Tal de ocíduo aguaceiro o chão verberam
- Os cabritos nimbosos; tal graniza
- No mar, quando o Tonante horrendo esguelha
- Austral procela e despedaça as nuvens.
- Pândaro e Bícias, de Alcanor progênie,
- Que, a abetos do seu monte iguais, criou-os
- No ideu bosque de Jove a agreste Hiera,
- A porta abrem que Enéias cometeu-lhes,
- E afoitos o inimigo desafiam.
- Dentro, em face das torres, de aço e malha,
- De altas plumas, à destra e à sestra luzem:
- Qual, nas margens do Pado ou nas que ameno
- O Atesis rega, gêminos carvalhos,
- Intonsos desferindo aéreos topes,
- Verde a coma balançam. Livre a entrada,
- Os Rútulos investem. Já Quercente,
- Tmaro assomado, Equícolo galhardo
- E o márcio Hemom as tropas retraíam,
- Ou junto ao limiar as vidas punham.
- Ceva-se e cresce a raiva, e em globo os Teucros
- De fora ousam travar renhida pugna.
- Turno, que alhures bravo estrói e arrasa,
- Soube que, franco o acesso, os Teucros fervem
- Do fresco estrago; e, indômito bramindo,
- O ataque larga, e à porta rui Dardânia
- Contra os feros irmãos: topando abate
- A Antífates audaz, que uma Tebana
- Ao grã Sarpédon engendrou furtiva:
- O ítalo córneo dardo os ares frecha,
- Rasga-lhe o estômago e o profundo peito;
- Verte a negra ferida espúmeas ondas,
- E no pulmão varado o ferro aquece.
- A Méropo e Erimanto e Afídno prostra;
- Prostra a Bícias, fremente e de ígneos olhos,
- Não com dardo, que o dardo inútil fora,
- Mas fulgúrea falárica rechina,
- Bote a que dois não bastam couros táureos,
- Fiel dupla loriga de ouro e escamas;
- O chão da queda geme, e o corpo enorme
- Sobre o imenso pavês se estira e toa:
- Qual, em Baias eubóica despenhado
- Sáxeo pilar, com mole ingente erguido,
- Cai no golfo arruinando e em vaus se acrava;
- Túrbido o mar, remexe areia e lodo,
- Treme a alta Prochita, Inarime ecoa,
- Covil duro a Tifeu por Jove imposto.
- Fuga e atro medo aos Teucros infundido,
- Marte aos Latinos o acre ardor aviva;
- Que, dado o ensejo, intrépidos concorrem,
- E o deus armipotente embebem n’alma.
- Ao ver o irmão por terra, o angusto caso
- E má fortuna, Pândaro a couceira
- Torce, à porta arrimando os ombros largos;
- Mas, fora em transe amaro os seus deixados,
- Recolhe uma torrente de inimigos:
- Néscio! em Turno impetuoso não repara,
- Que entre a chusma na praça está metido,
- Como entre gado imbele imano tigre.
- De olhos corisca, horrendo as armas soam;
- No cimo a tremular sangüíneas cristas,
- Áscuas fuzila o escudo. A catadura
- Conhecem logo do membrudo chefe
- Turvados Teucros, e o gigante pula,
- Férvido e iroso da fraterna morte:
- “Esta a régia dotal não é de Amata,
- Nem de Ardea o pátrio muro a Turno encerra;
- Vês hostis arraiais sair não podes.”
- Turno sorri tranqüilo: “Anda, se és homem,
- Vem combater; e a Príamo refiras
- Que outro Aquiles achaste.” Aqui sacode
- Com suma força Pândaro escabrosa
- Lança de ásperos nós; que, no ar frustrada,
- Por Satúrnia, retorce e o portal ferra.
- “Pois da arma que manejo não te eximes;
- É diferente o golpe e a mão que o vibra.”
- Ei-lo, se alça nos pés, roda o montante;
- E, as têmporas partindo e impubes queixos,
- A cutilada a fronte escacha em duas.
- Do abalo a terra estronda: ali, morrendo,
- Os frouxos membros roja e dos miolos
- O arnês cruento; por igual fendida,
- De um ombro e do outro pende-lhe a cabeça.
- De assustados o dorso os Teucros viram;
- E, romper a estacada se ocorresse
- Ao vencedor e introduzir os sócios,
- Nesse dia findara a guerra e Tróia;
- Mas crua ardente sede o arrasta e cega.
- A Sagaris jarreta e a Giges logo,
- Hastas que saca aos fugitivos darda,
- E Juno a persegui-los o acorçoa.
- A Halis e pela adarga a Fegeu crava;
- Tronca a Noemom, Pritanis, Hálio, Alcandro,
- Que ínscios no muro o assalto rechaçavam.
- Estribado à trincheira, destro o gládio
- Brande a Linceu, que investe e auxílio clama;
- A cabeça de um talho cerceada
- Longe com o elmo jaz. Terror das feras
- De um revés tomba Amico, sem segundo
- No ervar a frecha e empeçonhar o ferro;
- Mais o Eólides Clício, e Creteu vate,
- Caro às musas; Creteu, cujo gosto era
- Tender acorde os nervos do alaúde,
- Armas cantar, varões, corcéis, batalhas.
- À nova do destroço, ardido acode
- Com Seresto Mnesteu, que dentro encontram
- O inimigo, e os consócios derrotados:
- “Onde, brada Mnesteu, fugis, Troianos?
- Que outros muros tereis, que outra guarida?
- Um só homem, fechado em vossa estância,
- Faz impune tamanhos morticínios?
- Tantos guerreiros precipita no Orco?
- Sem pejo do rei nosso e nossos deuses,
- Não vos instiga e move a pátria mesta?”
- Isto os alenta e inflama, em mó carregam;
- E Turno, em retirada, a parte busca
- Pelas águas cingida: a grandes brados
- Com mais vigor o acossa o tropel todo.
- Se a leão truculento de azagaias
- Vexa a turba, aterrado e acerbo olhando
- Recua; nem dar costas lhe consente
- Ira ou valor, nem ousa, embora o anele,
- Acometer zargunchos e monteiros:
- Não de outra forma Turno, dúbio e lento,
- Retrocede, estuoso e furibundo;
- Invadiu mesmo as hostes vezes duas,
- Duas as pôs em fuga e debandada.
- Mas já num corpo o exército se apressa:
- Nem a própria Satúrnia a mais se atreve;
- Que o soberano irmão lhe mandou Íris
- Com ordens pouco brandas, se insistindo
- Seu valido as muralhas não despeja.
- De um chuveiro de lanças molestado,
- Nem braço nem broquel já basta ao jovem:
- O elmo em torno estrepita e crebro tine;
- O éreo sólido arnês abolam pedras;
- Desmanchado o cocar, desfeita a malha,
- Dobram-lhe os tiros, golpes lhe amiúda
- O fulmíneo Mnesteu. Revê dos poros
- Largo suor e píceo arroio mana;
- Egro respira, o fôlego açodado
- Lhe agita os lassos membros. Todo em armas
- No flavo Tibre se atirou de um salto;
- Mansa a veia o recebe, ufano o leva,
- E da matança puro aos seus o entrega.