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EneidaLivro VI
LivroVI

Assim pranteia, e às naus demite as rédeas

939 versos · 10 notas do tradutor


  1. Assim pranteia, e às naus demite as rédeas;
  2. Vai-se a Cumas eubóica e manso aborda.
  3. Tenaz dente as fundeia; ao largo aproam,
  4. E as curvas popas a ribeira cobrem.
  5. Moços na praia hespéria ardidos saltam:
  6. Quem sementes de chama em siliciosas
  7. Veias cata; quem, denso alvergue às feras,
  8. Esmoita a selva, e os rios mostra achados.
  9. O piedoso varão penetra o alcáçar
  10. Em que Apolo preside, e as profundezas
  11. Onde à horrenda Sibila ânimo e alento
  12. O délio vate inspira e abre os futuros.
  13. Sobem da Trívia os lucos e áureos tetos.
  14. Dédalo, é fama, dos minóios reinos
  15. Fugindo, ao céu fiou-se em lestes penas,
  16. Por via insólita ao gelado Arcturo
  17. Audaz navega; e alfim na cidadela
  18. Calcídica assentando, os remos de asas
  19. Te sagra, ó Febo, e erige um bravo templo.
  20. Nas portadas insculpe o morto Andrógeo,
  21. E em castigo os Cecrópidas multados
  22. Ah! na perda anual de sete filhos;
  23. A urna está do sorteio. Ao mar soberba
  24. Corresponde fronteira a gnósia terra:
  25. Aqui do touro o amor cruel, e ao furto
  26. Submetida Pasife, e a raça mista
  27. Pôs, monumentos da nefanda Vênus,
  28. Minotauro biforme; aqui da estância
  29. Afadigosa o enredo inextricável,
  30. Dolos que, da princesa apaixonada
  31. Com pena, o mestre solve, e em tais desvaires
  32. Cegos vestígios por um fio rege.
  33. Não fosse, Ícaro, a dor, nessa obra-prima
  34. Teu caso entrara: foi gravá-lo em ouro,
  35. Duas vezes falece a mão paterna.
  36. Mais perlustraram tudo, se expedido
  37. Não regressasse Acates com Deifobe
  38. De Glauco, a Febo e Apolo consagrada;
  39. Que se endereça ao rei: “Não mais, Enéias,
  40. De espetáculos basta; ora te cumpre
  41. De intacta grei matar novilhos sete,
  42. Sete ovelhas do rito.” E ao santuário,
  43. Aviado o sacrifício, os Teucros chama.
  44. Rasgou-se antro espaçoso em roca eubéia,
  45. Com cem bocas, cem largas avenidas,
  46. Donde oráculos cem troa a Sibila.
  47. Já no limen a virgem: “Toca os fados
  48. A interrogar; o deus, eis o deus” clama.
  49. Súbito, às portas, o semblante muda,
  50. A voz não uma, não composta a coma;
  51. Rábido incha-lhe o peito, arqueja e ofega;
  52. Maior parece, em tom mortal não soa,
  53. Quando a bafeja de mais perto o nume:
  54. “Tu cessas, Frígio, de orações e votos?
  55. Cessas? pois de outro modo a casa atônita
  56. Não se escancara.” Disse, e emudeceu.
  57. Aos Teucros frio horror nos ossos côa,
  58. E orou do íntimo o rei: “Febo, a quem sempre
  59. D’Ílio o mal consternou, que a tróica frecha
  60. De Páris dirigiste contra Aquiles,
  61. Tua guia, o pélago arrostei que abrange
  62. Terras tais, e os Massilos tão remotos,
  63. E o dilatado chão que as Sirtes orlam:
  64. Já que aportámos na arredia Itália,
  65. De Pérgamo a desgraça aqui termine.
  66. Vós ó deuses e deusas, que empecera
  67. Dardânia e a glória sua, é justo que ora
  68. Todos poupeis a geração dos Frígios.
  69. E tu me dá, santíssima vidente,
  70. (O indevido não peço) em Lácio os numes
  71. Nossos fixar e os vagabundos lares.
  72. De mármore maciço a Febo e à Trívia
  73. Templos e festas criarei febéias.
  74. A ti no reino espera-te um sacrário,
  75. Que te guarde as respostas e os arcanos
  76. Ditados, alma vate, à gente minha;
  77. Hei de eleitos ministros dedicar-te.
  78. Não confies, to rogo, às folhas versos,
  79. Nem dos ventos ludíbrio aos ares voem:
  80. Tu mesma os cantes.” À oração pôs termo.
  81. Torva e indócil ao deus, por sacudi-lo
  82. Do ansiado peito, a debacar braveja:
  83. Tanto ele mais fatiga a boca irosa,
  84. E o fero coração lhe oprime e doma.
  85. Eis do antro os cem portões, de si patentes,
  86. Vaticínios despedem pelas auras:
  87. “Oh! quite enfim do pego, em terra a transes
  88. Mais graves te prepara. Hão de ir os Troas
  89. A Lavino, sossega; antes contudo
  90. Lá não ter ido: guerra, hórrida guerra,
  91. Do sangue o Tibre inchado espumar vejo.
  92. Nem dórios arraiais, nem Xanto ou Simois,
  93. Te faltarão; também de deusa filho,
  94. Há no Lácio outro Aquiles; nunca os Teucros
  95. Tenaz deixará Juno. A quem, na angústia,
  96. A que ítalas nações, a que cidades
  97. Não tens de suplicar! E sempre a causa,
  98. Uma hóspita mulher, um toro externo.
  99. Tu não fraqueies; mais que a sorte ousado,
  100. Resiste aos males. De livrar-te o meio
  101. Te abre graia cidade, o que nem pensas.”
  102. Do ádito canta ambages tais medonhos,
  103. Muge na gruta, o vero embrulha em trevas:
  104. À furibunda os freios bate Apolo,
  105. N’alma excitada estímulos vertendo.
  106. Muda a Sibila, mais quieta a sanha,
  107. Começa o teucro herói: “Nenhum trabalho,
  108. Por novo e inopinado, estranho ó virgem:
  109. Um por um antevi, ponderei todos.
  110. Pois que é do inferno a entrada e aqui, me afirmam,
  111. Do revesso Aqueronte o lago obscuro,
  112. Ir, só te imploro, ao caro pai me caiba:
  113. Mostra-me e patenteia as sacras portas.
  114. Eu, nestes ombros, dentre a chama e infindas
  115. Chuças hostis o arrebatei, salvei-o;
  116. Ele enfermo comigo afrontou mares,
  117. O pélago aturava e o céu minazes,
  118. Com mais vigor do que à velhice é dado.
  119. Requerendo ordenou-mo, e humilde que hajas
  120. Dó do filho e do pai deprecar venho:
  121. Tudo se te faculta; Hécate embalde
  122. Não te propôs, ó casta, ao luco averno.
  123. Se Orfeu pôde avocar da esposa os manes,
  124. Em trácia acorde cítara fiado;
  125. Se, com alterna morte o irmão remindo,
  126. Pólux tanto essa via anda e desanda,
  127. (Por que a Teseu citar e o grande Alcides?)
  128. Eu provenho também do rei supremo.”
  129. Dest’arte orava, às aras apoiado;
  130. E ela acrescenta: “Anquísea e diva estirpe,
  131. Descer a Dite é fácil; dia e noite
  132. Seus cancelos o Tártaro franqueia:
  133. Tornar atrás e à luz, eis todo o ponto,
  134. Eis todo o afã. Do reto Jove amados,
  135. Ou por virtude ardente ao céu subidos,
  136. Poucos, filhos dos deuses, o alcançaram:
  137. Medeia um bosque, e sinuoso em torno
  138. Enfuscado o Cocito a espreguiçar-se.
  139. Mas vezes duas se tranar a Estige
  140. E a lôbrega morada ver cobiças,
  141. Se tanto folgas do ímprobo trabalho,
  142. Ouve e à risca o executa. Árvore opaca,
  143. Dicado à inferna Juno, oculta um ramo
  144. N’haste e nas folhas áureo: em vale umbroso
  145. O encobre e fecha a denegrida selva.
  146. Sem que destronque o aurícomo rebento,
  147. No Orco ninguém se interna: é dom que exige
  148. E instituiu Prosérpina formosa.
  149. Um fora, brota o novo, e do luzente
  150. Metal frondesce a vara. Em alto a mira,
  151. Indaga, e achando respeitoso o apanhes;
  152. Que, a te ser destinado, ele espontâneo
  153. Logo te cederá; senão, com força
  154. Nem duro ferro poderás sacá-lo.
  155. Porém, desta consulta enquanto pendes,
  156. Ai! mal sabes que as naus te incesta agora
  157. De amigo o exânime o feral cadáver:
  158. No sepulcro o aposenta; em negras reses
  159. Encete a expiação. É como aos vivos
  160. O ínvio reino sombrio e estígios lucos
  161. Hás de avistar.” Calou-se, e os lábios cerra.
  162. De olhos fixos, tristonho, eventos cegos
  163. A cogitar, a gruta Enéias larga:
  164. Trilhando-lhe a pegada, o fido Acates
  165. Volve iguais pensamentos. Sobre o sócio
  166. Que, ao dizer da Sibila, enterrar devem,
  167. Travam conversação comprida e vária;
  168. Té que a Miseno vêem de indigna morte
  169. Jazer em seco; o Eólides Miseno,
  170. Sem superior com bronze alticanoro
  171. No incitar os varões e acender Marte,
  172. Pajem de Heitor, pugnava à sua ilharga,
  173. No lítuo singular, na lança exímio.
  174. Extinto o grande Heitor às mãos de Aquiles,
  175. O fortíssimo herói juntou-se a Enéias,
  176. Não somenos senhor. Mas quando, enchendo
  177. Acaso o mar com ressonante concha,
  178. Louco a tanger os deuses desafia,
  179. À falsa fé, de inveja entre uns penedos
  180. O afogou (se é de crer) Tritão nas vagas.
  181. Todos, mormente o pio Enéias, fremem,
  182. Cercam-no pranteando; e obedientes
  183. À douta guia, ao céu funérea pira
  184. D’árvores cumulada erguer porfiam.
  185. Covil de feras, velha mata exploram:
  186. Prostra-se o pinho alvar, grita o machado
  187. No sobro rijo, nas fraxíneas traves;
  188. O fendível carvalho as cunhas racham;
  189. Vêm dos montes tombando ingentes ornos.
  190. Primeiro no trabalho, exorta os sócios,
  191. Dos mesmos instrumentos se arma Enéias;
  192. E a mata olhando imensa, mil cuidados
  193. No ânimo revolvendo, em preces rompe:
  194. “Oh! se nesta espessura esse áureo garfo
  195. Deparássemos nós; como ai! tão certa
  196. Foi contra ti, Miseno, a profecia.”
  197. Inda falava, e ante ele duas pombas
  198. Do céu voando na verdura pousam.
  199. As aves maternais o egrégio cabo
  200. Conhece e brada: “Se há caminho, ó guias,
  201. Inclinai vosso adejo aos bosques onde
  202. Rico sombreia o ramo ao pingue solo!
  203. No lance, ó diva mãe! não me faleças.”
  204. Então retém-se a observar das pombas
  205. A tendência e os sinais. Pascendo aos vôos,
  206. Só quanto a vista alcance dos que as seguem,
  207. Elas avançam: perto das gargantas
  208. Do pestilente Averno, alando-se ambas,
  209. Sulcam o etéreo fluido, e enfim descaem
  210. Na dúplice anelada árvore, donde
  211. Reluz discorde brilho entre a ramagem.
  212. Qual visgo sói, no alheio pé gerado,
  213. Verdecer e enramar-se ao brumal frio,
  214. Nos troncos enrolando os cróceos gomos;
  215. Na enzinha opaca tal vegeta esse ouro,
  216. E a folheta crepita à branda aragem.
  217. Dele, inda assim tardio, ávido Enéias
  218. Pega, rápido o quebra, e à vate o leva.
  219. Não menos a Miseno os seus lamentam,
  220. Na praia honras prestando à ingrata cinza.
  221. Formam de achas de roble e píceas teias,
  222. De atras folhas tecida, a excelsa pira;
  223. Põem-lhe adiante exequiais ciprestes,
  224. No alto a decoram de fulgentes armas.
  225. Aquecem caldeirões que em ondas fervem,
  226. Lavam-lhe o frio corpo, e todo ungido,
  227. A gemer e a chorar, no esquife o deitam;
  228. Vestem-lhe o usado purpurino manto:
  229. Outros o ingente féretro carregam,
  230. Triste mister, sustendo, ao modo avito
  231. Averso o rosto, os sotopostos fachos;
  232. Conjunto na fogueira o incenso fuma,
  233. Viandas, copas de infundidos óleos.
  234. Com vinho, assente a cinza e queda a chama,
  235. O borralho poroso e o resto apuram;
  236. Corineu colhe a ossada em éneo cado:
  237. De fausta oliva um galho ensopa n’água,
  238. Três vezes borrifando asperge os sócios,
  239. Três profere as novíssimas palavras.
  240. Da campa sobre a mole impôs Enéias
  241. O remo do varão, o arnês e a tuba,
  242. No monte Aéreo, que é Miseno agora,
  243. E há de este nome conservar perene.
  244. Isto feito, prossegue e as ordens cumpre.
  245. De amplo hiato espelunca alta e lapídea,
  246. Fusca selva a munia e lago imano,
  247. Sobre o qual transvoar impune as aves
  248. Nunca puderam, tal das fauces turvas
  249. Odor exala pelo azul convexo;
  250. Donde em grego o lugar chamou-se Aornon.
  251. Quatro almalhos ali tergi-nigrantes
  252. A vate expõe, nos testos vinho entorna,
  253. Entre os cornos tosquia, e em sacro fogo
  254. Lança em primícia o pêlo; vocifera
  255. Hécate no Érebo e nos céus potente.
  256. Facas ao sangradouro, alguns em taças
  257. Cruor tépido aparam. Mesmo à espada
  258. Enéias das Eumênides à madre
  259. E à Terra irmã cordeira preta imola,
  260. E a ti fere, Prosérpina, uma toura;
  261. Alça da Estige ao rei noturnas aras;
  262. Em holocausto as vísceras bovinas,
  263. Derrama azeite no debulho ardente.
  264. Eis sob os pés, ao primo albor do dia,
  265. A remugir o chão, mover-se os cumes
  266. Do arvoredo; e na sombra, ao vir a deusa,
  267. Surde um canino uivar. “Profanos, longe,
  268. Oh! longe deste bosque, a vate exclama:
  269. Tu, Frígio (aqui denodo, aqui firmeza),
  270. Desembainha o ferro, a estrada invade.”
  271. Nisto, furiosa entranha-se na gruta;
  272. Com não tímido passo a iguala Enéias.
  273. Deuses! que império sobre as almas tendes,
  274. Caladas sombras, Flegetonte e Caos,
  275. Taciturnos vastíssimos contornos,
  276. Dai-me o que ouvi narrar, dai-me os arcanos
  277. Do abismo descoser caliginoso.
  278. D’erma noite iam sós no escuro envoltos,
  279. Por vã plutônia estância e vácuos reinos,
  280. Qual se anda à luz falaz da incerta Lua
  281. Por matas, quando Jove embrusca o pólo
  282. E às coisas tira a cor tristonha treva.
  283. No vestíbulo mesmo, às fauces do Orco
  284. Se aninha o ultriz Remorso, e o Luto e o Medo;
  285. Pálidos Morbos e a Velhice triste,
  286. Má conselheira a Fome e a vil Penúria,
  287. Visões de horror; da mente os ruins prazeres,
  288. E a Morte e a Lida, e o Sono irmão da Morte:
  289. Defronte a letal Guerra, e em férreo catre
  290. As Fúrias, e a Discórdia insana que ata
  291. Cruentos nastros na vipérea grenha.
  292. No centro, anosos braços largo e opaco
  293. Olmo expande, e nos ramos se diz moram
  294. A cada folha os sonhos vãos pegados.
  295. Monstros mil aos portais, biformes Cilas,
  296. Os Centauros, as Górgonas se alojam,
  297. Mais o animal de Lerna horri-stridente,
  298. E o fantasma tricórpore e as Hárpias.
  299. Eis de pavor o gume saca Enéias,
  300. Tem-se à espera; e, se a mestra não lhe adverte
  301. Que eram sem corpo avoejantes vidas
  302. E ocas formas sutis, ele investira
  303. E de aço inútil açoitara sombras.
  304. Daqui parte o caminho do Aqueronte,
  305. Que em funda bolha férvida voragem,
  306. E ao Cocito arremessa areia e lodo.
  307. Fero esquálido arrais guarda estas águas,
  308. Caronte hediondo, cuja barba espessa
  309. Branqueia inculta, os lumes lhe chamejam,
  310. E aos ombros suja capa em nó lhe pende:
  311. Puxando à vara, ou mareando as velas,
  312. Em cimba enfarruscada os vultos passa;
  313. Velho, mas como um deus, robusto e verde.
  314. Tropel confuso às margens se arremessa:
  315. Bravos guerreiros de alma luz privados,
  316. Varões, meninos, mães, inuptas virgens,
  317. Jovens ante seus pais à queima entregues:
  318. Quantas no outono as despegadas folhas
  319. Caem aos primeiros frios; ou quão bastas
  320. Glomeram-se aves do alto pego à terra,
  321. Quando além-mar a temperados climas
  322. Gélido ano as envia e as afugenta.
  323. No transporte rogando a preferência,
  324. Ávidas mãos à oposta riba estendem:
  325. Brusco admite o barqueiro estes e aqueles;
  326. Muitos porém da praia arreda esquivo.
  327. A Enéias o tumulto espanta e abala:
  328. “Por que, ó virgem, das almas o concurso
  329. Busca este rio? por que enxotam-se umas,
  330. E o vau lívido a remo as outras varrem?”
  331. Breve torna a longeva: “Ó nobre cabo,
  332. Diva prole certíssima, o estagnado
  333. Cocito vês profundo e a crua Estige,
  334. Por quem temem faltar jurando os numes.
  335. Pobre turba inumada é quanto avistas;
  336. Caronte, o arrais; sepultos, os que embarcam.
  337. Nem pode algum, se os ossos não descansam,
  338. Montar a margem torva e rouca veia:
  339. Cem anos volteando ansiosos vagam;
  340. O estanque alfim rever, transpor conseguem.”
  341. O Anquisíades pára, e a sorte iníqua
  342. Detém-se a contemplar. Devisa aflito
  343. Mestos, sem funerais, Leucaspe e Oronte,
  344. Chefes da lícia esquadra; os quais, de Tróia
  345. Partidos, por tormentas soçobraram,
  346. Austro n’água envolvendo a nau e a gente.
  347. Seu piloto apresenta-se, que há pouco
  348. Na rota líbia, enquanto observa os astros,
  349. Da popa resvalou, foi de mergulho.
  350. Na escuridão lhe grita ao lobrigá-lo:
  351. “Que deus a nós roubou-te, ó Palinuro,
  352. E te afundou no ponto? Nunca em falha,
  353. Só nisto, Apolo achei, pois me cantava
  354. Incólume n’Ausônia abordarias:
  355. E ei-la a promessa!” O nauta replicou-lhe:
  356. “Nem de Febo a cortina, ó forte Anquíseo,
  357. Te iludiu, nem há deus que me afundasse.
  358. Regendo o curso, ao leme eu me aferrava;
  359. Arrancado com força, ele comigo
  360. Se precipita. Aos crespos mares juro,
  361. Nada temi por mim, senão que a tua
  362. Nau, sem leme, sem mestre, perecesse,
  363. Crescendo os escarcéus. Violento Noto
  364. Me rojou pelo imenso equóreo gólfão
  365. Três noites invernais: ao quarto lume
  366. De cima de uma vaga enxergo a Itália.
  367. Vou nadando, e em seguro já me agarro,
  368. Grave e molhado, às quinas de um rochedo,
  369. Quando, encontrar supondo grosso espólio,
  370. Homens cruéis a ferro me acometem.
  371. Ora o vento, a maré, me joga à praia.
  372. Pela jucunda luz, celestes auras,
  373. Pelo aumento de Iulo e por Anquises,
  374. Desta ânsia me descarga: ou tu me enterra,
  375. Que o podes indo a Vélia; ou, se há maneira,
  376. Se a genetriz, invicto rei, t’a indica
  377. (Nem creio navegar desassistido
  378. Queiras tais rios e a palude horrível),
  379. Dá-me a destra e me leva pelas ondas;
  380. Do remanso da morte eu goze ao menos.”
  381. “Donde, o atalha a Sibila, ó Palinuro,
  382. Donde esse ímpio desejo? não mandado
  383. A severa corrente olhar das Fúrias,
  384. Traspassando insepulto a estígia borda!
  385. Não penses em dobrar com rogo os fados.
  386. Mas por conforto e alívio atento escuta:
  387. Dessa comarca, instados por assombros,
  388. Hão de os vizinhos sufragar teus ossos,
  389. Com dons solenes tumular-te, e o sítio
  390. Terá de Palinuro o nome eterno.”
  391. Deste nome se paga, e um tanto as penas
  392. Do coração modera e desafoga.
  393. Marchando avante, às águas se apropínquam.
  394. Do lago o arrais, que os avistou no mudo
  395. Bosque andando, à ribeira encaminhados,
  396. Os salteia e os exprobra: “Tu, quem sejas,
  397. Nstas margens armado o que pretendes?
  398. Nem mais um passo; aqui somente as sombras
  399. E a soporosa Noite e o Sono habitam:
  400. Os vivos não transporta o casco estígio.
  401. Nem me gabo de haver tomado Alcides,
  402. Piritôo e Teseu, bem que invencíveis
  403. Prole fossem divina: aquele trouxe
  404. Dos pés do trono o guardião do inferno
  405. Tremente e agrilhoado; ao régio toro
  406. Subtrair a senhora os dois tentaram.”
  407. Curto responde a Anfísia: “Tais insídias
  408. Não temas; estas armas não te ofendem:
  409. No antro ladrando eterno, exangues sombras
  410. Assuste o grã porteiro; ao tio casta,
  411. Recatada Prosérpina se encerre.
  412. Tão guerreiro quão pio, ao Orco Enéias
  413. Desce ante o pai. Se a filial virtude
  414. Não te abranda e comove, ei-lo (descobre
  415. Na veste o ramo oculto), reconhece-o.”
  416. De ira as entranhas túmidas se aplacam;
  417. Nem mais tugiu. Da haste fatal mirando
  418. O venerável dom, não visto há muito,
  419. Volta a cerúlea popa e à riba encosta.
  420. Abancadas ao longo afasta as almas,
  421. Faz praça, e a bordo o capitão recebe.
  422. Ao peso a barca nas costuras geme,
  423. Rimosa da lagoa aos sorvos bebe;
  424. Além depõe a salvo a guia e o Frígio,
  425. Em morraçal verdoso e limo informe.
  426. Com trifauce latir Cérbero ingente,
  427. Deitado em cova oposta, o reino atroa.
  428. Seus serpentinos colos já se erriçam;
  429. Lança-lhe a vate um sonorento bolo
  430. De mel e confeições, que, as três gargantas
  431. Escachando glotão, raivoso engole;
  432. E, os costados em terra, entorpecido,
  433. Por toda a gruta o corpo enorme estira.
  434. Sopito o monstro, a entrada ocupa Enéias,
  435. E lesto evade a irremeável onda.
  436. Logo se ouve ao limiar vagido e choro,
  437. Tenros ais dos que ao seio em que mamavam
  438. Arrebatou, privou do doce alento,
  439. Imergiu dia infausto em luto acerbo.
  440. Por crime falso à morte os condenados
  441. Estão perto. Os lugares não se assinam
  442. Sem sortes, sem juiz: rodando a urna,
  443. Chama ao silente povo e inquire Minos,
  444. E das vidas conhece e dos pecados.
  445. Cá vizinham soturnos os que, insontes
  446. A luz odiando, as almas desataram,
  447. Vítimas do suicídio. Oh! quanto agora
  448. Prefeririam padecer no mundo
  449. Cru trabalho e pobreza! Há lei que o veda,
  450. E, em voltas nove circunfusa a Estige,
  451. Triste e inamável, os refreia e prende.
  452. Não mui distantes, os lugentes campos
  453. (É seu nome) estendidos se dilatam;
  454. Onde os que empeçonhou de amor a febre
  455. Mirtedo cobre de secretas sendas,
  456. Nem da paixão tirana a morte os livra.
  457. Lá Prócris, Fedra, Erífile passeia,
  458. Mesta do filho atroz mostrando os golpes;
  459. Também Pasife, Laodâmia e Evadne;
  460. Cênis, de fêmea transformada em homem,
  461. Por fadário a seu sexo reduzida.
  462. No bando, fresca a chaga, errava a Tíria
  463. Nos desvios da selva: assim que Enéias
  464. Ao pé chegou no escuro a distingui-la,
  465. Qual do mês no começo alguém nas nuvens
  466. Apontar vê Lucina ou cuida vê-la,
  467. Meigo e amoroso lagrimando fala:
  468. “Infeliz Dido! o núncio não mentiu-me,
  469. Desesperada a ferro te finaste!
  470. E autor eu fui! Rainha, aos céus to juro,
  471. No imo centro se há fé, larguei teu porto
  472. A meu pesar: forçaram-me os supremos,
  473. Que, no império da noite me afundando,
  474. Por brejos, por tojais, a andar me obrigam;
  475. Nem cri tamanha dor causar partindo.
  476. Tu foges? tu me esquivas? tem-te; os fados
  477. Este último colóquio nos concedem.”
  478. Tal a Dido, que irosa e torva o encara,
  479. Embrandecia o herói com pranto e mágoas:
  480. Ela aversa no chão pregava os olhos;
  481. Nem mais seu rosto à prática se move
  482. Que dura sílice ou marpésia rocha.
  483. Infensa escapa-se, e em retiro umbroso
  484. Do marido Siqueu se abriga ao peito,
  485. Que terno corresponde a seus cuidados.
  486. Longo trato, a chorar o injusto caso,
  487. Compungido e saudoso o Teucro a segue.
  488. Vão por diante; as veigas já pisavam
  489. Só de claros guerreiros freqüentadas.
  490. Aqui Tideu, Partenopeu famoso,
  491. Adrasto ocorre de palente imagem.
  492. Aqui, mortos no prélio e tão carpidos,
  493. Em fileira os Dardânidas encontra:
  494. Suspiroso a Tersíloco e Medonte,
  495. Glauco e os três Antenóridas contempla,
  496. E a Políbetes consagrado a Ceres,
  497. E Ideu que inda meneia e o carro e as armas.
  498. À destra e à sestra as almas se apinhoam:
  499. Não basta olhá-lo, não; retê-lo agrada,
  500. Achegar-se e indagar da vinda as causas.
  501. Logo que, pela treva o arnês fulgindo,
  502. O avistam graios cabos e as falanges
  503. Agamenônias, trépidos recuam:
  504. Uns, como quando aos barcos se acolheram,
  505. Costas viram; no erguer a voz sumida,
  506. A alguns na boca hiante o grito morre.
  507. O Priâmeo Deífobo entre estes anda,
  508. Lacero enormemente o corpo e a cara,
  509. De beiços, mãos e orelhas cerceado,
  510. E de um gilvaz deforme o nariz troncho.
  511. Com vergonha o suplício infame encobre;
  512. E a custo o reconhece o noto amigo:
  513. “De Teucro ó sangue ilustre, armipotente,
  514. A quem, Deífobo, tal crueza aprouve?
  515. Quem tanto ousou? Na noite ouvi suprema
  516. Que, de matar cansado, sucumbiras
  517. Confundido no vasto morticínio.
  518. No Reteu vezes três chamei-te a vozes,
  519. Vão túmulo erigindo; que o teu nome
  520. E armas protegem; nem te achei, nem pude
  521. No pátrio chão depor-te em me ausentando.”
  522. “Nada omitiste, o Priamides clama;
  523. Tudo a Deífobo e aos manes seus pagaste.
  524. Nestes males, amigo, me abismaram
  525. Da Lacena o flagício e o meu destino:
  526. Esta a memória que de si deixou-me.
  527. Soubeste (e há quem se esqueça) em gostos falsos
  528. Passada aquela noite. O fatal bruto
  529. Quando, prenhe de armada infantaria,
  530. Árduos muros saltou; fingindo coros,
  531. Ela as Frígias guiava em torno às orgias;
  532. E, entre as evantes manejando um facho,
  533. Do alto castelo os Danaos convidava.
  534. No tálamo infeliz me deito, opresso
  535. De pesadume e lida; e caio em manso
  536. Letargo, semelhante ao sono eterno.
  537. Põe-me a guapa consorte as armas fora,
  538. E até da cabeceira a fida espada;
  539. A Menelau acena e as portas abre;
  540. Julgando assim mimosear o amante,
  541. E o labéu extinguir da antiga ofensa.
  542. Que mais? o quarto assaltam; a exortá-los
  543. O Eólides malvado os acompanha.
  544. Deuses! igual suplício os gregos lastem,
  545. Se com justiça impreco esta vingança.
  546. Mas vivo, eia também, que urgente caso
  547. Te trouxe cá? dos manes foi capricho?
  548. Mando celeste? por que azar à estância
  549. Vens túrbida e funesta, ao Sol negada?”
  550. Febo em rósea quadriga o meio do eixo
  551. Pelo éter já transpunha, e em tais colóquios
  552. Ia-se o tempo dado; a companheira
  553. Em resumo os adverte: “Avança, Enéias,
  554. A noite, e em choro as horas consumimos.
  555. Parte-se a estrada aqui: de Dite aos paços
  556. Corre à direita, e além nos fica o Elísio;
  557. No ímpio Tártaro, à esquerda, os maus padecem.”
  558. Deífobo então: “Sibila, não te agastes;
  559. Ao número me agrego, e às sombras torno.
  560. Vai, glória nossa, vai; logra outros fados.”
  561. Nisto, o passo torcendo, se retira.
  562. Repara, e em sestra penha o herói descobre
  563. Tartárea trimurada fortaleza,
  564. Que rápido a rolar sonantes pedras,
  565. Cingem do Flegetonte ígneas torrentes.
  566. De inteiriças colunas diamantinas
  567. O portão da fachada, a demoli-lo
  568. Nem vale humano esforço, nem divino:
  569. Férrea torre se eleva; e de atalaia,
  570. Traçada opa sangüenta, sempre alerta,
  571. Lá Tisífone o pórtico defende.
  572. Entram ais a estrugir, do açoite os golpes;
  573. Arrastam-se grilhões; retinem ferros.
  574. Pára, e assombrado o estrondo haurindo Enéias:
  575. “Quais as culpas? quais delas os castigos?
  576. Explica, ó virgem: que alarido aquele?”
  577. E a vate: “Ínclito chefe, ao justo o limen
  578. Celeroso é vedado; mas dos deuses,
  579. Quando Hécate prepôs-me ao bosque averno,
  580. Mostrou-me os tratos, me levou por tudo.
  581. O duríssimo Gnósio Radamanto
  582. É quem manda; e os indaga e pune os crimes,
  583. E a confessar constrange os que expiá-los
  584. Para a tardia morte diferiram,
  585. De os ter furtado ao mundo em vão contentes.
  586. Ultriz, logo insultando os azurraga
  587. Tisífone; e a chamar as outras Fúrias,
  588. Destorce com a esquerda e assanha as cobras.”
  589. Ei-las de par em par as sacras portas
  590. No quício horríssono a ranger. “Atentas
  591. Qual, sentada ao vestíbulo, o vigia
  592. Medonha catadura? pois mais seva
  593. Cinqüenta atras goelas hidra enorme
  594. Dentro arreganha; e o Tártaro em despenho
  595. Se abisma, o dobro do que a vista abrange
  596. Desde baixo ao luzente Olimpo etéreo.
  597. Lá fulminados os Titãs mancebos,
  598. Filhos da Terra, nas profundas rolam.
  599. Vi de gigante corpo os dois Alóidas,
  600. Que, o céu mesmo escalando, acometeram
  601. Derribar do seu trono o rei supremo.
  602. Vi Salmoneu penando, que o sonido
  603. E os fuzis do Tonante arremedara:
  604. Tocha a brandir, em carro de dois tiros,
  605. Por Élide ia ovante, e à força os povos
  606. O adoravam por deus; com o estrupido
  607. Dos cornípedes néscio em érea ponte
  608. Trovões fingia e o fogo inimitável:
  609. Júpiter, fachos não, não fúmeas tedas,
  610. Sim contorce um corisco dentre as nuvens,
  611. E em turbilhão sulfúreo o precipita.
  612. Também da mãe comum o aluno Tício
  613. Por geiras nove, ó pasmo! estira os membros:
  614. Rói-lhe abutre cruel de bico adunco
  615. O fígado imortal; e, esquadrinhando
  616. Para o suplício as vísceras fecundas,
  617. A fome ceva, no âmago se encarna;
  618. De renascer as fibras não descansam.
  619. Dos Lapitas, Ixion, de Piritôo
  620. Que direi, sobre os quais já já desaba
  621. Atra iminente rocha? Ante eles brilham
  622. Em leitos geniais pilares de ouro,
  623. Banquetes régios de esquisito luxo:
  624. Perto encostada, a principal das Fúrias
  625. Atingir lhes proíbe as iguarias,
  626. Surge o facho a vibrar, minaz troveja.
  627. Quem teve ódio aos irmãos, durante a vida,
  628. Pôs mãos nos pais, urdiu contra o cliente;
  629. Os que amuados tesouros incubando,
  630. Máxima turba, nada aos seus partiram;
  631. Os mortos no adultério; os de ímpias armas
  632. Sequazes, desleais contra os senhores,
  633. No encerro a pena aguardam. Não a inquiras,
  634. Nem que sentença ou caso os tem submersos:
  635. Qual pedra ingente galga, ou de uma roda
  636. Estreito aos raios pende; está sentado
  637. Preso o infeliz Teseu e estará sempre;
  638. Flégias, misérrimo a bradar nas trevas,
  639. Nunca cessa: “Aprendei no exemplo horrível
  640. Justos a ser, a não zombar dos numes.”
  641. Este vendeu a pátria a ruim tirano;
  642. Leis, as fez e desfez peitado aquele;
  643. Outro invadiu nefando o leito à filha:
  644. Réus que a tenção danada executaram.
  645. Nem com voz férrea, bocas cem, cem línguas,
  646. Pudera eu numerar da culpa as formas,
  647. A variedade e os nomes dos castigos.”
  648. Depois a idosa Anfrísia: “Anda, acrescenta,
  649. Acaba a empresa, a rota apressuremos.
  650. Dos Ciclopes forjados vejo os muros,
  651. No arco da frente as portas, onde a oferta
  652. Depor se nos prescreve.” Disse, e opacas
  653. Vias a par correndo, o espaço vencem,
  654. Tocam já nos batentes. Ele a entrada
  655. Ocupa; e, de água viva asperso o corpo,
  656. No frontispício o ramo à deusa crava.
  657. Completo o rito e o voto, enfim chegaram
  658. A jucundos vergéis e amenas veigas,
  659. Da bem-aventurança alegres sítios.
  660. Éter mais largo purpureia os campos,
  661. Que alumia outro Sol, outras estrelas.
  662. Em gramínea palestra alguns se exercem,
  663. Brincam na fulva areia em luta e jogos;
  664. Parte o compasso bate, e baila e canta;
  665. E ao Trácio, que dedilha ou pulsa as cordas
  666. Com plectro ebúrneo, em roçagante loba,
  667. A septívoca lira acorde fala.
  668. Nota-se ali de Teucro a estirpe egrégia,
  669. Nados em melhor quadra heróis magnânimos,
  670. Dárdano autor de Tróia, Assáraco, Ilo;
  671. Sem dono ao longe arneses, coches vagos,
  672. Lanças no chão pregadas, e pascendo
  673. Livres soltos corcéis pela campanha.
  674. De armas e carros o que em vivos tinham
  675. Gosto, amor de nutrir nédios cavalos,
  676. Esse da terra ao seio os acompanha.
  677. Eis em festins na relva, à destra e à sestra,
  678. Ledo peã em coro outros modulam
  679. Num láureo bosque odoro, donde acima
  680. O Erídano caudal volve entre selvas.
  681. Lá, da pátria em defesa os vulnerados,
  682. Os sacerdotes castos, os poetas
  683. Que o puro estro febeu não profanaram,
  684. Os inventores das polidas artes,
  685. Os que renome obrando mereceram,
  686. A todos nívea banda as frontes orna.
  687. Circundada a Sibila os interroga,
  688. E a Museu mais, que os ombros sobreleva
  689. Do atento bando em meio: “Almas ditosas,
  690. E tu profeta exímio, onde, ensinai-me,
  691. Onde Anquises reside? em busca dele
  692. Do Érebo os grandes rios trasnadámos.”
  693. Foi breve o herói: “Nenhum tem certo o alvergue;
  694. Sombrios lucos, vicejantes margens,
  695. De arroios frescas várzeas habitamos.
  696. Mas, se o folgais de achar (o atalho é fácil),
  697. Esta encosta montemos”. E, a guiá-los,
  698. Do cume ostende as nítidas campinas,
  699. E a virente convale os vai descendo.
  700. Meditabundo Anquises, nele inclusas,
  701. As almas resenhava a tornar prestes
  702. À luz superna; e dos queridos netos
  703. O número talvez recenseava,
  704. Seus costumes e ações, fortuna e fados.
  705. Quando assomava Enéias pela grama,
  706. O ancião jubiloso alonga as palmas,
  707. E as faces rosciando a voz desprega:
  708. “Venceste, enfim, piedoso a dura estrada,
  709. Como esperava! És tu, meu caro Enéias?
  710. Ouvir-te os notos sons, render-tos posso!
  711. Para agora isto os cálculos me davam:
  712. Certo não me enganou meu pensamento.
  713. Por que terras jogado, por que mares,
  714. Por que perigos, filho, eu te recebo!
  715. Quanto receei que a Líbia te estorvasse!”
  716. E ele: “A tua, meu pai, a tua imagem
  717. Cá me atrai, ocorrendo austera e assídua.
  718. Hei no Tirreno a frota. Ao nosso amplexo
  719. Ah! não te esquives, destra a destra unamos.”
  720. E ao discursar, em lágrimas desfeito,
  721. Foi três vezes nos braços apertá-lo,
  722. Três abarcada a sombra se lhe escapa,
  723. Como aragem fugaz, ligeiro sono.
  724. Ei-lo em secreto vale descortina
  725. Selva escusa de arbustos sussurrantes:
  726. Em torno ao brando Letes, que ali mana,
  727. Voam povos sem conto; e, qual nos prados
  728. Se em flores várias por sereno estio
  729. Senta o enxame e se espalha entre açucenas,
  730. Do estrépito murmura o campo todo.
  731. Ínscio, atalhado, a causa indaga Enéias,
  732. Que rio este é, que gente em cópia tanta
  733. Lhe enche as ribas. “Aos corpos destinados,
  734. Disse o padre, almas são que eterno olvido
  735. N’água letéia descuidosa bebem.
  736. Muito há que tas mostrar e expor-te anelo
  737. Dos meus a descendência; a fim que ainda
  738. Te regozijes mais da Itália achada.”
  739. “Pois é crível, meu pai, que almas sublimes
  740. Aos tardos corpos, ressurgindo, voltem?
  741. Oh! desejo de vida insano e triste!”
  742. “Não fiques mais suspenso; eu vou por ordem
  743. Cada coisa expender-te: escuta, ó filho.
  744. Desde o princípio intrínseco almo espírito
  745. Céus e terra aviventa e o plaino undoso,
  746. O alvo globo lunar, titâneos astros,
  747. E nas veias infuso a mole agita,
  748. E ao todo se mistura: homens e brutos,
  749. Voláteis gera e anima, e o que de monstros
  750. O cristal fluido esconde. Há nas sementes
  751. Ígneo vigor divino, enquanto a nóxia
  752. Matéria o não retarda, nem o embotam
  753. Órgãos terrenos, moribundos membros.
  754. Daqui vêm dor, prazer, cobiça e medo;
  755. E à clara alteza os míseros não olham,
  756. Em cega negregura encarcerados.
  757. Nem perdem, quando a luz vital se extingue,
  758. De todo as fezes e mundanos vícios:
  759. Muitos, concretos longamente, é força
  760. Que nelas durem por teor pasmoso.
  761. Em tratos pois seus erros pagam todas:
  762. Qual pende aos ventos; qual da culpa as nódoas
  763. Lava em golfo espaçoso, ou dile ao fogo.
  764. Cada um sofre em seus manes: poucos temos
  765. Ao depois do amplo Elísio as doces veigas;
  766. Té que, perfeito o giro, a mão do tempo
  767. Gasta o impresso labéu, depura a flama,
  768. O senso etéreo e simples aura afina.
  769. Voltos mil anos, as convoca em turmas
  770. Ao rio um deus; por que elas, do passado
  771. Esquecidas, rever a esfera queiram,
  772. E entrar de novo nas prisões corpóreas.”
  773. Cessa Anquises; a Enéias e a Sibila
  774. Traz ao mais basto da ruidosa turba;
  775. Um combro toma; donde a extensa fila
  776. Divise dos que vêm, e a todos possa
  777. Os traços discernir. Então prossegue:
  778. “Eia, a glória que os Dárdanos espera,
  779. Do ítalo tronco os descendentes nossos
  780. Que a fama ilustrarão dos seus maiores,
  781. Hei de explicar-te, e aprenderás teus fados.
  782. Notas? próximo à luz por sorte, um jovem
  783. Se arrima em hasta pura: às auras, misto
  784. Latino sangue, surgirá primeiro,
  785. Sílvio, póstumo teu, de nome albano;
  786. Que tardio, a ti já na eterna vida,
  787. Te há de Lavínia produzir nas selvas;
  788. Rei, de reis gerador, por onde os nossos
  789. Têm de vir de Alba-longa a ser senhores.
  790. Segue-se Procas, dos Troianos honra;
  791. Cápis e Numitor mais Sílvio Enéias,
  792. Que te avive e recorde, e, obtendo o reino
  793. Cobrar, te imite belicoso e pio.
  794. Olha, os mancebos quanta força ostentam!
  795. Aos que civil carvalho ensombra as testas,
  796. Esses Nomento e Gábios e Fidenas,
  797. Esses Colácia te alçarão nos montes,
  798. Exímia no pudor; Pomécia altiva,
  799. Castro d’Inuo juntando, e Bola e Cora:
  800. Ermos ignotos, no porvir famosos.
  801. Será do avô refúgio o Márcio Rômulo,
  802. De Ília, prole de Assáraco, nascido.
  803. Vês que o elmo lhe adornam dois cocares,
  804. E o padre o marca de esplendor sidéreo?
  805. A ínclita Roma, por auspícios dele,
  806. O orbe, Enéias, fecunda em grandes homens,
  807. No império há de abranger, na mente o Olimpo,
  808. Sete montanhas numa só cidade:
  809. Oual torreada, ufana mãe dos deuses,
  810. Corre em Frígia no coche a Berecíntia,
  811. Que cem netos celícolas abraça,
  812. Todos em alto grau, ditosos todos.
  813. Volve os olhos, contempla os teus Romanos.
  814. Júlio aí tens e a geração de Ascânio,
  815. Para exaltar-se ao pólo. A ti bem vezes
  816. Eis, eis o prometido, Augusto César,
  817. Diva estirpe, varão que ao Lácio antigo
  818. Há de os satúrnios séculos dourados
  819. Restituir, e sobre os Garamantes
  820. E Indos seu mando propagar; dos signos
  821. Clima além situado, além das rotas
  822. Do ano e do Sol, por onde aos ombros vira
  823. O celífero Atlante o eixo ardente
  824. De estrelas tauxiado. Os cáspios reinos
  825. Já do agouro da vinda se horrorizam;
  826. E a meótica plaga e as septiduplas
  827. Fozes do Nilo túrbidas trepidam.
  828. Nem o que a cerva erípede varara,
  829. Que apaziguara as matas do Erimanto,
  830. E a Lerna com seu arco estremecera,
  831. Tanto peregrinou; nem vitorioso
  832. Líbero, que do Nisa expede os tigres,
  833. E dobra os cumes com pampíneas rédeas.
  834. E inda estender a fama duvidamos,
  835. Ou n’Ausônia assentar nos tolhe o medo?
  836. Quem distante apresenta insígnias sacras
  837. E ramos de oliveira? as cãs e a barba
  838. Do rei conheço que primeiro em Roma
  839. Legislará, da exígua e pobre Cures
  840. Mandado a celso império. Ao depois Tulo
  841. Irá da pátria quebrantar os ócios,
  842. Mover às armas cidadãos remissos,
  843. E as tropas aos triunfos desafeitas.
  844. Anco sucederá mais presunçoso,
  845. Que d’aura popular já nímio folga.
  846. Ver queres os Tarquínios, e o severo
  847. Vingador Bruto e os recebidos feixes?
  848. Cônsul, tomando as sevas machadinhas,
  849. Ai dele! imolará rebeldes filhos
  850. À pulcra liberdade. Vário ajuízem
  851. Disto os vindouros; há de o amor da pátria,
  852. E o de glória vencer desejo imenso.
  853. Nota os Décios ao longe, os Drusos nota,
  854. Mânlio Torquato de cruel secure,
  855. E o dos pendões recondutor Camilo.
  856. De armas fulgindo iguais, os dois que observas,
  857. Concordes hoje quando a noite os preme,
  858. Ah! quanta excitarão, se a luz tocarem,
  859. Guerra entre si, que estragos, que batalhas!
  860. Dos muros de Moneco e das Alpinas
  861. Serras baixando o sogro, instructo o genro
  862. Dos opostos Eôos! A tais guerras
  863. Não vos acostumeis, nem volteis, jovens,
  864. Contra o seio da pátria o esforço vosso.
  865. Tu, que provéns do Olimpo, antes perdoa;
  866. Fora os dardos arroja, ó tu meu sangue.
  867. De Aqueus pela matança aquele insigne,
  868. Triunfada Corinto, ao Capitólio
  869. Há de o carro subir. Micenas e Argos
  870. De Agamenom, ess”outro há de estruí-las,
  871. A Eacide abater, do armipossante
  872. Aquiles garfo; os Teucros seus vingando,
  873. E de Minerva o maculado templo.
  874. Como olvidar-te, ó Cosso, ó Catão magno?
  875. Como os Gracos, e os dois, terror da Líbia,
  876. Cipiões, raios da guerra? e na pobreza
  877. O potente Fabrício? e a ti, Serrano,
  878. Semeando os sulcos? Onde absorto, ó Fábios,
  879. Me arrebatais? só tu, Máximo, aos nossos
  880. Detençoso a república restauras.
  881. Hão de outros, sim, mais molemente os bronzes
  882. Respirantes fundir, sacar do mármore
  883. Vultos vivos; orar melhor nas causas;
  884. Descrever com seu rádio o céu rotundo,
  885. O orto e sidério curso: tu, Romano,
  886. Cuida o mundo em reger; terás por artes
  887. A paz e a lei ditar, e os povos todos
  888. Poupar submissos, debelar soberbos.”
  889. Com pasmo ouvido: “Atenta, ajunta o velho,
  890. Do espólio opimo ovante, eis vem Marcelo,
  891. E em talhe sobrepuja os varões todos.
  892. Turbada em grã tumulto, há de este a Roma
  893. Cavaleiro assistir; prostrar o Galo
  894. Revolto e os Penos, e as terceiras armas
  895. Ganhadas suspender ao pai Quirino.”
  896. Nisto, Enéias descobre um lindo moço
  897. De fulgurante arnês, mas pouco alegre,
  898. De rosto e olhar caído: “Ao varão, padre,
  899. Quem acompanha? é filho? é da prosápia
  900. Dele talvez? Que séquito estrondoso!
  901. Que ar de Marcelo tem! Mas noite escura
  902. Triste voa e a cabeça lhe circunda.”
  903. Em lágrimas Anquises: “Não me inquiras
  904. Dos teus o luto ingente; apenas, filho,
  905. À terra o mostrará destino avaro.
  906. A durar este dom, creríeis, deuses,
  907. Nímio possante a geração romana.
  908. Que ais no campo vizinho aos márcios muros!
  909. Ou de que funerais, entre o sepulcro
  910. Recente resvalando, ó Tiberino,
  911. Testemunha serás! Nenhum mancebo
  912. Da gente ilíaca os avós latinos
  913. Tanto há de esperançar, nem de outro aluno
  914. O romúleo país jactar-se tanto.
  915. Ó Piedade! ó fé prisca! ó destra invicta!
  916. Ninguém impune o arrostaria armado,
  917. Quer a pé remetesse, quer d’esporas
  918. Os do espúmeo ginete ilhais picasse.
  919. Qual! jovem miserando, ásperos fados
  920. Se a romper chegas, tu serás Marcelo.
  921. Dai-me às mancheias lírios, dai-me rosas:
  922. De esparsas flores eu cumule o neto;
  923. A alma do vão tributo ao menos logre.”
  924. Assim, no espaço aéreo vagueando
  925. Por essas regiões, tudo examinam.
  926. Depois que o padre o instrui, e de renome
  927. No ardor o abrasa, as iminentes guerras
  928. Ao filho explana, e os povos de Laurento
  929. E de Latino a corte lhe anuncia,
  930. E como o risco evite e como o sofra.
  931. Do Sono há dois portões: saída, contam,
  932. O córneo facilita às veras sombras;
  933. Do que é de alvo marfim, terso e nitente,
  934. Mandam falsas visões à luz os manes.
  935. Pelo ebúrneo, entretendo a vate e o filho,
  936. Os encaminha Anquises e os despede.
  937. Para as naus corta, aos seus reverte Enéias.
  938. Corre a costa e a Caieta vai direito.
  939. Da proa botam ferro, a popa atracam.

Sobre este livro · 2 notas

Comentário
Este livro, onde o poeta patenteou o seu talento criador, anulando a opinião daqueles que lhe negam esta faculdade, merecia um extenso comentário: abstenho-me de o fazer tal, porque outros cabalmente desempenharam a tarefa. La Cerda, La Rue, sem falarmos dos anteriores, com Warburton, Heyne, Desfontaines, Delille, mais ou menos, todos juntos nada deixam que desejar a respeito da explicação da filosofia de Virgílio. M. Villenave é felicíssimo em suas notas a este livro: resumida mas claramente, expõe ele as opiniões do poeta sobre o dogma platônico da alma universal, sobre o sistema da metempsicose por Pitágoras, sobre as idéias mais puras que possuía da divindade, e sobre os pontos principais desta pasmosa composição, como seja o purgatório, donde parece que o cristianismo tomou a doutrina respectiva. Para não ser prolixo, e para não amontoar trabalhos alheios, contento-me de remeter o leitor às obras alegadas, as quais citam outras; e quem se quiser satisfazer com menos, pode consultar em especial o padre La Rue, que tem tanta voga nas nossas escolas. Este explana muitos lugares da história e da fábula, muitas opiniões e tradições que toca o poeta, e por isso me despenso de o fazer; e só tratarei do pouco em que não concordo com os críticos, pois em geral com eles me conformo acerca do livro VI.
Comentário
Toca-me agora confutar a idéia de que Tasso não se devia servir do maravilhoso a respeito da casa d’Est. Cada um busca celebrar as coisas do seu país, e ainda que elas pareçam aos estrangeiros pequenas, são grandes aos olhos dos nacionais: ora Tasso Italiano, em vez de cantar um príncipe e uma casa real da sua terra, não devia, como patriota, omiti-la para cantar, por exemplo, a casa de França. Delille, não contente de afrancesar a antiguidade na sua paráfrase da Eneida, ainda folgava de que o Tasso tivesse estrangeirado a sua Jerusalém; ou que tivesse posto de parte um meio que lhe subministrou Virgílio, e com que ele ornou o seu poema, em comparação do qual a Henríada, cumpre confessar, não tem sobejo valor. — Se todavia a pequenez da casa d’Est excusa um tanto o mau juízo do crítico, a apreciação dos Lusíadas é miserabilíssima. A época de que trata Camões principalmente (digo principalmente, porque ele canta e celebra toda a glória portuguesa) é por certo a mais importante na história da navegação, vale mais do que o século de Luiz XIV: o descobrimento da nova rota das Índias por Vasco da Gama, unido ao da América por Colombo e à do Brasil por Cabral, mudou a face do mundo, ao comércio deu uma extensão prodígiosa, e aumentou os gozos da vida por toda parte; fez cair nações, levantou outras; é o acontecimento que marca os tempos modernos. Quanto a ser a glória portuguesa de pouca duração, distingo: se Delille chama glória só a conquista das Índias e de outros países, é exato que pouco depois a nação portuguesa caiu pelo dominio espanhol; mas se a palavra compreende, como deve compreender, a honra que resulta de todas as suas façanhas, essa glória portuguesa, longe de ser de curta duração, já durava seis séculos não interrompidos quando a cantou o seu imortal poeta. A história de França não apresentava uma tão longa série de sucessos gloriosos até àquela época. — Insisto nesta digressão, porque não é só Delille, é moda, sobretudo seguida pelos franchinotes viajantes, menosprezarem a nossa raça, tanto a da Europa como a da América. Uma nação, da qual nasceu a brasileira, hoje com sete milhões de habitantes, sendo a terceira em população na América e a segunda em importância política, tem a sua glória indelevelmente escrita nos anais do mundo; além de que ninguém pode abrir um mapa do nosso globo, sem nele encontrar muitos nomes de países d’África e Ásia atestando a parte que o pequeno reino do ocidente da Europa tem tido no movimento geral da civilização. É pena que Delille nos não marcasse as léguas quadradas, a população e os anos de celebridade que deve ter qualquer nação, para poder cantar um poeta os seus feitos heróicos. Camões da mesma pequenez do seu país tirou motivo para o louvar na sua magnífica oitava XIV do canto VII e em outras. — De passagem direi que não imitaram a Virgílio neste lugar somente os que menciona Delille: afora Camões, Tasso, Milton e Voltaire, fê-lo Ercilla, fizeram-no também Corte-Real, Sá de Menezes, Mausinho e Gabriel Pereira; mas estes últimos quatro poetas, cujas epopéias equivalem às da França, à exceção do Telemaco e dos Martyres, não são conhecidas senão em Portugal e Espanha, entre os seus descendentes da América meridional, e por bem poucos literatos das outras nações. Se nelas há menos gosto que na Henríada, há mais poesia e imaginação.

Nota a nota · 8 notas

v. 179–182À falsa fé, de inveja entre uns penedos
Bondi censura a Annibal Caro o descarnado da passagem correspondente; e na verdade é antes um resumo que uma versão poética. Caro porém não cai tanto em semelhante defeito como pareceu ao seu êmulo. Este, para talvez justificar a sua usual prolixidade, opina que o estilo do outro é em demasia rapido e conciso, próprio do lírico e não do épico. Que a epopéia peça um tom majestoso e certa gravidade em seu andamento, é incontestável; mas a concisão, necessária em todos os gêneros, casa inteiramente com essa majestade e compasso. Para se isto conseguir, não é forçoso prodigar palavras e perífrases: cumpre escolher os vocábulos, medir bem os períodos, as pausas do verso, estudar mesmo o efeito da combinação das sílabas e letras, dos acentos e consonâncias. Pode um período ser curto e próprio do épico; e uma versalhada interminável para nada presta. Bondi confundiu a concisão com a secura. De mais, posto que Virgílio de ordinário seja compassado e magnífico, não raro toma o tom da elegia e da ode, como observa Mr. Patin, douto professor da Faculdade de letras de Paris; e eu digo que também o da pastoral, e que esta variedade é mais um dos encantos do seu poema. Ora, todos esses diversos estilos deve imitar o tradutor. — Sem embargo de ser Bondi fiel e de evitar alguns dos defeitos de Annibal Caro, a este dou eu a preferência.
↩ voltar à passagem, v. 179
v. 440–474Por crime falso à morte os condenados ⋯ Por brejos, por tojais, a andar me obrigam;
Virgílio criou nos infernos um lugar para os amantes infelizes, e ali é que Enéias se encontra com Dido. Alguns fanáticos para com Homero, e entre eles Mme Dacier, preferem a este encontro o de Ulisses com Ajax no livro XI da Odisséia. “Só Ajax, diz Ulisses, se conserva desviado, com raiva da vitória que levei, quando nos desputámos as armas de Aquiles...” E depois de ter em vão pretendido dobrar e apaziguar o herói, Ulisses acrescenta: “Apesar da sua cólera, ele me teria falado como lhe falei; mas eu estava impaciente por contemplar outras sombras.” Quem não vê que estas últimas palavras tiram todo o interesse que poderia ter o silêncio de Ajax? Ao contrário, em Virgílio, o silêncio de Dido sobe ao cume do sublime pela sua irrevogabilidade; e uma circunstância que ainda confirma a resolução da sombra indignada, e em que têm os críticos feito pouco reparo, é o acolhimento que recebe do marido Siqueu em um retiro umbroso. Esta reconciliação é terníssima e da mais bela moral: o amor ilegítimo a tinha manchado e perdido; o amor conjugal perdoa a infeliz, e lhe desculpa uma falta que ela não cometeria jamais durante a vida do seu primeiro consorte. Oh! alma sensível do cantor da Eneida!
↩ voltar à passagem, v. 440
v. 620Que direi, sobre os quais já já desaba
Na meia idade corria a fábula de que o demônio, adjurado por um santo a lhe declarar qual era o mais belo verso de Virgílio, imediatamente respondeu: “Discite justitiam moniti et non temnere divos.” Esta máxima contudo a alguns tem parecido mal colocada no Tártaro, porque os condenados eternamente, não podendo mais aproveitar-se dela, não haviam mister a advertência. Esses críticos porém não viram que Flégias, ao proferi-la, não a dirigia aos precitos, mas no desejo transportava-se ao nosso mundo, querendo que a máxima fosse útil aos homens: Mr. Villenave, que refuta uma tal objeção, a propósito alega o omnes admonet que vem dois versos atrás.
↩ voltar ao verso 620
v. 667A septívoca lira acorde fala.
Virgílio aposenta nos Elísios o poeta Museu, anterior a Homero, e não Museu autor de Hero e Leandro, que foi posterior. A confusão dos dois Museus deu ocasião à crítica de Scaligero e outros, que pretendem que o épico romano preferia os versos de Museu aos do maior poeta da antiguidade; porém Menage, com alguns doutos, observou que Enéias só podia ver nos infernos os poetas mortos antes do saque de Tróia; que o antigo Museu, dito filho de Apolo, do tempo de Cecrops II, podia achar-se nos Elísios, e não Homero que viveu quase dois séculos depois de Enéias. Esta justíssima observação não pareceu peremptória a Mr. Villenave; o qual diz que naquela ficção pudera Virgílio anunciar que um dia Museu veria a chegada do príncipe dos poetas gregos; e que, se o latino não pode ser tachado de ingratidão, ao menos é lícito pensar que deixou escapar o ensejo do reconhecimento. O crítico não advertiu que, na ficção da profecia de Anquises, só se trata dos descendentes de Iulo e Enéias e dos heróis romanos, e não se podia meter Homero entre eles, pois nem era descendente de Enéias, nem Romano. Anquises encarregou-se de apresentar ao filho as almas dos seus netos, e não dos grandes poetas; e Museu ali serviu só de guiar Enéias e a Sibila ao sítio em que passeava Anquises. O alto respeito que Virgílio tinha para com seu mestre, foi assaz provado pelas imitações que dele fez às claras, e pela confissão de que era mais fácil arrancar a clava das mãos de Hércules do que roubar um só verso a Homero; dito que, atravessando os séculos, chegou até nós.
↩ voltar ao verso 667
v. 756Em cega negregura encarcerados.
Começa aqui um dos meios épicos mais fecundos, inventado pelo poeta e ao depois imitado pelos mais afamados: as coisas célebres concernentes a Roma, acontecidas desde o tempo de Enéias até o de Augusto, Virgílio põe na boca de Anquises como em uma profecia; e desta maneira, tratando de sucessos tão antigos, teve a oportunidade de falar dos modernos e mesmo dos contemporâneos. Há nesta profecia um belíssimo resumo da história; guarda porém o autor, com a sua costumada parcimônia, certos fatos notáveis, para os dar gravados no broquel de Enéias em o livro VIII, imprimindo assim mais variedade no poema. Comentar esta fala de Anquises equivale a escrever uma quase história; trabalho de que não sou capaz, e que aliás se acha espalhado pelos comentadores e críticos de maior nomeada. Esta minha nota é só para refutar uma de Delille, sempre infeliz quando cita a Camões. “O quadro da futura grandeza de Roma, diz ele, e esta revista de toda a posteridade de Enéias, são uma criação sublime do poeta latino. O Tasso, Camões, Milton e Voltaire, imitaram a Virgílio. Mas, na Jerusalém libertada, os destinos da casa d’Est, que são preditos a Reinaldo, não têm historicamente assaz importância para autorizar o emprego do maravilhoso; e o mesmo se pode asseverar da glória de Portugal encerrada em pequeníssimo quadro, e cujo esplendor foi de pouca duração..... De todos os imitadores do poeta latino, Voltaire foi sem dúvida o mais feliz; tendo a vantagem de pintar a época mais memorável do espírito humano, e seu estilo tem muitas vezes todo o brilho da corte de Luiz XIV.” Ferido por estes palavrões, um Francês, Mr. Villenave, assim o impugna: “O século de Luiz XIV foi sem dúvida uma época memorável, mas não a mais memorável do espírito humano. E o que é um estilo que tem todo o brilho da corte de um rei?”
↩ voltar ao verso 756
v. 759Muitos, concretos longamente, é força
Aprender por conhecer é corrente nos clássicos: Constâncio o dá por antiquado; o que não admira, porque no seu conceito uma boa porção dos vocábulos deve ser esquecida. Modernamente o meu amigo Dr. Lopes de Moura usou deste verbo na sua tradução das obras de Walter Scott. O nosso ilustre compatriota é riquíssimo na linguagem; mas, segundo m’o tem dito muitas vezes, não pôde corrigir os seus escritos, pela pressa com que trabalhava para acudir às necessidades da vida. Hoje está ele mais folgado pela pensão que lhe dá do seu bolsinho o Snr. D. Pedro Segundo; mas infelizmente, quando a munificência imperial o alivia, a velhice o alcança, e não lhe permite mais um trabalho assíduo. Oxalá que este belo exemplo de generosidade fique aos vindouros, e que não herdemos dos nossos parentes Portugueses, a par de louváveis costumes e leis, o desprezo para com os escritores desvalidos da fortuna.
↩ voltar ao verso 759
v. 883Vultos vivos; orar melhor nas causas;
Tendo-me eu contentado de remeter o leitor aos que deste livro tratam, porque para o comentar seria mister compor um de filosofia e outro de história romana; nesta passagem não me sofro sem dizer alguma coisa, que a admiração me arranca. Havendo Anquises, na sua profecia e na resenha que faz das almas que tem de reger os vindouros, comemorado os fatos e os heróis de que mais se jactavam os Romanos, chega a final ao século de Augusto; e, como há pouco tinha falecido Marcelo, filho de Otávia, até ali considerado sucessor ao império, o poeta põe na boca do profeta os louvores de M. Cláudio Marcelo, ascendente do mancebo, e por uma transição fácil envolve nesses louvores os daquele genro de Augusto, e toca na recente morte com uma delicadeza inexprimível. Que arte! que sublimidade não encerra a passagem terminada por estas imortais palavras: Tu Marcellus eris! Em toques tais é que Virgílio é incontestavelmente o primeiro dos poetas; e em tais modelos é que os moços devem aprender os recônditos segredos da poesia.
↩ voltar ao verso 883
v. 892–901Turbada em grã tumulto, há de este a Roma
À imitação de Homero, dá-se aqui ao Sono uma casa com duas portas, uma córnea e a outra ebúrnea: pela ebúrnea saíam as visões falsas; pela córnea, as sombras verdadeiras. Como Virgílio faz sair Enéias pela ebúrnea, dizem os comentadores que nisto indica o poeta e confessa mesmo que a descida aos infernos se deve numerar entre as fábulas. Talvez esta fosse a mente do autor; mas tal opinião eu não a vejo provada. Quer Enéias saísse pela porta de marfim, quer pela de corno, tinha sempre de servir-se de uma que não lhe pertencia; porque ele, tendo descido aos infernos em corpo e alma, nem era sombra verdadeira para servir-se da porta de corno, nem era falsa visão para servir-se da de marfim. Pode pois dizer-se que, devendo ele por força dali sair por uma, o poeta escolheu aquela. — No último verso deste livro, que é o mesmo que o 277 do III, denota o poeta o uso antigo de ancorarem os navios com a popa virada para a terra, onde eram seguros por calabres. Mr. Jal assim discorre a pag. 14 do Virgilius nauticus: “O verso Anchora de prora jacitur, stant littore puppes, que se acha no fim desta parte do poema tão magnificamente épica, como uma nota ali somente lançada pelo autor, para se recordar de que deve conduzir os Troianos a Gaeta e ancorar os navios no porto, teria sido substituído por um que não repetisse o do liv. III; pois não podia querer que uma dobrada negligência marcasse a conclusão deste livro, admirável pelo estilo e perfeito em suas partes. E digo uma dobrada negligência; porque, além de ser uma repetição, o verso contém no segundo hemistíquio, sem que seja uma beleza, a palavra littore que se lê no verso precedente.” Razão tem Mr. Jal; e o que diz aqui desta repetição, também o diz ele das outras que há em toda a Eneida, as quais seriam corrigidas, se a morte não atalhasse o poeta em uma idade pouco avançada. — Todos os versos repetidos na Eneida, eu os traduzo diferentemente, conservando contudo o sentido, e só variando nas palavras.
↩ voltar à passagem, v. 892
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