Assim pranteia, e às naus demite as rédeas
939 versos · 10 notas do tradutor
- Assim pranteia, e às naus demite as rédeas;
- Vai-se a Cumas eubóica e manso aborda.
- Tenaz dente as fundeia; ao largo aproam,
- E as curvas popas a ribeira cobrem.
- Moços na praia hespéria ardidos saltam:
- Quem sementes de chama em siliciosas
- Veias cata; quem, denso alvergue às feras,
- Esmoita a selva, e os rios mostra achados.
- O piedoso varão penetra o alcáçar
- Em que Apolo preside, e as profundezas
- Onde à horrenda Sibila ânimo e alento
- O délio vate inspira e abre os futuros.
- Sobem da Trívia os lucos e áureos tetos.
- Dédalo, é fama, dos minóios reinos
- Fugindo, ao céu fiou-se em lestes penas,
- Por via insólita ao gelado Arcturo
- Audaz navega; e alfim na cidadela
- Calcídica assentando, os remos de asas
- Te sagra, ó Febo, e erige um bravo templo.
- Nas portadas insculpe o morto Andrógeo,
- E em castigo os Cecrópidas multados
- Ah! na perda anual de sete filhos;
- A urna está do sorteio. Ao mar soberba
- Corresponde fronteira a gnósia terra:
- Aqui do touro o amor cruel, e ao furto
- Submetida Pasife, e a raça mista
- Pôs, monumentos da nefanda Vênus,
- Minotauro biforme; aqui da estância
- Afadigosa o enredo inextricável,
- Dolos que, da princesa apaixonada
- Com pena, o mestre solve, e em tais desvaires
- Cegos vestígios por um fio rege.
- Não fosse, Ícaro, a dor, nessa obra-prima
- Teu caso entrara: foi gravá-lo em ouro,
- Duas vezes falece a mão paterna.
- Mais perlustraram tudo, se expedido
- Não regressasse Acates com Deifobe
- De Glauco, a Febo e Apolo consagrada;
- Que se endereça ao rei: “Não mais, Enéias,
- De espetáculos basta; ora te cumpre
- De intacta grei matar novilhos sete,
- Sete ovelhas do rito.” E ao santuário,
- Aviado o sacrifício, os Teucros chama.
- Rasgou-se antro espaçoso em roca eubéia,
- Com cem bocas, cem largas avenidas,
- Donde oráculos cem troa a Sibila.
- Já no limen a virgem: “Toca os fados
- A interrogar; o deus, eis o deus” clama.
- Súbito, às portas, o semblante muda,
- A voz não uma, não composta a coma;
- Rábido incha-lhe o peito, arqueja e ofega;
- Maior parece, em tom mortal não soa,
- Quando a bafeja de mais perto o nume:
- “Tu cessas, Frígio, de orações e votos?
- Cessas? pois de outro modo a casa atônita
- Não se escancara.” Disse, e emudeceu.
- Aos Teucros frio horror nos ossos côa,
- E orou do íntimo o rei: “Febo, a quem sempre
- D’Ílio o mal consternou, que a tróica frecha
- De Páris dirigiste contra Aquiles,
- Tua guia, o pélago arrostei que abrange
- Terras tais, e os Massilos tão remotos,
- E o dilatado chão que as Sirtes orlam:
- Já que aportámos na arredia Itália,
- De Pérgamo a desgraça aqui termine.
- Vós ó deuses e deusas, que empecera
- Dardânia e a glória sua, é justo que ora
- Todos poupeis a geração dos Frígios.
- E tu me dá, santíssima vidente,
- (O indevido não peço) em Lácio os numes
- Nossos fixar e os vagabundos lares.
- De mármore maciço a Febo e à Trívia
- Templos e festas criarei febéias.
- A ti no reino espera-te um sacrário,
- Que te guarde as respostas e os arcanos
- Ditados, alma vate, à gente minha;
- Hei de eleitos ministros dedicar-te.
- Não confies, to rogo, às folhas versos,
- Nem dos ventos ludíbrio aos ares voem:
- Tu mesma os cantes.” À oração pôs termo.
- Torva e indócil ao deus, por sacudi-lo
- Do ansiado peito, a debacar braveja:
- Tanto ele mais fatiga a boca irosa,
- E o fero coração lhe oprime e doma.
- Eis do antro os cem portões, de si patentes,
- Vaticínios despedem pelas auras:
- “Oh! quite enfim do pego, em terra a transes
- Mais graves te prepara. Hão de ir os Troas
- A Lavino, sossega; antes contudo
- Lá não ter ido: guerra, hórrida guerra,
- Do sangue o Tibre inchado espumar vejo.
- Nem dórios arraiais, nem Xanto ou Simois,
- Te faltarão; também de deusa filho,
- Há no Lácio outro Aquiles; nunca os Teucros
- Tenaz deixará Juno. A quem, na angústia,
- A que ítalas nações, a que cidades
- Não tens de suplicar! E sempre a causa,
- Uma hóspita mulher, um toro externo.
- Tu não fraqueies; mais que a sorte ousado,
- Resiste aos males. De livrar-te o meio
- Te abre graia cidade, o que nem pensas.”
- Do ádito canta ambages tais medonhos,
- Muge na gruta, o vero embrulha em trevas:
- À furibunda os freios bate Apolo,
- N’alma excitada estímulos vertendo.
- Muda a Sibila, mais quieta a sanha,
- Começa o teucro herói: “Nenhum trabalho,
- Por novo e inopinado, estranho ó virgem:
- Um por um antevi, ponderei todos.
- Pois que é do inferno a entrada e aqui, me afirmam,
- Do revesso Aqueronte o lago obscuro,
- Ir, só te imploro, ao caro pai me caiba:
- Mostra-me e patenteia as sacras portas.
- Eu, nestes ombros, dentre a chama e infindas
- Chuças hostis o arrebatei, salvei-o;
- Ele enfermo comigo afrontou mares,
- O pélago aturava e o céu minazes,
- Com mais vigor do que à velhice é dado.
- Requerendo ordenou-mo, e humilde que hajas
- Dó do filho e do pai deprecar venho:
- Tudo se te faculta; Hécate embalde
- Não te propôs, ó casta, ao luco averno.
- Se Orfeu pôde avocar da esposa os manes,
- Em trácia acorde cítara fiado;
- Se, com alterna morte o irmão remindo,
- Pólux tanto essa via anda e desanda,
- (Por que a Teseu citar e o grande Alcides?)
- Eu provenho também do rei supremo.”
- Dest’arte orava, às aras apoiado;
- E ela acrescenta: “Anquísea e diva estirpe,
- Descer a Dite é fácil; dia e noite
- Seus cancelos o Tártaro franqueia:
- Tornar atrás e à luz, eis todo o ponto,
- Eis todo o afã. Do reto Jove amados,
- Ou por virtude ardente ao céu subidos,
- Poucos, filhos dos deuses, o alcançaram:
- Medeia um bosque, e sinuoso em torno
- Enfuscado o Cocito a espreguiçar-se.
- Mas vezes duas se tranar a Estige
- E a lôbrega morada ver cobiças,
- Se tanto folgas do ímprobo trabalho,
- Ouve e à risca o executa. Árvore opaca,
- Dicado à inferna Juno, oculta um ramo
- N’haste e nas folhas áureo: em vale umbroso
- O encobre e fecha a denegrida selva.
- Sem que destronque o aurícomo rebento,
- No Orco ninguém se interna: é dom que exige
- E instituiu Prosérpina formosa.
- Um fora, brota o novo, e do luzente
- Metal frondesce a vara. Em alto a mira,
- Indaga, e achando respeitoso o apanhes;
- Que, a te ser destinado, ele espontâneo
- Logo te cederá; senão, com força
- Nem duro ferro poderás sacá-lo.
- Porém, desta consulta enquanto pendes,
- Ai! mal sabes que as naus te incesta agora
- De amigo o exânime o feral cadáver:
- No sepulcro o aposenta; em negras reses
- Encete a expiação. É como aos vivos
- O ínvio reino sombrio e estígios lucos
- Hás de avistar.” Calou-se, e os lábios cerra.
- De olhos fixos, tristonho, eventos cegos
- A cogitar, a gruta Enéias larga:
- Trilhando-lhe a pegada, o fido Acates
- Volve iguais pensamentos. Sobre o sócio
- Que, ao dizer da Sibila, enterrar devem,
- Travam conversação comprida e vária;
- Té que a Miseno vêem de indigna morte
- Jazer em seco; o Eólides Miseno,
- Sem superior com bronze alticanoro
- No incitar os varões e acender Marte,
- Pajem de Heitor, pugnava à sua ilharga,
- No lítuo singular, na lança exímio.
- Extinto o grande Heitor às mãos de Aquiles,
- O fortíssimo herói juntou-se a Enéias,
- Não somenos senhor. Mas quando, enchendo
- Acaso o mar com ressonante concha,
- Louco a tanger os deuses desafia,
- À falsa fé, de inveja entre uns penedos
- O afogou (se é de crer) Tritão nas vagas.
- Todos, mormente o pio Enéias, fremem,
- Cercam-no pranteando; e obedientes
- À douta guia, ao céu funérea pira
- D’árvores cumulada erguer porfiam.
- Covil de feras, velha mata exploram:
- Prostra-se o pinho alvar, grita o machado
- No sobro rijo, nas fraxíneas traves;
- O fendível carvalho as cunhas racham;
- Vêm dos montes tombando ingentes ornos.
- Primeiro no trabalho, exorta os sócios,
- Dos mesmos instrumentos se arma Enéias;
- E a mata olhando imensa, mil cuidados
- No ânimo revolvendo, em preces rompe:
- “Oh! se nesta espessura esse áureo garfo
- Deparássemos nós; como ai! tão certa
- Foi contra ti, Miseno, a profecia.”
- Inda falava, e ante ele duas pombas
- Do céu voando na verdura pousam.
- As aves maternais o egrégio cabo
- Conhece e brada: “Se há caminho, ó guias,
- Inclinai vosso adejo aos bosques onde
- Rico sombreia o ramo ao pingue solo!
- No lance, ó diva mãe! não me faleças.”
- Então retém-se a observar das pombas
- A tendência e os sinais. Pascendo aos vôos,
- Só quanto a vista alcance dos que as seguem,
- Elas avançam: perto das gargantas
- Do pestilente Averno, alando-se ambas,
- Sulcam o etéreo fluido, e enfim descaem
- Na dúplice anelada árvore, donde
- Reluz discorde brilho entre a ramagem.
- Qual visgo sói, no alheio pé gerado,
- Verdecer e enramar-se ao brumal frio,
- Nos troncos enrolando os cróceos gomos;
- Na enzinha opaca tal vegeta esse ouro,
- E a folheta crepita à branda aragem.
- Dele, inda assim tardio, ávido Enéias
- Pega, rápido o quebra, e à vate o leva.
- Não menos a Miseno os seus lamentam,
- Na praia honras prestando à ingrata cinza.
- Formam de achas de roble e píceas teias,
- De atras folhas tecida, a excelsa pira;
- Põem-lhe adiante exequiais ciprestes,
- No alto a decoram de fulgentes armas.
- Aquecem caldeirões que em ondas fervem,
- Lavam-lhe o frio corpo, e todo ungido,
- A gemer e a chorar, no esquife o deitam;
- Vestem-lhe o usado purpurino manto:
- Outros o ingente féretro carregam,
- Triste mister, sustendo, ao modo avito
- Averso o rosto, os sotopostos fachos;
- Conjunto na fogueira o incenso fuma,
- Viandas, copas de infundidos óleos.
- Com vinho, assente a cinza e queda a chama,
- O borralho poroso e o resto apuram;
- Corineu colhe a ossada em éneo cado:
- De fausta oliva um galho ensopa n’água,
- Três vezes borrifando asperge os sócios,
- Três profere as novíssimas palavras.
- Da campa sobre a mole impôs Enéias
- O remo do varão, o arnês e a tuba,
- No monte Aéreo, que é Miseno agora,
- E há de este nome conservar perene.
- Isto feito, prossegue e as ordens cumpre.
- De amplo hiato espelunca alta e lapídea,
- Fusca selva a munia e lago imano,
- Sobre o qual transvoar impune as aves
- Nunca puderam, tal das fauces turvas
- Odor exala pelo azul convexo;
- Donde em grego o lugar chamou-se Aornon.
- Quatro almalhos ali tergi-nigrantes
- A vate expõe, nos testos vinho entorna,
- Entre os cornos tosquia, e em sacro fogo
- Lança em primícia o pêlo; vocifera
- Hécate no Érebo e nos céus potente.
- Facas ao sangradouro, alguns em taças
- Cruor tépido aparam. Mesmo à espada
- Enéias das Eumênides à madre
- E à Terra irmã cordeira preta imola,
- E a ti fere, Prosérpina, uma toura;
- Alça da Estige ao rei noturnas aras;
- Em holocausto as vísceras bovinas,
- Derrama azeite no debulho ardente.
- Eis sob os pés, ao primo albor do dia,
- A remugir o chão, mover-se os cumes
- Do arvoredo; e na sombra, ao vir a deusa,
- Surde um canino uivar. “Profanos, longe,
- Oh! longe deste bosque, a vate exclama:
- Tu, Frígio (aqui denodo, aqui firmeza),
- Desembainha o ferro, a estrada invade.”
- Nisto, furiosa entranha-se na gruta;
- Com não tímido passo a iguala Enéias.
- Deuses! que império sobre as almas tendes,
- Caladas sombras, Flegetonte e Caos,
- Taciturnos vastíssimos contornos,
- Dai-me o que ouvi narrar, dai-me os arcanos
- Do abismo descoser caliginoso.
- D’erma noite iam sós no escuro envoltos,
- Por vã plutônia estância e vácuos reinos,
- Qual se anda à luz falaz da incerta Lua
- Por matas, quando Jove embrusca o pólo
- E às coisas tira a cor tristonha treva.
- No vestíbulo mesmo, às fauces do Orco
- Se aninha o ultriz Remorso, e o Luto e o Medo;
- Pálidos Morbos e a Velhice triste,
- Má conselheira a Fome e a vil Penúria,
- Visões de horror; da mente os ruins prazeres,
- E a Morte e a Lida, e o Sono irmão da Morte:
- Defronte a letal Guerra, e em férreo catre
- As Fúrias, e a Discórdia insana que ata
- Cruentos nastros na vipérea grenha.
- No centro, anosos braços largo e opaco
- Olmo expande, e nos ramos se diz moram
- A cada folha os sonhos vãos pegados.
- Monstros mil aos portais, biformes Cilas,
- Os Centauros, as Górgonas se alojam,
- Mais o animal de Lerna horri-stridente,
- E o fantasma tricórpore e as Hárpias.
- Eis de pavor o gume saca Enéias,
- Tem-se à espera; e, se a mestra não lhe adverte
- Que eram sem corpo avoejantes vidas
- E ocas formas sutis, ele investira
- E de aço inútil açoitara sombras.
- Daqui parte o caminho do Aqueronte,
- Que em funda bolha férvida voragem,
- E ao Cocito arremessa areia e lodo.
- Fero esquálido arrais guarda estas águas,
- Caronte hediondo, cuja barba espessa
- Branqueia inculta, os lumes lhe chamejam,
- E aos ombros suja capa em nó lhe pende:
- Puxando à vara, ou mareando as velas,
- Em cimba enfarruscada os vultos passa;
- Velho, mas como um deus, robusto e verde.
- Tropel confuso às margens se arremessa:
- Bravos guerreiros de alma luz privados,
- Varões, meninos, mães, inuptas virgens,
- Jovens ante seus pais à queima entregues:
- Quantas no outono as despegadas folhas
- Caem aos primeiros frios; ou quão bastas
- Glomeram-se aves do alto pego à terra,
- Quando além-mar a temperados climas
- Gélido ano as envia e as afugenta.
- No transporte rogando a preferência,
- Ávidas mãos à oposta riba estendem:
- Brusco admite o barqueiro estes e aqueles;
- Muitos porém da praia arreda esquivo.
- A Enéias o tumulto espanta e abala:
- “Por que, ó virgem, das almas o concurso
- Busca este rio? por que enxotam-se umas,
- E o vau lívido a remo as outras varrem?”
- Breve torna a longeva: “Ó nobre cabo,
- Diva prole certíssima, o estagnado
- Cocito vês profundo e a crua Estige,
- Por quem temem faltar jurando os numes.
- Pobre turba inumada é quanto avistas;
- Caronte, o arrais; sepultos, os que embarcam.
- Nem pode algum, se os ossos não descansam,
- Montar a margem torva e rouca veia:
- Cem anos volteando ansiosos vagam;
- O estanque alfim rever, transpor conseguem.”
- O Anquisíades pára, e a sorte iníqua
- Detém-se a contemplar. Devisa aflito
- Mestos, sem funerais, Leucaspe e Oronte,
- Chefes da lícia esquadra; os quais, de Tróia
- Partidos, por tormentas soçobraram,
- Austro n’água envolvendo a nau e a gente.
- Seu piloto apresenta-se, que há pouco
- Na rota líbia, enquanto observa os astros,
- Da popa resvalou, foi de mergulho.
- Na escuridão lhe grita ao lobrigá-lo:
- “Que deus a nós roubou-te, ó Palinuro,
- E te afundou no ponto? Nunca em falha,
- Só nisto, Apolo achei, pois me cantava
- Incólume n’Ausônia abordarias:
- E ei-la a promessa!” O nauta replicou-lhe:
- “Nem de Febo a cortina, ó forte Anquíseo,
- Te iludiu, nem há deus que me afundasse.
- Regendo o curso, ao leme eu me aferrava;
- Arrancado com força, ele comigo
- Se precipita. Aos crespos mares juro,
- Nada temi por mim, senão que a tua
- Nau, sem leme, sem mestre, perecesse,
- Crescendo os escarcéus. Violento Noto
- Me rojou pelo imenso equóreo gólfão
- Três noites invernais: ao quarto lume
- De cima de uma vaga enxergo a Itália.
- Vou nadando, e em seguro já me agarro,
- Grave e molhado, às quinas de um rochedo,
- Quando, encontrar supondo grosso espólio,
- Homens cruéis a ferro me acometem.
- Ora o vento, a maré, me joga à praia.
- Pela jucunda luz, celestes auras,
- Pelo aumento de Iulo e por Anquises,
- Desta ânsia me descarga: ou tu me enterra,
- Que o podes indo a Vélia; ou, se há maneira,
- Se a genetriz, invicto rei, t’a indica
- (Nem creio navegar desassistido
- Queiras tais rios e a palude horrível),
- Dá-me a destra e me leva pelas ondas;
- Do remanso da morte eu goze ao menos.”
- “Donde, o atalha a Sibila, ó Palinuro,
- Donde esse ímpio desejo? não mandado
- A severa corrente olhar das Fúrias,
- Traspassando insepulto a estígia borda!
- Não penses em dobrar com rogo os fados.
- Mas por conforto e alívio atento escuta:
- Dessa comarca, instados por assombros,
- Hão de os vizinhos sufragar teus ossos,
- Com dons solenes tumular-te, e o sítio
- Terá de Palinuro o nome eterno.”
- Deste nome se paga, e um tanto as penas
- Do coração modera e desafoga.
- Marchando avante, às águas se apropínquam.
- Do lago o arrais, que os avistou no mudo
- Bosque andando, à ribeira encaminhados,
- Os salteia e os exprobra: “Tu, quem sejas,
- Nstas margens armado o que pretendes?
- Nem mais um passo; aqui somente as sombras
- E a soporosa Noite e o Sono habitam:
- Os vivos não transporta o casco estígio.
- Nem me gabo de haver tomado Alcides,
- Piritôo e Teseu, bem que invencíveis
- Prole fossem divina: aquele trouxe
- Dos pés do trono o guardião do inferno
- Tremente e agrilhoado; ao régio toro
- Subtrair a senhora os dois tentaram.”
- Curto responde a Anfísia: “Tais insídias
- Não temas; estas armas não te ofendem:
- No antro ladrando eterno, exangues sombras
- Assuste o grã porteiro; ao tio casta,
- Recatada Prosérpina se encerre.
- Tão guerreiro quão pio, ao Orco Enéias
- Desce ante o pai. Se a filial virtude
- Não te abranda e comove, ei-lo (descobre
- Na veste o ramo oculto), reconhece-o.”
- De ira as entranhas túmidas se aplacam;
- Nem mais tugiu. Da haste fatal mirando
- O venerável dom, não visto há muito,
- Volta a cerúlea popa e à riba encosta.
- Abancadas ao longo afasta as almas,
- Faz praça, e a bordo o capitão recebe.
- Ao peso a barca nas costuras geme,
- Rimosa da lagoa aos sorvos bebe;
- Além depõe a salvo a guia e o Frígio,
- Em morraçal verdoso e limo informe.
- Com trifauce latir Cérbero ingente,
- Deitado em cova oposta, o reino atroa.
- Seus serpentinos colos já se erriçam;
- Lança-lhe a vate um sonorento bolo
- De mel e confeições, que, as três gargantas
- Escachando glotão, raivoso engole;
- E, os costados em terra, entorpecido,
- Por toda a gruta o corpo enorme estira.
- Sopito o monstro, a entrada ocupa Enéias,
- E lesto evade a irremeável onda.
- Logo se ouve ao limiar vagido e choro,
- Tenros ais dos que ao seio em que mamavam
- Arrebatou, privou do doce alento,
- Imergiu dia infausto em luto acerbo.
- Por crime falso à morte os condenados
- Estão perto. Os lugares não se assinam
- Sem sortes, sem juiz: rodando a urna,
- Chama ao silente povo e inquire Minos,
- E das vidas conhece e dos pecados.
- Cá vizinham soturnos os que, insontes
- A luz odiando, as almas desataram,
- Vítimas do suicídio. Oh! quanto agora
- Prefeririam padecer no mundo
- Cru trabalho e pobreza! Há lei que o veda,
- E, em voltas nove circunfusa a Estige,
- Triste e inamável, os refreia e prende.
- Não mui distantes, os lugentes campos
- (É seu nome) estendidos se dilatam;
- Onde os que empeçonhou de amor a febre
- Mirtedo cobre de secretas sendas,
- Nem da paixão tirana a morte os livra.
- Lá Prócris, Fedra, Erífile passeia,
- Mesta do filho atroz mostrando os golpes;
- Também Pasife, Laodâmia e Evadne;
- Cênis, de fêmea transformada em homem,
- Por fadário a seu sexo reduzida.
- No bando, fresca a chaga, errava a Tíria
- Nos desvios da selva: assim que Enéias
- Ao pé chegou no escuro a distingui-la,
- Qual do mês no começo alguém nas nuvens
- Apontar vê Lucina ou cuida vê-la,
- Meigo e amoroso lagrimando fala:
- “Infeliz Dido! o núncio não mentiu-me,
- Desesperada a ferro te finaste!
- E autor eu fui! Rainha, aos céus to juro,
- No imo centro se há fé, larguei teu porto
- A meu pesar: forçaram-me os supremos,
- Que, no império da noite me afundando,
- Por brejos, por tojais, a andar me obrigam;
- Nem cri tamanha dor causar partindo.
- Tu foges? tu me esquivas? tem-te; os fados
- Este último colóquio nos concedem.”
- Tal a Dido, que irosa e torva o encara,
- Embrandecia o herói com pranto e mágoas:
- Ela aversa no chão pregava os olhos;
- Nem mais seu rosto à prática se move
- Que dura sílice ou marpésia rocha.
- Infensa escapa-se, e em retiro umbroso
- Do marido Siqueu se abriga ao peito,
- Que terno corresponde a seus cuidados.
- Longo trato, a chorar o injusto caso,
- Compungido e saudoso o Teucro a segue.
- Vão por diante; as veigas já pisavam
- Só de claros guerreiros freqüentadas.
- Aqui Tideu, Partenopeu famoso,
- Adrasto ocorre de palente imagem.
- Aqui, mortos no prélio e tão carpidos,
- Em fileira os Dardânidas encontra:
- Suspiroso a Tersíloco e Medonte,
- Glauco e os três Antenóridas contempla,
- E a Políbetes consagrado a Ceres,
- E Ideu que inda meneia e o carro e as armas.
- À destra e à sestra as almas se apinhoam:
- Não basta olhá-lo, não; retê-lo agrada,
- Achegar-se e indagar da vinda as causas.
- Logo que, pela treva o arnês fulgindo,
- O avistam graios cabos e as falanges
- Agamenônias, trépidos recuam:
- Uns, como quando aos barcos se acolheram,
- Costas viram; no erguer a voz sumida,
- A alguns na boca hiante o grito morre.
- O Priâmeo Deífobo entre estes anda,
- Lacero enormemente o corpo e a cara,
- De beiços, mãos e orelhas cerceado,
- E de um gilvaz deforme o nariz troncho.
- Com vergonha o suplício infame encobre;
- E a custo o reconhece o noto amigo:
- “De Teucro ó sangue ilustre, armipotente,
- A quem, Deífobo, tal crueza aprouve?
- Quem tanto ousou? Na noite ouvi suprema
- Que, de matar cansado, sucumbiras
- Confundido no vasto morticínio.
- No Reteu vezes três chamei-te a vozes,
- Vão túmulo erigindo; que o teu nome
- E armas protegem; nem te achei, nem pude
- No pátrio chão depor-te em me ausentando.”
- “Nada omitiste, o Priamides clama;
- Tudo a Deífobo e aos manes seus pagaste.
- Nestes males, amigo, me abismaram
- Da Lacena o flagício e o meu destino:
- Esta a memória que de si deixou-me.
- Soubeste (e há quem se esqueça) em gostos falsos
- Passada aquela noite. O fatal bruto
- Quando, prenhe de armada infantaria,
- Árduos muros saltou; fingindo coros,
- Ela as Frígias guiava em torno às orgias;
- E, entre as evantes manejando um facho,
- Do alto castelo os Danaos convidava.
- No tálamo infeliz me deito, opresso
- De pesadume e lida; e caio em manso
- Letargo, semelhante ao sono eterno.
- Põe-me a guapa consorte as armas fora,
- E até da cabeceira a fida espada;
- A Menelau acena e as portas abre;
- Julgando assim mimosear o amante,
- E o labéu extinguir da antiga ofensa.
- Que mais? o quarto assaltam; a exortá-los
- O Eólides malvado os acompanha.
- Deuses! igual suplício os gregos lastem,
- Se com justiça impreco esta vingança.
- Mas vivo, eia também, que urgente caso
- Te trouxe cá? dos manes foi capricho?
- Mando celeste? por que azar à estância
- Vens túrbida e funesta, ao Sol negada?”
- Febo em rósea quadriga o meio do eixo
- Pelo éter já transpunha, e em tais colóquios
- Ia-se o tempo dado; a companheira
- Em resumo os adverte: “Avança, Enéias,
- A noite, e em choro as horas consumimos.
- Parte-se a estrada aqui: de Dite aos paços
- Corre à direita, e além nos fica o Elísio;
- No ímpio Tártaro, à esquerda, os maus padecem.”
- Deífobo então: “Sibila, não te agastes;
- Ao número me agrego, e às sombras torno.
- Vai, glória nossa, vai; logra outros fados.”
- Nisto, o passo torcendo, se retira.
- Repara, e em sestra penha o herói descobre
- Tartárea trimurada fortaleza,
- Que rápido a rolar sonantes pedras,
- Cingem do Flegetonte ígneas torrentes.
- De inteiriças colunas diamantinas
- O portão da fachada, a demoli-lo
- Nem vale humano esforço, nem divino:
- Férrea torre se eleva; e de atalaia,
- Traçada opa sangüenta, sempre alerta,
- Lá Tisífone o pórtico defende.
- Entram ais a estrugir, do açoite os golpes;
- Arrastam-se grilhões; retinem ferros.
- Pára, e assombrado o estrondo haurindo Enéias:
- “Quais as culpas? quais delas os castigos?
- Explica, ó virgem: que alarido aquele?”
- E a vate: “Ínclito chefe, ao justo o limen
- Celeroso é vedado; mas dos deuses,
- Quando Hécate prepôs-me ao bosque averno,
- Mostrou-me os tratos, me levou por tudo.
- O duríssimo Gnósio Radamanto
- É quem manda; e os indaga e pune os crimes,
- E a confessar constrange os que expiá-los
- Para a tardia morte diferiram,
- De os ter furtado ao mundo em vão contentes.
- Ultriz, logo insultando os azurraga
- Tisífone; e a chamar as outras Fúrias,
- Destorce com a esquerda e assanha as cobras.”
- Ei-las de par em par as sacras portas
- No quício horríssono a ranger. “Atentas
- Qual, sentada ao vestíbulo, o vigia
- Medonha catadura? pois mais seva
- Cinqüenta atras goelas hidra enorme
- Dentro arreganha; e o Tártaro em despenho
- Se abisma, o dobro do que a vista abrange
- Desde baixo ao luzente Olimpo etéreo.
- Lá fulminados os Titãs mancebos,
- Filhos da Terra, nas profundas rolam.
- Vi de gigante corpo os dois Alóidas,
- Que, o céu mesmo escalando, acometeram
- Derribar do seu trono o rei supremo.
- Vi Salmoneu penando, que o sonido
- E os fuzis do Tonante arremedara:
- Tocha a brandir, em carro de dois tiros,
- Por Élide ia ovante, e à força os povos
- O adoravam por deus; com o estrupido
- Dos cornípedes néscio em érea ponte
- Trovões fingia e o fogo inimitável:
- Júpiter, fachos não, não fúmeas tedas,
- Sim contorce um corisco dentre as nuvens,
- E em turbilhão sulfúreo o precipita.
- Também da mãe comum o aluno Tício
- Por geiras nove, ó pasmo! estira os membros:
- Rói-lhe abutre cruel de bico adunco
- O fígado imortal; e, esquadrinhando
- Para o suplício as vísceras fecundas,
- A fome ceva, no âmago se encarna;
- De renascer as fibras não descansam.
- Dos Lapitas, Ixion, de Piritôo
- Que direi, sobre os quais já já desaba
- Atra iminente rocha? Ante eles brilham
- Em leitos geniais pilares de ouro,
- Banquetes régios de esquisito luxo:
- Perto encostada, a principal das Fúrias
- Atingir lhes proíbe as iguarias,
- Surge o facho a vibrar, minaz troveja.
- Quem teve ódio aos irmãos, durante a vida,
- Pôs mãos nos pais, urdiu contra o cliente;
- Os que amuados tesouros incubando,
- Máxima turba, nada aos seus partiram;
- Os mortos no adultério; os de ímpias armas
- Sequazes, desleais contra os senhores,
- No encerro a pena aguardam. Não a inquiras,
- Nem que sentença ou caso os tem submersos:
- Qual pedra ingente galga, ou de uma roda
- Estreito aos raios pende; está sentado
- Preso o infeliz Teseu e estará sempre;
- Flégias, misérrimo a bradar nas trevas,
- Nunca cessa: “Aprendei no exemplo horrível
- Justos a ser, a não zombar dos numes.”
- Este vendeu a pátria a ruim tirano;
- Leis, as fez e desfez peitado aquele;
- Outro invadiu nefando o leito à filha:
- Réus que a tenção danada executaram.
- Nem com voz férrea, bocas cem, cem línguas,
- Pudera eu numerar da culpa as formas,
- A variedade e os nomes dos castigos.”
- Depois a idosa Anfrísia: “Anda, acrescenta,
- Acaba a empresa, a rota apressuremos.
- Dos Ciclopes forjados vejo os muros,
- No arco da frente as portas, onde a oferta
- Depor se nos prescreve.” Disse, e opacas
- Vias a par correndo, o espaço vencem,
- Tocam já nos batentes. Ele a entrada
- Ocupa; e, de água viva asperso o corpo,
- No frontispício o ramo à deusa crava.
- Completo o rito e o voto, enfim chegaram
- A jucundos vergéis e amenas veigas,
- Da bem-aventurança alegres sítios.
- Éter mais largo purpureia os campos,
- Que alumia outro Sol, outras estrelas.
- Em gramínea palestra alguns se exercem,
- Brincam na fulva areia em luta e jogos;
- Parte o compasso bate, e baila e canta;
- E ao Trácio, que dedilha ou pulsa as cordas
- Com plectro ebúrneo, em roçagante loba,
- A septívoca lira acorde fala.
- Nota-se ali de Teucro a estirpe egrégia,
- Nados em melhor quadra heróis magnânimos,
- Dárdano autor de Tróia, Assáraco, Ilo;
- Sem dono ao longe arneses, coches vagos,
- Lanças no chão pregadas, e pascendo
- Livres soltos corcéis pela campanha.
- De armas e carros o que em vivos tinham
- Gosto, amor de nutrir nédios cavalos,
- Esse da terra ao seio os acompanha.
- Eis em festins na relva, à destra e à sestra,
- Ledo peã em coro outros modulam
- Num láureo bosque odoro, donde acima
- O Erídano caudal volve entre selvas.
- Lá, da pátria em defesa os vulnerados,
- Os sacerdotes castos, os poetas
- Que o puro estro febeu não profanaram,
- Os inventores das polidas artes,
- Os que renome obrando mereceram,
- A todos nívea banda as frontes orna.
- Circundada a Sibila os interroga,
- E a Museu mais, que os ombros sobreleva
- Do atento bando em meio: “Almas ditosas,
- E tu profeta exímio, onde, ensinai-me,
- Onde Anquises reside? em busca dele
- Do Érebo os grandes rios trasnadámos.”
- Foi breve o herói: “Nenhum tem certo o alvergue;
- Sombrios lucos, vicejantes margens,
- De arroios frescas várzeas habitamos.
- Mas, se o folgais de achar (o atalho é fácil),
- Esta encosta montemos”. E, a guiá-los,
- Do cume ostende as nítidas campinas,
- E a virente convale os vai descendo.
- Meditabundo Anquises, nele inclusas,
- As almas resenhava a tornar prestes
- À luz superna; e dos queridos netos
- O número talvez recenseava,
- Seus costumes e ações, fortuna e fados.
- Quando assomava Enéias pela grama,
- O ancião jubiloso alonga as palmas,
- E as faces rosciando a voz desprega:
- “Venceste, enfim, piedoso a dura estrada,
- Como esperava! És tu, meu caro Enéias?
- Ouvir-te os notos sons, render-tos posso!
- Para agora isto os cálculos me davam:
- Certo não me enganou meu pensamento.
- Por que terras jogado, por que mares,
- Por que perigos, filho, eu te recebo!
- Quanto receei que a Líbia te estorvasse!”
- E ele: “A tua, meu pai, a tua imagem
- Cá me atrai, ocorrendo austera e assídua.
- Hei no Tirreno a frota. Ao nosso amplexo
- Ah! não te esquives, destra a destra unamos.”
- E ao discursar, em lágrimas desfeito,
- Foi três vezes nos braços apertá-lo,
- Três abarcada a sombra se lhe escapa,
- Como aragem fugaz, ligeiro sono.
- Ei-lo em secreto vale descortina
- Selva escusa de arbustos sussurrantes:
- Em torno ao brando Letes, que ali mana,
- Voam povos sem conto; e, qual nos prados
- Se em flores várias por sereno estio
- Senta o enxame e se espalha entre açucenas,
- Do estrépito murmura o campo todo.
- Ínscio, atalhado, a causa indaga Enéias,
- Que rio este é, que gente em cópia tanta
- Lhe enche as ribas. “Aos corpos destinados,
- Disse o padre, almas são que eterno olvido
- N’água letéia descuidosa bebem.
- Muito há que tas mostrar e expor-te anelo
- Dos meus a descendência; a fim que ainda
- Te regozijes mais da Itália achada.”
- “Pois é crível, meu pai, que almas sublimes
- Aos tardos corpos, ressurgindo, voltem?
- Oh! desejo de vida insano e triste!”
- “Não fiques mais suspenso; eu vou por ordem
- Cada coisa expender-te: escuta, ó filho.
- Desde o princípio intrínseco almo espírito
- Céus e terra aviventa e o plaino undoso,
- O alvo globo lunar, titâneos astros,
- E nas veias infuso a mole agita,
- E ao todo se mistura: homens e brutos,
- Voláteis gera e anima, e o que de monstros
- O cristal fluido esconde. Há nas sementes
- Ígneo vigor divino, enquanto a nóxia
- Matéria o não retarda, nem o embotam
- Órgãos terrenos, moribundos membros.
- Daqui vêm dor, prazer, cobiça e medo;
- E à clara alteza os míseros não olham,
- Em cega negregura encarcerados.
- Nem perdem, quando a luz vital se extingue,
- De todo as fezes e mundanos vícios:
- Muitos, concretos longamente, é força
- Que nelas durem por teor pasmoso.
- Em tratos pois seus erros pagam todas:
- Qual pende aos ventos; qual da culpa as nódoas
- Lava em golfo espaçoso, ou dile ao fogo.
- Cada um sofre em seus manes: poucos temos
- Ao depois do amplo Elísio as doces veigas;
- Té que, perfeito o giro, a mão do tempo
- Gasta o impresso labéu, depura a flama,
- O senso etéreo e simples aura afina.
- Voltos mil anos, as convoca em turmas
- Ao rio um deus; por que elas, do passado
- Esquecidas, rever a esfera queiram,
- E entrar de novo nas prisões corpóreas.”
- Cessa Anquises; a Enéias e a Sibila
- Traz ao mais basto da ruidosa turba;
- Um combro toma; donde a extensa fila
- Divise dos que vêm, e a todos possa
- Os traços discernir. Então prossegue:
- “Eia, a glória que os Dárdanos espera,
- Do ítalo tronco os descendentes nossos
- Que a fama ilustrarão dos seus maiores,
- Hei de explicar-te, e aprenderás teus fados.
- Notas? próximo à luz por sorte, um jovem
- Se arrima em hasta pura: às auras, misto
- Latino sangue, surgirá primeiro,
- Sílvio, póstumo teu, de nome albano;
- Que tardio, a ti já na eterna vida,
- Te há de Lavínia produzir nas selvas;
- Rei, de reis gerador, por onde os nossos
- Têm de vir de Alba-longa a ser senhores.
- Segue-se Procas, dos Troianos honra;
- Cápis e Numitor mais Sílvio Enéias,
- Que te avive e recorde, e, obtendo o reino
- Cobrar, te imite belicoso e pio.
- Olha, os mancebos quanta força ostentam!
- Aos que civil carvalho ensombra as testas,
- Esses Nomento e Gábios e Fidenas,
- Esses Colácia te alçarão nos montes,
- Exímia no pudor; Pomécia altiva,
- Castro d’Inuo juntando, e Bola e Cora:
- Ermos ignotos, no porvir famosos.
- Será do avô refúgio o Márcio Rômulo,
- De Ília, prole de Assáraco, nascido.
- Vês que o elmo lhe adornam dois cocares,
- E o padre o marca de esplendor sidéreo?
- A ínclita Roma, por auspícios dele,
- O orbe, Enéias, fecunda em grandes homens,
- No império há de abranger, na mente o Olimpo,
- Sete montanhas numa só cidade:
- Oual torreada, ufana mãe dos deuses,
- Corre em Frígia no coche a Berecíntia,
- Que cem netos celícolas abraça,
- Todos em alto grau, ditosos todos.
- Volve os olhos, contempla os teus Romanos.
- Júlio aí tens e a geração de Ascânio,
- Para exaltar-se ao pólo. A ti bem vezes
- Eis, eis o prometido, Augusto César,
- Diva estirpe, varão que ao Lácio antigo
- Há de os satúrnios séculos dourados
- Restituir, e sobre os Garamantes
- E Indos seu mando propagar; dos signos
- Clima além situado, além das rotas
- Do ano e do Sol, por onde aos ombros vira
- O celífero Atlante o eixo ardente
- De estrelas tauxiado. Os cáspios reinos
- Já do agouro da vinda se horrorizam;
- E a meótica plaga e as septiduplas
- Fozes do Nilo túrbidas trepidam.
- Nem o que a cerva erípede varara,
- Que apaziguara as matas do Erimanto,
- E a Lerna com seu arco estremecera,
- Tanto peregrinou; nem vitorioso
- Líbero, que do Nisa expede os tigres,
- E dobra os cumes com pampíneas rédeas.
- E inda estender a fama duvidamos,
- Ou n’Ausônia assentar nos tolhe o medo?
- Quem distante apresenta insígnias sacras
- E ramos de oliveira? as cãs e a barba
- Do rei conheço que primeiro em Roma
- Legislará, da exígua e pobre Cures
- Mandado a celso império. Ao depois Tulo
- Irá da pátria quebrantar os ócios,
- Mover às armas cidadãos remissos,
- E as tropas aos triunfos desafeitas.
- Anco sucederá mais presunçoso,
- Que d’aura popular já nímio folga.
- Ver queres os Tarquínios, e o severo
- Vingador Bruto e os recebidos feixes?
- Cônsul, tomando as sevas machadinhas,
- Ai dele! imolará rebeldes filhos
- À pulcra liberdade. Vário ajuízem
- Disto os vindouros; há de o amor da pátria,
- E o de glória vencer desejo imenso.
- Nota os Décios ao longe, os Drusos nota,
- Mânlio Torquato de cruel secure,
- E o dos pendões recondutor Camilo.
- De armas fulgindo iguais, os dois que observas,
- Concordes hoje quando a noite os preme,
- Ah! quanta excitarão, se a luz tocarem,
- Guerra entre si, que estragos, que batalhas!
- Dos muros de Moneco e das Alpinas
- Serras baixando o sogro, instructo o genro
- Dos opostos Eôos! A tais guerras
- Não vos acostumeis, nem volteis, jovens,
- Contra o seio da pátria o esforço vosso.
- Tu, que provéns do Olimpo, antes perdoa;
- Fora os dardos arroja, ó tu meu sangue.
- De Aqueus pela matança aquele insigne,
- Triunfada Corinto, ao Capitólio
- Há de o carro subir. Micenas e Argos
- De Agamenom, ess”outro há de estruí-las,
- A Eacide abater, do armipossante
- Aquiles garfo; os Teucros seus vingando,
- E de Minerva o maculado templo.
- Como olvidar-te, ó Cosso, ó Catão magno?
- Como os Gracos, e os dois, terror da Líbia,
- Cipiões, raios da guerra? e na pobreza
- O potente Fabrício? e a ti, Serrano,
- Semeando os sulcos? Onde absorto, ó Fábios,
- Me arrebatais? só tu, Máximo, aos nossos
- Detençoso a república restauras.
- Hão de outros, sim, mais molemente os bronzes
- Respirantes fundir, sacar do mármore
- Vultos vivos; orar melhor nas causas;
- Descrever com seu rádio o céu rotundo,
- O orto e sidério curso: tu, Romano,
- Cuida o mundo em reger; terás por artes
- A paz e a lei ditar, e os povos todos
- Poupar submissos, debelar soberbos.”
- Com pasmo ouvido: “Atenta, ajunta o velho,
- Do espólio opimo ovante, eis vem Marcelo,
- E em talhe sobrepuja os varões todos.
- Turbada em grã tumulto, há de este a Roma
- Cavaleiro assistir; prostrar o Galo
- Revolto e os Penos, e as terceiras armas
- Ganhadas suspender ao pai Quirino.”
- Nisto, Enéias descobre um lindo moço
- De fulgurante arnês, mas pouco alegre,
- De rosto e olhar caído: “Ao varão, padre,
- Quem acompanha? é filho? é da prosápia
- Dele talvez? Que séquito estrondoso!
- Que ar de Marcelo tem! Mas noite escura
- Triste voa e a cabeça lhe circunda.”
- Em lágrimas Anquises: “Não me inquiras
- Dos teus o luto ingente; apenas, filho,
- À terra o mostrará destino avaro.
- A durar este dom, creríeis, deuses,
- Nímio possante a geração romana.
- Que ais no campo vizinho aos márcios muros!
- Ou de que funerais, entre o sepulcro
- Recente resvalando, ó Tiberino,
- Testemunha serás! Nenhum mancebo
- Da gente ilíaca os avós latinos
- Tanto há de esperançar, nem de outro aluno
- O romúleo país jactar-se tanto.
- Ó Piedade! ó fé prisca! ó destra invicta!
- Ninguém impune o arrostaria armado,
- Quer a pé remetesse, quer d’esporas
- Os do espúmeo ginete ilhais picasse.
- Qual! jovem miserando, ásperos fados
- Se a romper chegas, tu serás Marcelo.
- Dai-me às mancheias lírios, dai-me rosas:
- De esparsas flores eu cumule o neto;
- A alma do vão tributo ao menos logre.”
- Assim, no espaço aéreo vagueando
- Por essas regiões, tudo examinam.
- Depois que o padre o instrui, e de renome
- No ardor o abrasa, as iminentes guerras
- Ao filho explana, e os povos de Laurento
- E de Latino a corte lhe anuncia,
- E como o risco evite e como o sofra.
- Do Sono há dois portões: saída, contam,
- O córneo facilita às veras sombras;
- Do que é de alvo marfim, terso e nitente,
- Mandam falsas visões à luz os manes.
- Pelo ebúrneo, entretendo a vate e o filho,
- Os encaminha Anquises e os despede.
- Para as naus corta, aos seus reverte Enéias.
- Corre a costa e a Caieta vai direito.
- Da proa botam ferro, a popa atracam.