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EneidaLivro X
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De par em par o onipotente Olimpo

894 versos · 8 notas do tradutor


  1. De par em par o onipotente Olimpo,
  2. Concílio o pai divino e rei dos homens
  3. Chama à sidérea corte; excelso as terras
  4. Fita e o campo troiano e os lácios povos.
  5. Sentam-se; ele nas salas bipatentes
  6. A mão tomou: “Celícolas egrégios,
  7. Por que, mudados, contendeis iníquos?
  8. Vedei guerra entre os Ítalos e os Frígios,
  9. E revéis a soprais? Que medo uns e outros
  10. Compele às armas e provoca o ferro?
  11. Não vos antecipeis, que em Roma altiva
  12. Um dia soltará Cartago fera
  13. Exício grande e os devassados Alpes:
  14. Ódios então permito e o saque e os prélios;
  15. Quero hoje paz, condescendei comigo.”
  16. Breve Júpiter foi; mas Vênus linda
  17. Não breve o contestou: “Poder eterno
  18. De humanos e imortais (pois que outro apoio
  19. Implorar devo?), a rútula insolência
  20. Notas, padre, e o ruído com que Turno
  21. Campeia túmido em propício marte:
  22. Valo ou muralha os Frígios não resguarda;
  23. Dentro e nos bastiões pelejas travam;
  24. Sangue os fossos inunda. Ausente Enéias
  25. O ignora. O sítio nunca mais levantas?
  26. Ílio nascente os inimigos forçam;
  27. Outro exército avança, e de Arpo etólia
  28. Ameaça os Teucros outra vez Tidides.
  29. Certo me aguardam, penso, outras feridas;
  30. Mortais armas receio, eu prole tua.
  31. Se a teu pesar estão na Hespéria os Troas,
  32. Não mos ajudes, seu delito expurguem;
  33. Se lei cumprem superna e a voz dos manes,
  34. Como inda há quem transverta as ordens tuas
  35. E reforme o destino? As naus combustas
  36. De Erix na praia, o rei das tempestades
  37. Cabe alegar na Eólia concitado,
  38. E Íris do céu baixando? Ora até move
  39. (Restava este recurso) o mesmo inferno,
  40. De chofre acima remetendo Alecto,
  41. Que a debacar a Itália contamina.
  42. Já de impérios prescindo: isso esperámos
  43. Em melhor quadra; vença quem te agrade.
  44. Se, dura aos nossos, tua esposa nega
  45. Na terra um canto, pelo exício de Ílio
  46. Fumante obsecro, do conflito o neto
  47. Incólume apartar me outorga, ó padre.
  48. Bote-se Enéias por ignotos mares
  49. À mercê da fortuna: eu valha ao menos
  50. De ímpio combate a subtrair Ascânio.
  51. Tenho Idálio, Amatunta e a celsa Pafos,
  52. Mais Citera, onde obscuro imbele viva:
  53. Deixa que Tiro atroz a Ausônia oprima;
  54. Ele nada obsta ao púnico domínio.
  55. Que monta que, evadido à peste argiva,
  56. Das chamas se livrasse? que, em demanda
  57. Da recidiva Pérgamo, os perigos
  58. De imenso mundo e pélago exaurisse?
  59. Por que sob pátrias cinzas não ficaram?
  60. Míseros, peço, os rende ao Xanto e Símois:
  61. Tornem, padre, a versar de Tróia os casos.”
  62. Juno régia, o rancor não mais contendo:
  63. “Pois a romper e a divulgar me obrigas
  64. A silente ima dor? Que deus ou que homem
  65. Fez que a Latino o sorrateiro Enéias
  66. Hostilizasse? À Itália, fado seja,
  67. Foi-se a impulsos das fúrias de Cassandra:
  68. Nós o forçamos a largar a praça,
  69. A vida entregue aos ventos? a um menino
  70. Confiar o comando? a fé tirrena
  71. E a paz turbar dos povos? A tais faltas
  72. Qual nume o arrasta, qual dureza nossa?
  73. Íris baixou do céu, entra aqui Juno?
  74. É mau que Ílio nascente as flamas cinjam,
  75. E ao país ame Turno, o de Venília
  76. Deusa nado o tresneto de Pilumno:
  77. Que importa que atro facho Ílio sacuda,
  78. Subjugue o Lácio, alheios campos tale?
  79. Que sogros fraude, a noivos tire noivas?
  80. Que armas nas popas fixe e o ramo arvore?
  81. Roubar da aquiva garra o filho podes,
  82. Por vã névoa trocá-lo; a frota em ninfas
  83. Tu podes converter: um pouco a Turno
  84. Socorrermos é crime. Enéias tudo
  85. Ausente ignora: pois ignore ausente.
  86. Que! tens Pafos, Citera, Idálio; e tentas
  87. Um chão de guerras prenhe e a peitos feros?
  88. Nós de Ílio os débeis restos subvertemos,
  89. Ou quem míseros Troas contra os Gregos
  90. Açulou? Foi por nós que o rapto armado
  91. Solvera de Ásia e Europa as alianças?
  92. Que o Frígio adúltero expugnara Esparta?
  93. Eu lides fomentei com paixões torpes?
  94. Teu medo então convinha: tarde surges
  95. Com injusto queixume e fútil bulha.”
  96. Juno orava; os celícolas sussurram
  97. Com vário assenso, qual primeiro os sopros
  98. Na mata a murmurar volteiam cegos,
  99. Anúncio da procela ao marinheiro.
  100. Do árbitro poderoso ao grave acento,
  101. Cala a diva morada, o ar sumo cala,
  102. Nos eixos treme a terra, amaina o pego,
  103. Zéfiros sossegando: “Ouvi-me, e n’alma
  104. A sentença imprimi. Já que é defeso
  105. Teucros e Ausônios congraçar, nem finda
  106. Vossa discórdia, esperançoso corra
  107. Seus fados cada qual, desde hoje trato
  108. Sem diferença a Rútulo ou Dardânio;
  109. Quer à Hespéria nocivo ature o assédio,
  110. Quer por erro de agouro em mal de Tróia,
  111. Jogado o lanço foi: rei justo às partes,
  112. Júpiter os destinos não desliga;
  113. Estes rumo acharão.” Pela do estígio
  114. Irmão pícea torrente e negro abismo
  115. Jura, e ao nuto estremece o Olimpo todo.
  116. Fecha o concílio: ergueu-se do áureo trono;
  117. E ao limiar os deuses o acompanham.
  118. Insta o Rútulo entanto à roda e às portas,
  119. Mata, incendeia, estraga. Atém-se aos valos
  120. A encerrada legião, sem mais refúgio:
  121. Rara os muros coroa, e as torres altas
  122. Ah! mal guarnece. À testa Ásio Imbracides,
  123. Os Assáracos dois, o Hicetaônio
  124. Timetes, e Castor e o velho Timbris
  125. Estão; mais Claro e Hemom da nobre Lícia,
  126. De Sarpédon germanos. Grã penedo,
  127. Viva lasca do monte, Acmom Lirnéssio
  128. Deita às costas, e iguala a seu pai Clício
  129. E a Mnesteu seu irmão no esforço e arrojo.
  130. Com zagaias, com pedras se defendem;
  131. Remessam fogo, ao nervo adaptam setas.
  132. Da Cípria ânsia e cuidado, ali no meio
  133. Brilha sem casco o belo adolescente;
  134. Na cerviz láctea o crino desparzido,
  135. Mole círculo de ouro o ata e apanha:
  136. Dest’arte, em fulvo engaste a gema adorna
  137. Fronte ou colo, e embutida ebúrnea peça
  138. No orício terebinto ou buxo esplende.
  139. Viram-te, Ismaro, as gentes valorosas
  140. Despedir frechas de veneno armadas,
  141. Garfo brioso da Meônia fértil,
  142. Onde agros o Páctolo irriga de ouro.
  143. Mnesteu não falha, a quem sublima a glória
  144. De haver a Turno da bastida expulso;
  145. E Cápis, de quem teve o nome Cápua.
  146. Da guerra o cargo repartiu-se entre eles;
  147. De volta, rasga o herói noturnas vagas.
  148. De Evandro assim que passa ao rei da Etrúria,
  149. Quem era expôs, a que ia, em que é prestante;
  150. Quanto auxílio granjeia o cru Mezêncio,
  151. Quão violento o rei Turno, quão falível
  152. A sorte humana; e preces intermeia:
  153. Tárchon alia sem demora as forças,
  154. E os pactos fere. Solto o fado, os Lídios
  155. Com chefe externo, por querer divino,
  156. Se embarcam. Vai diante a popa enéia,
  157. Frígios leões ao beque, e na bandeira
  158. O Ida, enlevos dos prófugos Troianos.
  159. Sentado Enéias, volve em si tão vários
  160. Eventos; e Palante, à sestra, inquire
  161. Já do sidéreo curso e opaca noite,
  162. Já dos trabalhos dele em mar e em terra.
  163. Abri-me o Helicon, Musas; descantai-me
  164. Que tusca multidão, munindo os lenhos,
  165. Vogue na azul campina. Após Enéias,
  166. Mássico bem na Tigre eri-chapeada,
  167. Com bravos moços mil de Clúsio e Cosas,
  168. De arco letal ao ombro e de polido
  169. Sagitífero coldre. O brusco Abante
  170. A par, a gente relumbrava, e à popa
  171. Dourado Apolo: Populônia madre
  172. Mancebos destros lhe fiou seiscentos;
  173. Trezentos Ilva, de metal calíbio
  174. Fecunda ilha inexausta. O mago Asilas,
  175. A quem o humano e o divinal descobrem
  176. Astros, fibras de reses, línguas de aves
  177. E o pressago fulgor, conduz terceiro
  178. De hastatos mil espesso horrendo bando;
  179. Que lhos subordinou, de alféia origem,
  180. Pisa etrusca. Pulquérrimo, em cambiante
  181. Arnês afoito e em seu corcel, trezentos
  182. Astur ajunta (um mesmo ardor em todos)
  183. Na pátria Cérete, em miniônias margens,
  184. Pestífera Gravisca e Pirgo-Vedra.
  185. Não te omito, ó Ciniras, belacíssimo
  186. Rei da Ligúria; e a ti, que poucos mandas
  187. E hás no tope, Cupavo, císneas penas:
  188. Foi culpa aos vossos a amizade, a insígnia
  189. É da paterna forma. Cicno, contam,
  190. Saudoso de Faeton, quando entre choupos,
  191. Das irmãs deste à sombra, o amor em nênias
  192. E o luto consolava, em brandas plumas,
  193. Qual velho encanecendo, ao céu cantando
  194. Se elevou. Na companha iguais penachos,
  195. Rema o filho alta nau, donde um centauro
  196. Árduo com pedra enorme acena às águas,
  197. Arando o buco longo o plaino equóreo.
  198. Também da pátria move as turmas Ocno.
  199. Prole da vate Manto e um tusco rio,
  200. Que o nome da mãe deu-te e muros, Mântua;
  201. Mântua, rica de avós, não de uma estirpe,
  202. De tribos três, por tribo quatro cúrias,
  203. És cabeça, e te alenta o sangue etrusco.
  204. Dali contra Mezêncio, em pinho infesto,
  205. Do pai Benaco o Míncio, de arundíneo
  206. Verdoengo véu, despeja mais quinhentos;
  207. Auletes sério os guia, e vira e açoita
  208. De árvores cento o mármore espumoso:
  209. Trá-lo imano tritão, que os vaus cerúleos
  210. A búzio aterra, humano híspido o rosto,
  211. De ceto o imerso ventre, ao semifero
  212. A vaga sob o peito alveja e estoura.
  213. O tétio sal com bronze, em baixéis trinta,
  214. A pró de Tróia cabos tais retalham:
  215. A alma Febe, o Sol posto, meio Olimpo
  216. Já no carro noctívago atingia.
  217. O cauto Enéias, sem dormir cuidoso,
  218. Prossegue dirigindo o leme e as velas:
  219. Eis um coro de ninfas lhe aparece,
  220. Naus suas que a benéfica Cibele
  221. Deusas do ponto fez; a nado o sulcam
  222. Tantas emparelhadas, quantas éreas
  223. Proas retinha a praia, e apercebendo
  224. A seu senhor, com danças o circundam.
  225. Atrás Cimódoce, a melhor falante,
  226. Na destra a popa tendo, alteia a espádua,
  227. Sorrema com a esquerda as ondas mudas;
  228. Ignaro o adverte: “Enéias, tu vigias?
  229. Vigia, ó divo, ao pano escotas larga.
  230. Do cume sacro ideu somos teus pinhos:
  231. Do Rútulo a perfídia a ferro e fogo
  232. Nos apertava, e amarras nós invitas
  233. Quebrando à pressa, em tua busca andamos;
  234. Que em fluctícolas deusas compassiva
  235. Aviventou-nos Réia. Ascânio, saibas,
  236. Dos rojões do latino feio marte
  237. A custo se defende; já da Arcádia
  238. Junta a cavalaria ao Tusco estrênuo
  239. Postou-se onde marcaste, e firme a que eles
  240. Se aproximem da praça opõe-se Turno:
  241. Sus, na alvorada a l’arma soar manda;
  242. O invicto escudo embraça de orlas de ouro,
  243. Primor do Ignipotente. Em mim se creres,
  244. Será crástina a luz espectadora
  245. De rútula estupenda mortualha.”
  246. Então, não peca no mister, a popa
  247. Celsa empurrando, pelas ondas foge,
  248. Ligeira como a frecha ou leve xara:
  249. As mais também. Estupefato o Anquíseo,
  250. Contudo anima os seus com tal presságio,
  251. E ora curto, encarando o azul convexo:
  252. “Divina genitriz, que as torres presas,
  253. Leões cangas e enfreias; pois me induzes
  254. À guerra, ó Dindimene, o agouro aspira,
  255. Com pé vem protetor, assiste aos Frígios”.
  256. Al não disse; e, à carreira o Sol tornando,
  257. Com lume já maduro espanca a treva.
  258. Logo Enéias, bandeiras despregadas,
  259. Arma, apresta, acorçoa. D’alta popa
  260. Seus arraiais contempla, e ao braço esquerdo
  261. Exalça o ígneo broquel. Do muro os Teucros,
  262. Voz em grita (a esperança esperta as iras)
  263. Jaculam tiros: quais sob um nublado
  264. Grasnam estrimónios grous, que a Noto esquivos,
  265. Dando ledos a senha, os ares tranam.
  266. Turno e os seus o estranhavam, té que enxergam,
  267. Popas voltas à praia, o mar coalhando,
  268. A frota prolongar-se. Arde a celada,
  269. Lampeja a Enéias o cocar, do escudo
  270. O diamante flamívomo centelha:
  271. Lúgubre assim rubeja em lenta noite
  272. O sangüíneo cometa; ou, sede e morbos
  273. Dardejando aos mortais, fervente Sírio
  274. Com funesto luzir contrista o pólo.
  275. Nada esmorece a Turno; apoderar-se
  276. Da praia intenta e obstar ao desembarque.
  277. Incita, exorta: “O ensejo desejado
  278. Ei-lo, varões; obrai, que o marte mesmo
  279. Se vos entrega: esposa e lar vos lembrem,
  280. Lembrem-vos pátrios feitos gloriosos;
  281. Acorramos à borda e os encontremos,
  282. Trépido o passo enquanto lhes vacila:
  283. Audazes a fortuna favorece.”
  284. Nisto, elege os que o sigam nesta empresa,
  285. Outros incumbe de manter o assédio.
  286. Já lá das popas lança o Teucro pranchas.
  287. Tais à espera do lânguido refluxo,
  288. Tais os remos fincando, aos baixos pulam.
  289. Onde nem brotam vaus, nem rechaçada
  290. Remuge a onda, mas se alisa mansa
  291. Do fluxo no montar, observa Tárchon;
  292. Rápido as proas vira, e aos nautas insta:
  293. “Picai voga, eia, alçai-vos, gente forte,
  294. Impeli-me os baixéis; que os rostros fendam
  295. O solo hostil, e sulco se abra a quilha.
  296. É nada o naufragar, se pojo em terra.”
  297. Ele ordena, e estribando ao remo investem;
  298. Os barcos a espumar direito abicam,
  299. Até que, os esporões em seco varam,
  300. E ilesos cascos assentaram, menos
  301. A tua popa, Tárchon; pois de iníquo
  302. Dorso encalhada pende, um tempo nuta,
  303. Maretas cansam-na, e desfeita vasa
  304. N’água a turba varonil, que fraturados
  305. Bancos e remos à matroca impedem,
  306. E a ressaca a repulsa e os pés lhe embarga.
  307. Nada ignavo, o acre Turno contra os Frígios
  308. A hoste arremessa toda, e a praia ocupa.
  309. Toca à degola. Enéias fausto a enceta
  310. Sobre o agreste esquadrão; rompe os Latinos,
  311. Morto o maior. Teron, que ousa arrostá-lo:
  312. Penetrando o éneo escudo e auri-escamosa
  313. Túnica, a espada lhe embebeu na ilharga.
  314. Seu ferro a Lichas prostra, que a ti sacro,
  315. Febo, da extinta mãe sacado infante,
  316. Pôde no ferro escapar. Não longe o duro
  317. Cisseu derriba e o corpulento Gias,
  318. Que a turmas esmagavam: não lhes presta
  319. Clava, nem pulso hercúleo, e o pai Melampo,
  320. Sócio nos transes do lidado Alcides.
  321. A Faron, que jactâncias vocifera,
  322. Na boca um dardo retorcendo enfia.
  323. E tu, pobre Cidon, que ias trás Clício,
  324. Teu novo gosto, em cujas faces punge
  325. Lanugem loura, à tróica mão caíras,
  326. Quite do insano amor que aos jovens tinhas;
  327. Se em mó, de Forco nados, não saíssem
  328. Irmãos sete que arrojam sete lanças:
  329. Parte, as rebate o escudo e o capacete;
  330. Parte a soslaio o alcança, e as torce Vênus.
  331. “Hastas, Enéias brada, hastas, amigo,
  332. Das que em Tróia preguei no corpo aos Gregos;
  333. Aos Rútulos nenhuma irá frustrânea.”
  334. Pega uma ingente, que a voar a adarga
  335. Brônzea a Meon traspassa e a malha e os peitos.
  336. Corre Alcanor, sustenta o irmão que tomba:
  337. O lagarto lhe encrava outro arremesso,
  338. Que progride cruento; e pelos nervos
  339. Da espádua o braço moribundo pende.
  340. Eis do irmão Numitor a farpa arranca,
  341. E a revira ao herói; mas não lhe coube
  342. Tocá-lo, e a coxa ao grande Acates roça.
  343. Clauso de Cures, no verdor fiado,
  344. Lá vibra a Dríope um zarguncho rijo
  345. Sob o queixo, e lhe tronca a fala e a vida,
  346. Rota a goela; em terra a testa bate,
  347. E a boca lhe vomita em grumos sangue.
  348. Destroça vário a Traces três, prosápia
  349. De Bóreas digna, e a três de ismara pátria,
  350. Que Idas padre enviou. Com seus Auruncos
  351. Acode Haleso; acode o éqüite insigne
  352. Messapo de Netuno: ora uns, ora outros,
  353. No umbral da Ausônia a combater, se expelem.
  354. No espaço a pleitear discordes ventos,
  355. Em força e ânimo iguais, entre si lutam,
  356. Nuvem nem mar cedendo; e renitentes,
  357. Dúbio a durar o prélio, a tudo afrontam:
  358. Dest’arte os Frígios travam-se e os Latinos,
  359. Pé com pé, rosto a rosto, arca por arca.
  360. Palante alhures, onde ampla torrente
  361. Seixos rola e arvoredos extirpados,
  362. Vendo os Árcades seus, que, se apeando
  363. Pelo áspero terreno, desafeitos
  364. À pedestre contenda, ao sequaz Lácio
  365. Voltam costas; segundo as ocorrências,
  366. Roga, invectiva, os brios reacende:
  367. “Fugis, irmãos? por vós, por vossos feitos,
  368. Pela do caro Evandro invicta glória
  369. E a que nutro esperança de emulá-lo,
  370. Não confieis nos pés: que a ferro entremos
  371. Por onde espesso engloba-se o inimigo,
  372. Alto a Palante e a vós prescreve a pátria.
  373. Não divos, são mortais que a mortais urgem;
  374. Mãos também e almas temos. Golfo imenso
  375. Nos obsta; à fuga terra já nos falta:
  376. Buscaremos o pego ou teucros muros?”
  377. Cessa, e por densos batalhões prorrompe.
  378. Lago, ó desgraça! o topa; e, enquanto lasca
  379. Pesada rocha, de través Palante
  380. Finca-lhe, onde o espinhaço as costas parte,
  381. E extrai a choupa aos ossos aderente.
  382. Cuida Hisbon surpreendê-lo; e quando, cego
  383. Do cruel fim do amigo, em fúria salta,
  384. No inchado bofe o herói some-lhe o estoque.
  385. Vai-se depois a Sténelo, e à de Reto
  386. Vetusta raça, Anquémolo, que o toro
  387. Da madrasta incestou desaforado.
  388. Timbro e Larida, o pó mordestes gêmeos,
  389. Dáucia prole simílima e indistinta,
  390. Aos pais erro suave: o gume arcádio
  391. Vos pôs duro descrime; a ti cerceia,
  392. Timbro, a cabeça; e a destra mutilada,
  393. Larida, a procurar-te, o ferro aperta
  394. Nos semiânimes dedos palpitantes.
  395. A voz do chefe, o exemplo, dor, vergonha
  396. Os Árcades inflama, que arremetem.
  397. Mata o moço a Reteu, que em biga, ó nobres
  398. Irmãos Tires e Teutras, vos fugia:
  399. A Ilo, a quem salva o espaço, longe atira
  400. Válida hasta, que em meio a Reteu colhe;
  401. Do carro ao chão resvala, e semivivo
  402. Calca e percute a rútula campanha.
  403. No estio, ao sopro de anelantes ventos,
  404. Quando em selva o pastor semeia incêndios,
  405. No âmago lavram e hórridos propagam
  406. Em largo plaino exércitos vulcânios;
  407. Ele altivo contempla ovantes chamas:
  408. Os teus para ajudar-te assim, Palante,
  409. Unem-se em feixe. O ardido Haleso contra
  410. Rui, na armadura envolto: imola a Feres,
  411. Demódoco e Ladon; seu talho a destra
  412. A Estrimônio decepa, que ao pescoço
  413. Leva-lhe a adaga; a seixo o crânio a Toas
  414. Racha e esmigalha o cérebro sangüento.
  415. Pressago o pai de Haleso o teve em brenhas:
  416. A Parca o preia e sagra à lança evândria,
  417. Solvendo ao velho os desmaiados lumes;
  418. Palante o agride, orando: “Ó Tiberino,
  419. O remessão que libro, alado o emprega
  420. Do atroz varão no seio: um teu carvalho
  421. Terá dele os despojos e estas armas.”
  422. O deus o ouviu; que Haleso ao bote certo,
  423. No cobrir a Imaon, descobre o lado.
  424. Lauso, um pilar da guerra, os seus não deixa
  425. De um tal golpe assustar-se: a Abante oposto,
  426. Do combate eixo e nó, destrói; prosterna
  427. Tuscos, Arcádios; nem vos poupa, ó Troas,
  428. Poupados por Argeus. Travam-se, em cabos
  429. E em força iguais; baralham-se as fileiras;
  430. Os tiros e o manejo o aperto empacha.
  431. Cá Lauso se afervora, além Palante,
  432. Ambos eqüevos quase, ambos formosos;
  433. Mas a pátria rever lhes nega o fado:
  434. Não quis do Olimpo o rei que às mãos viessem;
  435. Mor inimigo talhará seus dias.
  436. Eis, da irmã por conselho, em veloz coche
  437. Turno, a Lauso acudindo, as filas corta:
  438. “Parai, sócios; recebo eu só Palante,
  439. Palante a mim se deve: oh! se aqui fora
  440. Testemunha seu pai!” Cedem-lhe o passo:
  441. Admira o moço a obediência pronta,
  442. Mede ao soberbo o talhe formidável,
  443. Rodeia ao longe a furibunda vista,
  444. E ao tirano responde: “Ou morte nobre,
  445. Ou vai despojo opimo honrar meu nome;
  446. Sorte igual a meu pai: não feros, obras!”
  447. Falando ao plaino marcha: coalha o sangue
  448. Nos corações arcádios. Pula Turno
  449. Da biga, a pé remete; imagem própria
  450. Do rompente leão que ao touro voa,
  451. A quem de alto covil descobre em lutas
  452. No prado a meditar. Ao crê-lo a tiro
  453. De hasta, avança Palante; a audácia invoca
  454. No desigual partido, e ao céu recorre:
  455. “Se hóspede, Hércules, foste à pátria mesa,
  456. Na ação me assiste; eu rubras tire as armas
  457. A Turno semimorto; olhe penando
  458. Seu vencedor no bocejar supremo.”
  459. Alcides o escutou; fundo ai comprime,
  460. Vãs lágrimas vertendo. Ao filho Jove:
  461. “Cada qual, diz benigno, tem seu dia;
  462. A vida é breve e irreparável tempo;
  463. Mas rasgos de virtude a fama exalçam.
  464. Quanta em Ílio caiu divina prole!
  465. Té Sarpédon meu sangue! À meta chega
  466. Turno também, e o chamam já seus fados.”
  467. E foi do Lácio desviando os olhos.
  468. Já teso a lança vibra, e da bainha
  469. Palante puxa a lâmina fulgente:
  470. De vôo a ponta encaixa onde a espaldeira
  471. Pega o braçal; do escudo as orlas passa,
  472. Do ombro ao Rútulo ingente a cútis fere.
  473. Turno pujante aqui de choupa aguda
  474. Sopesa um roble, e grita: “Vê se o nosso
  475. Rojão melhor penetra.” E a coruscante
  476. Farpa o broquel de férreas e êneas pranchas,
  477. De couro táureo em dobras reforçado,
  478. Rasga, os empeços da loriga fura
  479. E o peito heróico. Embalde a quente choupa
  480. Do rombo extrai: em sangue a alma esvaindo,
  481. Por cima ao revoltar-se da ferida,
  482. Sobressoam-lhe as armas, e expirando
  483. A boca o solo hostil beija cruenta.
  484. Salta-lhe ao corpo Turno: “Árcades, grita,
  485. Não vos esqueça a Evandro o referi-lo:
  486. Qual mereceu, remeto-lhe Palante:
  487. De o tumular com pompa o alívio outorgo:
  488. Caro a hospedagem pagará de Enéias.”
  489. Então senta no morto a planta esquerda:
  490. Rouba o talim de peso, e nele impressos
  491. Do morticínio os tálamos sangrentos
  492. Em jugal noite; culpa atroz, gravada
  493. Pelo Eurítides Clono em chapas de ouro.
  494. Turno com isto exulta: ó mente humana,
  495. Fera e descomedida na bonança,
  496. Do porvir néscia! intacto inda a Palante
  497. Vir-lhe-á tempo que almeje a todo o preço,
  498. E este espólio e façanha ele abomine.
  499. Gemebundos e em pranto, os companheiros
  500. O cadáver carregam sobre o escudo.
  501. Oh! voltas a teu pai, dor grande e glória!
  502. Deu-te um só dia à guerra e ao passamento;
  503. Mas que montões de Rútulos deixaste!
  504. A Enéias, não a fama, um messageiro
  505. De mal tamanho informa; e trasmalhados
  506. Socorra os seus, que estavam por um fio.
  507. Quanto encontra, arrombada a larga turba,
  508. A gládio ceifa ardendo; achar-te anseia.
  509. Turno ufanoso da recente morte.
  510. Ante si tudo tem, Palante, Evandro,
  511. A hospitaleira mesa, a destra amiga.
  512. Vivos quatro a Sulmon, a Ufente agarra
  513. Quatro alunos que imole à sombra, e reguem
  514. Do seu cativo sangue a rogal chama.
  515. Sobrevoa esgrimida a tremente hasta
  516. A Mago astuto, que se agacha ao bote,
  517. E suplicante abraça-lhe os joelhos:
  518. “Pelo medrado Iulo e anquíseos manes,
  519. A meu pai me conserves e a meu filho.
  520. Muita prata em moeda, bruto e em obra
  521. Soterrei cópia de ouro, em meu palácio:
  522. Não libra em mim dos Teucros a vitória;
  523. Nada empece uma vida.” Enéias presto:
  524. “Guarda essa prata, esse ouro bruto e em obra
  525. Para teus filhos: com matar Palante
  526. Aboliu Turno as transações da guerra.
  527. Isto, Anquises o aprova, Ascânio o sente.”
  528. E a sestra no elmo, atrás lhe dobra o colo,
  529. Onde a espada lhe enterra até aos punhos.
  530. Perto o Hemônio, de Febe e Apolo antiste,
  531. Com sacra fita às fontes presa a faixa,
  532. Luzia na armadura e insignes vestes:
  533. O herói o acossa, abate, o imola, o cobre
  534. Da ampla sombra; Seresto apanha as armas,
  535. E em troféu tas carrega, ó rei Gradivo.
  536. A pugna instauram, de vulcânia estirpe
  537. Céculo, e Umbro das mársicas montanhas.
  538. Enfurece o Dardânio; à esquerda logo
  539. A Anxur talha e desfaz rodela férrea:
  540. Sonhava ele proezas, e esforçar-se
  541. Com vozes crendo, e ao céu talvez se alando,
  542. Brancas se prometia e logos anos.
  543. De agreste fauno e dríope gerado,
  544. Tarquito refulgindo enrista a lança:
  545. O herói torcendo-a empece-lhe a coiraça
  546. E o pesado pavês; descabeçando-o,
  547. Lhe frustra a prece e o que dizer queria;
  548. Revolve o tronco tépido por terra,
  549. Com ânimo inimigo assim prorrompe:
  550. “Jaze aí, valentão; nem madre ninfa
  551. No pátrio solo inumará teus membros:
  552. Serás de abutres pasto; ou, submergido,
  553. Te hão de a chaga lamber famintos peixes.”
  554. Persegue, na vanguarda, ao forte Numa,
  555. Licas e Anteu, Camertes, louro filho
  556. Do riquíssimo em lavras nobre Ausônio,
  557. Volscente, o rei de Amiclas taciturna.
  558. De cem braços e mãos Egeon, narram,
  559. Fogo expirava de cinqüenta fauces,
  560. Com cinqüenta broquéis tinindo, espadas
  561. Cinqüenta a menear contra o Tonante:
  562. Não menos, dês que o Frígio aquece o gume,
  563. Bravo campeia. De Nifeu remete,
  564. Peito a peito, à quadriga; e, assim que os brutos
  565. Bramindo o avistam fero, amedrontados,
  566. Retrocedendo rápidos, às praias
  567. O coche rojam, seu senhor despejam.
  568. Eis Lugo se apresenta em alva biga,
  569. Mais o irmão Liger, que os frisões governa;
  570. Lugo acérrimo esgrime o iroso ferro.
  571. Tal fúria ao Teucro azeda; rui terrível
  572. De hasta apontada. E Liger: “Não diomédios
  573. Corcéis, carros aquíleos, frígios campos,
  574. Tens aqui, vês a morte e o fim da guerra.”
  575. Das fanfúrrias, que em ar se desvanecem,
  576. Em troco Enéias lhes revira um dardo.
  577. Prono Lugo, a pender nos loros, pica
  578. Da arma os cavalos; por bater-se, adianta
  579. O sestro pé: do aêneo escudo as orlas
  580. Entra a ponta e a virilha esquerda fura:
  581. Do carro a baixo moribundo rola.
  582. E amaro o pio herói: “Nem tarda a biga
  583. Falsou-te, ou sombras vãs a afugentaram;
  584. Tu sim, Lugo, de um salto a abandonaste.”
  585. Nisto, a parelha empolga. O irmão, coitado!
  586. Desmontando estendia inermes palmas:
  587. “Por ti, varão por teus progenitores,
  588. Deixa-me a vida, abrandem-te meus rogos.”
  589. “Diverso, o atalha Enéias, blasonavas;
  590. Morre; irmão não é bem que o desampares.”
  591. E estoqueia-lhe o peito, encerro da alma.
  592. Qual tufão grosso ou túrbida torrente,
  593. Ferais danos o Dárdano espalhava.
  594. Rompe enfim da muralha o moço Ascânio,
  595. Com seus guerreiros por demais cercados.
  596. A Juno entanto Júpiter: “É Vênus,
  597. Nem te enganas, consorte e irmã querida,
  598. Que os troianos sustenta: ei-los cobardes,
  599. Sem denodo ou constância nos perigos.”
  600. Aqui Juno submissa: “Ó doce esposo,
  601. Temo os remoques teus, por que me apuras?
  602. Se inda, como convinha, o amor d’outrora
  603. Eu te inspirasse, um dom não me negaras,
  604. Onipotente: incólume ao pai Dauno
  605. Guarde eu Turno da ação... Mas que! pereça,
  606. Devoto sangue aos Troas laste as penas.
  607. Deduz contudo o nome e origem nossa
  608. Do tresavô Pilumno, e com freqüência
  609. A plenas mãos cumula-te os altares.”
  610. Breve replica o rei do Olimpo etéreo:
  611. “Se a Turno queres que eu prolongue os dias
  612. E achas que o posso; pela fuga o salves
  613. De instantes fados: até aqui me cabe
  614. Condescender. Se encobres nessas preces
  615. Mor graça, e a guerra transtornar concebes;
  616. Apascentas baldias esperanças.”
  617. E ela em choro: “O que a voz me cede a custo,
  618. Se d’alma o desses, vida cheia a Turno!...
  619. Mas transe o espera indigno, ou eu me iludo:
  620. Oxalá sejam falsos meus temores,
  621. E tu, que o podes, a melhor te inclines.”
  622. Disse, e de lá dispara; de nevoeiros
  623. Cingida, numa borrasca a precedê-la,
  624. Baixa entre o campo ilíaco e Laurento.
  625. Logo em feição de Enéias, ó prodígio!
  626. Fraca de vácua nuvem sombra tênue
  627. Arma à troiana; o escudo, as cristas finge
  628. Da cabeça divina; ocas palavras,
  629. Som lhe empresta sem mente, o andar e o gesto:
  630. Como, é voz, do finado erra a figura;
  631. Ou qual sonham sopitos os sentidos.
  632. Ante as fileiras jubilando a imagem,
  633. Dardos em punho, desafia a Turno.
  634. Este, irritando-se, a estridente lança
  635. Arremessa: o fantasma as costas volta.
  636. Creu Turno em fuga a Enéias, e se rega
  637. Alvoroçado em frívola esperança:
  638. “Onde vais, Teucro? os tálamos desprezas?
  639. Toma a terra, eu t’a dou, por mar buscada.”
  640. E, após clamando, o gládio nu brandia,
  641. Sem ver que é seu prazer seguir o vento.
  642. À sáxea ribanceira, expostas inda
  643. Pranchas e escadas, o navio estava
  644. Que a Osínio rei de Clúsio transportara.
  645. Ali pávido o esquivo simulacro
  646. Deita a esconder-se; vence estorvos Turno,
  647. Salta as pontes. A proa mal que atinge,
  648. Rebenta os cabos Juno, arranca o lenho,
  649. Pelas vagas revoltas o arrebata.
  650. Por seu rival bramando o vero Enéias
  651. Na homicida carreira prosseguia;
  652. Já não se oculta, voa o aéreo vulto,
  653. E em negrume cerrado se confunde;
  654. Pelas ondas a Turno um tufão leva.
  655. Ínscio, ingrato à mercê, contempla em roda,
  656. Ao céu levanta as mãos: “Júpiter sumo,
  657. Digno me julgas de desar tamanho?
  658. Que punição? Para onde me conduzem?
  659. Donde vim? Quem sou eu com tal fugida?
  660. Como a Laurento e aos muros tornar posso?
  661. Que dirão meus soldados? Ó vergonha!
  662. Deixá-los eu na luta agonizantes!
  663. Vejo-os daqui vagar, seus ais escuto.
  664. Que farei? não me engole e some a terra?
  665. Ventos, piedade! recebei meu culto
  666. Voluntário: o baixel a vaus e escolhos,
  667. A sirtes arrojai-me, onde nem saibam
  668. Os Rútulos de mim, nem reste a fama.”
  669. Tal discursava, e aqui e ali flutua;
  670. Nem atina se enterre a crua espada
  671. E em tanta afronta as costas se atravesse,
  672. Ou se, entre os escarcéus, à curva praia
  673. Nade e se restitua às teucras armas.
  674. Três vezes foi tentá-lo, três conteve-o
  675. A soberana Juno condoída.
  676. O alto sulcando com maré propícia,
  677. Na corte do pai Dauno antiga aporta.
  678. Já Mezêncio cruel, de Jove a impulsos,
  679. Lhe sucede, e acomete ovantes hostes.
  680. Encontram-no agravados os Tirrenos;
  681. Alvo é dos golpes todos. Como rocha
  682. Está, que, protendida ao mar e aos sopros,
  683. Os embates resiste e os ameaços
  684. Do céu violento e furibundo pego.
  685. A Hebro Dolicaônio o varão prostra,
  686. Mais a Látago e Palmo fugitivo:
  687. A Látago um fragmento da montanha
  688. Esmecha e esmaga o rosto: a rojo Palmo
  689. Rola dejarretado: a Lauso doa
  690. O arnês que ombreie, as plumas com que se orne.
  691. Escala o Frígio Evante e o caro a Páris
  692. Mimas, filho de Amico, por Teano
  693. Parido à noite que abortou Cisseide,
  694. Prenhe de um facho: Páris jaz na pátria;
  695. Mimas, que o não cuidava, em lácia borda.
  696. Como o javardo, em canavial nutrido,
  697. Que a dente correm cães, sobejo espaço
  698. No pinífero Vésulo acoitado
  699. E em laurência lagoa, ao dar nas redes
  700. Pára, em roncos escuma, ouriça as cerdas;
  701. Ninguém lhe ousa achegar, distantes raivam,
  702. Em seguro gritando e a garrochá-lo;
  703. Ele, impávido e atento, os queixos range,
  704. Cospe do lombo a chuva de arremessos:
  705. Tais, não com ferro em punho, mas de longe,
  706. Desse odioso Mezêncio os inimigos
  707. Com rojões e alarida o desafiam.
  708. Prófugo, a velha Córito e imperfeitas
  709. Núpcias largando o Graio Acron, purpúreo
  710. Nas galas e cocar, da noiva mimos,
  711. Descose as turmas: o tirano o enxerga.
  712. Se o leão, que em jejum com fome ronda
  713. Alto curral, fugaz a corça avista
  714. Ou cervo de árduos cornos; sevo e hiante
  715. Folga, hirta a juba, às vísceras deitado
  716. Ferra-se, e em negro sangue as fauces lava:
  717. Dest’arte vem Mezêncio e a chusma ataca.
  718. Tomba expirando Acron, e ao debater-se
  719. Calca o atro chão, cruenta as rotas armas.
  720. Ferir desdenha a Orodes que se evade,
  721. Remeter-lhe desdenha um bote cego;
  722. Não destro nos ardis quanto era forte,
  723. Adverso o alcança, mão por mão o aterra;
  724. N’hasta apoiado, o pé lhe imprime sobre:
  725. “Ei-lo, varões, o herói da guerra esteio.”
  726. E os seus com ele entoam ledo peã.
  727. Orodes a arquejar: “Serei vingado,
  728. Nem longo exultarás; meu fim te espera,
  729. Este pó vais morder.” Com riso amargo
  730. O ímpio então: “Morre já; de mim disponha
  731. Esse teu pai divino e rei dos homens.”
  732. Disse, e lhe extrai do corpo o tenaz pique:
  733. Urge-o repouso duro e férreo sono,
  734. E em noite fecha eterna os baços lumes.
  735. A Hidaspes Sacrator, a Alcato Cédico,
  736. Rapon tronca a Partênio e o válido Orses;
  737. Messapo a Clônio e o Árcade Ericetes:
  738. Um de infrene corcel, derriba o outro
  739. Pedestre a pé. Socorre-os Agis Lício,
  740. Talha-o Valero com denodo avito;
  741. A Trônio Sálio; a Sálio o bom Nealces,
  742. Em dardo ou seta ao longe traiçoeira.
  743. O luto e os funerais Marte equilibra:
  744. Morrem, matam, vencidos, vencedores;
  745. Não se rendem, não cedem, não fraqueiam.
  746. Tanta ânsia nos mortais, e de uns e de outros
  747. O vão furor a Jove e ao céu compunge:
  748. Aqui Vênus atenta, ali Satúrnia.
  749. Pálida a Erínis urra e assanha as turbas.
  750. Torvo, a librar Mezêncio enorme lança,
  751. Entra em campo, e se mostra em vastas armas:
  752. Como Orion, de espáduas fora d’água,
  753. Rasga a pés de Nereu o imenso lago;
  754. Ou, dos serros trazendo o anoso freixo,
  755. Anda em terra, e nublada a fronte esconde.
  756. Enéias, que o lobriga, avança prestes.
  757. Firme em seu peso, intrépido ele aguarda
  758. O brioso adversário; de olhos mede
  759. Assaz distância ao tiro: “Agora, exclama,
  760. Deus é meu braço e o remessão que vibro.
  761. Do salteador Enéias eu te voto,
  762. Lauso, em troféu, do espólio seu vestido.”
  763. Hasta eis voa estridente; que, do escudo
  764. Repulsa, aos hipocôndrios vai pregar-se
  765. Do egrégio Antor, de Alcides companheiro;
  766. Antor Argivo, que aderindo a Evandro,
  767. Na Itália se ficou. Precipitado
  768. É de alheia ferida; e, o céu fitando,
  769. Ah! lembra-lhe ao morrer sua doce Argos.
  770. Joga Enéias um dardo, que a rodela
  771. Triple érea penetrou, por líneas fraldas,
  772. Por táureos forros três; e amortecido
  773. À virilha se apega. Ao ver-lhe o sangue,
  774. Puxa o ferro da cinta alegre o Teucro,
  775. Férvido ao Tusco titubante corre.
  776. Nisto, em lágrimas Lauso debulhado,
  777. Por amor de seu pai geme profundo.
  778. Teu mesto fim, teu brio e feito heróico,
  779. Se o futuro crer pode empresa tanta,
  780. Celebrarei, mancebo memorando.
  781. Fraco e impedido, a se arredar Mezêncio,
  782. Preso arrasta no escudo o hastil infesto.
  783. De chofre o jovem, interposto às armas,
  784. A mão de Enéias, que desfecha o talho,
  785. Susta e o reteve: em grita os seus o aclamam,
  786. E entanto o genitor se evade à sombra
  787. Da rodela do filho; empacha a Enéias
  788. Bateria de frechas e arremessos:
  789. Cobre-se ele a bramir. Quando em saraiva
  790. Desata a chuva, o lavrador se esgarra,
  791. Em guarida se alberga o viandante,
  792. Em lapa de ribeira ou cava penha,
  793. Até que, abrindo o Sol, o dia exerçam;
  794. Opresso o Teucro assim da márcia nuvem,
  795. À espera está que a trovoada amaine;
  796. Comina e avisa a Lauso, a Lauso increpa:
  797. “Temerário, onde vens? mediste as forças?
  798. Engana-te a piedade.” Ele não menos
  799. Demente assalta: o estame curto as Parcas
  800. A Lauso colhem: do dardânio chefe
  801. Se irrita a cólera, a possante espada
  802. No moço enterra; a ponta a leve adarga
  803. E a túnica passou, que a mãe fiara
  804. De ouro sutil; em borbotões o sangue
  805. Alaga o seio; e a vida pelas auras
  806. Triste aos manes se afunda e o corpo larga.
  807. Pálida a face, moribundo o gesto
  808. Ao ver-lhe o Anquíseo, compassivo e grave
  809. Suspira, dá-lhe a destra; à mente a imagem
  810. Sobe do pátrio amor: “Que digno prêmio
  811. Dessa rara virtude o pio Enéias
  812. Te prestará, mesquinho? As armas tenhas,
  813. Teu gosto em vida: eu rendo-te ao jazigo
  814. E às cinzas dos avós, se disto curas.
  815. Console-te infeliz do grande Enéias
  816. Às mãos cair.” E exprobra os tardos sócios,
  817. Do chão levanta o corpo, cujas tranças
  818. Atiladas à moda o sangue afeia.
  819. Mezêncio, ao pé do Tibre, entanto os golpes
  820. Lava e estanca, e arrimado se conforta
  821. A arbóreo tronco: ao longe está num ramo
  822. O éneo casco, e na relva o arnês pesado.
  823. Egro, anelante, o colo desafoga,
  824. Aos peitos se difunde a larga barba.
  825. Cercam-no os seus: do filho indaga aflito,
  826. Manda que o chamem e amiúda as ordens.
  827. Mas sobre o escudo em pranto já traziam
  828. Morto do grande bote o grande Lauso:
  829. O pai nesse carpir seu mal pressente;
  830. De pó deforma as cãs, e as palmas ambas
  831. Dirige aos céus, e apega-se ao cadáver:
  832. “Quis tanto à vida, ó filho, que ao trespasso
  833. Expus a quem gerei? Por tua morte
  834. Vive teu pai, salvou-me essa ferida?
  835. A minha agora se me agrava e sangra,
  836. Ai! dói-me agora o mísero desterro!
  837. Manchei teu nome, Lauso, eu por tais crimes
  838. E ódios expulso do paterno sólio:
  839. Eu só pagar devera aos meus e à pátria,
  840. Por mil mortes render est’alma infame;
  841. Respiro, e inda não deixo a luz e os homens?
  842. Eu deixarei.” Na perna a custo se ergue,
  843. Sem da chaga o abater a dor violenta;
  844. Pede o corcel, da glória companheiro,
  845. Consolo seu, que vencedor com ele
  846. Das batalhas saía, e ao pobre fala:
  847. “Rebo, há muito duramos, se é que muito
  848. Dura coisa mortal: hoje a cabeça
  849. Trarás de Enéias e o cruento espólio,
  850. E as de Lauso agonias vingaremos;
  851. Ou, se impossível é, morramos juntos:
  852. Não sofrerás altivo, eu creio e espero,
  853. Mandos alheios nem senhor troiano.”
  854. Monta, e aceita-lhe o bruto a usada carga;
  855. Onera as duas mãos de agudas hastes;
  856. O elmo reluz, de eqüina hirsuta coma.
  857. Veloz galopa: o luto, a insânia, o pejo
  858. No coração referve; agitam fúrias
  859. O amor paterno, a cônscia valentia.
  860. “Enéias! grita, Enéias!” Ledo Enéias
  861. O reconhece e impreca: “O pai supremo
  862. Queira com Febo que o duelo encetes!”
  863. E, de hasta em riste, avança. Então Mezêncio:
  864. “Roubado o filho, aterras-me, assassino?
  865. O só meio esse foi de me acabares.
  866. Nem temo os deuses, nem me assustam Parcas:
  867. Morrer venho, recebe a despedida.”
  868. Lesto um dardo lhe prega, outro e mais outro,
  869. Em volta ingente; mas rechaça-os todos
  870. A áurea copa do escudo. Pela esquerda,
  871. Contra o parado herói tirando sempre,
  872. Trota em giro três vezes; três no bronze
  873. Roda consigo o Teucro a basta selva.
  874. De extrair tanta farpa enfim se enoja,
  875. E da tardança e desigual peleja;
  876. Meditabundo rompe, a lança expede
  877. Às fontes cavas do belaz ginete:
  878. O quadrúpede em gêmeas, o ar a coices
  879. Depois zimbra, sacode e implica o dono,
  880. E cai de bruços lhe oprimindo a espádua.
  881. Lácio e tróico alarido os céus estruge,
  882. Voa sobre ele o herói, despindo o gládio:
  883. “Que é do feroz Mezêncio? onde os seus brios?”
  884. O Etrusco os olhos alça, haurindo as auras,
  885. E, recolhendo o alento: “Ameaças morte?
  886. Por que me insultas, figadal contrário?
  887. Vim perecer, não pecas em matar-me,
  888. Nem meu Lauso ajustou que me poupasses.
  889. Vencido, se jus tenho, eu só te rogo
  890. Ao corpo alguma terra: a circundar-me
  891. Freme o rancor dos meus; tu me defendas,
  892. Num sepulcro me encerres com meu filho.”
  893. Ciente, ele o pescoço ao gume inclina,
  894. A alma derrama e em sangue inunda as armas.

Sobre este livro · 1 nota

Comentário
Mr. Amar admira este concílio, pela pompa e majestade do estilo, pela escolha dos epítetos, pela grandeza do assunto. Conquanto seja eu apaixonado do poeta, não concordo com o crítico em achar muito abaixo desta cena a do livro primeiro das Metamorfoses, e menos concordo em que o autor era apenas um homem espirituoso e de talento, não um verdadeiro gênio. Certo é que Virgílio é mais exato e judicioso, mais conciso e de uma sensibilidade mais esquisita; contudo, a abundância, a variedade e a imaginação de Ovídio são tais, que só um grande poeta as pode possuir. Ovídio tem sua maneira, como também Virgílio; e ambos encantam e prendem, posto que por meios diversos. Se aquele tivesse moldado sempre os seus quadros pelos das Geórgicas e da Eneida, teria talvez sido um escritor mais perfeito, mas não seria tão recomendável pela sua pasmosa invenção.

Nota a nota · 7 notas

v. 6–117A mão tomou: “Celícolas egrégios, ⋯ E ao limiar os deuses o acompanham.
O talento oratório, ainda mais saliente nos últimos livros, aparece em toda a força nestes belíssimos discursos: o de Júpiter é breve e enérgico, imperativo e grave; o de Vênus é respeitoso, comedido e patético; o de Juno, ao contrário, veemente e impetuoso, todo cheio de interrogações, mais para acusar e reclamar os seus direitos, do que para se defender. Nada há mais sublime que o silêncio do ar e do céu, do mar e da terra, quando Júpiter vai anunciar a sua vontade suprema, assim como o estremecimento do Olimpo todo ao aceno do soberano, que jurava pela Estige. — Em algumas escolas do Brasil, mestres imperitos ensinam que botar por lançar, de que me sirvo no verso 48, é um plebeísmo; sendo corrente nos clássicos, tanto prosadores como poetas, e até com este verbo formaram-se palavras hoje muito em uso, por exemplo bota-fora, bota-fogo. Veja-se Moraes e Constâncio.
↩ voltar à passagem, v. 6
v. 146–214Da guerra o cargo repartiu-se entre eles; ⋯ A pró de Tróia cabos tais retalham:
No livro V trata-se dos Troianos que têm de brilhar durante a guerra; no sétimo, dos mais ilustres do partido de Turno; aqui, dos mais conspícuos Latínos que vieram em socorro de Enéias. Observe-se que, entre os auxiliares, o de que se fala com mais interesse é Palante; o qual deve representar um grandíssimo papel e influir tanto no desfecho.
↩ voltar à passagem, v. 146
v. 219–250Eis um coro de ninfas lhe aparece, ⋯ Contudo anima os seus com tal presságio,
Mr. Amar, desculpando o poeta com não ter tido tempo de aperfeiçoar a sua obra, diz: “Enéias devidamente pasma (stupet) do que se passa em torno dele. Uma nau que se transforma em divindade marítima, e na manhã seguinte se faz hábil orador, e se recorda a propósito do seu antigo mister, é das coisas que, mesmo naquele tempo, não se viam todos os dias, e mostram aliás que em matéria de pias maravilhas, tanto entre os antigos como entre os modernos, o mais difícil é o primeiro passo.” Esta crítica tem o vício de provar demais: a ser admitida, a conclusão seria que, ao menos em as epopéias, nunca tem lugar uma metamorfose qualquer; pois que em todas há mais que inverosimilhança, há impossibilidade. Mas, nas obras de imaginação, tem-se deixado passar estas liberdades, quando a ficção é engenhosa, para com a variedade causarem prazer ao leitor. E em uma nação educada com as idéias do paganismo, cujos sectários criam em Júpiter convertido em touro e em outras quejandas transformações, essas impossibilidades não pareciam tais; da mesma forma que os homens de fé acreditam hoje em milagres, de que zombam os espíritos fortes. Horácio, com o seu costumado critério, queria que semelhantes metamorfoses não se fizessem em um drama, à vista dos espectadores, porque não podiam ser executadas a ponto de iludir os olhos; mas dá largas à narração. Ora, uma vez admitida a mudança das naus em ninfas, não é mais inverossímil que falem como as outras deusas do mar; e Delille, que é desta opinião, acrescenta que, se Apolônio introduz a falar um pau da nau Argos, por ser um carvalho da floresta de Dodona, muito menos inverossímil é que, já ninfa do mar, discorra a nau de Enéias, a qual também era de carvalhos da floresta de Cibele. Estas razões porém não valem tanto como as fundadas nas crenças e preconceitos populares, que permitiram ao poeta assim enobrecer e celebrar as embarcações que ao Lácio haviam transportado o seu herói; além de que ele não fez mais que adotar as tradições: prisca fides fato, sed fama perennis. Já se tem dito, e repetirei que para lermos certos pedaços dos antigos, é proveitoso que de algum modo nos tornemos da sua religião e nos vistamos das suas preocupações. Estou convencido de que Virgílio, ainda que tivesse vivido para emendar a Eneida, não teria riscado esta ficção.
↩ voltar à passagem, v. 219
v. 273Dardejando aos mortais, fervente Sírio
Rubejar, proposto pelo Dr. Simoni, me parece necessário, ou ao menos útil: o nosso roxear difere, como o roxo do rubro. Esta ocasião, em que me aproveito de uma lembrança sua, tomo-a para agradecer em público ao mesmo senhor a fineza de me oferecer um dos seus Carmes dos sepulcros; obra cheia de bons pensamentos e de lições morais.
↩ voltar ao verso 273
v. 287–307Tais à espera do lânguido refluxo, ⋯ Nada ignavo, o acre Turno contra os Frígios
O desembarque de Enéias e dos auxiliares é descrito com termos técnicos e com toda a propriedade, mormente quando Tárchon arroja à praia a nau, que fica pendente da popa e vasa n’água a tripulação: o crescenti aestu e o unda relabens pintam admiravelmente o rolo e a ressaca da onda. Consulte-se o Virgilius nauticus de pag. 33-36, onde Mr. Jal traz as mais adequadas observações. Desejos tive de as copiar; mas desisti, porque, para pôr tudo que me parece interessante nessa obra, mister seria transcrevê-la por inteiro.
↩ voltar à passagem, v. 287
v. 344Lá vibra a Dríope um zarguncho rijo
Começa Enéias o combate, e um dardo, que lhe revirou Numitor, fere a Acates na coxa; o que mostra o jus deste guerreiro ao título de grande e de fiel que lhe dá o poeta, pois que ele não podia pelejar sempre ao lado do amigo, sem correr iguais aventuras. Chamam-no frio, porque não se lhe especifíca uma ação de valentia, a não ser a morte de Epulon, guerreiro sem renome. E na verdade, fazendo o poeta brilhar a Mnesteu no liv. IX e em outros lugares, a Ascânio em matar o cunhado de Turno, a Gias em dar cabo de Ufente, amigo íntimo e da maior confiança do mesmo Turno, a Seresto em ajudar a Mnesteu e Ascânio a repelir a Turno e pô-lo em retirada; tendo sim exaltado a Tárchon, a Pândaro e Bicias, a Palante, a Euríalo e Niso, e a outros do seu partido, parece que devera guardar uma proeza para o companheiro inseparável do herói; companheiro, em quem o autor quis representar Patroclo; mas quanto fica abaixo de Homero! — Concordando com os críticos nesta censura, estou bem alheio da opinião dos que acham insignificantes os cabos a quem Enéias comandava em chefe. Na Ilíada, onde a ausência de Aquiles durante meses deixou aos Gregos o campo livre e a obrigação de o substituírem, pôde Homero ministrar a Ajax, a Diomedes, a Ulisses, a Merion, a Patroclo e a muitos outros, oportunidade a estrondosas valentias; mas na Eneida isso não era possível em grande escala, sendo a ausência de Enéias de quatro dias, e tendo ele ordenado à sua pouquíssima gente que se defendesse das trincheiras e não se arriscasse a combater fora. O que devemos admirar é a arte com que, vendo que a inação esfriaria o interesse, sustenta-o engenhosamente, não só pelo arrojo de Niso e Euríalo, como pela temeridade dos gigantes; a qual deu lugar ao valor de Mnesteu, de Seresto, e mesmo de guerreiros já velhos que defendiam seus muros, e faz aparecer a assombrosa intrepidez de Turno, como a necessidade e o geral desejo da volta de Enéias. Efetuada ao quarto dia, aparece ele de manhã à vista do seu campo, e ganha uma vitória antes de anoitecer. Nesta pressa, vê-se bem que, se o poeta se demorasse a pintar combates singulares e as façanhas de cada sócio, não havia tempo de descrever a batalha, nem realçar o valor e proezas do herói e do seu rival; o que essencialmente requeria o assunto. Os conflitos pois da Eneida não são como os da Ilíada, mas como convinha que fossem, dado o plano do poema. A destruíção de Tróia era o fim de Aquiles; o de Enéias, a fundação de uma nova: isto basta a provar que a Eneida não nos devia entreter com tantos combates à maneira da Ilíada, e que Virgílio obrou com descernimento.
↩ voltar ao verso 344
v. 680Encontram-no agravados os Tirrenos;
Deste passo em diante entra Mezêncio com seu filho. Turno, tendo matado a Palante, havia desaparecido por indústria de Juturna; a qual, para o subtrair ao braço do Troiano, o fez correr após a figura dele até chegar a uma nau onde o fantasma se havia refugiado, e nessa nau o transportou a Ardea. Remoto o general dos Rútulos, o substitui Mezêncio; e, depois de assinalar-se com prodígios de valor, veio às mãos com Enéias. Este o ia imolar, quando o brioso Lauso apara o golpe, o ataca, e morre vítima da piedade filial, não querendo ouvir os avisos do mesmo Enéias, que o mata com pesar. O que sabido por Mezêncio, veio de novo encontrar-se com o vencedor de Lauso, e acaba também. Este pedaço é um dos melhores que a poesia antiga e moderna têm criado; mas o Troiano é argüido de contraditório, porque, sendo pio, não lhe cabia dizer coisas picantes a Mezêncio. Note-se porém que Enéias só se mostra inexorável desde a morte de Palante; Palante, que lhe fora confiado por Evandro, a quem o herói devia a aliança de Tárchon e os meios de conseguir a empresa; por Evandro, que tinha sido o hóspede e amigo de Anquises. A cólera, tão natural em tais casos, é desculpável; e o poeta deu mais uma prova de sabedoria no escolher o momento, sem faltar à verossimilhança, de atribuir ao seu Enéias a impetuosidade e furor de Aquiles. Para gozar do título de pio, no sentido de certos críticos, seria necessário que se deixasse imolar, ou apenas se defendesse daqueles que procuravam arrancar-lhe a vida! Qual é o homem, por mais pio e humano, que algumas vezes não tenha rompido em amargas invectivas? Sendo Mezêncio um formidável campeão, que mesmo ferido pelejava galhardamente, e queria ou morrer ou matar, é bem natural que Enéias o mandasse adiante; o que tanto menos lhe devia custar, quanto mais odioso era o tirano aos Tirrenos, seus aliados.
↩ voltar ao verso 680
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