De par em par o onipotente Olimpo
894 versos · 8 notas do tradutor
- De par em par o onipotente Olimpo,
- Concílio o pai divino e rei dos homens
- Chama à sidérea corte; excelso as terras
- Fita e o campo troiano e os lácios povos.
- Sentam-se; ele nas salas bipatentes
- A mão tomou: “Celícolas egrégios,
- Por que, mudados, contendeis iníquos?
- Vedei guerra entre os Ítalos e os Frígios,
- E revéis a soprais? Que medo uns e outros
- Compele às armas e provoca o ferro?
- Não vos antecipeis, que em Roma altiva
- Um dia soltará Cartago fera
- Exício grande e os devassados Alpes:
- Ódios então permito e o saque e os prélios;
- Quero hoje paz, condescendei comigo.”
- Breve Júpiter foi; mas Vênus linda
- Não breve o contestou: “Poder eterno
- De humanos e imortais (pois que outro apoio
- Implorar devo?), a rútula insolência
- Notas, padre, e o ruído com que Turno
- Campeia túmido em propício marte:
- Valo ou muralha os Frígios não resguarda;
- Dentro e nos bastiões pelejas travam;
- Sangue os fossos inunda. Ausente Enéias
- O ignora. O sítio nunca mais levantas?
- Ílio nascente os inimigos forçam;
- Outro exército avança, e de Arpo etólia
- Ameaça os Teucros outra vez Tidides.
- Certo me aguardam, penso, outras feridas;
- Mortais armas receio, eu prole tua.
- Se a teu pesar estão na Hespéria os Troas,
- Não mos ajudes, seu delito expurguem;
- Se lei cumprem superna e a voz dos manes,
- Como inda há quem transverta as ordens tuas
- E reforme o destino? As naus combustas
- De Erix na praia, o rei das tempestades
- Cabe alegar na Eólia concitado,
- E Íris do céu baixando? Ora até move
- (Restava este recurso) o mesmo inferno,
- De chofre acima remetendo Alecto,
- Que a debacar a Itália contamina.
- Já de impérios prescindo: isso esperámos
- Em melhor quadra; vença quem te agrade.
- Se, dura aos nossos, tua esposa nega
- Na terra um canto, pelo exício de Ílio
- Fumante obsecro, do conflito o neto
- Incólume apartar me outorga, ó padre.
- Bote-se Enéias por ignotos mares
- À mercê da fortuna: eu valha ao menos
- De ímpio combate a subtrair Ascânio.
- Tenho Idálio, Amatunta e a celsa Pafos,
- Mais Citera, onde obscuro imbele viva:
- Deixa que Tiro atroz a Ausônia oprima;
- Ele nada obsta ao púnico domínio.
- Que monta que, evadido à peste argiva,
- Das chamas se livrasse? que, em demanda
- Da recidiva Pérgamo, os perigos
- De imenso mundo e pélago exaurisse?
- Por que sob pátrias cinzas não ficaram?
- Míseros, peço, os rende ao Xanto e Símois:
- Tornem, padre, a versar de Tróia os casos.”
- Juno régia, o rancor não mais contendo:
- “Pois a romper e a divulgar me obrigas
- A silente ima dor? Que deus ou que homem
- Fez que a Latino o sorrateiro Enéias
- Hostilizasse? À Itália, fado seja,
- Foi-se a impulsos das fúrias de Cassandra:
- Nós o forçamos a largar a praça,
- A vida entregue aos ventos? a um menino
- Confiar o comando? a fé tirrena
- E a paz turbar dos povos? A tais faltas
- Qual nume o arrasta, qual dureza nossa?
- Íris baixou do céu, entra aqui Juno?
- É mau que Ílio nascente as flamas cinjam,
- E ao país ame Turno, o de Venília
- Deusa nado o tresneto de Pilumno:
- Que importa que atro facho Ílio sacuda,
- Subjugue o Lácio, alheios campos tale?
- Que sogros fraude, a noivos tire noivas?
- Que armas nas popas fixe e o ramo arvore?
- Roubar da aquiva garra o filho podes,
- Por vã névoa trocá-lo; a frota em ninfas
- Tu podes converter: um pouco a Turno
- Socorrermos é crime. Enéias tudo
- Ausente ignora: pois ignore ausente.
- Que! tens Pafos, Citera, Idálio; e tentas
- Um chão de guerras prenhe e a peitos feros?
- Nós de Ílio os débeis restos subvertemos,
- Ou quem míseros Troas contra os Gregos
- Açulou? Foi por nós que o rapto armado
- Solvera de Ásia e Europa as alianças?
- Que o Frígio adúltero expugnara Esparta?
- Eu lides fomentei com paixões torpes?
- Teu medo então convinha: tarde surges
- Com injusto queixume e fútil bulha.”
- Juno orava; os celícolas sussurram
- Com vário assenso, qual primeiro os sopros
- Na mata a murmurar volteiam cegos,
- Anúncio da procela ao marinheiro.
- Do árbitro poderoso ao grave acento,
- Cala a diva morada, o ar sumo cala,
- Nos eixos treme a terra, amaina o pego,
- Zéfiros sossegando: “Ouvi-me, e n’alma
- A sentença imprimi. Já que é defeso
- Teucros e Ausônios congraçar, nem finda
- Vossa discórdia, esperançoso corra
- Seus fados cada qual, desde hoje trato
- Sem diferença a Rútulo ou Dardânio;
- Quer à Hespéria nocivo ature o assédio,
- Quer por erro de agouro em mal de Tróia,
- Jogado o lanço foi: rei justo às partes,
- Júpiter os destinos não desliga;
- Estes rumo acharão.” Pela do estígio
- Irmão pícea torrente e negro abismo
- Jura, e ao nuto estremece o Olimpo todo.
- Fecha o concílio: ergueu-se do áureo trono;
- E ao limiar os deuses o acompanham.
- Insta o Rútulo entanto à roda e às portas,
- Mata, incendeia, estraga. Atém-se aos valos
- A encerrada legião, sem mais refúgio:
- Rara os muros coroa, e as torres altas
- Ah! mal guarnece. À testa Ásio Imbracides,
- Os Assáracos dois, o Hicetaônio
- Timetes, e Castor e o velho Timbris
- Estão; mais Claro e Hemom da nobre Lícia,
- De Sarpédon germanos. Grã penedo,
- Viva lasca do monte, Acmom Lirnéssio
- Deita às costas, e iguala a seu pai Clício
- E a Mnesteu seu irmão no esforço e arrojo.
- Com zagaias, com pedras se defendem;
- Remessam fogo, ao nervo adaptam setas.
- Da Cípria ânsia e cuidado, ali no meio
- Brilha sem casco o belo adolescente;
- Na cerviz láctea o crino desparzido,
- Mole círculo de ouro o ata e apanha:
- Dest’arte, em fulvo engaste a gema adorna
- Fronte ou colo, e embutida ebúrnea peça
- No orício terebinto ou buxo esplende.
- Viram-te, Ismaro, as gentes valorosas
- Despedir frechas de veneno armadas,
- Garfo brioso da Meônia fértil,
- Onde agros o Páctolo irriga de ouro.
- Mnesteu não falha, a quem sublima a glória
- De haver a Turno da bastida expulso;
- E Cápis, de quem teve o nome Cápua.
- Da guerra o cargo repartiu-se entre eles;
- De volta, rasga o herói noturnas vagas.
- De Evandro assim que passa ao rei da Etrúria,
- Quem era expôs, a que ia, em que é prestante;
- Quanto auxílio granjeia o cru Mezêncio,
- Quão violento o rei Turno, quão falível
- A sorte humana; e preces intermeia:
- Tárchon alia sem demora as forças,
- E os pactos fere. Solto o fado, os Lídios
- Com chefe externo, por querer divino,
- Se embarcam. Vai diante a popa enéia,
- Frígios leões ao beque, e na bandeira
- O Ida, enlevos dos prófugos Troianos.
- Sentado Enéias, volve em si tão vários
- Eventos; e Palante, à sestra, inquire
- Já do sidéreo curso e opaca noite,
- Já dos trabalhos dele em mar e em terra.
- Abri-me o Helicon, Musas; descantai-me
- Que tusca multidão, munindo os lenhos,
- Vogue na azul campina. Após Enéias,
- Mássico bem na Tigre eri-chapeada,
- Com bravos moços mil de Clúsio e Cosas,
- De arco letal ao ombro e de polido
- Sagitífero coldre. O brusco Abante
- A par, a gente relumbrava, e à popa
- Dourado Apolo: Populônia madre
- Mancebos destros lhe fiou seiscentos;
- Trezentos Ilva, de metal calíbio
- Fecunda ilha inexausta. O mago Asilas,
- A quem o humano e o divinal descobrem
- Astros, fibras de reses, línguas de aves
- E o pressago fulgor, conduz terceiro
- De hastatos mil espesso horrendo bando;
- Que lhos subordinou, de alféia origem,
- Pisa etrusca. Pulquérrimo, em cambiante
- Arnês afoito e em seu corcel, trezentos
- Astur ajunta (um mesmo ardor em todos)
- Na pátria Cérete, em miniônias margens,
- Pestífera Gravisca e Pirgo-Vedra.
- Não te omito, ó Ciniras, belacíssimo
- Rei da Ligúria; e a ti, que poucos mandas
- E hás no tope, Cupavo, císneas penas:
- Foi culpa aos vossos a amizade, a insígnia
- É da paterna forma. Cicno, contam,
- Saudoso de Faeton, quando entre choupos,
- Das irmãs deste à sombra, o amor em nênias
- E o luto consolava, em brandas plumas,
- Qual velho encanecendo, ao céu cantando
- Se elevou. Na companha iguais penachos,
- Rema o filho alta nau, donde um centauro
- Árduo com pedra enorme acena às águas,
- Arando o buco longo o plaino equóreo.
- Também da pátria move as turmas Ocno.
- Prole da vate Manto e um tusco rio,
- Que o nome da mãe deu-te e muros, Mântua;
- Mântua, rica de avós, não de uma estirpe,
- De tribos três, por tribo quatro cúrias,
- És cabeça, e te alenta o sangue etrusco.
- Dali contra Mezêncio, em pinho infesto,
- Do pai Benaco o Míncio, de arundíneo
- Verdoengo véu, despeja mais quinhentos;
- Auletes sério os guia, e vira e açoita
- De árvores cento o mármore espumoso:
- Trá-lo imano tritão, que os vaus cerúleos
- A búzio aterra, humano híspido o rosto,
- De ceto o imerso ventre, ao semifero
- A vaga sob o peito alveja e estoura.
- O tétio sal com bronze, em baixéis trinta,
- A pró de Tróia cabos tais retalham:
- A alma Febe, o Sol posto, meio Olimpo
- Já no carro noctívago atingia.
- O cauto Enéias, sem dormir cuidoso,
- Prossegue dirigindo o leme e as velas:
- Eis um coro de ninfas lhe aparece,
- Naus suas que a benéfica Cibele
- Deusas do ponto fez; a nado o sulcam
- Tantas emparelhadas, quantas éreas
- Proas retinha a praia, e apercebendo
- A seu senhor, com danças o circundam.
- Atrás Cimódoce, a melhor falante,
- Na destra a popa tendo, alteia a espádua,
- Sorrema com a esquerda as ondas mudas;
- Ignaro o adverte: “Enéias, tu vigias?
- Vigia, ó divo, ao pano escotas larga.
- Do cume sacro ideu somos teus pinhos:
- Do Rútulo a perfídia a ferro e fogo
- Nos apertava, e amarras nós invitas
- Quebrando à pressa, em tua busca andamos;
- Que em fluctícolas deusas compassiva
- Aviventou-nos Réia. Ascânio, saibas,
- Dos rojões do latino feio marte
- A custo se defende; já da Arcádia
- Junta a cavalaria ao Tusco estrênuo
- Postou-se onde marcaste, e firme a que eles
- Se aproximem da praça opõe-se Turno:
- Sus, na alvorada a l’arma soar manda;
- O invicto escudo embraça de orlas de ouro,
- Primor do Ignipotente. Em mim se creres,
- Será crástina a luz espectadora
- De rútula estupenda mortualha.”
- Então, não peca no mister, a popa
- Celsa empurrando, pelas ondas foge,
- Ligeira como a frecha ou leve xara:
- As mais também. Estupefato o Anquíseo,
- Contudo anima os seus com tal presságio,
- E ora curto, encarando o azul convexo:
- “Divina genitriz, que as torres presas,
- Leões cangas e enfreias; pois me induzes
- À guerra, ó Dindimene, o agouro aspira,
- Com pé vem protetor, assiste aos Frígios”.
- Al não disse; e, à carreira o Sol tornando,
- Com lume já maduro espanca a treva.
- Logo Enéias, bandeiras despregadas,
- Arma, apresta, acorçoa. D’alta popa
- Seus arraiais contempla, e ao braço esquerdo
- Exalça o ígneo broquel. Do muro os Teucros,
- Voz em grita (a esperança esperta as iras)
- Jaculam tiros: quais sob um nublado
- Grasnam estrimónios grous, que a Noto esquivos,
- Dando ledos a senha, os ares tranam.
- Turno e os seus o estranhavam, té que enxergam,
- Popas voltas à praia, o mar coalhando,
- A frota prolongar-se. Arde a celada,
- Lampeja a Enéias o cocar, do escudo
- O diamante flamívomo centelha:
- Lúgubre assim rubeja em lenta noite
- O sangüíneo cometa; ou, sede e morbos
- Dardejando aos mortais, fervente Sírio
- Com funesto luzir contrista o pólo.
- Nada esmorece a Turno; apoderar-se
- Da praia intenta e obstar ao desembarque.
- Incita, exorta: “O ensejo desejado
- Ei-lo, varões; obrai, que o marte mesmo
- Se vos entrega: esposa e lar vos lembrem,
- Lembrem-vos pátrios feitos gloriosos;
- Acorramos à borda e os encontremos,
- Trépido o passo enquanto lhes vacila:
- Audazes a fortuna favorece.”
- Nisto, elege os que o sigam nesta empresa,
- Outros incumbe de manter o assédio.
- Já lá das popas lança o Teucro pranchas.
- Tais à espera do lânguido refluxo,
- Tais os remos fincando, aos baixos pulam.
- Onde nem brotam vaus, nem rechaçada
- Remuge a onda, mas se alisa mansa
- Do fluxo no montar, observa Tárchon;
- Rápido as proas vira, e aos nautas insta:
- “Picai voga, eia, alçai-vos, gente forte,
- Impeli-me os baixéis; que os rostros fendam
- O solo hostil, e sulco se abra a quilha.
- É nada o naufragar, se pojo em terra.”
- Ele ordena, e estribando ao remo investem;
- Os barcos a espumar direito abicam,
- Até que, os esporões em seco varam,
- E ilesos cascos assentaram, menos
- A tua popa, Tárchon; pois de iníquo
- Dorso encalhada pende, um tempo nuta,
- Maretas cansam-na, e desfeita vasa
- N’água a turba varonil, que fraturados
- Bancos e remos à matroca impedem,
- E a ressaca a repulsa e os pés lhe embarga.
- Nada ignavo, o acre Turno contra os Frígios
- A hoste arremessa toda, e a praia ocupa.
- Toca à degola. Enéias fausto a enceta
- Sobre o agreste esquadrão; rompe os Latinos,
- Morto o maior. Teron, que ousa arrostá-lo:
- Penetrando o éneo escudo e auri-escamosa
- Túnica, a espada lhe embebeu na ilharga.
- Seu ferro a Lichas prostra, que a ti sacro,
- Febo, da extinta mãe sacado infante,
- Pôde no ferro escapar. Não longe o duro
- Cisseu derriba e o corpulento Gias,
- Que a turmas esmagavam: não lhes presta
- Clava, nem pulso hercúleo, e o pai Melampo,
- Sócio nos transes do lidado Alcides.
- A Faron, que jactâncias vocifera,
- Na boca um dardo retorcendo enfia.
- E tu, pobre Cidon, que ias trás Clício,
- Teu novo gosto, em cujas faces punge
- Lanugem loura, à tróica mão caíras,
- Quite do insano amor que aos jovens tinhas;
- Se em mó, de Forco nados, não saíssem
- Irmãos sete que arrojam sete lanças:
- Parte, as rebate o escudo e o capacete;
- Parte a soslaio o alcança, e as torce Vênus.
- “Hastas, Enéias brada, hastas, amigo,
- Das que em Tróia preguei no corpo aos Gregos;
- Aos Rútulos nenhuma irá frustrânea.”
- Pega uma ingente, que a voar a adarga
- Brônzea a Meon traspassa e a malha e os peitos.
- Corre Alcanor, sustenta o irmão que tomba:
- O lagarto lhe encrava outro arremesso,
- Que progride cruento; e pelos nervos
- Da espádua o braço moribundo pende.
- Eis do irmão Numitor a farpa arranca,
- E a revira ao herói; mas não lhe coube
- Tocá-lo, e a coxa ao grande Acates roça.
- Clauso de Cures, no verdor fiado,
- Lá vibra a Dríope um zarguncho rijo
- Sob o queixo, e lhe tronca a fala e a vida,
- Rota a goela; em terra a testa bate,
- E a boca lhe vomita em grumos sangue.
- Destroça vário a Traces três, prosápia
- De Bóreas digna, e a três de ismara pátria,
- Que Idas padre enviou. Com seus Auruncos
- Acode Haleso; acode o éqüite insigne
- Messapo de Netuno: ora uns, ora outros,
- No umbral da Ausônia a combater, se expelem.
- No espaço a pleitear discordes ventos,
- Em força e ânimo iguais, entre si lutam,
- Nuvem nem mar cedendo; e renitentes,
- Dúbio a durar o prélio, a tudo afrontam:
- Dest’arte os Frígios travam-se e os Latinos,
- Pé com pé, rosto a rosto, arca por arca.
- Palante alhures, onde ampla torrente
- Seixos rola e arvoredos extirpados,
- Vendo os Árcades seus, que, se apeando
- Pelo áspero terreno, desafeitos
- À pedestre contenda, ao sequaz Lácio
- Voltam costas; segundo as ocorrências,
- Roga, invectiva, os brios reacende:
- “Fugis, irmãos? por vós, por vossos feitos,
- Pela do caro Evandro invicta glória
- E a que nutro esperança de emulá-lo,
- Não confieis nos pés: que a ferro entremos
- Por onde espesso engloba-se o inimigo,
- Alto a Palante e a vós prescreve a pátria.
- Não divos, são mortais que a mortais urgem;
- Mãos também e almas temos. Golfo imenso
- Nos obsta; à fuga terra já nos falta:
- Buscaremos o pego ou teucros muros?”
- Cessa, e por densos batalhões prorrompe.
- Lago, ó desgraça! o topa; e, enquanto lasca
- Pesada rocha, de través Palante
- Finca-lhe, onde o espinhaço as costas parte,
- E extrai a choupa aos ossos aderente.
- Cuida Hisbon surpreendê-lo; e quando, cego
- Do cruel fim do amigo, em fúria salta,
- No inchado bofe o herói some-lhe o estoque.
- Vai-se depois a Sténelo, e à de Reto
- Vetusta raça, Anquémolo, que o toro
- Da madrasta incestou desaforado.
- Timbro e Larida, o pó mordestes gêmeos,
- Dáucia prole simílima e indistinta,
- Aos pais erro suave: o gume arcádio
- Vos pôs duro descrime; a ti cerceia,
- Timbro, a cabeça; e a destra mutilada,
- Larida, a procurar-te, o ferro aperta
- Nos semiânimes dedos palpitantes.
- A voz do chefe, o exemplo, dor, vergonha
- Os Árcades inflama, que arremetem.
- Mata o moço a Reteu, que em biga, ó nobres
- Irmãos Tires e Teutras, vos fugia:
- A Ilo, a quem salva o espaço, longe atira
- Válida hasta, que em meio a Reteu colhe;
- Do carro ao chão resvala, e semivivo
- Calca e percute a rútula campanha.
- No estio, ao sopro de anelantes ventos,
- Quando em selva o pastor semeia incêndios,
- No âmago lavram e hórridos propagam
- Em largo plaino exércitos vulcânios;
- Ele altivo contempla ovantes chamas:
- Os teus para ajudar-te assim, Palante,
- Unem-se em feixe. O ardido Haleso contra
- Rui, na armadura envolto: imola a Feres,
- Demódoco e Ladon; seu talho a destra
- A Estrimônio decepa, que ao pescoço
- Leva-lhe a adaga; a seixo o crânio a Toas
- Racha e esmigalha o cérebro sangüento.
- Pressago o pai de Haleso o teve em brenhas:
- A Parca o preia e sagra à lança evândria,
- Solvendo ao velho os desmaiados lumes;
- Palante o agride, orando: “Ó Tiberino,
- O remessão que libro, alado o emprega
- Do atroz varão no seio: um teu carvalho
- Terá dele os despojos e estas armas.”
- O deus o ouviu; que Haleso ao bote certo,
- No cobrir a Imaon, descobre o lado.
- Lauso, um pilar da guerra, os seus não deixa
- De um tal golpe assustar-se: a Abante oposto,
- Do combate eixo e nó, destrói; prosterna
- Tuscos, Arcádios; nem vos poupa, ó Troas,
- Poupados por Argeus. Travam-se, em cabos
- E em força iguais; baralham-se as fileiras;
- Os tiros e o manejo o aperto empacha.
- Cá Lauso se afervora, além Palante,
- Ambos eqüevos quase, ambos formosos;
- Mas a pátria rever lhes nega o fado:
- Não quis do Olimpo o rei que às mãos viessem;
- Mor inimigo talhará seus dias.
- Eis, da irmã por conselho, em veloz coche
- Turno, a Lauso acudindo, as filas corta:
- “Parai, sócios; recebo eu só Palante,
- Palante a mim se deve: oh! se aqui fora
- Testemunha seu pai!” Cedem-lhe o passo:
- Admira o moço a obediência pronta,
- Mede ao soberbo o talhe formidável,
- Rodeia ao longe a furibunda vista,
- E ao tirano responde: “Ou morte nobre,
- Ou vai despojo opimo honrar meu nome;
- Sorte igual a meu pai: não feros, obras!”
- Falando ao plaino marcha: coalha o sangue
- Nos corações arcádios. Pula Turno
- Da biga, a pé remete; imagem própria
- Do rompente leão que ao touro voa,
- A quem de alto covil descobre em lutas
- No prado a meditar. Ao crê-lo a tiro
- De hasta, avança Palante; a audácia invoca
- No desigual partido, e ao céu recorre:
- “Se hóspede, Hércules, foste à pátria mesa,
- Na ação me assiste; eu rubras tire as armas
- A Turno semimorto; olhe penando
- Seu vencedor no bocejar supremo.”
- Alcides o escutou; fundo ai comprime,
- Vãs lágrimas vertendo. Ao filho Jove:
- “Cada qual, diz benigno, tem seu dia;
- A vida é breve e irreparável tempo;
- Mas rasgos de virtude a fama exalçam.
- Quanta em Ílio caiu divina prole!
- Té Sarpédon meu sangue! À meta chega
- Turno também, e o chamam já seus fados.”
- E foi do Lácio desviando os olhos.
- Já teso a lança vibra, e da bainha
- Palante puxa a lâmina fulgente:
- De vôo a ponta encaixa onde a espaldeira
- Pega o braçal; do escudo as orlas passa,
- Do ombro ao Rútulo ingente a cútis fere.
- Turno pujante aqui de choupa aguda
- Sopesa um roble, e grita: “Vê se o nosso
- Rojão melhor penetra.” E a coruscante
- Farpa o broquel de férreas e êneas pranchas,
- De couro táureo em dobras reforçado,
- Rasga, os empeços da loriga fura
- E o peito heróico. Embalde a quente choupa
- Do rombo extrai: em sangue a alma esvaindo,
- Por cima ao revoltar-se da ferida,
- Sobressoam-lhe as armas, e expirando
- A boca o solo hostil beija cruenta.
- Salta-lhe ao corpo Turno: “Árcades, grita,
- Não vos esqueça a Evandro o referi-lo:
- Qual mereceu, remeto-lhe Palante:
- De o tumular com pompa o alívio outorgo:
- Caro a hospedagem pagará de Enéias.”
- Então senta no morto a planta esquerda:
- Rouba o talim de peso, e nele impressos
- Do morticínio os tálamos sangrentos
- Em jugal noite; culpa atroz, gravada
- Pelo Eurítides Clono em chapas de ouro.
- Turno com isto exulta: ó mente humana,
- Fera e descomedida na bonança,
- Do porvir néscia! intacto inda a Palante
- Vir-lhe-á tempo que almeje a todo o preço,
- E este espólio e façanha ele abomine.
- Gemebundos e em pranto, os companheiros
- O cadáver carregam sobre o escudo.
- Oh! voltas a teu pai, dor grande e glória!
- Deu-te um só dia à guerra e ao passamento;
- Mas que montões de Rútulos deixaste!
- A Enéias, não a fama, um messageiro
- De mal tamanho informa; e trasmalhados
- Socorra os seus, que estavam por um fio.
- Quanto encontra, arrombada a larga turba,
- A gládio ceifa ardendo; achar-te anseia.
- Turno ufanoso da recente morte.
- Ante si tudo tem, Palante, Evandro,
- A hospitaleira mesa, a destra amiga.
- Vivos quatro a Sulmon, a Ufente agarra
- Quatro alunos que imole à sombra, e reguem
- Do seu cativo sangue a rogal chama.
- Sobrevoa esgrimida a tremente hasta
- A Mago astuto, que se agacha ao bote,
- E suplicante abraça-lhe os joelhos:
- “Pelo medrado Iulo e anquíseos manes,
- A meu pai me conserves e a meu filho.
- Muita prata em moeda, bruto e em obra
- Soterrei cópia de ouro, em meu palácio:
- Não libra em mim dos Teucros a vitória;
- Nada empece uma vida.” Enéias presto:
- “Guarda essa prata, esse ouro bruto e em obra
- Para teus filhos: com matar Palante
- Aboliu Turno as transações da guerra.
- Isto, Anquises o aprova, Ascânio o sente.”
- E a sestra no elmo, atrás lhe dobra o colo,
- Onde a espada lhe enterra até aos punhos.
- Perto o Hemônio, de Febe e Apolo antiste,
- Com sacra fita às fontes presa a faixa,
- Luzia na armadura e insignes vestes:
- O herói o acossa, abate, o imola, o cobre
- Da ampla sombra; Seresto apanha as armas,
- E em troféu tas carrega, ó rei Gradivo.
- A pugna instauram, de vulcânia estirpe
- Céculo, e Umbro das mársicas montanhas.
- Enfurece o Dardânio; à esquerda logo
- A Anxur talha e desfaz rodela férrea:
- Sonhava ele proezas, e esforçar-se
- Com vozes crendo, e ao céu talvez se alando,
- Brancas se prometia e logos anos.
- De agreste fauno e dríope gerado,
- Tarquito refulgindo enrista a lança:
- O herói torcendo-a empece-lhe a coiraça
- E o pesado pavês; descabeçando-o,
- Lhe frustra a prece e o que dizer queria;
- Revolve o tronco tépido por terra,
- Com ânimo inimigo assim prorrompe:
- “Jaze aí, valentão; nem madre ninfa
- No pátrio solo inumará teus membros:
- Serás de abutres pasto; ou, submergido,
- Te hão de a chaga lamber famintos peixes.”
- Persegue, na vanguarda, ao forte Numa,
- Licas e Anteu, Camertes, louro filho
- Do riquíssimo em lavras nobre Ausônio,
- Volscente, o rei de Amiclas taciturna.
- De cem braços e mãos Egeon, narram,
- Fogo expirava de cinqüenta fauces,
- Com cinqüenta broquéis tinindo, espadas
- Cinqüenta a menear contra o Tonante:
- Não menos, dês que o Frígio aquece o gume,
- Bravo campeia. De Nifeu remete,
- Peito a peito, à quadriga; e, assim que os brutos
- Bramindo o avistam fero, amedrontados,
- Retrocedendo rápidos, às praias
- O coche rojam, seu senhor despejam.
- Eis Lugo se apresenta em alva biga,
- Mais o irmão Liger, que os frisões governa;
- Lugo acérrimo esgrime o iroso ferro.
- Tal fúria ao Teucro azeda; rui terrível
- De hasta apontada. E Liger: “Não diomédios
- Corcéis, carros aquíleos, frígios campos,
- Tens aqui, vês a morte e o fim da guerra.”
- Das fanfúrrias, que em ar se desvanecem,
- Em troco Enéias lhes revira um dardo.
- Prono Lugo, a pender nos loros, pica
- Da arma os cavalos; por bater-se, adianta
- O sestro pé: do aêneo escudo as orlas
- Entra a ponta e a virilha esquerda fura:
- Do carro a baixo moribundo rola.
- E amaro o pio herói: “Nem tarda a biga
- Falsou-te, ou sombras vãs a afugentaram;
- Tu sim, Lugo, de um salto a abandonaste.”
- Nisto, a parelha empolga. O irmão, coitado!
- Desmontando estendia inermes palmas:
- “Por ti, varão por teus progenitores,
- Deixa-me a vida, abrandem-te meus rogos.”
- “Diverso, o atalha Enéias, blasonavas;
- Morre; irmão não é bem que o desampares.”
- E estoqueia-lhe o peito, encerro da alma.
- Qual tufão grosso ou túrbida torrente,
- Ferais danos o Dárdano espalhava.
- Rompe enfim da muralha o moço Ascânio,
- Com seus guerreiros por demais cercados.
- A Juno entanto Júpiter: “É Vênus,
- Nem te enganas, consorte e irmã querida,
- Que os troianos sustenta: ei-los cobardes,
- Sem denodo ou constância nos perigos.”
- Aqui Juno submissa: “Ó doce esposo,
- Temo os remoques teus, por que me apuras?
- Se inda, como convinha, o amor d’outrora
- Eu te inspirasse, um dom não me negaras,
- Onipotente: incólume ao pai Dauno
- Guarde eu Turno da ação... Mas que! pereça,
- Devoto sangue aos Troas laste as penas.
- Deduz contudo o nome e origem nossa
- Do tresavô Pilumno, e com freqüência
- A plenas mãos cumula-te os altares.”
- Breve replica o rei do Olimpo etéreo:
- “Se a Turno queres que eu prolongue os dias
- E achas que o posso; pela fuga o salves
- De instantes fados: até aqui me cabe
- Condescender. Se encobres nessas preces
- Mor graça, e a guerra transtornar concebes;
- Apascentas baldias esperanças.”
- E ela em choro: “O que a voz me cede a custo,
- Se d’alma o desses, vida cheia a Turno!...
- Mas transe o espera indigno, ou eu me iludo:
- Oxalá sejam falsos meus temores,
- E tu, que o podes, a melhor te inclines.”
- Disse, e de lá dispara; de nevoeiros
- Cingida, numa borrasca a precedê-la,
- Baixa entre o campo ilíaco e Laurento.
- Logo em feição de Enéias, ó prodígio!
- Fraca de vácua nuvem sombra tênue
- Arma à troiana; o escudo, as cristas finge
- Da cabeça divina; ocas palavras,
- Som lhe empresta sem mente, o andar e o gesto:
- Como, é voz, do finado erra a figura;
- Ou qual sonham sopitos os sentidos.
- Ante as fileiras jubilando a imagem,
- Dardos em punho, desafia a Turno.
- Este, irritando-se, a estridente lança
- Arremessa: o fantasma as costas volta.
- Creu Turno em fuga a Enéias, e se rega
- Alvoroçado em frívola esperança:
- “Onde vais, Teucro? os tálamos desprezas?
- Toma a terra, eu t’a dou, por mar buscada.”
- E, após clamando, o gládio nu brandia,
- Sem ver que é seu prazer seguir o vento.
- À sáxea ribanceira, expostas inda
- Pranchas e escadas, o navio estava
- Que a Osínio rei de Clúsio transportara.
- Ali pávido o esquivo simulacro
- Deita a esconder-se; vence estorvos Turno,
- Salta as pontes. A proa mal que atinge,
- Rebenta os cabos Juno, arranca o lenho,
- Pelas vagas revoltas o arrebata.
- Por seu rival bramando o vero Enéias
- Na homicida carreira prosseguia;
- Já não se oculta, voa o aéreo vulto,
- E em negrume cerrado se confunde;
- Pelas ondas a Turno um tufão leva.
- Ínscio, ingrato à mercê, contempla em roda,
- Ao céu levanta as mãos: “Júpiter sumo,
- Digno me julgas de desar tamanho?
- Que punição? Para onde me conduzem?
- Donde vim? Quem sou eu com tal fugida?
- Como a Laurento e aos muros tornar posso?
- Que dirão meus soldados? Ó vergonha!
- Deixá-los eu na luta agonizantes!
- Vejo-os daqui vagar, seus ais escuto.
- Que farei? não me engole e some a terra?
- Ventos, piedade! recebei meu culto
- Voluntário: o baixel a vaus e escolhos,
- A sirtes arrojai-me, onde nem saibam
- Os Rútulos de mim, nem reste a fama.”
- Tal discursava, e aqui e ali flutua;
- Nem atina se enterre a crua espada
- E em tanta afronta as costas se atravesse,
- Ou se, entre os escarcéus, à curva praia
- Nade e se restitua às teucras armas.
- Três vezes foi tentá-lo, três conteve-o
- A soberana Juno condoída.
- O alto sulcando com maré propícia,
- Na corte do pai Dauno antiga aporta.
- Já Mezêncio cruel, de Jove a impulsos,
- Lhe sucede, e acomete ovantes hostes.
- Encontram-no agravados os Tirrenos;
- Alvo é dos golpes todos. Como rocha
- Está, que, protendida ao mar e aos sopros,
- Os embates resiste e os ameaços
- Do céu violento e furibundo pego.
- A Hebro Dolicaônio o varão prostra,
- Mais a Látago e Palmo fugitivo:
- A Látago um fragmento da montanha
- Esmecha e esmaga o rosto: a rojo Palmo
- Rola dejarretado: a Lauso doa
- O arnês que ombreie, as plumas com que se orne.
- Escala o Frígio Evante e o caro a Páris
- Mimas, filho de Amico, por Teano
- Parido à noite que abortou Cisseide,
- Prenhe de um facho: Páris jaz na pátria;
- Mimas, que o não cuidava, em lácia borda.
- Como o javardo, em canavial nutrido,
- Que a dente correm cães, sobejo espaço
- No pinífero Vésulo acoitado
- E em laurência lagoa, ao dar nas redes
- Pára, em roncos escuma, ouriça as cerdas;
- Ninguém lhe ousa achegar, distantes raivam,
- Em seguro gritando e a garrochá-lo;
- Ele, impávido e atento, os queixos range,
- Cospe do lombo a chuva de arremessos:
- Tais, não com ferro em punho, mas de longe,
- Desse odioso Mezêncio os inimigos
- Com rojões e alarida o desafiam.
- Prófugo, a velha Córito e imperfeitas
- Núpcias largando o Graio Acron, purpúreo
- Nas galas e cocar, da noiva mimos,
- Descose as turmas: o tirano o enxerga.
- Se o leão, que em jejum com fome ronda
- Alto curral, fugaz a corça avista
- Ou cervo de árduos cornos; sevo e hiante
- Folga, hirta a juba, às vísceras deitado
- Ferra-se, e em negro sangue as fauces lava:
- Dest’arte vem Mezêncio e a chusma ataca.
- Tomba expirando Acron, e ao debater-se
- Calca o atro chão, cruenta as rotas armas.
- Ferir desdenha a Orodes que se evade,
- Remeter-lhe desdenha um bote cego;
- Não destro nos ardis quanto era forte,
- Adverso o alcança, mão por mão o aterra;
- N’hasta apoiado, o pé lhe imprime sobre:
- “Ei-lo, varões, o herói da guerra esteio.”
- E os seus com ele entoam ledo peã.
- Orodes a arquejar: “Serei vingado,
- Nem longo exultarás; meu fim te espera,
- Este pó vais morder.” Com riso amargo
- O ímpio então: “Morre já; de mim disponha
- Esse teu pai divino e rei dos homens.”
- Disse, e lhe extrai do corpo o tenaz pique:
- Urge-o repouso duro e férreo sono,
- E em noite fecha eterna os baços lumes.
- A Hidaspes Sacrator, a Alcato Cédico,
- Rapon tronca a Partênio e o válido Orses;
- Messapo a Clônio e o Árcade Ericetes:
- Um de infrene corcel, derriba o outro
- Pedestre a pé. Socorre-os Agis Lício,
- Talha-o Valero com denodo avito;
- A Trônio Sálio; a Sálio o bom Nealces,
- Em dardo ou seta ao longe traiçoeira.
- O luto e os funerais Marte equilibra:
- Morrem, matam, vencidos, vencedores;
- Não se rendem, não cedem, não fraqueiam.
- Tanta ânsia nos mortais, e de uns e de outros
- O vão furor a Jove e ao céu compunge:
- Aqui Vênus atenta, ali Satúrnia.
- Pálida a Erínis urra e assanha as turbas.
- Torvo, a librar Mezêncio enorme lança,
- Entra em campo, e se mostra em vastas armas:
- Como Orion, de espáduas fora d’água,
- Rasga a pés de Nereu o imenso lago;
- Ou, dos serros trazendo o anoso freixo,
- Anda em terra, e nublada a fronte esconde.
- Enéias, que o lobriga, avança prestes.
- Firme em seu peso, intrépido ele aguarda
- O brioso adversário; de olhos mede
- Assaz distância ao tiro: “Agora, exclama,
- Deus é meu braço e o remessão que vibro.
- Do salteador Enéias eu te voto,
- Lauso, em troféu, do espólio seu vestido.”
- Hasta eis voa estridente; que, do escudo
- Repulsa, aos hipocôndrios vai pregar-se
- Do egrégio Antor, de Alcides companheiro;
- Antor Argivo, que aderindo a Evandro,
- Na Itália se ficou. Precipitado
- É de alheia ferida; e, o céu fitando,
- Ah! lembra-lhe ao morrer sua doce Argos.
- Joga Enéias um dardo, que a rodela
- Triple érea penetrou, por líneas fraldas,
- Por táureos forros três; e amortecido
- À virilha se apega. Ao ver-lhe o sangue,
- Puxa o ferro da cinta alegre o Teucro,
- Férvido ao Tusco titubante corre.
- Nisto, em lágrimas Lauso debulhado,
- Por amor de seu pai geme profundo.
- Teu mesto fim, teu brio e feito heróico,
- Se o futuro crer pode empresa tanta,
- Celebrarei, mancebo memorando.
- Fraco e impedido, a se arredar Mezêncio,
- Preso arrasta no escudo o hastil infesto.
- De chofre o jovem, interposto às armas,
- A mão de Enéias, que desfecha o talho,
- Susta e o reteve: em grita os seus o aclamam,
- E entanto o genitor se evade à sombra
- Da rodela do filho; empacha a Enéias
- Bateria de frechas e arremessos:
- Cobre-se ele a bramir. Quando em saraiva
- Desata a chuva, o lavrador se esgarra,
- Em guarida se alberga o viandante,
- Em lapa de ribeira ou cava penha,
- Até que, abrindo o Sol, o dia exerçam;
- Opresso o Teucro assim da márcia nuvem,
- À espera está que a trovoada amaine;
- Comina e avisa a Lauso, a Lauso increpa:
- “Temerário, onde vens? mediste as forças?
- Engana-te a piedade.” Ele não menos
- Demente assalta: o estame curto as Parcas
- A Lauso colhem: do dardânio chefe
- Se irrita a cólera, a possante espada
- No moço enterra; a ponta a leve adarga
- E a túnica passou, que a mãe fiara
- De ouro sutil; em borbotões o sangue
- Alaga o seio; e a vida pelas auras
- Triste aos manes se afunda e o corpo larga.
- Pálida a face, moribundo o gesto
- Ao ver-lhe o Anquíseo, compassivo e grave
- Suspira, dá-lhe a destra; à mente a imagem
- Sobe do pátrio amor: “Que digno prêmio
- Dessa rara virtude o pio Enéias
- Te prestará, mesquinho? As armas tenhas,
- Teu gosto em vida: eu rendo-te ao jazigo
- E às cinzas dos avós, se disto curas.
- Console-te infeliz do grande Enéias
- Às mãos cair.” E exprobra os tardos sócios,
- Do chão levanta o corpo, cujas tranças
- Atiladas à moda o sangue afeia.
- Mezêncio, ao pé do Tibre, entanto os golpes
- Lava e estanca, e arrimado se conforta
- A arbóreo tronco: ao longe está num ramo
- O éneo casco, e na relva o arnês pesado.
- Egro, anelante, o colo desafoga,
- Aos peitos se difunde a larga barba.
- Cercam-no os seus: do filho indaga aflito,
- Manda que o chamem e amiúda as ordens.
- Mas sobre o escudo em pranto já traziam
- Morto do grande bote o grande Lauso:
- O pai nesse carpir seu mal pressente;
- De pó deforma as cãs, e as palmas ambas
- Dirige aos céus, e apega-se ao cadáver:
- “Quis tanto à vida, ó filho, que ao trespasso
- Expus a quem gerei? Por tua morte
- Vive teu pai, salvou-me essa ferida?
- A minha agora se me agrava e sangra,
- Ai! dói-me agora o mísero desterro!
- Manchei teu nome, Lauso, eu por tais crimes
- E ódios expulso do paterno sólio:
- Eu só pagar devera aos meus e à pátria,
- Por mil mortes render est’alma infame;
- Respiro, e inda não deixo a luz e os homens?
- Eu deixarei.” Na perna a custo se ergue,
- Sem da chaga o abater a dor violenta;
- Pede o corcel, da glória companheiro,
- Consolo seu, que vencedor com ele
- Das batalhas saía, e ao pobre fala:
- “Rebo, há muito duramos, se é que muito
- Dura coisa mortal: hoje a cabeça
- Trarás de Enéias e o cruento espólio,
- E as de Lauso agonias vingaremos;
- Ou, se impossível é, morramos juntos:
- Não sofrerás altivo, eu creio e espero,
- Mandos alheios nem senhor troiano.”
- Monta, e aceita-lhe o bruto a usada carga;
- Onera as duas mãos de agudas hastes;
- O elmo reluz, de eqüina hirsuta coma.
- Veloz galopa: o luto, a insânia, o pejo
- No coração referve; agitam fúrias
- O amor paterno, a cônscia valentia.
- “Enéias! grita, Enéias!” Ledo Enéias
- O reconhece e impreca: “O pai supremo
- Queira com Febo que o duelo encetes!”
- E, de hasta em riste, avança. Então Mezêncio:
- “Roubado o filho, aterras-me, assassino?
- O só meio esse foi de me acabares.
- Nem temo os deuses, nem me assustam Parcas:
- Morrer venho, recebe a despedida.”
- Lesto um dardo lhe prega, outro e mais outro,
- Em volta ingente; mas rechaça-os todos
- A áurea copa do escudo. Pela esquerda,
- Contra o parado herói tirando sempre,
- Trota em giro três vezes; três no bronze
- Roda consigo o Teucro a basta selva.
- De extrair tanta farpa enfim se enoja,
- E da tardança e desigual peleja;
- Meditabundo rompe, a lança expede
- Às fontes cavas do belaz ginete:
- O quadrúpede em gêmeas, o ar a coices
- Depois zimbra, sacode e implica o dono,
- E cai de bruços lhe oprimindo a espádua.
- Lácio e tróico alarido os céus estruge,
- Voa sobre ele o herói, despindo o gládio:
- “Que é do feroz Mezêncio? onde os seus brios?”
- O Etrusco os olhos alça, haurindo as auras,
- E, recolhendo o alento: “Ameaças morte?
- Por que me insultas, figadal contrário?
- Vim perecer, não pecas em matar-me,
- Nem meu Lauso ajustou que me poupasses.
- Vencido, se jus tenho, eu só te rogo
- Ao corpo alguma terra: a circundar-me
- Freme o rancor dos meus; tu me defendas,
- Num sepulcro me encerres com meu filho.”
- Ciente, ele o pescoço ao gume inclina,
- A alma derrama e em sangue inunda as armas.