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EneidaLivro XII
LivroXII

Turno, lendo nos olhos dos Latinos

926 versos · 4 notas do tradutor


  1. Turno, lendo nos olhos dos Latinos,
  2. Lassos do adverso marte e esmorecidos,
  3. Que exigem-lhe a promessa, ignito e fero,
  4. Mais se exaspera e mais. Qual, de afras brenhas
  5. Ferido o leão no peito, encrespa as garras,
  6. Do colo folga a sacudir a juba,
  7. Do caçador estala o fixo dardo,
  8. Ruge-lhe impávido a cruenta boca;
  9. Tal cresce a fúria do abrasado moço,
  10. Que embravecido ao rei dest’arte fala:
  11. “Turno é prestes; não há por que o recuse,
  12. Nem retrate a palavra o Troa ignavo.
  13. Já marcho: imola, ó padre, o ajuste assela.
  14. Ou d’Ásia o desertor eu só na Estige
  15. Despenho (assista o exército em repouso)
  16. E a querela comum vinga este braço;
  17. Ou vencido me entrego, e mais Lavínia.”
  18. Tranqüilo então Latino: “Ó bravo jovem,
  19. Quanto em brio te excelsas, mais me cumpre
  20. Temer por ti, pesar-te os casos todos.
  21. Muito hás valente a herança acrescentado;
  22. Nem ouro falta e ânimo a Latino:
  23. Possui Laurento e o Lácio outras donzelas
  24. Não somenos. Verdades sem rebuço
  25. Desabridas me escuta, e não te enojes.
  26. A filha (homens e deuses mo cantavam)
  27. A nenhum proco antigo unir cabia:
  28. Mas por nossa amizade e parentesco,
  29. Pelo choro da esposa o nó desfeito,
  30. Ao genro a fé quebrei com ímpias armas.
  31. D’então vês quantos males hei sofrido;
  32. Que transes tu mormente. Já perdidas
  33. Ações duas, de Itália nestes muros
  34. Jaz a esperança; o campo alveja de ossos,
  35. Mana do sangue nosso o Tibre quente.
  36. Que indecisão! que insânia me transtorna!
  37. Se, Turno extinto, associá-los devo,
  38. Por que, ele salvo, a guerra não termino?
  39. Os consangüíneos Rútulos, a Itália
  40. Que não dirá, se à morte (longe o agouro!),
  41. Quando a filha me pedes, eu te exponho?
  42. O lance é dúbio; o velho pai condoas,
  43. Que em Ardea lá te aguarda e lá te chora.”
  44. Turno impaciente não se dobra: o achaque
  45. Mais se agrava ao remédio. Apenas pôde:
  46. “Por quem és, brada, ó pai, de mim não cures;
  47. Deixa-me a escolha de acabar com honra.
  48. Eu também sei jogar a espada e a lança,
  49. E aos golpes deste pulso escorre o sangue.
  50. Não tem cá deusa mãe que em névoa o encubra
  51. Femínea, ou sombras vãs em que se esconda.”
  52. Treme a rainha à condição da justa,
  53. Retém desfalecida o ardente genro:
  54. “Turno, por este pranto, se hás de Amata
  55. O pundonor a peito (pois coluna
  56. Me és na velhice, e de Latino o império
  57. E inclinada esta casa em ti se esteia),
  58. Desse duelo desiste: eis quanto peço.
  59. Dele, Turno, o teu fado e o meu depende;
  60. A luz odiosa deporei contigo,
  61. Nem genro o salteador verei cativa.”
  62. À voz materna, em lágrimas Lavínia
  63. Incende as faces, de rubor corando;
  64. Fogo instantâneo o vulto lhe escandece:
  65. Tal fica o índio marfim na grã sangüínea,
  66. Ou purpureia a rosa entre alvos lírios.
  67. Pregando olhos de amor na casta virgem,
  68. Turno em marte flameja: “Ó mãe, em suma,
  69. Com tal choro e presságio não me aflijas,
  70. Quando ao cru prélio desço: Turno alçada
  71. Não tem na morte. Núncio, Idmon, não grato
  72. Leva ao tirano frígio esta messagem:
  73. Da Aurora crástina em puníceo coche
  74. Ao roxear, os batalhões não mova;
  75. Armas descanse o Rútulo e o Troiano;
  76. Decida o sangue nosso; em liça aberta
  77. Disputemos Lavínia; e cesse a guerra.”
  78. Disse, e parte; os frisões demanda, e os mira
  79. Dos relinchos alegre: de Orítia
  80. Prenda honrosa a Pilumno, sobrepujam
  81. No curso os ventos, no candor a neve;
  82. De aurigas a mão cova os peitos logo
  83. Fagueira trata, as crinas lhes penteiam.
  84. De alvo oricalco e ouro a crespa cota
  85. Ele aos ombros circunda, a espada ajeita,
  86. O elmo rubri-cornuto, a enorme adarga:
  87. Fez-lhe a espada ao pai Dauno o rei do fogo,
  88. E a temperou candente n’água estígia.
  89. Do Aurunco Actor espólio, hasta robusta
  90. Pega, ao maior pilar do meio fixa.
  91. E a brande a blasonar: “Ó tu, que nunca
  92. Falhaste, lança, é tempo: Actor pojante
  93. Manejou-te, ora Turno; dá que eu prostre
  94. Válido, e arranque ao semiviro Frígio
  95. E lhe espedace a malha, em pó lhe suje
  96. O frisado cabelo ungido em mirra.”
  97. Furente e em sanha, o vulto lhe cintila,
  98. Em brasa ardem-lhe os olhos: como o touro,
  99. Que a luta ensaia horrífico mugindo,
  100. Tentando irar-se, aos troncos remetendo,
  101. A cornadas os ventos desafia,
  102. A areia escarva, e à briga se aparelha.
  103. Não menos fero nas maternas armas,
  104. Enéias embravece e o marte afila,
  105. Folga do ajuste que dirime a guerra.
  106. Lembrando o fado, Iulo e os seus consola
  107. Do susto; ao rei deputa, e lhe assegura
  108. Que aceita a paz e as condições confirma.
  109. Assim que doura o Sol os altos cumes,
  110. Quando, ao surgir do pélago, os Etontes
  111. Luz de amplas ventas sopram; campo à justa
  112. Medindo aprestam Rútulos e Teucros
  113. Sob a grande muralha, e em meios focos
  114. E aras gramíneas às comuns deidades;
  115. Parte, água e lume trazem, de verbena
  116. E véus de linho as fontes coroando.
  117. Pilos na destra, a legião d’Ausônia
  118. Rui de atulhadas portas; frígia e tusca
  119. D’além instrutas variamente as hostes:
  120. Como se Marte os chame a duro prélio.
  121. Mnesteu ramo de Assáraco, fulgindo
  122. Em ostro e ouro, entre milhares corre,
  123. E o Neptúnio Messapo e o forte Asilas.
  124. Ao sinal, tomam posto, as hastas plantam,
  125. Encostam seus broquéis. O inerme vulgo,
  126. Ávidas mães, enfraquecidos velhos,
  127. Por cumieiras derramam-se e por torres,
  128. De janelas e eirados se debruçam.
  129. Do monte, agora Albano, já sem nome,
  130. Lustre nem glória, atenta Juno a liça
  131. E os exércitos ambos e Laurento.
  132. Eis fala a deusa à diva irmã de Turno,
  133. A qual, em paga do pudor virgíneo
  134. Que o pai sumo roubou-lhe, os ressonantes
  135. Rios preside e lagos: “Sabes, ninfa,
  136. Das ribeiras adorno, entre as Latinas
  137. Que entraram do meu Jove o leito ingrato,
  138. Só me és cara, e no Olimpo coloquei-te.
  139. Teu mal, Juturna, aprende, e não mo imputes:
  140. O Lácio, enquanto aprouve à sorte e às Parcas,
  141. Hei protegido e a Turno; mas conheço
  142. Que o moço lida com funesto auspício,
  143. E que o termo fatal se lhe aproxima.
  144. A briga, o ajuste os olhos meus não sofrem.
  145. Se algo ousas pelo irmão, convém que o faças:
  146. Talvez melhore o fado.” Aqui Juturna
  147. Se lava em pranto, e vezes três e quatro
  148. A punhadas maltrata o seio lindo.
  149. “Não é tempo de lágrimas, diz Juno;
  150. Eia, o irmão de algum modo esquiva à morte,
  151. Ou desmancha tal pacto e a guerra incita:
  152. Esta empresa, eu t’a ordeno.” E a ninfa deixa,
  153. A quem tituba o coração dorido.
  154. Com toda a pompa entanto os reis saíram:
  155. Em quadriga Latino, em cuja fronte
  156. Brilha em dourado sol de raios doze,
  157. Do avô debuxo; em alva biga Turno,
  158. Que dois hastis sopesa de ancho ferro.
  159. Dos Romúleos o pai do arraial marcha,
  160. Fulgurando no escudo e arnês sidéreo,
  161. E Ascânio ao pé, de Roma outra esperança;
  162. Em veste pura, de uma cerda o feto
  163. E intonsa o fecial aduz cordeira
  164. Para as flagrantes aras. Ao nascente
  165. Eles virados, salso farro espargem,
  166. Com faca marcam na moleira as hóstias,
  167. Libam taças no altar. O pio Enéias
  168. Despindo o alfanje, orou: “Testemunhai-me,
  169. Sol, terra por quem tanto hei padecido,
  170. Onipotente soberano padre,
  171. E tu Satúrnea déia, já mais branda;
  172. Eu vos depreco; invoco a ti, Mavorte,
  173. Árbitro das batalhas; fontes, rios;
  174. E a vós do mar cerúleo e etéreos numes.
  175. Se acaso triunfar o ausônio Turno,
  176. Os vencidos, convenho, a Evandro passem,
  177. Daqui se aparte Iulo; nem com armas
  178. Contra este reino os meus, revéis conspirem:
  179. Se a vitória coroa o marte nosso
  180. (Como antes cuido, e os deuses mo concedam),
  181. Eu não pretendo o império, e ao Teucro menos
  182. O ítalo sujeitar: em laço eterno
  183. Lei justa invictos una os povos ambos.
  184. No culto intervirei; na guerra o sogro:
  185. Tenha o solene mando. A nova Tróia
  186. Funde-se, e o nome seu lhe dê Lavínia.”
  187. Enéias finda; e começou Latino,
  188. Seu olhar para cima e a destra alçando:
  189. “À terra, Enéias, juro, ao pego, aos astros,
  190. E aos gêmeos de Latona e ao deus bifronte,
  191. E às potências do abismo e a Dite sevo;
  192. Juro ao pai que a troar sanciona os pactos,
  193. D’ara às chamas que toco, aos numes todos,
  194. Que, suceda o que for, jamais a Itália
  195. A paz há de romper, nem força alguma
  196. Dela me desligar; bem que um dilúvio
  197. Nas ondas solva o mundo, o céu no inferno:
  198. Como este cetro (e o cetro aqui sacode)
  199. Nunca enverdecerá com sombra e folhas,
  200. Pois extirpado, sem ter mãe que o nutra,
  201. Depôs no bosque a ferro a coma e os galhos;
  202. Árvore já, que industre mão de engastes
  203. Éreos ornara aos régios pais latinos.”
  204. Dest’arte as alianças confirmavam,
  205. Em presença dos próceres; e as reses
  206. Degolam para o fogo, e sobre altares
  207. As entranhas em pratos lhes palpitam.
  208. Muito há que o duelo desigual parece;
  209. E de mais perto os Rútulos em susto
  210. Observam como Turno a passo lento,
  211. Lívido e mudo o juvenil semblante,
  212. Submissa a vista, as aras acatava.
  213. Ao ver a irmã Juturna que o murmúrio
  214. Cresce, e desvaira o vacilante vulgo;
  215. Fingindo-se Camerte (por avoengos
  216. E paterno valor, por si preclaro),
  217. Semeando rumores corre as filas.
  218. Destra aos Rútulos clama: “Não vos peja
  219. Que por tantos se arrisque uma só vida?
  220. Em número e denodo iguais não somos?
  221. Ei-los presentes Árcades e Troas,
  222. Da Etrúria a fatal hoste infensa a Turno:
  223. Cada qual seu contrário apenas temos.
  224. Ele que aos divos se ale, aos quais se imole,
  225. Vivo na voz da fama; e em ócio quedos,
  226. Nós cá, perdida a pátria, ao jugo estranho
  227. De soberbos senhores nos rendamos!”
  228. Isto afogueia os moços; e um sussurro
  229. Pelas turmas serpeia. Já mudados
  230. Laurentes e Latinos, que esperavam
  231. Em seguro, a paz rota e pugnar querem;
  232. Do infortúnio de Turno se amiseram.
  233. Mais Juturna os instiga, e um sinal mostra
  234. Que a propósito os ânimos conturba,
  235. Do prodígio embaídos: águia fulva
  236. No rubro éter caçava um sonoroso
  237. Leve marinho bando; e a vôo às águas
  238. Presto resvala, e empolga um cisne belo
  239. Na ávida garra. Os Ítalos se alentam;
  240. E as aves todas, ó portento! a fuga
  241. Ruidosas convertendo, em nuvem densa
  242. Tapando os ares, o inimigo atacam;
  243. Té que, cedendo à força e à mesma carga,
  244. Esmorece, e no rio a grave presa
  245. Das unhas larga, e some-se nas auras.
  246. Todos, prestes à lide, o auspício aclamam;
  247. E brada o áugur Tolúmnio: “Isto, isto, ó numes,
  248. Tanto roguei-vos; o favor aceito.
  249. Comigo, arma, arma, ó gente amedrontada,
  250. Quais fracas aves, pelo atroz vindiço
  251. Que estas praias devasta: ele não tarda
  252. Velas a dar corrido ao ponto fundo:
  253. Cerrando as filas, defendei comigo
  254. O rei vosso e da justa arrebatai-o.”
  255. Disse, e logo um zarguncho infesto arroja;
  256. Os ares frecha o estrídulo corniso:
  257. Soa o alarido; horrífico tumulto
  258. Os cúneos turba, os corações escalda.
  259. A hasta, a voar por entre nove esbeltos
  260. Irmãos, que de fiel tirrena esposa
  261. Houve o Arcádio Gilipo, alcança um deles,
  262. De relumbrante arnês gentil mancebo,
  263. Onde o cosido bálteo o ventre pisa,
  264. E a mordente fivela une as charneiras;
  265. Traspassa as costas e na arena o estira.
  266. Acres, cegos do nojo, os irmãos rompem,
  267. Remesso ou gládio em punho; os de Laurento
  268. Contra avançam: de novo inundam Frígios,
  269. E arreados Arcádios e Agilinos.
  270. Um só do ferro o amor domina em todos.
  271. Saqueiam-se aras; tolda os pólos torva
  272. De rojões tempestade e chuva de aço;
  273. Copas tiram, tições: Latino foge,
  274. Da injúria aos deuses, da traição queixoso.
  275. Qual emparelha o coche, qual de um salto
  276. Cavalga lesto, qual desnuda a espada.
  277. Messapo, que anular deseja as pazes,
  278. Ao Tusco Auletes em reais insígnias
  279. Remete o bruto: a recuar de espanto,
  280. Atrás o triste rei de encontro às aras,
  281. Cai de ombros e cabeça. Eis que Messapo
  282. Do alto corcel malfere ao suplicante
  283. Com trabal chuça, e férvido vozeia:
  284. “Morre, esta é melhor vítima aos supremos.”
  285. Acode a chusma, e os quentes membros despe.
  286. Corineu, de um tição do altar pegando,
  287. A Ebuso, que despede e um golpe acena,
  288. Chameia o rosto: luz comprida a barba,
  289. O chamusco a cheirar. De chofre às grenhas
  290. Deita-lhe a esquerda, mete-lhe o joelho,
  291. Prostra-o sem tino, corre-lhe a estocada.
  292. A Also pastor, que em frente arrosta e campa,
  293. De alfanje nu seguindo Poladírio,
  294. O assoberba; Also, erguendo a machadinha,
  295. Lhe escacha a testa e o queixo, as armas rega
  296. Dos esparsos miolos; férreo sono
  297. O urge, e os lumes em noite fecha eterna.
  298. Mas, patente a cabeça, a destra inerme
  299. Leva, e aos seus brada Enéias: “Suspendei-vos:
  300. Que furor, que discórdia vos despenha?
  301. Ferido o ajuste, as condições compostas,
  302. Devo eu só pelejar, deixai-me; os pactos,
  303. Não receeis, confirmará meu braço:
  304. Já destinam-me Turno os sacrifícios.”
  305. Nisto, seta a zunir no herói se encrava:
  306. Que mão, que impulso a disparou, se ignora;
  307. Se aos Rútulos um deus, se o mero acaso
  308. Tal glória permitiu: supressa a fama,
  309. Do golpe e arrojo tal ninguém jactou-se.
  310. Turno, ao partir Enéias, vendo os chefes
  311. Consternados, fervente e esperançoso
  312. Pede armas e corcéis, no carro salta,
  313. Meneia altivo as rédeas. Voa, imola
  314. Muitos varões de prol, ou semimortos
  315. Os roda, ou sob o coche esmaga imensos,
  316. De hastas se apossa que aos fugidos vibra.
  317. Se o truculento Marte no Ebro frio
  318. Pulsa o broquel e incita os corredores,
  319. Eles, bufando pelo plaino livre,
  320. Zéfiro e Noto excedem; geme inteira
  321. Ao seu tropel a Trácia; ao nume escoltam
  322. A Ira, a Traição, do Susto o aspecto baço:
  323. Tal em suor fumantes os cavalos
  324. Braceja alegre Turno, e insulta os mortos;
  325. Sangüíneo orvalho esparge e verte a roda,
  326. Na lenta areia a unha o cruor calca.
  327. Mata a Folo e Tamíris à mão tente;
  328. A Sténelo de longe, e a Glauco e Lades
  329. Irmãos, que em Lícia Imbraso pai criara,
  330. E igualmente os armou, que a pé combatam,
  331. Ou na eqüestre corrida as auras vençam.
  332. Lá, do antigo Dolon guerreira prole,
  333. Pompeia Eumedes, imitando em nome
  334. O avô, no esforço o pai; que ousara, em paga
  335. De ir espiar o acampamento graio,
  336. De Aquiles para si pedir o coche:
  337. Mas de outro modo lho pagou Tidides;
  338. Ele aos frisões do herói nem mais aspira.
  339. Turno, avistando na planície o filho,
  340. Joga-lhe um dardo pelos vácuos ares,
  341. Pára, da biga pula, e ao semivivo
  342. Que descai sobrevém, no colo a planta
  343. Lhe imprime, esbulha-o do punhal fulgente,
  344. Na garganta lho tinge, e assim blasona:
  345. “Mede jazendo, ó Teucro, o solo hespério
  346. Que vinhas conquistar: dos que me afrontam
  347. Eis o prêmio; dest’arte os muros fundem.”
  348. A botes lhe ajuntou Síbaris, Bustes,
  349. Cloreu, Dares, Tersíloco, e Timetes
  350. Que aos trancos o animal da cerviz lança.
  351. Qual, se do Egeu no pego o Edônio Bóreas
  352. Sopra sonoro e as ondas rola às praias,
  353. Do céu, por onde vara, espanca as nuvens;
  354. Tal ao fogoso Turno as alas cedem,
  355. E fogem batalhões: o ímpeto o leva,
  356. Batem-lhe o carro as flutuantes plumas.
  357. Fegeu não lhe suporta o orgulho e sanha;
  358. Ao coche avança, aos rápidos ginetes
  359. Retorce os freios e espumantes queixos.
  360. De rojo e às bridas preso, em descoberto
  361. O apanha larga chuça, e a coira dobre
  362. Rota, a cútis lhe prova o golpe leve.
  363. Ele se adarga, e já de estoque em riste,
  364. Volto para o inimigo, auxílio pede:
  365. Mas o eixo despedido e a roda o impele,
  366. Cai por terra; e entre a cota e o casco Turno
  367. Decepa-lhe a cabeça, e troncho o prostra.
  368. Enquanto ufano tudo arrasa e estraga,
  369. Mnesteu e Acates fido e Iulo às tendas
  370. A Enéias acompanham, que sangüento
  371. No conto abordoava os tardos passos.
  372. Raiva a lutar, e o meio quer mais pronto
  373. Com que da haste quebrada a farpa arranque:
  374. Abram de espada, e o golpe dilatando
  375. Catem-lhe o ferro, por que à pugna torne.
  376. Era presente o Iasidis Iapis,
  377. Dileto amigo do extremoso Apolo;
  378. Que ledo as artes suas lhe doara,
  379. O augúrio, a música, as ligeiras setas.
  380. Ele, a fim que a seu pai retarde os fados,
  381. Antes inglório conhecer as ervas
  382. E exercer quis a muda medicina.
  383. N’hasta a bramir Enéias se estribava,
  384. Cercado imóvel de tristonhos jovens
  385. E de Ascânio a chorar. Peônia a loba
  386. O hábil velho traçando, em vão tenteia
  387. E usa as de Febo virtuosas plantas,
  388. Em vão sonda com jeito e prende o ferro
  389. Com tenaz pinça: nem fortuna o serve,
  390. Nem seu mestre o socorre; e mais no campo
  391. Mais cruel medra o horror, mais perto avulta.
  392. Já se enovela o pó, já se ouvem rinchos,
  393. No arraial chovem dardos; grita imensa
  394. Dos combatentes soa e dos que morrem.
  395. Vênus, a quem do filho as dores pungem,
  396. No créssio Ida colheu de flor purpúrea
  397. Dictamo, caule de pubentes folhas;
  398. Não da corça ignorado, se expedita
  399. Frecha ao dorso lhe adere. Em névoa escura
  400. Vênus o traz envolta: em vaso terso
  401. De água turva o infundindo, oculta o misto
  402. Ela tempera, e esparge-lhe os salubres
  403. Sucos de ambrosia e odora panacéia.
  404. Ínscio o longevo Iapis à ferida
  405. O banho aplica: logo a dor se extingue,
  406. O sangue estanca; a seta por si mesma
  407. Já segue a mão; restauram-se-lhe as forças.
  408. “Presto, armas ao varão; tardais? primeiro
  409. Grita Iapis e os ânimos inflama:
  410. Não foi perícia minha ou arte humana
  411. Que, Enéias, te curou; foi celso nume,
  412. Que a façanhas grandiosas te reserva.”
  413. Ávido o Frígio as caneleiras calça,
  414. E as demoras detesta e brande a lança.
  415. Depois que enfia o escudo e a cota enverga,
  416. De ponto em branco armado abraça o filho,
  417. Ergue a viseira e o beija: “O vero esforço
  418. De mim, Ascânio, aprende e o sofrimento;
  419. De outros, a dita. Agora a destra minha
  420. Vai segurar-te, o que reputo um prêmio:
  421. Lá na idade madura não te esqueças
  422. Do exemplo dos avós, nem de que houveste
  423. Enéias por teu pai e Heitor por tio.”
  424. Disse, e hasta ingente balançando parte;
  425. Das portas após ele turba infinda,
  426. Anteu sai e Mnesteu; largando os valos
  427. Flui toda a gente: cego pó se enrola,
  428. E ao pulsar do tropel treme a campanha.
  429. De adverso marachão distingue-os Turno:
  430. Gelo aos d’Ausônia pelos ossos côa.
  431. Primeira entre eles percebeu Juturna
  432. O ruído, e vai-se trépida. Ele a vôo
  433. Traz a atra nuvem pelo aberto plaino.
  434. Quando, em sidérea conjunção, borrasca
  435. Do mar ronca, os agrícolas pressagos
  436. Ai! se arrepiam, que ela estrago e dano
  437. Aos pomares prepara e às sementeiras;
  438. Sopra o vento, e um sonido às praias chega:
  439. Tal o chefe reteu move as esquadras,
  440. E em cúneo as cerra e densa. Ao grave Osiris
  441. Fere e trunca Timbreu, Mnesteu a Arquécio,
  442. Acates a Epulon, a Ufente Gias;
  443. Tomba o áugur Tolúmnio, o que o primeiro
  444. Vibrou dardo infrator. Os céus atroa
  445. Amplo alarido, e aos Rútulos agora
  446. Fuga pulverulenta as costas volta.
  447. A nenhum dos que fogem, dos que atiram
  448. Distante, ou perto o investem, não se digna
  449. De derribar o herói: só busca a Turno,
  450. Por Turno clama, entre a caligem basta.
  451. A virago Juturna, apavorada,
  452. Por entre os loros a Metisco, auriga
  453. De Turno, ao longe do timão sacode:
  454. Monta, e maneja e dobra undantes bridas;
  455. Finge a voz de Metisco e a forma e as armas.
  456. Qual de rico senhor por tetos e átrios
  457. Fusca andorinha adeja, cata e indaga
  458. Para os gárrulos ninhos o cibato,
  459. E ora por vácuos pórticos, chilreira,
  460. Ora por tanques úmidos revoa;
  461. Tal a trote Juturna, entre inimigos
  462. Percorre tudo no ligeiro carro,
  463. Do irmão fazendo alardo: à luta o esquiva,
  464. Por desvios o aparta. Enéias óbvio
  465. Lesto os rodeios corta, e à pista a vozes
  466. De hostes esparsas pelo meio o chama:
  467. Sempre que a Turno olhos desfere e emula
  468. O curso dos alípedes cavalos,
  469. Juturna o evade retorcendo o coche.
  470. Ah! que obrará? flutua em vários estos,
  471. E diferentes cuidos o arrebatam.
  472. Leve armado, Messapo dois virotes
  473. Na sestra acaso tinha; um vibra e acerta:
  474. Pára, escuda-se o Teucro, e a perna encurva;
  475. Mas levou-lhe o farpão cimeira e plumas.
  476. Surgem-lhe as iras; da traição coacto,
  477. Mal sentiu que os frisões e o coche o evitam,
  478. A Jove atesta e as aras violentadas,
  479. Acerbo invade com propício marte,
  480. E, sem descrime na fatal matança,
  481. As rédeas solta à cólera terrível.
  482. Qual deus, quem há, que em verso me declare
  483. Que estragos na campina e mortos cabos
  484. Derramou Turno agora, agora Enéias?
  485. E permitis, ó céus, que entre si lutem
  486. Povos que têm de unir-se em laço eterno?
  487. Ao Rútulo Sacron não tardo o Anquíseo
  488. (Pugna que em seu furor deteve os Teucros)
  489. De lado, onde é mais pronta a morte, o ferro
  490. Mete, e a caixa do peito e as costas vara.
  491. A Diores e Amico irmãos desmonta
  492. A pé Turno, um de espada aguda vindo,
  493. Um de hasta longa; e de ambos as cabeças
  494. Talha, e sangue estilando ao coche as prende.
  495. O Dardânio a Talon, Cetego, Tánais,
  496. Que investem juntos, mata, e o pobre Onites,
  497. Nome equiônio, de Perídia nado:
  498. Turno, uns irmãos da Lícia, a Febo cara,
  499. E a Menetes Arcádio, à guerra avesso;
  500. Moço em Lerna piscosa afeito às redes,
  501. Sem dos grandes saber do pai na choça,
  502. Que de renda um campinho semeava.
  503. Como dá solto o incêndio em seca mata
  504. E crepitantes louros; como espúmeos
  505. Estrepitosos rios despenhados
  506. Com vastadora queda ao mar caminham:
  507. Tais os dois campeões rútulo e teucro
  508. Se precipitam; já flutua interna
  509. Raiva; já corações que o não cuidavam
  510. Rasgam-se; os golpes desmedidos fervem.
  511. Enéias a Murrano, que arrotava
  512. Lácios avoengos de real prosápia,
  513. Com seixo enorme em turbilhão derriba:
  514. As rodas volvem-no entre o jugo e os loros,
  515. E ingratos brutos com patada crebra
  516. Conculcam seu senhor. De Hilo, que imano
  517. Fremente ameaça, às têmporas douradas
  518. Contorce Turno um dardo, que pelo elmo
  519. No cérebro se encaixa. Não o evitas,
  520. Creteu, valente Graio. Nem de Enéias
  521. A Cupenco seus deuses resguardaram:
  522. De encontro o peito ao ferro, ah! nada embarga
  523. O éreo broquel. Também laurentes agros
  524. Viram-te, Eolo, vasto chão cobrindo:
  525. Morres tu, que as falanges não puderam
  526. Grajugenas prostrar, nem do priâmeo
  527. Reino o eversor Aquiles: no Ida excelsas,
  528. Excelsas casas em Lirnesso tinhas;
  529. Tens a meta em Laurento e a sepultura.
  530. Tudo é baralha, os Teucros, os Latinos,
  531. Briga tudo; Mnesteu, Seresto bravo,
  532. E o picador Messapo e o duro Asilas,
  533. Alas de Evandro e batalhões toscanos:
  534. Com sumo esforço cada qual porfia;
  535. Larga, incessante, encrua-se a batalha.
  536. Aqui Vênus formosa inspira ao filho
  537. Que assalte os muros, e a Laurento opressa
  538. Com mortandade súbita consterne.
  539. Ele, que, a Turno investigando, os lumes
  540. Deita em redor, quieta e impune avista
  541. A pérfida muralha; e em marte aceso
  542. Traça plano maior. Mnesteu, Sergesto,
  543. Seresto forte chama; e num outeiro,
  544. Onde reúne os seus de escudo e lança,
  545. Do alto brada: “Obedeçam-me de pronto;
  546. Júpiter é por nós, executai-me
  547. Não frouxos o repente. Hoje a cidade,
  548. Causa do mal, e de Latino os reinos,
  549. Se o freio me refusam não submissos,
  550. Destruo, assolo os tetos fumegantes.
  551. Esperarei que a Turno já vencido
  552. A justa apraza? Da nefanda guerra
  553. Eis, cidadãos, a suma, eis o remate:
  554. Sus, reclame-se o pacto a ferro e fogo.”
  555. Disse; e, formando em cúneo a densa mole,
  556. Ataca os muros. A escalada, o incêndio
  557. Cresce: uns às portas, retalhando os guardas,
  558. A discorrer; o alfanje a esgrimir outros;
  559. O ar de tiros se obumbra. Entre os primeiros
  560. No muro Enéias mesmo a destra ferra;
  561. Grita e acusa a Latino; os céus atesta
  562. Que à batalha é forçado, que hostilmente
  563. Os de Itália o agrediram duas vezes,
  564. Duas também às convenções faltaram.
  565. Dentro lavra a discórdia: esparvoridos
  566. Uns abrir ao Troiano as portas querem,
  567. E ao muro o mesmo rei consigo arrastam;
  568. Armam-se outros e insistem na defensa.
  569. Tal, se na cresta o latebroso pomes
  570. O rústico enche de vapor amargo,
  571. Trépido errando o enxame em céreos valos
  572. Zumbe, a cólera aguça: olor nos tetos
  573. Forte rescende, um murmurinho cego
  574. No ouco soa, e no ar se engloba o fumo.
  575. Mais quebranta os Latinos um desastre,
  576. Que a cidade revolve e um luto abala:
  577. Vendo a rainha do inimigo a entrada,
  578. Pelas casas o incêndio, e que nem Turno
  579. Comparece nem rútula falange,
  580. Morto o mancebo no conflito julga,
  581. E em túrbida agonia a triste clama
  582. Que de mal tanto e crime é fonte e causa;
  583. Vocifera sem tento, e furibunda
  584. Rasga o manto purpúreo, e atando um laço,
  585. De alta viga pendeu com morte informe.
  586. Corre a fatal notícia; as róseas faces
  587. A filha dilacera e as flavas tranças;
  588. Mestas em torno as damas esbravejam;
  589. O pranto a régia estruge. Divulgada
  590. A cruel fama, os corações prosterna:
  591. A cidade em ruína, a esposa extinta,
  592. Latino atônito espedaça as vestes,
  593. E as cãs em pó denigre enxovalhadas;
  594. Muito se acusa de não ter a Enéias
  595. De grado recebido e aceito genro.
  596. Remoto o belaz Turno, menos lesto,
  597. Já dos frouxos cavalos descontente,
  598. Persegue uns trasmalhados: eis que as auras
  599. Trazem-lhe terror cego e vozeria
  600. E os ouvidos atentos lá percebem
  601. Murmuro desalegre e som confuso:
  602. “Ai! que rumor tamanho, luto quanto
  603. Rui dos opostos perturbados muros?”
  604. Disse, e as bridas retém, sem tino estaca.
  605. Mas a irmã, que em Metisco disfarçada
  606. Regia o coche, lhe tornou: “Sigamos
  607. A via, Turno, que a vitória indica;
  608. Braços há na cidade que a defendam.
  609. Se ataca Enéias e atropela os nossos,
  610. Com fero estrago os seus também rendamos:
  611. Não te irás inferior na glória e feitos.”
  612. Turno: “Irmã, respondeu, muito há conheço;
  613. És tu que arteira, desmanchando o ajuste,
  614. Na ação te ingeres: não me enganas, deusa.
  615. Quem te enviou do Olimpo a tantas lidas?
  616. Vens do irmão assistir ao cru trespasso?
  617. Que resta? que inda espero da fortuna?
  618. Ante os meus olhos, só por mim chamando,
  619. Murrano acaba, o meu melhor amigo,
  620. De atroz ferida; o caro Ufente expira,
  621. Por não testemunhar a afronta nossa:
  622. Possui-lhe o corpo e as armas o inimigo.
  623. Sofrerei, duro transe! os tetos rasos,
  624. Sem que a Drances refute a destra minha?
  625. Ver-me o Lácio dar costas! fugir Turno!
  626. Pois morrer tanto custa? Vós, ó manes,
  627. Já que os céus me aborrecem, protegei-me:
  628. Alma insonte e sem mancha, à Estige baixo,
  629. Dos meus grandes avós não terei pejo.”
  630. Nisto, Saces no espúmeo alado bruto
  631. Entre as filas hostis, frechada a cara
  632. Mostrando, implora a Turno: “És nosso amparo,
  633. Turno; dos teus há dó. Fulgúreo Enéias
  634. De exício ameaça as fortalezas nossas;
  635. Já voam fachos. Em ti só fitamos
  636. Os olhos, Turno, em ti: na escolha mesmo
  637. De genro ou de aliança el-rei tituba;
  638. E a rainha fiel, desesperada,
  639. Suicidou-se a final. Messapo e Atinas
  640. Sustentam sós às portas o conflito;
  641. Férrea hirta messe, densa turba os cerca:
  642. Tu no deserto prado o coche rodas!”
  643. Turno, ao se afigurar tão vários casos,
  644. Tácito e quedo embaça; luto, insânia,
  645. Vergonha, amor, estuam-lhe no peito,
  646. Fúrias e o cônscio brio. Assim que as trevas
  647. Dissipa e a mente acalma, conturbado
  648. A vista em brasa revirando aos muros,
  649. Do seu carro contempla a grã cidade.
  650. Eis que um vórtice flâmeo, ao céu montando,
  651. Ondeia entre os soalhos de uma torre,
  652. Que ele erguera de traves bem compactas
  653. Com rodas e altas pontes. “Não me estorves;
  654. O fado vence, irmã: já já corramos
  655. Onde ele e um deus nos chama. Com Enéias
  656. Braço a braço, a tragar a morte acerba
  657. Disposto, irmã, não me verás sem honra:
  658. Ah! deixa-me antes em furor cevar-me.”
  659. Disse, e do carro apeia: entre armas e hostes,
  660. Largando a irmã chorosa, pelo meio
  661. Dos Teucros rompe com veloz carreira.
  662. Qual, se por furacão do monte a penha
  663. Rola avulsa, ou das chuvas aluída,
  664. Ou por vetustos anos solapada,
  665. De princípio em princípio aos tombos,
  666. Selvas no ímpeto arrasta, armentos, homens;
  667. Tal, com vasta ruína, aos muros Turno
  668. Se despenha, onde o sangue alaga a terra
  669. E de espessos farpões os ares zunem.
  670. Acena e grita: “Ao ferro dai, Latinos,
  671. Tréguas, e ao dardo ó Rútulos: a sorte
  672. Qualquer que for, é justo que o tratado
  673. Eu por vós desempenhe e só peleje.”
  674. Todos se arredam, largo espaço abrindo.
  675. Seu nome ouvido, acelerado Enéias
  676. As fortalezas desampara; as obras
  677. Interrompe de chofre, alegre exulta,
  678. E horrendo em armas toa: o Atos, o Erix,
  679. Mesmo o Apenino padre, assim bramindo
  680. Folga, e azinhos balança coruscantes,
  681. E alteia às auras o nivoso cume.
  682. Frígios, Latinos, quantos as muralhas
  683. Frangiam com vaivéns ou propugnavam,
  684. Os olhos convergindo, o arnês dos ombros
  685. Lassos depõem. Do encontro o rei pasmava
  686. De heróis que, nados em distantes plagas,
  687. Entre si valorosos combatiam.
  688. Vazio o campo, à desfilada, lanças
  689. De longe eles vibrando, o marte encetam,
  690. E éreos broquéis ressoam, geme a terra:
  691. Crebros talhos de espadas já redobram;
  692. Ardil, valor, fortuna, se confundem.
  693. Se no celso Taburno ou Cila imensa
  694. Dois touros fronte a fronte hostis concorrem,
  695. Os maiorais se assustam; mudo o gado,
  696. Surdo as novilhas tugem, sem que atinem
  697. Qual, dono da manada, ao bosque sigam;
  698. Lutam renhidos enganchando os cornos,
  699. Mesclam-se os golpes; muito sangue inunda
  700. Colos e espáduas; brama a selva e muge:
  701. Dos heróis Teucro e Dáunio assim retinem
  702. Broquéis e cotas, e o fragor ribomba.
  703. Ouro e fio a balança, os fados de ambos
  704. Jove nas conchas libra, examinando
  705. Quem na lide sucumba e vergue ao peso.
  706. Turno então, ferir crendo impune, esgrime,
  707. Com todo o corpo sobre o gládio cresce;
  708. De susto um e outro campo exclama atento:
  709. Mas a pérfida folha estala e falha;
  710. E ao ver, sem mais recurso o moço ardente,
  711. Ignota empunhadura e a destra inerme,
  712. Como Euro foge. É voz que, ao primo assalto
  713. Montando o coche, em vez do pátrio ferro,
  714. Do auriga arrebatou sem tino a espada:
  715. Ela bastara a dispersar os Teucros;
  716. Mas, à prova das armas de Vulcano,
  717. Se desfez como gelo o mortal gume,
  718. E em pedaços brilhou na fulva areia.
  719. Turno deita veloz pela campina,
  720. E mentecapto aqui e ali volteia:
  721. Lá fecham-no em coroa os Frígios densos,
  722. Árduos muros além, cá vasto lago.
  723. Acre Enéias o acossa, e bem que às vezes
  724. Lhe impeça e agrave os joelhos a frechada,
  725. Urge ao medroso o pé com pé fervente:
  726. Qual, se em rio o sabujo encontra o cervo
  727. Incluso, ou do espantalho de punícea
  728. Pena acuado, late e o corre e caça;
  729. Da ribanceira e insídia espavorido,
  730. Safa-se ele, anda e vira; o vívido umbro
  731. Hiante o alcança, quase quase o aferra,
  732. E, como se o pegara, os queixos range,
  733. E a vã dentada o ilude; a grita e os ladros
  734. Retumbam na lagoa e em torno às ribas,
  735. Toa ao tumulto o céu. Na fuga Turno
  736. Exprobra e os seus nomeia, exige e pede
  737. A nota lâmina. O rival comina
  738. Morte, se alguém lhe acode, o estrago e exício
  739. Da cidade, e ferido insta, amedronta.
  740. Cinco vezes girando e regirando,
  741. Leves prêmios de jogos não pleiteiam;
  742. Da vida e sangue trata-se de Turno.
  743. Sacro a Fauno, um zambujo havia acaso
  744. De amara folha, aos nautas venerável;
  745. Onde o náufrago os dons pregar soía
  746. Ao deus, e as vestes suspender votivas:
  747. Por que em plano combatam, sem descrime
  748. A árvore santa os Frígios extirparam.
  749. A hasta Enéias impele, que às raízes
  750. Se lhe apega tenaz: quis arrancá-la,
  751. Com sumo afinco e despedi-la a Turno,
  752. A quem chegar a curso não podia.
  753. Este louco de medo: “Há mágoa, ó Fauno;
  754. Retém a lança, eu te oro, amiga Telus:
  755. Sempre honrei vosso culto, e a guerra enéia
  756. Profanado vos tem.” Não foi baldia
  757. Sua oração; que sobre o tronco o Frígio
  758. Curvo labuta, e não lhe vale o esforço
  759. Do lenho a desfechar o morso rijo.
  760. Enquanto mais se estriba e insiste, a diva
  761. Dáunia, em forma do auriga, o irmão socorre,
  762. Dá-lhe a espada. A ousadia irrita a Vênus,
  763. Que baixa e da raiz despega a lança.
  764. Refeitos de armas, de ânimo sublimes,
  765. Este afoito no gládio, aquele n’hasta,
  766. Do anelo Marte no lidar prosseguem.
  767. Entanto o rei supremo a Juno fala,
  768. Que de uma nuvem roxa observa a pugna:
  769. “Que resta, esposa, e traças? Tu confessas,
  770. Deve indígite Enéias, manda o fado,
  771. Sede no Olimpo ter, subir aos astros.
  772. Que urdes? que esperas em geladas nuvens?
  773. A um deus violar convém com mortal golpe?
  774. Render a Turno a espada (o que ousaria
  775. Sem ti Juturna?) e acorçoar vencidos!
  776. Basta, cede ao meu rogo: não te roa
  777. Tácito enfado; a revelar-me o peito
  778. A tua doce boca se acostume.
  779. Veio o termo: agitaste o mar e a terra,
  780. A discórdia incendeste, em luto infando
  781. Envolta a régia, as núpcias perturbaste:
  782. Não mais, agora o vedo.” Cessa o padre;
  783. E submissa contesta a irmã Satúrnia:
  784. “Teu querer conhecendo, eu constrangida
  785. Abandonei, senhor, a Turno e o mundo;
  786. Senão, curtindo ultrajes, não me viras
  787. Neste ar sozinha, mas na ação, de flamas
  788. Cingida, em prélios consumindo os Frígios.
  789. Sim, a ajudar o irmão suadi Juturna;
  790. Louvei que por salvá-lo ousasse tudo,
  791. Mas não que de arco e setas contendesse:
  792. Da implacável Estige à fonte apelo,
  793. Jura tremenda aos superiores numes.
  794. Desisto alfim; batalhas já me enojam.
  795. Favor obsecro não sujeito aos fados,
  796. Pede-o Itália e dos teus a majestade:
  797. Casamentos embora a paz componham,
  798. E leis o pacto asselem; não permitas
  799. Que os Latinos indígenas, perdido
  800. O antigo nome, Teucros se apelidem,
  801. Nem mudem língua e trajo. Eterno viva
  802. O Lácio, os reis Albanos; herde Roma
  803. O itálico valor, propague e brilhe:
  804. Tróia acabou, também seu nome acabe.”
  805. Sorrindo o árbitro sumo: “Irmã, lhe torna,
  806. Segunda prole de Saturno, de iras
  807. Estos volves no peito? O rancor cego,
  808. Eia, amaina: de grado e às preces tuas
  809. Tudo concedo. Fala e usanças pátrias
  810. A Ausônia guarde, o nome seu conserve:
  811. Consorciados fiquem-se os Troianos;
  812. Farei que, em rito iguais e em sacrifícios,
  813. Formando um povo, a mesma língua tenham.
  814. Virão do misto sangue ausônio e teucro
  815. Homens pios que aos deuses se avantagem;
  816. Nem haverá nação que te honre tanto.”
  817. Juno eis anui alegre, a mente aplaca;
  818. Do éter já se retira e a nuvem deixa.
  819. Outra coisa então Jove em si versando,
  820. Resolve separar do irmão Juturna.
  821. Há duas pestes, por cognome Diras,
  822. De um parto vindas com Megera estígia
  823. Da escura Noite, que as liou de serpes
  824. E asas lhes deu ventosas. Ante o sólio
  825. De Jove sevo e ao limiar assistem,
  826. E o medo afilam dos mortais, se alquando
  827. Morbos ele prepara e o trago horrendo,
  828. Ou pune as gentes com terrível guerra.
  829. Júpiter uma lá de cima expede,
  830. Que ominosa a Juturna se ofereça.
  831. Ela, num turbilhão, qual frecha voa,
  832. Que dispara o cidônio ou parto nervo;
  833. Arma incurável que no fel untada
  834. E cru veneno, alígera estrugindo,
  835. Impróvisa atravessa as leves sombras.
  836. Desce a filha da Noite; e, mal que enxerga
  837. Os exércitos ambos, no pequeno
  838. Pássaro contraiu-se que a desoras,
  839. Pousando em cemitérios e ermas grimpas,
  840. Cruja importuno e lúgubre nas trevas:
  841. De Turno em cerco a peste assim revoa,
  842. Guincha aleando, e lhe verbera o escudo.
  843. Torpor novo o arrepia, hirto o cabelo,
  844. Tronca a voz na garganta. A irmã, que ao longe
  845. Distingue a Dira e as estridentes penas,
  846. As madeixas lacera, de unhas rasga
  847. E afeia o rosto, e o seio com punhadas:
  848. “Como há de agora, Turno, a irmã valer-te?
  849. Ai! que me resta que te alongue a vida?
  850. Posso a tal monstro opor-me? Eu deixo o campo
  851. Já já. Não me aterreis, obscenas aves;
  852. O som letal e esse adejar conheço;
  853. Não me enganam de Jove as duras ordens.
  854. Paga-me generoso a virgindade!
  855. Fez-me eterna? ó pesar! se eu mortal fosse,
  856. Os desgostos findava, e aos tristes manes
  857. Iria acompanhar o irmão querido.
  858. Nada jamais sem ti me será doce,
  859. Nada, meu Turno. Um boqueirão me engula,
  860. E em seu profundo centro abisme a deusa.”
  861. Cobre a cabeça então com verde manto,
  862. E gemebunda se sumiu no pego.
  863. O troço arbóreo coruscando Enéias,
  864. Insta com feroz peito: “Que demoras,
  865. Turno? arrependes? não correr, mas cumpre
  866. Lutar com sevas armas. Várias formas
  867. Toma, usa embora todo o esforço e manha;
  868. Sobe de surto aos astros, ou te ocultes
  869. Nas terreais entranhas.” Abanando
  870. Ele a fronte: “Esses feros não me assustam;
  871. Júpiter sim e os inimigos deuses.”
  872. Nem mais, e encara antiga pedra enorme,
  873. Agrário marco, estorvo de litígios;
  874. Pedra, carga bastante aos mais robustos
  875. Doze homens dos que a nossa idade cria:
  876. Com tremor agarrando-a, herói se empina
  877. E na corrida a impele; mas ignora
  878. Se anda ou corre, se pega o ingente marco,
  879. Se o move e arroja: faltam-lhe os joelhos,
  880. Coalha o sangue. No vácuo roda a pedra,
  881. E, sem que o termo alcance, o impulso esfria.
  882. Como em sonhos, se lânguida modorra
  883. Nos preme os olhos, ávida carreira
  884. Tentando em vão, no meio esmorecidos
  885. Sucumbimos; a língua e a voz nos falha,
  886. Falham no corpo as forças: tal, por onde
  887. Seu valor Turno ensaia, o impede a Fúria.
  888. Cem cuidos versa: os Rútulos contempla,
  889. Olha a cidade; enfia, e da iminente
  890. Lança estremece, de evadir-se o meio
  891. Nem contra o seu rival já vê recurso,
  892. Nem mais a auriga irmã, nem mais seu carro.
  893. Enquanto hesita, o lanço Enéias mede,
  894. A hasta vibra fatal, forceja e solta:
  895. Nunca assim fremem do mural trabuco
  896. Jogadas rochas, nem. trovão rebrama:
  897. Qual furacão letífera voando,
  898. Da cota as orlas e os extremos orbes
  899. Do septêmplice escudo a estrugir fura,
  900. E a coxa lhe traspassa. Ao bote o moço,
  901. Inflexa a curva, tomba; os seus alteiam
  902. Mesto clamor; remuge inteiro o monte,
  903. E na selva o lamento amplo reboa.
  904. Turno olha humilde, súplice ergue a destra:
  905. “Bem mereço, é teu jus, perdão não peço;
  906. Mas, se de um pai (de Anquises te relembres)
  907. Comove-te a velhice, a Dauno eu rogo
  908. Me entregues, se não vivo, ao menos morto.
  909. Venceste, e viu-me enfim a Itália toda
  910. As palmas levantar: Lavínia é tua;
  911. Os ódios não requintes.” O acre Enéias
  912. Pára, os olhos volteia, a mão reprime:
  913. Iam-no as preces quase enternecendo,
  914. Quando o infeliz talim se mostra ao ombro
  915. E a cravação do cingidouro fulge,
  916. Despojos de Palante, a quem menino
  917. Prostrara Turno com letal fereza,
  918. E essa divisa infesta em si trazia.
  919. Da cruel dor no monumento os olhos
  920. Mal embebe, enfuriado o herói vozeia:
  921. “Que! tu me escaparás dos meus com presa!...
  922. Nesta ferida imola-te Palante,
  923. Palante vinga-se em teu ímpio sangue.”
  924. No peito aqui lhe esconde o iroso ferro:
  925. Gelo os órgãos lhe solve, e num gemido
  926. A alma indignada se afundou nas sombras.

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Comentário
Aqui é onde mais se usa do maravilhoso. Censura-se o quase descanso dos deuses: Júpiter já não abala o Olimpo; Juno já não suscita as borrascas, nem invoca as divindades infernais. Mas, conforme Delille, é isto antes motivo de louvor que de vitupério: o que há de mais potente se eclipsa ante a glória do chefe troiano; e a situação dos dois povos, o furor de Turno, a coragem do rival, oferecem majestade mais grave do que as máquinas épicas empregadas na ocasião. Nada realça tanto o brilho de Enéias, como o representá-lo apoderando-se das vontades celestes, e forçando a própria Juno a recorrer a um ardil, não para expulsar da Itália os Troianos, mas para salvar o seu protegido. “A surpresa e admiração, diz Segrais, são freqüentes. A fortuna, sempre volúvel, não cessa de entreter a esperança e o temor. Fez-se a paz; é rota por um agouro; peleja-se, vencem os Troianos; é ferido Enéias, são repelidos os seus até aos arraiais; Vênus cura ao filho milagrosamente; o herói levanta a coragem dos guerreiros; não podendo obrigar ao duelo, vai assaltar a cidade; enfim Turno é constrangido a vir às mãos. Cheia de incidentes a luta, imprevisto sempre o desfecho, de contínuo cremos lá chegar, e novas circunstâncias tendem a retardá-lo.”
Comentário
O desfecho por um duelo é como o da Ilíada; mas Virgílio, vendo que a ação em Homero tinha enfraquecido com a continuação do poema por causa dos funerais de Heitor, e vendo ao mesmo tempo que a pintura dos funerais em si mesma era do mais belo efeito; imitando se houve com um tal gosto que equivale ao menos à invenção: descreveu atrás os funerais de Palante com toques só próprios do seu pincel; e acaba a Eneida pelo duelo, nada acrescentando ao dramático deste remate. “A Eneida, conclui Mr. Amar, é sem réplica uma admirável obra de poesia, e uma das mais belas de Homero, segundo se tem dito; mas, como epopéia, deixa infinitamente que desejar, quanto ao plano, à disposição, e sobretudo ao caráter principal..... Um sábio moderno, L. A. Bartenstein, professor em Cobourg, vai mais longe: foram, no seu conceito, os louvores prodigalizados a Augusto e a seu governo que determinaram Virgílio moribundo a pedir que queimassem a Eneida; o que explicaria o afogo do príncipe em a conservar.” Eu aqui não creio em Mr. Amar, nem em Bartenstein. Não sei como o primeiro acha infinitamente que desejar na Eneida: o que é infinitamente defeituoso não pode ser uma das melhores obras de Homero: é rebaixar em demasia o poeta grego, ou desconhecer a força dos vocábulos. A hipótese de Bartenstein é mais uma das inumeráveis que não têm sólida base: Virgílio queria queimar a sua obra só pela razão que os séculos têm aceitado, pela imperfeição do estilo mormente dos últimos seis livros. Bartenstein, como é mania de não poucos dos seus, gostava de ser o padre Hardouin, de aventurar conjecturas; e esta sua é derribada pelo poeta, que, no mesmo testamento onde mandava queimar a Eneida, levou a Augusto a quarta de seus bens. — Em vez de ser infinitamente defeituoso o caráter de Enéias, admira como pôde Virgílio com tão feliz êxito combinar tantas qualidades e virtudes, sem contradição nem disparate nas ações, descontado o sacrifício de homens no túmulo de Palante, que na superstição daqueles tempos bárbaros tem a sua descarga. O herói de Virgílio é um de Homero, afeiçoado e moldado na conformidade das idéias progressivas do gênero humano.

Nota a nota · 2 notas

v. 383–440N’hasta a bramir Enéias se estribava, ⋯ E em cúneo as cerra e densa. Ao grave Osiris
É ferido o herói por mão desconhecida, e deixa ver o poeta que foi pela deusa Juturna: nenhum mortal pôde jactar-se de o haver feito. Cura-o Iapis, em quem Virgílio, por gratidão, representa Antônio Musa, seu médico e de Horácio e de Augusto; mas o médico tudo conseguiu com o socorro de Vênus. É nobilíssima a impaciência do herói, que pede lhe arranquem o ferro, usem do meio mais pronto para tornar ao combate; e mal se opera a cura, ainda coxeando da frechada, veste as armas, abraça e beija o filho, dizendo o que se lê na tradução, do verso 417-423. Aqui há uma imitação de Homero, mas com a diferença requerida pelas circunstâncias. Mr. Nisard acha Homero muito superior: eu acho que ambos são ótimos, bem que diversos os quadros. Heitor beija a Astianaz, que se espanta da hórrida crista do capacete; aos deuses o consagra, e lhes pede que um dia aquele filho exceda a bravura paterna, e contando morto o seu inimigo, venha a ser o júbilo de sua mãe: é bela e sublime a despedida, e nunca foi o grande poeta assim patético, a não ser nas cenas passadas entre Aquiles e Príamo depois da morte de Heitor. Enéias, que falava a um adolescente e não a uma criança, não podia servir-se de iguais imagens; mas da coragem com que sofreu as dores da operação, tira exemplo com que anime a Ascânio, a fim que se recorde sempre que o teve por pai e a Heitor por tio. Cada um dos dois gênios igualmente soube aproveitar a situação. É por certo mais patético o lugar de Homero, porque o assunto o ajudava; não foi porém mais hábil que o seu discípulo e êmulo.
↩ voltar à passagem, v. 383
v. 681E alteia às auras o nivoso cume.
Enéias busca a Turno pelo campo, sem querer ferir os que lhe fogem, nem os que o arrostam; só quer o duelo: vendo contudo que Turno o evita, e que já um farpão de Messapo lhe tinha levado a cimeira e as plumas, se resolve a pelejar. O poeta retardou com arte o duelo, para que os rivais ainda assinalassem o seu indomado valor. Enéias, por inspiração de Vênus, traça plano maior, ataca os muros de Laurento, depois de protestos solenes. A rainha, ao ver a entrada do inimigo, dando a Turno por morto no conflito, suicida-se; o que mal sabe Turno, apesar das preces da irmã, corre a travar-se com Enéias. — O que se segue é admirável; mas só direi dos versos 760 e 761, na tradução 737 e 738. Tem Mr. Amar que Segrais se acha embaraçado para justificar a Enéias de cobardia, por não ter consentido que substituíssem a Turno a espada que se lhe quebrara. Ainda que não aprovo que se colocasse o herói na precisão de ser justificado, a pecha de cobardia não lhe cabe jamais; pois, não obstante haver Juturna trazido outra espada ao irmão, este não deixou de ser vencido e morto. Enéias tinha visto os pactos rotos já duas vezes, pelos capitães de mais nomeada que restavam a Turno, Tolumnio e Messapo; temeu que, a título de trazerem a nova espada, se introduzissem na liça dois ou mais campeões, que unidos a Turno, por si tão formidável, o atacassem conjuntamente, a ele que não estava de todo são, nem com as suas forças e costumada ligeireza: sendo então o partido mui desigual, a perfídia podia fazê-lo sucumbir; e o chefe dos Troianos, cujo fim não era mostrar valentia, mas estabelecer os seus compatriotas, tinha a obrigação de prevenir os perigos.
↩ voltar ao verso 681
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