Turno, lendo nos olhos dos Latinos
926 versos · 4 notas do tradutor
- Turno, lendo nos olhos dos Latinos,
- Lassos do adverso marte e esmorecidos,
- Que exigem-lhe a promessa, ignito e fero,
- Mais se exaspera e mais. Qual, de afras brenhas
- Ferido o leão no peito, encrespa as garras,
- Do colo folga a sacudir a juba,
- Do caçador estala o fixo dardo,
- Ruge-lhe impávido a cruenta boca;
- Tal cresce a fúria do abrasado moço,
- Que embravecido ao rei dest’arte fala:
- “Turno é prestes; não há por que o recuse,
- Nem retrate a palavra o Troa ignavo.
- Já marcho: imola, ó padre, o ajuste assela.
- Ou d’Ásia o desertor eu só na Estige
- Despenho (assista o exército em repouso)
- E a querela comum vinga este braço;
- Ou vencido me entrego, e mais Lavínia.”
- Tranqüilo então Latino: “Ó bravo jovem,
- Quanto em brio te excelsas, mais me cumpre
- Temer por ti, pesar-te os casos todos.
- Muito hás valente a herança acrescentado;
- Nem ouro falta e ânimo a Latino:
- Possui Laurento e o Lácio outras donzelas
- Não somenos. Verdades sem rebuço
- Desabridas me escuta, e não te enojes.
- A filha (homens e deuses mo cantavam)
- A nenhum proco antigo unir cabia:
- Mas por nossa amizade e parentesco,
- Pelo choro da esposa o nó desfeito,
- Ao genro a fé quebrei com ímpias armas.
- D’então vês quantos males hei sofrido;
- Que transes tu mormente. Já perdidas
- Ações duas, de Itália nestes muros
- Jaz a esperança; o campo alveja de ossos,
- Mana do sangue nosso o Tibre quente.
- Que indecisão! que insânia me transtorna!
- Se, Turno extinto, associá-los devo,
- Por que, ele salvo, a guerra não termino?
- Os consangüíneos Rútulos, a Itália
- Que não dirá, se à morte (longe o agouro!),
- Quando a filha me pedes, eu te exponho?
- O lance é dúbio; o velho pai condoas,
- Que em Ardea lá te aguarda e lá te chora.”
- Turno impaciente não se dobra: o achaque
- Mais se agrava ao remédio. Apenas pôde:
- “Por quem és, brada, ó pai, de mim não cures;
- Deixa-me a escolha de acabar com honra.
- Eu também sei jogar a espada e a lança,
- E aos golpes deste pulso escorre o sangue.
- Não tem cá deusa mãe que em névoa o encubra
- Femínea, ou sombras vãs em que se esconda.”
- Treme a rainha à condição da justa,
- Retém desfalecida o ardente genro:
- “Turno, por este pranto, se hás de Amata
- O pundonor a peito (pois coluna
- Me és na velhice, e de Latino o império
- E inclinada esta casa em ti se esteia),
- Desse duelo desiste: eis quanto peço.
- Dele, Turno, o teu fado e o meu depende;
- A luz odiosa deporei contigo,
- Nem genro o salteador verei cativa.”
- À voz materna, em lágrimas Lavínia
- Incende as faces, de rubor corando;
- Fogo instantâneo o vulto lhe escandece:
- Tal fica o índio marfim na grã sangüínea,
- Ou purpureia a rosa entre alvos lírios.
- Pregando olhos de amor na casta virgem,
- Turno em marte flameja: “Ó mãe, em suma,
- Com tal choro e presságio não me aflijas,
- Quando ao cru prélio desço: Turno alçada
- Não tem na morte. Núncio, Idmon, não grato
- Leva ao tirano frígio esta messagem:
- Da Aurora crástina em puníceo coche
- Ao roxear, os batalhões não mova;
- Armas descanse o Rútulo e o Troiano;
- Decida o sangue nosso; em liça aberta
- Disputemos Lavínia; e cesse a guerra.”
- Disse, e parte; os frisões demanda, e os mira
- Dos relinchos alegre: de Orítia
- Prenda honrosa a Pilumno, sobrepujam
- No curso os ventos, no candor a neve;
- De aurigas a mão cova os peitos logo
- Fagueira trata, as crinas lhes penteiam.
- De alvo oricalco e ouro a crespa cota
- Ele aos ombros circunda, a espada ajeita,
- O elmo rubri-cornuto, a enorme adarga:
- Fez-lhe a espada ao pai Dauno o rei do fogo,
- E a temperou candente n’água estígia.
- Do Aurunco Actor espólio, hasta robusta
- Pega, ao maior pilar do meio fixa.
- E a brande a blasonar: “Ó tu, que nunca
- Falhaste, lança, é tempo: Actor pojante
- Manejou-te, ora Turno; dá que eu prostre
- Válido, e arranque ao semiviro Frígio
- E lhe espedace a malha, em pó lhe suje
- O frisado cabelo ungido em mirra.”
- Furente e em sanha, o vulto lhe cintila,
- Em brasa ardem-lhe os olhos: como o touro,
- Que a luta ensaia horrífico mugindo,
- Tentando irar-se, aos troncos remetendo,
- A cornadas os ventos desafia,
- A areia escarva, e à briga se aparelha.
- Não menos fero nas maternas armas,
- Enéias embravece e o marte afila,
- Folga do ajuste que dirime a guerra.
- Lembrando o fado, Iulo e os seus consola
- Do susto; ao rei deputa, e lhe assegura
- Que aceita a paz e as condições confirma.
- Assim que doura o Sol os altos cumes,
- Quando, ao surgir do pélago, os Etontes
- Luz de amplas ventas sopram; campo à justa
- Medindo aprestam Rútulos e Teucros
- Sob a grande muralha, e em meios focos
- E aras gramíneas às comuns deidades;
- Parte, água e lume trazem, de verbena
- E véus de linho as fontes coroando.
- Pilos na destra, a legião d’Ausônia
- Rui de atulhadas portas; frígia e tusca
- D’além instrutas variamente as hostes:
- Como se Marte os chame a duro prélio.
- Mnesteu ramo de Assáraco, fulgindo
- Em ostro e ouro, entre milhares corre,
- E o Neptúnio Messapo e o forte Asilas.
- Ao sinal, tomam posto, as hastas plantam,
- Encostam seus broquéis. O inerme vulgo,
- Ávidas mães, enfraquecidos velhos,
- Por cumieiras derramam-se e por torres,
- De janelas e eirados se debruçam.
- Do monte, agora Albano, já sem nome,
- Lustre nem glória, atenta Juno a liça
- E os exércitos ambos e Laurento.
- Eis fala a deusa à diva irmã de Turno,
- A qual, em paga do pudor virgíneo
- Que o pai sumo roubou-lhe, os ressonantes
- Rios preside e lagos: “Sabes, ninfa,
- Das ribeiras adorno, entre as Latinas
- Que entraram do meu Jove o leito ingrato,
- Só me és cara, e no Olimpo coloquei-te.
- Teu mal, Juturna, aprende, e não mo imputes:
- O Lácio, enquanto aprouve à sorte e às Parcas,
- Hei protegido e a Turno; mas conheço
- Que o moço lida com funesto auspício,
- E que o termo fatal se lhe aproxima.
- A briga, o ajuste os olhos meus não sofrem.
- Se algo ousas pelo irmão, convém que o faças:
- Talvez melhore o fado.” Aqui Juturna
- Se lava em pranto, e vezes três e quatro
- A punhadas maltrata o seio lindo.
- “Não é tempo de lágrimas, diz Juno;
- Eia, o irmão de algum modo esquiva à morte,
- Ou desmancha tal pacto e a guerra incita:
- Esta empresa, eu t’a ordeno.” E a ninfa deixa,
- A quem tituba o coração dorido.
- Com toda a pompa entanto os reis saíram:
- Em quadriga Latino, em cuja fronte
- Brilha em dourado sol de raios doze,
- Do avô debuxo; em alva biga Turno,
- Que dois hastis sopesa de ancho ferro.
- Dos Romúleos o pai do arraial marcha,
- Fulgurando no escudo e arnês sidéreo,
- E Ascânio ao pé, de Roma outra esperança;
- Em veste pura, de uma cerda o feto
- E intonsa o fecial aduz cordeira
- Para as flagrantes aras. Ao nascente
- Eles virados, salso farro espargem,
- Com faca marcam na moleira as hóstias,
- Libam taças no altar. O pio Enéias
- Despindo o alfanje, orou: “Testemunhai-me,
- Sol, terra por quem tanto hei padecido,
- Onipotente soberano padre,
- E tu Satúrnea déia, já mais branda;
- Eu vos depreco; invoco a ti, Mavorte,
- Árbitro das batalhas; fontes, rios;
- E a vós do mar cerúleo e etéreos numes.
- Se acaso triunfar o ausônio Turno,
- Os vencidos, convenho, a Evandro passem,
- Daqui se aparte Iulo; nem com armas
- Contra este reino os meus, revéis conspirem:
- Se a vitória coroa o marte nosso
- (Como antes cuido, e os deuses mo concedam),
- Eu não pretendo o império, e ao Teucro menos
- O ítalo sujeitar: em laço eterno
- Lei justa invictos una os povos ambos.
- No culto intervirei; na guerra o sogro:
- Tenha o solene mando. A nova Tróia
- Funde-se, e o nome seu lhe dê Lavínia.”
- Enéias finda; e começou Latino,
- Seu olhar para cima e a destra alçando:
- “À terra, Enéias, juro, ao pego, aos astros,
- E aos gêmeos de Latona e ao deus bifronte,
- E às potências do abismo e a Dite sevo;
- Juro ao pai que a troar sanciona os pactos,
- D’ara às chamas que toco, aos numes todos,
- Que, suceda o que for, jamais a Itália
- A paz há de romper, nem força alguma
- Dela me desligar; bem que um dilúvio
- Nas ondas solva o mundo, o céu no inferno:
- Como este cetro (e o cetro aqui sacode)
- Nunca enverdecerá com sombra e folhas,
- Pois extirpado, sem ter mãe que o nutra,
- Depôs no bosque a ferro a coma e os galhos;
- Árvore já, que industre mão de engastes
- Éreos ornara aos régios pais latinos.”
- Dest’arte as alianças confirmavam,
- Em presença dos próceres; e as reses
- Degolam para o fogo, e sobre altares
- As entranhas em pratos lhes palpitam.
- Muito há que o duelo desigual parece;
- E de mais perto os Rútulos em susto
- Observam como Turno a passo lento,
- Lívido e mudo o juvenil semblante,
- Submissa a vista, as aras acatava.
- Ao ver a irmã Juturna que o murmúrio
- Cresce, e desvaira o vacilante vulgo;
- Fingindo-se Camerte (por avoengos
- E paterno valor, por si preclaro),
- Semeando rumores corre as filas.
- Destra aos Rútulos clama: “Não vos peja
- Que por tantos se arrisque uma só vida?
- Em número e denodo iguais não somos?
- Ei-los presentes Árcades e Troas,
- Da Etrúria a fatal hoste infensa a Turno:
- Cada qual seu contrário apenas temos.
- Ele que aos divos se ale, aos quais se imole,
- Vivo na voz da fama; e em ócio quedos,
- Nós cá, perdida a pátria, ao jugo estranho
- De soberbos senhores nos rendamos!”
- Isto afogueia os moços; e um sussurro
- Pelas turmas serpeia. Já mudados
- Laurentes e Latinos, que esperavam
- Em seguro, a paz rota e pugnar querem;
- Do infortúnio de Turno se amiseram.
- Mais Juturna os instiga, e um sinal mostra
- Que a propósito os ânimos conturba,
- Do prodígio embaídos: águia fulva
- No rubro éter caçava um sonoroso
- Leve marinho bando; e a vôo às águas
- Presto resvala, e empolga um cisne belo
- Na ávida garra. Os Ítalos se alentam;
- E as aves todas, ó portento! a fuga
- Ruidosas convertendo, em nuvem densa
- Tapando os ares, o inimigo atacam;
- Té que, cedendo à força e à mesma carga,
- Esmorece, e no rio a grave presa
- Das unhas larga, e some-se nas auras.
- Todos, prestes à lide, o auspício aclamam;
- E brada o áugur Tolúmnio: “Isto, isto, ó numes,
- Tanto roguei-vos; o favor aceito.
- Comigo, arma, arma, ó gente amedrontada,
- Quais fracas aves, pelo atroz vindiço
- Que estas praias devasta: ele não tarda
- Velas a dar corrido ao ponto fundo:
- Cerrando as filas, defendei comigo
- O rei vosso e da justa arrebatai-o.”
- Disse, e logo um zarguncho infesto arroja;
- Os ares frecha o estrídulo corniso:
- Soa o alarido; horrífico tumulto
- Os cúneos turba, os corações escalda.
- A hasta, a voar por entre nove esbeltos
- Irmãos, que de fiel tirrena esposa
- Houve o Arcádio Gilipo, alcança um deles,
- De relumbrante arnês gentil mancebo,
- Onde o cosido bálteo o ventre pisa,
- E a mordente fivela une as charneiras;
- Traspassa as costas e na arena o estira.
- Acres, cegos do nojo, os irmãos rompem,
- Remesso ou gládio em punho; os de Laurento
- Contra avançam: de novo inundam Frígios,
- E arreados Arcádios e Agilinos.
- Um só do ferro o amor domina em todos.
- Saqueiam-se aras; tolda os pólos torva
- De rojões tempestade e chuva de aço;
- Copas tiram, tições: Latino foge,
- Da injúria aos deuses, da traição queixoso.
- Qual emparelha o coche, qual de um salto
- Cavalga lesto, qual desnuda a espada.
- Messapo, que anular deseja as pazes,
- Ao Tusco Auletes em reais insígnias
- Remete o bruto: a recuar de espanto,
- Atrás o triste rei de encontro às aras,
- Cai de ombros e cabeça. Eis que Messapo
- Do alto corcel malfere ao suplicante
- Com trabal chuça, e férvido vozeia:
- “Morre, esta é melhor vítima aos supremos.”
- Acode a chusma, e os quentes membros despe.
- Corineu, de um tição do altar pegando,
- A Ebuso, que despede e um golpe acena,
- Chameia o rosto: luz comprida a barba,
- O chamusco a cheirar. De chofre às grenhas
- Deita-lhe a esquerda, mete-lhe o joelho,
- Prostra-o sem tino, corre-lhe a estocada.
- A Also pastor, que em frente arrosta e campa,
- De alfanje nu seguindo Poladírio,
- O assoberba; Also, erguendo a machadinha,
- Lhe escacha a testa e o queixo, as armas rega
- Dos esparsos miolos; férreo sono
- O urge, e os lumes em noite fecha eterna.
- Mas, patente a cabeça, a destra inerme
- Leva, e aos seus brada Enéias: “Suspendei-vos:
- Que furor, que discórdia vos despenha?
- Ferido o ajuste, as condições compostas,
- Devo eu só pelejar, deixai-me; os pactos,
- Não receeis, confirmará meu braço:
- Já destinam-me Turno os sacrifícios.”
- Nisto, seta a zunir no herói se encrava:
- Que mão, que impulso a disparou, se ignora;
- Se aos Rútulos um deus, se o mero acaso
- Tal glória permitiu: supressa a fama,
- Do golpe e arrojo tal ninguém jactou-se.
- Turno, ao partir Enéias, vendo os chefes
- Consternados, fervente e esperançoso
- Pede armas e corcéis, no carro salta,
- Meneia altivo as rédeas. Voa, imola
- Muitos varões de prol, ou semimortos
- Os roda, ou sob o coche esmaga imensos,
- De hastas se apossa que aos fugidos vibra.
- Se o truculento Marte no Ebro frio
- Pulsa o broquel e incita os corredores,
- Eles, bufando pelo plaino livre,
- Zéfiro e Noto excedem; geme inteira
- Ao seu tropel a Trácia; ao nume escoltam
- A Ira, a Traição, do Susto o aspecto baço:
- Tal em suor fumantes os cavalos
- Braceja alegre Turno, e insulta os mortos;
- Sangüíneo orvalho esparge e verte a roda,
- Na lenta areia a unha o cruor calca.
- Mata a Folo e Tamíris à mão tente;
- A Sténelo de longe, e a Glauco e Lades
- Irmãos, que em Lícia Imbraso pai criara,
- E igualmente os armou, que a pé combatam,
- Ou na eqüestre corrida as auras vençam.
- Lá, do antigo Dolon guerreira prole,
- Pompeia Eumedes, imitando em nome
- O avô, no esforço o pai; que ousara, em paga
- De ir espiar o acampamento graio,
- De Aquiles para si pedir o coche:
- Mas de outro modo lho pagou Tidides;
- Ele aos frisões do herói nem mais aspira.
- Turno, avistando na planície o filho,
- Joga-lhe um dardo pelos vácuos ares,
- Pára, da biga pula, e ao semivivo
- Que descai sobrevém, no colo a planta
- Lhe imprime, esbulha-o do punhal fulgente,
- Na garganta lho tinge, e assim blasona:
- “Mede jazendo, ó Teucro, o solo hespério
- Que vinhas conquistar: dos que me afrontam
- Eis o prêmio; dest’arte os muros fundem.”
- A botes lhe ajuntou Síbaris, Bustes,
- Cloreu, Dares, Tersíloco, e Timetes
- Que aos trancos o animal da cerviz lança.
- Qual, se do Egeu no pego o Edônio Bóreas
- Sopra sonoro e as ondas rola às praias,
- Do céu, por onde vara, espanca as nuvens;
- Tal ao fogoso Turno as alas cedem,
- E fogem batalhões: o ímpeto o leva,
- Batem-lhe o carro as flutuantes plumas.
- Fegeu não lhe suporta o orgulho e sanha;
- Ao coche avança, aos rápidos ginetes
- Retorce os freios e espumantes queixos.
- De rojo e às bridas preso, em descoberto
- O apanha larga chuça, e a coira dobre
- Rota, a cútis lhe prova o golpe leve.
- Ele se adarga, e já de estoque em riste,
- Volto para o inimigo, auxílio pede:
- Mas o eixo despedido e a roda o impele,
- Cai por terra; e entre a cota e o casco Turno
- Decepa-lhe a cabeça, e troncho o prostra.
- Enquanto ufano tudo arrasa e estraga,
- Mnesteu e Acates fido e Iulo às tendas
- A Enéias acompanham, que sangüento
- No conto abordoava os tardos passos.
- Raiva a lutar, e o meio quer mais pronto
- Com que da haste quebrada a farpa arranque:
- Abram de espada, e o golpe dilatando
- Catem-lhe o ferro, por que à pugna torne.
- Era presente o Iasidis Iapis,
- Dileto amigo do extremoso Apolo;
- Que ledo as artes suas lhe doara,
- O augúrio, a música, as ligeiras setas.
- Ele, a fim que a seu pai retarde os fados,
- Antes inglório conhecer as ervas
- E exercer quis a muda medicina.
- N’hasta a bramir Enéias se estribava,
- Cercado imóvel de tristonhos jovens
- E de Ascânio a chorar. Peônia a loba
- O hábil velho traçando, em vão tenteia
- E usa as de Febo virtuosas plantas,
- Em vão sonda com jeito e prende o ferro
- Com tenaz pinça: nem fortuna o serve,
- Nem seu mestre o socorre; e mais no campo
- Mais cruel medra o horror, mais perto avulta.
- Já se enovela o pó, já se ouvem rinchos,
- No arraial chovem dardos; grita imensa
- Dos combatentes soa e dos que morrem.
- Vênus, a quem do filho as dores pungem,
- No créssio Ida colheu de flor purpúrea
- Dictamo, caule de pubentes folhas;
- Não da corça ignorado, se expedita
- Frecha ao dorso lhe adere. Em névoa escura
- Vênus o traz envolta: em vaso terso
- De água turva o infundindo, oculta o misto
- Ela tempera, e esparge-lhe os salubres
- Sucos de ambrosia e odora panacéia.
- Ínscio o longevo Iapis à ferida
- O banho aplica: logo a dor se extingue,
- O sangue estanca; a seta por si mesma
- Já segue a mão; restauram-se-lhe as forças.
- “Presto, armas ao varão; tardais? primeiro
- Grita Iapis e os ânimos inflama:
- Não foi perícia minha ou arte humana
- Que, Enéias, te curou; foi celso nume,
- Que a façanhas grandiosas te reserva.”
- Ávido o Frígio as caneleiras calça,
- E as demoras detesta e brande a lança.
- Depois que enfia o escudo e a cota enverga,
- De ponto em branco armado abraça o filho,
- Ergue a viseira e o beija: “O vero esforço
- De mim, Ascânio, aprende e o sofrimento;
- De outros, a dita. Agora a destra minha
- Vai segurar-te, o que reputo um prêmio:
- Lá na idade madura não te esqueças
- Do exemplo dos avós, nem de que houveste
- Enéias por teu pai e Heitor por tio.”
- Disse, e hasta ingente balançando parte;
- Das portas após ele turba infinda,
- Anteu sai e Mnesteu; largando os valos
- Flui toda a gente: cego pó se enrola,
- E ao pulsar do tropel treme a campanha.
- De adverso marachão distingue-os Turno:
- Gelo aos d’Ausônia pelos ossos côa.
- Primeira entre eles percebeu Juturna
- O ruído, e vai-se trépida. Ele a vôo
- Traz a atra nuvem pelo aberto plaino.
- Quando, em sidérea conjunção, borrasca
- Do mar ronca, os agrícolas pressagos
- Ai! se arrepiam, que ela estrago e dano
- Aos pomares prepara e às sementeiras;
- Sopra o vento, e um sonido às praias chega:
- Tal o chefe reteu move as esquadras,
- E em cúneo as cerra e densa. Ao grave Osiris
- Fere e trunca Timbreu, Mnesteu a Arquécio,
- Acates a Epulon, a Ufente Gias;
- Tomba o áugur Tolúmnio, o que o primeiro
- Vibrou dardo infrator. Os céus atroa
- Amplo alarido, e aos Rútulos agora
- Fuga pulverulenta as costas volta.
- A nenhum dos que fogem, dos que atiram
- Distante, ou perto o investem, não se digna
- De derribar o herói: só busca a Turno,
- Por Turno clama, entre a caligem basta.
- A virago Juturna, apavorada,
- Por entre os loros a Metisco, auriga
- De Turno, ao longe do timão sacode:
- Monta, e maneja e dobra undantes bridas;
- Finge a voz de Metisco e a forma e as armas.
- Qual de rico senhor por tetos e átrios
- Fusca andorinha adeja, cata e indaga
- Para os gárrulos ninhos o cibato,
- E ora por vácuos pórticos, chilreira,
- Ora por tanques úmidos revoa;
- Tal a trote Juturna, entre inimigos
- Percorre tudo no ligeiro carro,
- Do irmão fazendo alardo: à luta o esquiva,
- Por desvios o aparta. Enéias óbvio
- Lesto os rodeios corta, e à pista a vozes
- De hostes esparsas pelo meio o chama:
- Sempre que a Turno olhos desfere e emula
- O curso dos alípedes cavalos,
- Juturna o evade retorcendo o coche.
- Ah! que obrará? flutua em vários estos,
- E diferentes cuidos o arrebatam.
- Leve armado, Messapo dois virotes
- Na sestra acaso tinha; um vibra e acerta:
- Pára, escuda-se o Teucro, e a perna encurva;
- Mas levou-lhe o farpão cimeira e plumas.
- Surgem-lhe as iras; da traição coacto,
- Mal sentiu que os frisões e o coche o evitam,
- A Jove atesta e as aras violentadas,
- Acerbo invade com propício marte,
- E, sem descrime na fatal matança,
- As rédeas solta à cólera terrível.
- Qual deus, quem há, que em verso me declare
- Que estragos na campina e mortos cabos
- Derramou Turno agora, agora Enéias?
- E permitis, ó céus, que entre si lutem
- Povos que têm de unir-se em laço eterno?
- Ao Rútulo Sacron não tardo o Anquíseo
- (Pugna que em seu furor deteve os Teucros)
- De lado, onde é mais pronta a morte, o ferro
- Mete, e a caixa do peito e as costas vara.
- A Diores e Amico irmãos desmonta
- A pé Turno, um de espada aguda vindo,
- Um de hasta longa; e de ambos as cabeças
- Talha, e sangue estilando ao coche as prende.
- O Dardânio a Talon, Cetego, Tánais,
- Que investem juntos, mata, e o pobre Onites,
- Nome equiônio, de Perídia nado:
- Turno, uns irmãos da Lícia, a Febo cara,
- E a Menetes Arcádio, à guerra avesso;
- Moço em Lerna piscosa afeito às redes,
- Sem dos grandes saber do pai na choça,
- Que de renda um campinho semeava.
- Como dá solto o incêndio em seca mata
- E crepitantes louros; como espúmeos
- Estrepitosos rios despenhados
- Com vastadora queda ao mar caminham:
- Tais os dois campeões rútulo e teucro
- Se precipitam; já flutua interna
- Raiva; já corações que o não cuidavam
- Rasgam-se; os golpes desmedidos fervem.
- Enéias a Murrano, que arrotava
- Lácios avoengos de real prosápia,
- Com seixo enorme em turbilhão derriba:
- As rodas volvem-no entre o jugo e os loros,
- E ingratos brutos com patada crebra
- Conculcam seu senhor. De Hilo, que imano
- Fremente ameaça, às têmporas douradas
- Contorce Turno um dardo, que pelo elmo
- No cérebro se encaixa. Não o evitas,
- Creteu, valente Graio. Nem de Enéias
- A Cupenco seus deuses resguardaram:
- De encontro o peito ao ferro, ah! nada embarga
- O éreo broquel. Também laurentes agros
- Viram-te, Eolo, vasto chão cobrindo:
- Morres tu, que as falanges não puderam
- Grajugenas prostrar, nem do priâmeo
- Reino o eversor Aquiles: no Ida excelsas,
- Excelsas casas em Lirnesso tinhas;
- Tens a meta em Laurento e a sepultura.
- Tudo é baralha, os Teucros, os Latinos,
- Briga tudo; Mnesteu, Seresto bravo,
- E o picador Messapo e o duro Asilas,
- Alas de Evandro e batalhões toscanos:
- Com sumo esforço cada qual porfia;
- Larga, incessante, encrua-se a batalha.
- Aqui Vênus formosa inspira ao filho
- Que assalte os muros, e a Laurento opressa
- Com mortandade súbita consterne.
- Ele, que, a Turno investigando, os lumes
- Deita em redor, quieta e impune avista
- A pérfida muralha; e em marte aceso
- Traça plano maior. Mnesteu, Sergesto,
- Seresto forte chama; e num outeiro,
- Onde reúne os seus de escudo e lança,
- Do alto brada: “Obedeçam-me de pronto;
- Júpiter é por nós, executai-me
- Não frouxos o repente. Hoje a cidade,
- Causa do mal, e de Latino os reinos,
- Se o freio me refusam não submissos,
- Destruo, assolo os tetos fumegantes.
- Esperarei que a Turno já vencido
- A justa apraza? Da nefanda guerra
- Eis, cidadãos, a suma, eis o remate:
- Sus, reclame-se o pacto a ferro e fogo.”
- Disse; e, formando em cúneo a densa mole,
- Ataca os muros. A escalada, o incêndio
- Cresce: uns às portas, retalhando os guardas,
- A discorrer; o alfanje a esgrimir outros;
- O ar de tiros se obumbra. Entre os primeiros
- No muro Enéias mesmo a destra ferra;
- Grita e acusa a Latino; os céus atesta
- Que à batalha é forçado, que hostilmente
- Os de Itália o agrediram duas vezes,
- Duas também às convenções faltaram.
- Dentro lavra a discórdia: esparvoridos
- Uns abrir ao Troiano as portas querem,
- E ao muro o mesmo rei consigo arrastam;
- Armam-se outros e insistem na defensa.
- Tal, se na cresta o latebroso pomes
- O rústico enche de vapor amargo,
- Trépido errando o enxame em céreos valos
- Zumbe, a cólera aguça: olor nos tetos
- Forte rescende, um murmurinho cego
- No ouco soa, e no ar se engloba o fumo.
- Mais quebranta os Latinos um desastre,
- Que a cidade revolve e um luto abala:
- Vendo a rainha do inimigo a entrada,
- Pelas casas o incêndio, e que nem Turno
- Comparece nem rútula falange,
- Morto o mancebo no conflito julga,
- E em túrbida agonia a triste clama
- Que de mal tanto e crime é fonte e causa;
- Vocifera sem tento, e furibunda
- Rasga o manto purpúreo, e atando um laço,
- De alta viga pendeu com morte informe.
- Corre a fatal notícia; as róseas faces
- A filha dilacera e as flavas tranças;
- Mestas em torno as damas esbravejam;
- O pranto a régia estruge. Divulgada
- A cruel fama, os corações prosterna:
- A cidade em ruína, a esposa extinta,
- Latino atônito espedaça as vestes,
- E as cãs em pó denigre enxovalhadas;
- Muito se acusa de não ter a Enéias
- De grado recebido e aceito genro.
- Remoto o belaz Turno, menos lesto,
- Já dos frouxos cavalos descontente,
- Persegue uns trasmalhados: eis que as auras
- Trazem-lhe terror cego e vozeria
- E os ouvidos atentos lá percebem
- Murmuro desalegre e som confuso:
- “Ai! que rumor tamanho, luto quanto
- Rui dos opostos perturbados muros?”
- Disse, e as bridas retém, sem tino estaca.
- Mas a irmã, que em Metisco disfarçada
- Regia o coche, lhe tornou: “Sigamos
- A via, Turno, que a vitória indica;
- Braços há na cidade que a defendam.
- Se ataca Enéias e atropela os nossos,
- Com fero estrago os seus também rendamos:
- Não te irás inferior na glória e feitos.”
- Turno: “Irmã, respondeu, muito há conheço;
- És tu que arteira, desmanchando o ajuste,
- Na ação te ingeres: não me enganas, deusa.
- Quem te enviou do Olimpo a tantas lidas?
- Vens do irmão assistir ao cru trespasso?
- Que resta? que inda espero da fortuna?
- Ante os meus olhos, só por mim chamando,
- Murrano acaba, o meu melhor amigo,
- De atroz ferida; o caro Ufente expira,
- Por não testemunhar a afronta nossa:
- Possui-lhe o corpo e as armas o inimigo.
- Sofrerei, duro transe! os tetos rasos,
- Sem que a Drances refute a destra minha?
- Ver-me o Lácio dar costas! fugir Turno!
- Pois morrer tanto custa? Vós, ó manes,
- Já que os céus me aborrecem, protegei-me:
- Alma insonte e sem mancha, à Estige baixo,
- Dos meus grandes avós não terei pejo.”
- Nisto, Saces no espúmeo alado bruto
- Entre as filas hostis, frechada a cara
- Mostrando, implora a Turno: “És nosso amparo,
- Turno; dos teus há dó. Fulgúreo Enéias
- De exício ameaça as fortalezas nossas;
- Já voam fachos. Em ti só fitamos
- Os olhos, Turno, em ti: na escolha mesmo
- De genro ou de aliança el-rei tituba;
- E a rainha fiel, desesperada,
- Suicidou-se a final. Messapo e Atinas
- Sustentam sós às portas o conflito;
- Férrea hirta messe, densa turba os cerca:
- Tu no deserto prado o coche rodas!”
- Turno, ao se afigurar tão vários casos,
- Tácito e quedo embaça; luto, insânia,
- Vergonha, amor, estuam-lhe no peito,
- Fúrias e o cônscio brio. Assim que as trevas
- Dissipa e a mente acalma, conturbado
- A vista em brasa revirando aos muros,
- Do seu carro contempla a grã cidade.
- Eis que um vórtice flâmeo, ao céu montando,
- Ondeia entre os soalhos de uma torre,
- Que ele erguera de traves bem compactas
- Com rodas e altas pontes. “Não me estorves;
- O fado vence, irmã: já já corramos
- Onde ele e um deus nos chama. Com Enéias
- Braço a braço, a tragar a morte acerba
- Disposto, irmã, não me verás sem honra:
- Ah! deixa-me antes em furor cevar-me.”
- Disse, e do carro apeia: entre armas e hostes,
- Largando a irmã chorosa, pelo meio
- Dos Teucros rompe com veloz carreira.
- Qual, se por furacão do monte a penha
- Rola avulsa, ou das chuvas aluída,
- Ou por vetustos anos solapada,
- De princípio em princípio aos tombos,
- Selvas no ímpeto arrasta, armentos, homens;
- Tal, com vasta ruína, aos muros Turno
- Se despenha, onde o sangue alaga a terra
- E de espessos farpões os ares zunem.
- Acena e grita: “Ao ferro dai, Latinos,
- Tréguas, e ao dardo ó Rútulos: a sorte
- Qualquer que for, é justo que o tratado
- Eu por vós desempenhe e só peleje.”
- Todos se arredam, largo espaço abrindo.
- Seu nome ouvido, acelerado Enéias
- As fortalezas desampara; as obras
- Interrompe de chofre, alegre exulta,
- E horrendo em armas toa: o Atos, o Erix,
- Mesmo o Apenino padre, assim bramindo
- Folga, e azinhos balança coruscantes,
- E alteia às auras o nivoso cume.
- Frígios, Latinos, quantos as muralhas
- Frangiam com vaivéns ou propugnavam,
- Os olhos convergindo, o arnês dos ombros
- Lassos depõem. Do encontro o rei pasmava
- De heróis que, nados em distantes plagas,
- Entre si valorosos combatiam.
- Vazio o campo, à desfilada, lanças
- De longe eles vibrando, o marte encetam,
- E éreos broquéis ressoam, geme a terra:
- Crebros talhos de espadas já redobram;
- Ardil, valor, fortuna, se confundem.
- Se no celso Taburno ou Cila imensa
- Dois touros fronte a fronte hostis concorrem,
- Os maiorais se assustam; mudo o gado,
- Surdo as novilhas tugem, sem que atinem
- Qual, dono da manada, ao bosque sigam;
- Lutam renhidos enganchando os cornos,
- Mesclam-se os golpes; muito sangue inunda
- Colos e espáduas; brama a selva e muge:
- Dos heróis Teucro e Dáunio assim retinem
- Broquéis e cotas, e o fragor ribomba.
- Ouro e fio a balança, os fados de ambos
- Jove nas conchas libra, examinando
- Quem na lide sucumba e vergue ao peso.
- Turno então, ferir crendo impune, esgrime,
- Com todo o corpo sobre o gládio cresce;
- De susto um e outro campo exclama atento:
- Mas a pérfida folha estala e falha;
- E ao ver, sem mais recurso o moço ardente,
- Ignota empunhadura e a destra inerme,
- Como Euro foge. É voz que, ao primo assalto
- Montando o coche, em vez do pátrio ferro,
- Do auriga arrebatou sem tino a espada:
- Ela bastara a dispersar os Teucros;
- Mas, à prova das armas de Vulcano,
- Se desfez como gelo o mortal gume,
- E em pedaços brilhou na fulva areia.
- Turno deita veloz pela campina,
- E mentecapto aqui e ali volteia:
- Lá fecham-no em coroa os Frígios densos,
- Árduos muros além, cá vasto lago.
- Acre Enéias o acossa, e bem que às vezes
- Lhe impeça e agrave os joelhos a frechada,
- Urge ao medroso o pé com pé fervente:
- Qual, se em rio o sabujo encontra o cervo
- Incluso, ou do espantalho de punícea
- Pena acuado, late e o corre e caça;
- Da ribanceira e insídia espavorido,
- Safa-se ele, anda e vira; o vívido umbro
- Hiante o alcança, quase quase o aferra,
- E, como se o pegara, os queixos range,
- E a vã dentada o ilude; a grita e os ladros
- Retumbam na lagoa e em torno às ribas,
- Toa ao tumulto o céu. Na fuga Turno
- Exprobra e os seus nomeia, exige e pede
- A nota lâmina. O rival comina
- Morte, se alguém lhe acode, o estrago e exício
- Da cidade, e ferido insta, amedronta.
- Cinco vezes girando e regirando,
- Leves prêmios de jogos não pleiteiam;
- Da vida e sangue trata-se de Turno.
- Sacro a Fauno, um zambujo havia acaso
- De amara folha, aos nautas venerável;
- Onde o náufrago os dons pregar soía
- Ao deus, e as vestes suspender votivas:
- Por que em plano combatam, sem descrime
- A árvore santa os Frígios extirparam.
- A hasta Enéias impele, que às raízes
- Se lhe apega tenaz: quis arrancá-la,
- Com sumo afinco e despedi-la a Turno,
- A quem chegar a curso não podia.
- Este louco de medo: “Há mágoa, ó Fauno;
- Retém a lança, eu te oro, amiga Telus:
- Sempre honrei vosso culto, e a guerra enéia
- Profanado vos tem.” Não foi baldia
- Sua oração; que sobre o tronco o Frígio
- Curvo labuta, e não lhe vale o esforço
- Do lenho a desfechar o morso rijo.
- Enquanto mais se estriba e insiste, a diva
- Dáunia, em forma do auriga, o irmão socorre,
- Dá-lhe a espada. A ousadia irrita a Vênus,
- Que baixa e da raiz despega a lança.
- Refeitos de armas, de ânimo sublimes,
- Este afoito no gládio, aquele n’hasta,
- Do anelo Marte no lidar prosseguem.
- Entanto o rei supremo a Juno fala,
- Que de uma nuvem roxa observa a pugna:
- “Que resta, esposa, e traças? Tu confessas,
- Deve indígite Enéias, manda o fado,
- Sede no Olimpo ter, subir aos astros.
- Que urdes? que esperas em geladas nuvens?
- A um deus violar convém com mortal golpe?
- Render a Turno a espada (o que ousaria
- Sem ti Juturna?) e acorçoar vencidos!
- Basta, cede ao meu rogo: não te roa
- Tácito enfado; a revelar-me o peito
- A tua doce boca se acostume.
- Veio o termo: agitaste o mar e a terra,
- A discórdia incendeste, em luto infando
- Envolta a régia, as núpcias perturbaste:
- Não mais, agora o vedo.” Cessa o padre;
- E submissa contesta a irmã Satúrnia:
- “Teu querer conhecendo, eu constrangida
- Abandonei, senhor, a Turno e o mundo;
- Senão, curtindo ultrajes, não me viras
- Neste ar sozinha, mas na ação, de flamas
- Cingida, em prélios consumindo os Frígios.
- Sim, a ajudar o irmão suadi Juturna;
- Louvei que por salvá-lo ousasse tudo,
- Mas não que de arco e setas contendesse:
- Da implacável Estige à fonte apelo,
- Jura tremenda aos superiores numes.
- Desisto alfim; batalhas já me enojam.
- Favor obsecro não sujeito aos fados,
- Pede-o Itália e dos teus a majestade:
- Casamentos embora a paz componham,
- E leis o pacto asselem; não permitas
- Que os Latinos indígenas, perdido
- O antigo nome, Teucros se apelidem,
- Nem mudem língua e trajo. Eterno viva
- O Lácio, os reis Albanos; herde Roma
- O itálico valor, propague e brilhe:
- Tróia acabou, também seu nome acabe.”
- Sorrindo o árbitro sumo: “Irmã, lhe torna,
- Segunda prole de Saturno, de iras
- Estos volves no peito? O rancor cego,
- Eia, amaina: de grado e às preces tuas
- Tudo concedo. Fala e usanças pátrias
- A Ausônia guarde, o nome seu conserve:
- Consorciados fiquem-se os Troianos;
- Farei que, em rito iguais e em sacrifícios,
- Formando um povo, a mesma língua tenham.
- Virão do misto sangue ausônio e teucro
- Homens pios que aos deuses se avantagem;
- Nem haverá nação que te honre tanto.”
- Juno eis anui alegre, a mente aplaca;
- Do éter já se retira e a nuvem deixa.
- Outra coisa então Jove em si versando,
- Resolve separar do irmão Juturna.
- Há duas pestes, por cognome Diras,
- De um parto vindas com Megera estígia
- Da escura Noite, que as liou de serpes
- E asas lhes deu ventosas. Ante o sólio
- De Jove sevo e ao limiar assistem,
- E o medo afilam dos mortais, se alquando
- Morbos ele prepara e o trago horrendo,
- Ou pune as gentes com terrível guerra.
- Júpiter uma lá de cima expede,
- Que ominosa a Juturna se ofereça.
- Ela, num turbilhão, qual frecha voa,
- Que dispara o cidônio ou parto nervo;
- Arma incurável que no fel untada
- E cru veneno, alígera estrugindo,
- Impróvisa atravessa as leves sombras.
- Desce a filha da Noite; e, mal que enxerga
- Os exércitos ambos, no pequeno
- Pássaro contraiu-se que a desoras,
- Pousando em cemitérios e ermas grimpas,
- Cruja importuno e lúgubre nas trevas:
- De Turno em cerco a peste assim revoa,
- Guincha aleando, e lhe verbera o escudo.
- Torpor novo o arrepia, hirto o cabelo,
- Tronca a voz na garganta. A irmã, que ao longe
- Distingue a Dira e as estridentes penas,
- As madeixas lacera, de unhas rasga
- E afeia o rosto, e o seio com punhadas:
- “Como há de agora, Turno, a irmã valer-te?
- Ai! que me resta que te alongue a vida?
- Posso a tal monstro opor-me? Eu deixo o campo
- Já já. Não me aterreis, obscenas aves;
- O som letal e esse adejar conheço;
- Não me enganam de Jove as duras ordens.
- Paga-me generoso a virgindade!
- Fez-me eterna? ó pesar! se eu mortal fosse,
- Os desgostos findava, e aos tristes manes
- Iria acompanhar o irmão querido.
- Nada jamais sem ti me será doce,
- Nada, meu Turno. Um boqueirão me engula,
- E em seu profundo centro abisme a deusa.”
- Cobre a cabeça então com verde manto,
- E gemebunda se sumiu no pego.
- O troço arbóreo coruscando Enéias,
- Insta com feroz peito: “Que demoras,
- Turno? arrependes? não correr, mas cumpre
- Lutar com sevas armas. Várias formas
- Toma, usa embora todo o esforço e manha;
- Sobe de surto aos astros, ou te ocultes
- Nas terreais entranhas.” Abanando
- Ele a fronte: “Esses feros não me assustam;
- Júpiter sim e os inimigos deuses.”
- Nem mais, e encara antiga pedra enorme,
- Agrário marco, estorvo de litígios;
- Pedra, carga bastante aos mais robustos
- Doze homens dos que a nossa idade cria:
- Com tremor agarrando-a, herói se empina
- E na corrida a impele; mas ignora
- Se anda ou corre, se pega o ingente marco,
- Se o move e arroja: faltam-lhe os joelhos,
- Coalha o sangue. No vácuo roda a pedra,
- E, sem que o termo alcance, o impulso esfria.
- Como em sonhos, se lânguida modorra
- Nos preme os olhos, ávida carreira
- Tentando em vão, no meio esmorecidos
- Sucumbimos; a língua e a voz nos falha,
- Falham no corpo as forças: tal, por onde
- Seu valor Turno ensaia, o impede a Fúria.
- Cem cuidos versa: os Rútulos contempla,
- Olha a cidade; enfia, e da iminente
- Lança estremece, de evadir-se o meio
- Nem contra o seu rival já vê recurso,
- Nem mais a auriga irmã, nem mais seu carro.
- Enquanto hesita, o lanço Enéias mede,
- A hasta vibra fatal, forceja e solta:
- Nunca assim fremem do mural trabuco
- Jogadas rochas, nem. trovão rebrama:
- Qual furacão letífera voando,
- Da cota as orlas e os extremos orbes
- Do septêmplice escudo a estrugir fura,
- E a coxa lhe traspassa. Ao bote o moço,
- Inflexa a curva, tomba; os seus alteiam
- Mesto clamor; remuge inteiro o monte,
- E na selva o lamento amplo reboa.
- Turno olha humilde, súplice ergue a destra:
- “Bem mereço, é teu jus, perdão não peço;
- Mas, se de um pai (de Anquises te relembres)
- Comove-te a velhice, a Dauno eu rogo
- Me entregues, se não vivo, ao menos morto.
- Venceste, e viu-me enfim a Itália toda
- As palmas levantar: Lavínia é tua;
- Os ódios não requintes.” O acre Enéias
- Pára, os olhos volteia, a mão reprime:
- Iam-no as preces quase enternecendo,
- Quando o infeliz talim se mostra ao ombro
- E a cravação do cingidouro fulge,
- Despojos de Palante, a quem menino
- Prostrara Turno com letal fereza,
- E essa divisa infesta em si trazia.
- Da cruel dor no monumento os olhos
- Mal embebe, enfuriado o herói vozeia:
- “Que! tu me escaparás dos meus com presa!...
- Nesta ferida imola-te Palante,
- Palante vinga-se em teu ímpio sangue.”
- No peito aqui lhe esconde o iroso ferro:
- Gelo os órgãos lhe solve, e num gemido
- A alma indignada se afundou nas sombras.