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EneidaLivro VII
LivroVII

Tu não menos, Caieta ama de Enéias

825 versos · 28 notas do tradutor


  1. Tu não menos, Caieta ama de Enéias,
  2. Nossas praias morrendo eternizaste;
  3. Guarda o lugar teu nome, e se isto é glória,
  4. Na magna Hespéria os ossos te assinala.
  5. O pio aluno, exéquias celebradas,
  6. Túmulo erguido, assim que os mares jazem,
  7. A velejar prossegue e o porto larga.
  8. Auras à noite aspiram, nem seu curso
  9. Cândida a Lua nega; o ponto esplende
  10. Ao trêmulo clarão. Circéias terras
  11. Costeiam-se, onde lucos inacessos
  12. Com aturado canto a rica filha
  13. Do Sol atroa, e nos soberbos tetos
  14. Odoro cedro em luz noturna queima,
  15. Corre com pente arguto as finas teias.
  16. Dali gemidos a se ouvir, e as iras
  17. De horrentes leões cadeias recusando
  18. E a desoras rugindo, e nos presepes
  19. Ursos raivar, sanhudos grunhir cerdos,
  20. E enormes vultos ulular de lobos;
  21. Que a seva deusa com potentes ervas
  22. De homens os transvestira em brutas feras.
  23. Por que arribada o encanto a boa gente
  24. Não padeça, nem toque as diras plagas,
  25. Favorável Netuno encheu-lhe as velas,
  26. E dos férvidos vaus a impeliu fora.
  27. Já na arraiada roxeava o pego,
  28. Fulgia em rósea biga a ruiva Aurora:
  29. Acalma o vento, nem sequer bafeja,
  30. E tonsas lutam pás no lento mármore.
  31. Do largo extensa mata avista Enéias;
  32. Dela com fluxo ameno o Tiberino,
  33. Verticoso e veloz, de areias flavo,
  34. Ao mar prorrompe; ao álveo e borda afeitas,
  35. Várias aves por cima em cerco voam,
  36. Com meigo trino as auras adoçando.
  37. Que dobrem rumo ordena e à selva aproem,
  38. E entra contente pelo umbroso rio.
  39. Eia, Erato, exporei do Lácio antigo
  40. Os reis, o estado, a sucessão de coisas,
  41. Quando aportou n’Ausônia a estranha armada;
  42. Vou do conflito recordar o exórdio.
  43. Tu diva, tu me inspira: hórridas guerras
  44. Dirá teu vate, os prélios, os monarcas
  45. Ferozes por seu dano; as tuscas hostes,
  46. A coalição direi da Hespéria em armas.
  47. Mor assunto se me abre, é mor a empresa.
  48. Velho, em sossego e paz Latino as lavras
  49. E cidades regia. É voz que a ninfa
  50. Marica de Laurento houve-o de Fauno;
  51. A Fauno gerou Pico; e este, ó Saturno,
  52. Pai te refere: da família és tronco.
  53. O masculino herdeiro, inda em agraço
  54. A sorte lho tirou: gentil princesa,
  55. Para um varão madura e já completa,
  56. Era o esteio da casa e amplos domínios.
  57. Da flor d’Ausônia e Lácio pretendida,
  58. Pede-a, em avós e avoengos poderoso,
  59. Turno ante os mais pulquérrimo; a quem genro
  60. Almejando a rainha, apressa as bodas:
  61. Obstam porém terríficos portentos.
  62. De grenha santa, em fundo claustro havia,
  63. Com temor conservado, um lauro anoso;
  64. Que ali constava, ao começar os muros,
  65. Achara e a Febo o dedicou Latino,
  66. Nomeando Laurentes os colonos.
  67. No tope, ó maravilha! os ares fluidos
  68. Nuem de abelhas a zumbir sulcando,
  69. Sentou-se, e em cacho pés com pés travados,
  70. Da ramagem pendeu súbito enxame.
  71. Logo um vate: “Com tropas chefe externo
  72. Chegar, donde as abelhas, divisamos,
  73. E em senhor se erigir do sumo alcáçar”.
  74. E também, junto ao pai Lavínia virgem
  75. Com tedas castas incensando as aras,
  76. Fogo, ó pasmo! às madeixas ateado,
  77. O ornato viu-se em crepitante chama;
  78. E ao de rubis diadema e régio crino
  79. Acesa, em fumo e pardo lume envolta,
  80. Espalhar pelo templo a labareda.
  81. Terror e espanto foi: de ilustre fama
  82. E no porvir ditosa a decantavam;
  83. Mas que atroz guerra prometia ao povo.
  84. Busca o velho assombrado o padre Fauno,
  85. E o consulta nos bosques d’alta Albúnea;
  86. Que, floresta a maior, com sacra fonte
  87. Soa, e tetra mefite exala opaca.
  88. Aqui gentes d’Itália, a Enótria em peso,
  89. O oráculo interrogam. Dons trazendo
  90. O sacerdote aqui, se em muda noite
  91. De vítimas em peles estradadas
  92. Se encosta e se adormece, avoejantes
  93. Vê mil fantasmas, vozerias ouve,
  94. Logra aos deuses falar, e no imo Averno
  95. A Aqueronte conversa. Aqui, rogando,
  96. Bimas do uso o rei mata ovelhas cento,
  97. Nos couros deita-se e alastrados velos.
  98. De repente uma voz sai da espessura:
  99. “Nos tálamos dispostos não confies,
  100. Prole minha, e em nenhum latino genro;
  101. De fora outros virão que o nosso nome
  102. Exaltem com seu sangue, e em netos brotem
  103. A cujos pés se curve e rode quanto
  104. De um ao outro oceano o Sol perlustra.”
  105. Do pai Fauno em silêncio o aviso dado,
  106. Consigo ele o não cala; e pela Ausônia
  107. A revoar a Fama o assoalhava,
  108. Quando a frota os mancebos laomendôncios
  109. Da riba ao marachão gramíneo ataram.
  110. O herói, seus capitães e o lindo Iulo,
  111. Sob árvore copada se acolheram;
  112. Na relva, ensina-o Jove, às iguarias
  113. Candiais tortas sotopõem, e o fárreo
  114. Solo de agrestes frutas acogulam.
  115. Como os fizesse a míngua dos manjares,
  116. Trincada a exígua Ceres, com audazes
  117. Queixos e mãos violar a fatal crusta,
  118. As orlas não poupando e chatas quadras:
  119. “Hui! que as mesas tragámos” diz brincando,
  120. Não mais, Iulo. O anúncio as lidas finda;
  121. E o pai, que o recolheu da afável boca,
  122. Do nume se reteve estupefato;
  123. Clama enfim: “Salve, terra a nós fadada;
  124. Salve, troianos e fiéis penates!
  125. Já temos pátria e casa. Hoje recordo
  126. As predições de Anquises: — “Quando, ó filho,
  127. Gasto em praia estrangeira o mantimento,
  128. Te obrigue a fome a consumir as mesas,
  129. Descanso espera, o assento aí te lembre
  130. De trincheiras munir”. — Esta era a fome,
  131. O extremo que traria aos males pausa.
  132. Ledos, ao romper d’alva, esta paragem,
  133. O povoado e a gente, investiguemos,
  134. Do porto a dentro esparsos discorramos.
  135. Toca a brindar a Jove e ao divo Anquises;
  136. O festim renovai, reponde os vinhos.”
  137. Depois, de verde as fontes enramando,
  138. Ora ao gênio do sítio, e à prima deusa
  139. Telus, e a ninfas e ignorados rios;
  140. Chama a Noite e os da Noite orientes signos,
  141. A Ideu Jove em seguida e a Madre Frígia,
  142. Do Érebo e Olimpo os seus progenitores.
  143. Três vezes claro toa, e a mão suprema
  144. Vibra auriardente lampejante nuvem.
  145. Que é tempo enfim de inaugurar seus muros
  146. No exército o rumor súbito lavra.
  147. Do alto sinal folgando, o bodo instauram,
  148. Rasas de vinho as copas engrinaldam.
  149. Mal que alvorece e a tocha eoa raia,
  150. Toda a comarca e litoral exploram:
  151. Do Númico este o lago, o Tibre é este,
  152. Que dos fortes Latinos banha as terras.
  153. O Anquíseo então, nas filas escolhidos,
  154. Embaixadores cem com dons à régia
  155. A pedir paz envia, da paládia
  156. Rama velados. Rápido obedecem.
  157. Ele com fosso humilde risca os muros,
  158. E a modo de arraial na praia o assento
  159. Prepara e o cinge de liçada e valo.
  160. Já, vencido o caminho, os messageiros
  161. Torres e árduos palácios descobriam.
  162. Chegam-se: às portas a puerícia e a flórea
  163. Juventude a cavalo se exercitam;
  164. Carros domam na arena, ou rijos arcos
  165. Nervudo o braço tende e frechas tira;
  166. Desafiam-se ao curso e ao pugilato.
  167. Um pica o bruto, e entrados anuncia
  168. Varões de porte em peregrino trajo:
  169. Colocado o ancião no avito sólio,
  170. Os admite e recebe. O teto augusto,
  171. Desde o laurente Pico, em cem colunas
  172. Sobranceiro e sublime, o sombreavam
  173. Selvas com pio horror sempre acatadas.
  174. Ali tomar primeiro o cetro e os fasces
  175. Por feliz tinham: cúria, templo, sala
  176. Do sacrifício, ao longo ali das mesas,
  177. Morto o carneiro, os padres se assentavam.
  178. Por ordem no vestíbulo as efígies,
  179. De antigo cedro, estavam dos maiores:
  180. Ítalo, o vinhateiro pai Sabino
  181. Tendo em baixo o podão, Saturno idoso,
  182. Bifronte Jano, e quanto rei primevo
  183. No pátrio marte prodigou seu sangue.
  184. Em sacros postes muitas armas pendem,
  185. Chuças, machadas, elmos e cocares,
  186. Ingentes aldrabões, troncados rostros,
  187. Cativos coches, e broquéis e alfanges.
  188. Com lítuo quirinal e em trábea estreita,
  189. Pico, ancília na esquerda, éqüite ardido,
  190. Lá pousava; a quem Circe, malograda
  191. No amoroso apetite, com feitiços
  192. D’áurea varinha ao toque tornou ave
  193. E as asas lhe esmaltou. Neste recinto
  194. Foi que Latino, os teucros introdutos,
  195. Da sede régia plácido lhes fala:
  196. “Dardânidas (a pátria, a origem vossa
  197. Cá não se ignora, a fama vos precede),
  198. Que demandais? qual trouxe à praia ausônia
  199. Causa ou falta os baixéis por vaus tão cegos?
  200. Fosse erro de caminho ou tempestade,
  201. Contratempos do triste navegante,
  202. Entrastes este rio, e já no porto
  203. O hospício não fujais; sabei que a gente
  204. Latina de Saturno, por si reta,
  205. Não por temor da lei, tem-se aos ditames
  206. Do velho deus. Lembrado estou que auruncos
  207. Padres contavam-me (antigualha obscura)
  208. Que destes agros Dárdano entranhou-se
  209. No Ida frígio e na que ora é Samotrácia;
  210. E, do tirreno Córito emigrando,
  211. Hoje aras tem, numera-se entre os divos,
  212. Com trono de ouro na estelante corte.”
  213. Presto Ilioneu: “De Fauno herdeiro egrégio,
  214. Fluctívagos, ó rei, não foi tormenta,
  215. Astro ou rota falaz, que às vossas bordas
  216. Nos lançou; de pensado e acordes vimos,
  217. Expulsos do maior de quantos reinos
  218. Do balcões do levante o Sol mirava.
  219. De Jove oriunda, a geração dardânia
  220. Do avô Jove se orgulha; e o tróico Enéias,
  221. Garfo real de Jove, a ti nos manda.
  222. Sobre os campos ideus que atroz borrasca
  223. Desfechou de Micenas, por que impulsos
  224. D’Ásia e Europa os dois orbes se encontraram,
  225. Quem quer o ouviu que nos confins da terra
  226. Seja além do oceano, ou se entre as quatro
  227. Na zona extensa o torre iníquo Febo.
  228. Por vastos mares do dilúvio escapos,
  229. Sede exígua imploramos para os deuses,
  230. Comum água, ar patente, inócua praia.
  231. Não te seremos pejo, e mais te ilustras;
  232. Perene gratidão fará que Ausônia
  233. De agasalhar a Tróia não se pese.
  234. De Enéias pela destra invicta o juro,
  235. Se é que fida ou valente algum provou-a,
  236. Bem povos (não desprezes os que temos
  237. Estas fitas nas mãos, na boca preces),
  238. Bem nações para sócios nos rogaram;
  239. Mas fado urgente ao solo teu nos guia:
  240. Dárdano, daqui nado, aqui reverte;
  241. De Apolo é mando expresso a fonte sacra
  242. Buscarmos do Númico e o tusco Tibre.
  243. Da passada fortuna aceita uns restos,
  244. Salvos de Ílio incendida: o padre Anquises
  245. Libava por este ouro ante os altares;
  246. Ao legislar aos congregados povos,
  247. Eis de Príamo o cetro, eis a tiara,
  248. Eis, das Frígias trabalho, as vestiduras.”
  249. A vozes tais, Latino o rosto abaixa,
  250. Quedo olhos volve atento; nem priâmeo
  251. Cetro ou bordada púrpura o comove,
  252. Quanto o consórcio e tálamo da filha;
  253. E de Fauno medita os vaticínios;
  254. Que este o fadado genro é peregrino,
  255. Trazido ao reino por iguais auspícios,
  256. Cuja ilustre progênie valerosa
  257. Pujante ocupe o âmbito do mundo.
  258. “O céu nossos começos, clama alegre,
  259. E agouros seus prospere! O desejado
  260. Haverás, Teucro. Os dons não menosprezo;
  261. Nem, reinando Latino, agro ubertoso
  262. Ou troiana opulência há de faltar-vos.
  263. Se Enéias tanto a mim ligar-se anela,
  264. Venha, hóspede me seja; nem do amigo
  265. Tema o aspecto: em abono da aliança
  266. Do monarca fiel me sobra a destra.
  267. Tenho uma filha (dai-lhe este recado)
  268. Que unir-se a algum dos nossos mil prodígios,
  269. Do ádito pátrio as sortes, não consentem:
  270. Varões de longe, no país estantes,
  271. Exalçarão seu sangue e o nosso nome.
  272. Se a mente bem atina, e é, como creio,
  273. Ele o genro fatal, gostoso o adoto.”
  274. Cessa; e escolhidos em corcéis trezentos,
  275. Os mais nédios que tinha às mangedouras,
  276. Um alípede oferta a cada Frígio,
  277. De ostro e matiz lustroso acobertados:
  278. Aos peitos lhes caindo áureas coleiras,
  279. De ouro os arreios têm, fulvo ouro tascam.
  280. Um coche a Enéias manda, e exala o tiro,
  281. Do éter semente, pelas ventas fogo;
  282. Casta que ao pai furtou dedália Circe,
  283. De submetida mãe bastardas crias.
  284. Com tais dons, a cavalo os enviados,
  285. Portadores de paz, contentes voltam.
  286. Eis que de Argos ináquia parte a seva
  287. De Jove esposa; e avista lá dos ares,
  288. Desde o Pachino sículo, os Troianos
  289. E ovante Enéias, já desembarcados,
  290. Na terra a edificar, seguros dela.
  291. De ânsia pára; e, a cabeça meneando,
  292. Queixumes derramou do aflito peito:
  293. “Raça infanda! ao meu fado avesso fado!
  294. Ah! nas campinas do Sigeu puderam
  295. Sucumbir? ser tomados, ser cativos?
  296. Porventura abrasada os queimou Tróia?
  297. Franca via entre o ferro e o fogo acharam.
  298. Lasso, eu cuido, afinal meu nume cede;
  299. Saciada afrouxei, depus meus ódios...
  300. Como! ousei contrastá-los no desterro,
  301. No undoso ponto os persegui fugidos:
  302. Esgotei mar e céu para vingar-me.
  303. Sirtes, Caribdes, Cila, que prestaram?
  304. Do pélago e de mim zombam no grêmio
  305. Do caro Tibre. Os Lapitas gigantes
  306. Marte acabou; rendeu-se a Calidônia
  307. De Febe às iras: para um tal castigo
  308. Lapitas, Calidônia, em que pecaram?
  309. Qui-lo assim meu consorte; e a mim rainha,
  310. Que meios não poupei, que empreendi tudo,
  311. Vence-me Enéias! Meu poder se é pouco,
  312. Deprecar a quem for já não duvido:
  313. Vou, se não dobro o céu, mover o inferno.
  314. Separá-lo do Lácio me proíbem;
  315. Sua Lavínia seja: a dita ao menos
  316. Protrair, perturbar, não me é defeso;
  317. Os povos soverter dos reinos ambos:
  318. Com tais pareias se alie o genro e o sogro.
  319. Sangue rútulo e teucro o dote sendo,
  320. Belona, ó virgem, prônuba te espera.
  321. Não só fogos jugais, de um facho prenhe,
  322. Pariu Cisseide; a Cípria houve outro Páris,
  323. Tição funesto aos recidivos muros.”
  324. Vociferando horrenda baixa às terras.
  325. Do Orco e antro furial avoca Alecto,
  326. Que maldades luctífica respira,
  327. Guerras, traições, rancor; monstro que odeiam
  328. As tartáreas irmãs e o rei das sombras:
  329. Com tanto esgar se afeia e a testa enruga,
  330. Tanto a enegrecem pululantes cobras!
  331. Juno assim a aguçou: “Da Noite filha,
  332. Para não sofrer quebra de honra ou fama,
  333. Serviço especial me outorga, ó virgem:
  334. Por consórcios os Teucros não consigam
  335. A Latino embair, ter pé na Itália.
  336. Irmãos tu podes e íntimos amigos
  337. Armar de sanha, desavir famílias,
  338. Com funéreos brandões e crus flagelos;
  339. Artes mil de empecer, mil nomes sabes:
  340. Fecunda a mente excita; a paz desfaze,
  341. A cizânia semeia; estoure a guerra,
  342. Bramindo a mocidade às armas corra.”
  343. De gorgôneo veneno Alecto infecta,
  344. Ao Lácio e a régia voa, entra furtiva
  345. No retiro de Amata, cuja ardência
  346. Dos Frígios contra a vinda e a pró de Turno
  347. Feminis mágoas e ódios recoziam.
  348. Da azul grenha uma serpe a deusa arranca,
  349. No corpo lha insinua, por que o paço
  350. Todo empeste e alborote furibunda.
  351. Côa a serpe entre a veste e o liso seio
  352. Com mole tato, com macio engano
  353. Lhe infunde alma vipérea: em torsal de ouro
  354. Faz-se ao pescoço; num listão se alonga,
  355. Enleia a coma e lhe percorre os membros.
  356. E enquanto alastra a úmida peçonha,
  357. E em ossos e sentidos prende a chama,
  358. Antes que se lhe incenda o ânimo inteiro,
  359. Carpindo a filha e os himeneus troianos,
  360. Com maternal carinho ao rei se exprime:
  361. “A vindiços, tu pai, Lavínia entregas?
  362. Dela e ti não tens dó, nem da mãe triste,
  363. Que ao primeiro aquilão, raptada a virgem,
  364. Verei soltar a vela esse pirata?
  365. Não penetrou na Esparta o pastor frígio?
  366. A Ílio não transportou de Leda a filha?
  367. Que é do amor para os teus, onde a fé pura
  368. E amiúde ao meu Turno a destra dada?
  369. Se hás mister genro estranho, e o padre Fauno
  370. To ordena e está sentado, estranha eu julgo
  371. Qualquer terra ao teu cetro não sujeita:
  372. Do oráculo este o senso. E ao prisco tronco
  373. Se remontamos, de Inaco e de Acrísio
  374. Turno provém, Micenas de permeio.”
  375. Baldadas as razões, que resistia
  376. Firme o rei, pelas vísceras calando
  377. Do serpentino vírus o contágio,
  378. Já danada a infeliz, que espectros vexam,
  379. Na vasta capital erra sem tino.
  380. Sob a torcida trena, em rodopio,
  381. Atentos os meninos ao brinquedo,
  382. Pelo vazio largo o pião tangem,
  383. Que do açoite impelido em círculo anda;
  384. Néscia embasbaca a chusma, e o bando impube
  385. Aviva a golpes o volúvel buxo:
  386. Não com menos presteza ela vagueia,
  387. Corre as cidades e embravece os povos.
  388. Té sanhuda, a fingir de Iaco o influxo,
  389. Com mais nefando arrojo se entranhando,
  390. No monte oculta a filha, por que aos Troas
  391. Roube o tálamo e as núpcias procrastine;
  392. Brada e freme: “Evoé! só, Baco, és digno
  393. Da virgem que maneja os moles tirsos,
  394. Gira em coro, a ti sacra a trança cria.“
  395. Grassa o rumor: as mães da peste acesas,
  396. Por sede nova ardendo aguilhoadas,
  397. Cabelo e colo ao vento, os lares deixam;
  398. Ou peles a trajar, pampínea a lança,
  399. De trêmulo ululado os ares coalham.
  400. Ela entre as mais sustém flagrante pinho,
  401. Raiva, canta o himeneu da filha e Turno;
  402. Torva grita, virando olhos sangüíneos:
  403. “Io latinas mães! quem sois, ouvi-me;
  404. Se Amata vos condói, ou do materno
  405. Jus vos remorde o zelo, nestas orgias,
  406. Desenastrada a coma, interessai-vos.”
  407. Tal entre brenhas e ferinos ermos
  408. Alecto em bacanais punge a rainha.
  409. Dês que a raiva lhe afia, e de Latino
  410. A família e conselho crê revoltos,
  411. Leva-se a turva déia em fuscas asas
  412. Do audaz Rútulo aos muros; que, trazida
  413. Sobre o Noto precípite, aos Acrísios
  414. Danae se diz fundara: a grã cidade
  415. Chamou-se Ardéia, e conserva o claro nome,
  416. Não a fortuna. Ali no alcáçar Turno
  417. Meio sono lograva em noite opaca.
  418. O furial vulto e formas despe Alecto;
  419. Em Calibe, de Juno velha antiste,
  420. Se transfigura: a testa e face obscena
  421. De rugas ara, às cãs veste uma touca,
  422. Prega-lhe em cima um ramo de oliveira,
  423. E ao jovem se apresenta: “Sofres, Turno,
  424. Tantas lidas frustradas, que a fugidos
  425. Passe o teu cetro? Ganhos com teu sangue
  426. O matrimônio e dote, o rei tos nega,
  427. Herda um Teucro no reino. Ora, ultrajado,
  428. Vai-te arriscar; mal pago, as filas tuscas
  429. Rompe, descose; a paz mantém no Lácio.
  430. Isto a grande Satúrnia, enquanto em noite
  431. Plácida jazes, me intimou te expenda.
  432. Arma, arma, sus, a mocidade em campo;
  433. E, à margem pulcra assentes, os caudilhos
  434. Frígios arrasa, e queima as naus pintadas:
  435. Poder alto o prescreve. E se o monarca,
  436. Surdo às promessas, a união te enjeita,
  437. Prove e sinta o que valha em armas Turno.”
  438. Da vate a escarnecer: “Nem tu presumas
  439. Que estar no Tibre a frota é novidade.
  440. Nem cá meter me venhas tantos medos:
  441. Juno etérea de nós se não descuida.
  442. Mas crédula, cediça e carunchosa,
  443. Ralas-te, avó, com pânicos terrores,
  444. Tonta ingerindo-te em reais arcanos.
  445. Vigia os templos, das imagens cura:
  446. Toca aos varões tratar e a paz e a guerra.”
  447. Arde com isto Alecto; e, orando o moço,
  448. Treme todo, hirta a vista: com tais serpes
  449. Erínis silva, tais carrancas abre!
  450. Tardonho ia falar; com flâmeos olhos
  451. De través ela o empurra, duas cobras
  452. Da grenha irriça, o látego estalando,
  453. E com rábida boca assim troveja:
  454. “Eis-me caduca, tonta e carunchosa,
  455. Metediça entre os reis com vãos terrores.
  456. Olha, da estância das irmãs tremendas
  457. Trago em mão guerra e morte.” Inda vozeia,
  458. E a Turno um facho atira de atro lume,
  459. Que fumegante no íntimo cravou-se.
  460. Espantado ele acorda, em suor tendo,
  461. Que dos poros rebenta, ossos e membros;
  462. Louco por armas grita, armas no leito
  463. Busca e em torno. Braveja o amor do ferro,
  464. A ímpia insânia da guerra, e cresce a raiva:
  465. Qual da undante caldeira quando ao bojo
  466. Lígnea flama se aplica estrepitosa,
  467. A água enfurece e ferve, em bolhas salta;
  468. Fúmea espumando a enchente, sem conter-se
  469. Tansborda, e vai-se em túrbidos vapores.
  470. Manda ao rei informar que a paz quebrou-se,
  471. De petrechos prover, guardar a Itália,
  472. Expelir das fronteiras o inimigo;
  473. Contra o Latino e o Teucro ele só basta.
  474. Mal que as ordens promulga e invoca os deuses,
  475. À competência os Rútulos se exortam:
  476. Uns move do mancebo a galhardia:
  477. Uns seu preclaro sangue, ou forte braço.
  478. Alecto, enquanto os seus Turno acorçoa,
  479. Com novo ardil, às asas dando estígias,
  480. Cata o sítio e ribeira onde caçava,
  481. De assalto ou de emboscada, o belo Ascânio.
  482. Presto a cocícia virgem, com sabido
  483. Cheiro iscando os focinhos, de um veado
  484. À pista açula os cães: este o motivo
  485. Que os campônios atiça e a guerra ateia.
  486. Cervo galhudo havia, airoso e lindo,
  487. Que de mama furtado à mãe nutriam
  488. Os filhos de Tirreu, dessas devesas
  489. Couteiro e maioral do armento régio.
  490. De galantes festões ao dócil bruto
  491. Meiga a irmã Sílvia entretecia os cornos,
  492. Penteado e lavado em fonte pura.
  493. Da dona à mesa afeito e manso, errava
  494. Pela selva, e de noite, às vezes tarde,
  495. Se recolhia à casa. Andando a monte,
  496. Brabas de Iulo as perras o acossaram,
  497. Quando, seguindo a veia de um regato,
  498. Se refrescava na virente riba.
  499. Na ânsia de exímios gabos, do arco as pontas
  500. Junta e dispara o caçador a frecha:
  501. Não faltou nume à destra; a rechinante
  502. Cana ao cervo traspassa ilhais e ventre.
  503. A gemer o quadrúpede, sangrado
  504. Procura o noto asilo, e de lamentos,
  505. Quase implorando, enchia alvergue e pátio.
  506. Sílvia acode, e ferindo-se a punhadas,
  507. Aos duros aldeãos clama socorro.
  508. Eles (picava-os a embrenhada peste)
  509. Saem de improviso; de nodosa estaca,
  510. De fustes e tições, do que à mão tinham,
  511. A ira os arma. Tirreu, que um roble em quatro
  512. Rachava à cunha, respirando ameaças,
  513. Ferra o machado, a multidão concita.
  514. Nociva a tempo, da atalaia a Dira
  515. Monta à choça, e do cume a voz tartárea
  516. Na encurvada corneta esforça e tange
  517. Rebate pastoral: todo em redondo
  518. Retremendo o arvoredo, a funda mata
  519. Reboou. Longe o ouviu da Trívia o lago;
  520. Branco de água sulfúrea o Nar e as fontes
  521. O ouviram do Velino; e as mães de susto
  522. Aos peitos os filhinhos apertaram.
  523. Ao rouquejar da tétrica buzina,
  524. Denso tropel bravio, armas sacando,
  525. Concorre, e marcha a mocidade frígia
  526. Do aberto acampamento em pró de Ascânio.
  527. Não já com paus tostados nem cacheiras
  528. Em lide agreste brigam, mas em forma,
  529. Com ancípite ferro e espadas nuas,
  530. Negra áspera seara; e o bronze às nuvens,
  531. Do Sol desafiado, a luz dardeja:
  532. Tal, se alvejando a onda a encrespa o vento,
  533. Incha o mar pouco a pouco e alteia vagas,
  534. Té que o úmido abismo aos astros sobe.
  535. Cai logo na vanguarda o primogênito
  536. Almom Tirrides: pega-se às goelas
  537. Seta estridente, e em borbotões o sangue
  538. Lhe inunda e embarga a voz e a tênue vida.
  539. Entre um montão de mortos jaz Galeso,
  540. Das pazes medianeiro; ausônio velho,
  541. O mais justo e riquíssimo, greis cinco
  542. Balantes amalhando e cinco armentos,
  543. Em lavrar cem arados empregava.
  544. Alecto, pois que o marte igual pendia
  545. Do êxito ufana, assim que a feroz pugna
  546. Tinge e cruenta, funerais primícias,
  547. Deserta a Hespéria, e sublimada às auras
  548. Canta a Juno vitória em tom soberbo:
  549. “Temos no auge a discórdia; agora dize
  550. Que se congracem, que alianças travem,
  551. Quando os Teucros macula ausônio sangue.
  552. Mais farei, se mo aprovas: com rumores
  553. Posso as comarcas abrasar no insano
  554. Furor da guerra, que ajudá-la venham;
  555. Armas espalharei pela campanha.”
  556. Juno atalha: “O terror e a fraude abunda:
  557. Plantada a rixa, mão por mão combatem;
  558. Já funestou fortuna o primo encontro.
  559. Os himeneus dest’arte o guapo filho
  560. D’Acidália festeje e o bom Latino.
  561. Que a soltas vagues pelo sumo Olimpo
  562. Não te permite o padre soberano:
  563. Despacha-te, que o mais fica a meu cargo.”
  564. A tais palavras, do sidéreo assento,
  565. Angui-estalantes asas desferindo,
  566. Para o Cocito a Erínis se encaminha.
  567. Lugar nobre e famoso, o vale Ansancto,
  568. Há da Itália no centro, ao pé de uns montes:
  569. Floresta escura o fecha, e entre penedos
  570. Em vórtices fragosa uma torrente
  571. Pelo meio murmura. Aqui, do torvo
  572. Plutão respiradouro, antro medonho
  573. Profunda, e as fauces pestilentes mostra
  574. Do fendido Aqueronte ampla voragem,
  575. Onde sumiu-se a Fúria, o céu e a terra
  576. Do seu bafejo odioso aliviando.
  577. Nem menos a Satúrnia a luta azeda.
  578. Rui do conflito a multidão campestre,
  579. Morto Almom e deforme de Galeso
  580. Carregando a cabeça, e implora os deuses
  581. E a Latino conjura. No flagrante
  582. Chega Turno, e do incêndio e mortandade
  583. Exagera o temor; que iam bani-lo,
  584. E misturar no trono a raça frígia.
  585. Aqueles cujas mães, de Baco atônitas,
  586. Por ínvias selvas em coréias pulam,
  587. De Amata ao grave nome exacerbados,
  588. Marte infando a incitar, a l’arma gritam,
  589. Contra o fatal augúrio e contra os numes,
  590. E os altos paços à porfia cercam.
  591. Tem-se o rei qual marítimo rochedo;
  592. Rochedo que na mole se sustenta,
  593. Se em ruidosa procela as ondas ladram:
  594. Batida alga flutua e bolha a espuma,
  595. E em vão pedras em roda e escolhos bramam.
  596. Vencer pois tal cegueira não podendo,
  597. Que ia tudo a sabor da fera Juno,
  598. O éter puro atestando: “Ah! fado, exclama,
  599. A tormenta nos força irresistível.
  600. Com sacrílego sangue, ó miserandos,
  601. Vosso erro pagareis: maldição, Turno,
  602. Triste pena te espera; e aos deuses tarde
  603. Suplicarás. À entrada já do porto,
  604. Repouso achei; de funerais ditosos
  605. Só me despojarão.” Nisto, encerrou-se,
  606. E do governo as rédeas abandona.
  607. Costume era do Lácio, e que adotado
  608. Na Albânia o guarda a portentosa Roma,
  609. Lagrimáveis batalhas quando apresta
  610. Ao Geta, Árabe, Hircano, ao Indo eôo,
  611. E reconquista aos Partos as bandeiras,
  612. Duas portas haver, bélicas ditas,
  613. Que santo horror defende e o cru Mavorte:
  614. Barras, ferrolhos cem de bronze as trancam;
  615. Sempre ao limiar de sentinela Jano.
  616. Se o decreta o senado, insigne o cônsul
  617. Com trábea quirinal, gabino cinto,
  618. Os umbrais descerrando rangedores,
  619. Proclama a guerra; guerra os moços bradam,
  620. Roucas éreas trombetas ressonando.
  621. Cabia-lhe aos Troianos declará-la,
  622. Volver os tristes gonzos; mas Latino
  623. Se abstém, recusa o infausto ministério,
  624. E se oculta na treva. Então, baixando,
  625. A rainha Satúrnia arromba mesma
  626. As lentas portas, a couceira quebra
  627. E os ferrados batentes desmantela.
  628. Arde a quieta Ausônia, e armas já pede:
  629. Qual a pé campear, qual furioso
  630. Quer trotar em corcel pulverulento;
  631. Qual dardos unta e limpa, adargas lustra,
  632. Machadinhas amola e partasanas:
  633. Praz desfraldar pendões e ouvir as tubas.
  634. Malham cidades cinco e forjam lanças,
  635. Atina e Ardéia possantes, Crustumério,
  636. Tibur altiva, Antemnas torreada;
  637. Cavos elmos estofam, tecem tarjas
  638. De vergas de salgueiro, finas grevas
  639. De argênteos fios, êneos corsoletes:
  640. Retemperam na frágua o pátrio alfanje:
  641. Assim trocou-se o amor da foice e relha!
  642. Transmite o dado a senha, os clarins fremem:
  643. Quem o casco arrebata, ou rinchadores
  644. Brutos junge, ou rodela e auritrílice
  645. Loriga veste, ou cinge a fida espada.
  646. O Helicon, musas, franqueai-me: ousados
  647. Reis vou cantar, as tropas que os seguiram
  648. Cobrindo os campos; que armas flamejaram,
  649. Que heróis já n’alta Itália floresceram.
  650. Como lembradas sois, contai-mo, ó divas:
  651. Mal nos roçou leve aura do passado.
  652. O ateu cruel Mezêncio é quem primeiro
  653. À testa marcha das falanges tuscas.
  654. Lauso o acompanha, que excedia a todos,
  655. Salvo o garboso Turno, em gentileza;
  656. Lauso, grã picador, monteiro exímio
  657. Conduz em vão de Agila mil guerreiros;
  658. Digno de se gozar do pátrio reino,
  659. E de outro genitor que não Mezêncio.
  660. Após, carro e frisões da palma ornados,
  661. De Hércules belo ostenta o belo filho
  662. Aventino, e em cem cobras traz no escudo
  663. A hidra a pulular, brasão paterno:
  664. Réia ministra a furto na Aventina
  665. Mata o pariu; mulher que ao deus juntou-se,
  666. Depois que, extinto Gerião, tocando
  667. Laurentes lavras o Tiríntio ovante,
  668. Lavou no tusco rio iberas vacas.
  669. Arma os seus de doloso estoque e pilo,
  670. De roliço espontão, sabelo pique;
  671. Embraça, a pé, leonino ingente espólio,
  672. De alvos dentes enrola a hirsuta juba
  673. Ao morrião: tal entra horrendo os paços,
  674. Pelos ombros traçado o hercúleo manto.
  675. Catilo e o bravo Coras, dos tibúrcios
  676. Muros, ditos assim do irmão Tiburto,
  677. Gêmeos de sangue argeu, por densos dardos
  678. Vêm correndo postar-se na vanguarda:
  679. Qual nubígenas rápidos Centauros
  680. Se do pico a descer o Homelo deixam
  681. E Ótris nivoso; ao trânsito se arreda,
  682. Com fragor do arvoredo, a basta selva.
  683. Ceculo o autor não falha de Preneste,
  684. Que em pegulhal montês e ao lar achado,
  685. Rei prole de Vulcano hão crido as eras.
  686. Rústica turba o escolta: os que as alturas
  687. Cultivam prenestinas e a junônia
  688. Gábios, o frígido Ânio, hérnicas penhas
  689. De arroios orvalhadas; os que pasces,
  690. Tu Amaseno pai, tu rica Anâgnia.
  691. Carro, cota ou broquel, não soa a todos:
  692. Uns lívidas espalham plúmbeas pelas,
  693. Quais dois chuços empunham; fulvos gorros
  694. De pele usam lupina; nus da esquerda,
  695. Calçam de crua alparca a destra planta.
  696. O neptúnio Messapo cavaleiro,
  697. A quem prostrar não pode ou ferro ou fogo,
  698. Chama a conflito os povos ociosos,
  699. Instaura as armas. Fesceninas turmas
  700. E Equos Faliscos, os que o monte e lago
  701. Cimínio e as rochas do Soracte habitam,
  702. Flavínios agros e capenos lucos,
  703. Marchando em pelotões, seu rei cantavam:
  704. Como, ao soltarem coli-longos cisnes,
  705. Do pasto à volta, aos ares seus gorjeios,
  706. O Caístro e a pulsada Ásia palude
  707. Ressoa ao longe. Multidão confusa,
  708. Ninguém julgara exército arnesado,
  709. Mas, do alto pego às praias compelida,
  710. Aérea nuvem ser de roucas aves.
  711. Sangue antigo sabino, eis Clauso, donde
  712. A tribo cláudia propagou no Lácio,
  713. Dês que em parte aos Sabinos se deu Roma;
  714. Valendo um batalhão, comanda imensos:
  715. Quirites priscos, de Amiterno as hostes,
  716. As de Ereto e olivífera Motusca;
  717. Dos rosais do Velino e os de Nomento,
  718. Dos penhascosos Tétrica e Severo,
  719. De Fórulo e Caspéria; os que do Himela,
  720. Tibre e Fabaris, bebem; quantos manda
  721. Horta, o latino termo e Núrsia fria;
  722. E os que o Alia entrelava, infausto nome!
  723. Tantas no vítreo Líbio as vagas rolam,
  724. Se Orion cruel se afunde em onda hiberna;
  725. Tantas o estivo Sol praganas torra,
  726. Do Hermo ou de Lícia em lourejantes campos.
  727. Do tropel treme a terra, escudos tinem.
  728. O agamenônio Haleso, a Tróia infesto,
  729. Ata ao carro os frisões, mil feros povos
  730. Leva a Turno: os que o Mássico, mimoso
  731. De Baco, à enxada cavam; Sedicinos
  732. De beira-mar; serranos que expediram
  733. Auruncos padres; íncolas de Cales,
  734. Do vadoso Volturno os arraianos,
  735. O Satículo acerbo, as oscas turmas.
  736. Presa a lento flagelo, aclide jogam
  737. Cilíndrica; na sestra, os cobres adarga;
  738. Com terçado falcato ao perto ferem.
  739. Nem te olvide o meu verso, Ebalo, que houve
  740. Telon se afirma de Sebetis ninfa,
  741. Já velho em Caprea os Télebas regendo.
  742. Da herança não contente, o filho tinha
  743. Muito à larga os Sarrates submetido,
  744. E as sárnias frescas várzeas, os de Rufras,
  745. De Batulo e Celena, e os que eminente
  746. Olha Abela pomífera: catéias,
  747. À teutônica, vibram; capacetes
  748. De cortiça de sôvero os defendem;
  749. Luz bronzeado broquel, luz brônzea espada.
  750. Também te apronta a montuosa Nersas,
  751. Famígero e pugnaz, próspero Ufente;
  752. E, à caça endurecido, hórrido Equícola
  753. De áspera gleba te obedece: armado
  754. O chão labora, de rapina vive,
  755. E sempre folga das recentes preias.
  756. Té de Arquipo seu rei por ordem, o elmo
  757. Lhe ornando fausta oliva, o dos Marrúbios
  758. Sacerdote marchou, fortíssimo Umbro;
  759. Que hidras, víboras de hálito empestado,
  760. Afagando e a cantar adormecia,
  761. Curava a mordidura, e as amansava:
  762. Mas contra a choupa do rojão troiano
  763. Suporíferos cantos nem potentes
  764. Sucos dos marsos montes lhe valeram.
  765. A ti de Angícia bosque, a ti choraram
  766. Do Fucino o cristal e o fluido lago.
  767. De Hipólito eis a prole, o estrênuo Vírbio
  768. Que Arícia a mãe luzido o envia à pugna,
  769. Do luco e, fonte Egéria, onde o criaram
  770. E a placável Diana ara tem pingue.
  771. Por dolos da madrasta, assim que Hipólito,
  772. Dos medrosos frisões rojado, expia
  773. Com sangue o erro paterno, é voz que às auras
  774. E ao conspecto celeste o revocaram
  775. Peônias ervas e amorosa Délia.
  776. De que um mortal das sombras ressurgisse
  777. Indignado o Tonante, o raio acende,
  778. No Orco e Estige o Febígena despenha
  779. Que descobriu tal arte e medicina.
  780. A alma Trívia em secreto à ninfa Egéria
  781. Hipólito encomenda, por que obscuro
  782. E solitário em ítala floresta,
  783. Mudada em Vírbio o nome, os dias passe.
  784. Do bosque ou templo a Febe consagrado
  785. Os cavalos cornípedes se expulsam,
  786. Dês que, espantados por marinhos monstros,
  787. Na praia o dono e o coche espedaçaram.
  788. Árdegos brutos, não obstante, o filho
  789. Exerce e à guerra precipita o carro.
  790. De ponto em branco, à frente, na estatura
  791. Formoso Turno sobreleva a todos.
  792. O elmo sustém, cristado com três jubas,
  793. A Quimera a expirar etnéias chamas:
  794. Ignívoma, eferada, ela mais brame
  795. Quanto em mais sangue o ataque se encruece.
  796. Io em ouro entalhada (ilustre assunto)
  797. Já peluda novilha, alçando os cornos,
  798. O éreo pavês lhe timbra assacalado;
  799. Argos vigia a moça, e entorna o rio
  800. Da urna Inaco pai. Chuveiro espesso,
  801. Ondeia a infantaria, e abroqueladas
  802. Auruncas tropas, Rútulos, Sacranos,
  803. Acaica estirpe, Sículos antigos,
  804. Mais os Lábicos de pintado escudo:
  805. Que, ó Tibre, aram-te os bosques e a numícia
  806. Riba sacra; o Circeu cabeço rasgam
  807. E as rútulas colinas; veigas onde
  808. Jove Anxuro preside, com Ferônia
  809. Amiga dos jardins; por onde a negra
  810. Satura espraia, e vai gelado aos mares
  811. Por imos vales desaguar o Ufente.
  812. Eis Camila belaz, que o volsco impera
  813. Bando eqüestre e o de pé de arnês lustroso.
  814. Dura a virgem no prélio, em roca ou vimes
  815. De Minerva não punha as mãos femíneas.
  816. Pelo agro intacto, mais veloz que o vento,
  817. A voar não lesara a tenra espiga;
  818. Suspensa o pego túmido correra,
  819. Sem que molhasse a desenvolta planta.
  820. Dos tetos, ao passar, do campo os jovens
  821. E esparsas mães, de hiante boca admiram
  822. Como a grã vela e enfeita os ombros lisos,
  823. Como as tranças lhe prende áurea fivela,
  824. Como o lício carcás pendura, e brande
  825. De enxerido ferrão mírteo cajado.

Sobre este livro · 8 notas

Comentário
Começa o poeta pela morte e exéquias da ama de Enéias, cujo nome ficou à cidade e promontório de Caieta, hoje Gaeta; e assim nos recomenda o amor e o respeito que nos cumpre consagrar às mulheres que nutrem a nossa infância com o sangue de seus peitos, ainda que não sejam as que nos geraram. O sensível coração de Virgílio se regozijava de as fazer lembradas, como se vê no livro IV com as de Siqueu e de Dido; como também no V com Pirgo, ama que fora de muitos filhos de Príamo. Nisto deviam refletir aqueles senhores que, depois de darem a seus filhos por amas as suas próprias escravas, as deixam ainda no cativeiro; e alguns, ingratos e inumanos, continuam a usar com elas de todo o rigor! Um homem de bem e dos melhores jurisconsultos que temos, Dr. Caetano Alberto Soares, entre muitas medidas que propôs às Camaras Legislativas para se ir acabando a escravidão, foi a da alforria das amas debaixo de certas regras; mas os seus bons desejos quebraram-se no escolho de inveteradas preocupações. Ó meu país! quando serão livres todos os que repirarem no teu seio!
Comentário
La Harpe, só recomendável no ajuizar a literatura francesa, abraçou a opinião de estudante que os seis últimos livros eram inferiores aos primeiros: hoje em dia é coisa plenamente refutada. Certo é que nos últimos se encontram mais negligências de estilo, porque o autor não teve tempo de as corrigir; e, nada menos, os pedaços principais mesmo em estilo não cedem ao que há de melhor no II, no V, no VI. Quanto à invenção, deste livro em diante o poeta se eleva às alturas de Homero com esforços de engenho. O que sobretudo convém denotar, é a moral pura, o conhecimento do homem e os rasgos sensíveis, que multiplica ainda mais para os fins do seu poema.
Comentário
Pelo que toca à utilidade, são mais profícuas as lições do poeta na segunda metade da sua epopéia. Se nos quer mostrar a obrigação de nos sacrificarmos em defensa de nossos pais, ele nos pinta Lauso, filho do ateu e cruel Mezêncio, e o nobilíssimo jovem executa prodígios de valor e morre vítima da sua ternura. Em Niso e Euríalo vemos o exemplo da amizade mais desinteressada, e em Euríalo o poeta ainda representa a mesma piedade filial. Em Evandro, em Amata e na mãe de Euríalo, o maternal e paternal amor é descrito com as cores mais vivas e delicados matizes: Evandro, guerreiro antigo, chora a morte do seu Palante, e a consolação lhe vem só de que Enéias o vingará em Turno; Amata estremece por Lavínia, mas o zelo da autoridade maternal é que forma o fundo do seu caráter, e é o que a leva a morrer cega de desespero; a mãe do infeliz mancebo, carinhosa e doce, rompe em queixumes, lamenta e se amesquinha, porém conforma-se com a desgraça. O amor da pátria é puro de toda mácula em Enéias; é em Turno misturado com o orgulho e com a ambição; é terníssimo e saudoso em Antor, que expirando se recorda da sua querida Argos.
Comentário
O poeta, que mormente no livro V apresentou os Troianos mais conspícuos, neste sétimo descreve os chefes e tropas italianas. La Harpe, que parece conceder ao autor só o talento do estilo e pouco mais, fala dos chefes da Eneida sem consideração, sem reconhecer a maior dificuldade vencida nos derradeiros livros, e como que leva a mal que Virgílio, deixando os vestígios gregos, celebrasse a Itália e os Italianos, quando este é o fim principal que se propôs. Para esclarecimento dos leitores menos intruídos vou dar uma idéia desses povos e dessas terras, servindo-me dos comentadores e vários outros escritores que trataram da matéria. Este pequeno resumo porém não dispensa os mais curiosos de os consultar especialmente.
Comentário
A terra de Circe é o promontório dito Monte-Circello; e a que d’antes se chamava a cidade de Circe, é hoje Civita-Vecchia. Mr. de Bonstetten, na sua Viagem ao Lácio, se exprime assim: “Tão viva é no povo a lembrança das velhas superstições, que nenhum dos habitantes do Monte-Circelo se atreve a entrar na bela gruta sita no cume, que pensa o povo ter sido a mansão da maga Circe. Propondo a vários camponeses que me acompanhassem à gruta, recusaram-se todos; e aparecendo-nos um soldado de espessos bigodes, então disse eu: Eis aqui um que não se me negará; mas o homem dos bigodes escoou-se à proposta de me seguir à casa de Circe: tanto se prolongam entre os povos lembranças tais!”
Comentário
Quanto ao lugar de cena, diz Mr. de Bonstetten na obra citada: “Hoje a Isola sacra, que divide o Tibre uma légua acima da embocadura, entra pelo mar: no tempo de Enéias a praia estendia-se em linha reta, e o que sai agora desta linha fazia parte do mar. Nas fozes desdobra-se pela arenosa campina um lago entre brejais. Foi neste sítio que Enéias assentou o acampamento; tinha à direita, e um pouco adiante, o rio; o lago por detrás, e um terreno pantanoso estreitíssimo entre o rio e o lago; na frente, a quinhentos passos, o mar: posição admirável, subministrando-lhe a mata meios de se fortificar. — A uma légua do mar se levanta uma cadeia de colinas vulcânicas de uns cem pés de altura; entre elas e a praia corre uma rasa e fértil campina: ei-lo, o teatro dos seis últimos livros da Eneida, que vou descrever qual sería naqueles tempos. Avisto a meus pés, ao poente, um campo semi-cultivado, e a velha floresta semeada de clareiras; um pequeno lago azul se mete em meio de mim e do mar. Volto-me, e vejo a leste uma serrania rodeando a imensa planicie. Então os cabeços, hoje nus, eram sombreados pela antiga mata que, em uma terra meio-laborada, ostentam o cunho majestoso da natureza em sua força nativa, ainda não desfigurada pelo homem. — À meia légua, à esquerda, entre o mar e a colina, vejo na campina uma cidade, é Laurento; ao pé, da banda do mar, avisto uma verde planicie, um Campo de Marte, onde se exercia a mocidade; não longe do lago azul que se dilata para o rio, atrás da cidade, sobre cem altas colunas de madeira se eleva um palácio, o de Pico; assombrado pela velha floresta, que lá das colinas assoberba a paisagem, e se desdobra ao longe para a parte do monte Albano. Descobrem-se na campina, no meio de bosques semi-roçados, agros e pastios, e traços freqüentes de cultura entre o vastíssimo arvoredo. Pascem pelo prado cavalos; além, cabanas redondas, com tetos elevadíssimos de caniços, cercam-se de numerosos rebanhos: um povo guerreiro, semi-pastor, semi-agricultor, habita essas afortunadas ribeiras: o rio só se descortina aqui e ali através das umbrosas e copadas selvas das suas verdejantes margens.”
Comentário
O Lácio continha o território dos Latinos, dos Volscos, dos Equos, dos Auruncos ou Ausônios, e dos Hérnicos; o que se diz hoje a campanha de Roma. Nomeava-se país do Tibre o que hoje é a Toscana. Laurento é agora São Lourenço. “Sobre o assento desta cidade, escreve Mr. Bonstetten, mudei três vezes de parecer, e afinal achei-o um pouco acima do Laurentum de Plínio, para junto das colinas de Décimo, à pequena distância do pântano. Feito este meu trabalho com a leitura reiterada de Virgílio, fui consultar a carta, e lá no lugar do meu Laurento encontrei precisamente o nome de Selva Laurentina, e muito próximo, do lado da colina, o nome de Pico no de Trofusina di Picchi.” — Da fonte Albunea, de águas sulfúreas, nasce o Albula agora la Solforata, que pouco abaixo toma o nome de Tibre. O Numico junto de Lavinio, entre Laurento, o Tibre e a Lagoa, em baixo dos outeiros, desapareceu totalmente sob o solo vulcânico: em um seu pequeno lago é que dizem se afogou Enéias. — Ardea, capital dos Rútulos, conserva ainda o seu nome em uma aldeia; Crustumério, não longe de Roma, suspeita o padre La Rue que é o que chamam agora Marcigliano-Vecchio; Atina, no cimo do Apenino, também conserva o nome; Tibur, hoje Tivoli, é bem conhecida; Antemnas, hoje destruída, era assim dita pela sua situação na confluência do Ânio com o Tibre, ou da parte do país dos Sabinos ou no Lácio mesmo. Estas cinco cidades é que mais se empenharam no fabrico das armas contra os estrangeiros Troianos.
Comentário
Mezêncio, com o seu Lauso, comandava os de Agylla na Etrúria, quase nos confins do Lácio; tendo sido expulso da sua capital Coere, agora Cerveteri. — Aventino comandava uma porção de Sabinos, de lugares ao presente sob o domínio pontifícío. — Céculo comandava enumeráveis camponeses: os de Preneste, hoje Palestrina; os de Gábios, já destruída, entre Roma e Preneste; os das margens do Ânio, ou o moderno Teverone; os de Agnânia, capital dos Hérnicos, povos que habitavam as cabeceiras do rio Amazeno, agora Toppia: Agnânia existe ainda. — Messapo, de origem grega, dito filho de Netuno, comandava os das duas cidades etruscas, Fescênia e Faléria. Em Fescênia é que se inventou o epitalâmio; e, como então esses cânticos eram licenciosos, chamavam-se versos fescininos os versos obscenos. Faléria, agora Fatar, tem suas ruínas entre Viterbo e Montefiascone. Comandava também os do Soracte, ou monte di S. Silvestro; os dos campos Flavínios, só conhecidos pelos versos de Virgílio e de Sílio Itálico; os do lago e monte Ciminio, que alguns suspeitam ser o monte di Viterbo e o lago di Ronciglione; os de Capena, ou Canepina dos modernos. — Clauso comandava os Quírites priscos, isto é os da cidade de Cures, pátria de Numa Pompílio; os de Amiterno, cidade do Apenino, junto do lugarejo di S. Vittorino; os de Ereto, na confluência do Ália e do Tibre, agora Monte rotundo; os de Nomento, ao oriente de Ereto, agora Lamentano; os de Motusca, ou Trébula, além da Lagoa Reatina, agora monte Leone; os do Velino, lago e rio, o lago hoje dito Lago di pie di Luco, o rio conservando o nome; os dos montes Severo e Tétrica, de posição incerta, que alguns crêem ser, aquele o Monte-Negro, este o di S. Giovanni; os de Caspéria, agora Aspera; os de Fórulo, junto de Amiterno, aldeia destruída; os do rio Himella, agora Aia; os do Tibre e os de Fabaris, agora Farfa; os de Nursia, agora Norsia no Apenino; os de Horta, agora Orta na Toscana; os das margens do Ália, agora rio di Mosso, a que o poeta chama infausto, porque ali foram os Romanos desbaratados com grande matança pelos Galos Senonenses, ou de Lião. — Haleso comandava os do Massico, hoje Monte di Dragone; os Auruncos e os Sedicinos, que faziam parte da nação osca, povo habitante das margens do Liris vizinho dos Volscos; os de Cales, agora Calvi, junto a Cápua; os do Vulturno, agora Natarone; os de Saticula, que alguns crêem ser Caserta. — Ébalo comandava os Telebas de Caprea, ilha à entrada do golfo de Nápoles, de fronte de Sorrento; os das margens do Sarno, que atravessa a Campania, banha as ruínas de Pompéia, e se perde naquele golfo, tendo ainda o nome antigo; os de Rufras, hoje Ruvo, da banda da Basilicata; os de Batulo e Celena, lugares desconhecidos; e os de Abela, perto de Nola, ao norte do Sarno, hoje Avella-Vecchia, fértil nas nozes que dela tiraram o nome de avelãs. — Ufente comandava os de Nersas (e não Núrsia, cujos guerreiros eram guiados por Clauso), lugar desconhecido; e também os Equícolas, ou Equos, ao sul dos Sabinos e ao norte dos Hérnicos, nas montanhas em que nasce o Teverone, bem como as águas Marcia e Claudia que os Romanos trouxeram à cidade, por um aqueduto de vinte léguas ainda subsistente. — O sacerdote Umbro comandava os de Marrúbia, hoje Morrea, capital dos Marsos, ao pé do lago Fucino; povos que passavam por feiticeiros e curadores de cobras, como hoje se dizem muitos pretos no Brasil. Perto ficava o bosque de Angícia, ao ocidente do lago Fucino, e junto ao bosque é o moderno Luco. — Turno, general em chefe, comandava especialmente os de Ardea, que o poeta chama Argivos, por ter sido fundada pela Argiva Danae, filha de Acrísio; parte dos Auruncos, que habitavam com os Volscos e outros desde o Tibre ao rio Liris, hoje Garigliano; os seus Rútulos, entre o Numico e a cidade de Âncio, que pertencia aos Volscos; os Sicanos, não os da Sicília, mas um dos povos do Lácio já extintos, e por isso o poeta os chama veteres; os Sacranos, povos desconhecidos, sobre os quais há conjecturas mais ou menos arriscadas; e os Lábicos, da cidade hoje dita Zagarualo, o qual deu seu nome à via Labicana, e estava arruínada no tempo de Virgílio. Satura é porção da Lagoa Pontina, que se estende desde o lugar três tabernas, hoje Cisterna, até Terracina; e recebe dois riachos, o Stura ou Astura, e o Ufente ou Ofanto. — Camila comandava os seus Volscos. O poeta encerra este livro com a descrição da ligeireza desta rainha, e nos deixa gravada na lembrança tal particularidade, que servirá oportunamente. Nesta descrição chama-se o bastão que ela trazia pastoralem myrtum; que eu traduzi mírteo cajado, omitindo o adjetivo pastoral, porque em português cajado só por si quer dizer o bastão do pastor.

Nota a nota · 20 notas

v. 8–20Auras à noite aspiram, nem seu curso ⋯ E enormes vultos ulular de lobos;
Continua a navegação: Enéias sai de Gaeta, e vai costeando a ilha e terras de Circe. O estilo é o mais perfeito; e a idéia de estarem do mar a sentir o cheiro que recendia dos bosques da deusa, a ouvir os gemidos e urros dos miseráveis que ela transformara em brutos, não pode ser mais poética. Fiz tudo por imitar as onomatopéias do original, e não obstante a beleza do português, apenas do verso 16-20 tenho dessa harmonia um fraco arremedo: as consonâncias leonum, recusantum, rudentum, magnorum luporum, são intraduzíveis; e quando a nossa língua cede, será difícil a outra lutar com a latina.
↩ voltar à passagem, v. 8
v. 37–45Que dobrem rumo ordena e à selva aproem,
Enéias alguns versos atrás acaba de avistar o Tibre e o termo de tão comprida viagem, e descreve-se o rio, com suas margens semi-selváticas, de um modo superior. Conhece então o poeta que não se pode já sustentar com as recordações homéricas, mas que lhe cumpre uma nova carreira: a sua empresa vai ser maior, e lhe é mister grande invenção; e, com efeito, nos últimos seis livros o seu talento criador cresce cada vez mais. Daqui em diante se começa a perceber que a epopéia latina, enxertada em grego tronco, tem de produzir ramos e frutos exóticos, belos e saborosos: nós o veremos, e teremos acasião de verificá-lo.
↩ voltar à passagem, v. 37
v. 84Busca o velho assombrado o padre Fauno,
Uso de mefite pelo mau cheiro, assim como se usa de Marte pela guerra, Ceres pela agricultura; pois que Mefite era a deusa do fedor. Para tudo havia um deus entre os antigos.
↩ voltar ao verso 84
v. 116–117Trincada a exígua Ceres, com audazes
Esta passagem tem sido grandemente censurada; mas os defensores dela são homens da plana de Addisson e de Voltaire, que nos fazem ver que Virgílio não se podia afastar da tradição, e isto, que nos parece pueril, estava consagrado nas antiguidades romanas. Quanto ao alludens, eu o tomo na acepção de brincar, de gracejar. Iulo, observando que se tinham comido as mesmas côdeas ou fundos das empadas, a que chamavam mesas, disse brincando: “Hui! que as mesas tragámos.” E o pai, ouvindo aquelas vozes, exclamou e conheceu a maneira que buscara o fado para verificar-se a predição. Não estou pela hipótese do nosso digno compatriota o Snr. João Gualberto, de que Iulo com o seu dito aludia à mesma predição; porque acho mais natural que um menino gracejasse à vista das mesas de massa que se tinham tragado, e que sem pensar no fado então se exprimisse. Enéias, sobre quem recaíam os maiores cuidados, é que devia dar primeiro pelo cumprimento dos oráculos; tanto assim, que meditando no caso, rompeu na exclamação. Ora, não é provável que o mesmo que Iulo tinha percebido imediatamente, só o fosse depois de algum espaço por Enéias, que aliás pensava amiúde nessa fome, que o obrigaria a roer as próprias mesas. Sigo portanto a interpretação antiga, que é a de Annibal Caro e do maior número; enjeitando igualmente a de João Franco, que dá ao alludens a significação de aludir, mas traduz no sentido de que Iulo não aludia, quando o Snr. João Gualberto opina que aludia; o que é inteiramente oposto. A acepção de alludere por gracejar é corrente nos autores latinos.
↩ voltar à passagem, v. 116
v. 128–129Te obrigue a fome a consumir as mesas,
“Aqui há, diz Mr. Tissot, uma singular inadvertência. Como o príncipe, que ouvira à Sibila: “Guerras, hórridas guerras; vejo o Tibre a volver ondas de sangue humano!...” Como o guerreiro que tem um rival que debelar, povos que submeter, uma esposa e um trono por conquistar, pode afirmar que toca o fim dos seus trabalhos?” — Além de que positura modum não é exatamente tocar o fim; o poeta só fala dos trabalhos de uma longa viagem de sete anos, a qual se acabou desde o momento em que, reconhecendo o lugar próprio para se fortificar, Enéias saudou a terra prometida; mas, quanto à guerra, era um novo trabalho que nem começado estava. De mais, o chefe, que via findar-se a navegação perigosa e prolixa, para animar os seus usa de termos que indiquem e persuadam que o restante não é de tanta monta como as lidas passadas. Não sei como faz tais reparos quem está habituado ao estilo conciso do poeta, e em geral dos escritores latinos. E não se poderá acrescentar que esse guerreiro, que tanto estremeceu com a idéia de morrer no mar sem glória nem sepultura, agora avaliava em bem pouco os perigos dos combates, que seu valor esperava superar? Esta suposição realça-lhe o heroísmo, e como o texto em nada a desmente, não é muito atribuir um tal pensamento a tão sublime autor.
↩ voltar à passagem, v. 128
v. 147Do alto sinal folgando, o bodo instauram,
Cratera era um vaso maior que a taça (patera), e nela vinha para a mesa o vinho, e dali se iam enchendo os copos. Uso às vezes do termo latino cratera; mas, quando não cabe no verso, nunca o substituo por taça, mas por copa. Ainda que vulgarmente se confundam estes dois vasos, a taça é mais pequena, e a copa vem do latim cupa, que significa uma talha, ou um vaso de tanoa.
↩ voltar ao verso 147
v. 312Deprecar a quem for já não duvido:
A fala de Juno, e em especial este verso tem sido por todos admirado. A deusa, não podendo alhures encontrar auxiliares contra Enéias, convoca Alecto para acender a discórdia e a guerra. A ação ganha aqui novo interesse, e começamos a enxergar os novos trabalhos que têm de sobrevir aos Troianos. Não posso alcançar o porque vários críticos acham este livro um tanto frio: só vejo que o poeta segue a sua fábula com discrição, e destribui sabiamente as partes, sempre com o fito no desfecho da obra.
↩ voltar ao verso 312
v. 351–405Côa a serpe entre a veste e o liso seio ⋯ Jus vos remorde o zelo, nestas orgias,
Principia com Alecto. Esta introduz o seu veneno em Amata. Amata foge com Lavínia, depois que, buscando reduzir o marido a favor de Turno, não o pôde conseguir. Sacrifica a Baco, excita as matronas contra Enéias, promete que a filha só será de seu sobrinho Turno. Tudo isto é com uma rapidez, com um estilo, com movimentos inimitáveis; mas a crítica tem censurado a passagem em que a rainha, desesperada e a vaguear pela capital, é comparada a um pião, que rodopia tocado pela trena dos meninos. Delille, com prudente reserva, diz que não ousa afirmar que esta comparação quadre perfeitamente à poesia épica; mas que é mister convir que o vulgar do assunto é compensado pela riqueza das imagens e das expressões; podendo ajuntar-se que o poeta latino procurava rebaixar o caráter de Amata, e convinham-lhe para sujeito da comparação as coisas mais comuns.
↩ voltar à passagem, v. 351
v. 406–474Desenastrada a coma, interessai-vos.” ⋯ Mal que as ordens promulga e invoca os deuses,
Depois que Alecto espalha a desavença no seio da família de Latino, toma a figura de uma velha sacerdotisa de Juno, e vai excitar a Turno. É aqui principalmente que a pintura desta Fúria sobe ao cume da perfeição. Os discursos dela e de Turno, o acordar deste bradando por armas e procurando-as em torno do leito, as ordens violentas e imediatas, a comparação com a água a ferver e a trasbordar da caldeira, as imagens que o poeta emprega, a pronta obediência dos Rútulos, tudo é da mais bela composição; tudo pressagia a procela que vai desfechar. Este livro sétimo é o preparativo para os outros; faz o ofício do primeiro ato de uma tragédia; e, como deixa em suspenso o leitor, alguns não o apreciam devidamente: cumpre considerá-lo em relação aos subseqüentes, para se avaliar todo o artifício do autor.
↩ voltar à passagem, v. 406
v. 475–504À competência os Rútulos se exortam: ⋯ Procura o noto asilo, e de lamentos,
Para servir a Juno, Alecto não descansa: vai ter ao sítio em que Iulo caçava, e pondo o cheiro de um veado nos focinhos dos cães, os faz correr atrás dele; Iulo, indo após os cães, atira e mata o veado: este por acaso era um cervo manso da filha de Tirreu, maioral e couteiro do rei; e daqui se originou uma peleja entre os aldeãos latinos, excitados pelos queixumes da dona do cervo, e os Troianos que vêm em defesa de Ascânio. Macróbio, com outros críticos, julga pequena a causa da guerra; sem advertir que esta não foi a causa, mas a ocasião: a causa era o ódio aos estrangeiros, e o excitamento que recebia o povo por via dos partidários de Turno. Quanto à ocasião do combate, isto é a morte do cervo, digo não só que muitas vezes são motivo de guerra coisas bem insignificantes, como a este propósito observou o doutíssimo La Cerda, mas que Virgílio o escolheu otimamente, por duas razões: primeira, entre aldeãos simples, em uma sociedade ainda pouco polida, a morte de um animal estimado pela filha de quem os governava, era um estímulo poderoso; a segunda é que desta ficção nasceu um contraste que realça os horrores dos conflitos: folga a imaginação de passar dos queixumes de Silvia, de cenas campestres e caseiras, ao ruído das armas e aos feitos mais heróicos. Se em La Fontaine sobremaneira nos enternece a águia a quem quebraram os ternos ovos, sua doce esperança, este quadro em Virgílio não enternece menos, e o enternecimento se nos prolonga mais: o veadinho de Sílvia parece um menino que, sendo ferido, vem chorando buscar asilo ao colo de sua mãe. Sente-se com delícia reaparecer aqui o talento bucólico do cantor das maravilhas de Roma. Estou persuadido de que esta passagem serviu, não para o entrecho e a invenção, mas para o tom com que foi escrito um dos mais belos dramas da nossa língua, a pastoral intitulada Licoris do suavíssimo Quita. Malditos críticos! têm estupendo saber, vastos conhecimentos; mas não sei que lhes falta sempre, ao menos à máxima parte: os poetas se entendem melhor uns aos outros.
↩ voltar à passagem, v. 475
v. 511–518A ira os arma. Tirreu, que um roble em quatro
Este lugar, onde se descreve Alecto subindo a uma choça e tocando rebate, fecha-se com o verso “Et trepidae matres pressere ad pectora natos.” Adaptei-lhe um de Camões, e assim faço algumas vezes.
↩ voltar à passagem, v. 511
v. 535–600Cai logo na vanguarda o primogênito ⋯ Com sacrílego sangue, ó miserandos,
Depois que Alecto, havendo plantado a rixa, desce ao Tártaro por ordem de Juno, os aldeãos trazem o corpo de Almon e a cabeça de Galeso, e instigado por Turno, quer o povo obrigar o rei a declarar a guerra: Latino resiste, mas abandona as rédeas do governo, amaldiçoando o seu principal motor. Este abandono, aliás próprio da fraqueza do velho, era necessário para deixar a Turno livre e senhor da ação. Tudo isto é calculado com maravilhoso discernimento. Alguns censuram o caráter de Latino, como se a epopéia devesse apresentar somente heróis e valentões, sem aproveitar-se dos contrastes e desprezando a ocasião de pintar o homem segundo as diferentes idades e as circunstâncias. A velhice e a longa paz tinham a Latino tirado a energia e as forças.
↩ voltar à passagem, v. 535
v. 601–640Vosso erro pagareis: maldição, Turno, ⋯ Retemperam na frágua o pátrio alfanje:
Descreve-se aqui o uso romano de abrir o cônsul as portas do templo de Jano ao declarar-se a guerra; e, segundo o seu costume, Virgílio entronca esse uso na alta antigüidade, afirmando que a Latino pertencia desencerrar aquelas portas, mas que, recusando ele, a mesma Juno é que desmantelou os batentes e a couceira. Para não alongar estas notas, omiti muitas dessas alusões e estilos; mas, advertidos como estão os leitores, podem recorrer aos vários citados escritos, ao menos ao padre La Rue. Todos os preparativos, que se fazem nas diferentes cidades, são aqui designados; e assim pode o poeta lisonjear a nação inteira, falando dos lugares aos que eram naturais de cada um deles. Deste artifício está cheia a Eneida; o que mostra quão nacional devera ser naquele tempo. Neste ponto os Lusíadas não têm igual, exceto nas três epopéias mais antigas, e ainda nos Martyres.
↩ voltar à passagem, v. 601
v. 641–646Assim trocou-se o amor da foice e relha!
Nos princípios do livro há uma invocação a Erato, a musa do amor, por isso que o motivo da guerra ia ser a rivalidade por causa de Lavínia; invocação que não tem agradado a muitos críticos, sendo do rancho Mr. Tissot. De corrida lembrarei que nos poetas latinos trocam-se as musas, como se observa no lírico Horácio, que invoca Melpomene, Euterpe, Polínia e outras; e é provável que Virgílio, autor do epigrama sobre o emprego das nove irmãs, conhecesse melhor esses usos do que os nossos críticos modernos. Nestes seis versos agora o poeta as invoca todas; porque entra a falar dos guerreiros e dos exércitos, e sente que, indo emular a Homero na Ilíada, necessitava do auxílio do coro inteiro.
↩ voltar à passagem, v. 641
v. 647–654Reis vou cantar, as tropas que os seguiram
A descrição dos chefes que têm de combater os Troianos, principia de Mezêncio e de Lauso, dois dos mais belos caracteres da Eneida e da poesia épica. Em sete versos o autor nos diz quanto é mister, e só no advérbio nequicquam nos deixa entrever toda essa catástrofe: mais uma prova de que não podemos apreciar este livro sem reportarmo-nos aos restantes. La Harpe, com a leviandade que o distingue, depois de falar muito mal da marcha do poema que ele não meditou, acrescenta que Virgílio espalha algum interesse sobre o jovem Palante, filho de Evandro: sobre Lauso, filho de Mezêncio; sobre Camila, rainha dos Volscos: o crítico passa em silêncio os mesmos Evandro e Mezêncio, que não podem ser mais interessantes; não reparou no caráter de Amata, e sobretudo na grandeza de Turno, que por vezes contrabalançaria a de Enéias, se a justiça e a moral não realçassem o herói troiano. Mas qual é hoje o homem de gosto que dá peso ao que delirou La Harpe sobre os escritores da antiguidade?
↩ voltar à passagem, v. 647
v. 655–669Salvo o garboso Turno, em gentileza; ⋯ Arma os seus de doloso estoque e pilo,
Outro chefe é o formoso Aventino, filho de Hércules e da ministra Réia. Alguns heráldicos, por esta passagem, pretendem que a armaria sobe aos tempos heróicos: não vejo porém prova bastante para concluir que esses brasões antigos se perpetuassem nas famílias. — Chamavam-se dolones certos bastões de ponta de ferro, ocos e contendo em si uma espécie de estoque.
↩ voltar à passagem, v. 655
v. 691Carro, cota ou broquel, não soa a todos:
Virgílio traz algumas vezes este verso: “At Messapus equum domitor, neptunia proles.” Ora eu o traduzo ao pé da letra, ora digo só o picador Messapo, ora o Netúnio Messapo, ora o cavaleiro Messapo; pensei que, uma vez traduzido literalmente, não era preciso que sempre o fosse. O poeta Ênio, dizem, contava Messapo entre os seus avós, e é por isso que Virgílio compara os soldados dele a um bando de cisnes que louvam e cantam seu rei.
↩ voltar ao verso 691
v. 706–722O Caístro e a pulsada Ásia palude ⋯ E os que o Alia entrelava, infausto nome!
Aqui louva-se Clauso, outro chefe contra Enéias, de quem se diz proceder a família Cláudia, poderosíssima em Roma, aparentada com Lívia mulher de Augusto, e da qual nasceram muitos homens célebres em mal e em bem. Observe-se a arte com que Virgílio mistura as famílias mais consideráveis, mostrando que descendiam tanto dos Troianos como dos Latinos, e que o povo romano estava por tal modo confundido, que em separado não existia raça vencida, nem raça vencedora. Isto é já um preparativo para a transação proposta por Juno e aceitada por Júpiter no livro XII, isto é que se casasse embora Enéias com Lavínia, mas que o Lácio e os Latinos não perdessem o seu nome; que Roma herdasse conjuntamente as honras do sangue teucro e do italiano. As origens das diferentes casas, de que se trata não só no V, mas neste e em alguns outros livros, deviam agradar muito na corte de Augusto; e os críticos modernos, que a elas têm pouco respeito, não se colocam naquela época para poderem melhor apreciar esta parte da Eneida. O ter-se considerado a nação romana como homogênea, posto que fosse composta variadamente, era da mais razoável política; política bem diversa da de muitos nobres franceses, que se jactam de provir dos conquistadores do seu país, que se crêem de outra massa que a do povo; e até alguns têm tido o descoco de escrever que as classes menos ricas ou as mais pobres, sendo a raça dos escravos das Gálias, têm obrigação de trabalhar para eles! Ora, os nossos fidalgos do Brasil, que se vão aumentando prodígiosamente, virão algum dia a afetar semelhantes pretenções?
↩ voltar à passagem, v. 706
v. 723–732Tantas no vítreo Líbio as vagas rolam,
O cabo Haleso conduzia uma grande multidão de povos diferentes, armados pela maior parte de aclides e de terçados falcatos; a aclide era ou uma espécie de lança ou de clava com puas, atada a uma correia, pela qual tornava a ser colhida a clava depois do tiro; o terçado falcato era um alfanje curvo como uma fouce, donde lhe vinha o nome.
↩ voltar à passagem, v. 723
v. 741–743Já velho em Caprea os Télebas regendo.
Catéia era uma lança pesada, de pouco alcance, mas de grande força, usada pelos Galos e os Teutônicos: adotei o termo, porque não há outro equivalente. Peltae eram broquéis em forma de meia lua ou de folha de hera: falando de Pentesiléa no livro I, eu traduzi lunados broquéis; aqui omiti o adjetivo por brevidade, e mesmo porque broquel é já um escudo mais pequeno, e não comprido como o escudo propriamente dito, ou como a adarga, e portanto mais semelhante ao que os Latinos chamavam pelta.
↩ voltar à passagem, v. 741
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