Tu não menos, Caieta ama de Enéias
825 versos · 28 notas do tradutor
- Tu não menos, Caieta ama de Enéias,
- Nossas praias morrendo eternizaste;
- Guarda o lugar teu nome, e se isto é glória,
- Na magna Hespéria os ossos te assinala.
- O pio aluno, exéquias celebradas,
- Túmulo erguido, assim que os mares jazem,
- A velejar prossegue e o porto larga.
- Auras à noite aspiram, nem seu curso
- Cândida a Lua nega; o ponto esplende
- Ao trêmulo clarão. Circéias terras
- Costeiam-se, onde lucos inacessos
- Com aturado canto a rica filha
- Do Sol atroa, e nos soberbos tetos
- Odoro cedro em luz noturna queima,
- Corre com pente arguto as finas teias.
- Dali gemidos a se ouvir, e as iras
- De horrentes leões cadeias recusando
- E a desoras rugindo, e nos presepes
- Ursos raivar, sanhudos grunhir cerdos,
- E enormes vultos ulular de lobos;
- Que a seva deusa com potentes ervas
- De homens os transvestira em brutas feras.
- Por que arribada o encanto a boa gente
- Não padeça, nem toque as diras plagas,
- Favorável Netuno encheu-lhe as velas,
- E dos férvidos vaus a impeliu fora.
- Já na arraiada roxeava o pego,
- Fulgia em rósea biga a ruiva Aurora:
- Acalma o vento, nem sequer bafeja,
- E tonsas lutam pás no lento mármore.
- Do largo extensa mata avista Enéias;
- Dela com fluxo ameno o Tiberino,
- Verticoso e veloz, de areias flavo,
- Ao mar prorrompe; ao álveo e borda afeitas,
- Várias aves por cima em cerco voam,
- Com meigo trino as auras adoçando.
- Que dobrem rumo ordena e à selva aproem,
- E entra contente pelo umbroso rio.
- Eia, Erato, exporei do Lácio antigo
- Os reis, o estado, a sucessão de coisas,
- Quando aportou n’Ausônia a estranha armada;
- Vou do conflito recordar o exórdio.
- Tu diva, tu me inspira: hórridas guerras
- Dirá teu vate, os prélios, os monarcas
- Ferozes por seu dano; as tuscas hostes,
- A coalição direi da Hespéria em armas.
- Mor assunto se me abre, é mor a empresa.
- Velho, em sossego e paz Latino as lavras
- E cidades regia. É voz que a ninfa
- Marica de Laurento houve-o de Fauno;
- A Fauno gerou Pico; e este, ó Saturno,
- Pai te refere: da família és tronco.
- O masculino herdeiro, inda em agraço
- A sorte lho tirou: gentil princesa,
- Para um varão madura e já completa,
- Era o esteio da casa e amplos domínios.
- Da flor d’Ausônia e Lácio pretendida,
- Pede-a, em avós e avoengos poderoso,
- Turno ante os mais pulquérrimo; a quem genro
- Almejando a rainha, apressa as bodas:
- Obstam porém terríficos portentos.
- De grenha santa, em fundo claustro havia,
- Com temor conservado, um lauro anoso;
- Que ali constava, ao começar os muros,
- Achara e a Febo o dedicou Latino,
- Nomeando Laurentes os colonos.
- No tope, ó maravilha! os ares fluidos
- Nuem de abelhas a zumbir sulcando,
- Sentou-se, e em cacho pés com pés travados,
- Da ramagem pendeu súbito enxame.
- Logo um vate: “Com tropas chefe externo
- Chegar, donde as abelhas, divisamos,
- E em senhor se erigir do sumo alcáçar”.
- E também, junto ao pai Lavínia virgem
- Com tedas castas incensando as aras,
- Fogo, ó pasmo! às madeixas ateado,
- O ornato viu-se em crepitante chama;
- E ao de rubis diadema e régio crino
- Acesa, em fumo e pardo lume envolta,
- Espalhar pelo templo a labareda.
- Terror e espanto foi: de ilustre fama
- E no porvir ditosa a decantavam;
- Mas que atroz guerra prometia ao povo.
- Busca o velho assombrado o padre Fauno,
- E o consulta nos bosques d’alta Albúnea;
- Que, floresta a maior, com sacra fonte
- Soa, e tetra mefite exala opaca.
- Aqui gentes d’Itália, a Enótria em peso,
- O oráculo interrogam. Dons trazendo
- O sacerdote aqui, se em muda noite
- De vítimas em peles estradadas
- Se encosta e se adormece, avoejantes
- Vê mil fantasmas, vozerias ouve,
- Logra aos deuses falar, e no imo Averno
- A Aqueronte conversa. Aqui, rogando,
- Bimas do uso o rei mata ovelhas cento,
- Nos couros deita-se e alastrados velos.
- De repente uma voz sai da espessura:
- “Nos tálamos dispostos não confies,
- Prole minha, e em nenhum latino genro;
- De fora outros virão que o nosso nome
- Exaltem com seu sangue, e em netos brotem
- A cujos pés se curve e rode quanto
- De um ao outro oceano o Sol perlustra.”
- Do pai Fauno em silêncio o aviso dado,
- Consigo ele o não cala; e pela Ausônia
- A revoar a Fama o assoalhava,
- Quando a frota os mancebos laomendôncios
- Da riba ao marachão gramíneo ataram.
- O herói, seus capitães e o lindo Iulo,
- Sob árvore copada se acolheram;
- Na relva, ensina-o Jove, às iguarias
- Candiais tortas sotopõem, e o fárreo
- Solo de agrestes frutas acogulam.
- Como os fizesse a míngua dos manjares,
- Trincada a exígua Ceres, com audazes
- Queixos e mãos violar a fatal crusta,
- As orlas não poupando e chatas quadras:
- “Hui! que as mesas tragámos” diz brincando,
- Não mais, Iulo. O anúncio as lidas finda;
- E o pai, que o recolheu da afável boca,
- Do nume se reteve estupefato;
- Clama enfim: “Salve, terra a nós fadada;
- Salve, troianos e fiéis penates!
- Já temos pátria e casa. Hoje recordo
- As predições de Anquises: — “Quando, ó filho,
- Gasto em praia estrangeira o mantimento,
- Te obrigue a fome a consumir as mesas,
- Descanso espera, o assento aí te lembre
- De trincheiras munir”. — Esta era a fome,
- O extremo que traria aos males pausa.
- Ledos, ao romper d’alva, esta paragem,
- O povoado e a gente, investiguemos,
- Do porto a dentro esparsos discorramos.
- Toca a brindar a Jove e ao divo Anquises;
- O festim renovai, reponde os vinhos.”
- Depois, de verde as fontes enramando,
- Ora ao gênio do sítio, e à prima deusa
- Telus, e a ninfas e ignorados rios;
- Chama a Noite e os da Noite orientes signos,
- A Ideu Jove em seguida e a Madre Frígia,
- Do Érebo e Olimpo os seus progenitores.
- Três vezes claro toa, e a mão suprema
- Vibra auriardente lampejante nuvem.
- Que é tempo enfim de inaugurar seus muros
- No exército o rumor súbito lavra.
- Do alto sinal folgando, o bodo instauram,
- Rasas de vinho as copas engrinaldam.
- Mal que alvorece e a tocha eoa raia,
- Toda a comarca e litoral exploram:
- Do Númico este o lago, o Tibre é este,
- Que dos fortes Latinos banha as terras.
- O Anquíseo então, nas filas escolhidos,
- Embaixadores cem com dons à régia
- A pedir paz envia, da paládia
- Rama velados. Rápido obedecem.
- Ele com fosso humilde risca os muros,
- E a modo de arraial na praia o assento
- Prepara e o cinge de liçada e valo.
- Já, vencido o caminho, os messageiros
- Torres e árduos palácios descobriam.
- Chegam-se: às portas a puerícia e a flórea
- Juventude a cavalo se exercitam;
- Carros domam na arena, ou rijos arcos
- Nervudo o braço tende e frechas tira;
- Desafiam-se ao curso e ao pugilato.
- Um pica o bruto, e entrados anuncia
- Varões de porte em peregrino trajo:
- Colocado o ancião no avito sólio,
- Os admite e recebe. O teto augusto,
- Desde o laurente Pico, em cem colunas
- Sobranceiro e sublime, o sombreavam
- Selvas com pio horror sempre acatadas.
- Ali tomar primeiro o cetro e os fasces
- Por feliz tinham: cúria, templo, sala
- Do sacrifício, ao longo ali das mesas,
- Morto o carneiro, os padres se assentavam.
- Por ordem no vestíbulo as efígies,
- De antigo cedro, estavam dos maiores:
- Ítalo, o vinhateiro pai Sabino
- Tendo em baixo o podão, Saturno idoso,
- Bifronte Jano, e quanto rei primevo
- No pátrio marte prodigou seu sangue.
- Em sacros postes muitas armas pendem,
- Chuças, machadas, elmos e cocares,
- Ingentes aldrabões, troncados rostros,
- Cativos coches, e broquéis e alfanges.
- Com lítuo quirinal e em trábea estreita,
- Pico, ancília na esquerda, éqüite ardido,
- Lá pousava; a quem Circe, malograda
- No amoroso apetite, com feitiços
- D’áurea varinha ao toque tornou ave
- E as asas lhe esmaltou. Neste recinto
- Foi que Latino, os teucros introdutos,
- Da sede régia plácido lhes fala:
- “Dardânidas (a pátria, a origem vossa
- Cá não se ignora, a fama vos precede),
- Que demandais? qual trouxe à praia ausônia
- Causa ou falta os baixéis por vaus tão cegos?
- Fosse erro de caminho ou tempestade,
- Contratempos do triste navegante,
- Entrastes este rio, e já no porto
- O hospício não fujais; sabei que a gente
- Latina de Saturno, por si reta,
- Não por temor da lei, tem-se aos ditames
- Do velho deus. Lembrado estou que auruncos
- Padres contavam-me (antigualha obscura)
- Que destes agros Dárdano entranhou-se
- No Ida frígio e na que ora é Samotrácia;
- E, do tirreno Córito emigrando,
- Hoje aras tem, numera-se entre os divos,
- Com trono de ouro na estelante corte.”
- Presto Ilioneu: “De Fauno herdeiro egrégio,
- Fluctívagos, ó rei, não foi tormenta,
- Astro ou rota falaz, que às vossas bordas
- Nos lançou; de pensado e acordes vimos,
- Expulsos do maior de quantos reinos
- Do balcões do levante o Sol mirava.
- De Jove oriunda, a geração dardânia
- Do avô Jove se orgulha; e o tróico Enéias,
- Garfo real de Jove, a ti nos manda.
- Sobre os campos ideus que atroz borrasca
- Desfechou de Micenas, por que impulsos
- D’Ásia e Europa os dois orbes se encontraram,
- Quem quer o ouviu que nos confins da terra
- Seja além do oceano, ou se entre as quatro
- Na zona extensa o torre iníquo Febo.
- Por vastos mares do dilúvio escapos,
- Sede exígua imploramos para os deuses,
- Comum água, ar patente, inócua praia.
- Não te seremos pejo, e mais te ilustras;
- Perene gratidão fará que Ausônia
- De agasalhar a Tróia não se pese.
- De Enéias pela destra invicta o juro,
- Se é que fida ou valente algum provou-a,
- Bem povos (não desprezes os que temos
- Estas fitas nas mãos, na boca preces),
- Bem nações para sócios nos rogaram;
- Mas fado urgente ao solo teu nos guia:
- Dárdano, daqui nado, aqui reverte;
- De Apolo é mando expresso a fonte sacra
- Buscarmos do Númico e o tusco Tibre.
- Da passada fortuna aceita uns restos,
- Salvos de Ílio incendida: o padre Anquises
- Libava por este ouro ante os altares;
- Ao legislar aos congregados povos,
- Eis de Príamo o cetro, eis a tiara,
- Eis, das Frígias trabalho, as vestiduras.”
- A vozes tais, Latino o rosto abaixa,
- Quedo olhos volve atento; nem priâmeo
- Cetro ou bordada púrpura o comove,
- Quanto o consórcio e tálamo da filha;
- E de Fauno medita os vaticínios;
- Que este o fadado genro é peregrino,
- Trazido ao reino por iguais auspícios,
- Cuja ilustre progênie valerosa
- Pujante ocupe o âmbito do mundo.
- “O céu nossos começos, clama alegre,
- E agouros seus prospere! O desejado
- Haverás, Teucro. Os dons não menosprezo;
- Nem, reinando Latino, agro ubertoso
- Ou troiana opulência há de faltar-vos.
- Se Enéias tanto a mim ligar-se anela,
- Venha, hóspede me seja; nem do amigo
- Tema o aspecto: em abono da aliança
- Do monarca fiel me sobra a destra.
- Tenho uma filha (dai-lhe este recado)
- Que unir-se a algum dos nossos mil prodígios,
- Do ádito pátrio as sortes, não consentem:
- Varões de longe, no país estantes,
- Exalçarão seu sangue e o nosso nome.
- Se a mente bem atina, e é, como creio,
- Ele o genro fatal, gostoso o adoto.”
- Cessa; e escolhidos em corcéis trezentos,
- Os mais nédios que tinha às mangedouras,
- Um alípede oferta a cada Frígio,
- De ostro e matiz lustroso acobertados:
- Aos peitos lhes caindo áureas coleiras,
- De ouro os arreios têm, fulvo ouro tascam.
- Um coche a Enéias manda, e exala o tiro,
- Do éter semente, pelas ventas fogo;
- Casta que ao pai furtou dedália Circe,
- De submetida mãe bastardas crias.
- Com tais dons, a cavalo os enviados,
- Portadores de paz, contentes voltam.
- Eis que de Argos ináquia parte a seva
- De Jove esposa; e avista lá dos ares,
- Desde o Pachino sículo, os Troianos
- E ovante Enéias, já desembarcados,
- Na terra a edificar, seguros dela.
- De ânsia pára; e, a cabeça meneando,
- Queixumes derramou do aflito peito:
- “Raça infanda! ao meu fado avesso fado!
- Ah! nas campinas do Sigeu puderam
- Sucumbir? ser tomados, ser cativos?
- Porventura abrasada os queimou Tróia?
- Franca via entre o ferro e o fogo acharam.
- Lasso, eu cuido, afinal meu nume cede;
- Saciada afrouxei, depus meus ódios...
- Como! ousei contrastá-los no desterro,
- No undoso ponto os persegui fugidos:
- Esgotei mar e céu para vingar-me.
- Sirtes, Caribdes, Cila, que prestaram?
- Do pélago e de mim zombam no grêmio
- Do caro Tibre. Os Lapitas gigantes
- Marte acabou; rendeu-se a Calidônia
- De Febe às iras: para um tal castigo
- Lapitas, Calidônia, em que pecaram?
- Qui-lo assim meu consorte; e a mim rainha,
- Que meios não poupei, que empreendi tudo,
- Vence-me Enéias! Meu poder se é pouco,
- Deprecar a quem for já não duvido:
- Vou, se não dobro o céu, mover o inferno.
- Separá-lo do Lácio me proíbem;
- Sua Lavínia seja: a dita ao menos
- Protrair, perturbar, não me é defeso;
- Os povos soverter dos reinos ambos:
- Com tais pareias se alie o genro e o sogro.
- Sangue rútulo e teucro o dote sendo,
- Belona, ó virgem, prônuba te espera.
- Não só fogos jugais, de um facho prenhe,
- Pariu Cisseide; a Cípria houve outro Páris,
- Tição funesto aos recidivos muros.”
- Vociferando horrenda baixa às terras.
- Do Orco e antro furial avoca Alecto,
- Que maldades luctífica respira,
- Guerras, traições, rancor; monstro que odeiam
- As tartáreas irmãs e o rei das sombras:
- Com tanto esgar se afeia e a testa enruga,
- Tanto a enegrecem pululantes cobras!
- Juno assim a aguçou: “Da Noite filha,
- Para não sofrer quebra de honra ou fama,
- Serviço especial me outorga, ó virgem:
- Por consórcios os Teucros não consigam
- A Latino embair, ter pé na Itália.
- Irmãos tu podes e íntimos amigos
- Armar de sanha, desavir famílias,
- Com funéreos brandões e crus flagelos;
- Artes mil de empecer, mil nomes sabes:
- Fecunda a mente excita; a paz desfaze,
- A cizânia semeia; estoure a guerra,
- Bramindo a mocidade às armas corra.”
- De gorgôneo veneno Alecto infecta,
- Ao Lácio e a régia voa, entra furtiva
- No retiro de Amata, cuja ardência
- Dos Frígios contra a vinda e a pró de Turno
- Feminis mágoas e ódios recoziam.
- Da azul grenha uma serpe a deusa arranca,
- No corpo lha insinua, por que o paço
- Todo empeste e alborote furibunda.
- Côa a serpe entre a veste e o liso seio
- Com mole tato, com macio engano
- Lhe infunde alma vipérea: em torsal de ouro
- Faz-se ao pescoço; num listão se alonga,
- Enleia a coma e lhe percorre os membros.
- E enquanto alastra a úmida peçonha,
- E em ossos e sentidos prende a chama,
- Antes que se lhe incenda o ânimo inteiro,
- Carpindo a filha e os himeneus troianos,
- Com maternal carinho ao rei se exprime:
- “A vindiços, tu pai, Lavínia entregas?
- Dela e ti não tens dó, nem da mãe triste,
- Que ao primeiro aquilão, raptada a virgem,
- Verei soltar a vela esse pirata?
- Não penetrou na Esparta o pastor frígio?
- A Ílio não transportou de Leda a filha?
- Que é do amor para os teus, onde a fé pura
- E amiúde ao meu Turno a destra dada?
- Se hás mister genro estranho, e o padre Fauno
- To ordena e está sentado, estranha eu julgo
- Qualquer terra ao teu cetro não sujeita:
- Do oráculo este o senso. E ao prisco tronco
- Se remontamos, de Inaco e de Acrísio
- Turno provém, Micenas de permeio.”
- Baldadas as razões, que resistia
- Firme o rei, pelas vísceras calando
- Do serpentino vírus o contágio,
- Já danada a infeliz, que espectros vexam,
- Na vasta capital erra sem tino.
- Sob a torcida trena, em rodopio,
- Atentos os meninos ao brinquedo,
- Pelo vazio largo o pião tangem,
- Que do açoite impelido em círculo anda;
- Néscia embasbaca a chusma, e o bando impube
- Aviva a golpes o volúvel buxo:
- Não com menos presteza ela vagueia,
- Corre as cidades e embravece os povos.
- Té sanhuda, a fingir de Iaco o influxo,
- Com mais nefando arrojo se entranhando,
- No monte oculta a filha, por que aos Troas
- Roube o tálamo e as núpcias procrastine;
- Brada e freme: “Evoé! só, Baco, és digno
- Da virgem que maneja os moles tirsos,
- Gira em coro, a ti sacra a trança cria.“
- Grassa o rumor: as mães da peste acesas,
- Por sede nova ardendo aguilhoadas,
- Cabelo e colo ao vento, os lares deixam;
- Ou peles a trajar, pampínea a lança,
- De trêmulo ululado os ares coalham.
- Ela entre as mais sustém flagrante pinho,
- Raiva, canta o himeneu da filha e Turno;
- Torva grita, virando olhos sangüíneos:
- “Io latinas mães! quem sois, ouvi-me;
- Se Amata vos condói, ou do materno
- Jus vos remorde o zelo, nestas orgias,
- Desenastrada a coma, interessai-vos.”
- Tal entre brenhas e ferinos ermos
- Alecto em bacanais punge a rainha.
- Dês que a raiva lhe afia, e de Latino
- A família e conselho crê revoltos,
- Leva-se a turva déia em fuscas asas
- Do audaz Rútulo aos muros; que, trazida
- Sobre o Noto precípite, aos Acrísios
- Danae se diz fundara: a grã cidade
- Chamou-se Ardéia, e conserva o claro nome,
- Não a fortuna. Ali no alcáçar Turno
- Meio sono lograva em noite opaca.
- O furial vulto e formas despe Alecto;
- Em Calibe, de Juno velha antiste,
- Se transfigura: a testa e face obscena
- De rugas ara, às cãs veste uma touca,
- Prega-lhe em cima um ramo de oliveira,
- E ao jovem se apresenta: “Sofres, Turno,
- Tantas lidas frustradas, que a fugidos
- Passe o teu cetro? Ganhos com teu sangue
- O matrimônio e dote, o rei tos nega,
- Herda um Teucro no reino. Ora, ultrajado,
- Vai-te arriscar; mal pago, as filas tuscas
- Rompe, descose; a paz mantém no Lácio.
- Isto a grande Satúrnia, enquanto em noite
- Plácida jazes, me intimou te expenda.
- Arma, arma, sus, a mocidade em campo;
- E, à margem pulcra assentes, os caudilhos
- Frígios arrasa, e queima as naus pintadas:
- Poder alto o prescreve. E se o monarca,
- Surdo às promessas, a união te enjeita,
- Prove e sinta o que valha em armas Turno.”
- Da vate a escarnecer: “Nem tu presumas
- Que estar no Tibre a frota é novidade.
- Nem cá meter me venhas tantos medos:
- Juno etérea de nós se não descuida.
- Mas crédula, cediça e carunchosa,
- Ralas-te, avó, com pânicos terrores,
- Tonta ingerindo-te em reais arcanos.
- Vigia os templos, das imagens cura:
- Toca aos varões tratar e a paz e a guerra.”
- Arde com isto Alecto; e, orando o moço,
- Treme todo, hirta a vista: com tais serpes
- Erínis silva, tais carrancas abre!
- Tardonho ia falar; com flâmeos olhos
- De través ela o empurra, duas cobras
- Da grenha irriça, o látego estalando,
- E com rábida boca assim troveja:
- “Eis-me caduca, tonta e carunchosa,
- Metediça entre os reis com vãos terrores.
- Olha, da estância das irmãs tremendas
- Trago em mão guerra e morte.” Inda vozeia,
- E a Turno um facho atira de atro lume,
- Que fumegante no íntimo cravou-se.
- Espantado ele acorda, em suor tendo,
- Que dos poros rebenta, ossos e membros;
- Louco por armas grita, armas no leito
- Busca e em torno. Braveja o amor do ferro,
- A ímpia insânia da guerra, e cresce a raiva:
- Qual da undante caldeira quando ao bojo
- Lígnea flama se aplica estrepitosa,
- A água enfurece e ferve, em bolhas salta;
- Fúmea espumando a enchente, sem conter-se
- Tansborda, e vai-se em túrbidos vapores.
- Manda ao rei informar que a paz quebrou-se,
- De petrechos prover, guardar a Itália,
- Expelir das fronteiras o inimigo;
- Contra o Latino e o Teucro ele só basta.
- Mal que as ordens promulga e invoca os deuses,
- À competência os Rútulos se exortam:
- Uns move do mancebo a galhardia:
- Uns seu preclaro sangue, ou forte braço.
- Alecto, enquanto os seus Turno acorçoa,
- Com novo ardil, às asas dando estígias,
- Cata o sítio e ribeira onde caçava,
- De assalto ou de emboscada, o belo Ascânio.
- Presto a cocícia virgem, com sabido
- Cheiro iscando os focinhos, de um veado
- À pista açula os cães: este o motivo
- Que os campônios atiça e a guerra ateia.
- Cervo galhudo havia, airoso e lindo,
- Que de mama furtado à mãe nutriam
- Os filhos de Tirreu, dessas devesas
- Couteiro e maioral do armento régio.
- De galantes festões ao dócil bruto
- Meiga a irmã Sílvia entretecia os cornos,
- Penteado e lavado em fonte pura.
- Da dona à mesa afeito e manso, errava
- Pela selva, e de noite, às vezes tarde,
- Se recolhia à casa. Andando a monte,
- Brabas de Iulo as perras o acossaram,
- Quando, seguindo a veia de um regato,
- Se refrescava na virente riba.
- Na ânsia de exímios gabos, do arco as pontas
- Junta e dispara o caçador a frecha:
- Não faltou nume à destra; a rechinante
- Cana ao cervo traspassa ilhais e ventre.
- A gemer o quadrúpede, sangrado
- Procura o noto asilo, e de lamentos,
- Quase implorando, enchia alvergue e pátio.
- Sílvia acode, e ferindo-se a punhadas,
- Aos duros aldeãos clama socorro.
- Eles (picava-os a embrenhada peste)
- Saem de improviso; de nodosa estaca,
- De fustes e tições, do que à mão tinham,
- A ira os arma. Tirreu, que um roble em quatro
- Rachava à cunha, respirando ameaças,
- Ferra o machado, a multidão concita.
- Nociva a tempo, da atalaia a Dira
- Monta à choça, e do cume a voz tartárea
- Na encurvada corneta esforça e tange
- Rebate pastoral: todo em redondo
- Retremendo o arvoredo, a funda mata
- Reboou. Longe o ouviu da Trívia o lago;
- Branco de água sulfúrea o Nar e as fontes
- O ouviram do Velino; e as mães de susto
- Aos peitos os filhinhos apertaram.
- Ao rouquejar da tétrica buzina,
- Denso tropel bravio, armas sacando,
- Concorre, e marcha a mocidade frígia
- Do aberto acampamento em pró de Ascânio.
- Não já com paus tostados nem cacheiras
- Em lide agreste brigam, mas em forma,
- Com ancípite ferro e espadas nuas,
- Negra áspera seara; e o bronze às nuvens,
- Do Sol desafiado, a luz dardeja:
- Tal, se alvejando a onda a encrespa o vento,
- Incha o mar pouco a pouco e alteia vagas,
- Té que o úmido abismo aos astros sobe.
- Cai logo na vanguarda o primogênito
- Almom Tirrides: pega-se às goelas
- Seta estridente, e em borbotões o sangue
- Lhe inunda e embarga a voz e a tênue vida.
- Entre um montão de mortos jaz Galeso,
- Das pazes medianeiro; ausônio velho,
- O mais justo e riquíssimo, greis cinco
- Balantes amalhando e cinco armentos,
- Em lavrar cem arados empregava.
- Alecto, pois que o marte igual pendia
- Do êxito ufana, assim que a feroz pugna
- Tinge e cruenta, funerais primícias,
- Deserta a Hespéria, e sublimada às auras
- Canta a Juno vitória em tom soberbo:
- “Temos no auge a discórdia; agora dize
- Que se congracem, que alianças travem,
- Quando os Teucros macula ausônio sangue.
- Mais farei, se mo aprovas: com rumores
- Posso as comarcas abrasar no insano
- Furor da guerra, que ajudá-la venham;
- Armas espalharei pela campanha.”
- Juno atalha: “O terror e a fraude abunda:
- Plantada a rixa, mão por mão combatem;
- Já funestou fortuna o primo encontro.
- Os himeneus dest’arte o guapo filho
- D’Acidália festeje e o bom Latino.
- Que a soltas vagues pelo sumo Olimpo
- Não te permite o padre soberano:
- Despacha-te, que o mais fica a meu cargo.”
- A tais palavras, do sidéreo assento,
- Angui-estalantes asas desferindo,
- Para o Cocito a Erínis se encaminha.
- Lugar nobre e famoso, o vale Ansancto,
- Há da Itália no centro, ao pé de uns montes:
- Floresta escura o fecha, e entre penedos
- Em vórtices fragosa uma torrente
- Pelo meio murmura. Aqui, do torvo
- Plutão respiradouro, antro medonho
- Profunda, e as fauces pestilentes mostra
- Do fendido Aqueronte ampla voragem,
- Onde sumiu-se a Fúria, o céu e a terra
- Do seu bafejo odioso aliviando.
- Nem menos a Satúrnia a luta azeda.
- Rui do conflito a multidão campestre,
- Morto Almom e deforme de Galeso
- Carregando a cabeça, e implora os deuses
- E a Latino conjura. No flagrante
- Chega Turno, e do incêndio e mortandade
- Exagera o temor; que iam bani-lo,
- E misturar no trono a raça frígia.
- Aqueles cujas mães, de Baco atônitas,
- Por ínvias selvas em coréias pulam,
- De Amata ao grave nome exacerbados,
- Marte infando a incitar, a l’arma gritam,
- Contra o fatal augúrio e contra os numes,
- E os altos paços à porfia cercam.
- Tem-se o rei qual marítimo rochedo;
- Rochedo que na mole se sustenta,
- Se em ruidosa procela as ondas ladram:
- Batida alga flutua e bolha a espuma,
- E em vão pedras em roda e escolhos bramam.
- Vencer pois tal cegueira não podendo,
- Que ia tudo a sabor da fera Juno,
- O éter puro atestando: “Ah! fado, exclama,
- A tormenta nos força irresistível.
- Com sacrílego sangue, ó miserandos,
- Vosso erro pagareis: maldição, Turno,
- Triste pena te espera; e aos deuses tarde
- Suplicarás. À entrada já do porto,
- Repouso achei; de funerais ditosos
- Só me despojarão.” Nisto, encerrou-se,
- E do governo as rédeas abandona.
- Costume era do Lácio, e que adotado
- Na Albânia o guarda a portentosa Roma,
- Lagrimáveis batalhas quando apresta
- Ao Geta, Árabe, Hircano, ao Indo eôo,
- E reconquista aos Partos as bandeiras,
- Duas portas haver, bélicas ditas,
- Que santo horror defende e o cru Mavorte:
- Barras, ferrolhos cem de bronze as trancam;
- Sempre ao limiar de sentinela Jano.
- Se o decreta o senado, insigne o cônsul
- Com trábea quirinal, gabino cinto,
- Os umbrais descerrando rangedores,
- Proclama a guerra; guerra os moços bradam,
- Roucas éreas trombetas ressonando.
- Cabia-lhe aos Troianos declará-la,
- Volver os tristes gonzos; mas Latino
- Se abstém, recusa o infausto ministério,
- E se oculta na treva. Então, baixando,
- A rainha Satúrnia arromba mesma
- As lentas portas, a couceira quebra
- E os ferrados batentes desmantela.
- Arde a quieta Ausônia, e armas já pede:
- Qual a pé campear, qual furioso
- Quer trotar em corcel pulverulento;
- Qual dardos unta e limpa, adargas lustra,
- Machadinhas amola e partasanas:
- Praz desfraldar pendões e ouvir as tubas.
- Malham cidades cinco e forjam lanças,
- Atina e Ardéia possantes, Crustumério,
- Tibur altiva, Antemnas torreada;
- Cavos elmos estofam, tecem tarjas
- De vergas de salgueiro, finas grevas
- De argênteos fios, êneos corsoletes:
- Retemperam na frágua o pátrio alfanje:
- Assim trocou-se o amor da foice e relha!
- Transmite o dado a senha, os clarins fremem:
- Quem o casco arrebata, ou rinchadores
- Brutos junge, ou rodela e auritrílice
- Loriga veste, ou cinge a fida espada.
- O Helicon, musas, franqueai-me: ousados
- Reis vou cantar, as tropas que os seguiram
- Cobrindo os campos; que armas flamejaram,
- Que heróis já n’alta Itália floresceram.
- Como lembradas sois, contai-mo, ó divas:
- Mal nos roçou leve aura do passado.
- O ateu cruel Mezêncio é quem primeiro
- À testa marcha das falanges tuscas.
- Lauso o acompanha, que excedia a todos,
- Salvo o garboso Turno, em gentileza;
- Lauso, grã picador, monteiro exímio
- Conduz em vão de Agila mil guerreiros;
- Digno de se gozar do pátrio reino,
- E de outro genitor que não Mezêncio.
- Após, carro e frisões da palma ornados,
- De Hércules belo ostenta o belo filho
- Aventino, e em cem cobras traz no escudo
- A hidra a pulular, brasão paterno:
- Réia ministra a furto na Aventina
- Mata o pariu; mulher que ao deus juntou-se,
- Depois que, extinto Gerião, tocando
- Laurentes lavras o Tiríntio ovante,
- Lavou no tusco rio iberas vacas.
- Arma os seus de doloso estoque e pilo,
- De roliço espontão, sabelo pique;
- Embraça, a pé, leonino ingente espólio,
- De alvos dentes enrola a hirsuta juba
- Ao morrião: tal entra horrendo os paços,
- Pelos ombros traçado o hercúleo manto.
- Catilo e o bravo Coras, dos tibúrcios
- Muros, ditos assim do irmão Tiburto,
- Gêmeos de sangue argeu, por densos dardos
- Vêm correndo postar-se na vanguarda:
- Qual nubígenas rápidos Centauros
- Se do pico a descer o Homelo deixam
- E Ótris nivoso; ao trânsito se arreda,
- Com fragor do arvoredo, a basta selva.
- Ceculo o autor não falha de Preneste,
- Que em pegulhal montês e ao lar achado,
- Rei prole de Vulcano hão crido as eras.
- Rústica turba o escolta: os que as alturas
- Cultivam prenestinas e a junônia
- Gábios, o frígido Ânio, hérnicas penhas
- De arroios orvalhadas; os que pasces,
- Tu Amaseno pai, tu rica Anâgnia.
- Carro, cota ou broquel, não soa a todos:
- Uns lívidas espalham plúmbeas pelas,
- Quais dois chuços empunham; fulvos gorros
- De pele usam lupina; nus da esquerda,
- Calçam de crua alparca a destra planta.
- O neptúnio Messapo cavaleiro,
- A quem prostrar não pode ou ferro ou fogo,
- Chama a conflito os povos ociosos,
- Instaura as armas. Fesceninas turmas
- E Equos Faliscos, os que o monte e lago
- Cimínio e as rochas do Soracte habitam,
- Flavínios agros e capenos lucos,
- Marchando em pelotões, seu rei cantavam:
- Como, ao soltarem coli-longos cisnes,
- Do pasto à volta, aos ares seus gorjeios,
- O Caístro e a pulsada Ásia palude
- Ressoa ao longe. Multidão confusa,
- Ninguém julgara exército arnesado,
- Mas, do alto pego às praias compelida,
- Aérea nuvem ser de roucas aves.
- Sangue antigo sabino, eis Clauso, donde
- A tribo cláudia propagou no Lácio,
- Dês que em parte aos Sabinos se deu Roma;
- Valendo um batalhão, comanda imensos:
- Quirites priscos, de Amiterno as hostes,
- As de Ereto e olivífera Motusca;
- Dos rosais do Velino e os de Nomento,
- Dos penhascosos Tétrica e Severo,
- De Fórulo e Caspéria; os que do Himela,
- Tibre e Fabaris, bebem; quantos manda
- Horta, o latino termo e Núrsia fria;
- E os que o Alia entrelava, infausto nome!
- Tantas no vítreo Líbio as vagas rolam,
- Se Orion cruel se afunde em onda hiberna;
- Tantas o estivo Sol praganas torra,
- Do Hermo ou de Lícia em lourejantes campos.
- Do tropel treme a terra, escudos tinem.
- O agamenônio Haleso, a Tróia infesto,
- Ata ao carro os frisões, mil feros povos
- Leva a Turno: os que o Mássico, mimoso
- De Baco, à enxada cavam; Sedicinos
- De beira-mar; serranos que expediram
- Auruncos padres; íncolas de Cales,
- Do vadoso Volturno os arraianos,
- O Satículo acerbo, as oscas turmas.
- Presa a lento flagelo, aclide jogam
- Cilíndrica; na sestra, os cobres adarga;
- Com terçado falcato ao perto ferem.
- Nem te olvide o meu verso, Ebalo, que houve
- Telon se afirma de Sebetis ninfa,
- Já velho em Caprea os Télebas regendo.
- Da herança não contente, o filho tinha
- Muito à larga os Sarrates submetido,
- E as sárnias frescas várzeas, os de Rufras,
- De Batulo e Celena, e os que eminente
- Olha Abela pomífera: catéias,
- À teutônica, vibram; capacetes
- De cortiça de sôvero os defendem;
- Luz bronzeado broquel, luz brônzea espada.
- Também te apronta a montuosa Nersas,
- Famígero e pugnaz, próspero Ufente;
- E, à caça endurecido, hórrido Equícola
- De áspera gleba te obedece: armado
- O chão labora, de rapina vive,
- E sempre folga das recentes preias.
- Té de Arquipo seu rei por ordem, o elmo
- Lhe ornando fausta oliva, o dos Marrúbios
- Sacerdote marchou, fortíssimo Umbro;
- Que hidras, víboras de hálito empestado,
- Afagando e a cantar adormecia,
- Curava a mordidura, e as amansava:
- Mas contra a choupa do rojão troiano
- Suporíferos cantos nem potentes
- Sucos dos marsos montes lhe valeram.
- A ti de Angícia bosque, a ti choraram
- Do Fucino o cristal e o fluido lago.
- De Hipólito eis a prole, o estrênuo Vírbio
- Que Arícia a mãe luzido o envia à pugna,
- Do luco e, fonte Egéria, onde o criaram
- E a placável Diana ara tem pingue.
- Por dolos da madrasta, assim que Hipólito,
- Dos medrosos frisões rojado, expia
- Com sangue o erro paterno, é voz que às auras
- E ao conspecto celeste o revocaram
- Peônias ervas e amorosa Délia.
- De que um mortal das sombras ressurgisse
- Indignado o Tonante, o raio acende,
- No Orco e Estige o Febígena despenha
- Que descobriu tal arte e medicina.
- A alma Trívia em secreto à ninfa Egéria
- Hipólito encomenda, por que obscuro
- E solitário em ítala floresta,
- Mudada em Vírbio o nome, os dias passe.
- Do bosque ou templo a Febe consagrado
- Os cavalos cornípedes se expulsam,
- Dês que, espantados por marinhos monstros,
- Na praia o dono e o coche espedaçaram.
- Árdegos brutos, não obstante, o filho
- Exerce e à guerra precipita o carro.
- De ponto em branco, à frente, na estatura
- Formoso Turno sobreleva a todos.
- O elmo sustém, cristado com três jubas,
- A Quimera a expirar etnéias chamas:
- Ignívoma, eferada, ela mais brame
- Quanto em mais sangue o ataque se encruece.
- Io em ouro entalhada (ilustre assunto)
- Já peluda novilha, alçando os cornos,
- O éreo pavês lhe timbra assacalado;
- Argos vigia a moça, e entorna o rio
- Da urna Inaco pai. Chuveiro espesso,
- Ondeia a infantaria, e abroqueladas
- Auruncas tropas, Rútulos, Sacranos,
- Acaica estirpe, Sículos antigos,
- Mais os Lábicos de pintado escudo:
- Que, ó Tibre, aram-te os bosques e a numícia
- Riba sacra; o Circeu cabeço rasgam
- E as rútulas colinas; veigas onde
- Jove Anxuro preside, com Ferônia
- Amiga dos jardins; por onde a negra
- Satura espraia, e vai gelado aos mares
- Por imos vales desaguar o Ufente.
- Eis Camila belaz, que o volsco impera
- Bando eqüestre e o de pé de arnês lustroso.
- Dura a virgem no prélio, em roca ou vimes
- De Minerva não punha as mãos femíneas.
- Pelo agro intacto, mais veloz que o vento,
- A voar não lesara a tenra espiga;
- Suspensa o pego túmido correra,
- Sem que molhasse a desenvolta planta.
- Dos tetos, ao passar, do campo os jovens
- E esparsas mães, de hiante boca admiram
- Como a grã vela e enfeita os ombros lisos,
- Como as tranças lhe prende áurea fivela,
- Como o lício carcás pendura, e brande
- De enxerido ferrão mírteo cajado.