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Liga os demais a noite em mole sono

472 versos · 7 notas do tradutor


  1. Liga os demais a noite em mole sono;
  2. Em claro a passa o rei de tantas gentes,
  3. Gravíssimos cuidados ruminando:
  4. Qual de Juno pulcrícoma o consorte
  5. Lampeja crebro, se aguaceiro ajunta,
  6. Granizo ou neve que embranqueça as lavras,
  7. Ou se abre à guerra amarga as fauces negras;
  8. Tal suspira, e as entranhas lhe estremecem.
  9. Turbado considera em cerco de Ílio
  10. Os muitos fogos, o rumor dos homens,
  11. Das tíbias e trombetas; mas, se atenta
  12. O Aquivo exército e as silentes praias,
  13. Aos Céus queixando-se os cabelos carpe,
  14. No íntimo geme o coração brioso.
  15. Melhor enfim parece-lhe ao Nelides
  16. Ir consultivo e combinar com ele
  17. Como os Dânaos defenda. Ergue-se, os peitos
  18. Reveste, calça fúlgidas sandálias,
  19. De um leão fulvo com sanguíneos laivos
  20. Pele talar enverga, apunha a lança.
  21. De Menelau às pálpebras o sono
  22. Também não pousa; pelos Dânaos treme,
  23. Que em seu favor sulcando a azul campina,
  24. Audazes debelar vieram Tróia.
  25. De um pardo forra com manchado espólio
  26. O dorso largo, aêneo casco mete,
  27. E hasta na mão robusta, o irmão procura,
  28. Supremo regedor que o povo adora.
  29. À popa ainda se armava, e ledo encontra
  30. Ao pugnaz Menelau, que assim lhe fala:
  31. “Armas-te, augusto irmão? Noturno espia
  32. Mandar intentas? Que nos falte hei medo
  33. Quem sozinho se arrisque pelo escuro:
  34. Requer nímia ousadia empresa tanta.”
  35. A quem o régio irmão: “Celeste aluno,
  36. Precisamos conselho em tal perigo,
  37. Pois, mudado o Satúrnio, hoje prefere
  38. De Heitor os sacrifícios. Nem vi nunca,
  39. Nem de algum filho ouvi de deus ou deusa,
  40. Que num só dia como Heitor obrasse!
  41. Mortal sim, mas de Júpiter valido,
  42. Executou façanhas extremadas,
  43. Que longo viverão na mente Argiva.
  44. Tu corre, a Ajax e Idomeneu convoca;
  45. Vou Nestor acordar, que incite os guardas,
  46. Cuja coorte sacra, entregue ao filho
  47. Mormente e a Merion, de grado o atende.”
  48. Submisso Menelau: “De mim que ordenas?
  49. Ficar à tua espera, ou, convocados,
  50. Vir ter contigo?” — O rei tornou-lhe: “fica;
  51. Receio um desencontro em desvairados
  52. Caminhos do arraial. Por onde fores,
  53. Grita e alerta, nomeia em honra a todos
  54. Seus pais e estirpe; o tom de orgulho evita.
  55. Participemos das comuns fadigas:
  56. Desde o berço a lidar nos fadou Jove.”
  57. Com estas precauções o irmão despede.
  58. Acha na tenda o maioral Nelides
  59. Em brando leito, ao pé luzentes armas,
  60. O escudo, o capacete e lanças duas,
  61. O bem lavrado boldrié, que o cinge
  62. Ao comandar cruíssimas batalhas,
  63. Pois dos anos ao peso inda reluta.
  64. No cúbito arrimado, alça a cabeça,
  65. A perguntar: “Quem ronda o campo e a frota
  66. Por treva espessa, quando os mais repousam?
  67. Buscas um guarda ou companheiro? Fala;
  68. Que hás mister? Sem falar não te apropínqües.”
  69. “Nestor, glória da Grécia, o Atrida acode,
  70. Sou Agamemnon. Mais que a todos Jove
  71. Me oprime, e cessará quando este alento
  72. Em mim cesse, e os joelhos não se dobrem.
  73. Vagueio, por fugir-me o grato sono:
  74. A guerra, o dano dos Aqueus me pesa;
  75. Por eles desfaleço esmorecido;
  76. O coração tituba e sai do peito,
  77. Convulsos tenho os membros. Já que velas
  78. A meditar, à guarda me acompanhes;
  79. Vejamos se em descuido as sentinelas
  80. Dormem cansadas: próximo o inimigo,
  81. Empreenderá talvez noturno assalto.”
  82. E o de Gerena: “O providente Padre
  83. Nem tudo acabará que Heitor cogita;
  84. Creio, alto rei, que amargo lance o espera,
  85. Se Aquiles bane a cólera funesta.
  86. Já já te sigo. Despertemos outros,
  87. Diomedes grã lanceiro; ínclito Ulisses,
  88. O ágil filho de Oileu, valente Meges.
  89. Ao divo Telamônio alguém se expeça
  90. E ao régio Idomeneu, que as naus tem longe,
  91. E um do outro não perto. Embora o estranhes,
  92. O honrado amigo Menelau censuro:
  93. Dorme, e tu só te afanas? Não devera
  94. Contigo os chefes deprecar afável,
  95. Quando urge uma cruel necessidade?”
  96. Replica o Atrida: “Às vezes a espertá-lo
  97. Eu te exorto, ancião, porque amiúde
  98. Hesita e se retém, não por incúria,
  99. Não por moleza, sim por ter os olhos
  100. Fitos no meu exemplo: a mim contudo
  101. Hoje ele antecipou-se, e os que desejas
  102. Foi convocar. Às portas e entre os guardas
  103. Vamos, que juntos acharemos todos.”
  104. E Nestor: “Nenhum Grego há jus agora
  105. De argüi-lo e impugnar seu mando e aviso.”
  106. Então se arnesa, as nítidas sandálias
  107. Ata aos pés, amplidúplice e punícea
  108. Clâmide abrocha de lustrosa felpa,
  109. Rijo eriagudo pique hasteia, e parte.
  110. Ao gritar junto às naus dos lorigados,
  111. O cauto Ulisses lhe surgiu da tenda:
  112. “Porque sós percorreis na opaca noite
  113. O campo e a frota? ameaça algum desastre?”
  114. E o Gerênio: “Prudente como Jove,
  115. Longânimo Laércio, não te agastes:
  116. Dor crua agrava os Dânaos; vem conosco,
  117. Outro invitemos que da fuga ou prélio
  118. Deve deliberar. “Ulisses pronto
  119. À tenda volta, embraça o escudo e segue-os.
  120. Dão com Diomedes fora, e em torno os sócios,
  121. Por travesseiro a adarga, a ressonarem,
  122. Fixas de conto as lanças, o êneo lume
  123. O do raio imitando: o herói dormia
  124. De um boi selvagem no estirado couro,
  125. Com purpúreo tapete à cabeceira.
  126. O idoso Pilo ao calcanhar o toca,
  127. E o repreende e admoesta: “Sus, Tidides;
  128. Inteira a noite logras? Nem te acorda
  129. O fragor dos Troianos, que se acampam
  130. Na colina e das naus mui pouco distam?”
  131. O herói sacode o sono e clama: “É nímio
  132. O ardor e zelo teu; falecem moços
  133. Que pelo acampamento aos reis despaches?
  134. És, magnânimo velho, és incansável.”
  135. E ele: “Amigo, assim é, galhardos filhos
  136. Tenho e outros muitos que chamar-vos possam;
  137. Mas risco atroz nos preme: vida ou morte
  138. Pende aos Gregos do gume de um cutelo.
  139. Tu, que és moço e de mim te compadeces,
  140. Ajax de Oileu convoques e o Filides.”
  141. Leonina talar pele ombreia fulva
  142. Logo Diomedes, pega a lança e corre,
  143. Volve aqueles guerreiros conduzindo.
  144. Juntam-se à guarda, e alerta em armas todos
  145. Estão seus cabos. Se em vigia assídua
  146. O redil ovelhum molossos rodam
  147. E o lobo sentem vir do monte à selva,
  148. Mesclam ladros às vozes dos pastores,
  149. A quem morreu nas pálpebras o sono:
  150. Destarte, morto o seu na infausta noite
  151. O campo Teucro olhando os atalaias,
  152. Ao mais leve rumor atentos eram.
  153. O ancião folga e os louva: “Assim! meus filhos,
  154. Nenhum se renda ao pérfido repouso,
  155. Por não sermos escárnio do inimigo.”
  156. Eis salta o fosso, e vão-lhe após os Dânaos
  157. Reis congregados; à consulta acrescem
  158. Merion e o Nestório Trasimedes.
  159. Num sítio pousam da sangueira puro,
  160. Entre o espaço onde, envolto em sombra densa,
  161. Heitor pôs termo à Grega mortandade.
  162. Quando uns e outros vários debatiam,
  163. Fere o ponto Nestor: “Acaso, amigos,
  164. Há quem, no braço afouto; ao campo extremo
  165. Dos bravos Teucros vá, para que apanhe
  166. Desgraçado inimigo, ou mesmo indague
  167. Se eles ali permanecer tencionam,
  168. Ou recolher-se ufanos da vitória?
  169. Incólume e informado nos regresse,
  170. Que terá fama eterna e insigne prêmio:
  171. De cada capitão que em nau comanda
  172. Preta ovelha e de mama um cordeirinho
  173. Alcançará, presente incomparável,
  174. E sempre no banquete um posto honroso.”
  175. Disse; todos em roda emudeceram,
  176. Falou porém Diomedes valoroso:
  177. “O coração, Nestor, a entrar me impele
  178. No próximo arraial; mas outro sócio
  179. Me dará mor denodo e mor firmeza:
  180. Dois entre si advertem-se, combinam;
  181. Um, se concebe, é lento e menos ousa.”
  182. Querem-no já seguir de Marte servos
  183. Os Ajax, Merion; com ânsia o filho
  184. De Nestor; Menelau de ardida lança:
  185. Anela penetrar no campo Ulisses,
  186. Que tem sempre na mente empresas grandes.
  187. E o rei dos reis: “Amigo predileto,
  188. Prestam-se muitos, à vontade escolhe;
  189. Nem por algum respeito ou má vergonha,
  190. Considerando o sangue e a realeza,
  191. Um inferior guerreiro tu prefiras
  192. Ao que julgues mais apto.” — Assim discursa
  193. Pelo seu louro Menelau temendo.
  194. Porém Diomedes: “Se me dás a escolha,
  195. Posso o Laércio preterir divino,
  196. Paciente, animoso, caro a Palas?
  197. Com tão completo herói, constante e sábio,
  198. Ileso hei-de sair de ardentes chamas.”
  199. E Ulisses: “Nem me gabes, nem rebaixes,
  200. Que os Dânaos do que valho estão cientes.
  201. Vamos, Diomedes; as estrelas caem,
  202. Acena o albor, a noite já descamba,
  203. Resta apenas um terço.” — Vestem-se ambos
  204. De hórridas armas. Do belaz Nestório
  205. Tidides, que deixara a bordo a sua,
  206. Recebe adaga ancípite e a rodela,
  207. E sem crista e cimeira elmo taurino,
  208. Simples galero, defensão de imberbes.
  209. Cede Merion a Ulisses o terçado,
  210. Coldre e arco, e de pele um capacete
  211. Que, de rígidos loros dentro o forro,
  212. De javali tem fora os brancos dentes,
  213. Em reforço com arte à roda apostos,
  214. E feltro espesso o fundo lhe guarnece.
  215. De Eliona as casas de Amintor Ormênio
  216. Antólico arrombando, ali furtado
  217. A Anfidamas, Citério o deu na Escândia;
  218. Em penhor Anfidamas da hospedagem,
  219. A Molo; Molo, a Merion seu filho,
  220. Que ao Laércio cobriu com ele a fronte.
  221. De ponto em branco, dos consócios partem.
  222. Pela estrada Minerva à destra envia
  223. Garça que, invisa em feia baça treva,
  224. Grasnar ouviam. Ledo Ulisses ora:
  225. “Filha do Egífero, a quem nada oculto,
  226. Neste aperto me assiste, ó protetora,
  227. Mais do que nunca; dá que às naus voltemos,
  228. Findas árduas ações que aos Teucros doam.”
  229. Tidides segue: “Ajuda-me e acompanha,
  230. Indomável Tritônia, como a Tebas
  231. A meu pai, dos Aqueus eriarnesados
  232. Legado, que os largou do Asopo às ribas.
  233. Aos cadmeios a paz Tideu levava;
  234. Mas de volta acabou gentis façanhas,
  235. Graças a ti, benévola deidade.
  236. Preserva-me igualmente; em honra tua
  237. Aneja imolarei do jugo intacta,
  238. Larga de fronte, com dourados cornos.”
  239. Encomendando-se à fautora Palas,
  240. Deitam-se os dois leões por noite escura:
  241. Por montes de cadáveres, por armas
  242. Da carnagem recente ensangüentadas.
  243. Também não dorme Heitor, excita os cabos
  244. E com eles concerta: “Há quem se atreva,
  245. Por obter alto nome e digno prêmio,
  246. O inimigo espreitar? Prometo um carro
  247. E de cerviz altiva os dois mais finos
  248. Corcéis de junto a frota, a quem me explore
  249. Se inda a velam de noite, ou se aterrados
  250. E lassos de destroço, os Dânaos tratam
  251. Só da fuga, e não mais guardá-la querem.”
  252. Disse, e em redondo foi silêncio tudo.
  253. Mas um Dólon, do arauto Eumedes filho,
  254. Irmão de cinco irmãs, torpe de facha,
  255. Leve de pés, em ouro e bronze rico,
  256. A Heitor voltou-se: “Heitor, o ânimo forte
  257. A perscrutar me instiga as naus veleiras;
  258. Arvora o cetro, o coche eri-esplendente
  259. Jura dar-me e os frisões do exímio Aquiles.
  260. Explorador não sou que iluda e falhe:
  261. Entrado no arraial, me acerco à popa
  262. Agamenônia; ali talvez da fuga
  263. Ou da peleja os príncipes debatam.”
  264. O cetro pega Heitor: “Fico ao de Juno
  265. Altitonante esposo que essa biga
  266. Outro nenhum transportará dos nossos;
  267. Nela só brilharás.” Foi jura falsa;
  268. Mas Dólon inflamado encruza a arco,
  269. De lobo enfronha-se em fouveira pele,
  270. De pele de fuinha um gorro encacha,
  271. Toma dardo pontudo, e às naus caminha,
  272. Donde por ele Heitor não terá novas.
  273. Já, fora do tropel, cortava a trilha,
  274. O Ítaco, ao lobrigá-lo: “Alguém, Diomedes,
  275. Sai da parte contrária, acaso espia,
  276. Ou despir os cadáveres pretende?
  277. Passe por nós um pouco, e dele à pista,
  278. O agarremos depois. Se em pés nos vence,
  279. Para as naus, de hasta em reste, o impele sempre,
  280. A fim de que não se esgueire e não se acolha.”
  281. Desviam-se e agachados entre os mortos
  282. Os deixa o incauto. Longe quanto os sulcos
  283. De mulas distam, mais que bois aptadas
  284. A charrua a tirar por denso alqueive,
  285. Encalçam-no; ao rumor se tem, supondo
  286. Ser o do sócio que avocá-lo vinham;
  287. De lança a tiro, ou menos, reconhece-os,
  288. Rápido move os joelhos fugitivo,
  289. Mas eles apressados o perseguem:
  290. Qual dois sabujos de raivosos dentes
  291. Mais e mais lebre ou corça em brenha apertam,
  292. Que cisca-se a guinchar, assim Diomedes
  293. E Ulisses vastador o acossam lestos,
  294. Impedindo a escapula. À guarda e à frota
  295. Próximo o espia, a vulnerá-lo Palas,
  296. Por que nenhum blasone de primeiro,
  297. A Tidides influi, que bradou: “Pára,
  298. Ou desta lança ao bote a vida rendes.”
  299. Aqui, de jeito a vibra que lhe esflore
  300. O úmero destro e finque-se na terra:
  301. Dólon, quedo e medroso, os queixos bate,
  302. Soa da boca pálida o rangido,
  303. Aferram-no açodados, e ele chora:
  304. “Vivo deixai-me redimir, que tenho
  305. Bronze, ouro, ferro de lavor difícil,
  306. E vos dará meu pai riqueza infinda,
  307. Se preso me souber na Grega armada.”
  308. Logo o matreiro: “Eu te afianço a vida,
  309. Conta a verdade sem temor. No escuro
  310. Às naus caminhas, quando os mais repousam!
  311. Despir tentas os mortos? Vens mandado,
  312. Ou por teu mesmo impulso nos espias?”
  313. O mísero a tremer: “Num laço infesto
  314. Caí de Heitor, o coche eri-esplendente
  315. Prometeu-me e os frisões do exímio Aquiles,
  316. Em prêmio de ir pela sombria treva
  317. Explorar diligente, ao pé da frota,
  318. Se inda a velam de noite, ou se aterrados
  319. E lassos do destroço, os Dânaos tratam
  320. Só da fuga e não mais guardá-la querem.”
  321. Sorriu-se o astuto: “Apetecias muito,
  322. Frisões que homem nenhum sofreia e doma,
  323. Exceto o Eácio que gerou mãe deusa.
  324. Mas tu sê franco: Heitor onde é que estava?
  325. Onde o seu márcio arnês, onde os cavalos?
  326. Onde o grosso da tropa, onde os vigias?
  327. Eles ali permanecer intentam,
  328. Ou recolher-se alegres da vitória?”
  329. Volve o de Eumedes: “A verdade exponho.
  330. De Ilo ao túmulo sacro, Heitor e os chefes,
  331. Livres do burburinho, deliberam;
  332. Certos não há vigias e atalaias;
  333. Os Troianos, senhor, todos alertas,
  334. Exortam-se ao luzir de acesos fogos;
  335. A multidão porém de auxiliares,
  336. Sem mulheres nem filhos, nos da terra
  337. Descansa e dorme.” — “E dormem, torna Ulisses,
  338. Mistos mais os Troianos cavaleiros,
  339. Ou com longo intervalo? Nada encubras.”
  340. E Dólon: “Nada encubro. Ao mar vizinham
  341. Cares, Caucomes, Lelagas, Peones
  342. Arci-recurvos, ínclitos Pelasgos
  343. A Fimbra, Lícios e arrogantes Mísios,
  344. Eqüestres Frígios, campeões Meônios,
  345. Para que mais! se o campo entrar desejas.
  346. Sentou na extrema os Traces recem-vindos
  347. Reso Eiônides rei com seus cavalos,
  348. Quais nunca vi grandíssimos e belos,
  349. Auras na rapidez, no candor neve:
  350. O coche é de relevos de ouro e prata;
  351. Áureo o arnês de admirável artifício,
  352. Não próprio de mortais, mais sim de numes.
  353. Às alígeras naus levai-me agora,
  354. Ou de rijo amarrai-me, até que à volta
  355. Verifiqueis se falo ou não sincero.”
  356. Minaz Tidides: “Certo embora informes,
  357. De nossas mãos não contes evadir-te:
  358. Se te soltarmos ora, ou te remires,
  359. Virás espia ou combatendo às claras,
  360. Em torno as mesmas naus; se aqui te mato,
  361. Cessas por uma vez de ser danoso.”
  362. Súplice a forte mão do Grego ao mento
  363. Lança o infeliz; a adaga os tendões ambos
  364. Da garganta lhe tronca; inda falava,
  365. E rodou-lhe a cabeça na poeira.
  366. De lobo a pele, de fuinha o gorro,
  367. O extenso dardo e o arco renitente
  368. Sacam-lhe os dois, e à predadora Palas
  369. Oferta-os o Laércio deprecando:
  370. “Aceita-os, alma deusa, a quem no Olimpo
  371. Invocamos primeira; tu nos guia
  372. Dos Traces ao quartel e aos seus cavalos.”
  373. Disse, eleva o despojo, e a tamargueira
  374. Folhuda em que o suspende esgalha, canas
  375. Lhe enfeixa à roda, que tornando enxerguem
  376. Na incerta pressurosa escuridade.
  377. Entre armas e sangueira, enfim chegaram
  378. Dos Traces ao quartel, que de fadiga
  379. Ressonavam, dispostos em três filas.
  380. Ao lado arneses belos, a parelha
  381. Ao pé de cada um. No centro o Eiônides
  382. A dormir, tinha atrás do coche atados
  383. Em loros os sonípides ginetes.
  384. Ulisses, que os descobre: “Ei-lo, Diomedes,
  385. O guerreiro, os frisões que assinalou-nos
  386. O morto espia. Tens a espada em ócio?
  387. Desprega o teu valor; solta os cavalos,
  388. Ou deixa-os ao meu cargo e imola os homens.”
  389. A olhicerúlea então lhe dobra o esforço;
  390. Aqui e ali talhava, os ais restrugem,
  391. Roxa de sangue a terra: qual salteia
  392. Truculento leão rebanho ou fato
  393. Não vigiado; assim cai Diomedes
  394. Sobre os Traces, e a doze arranca a vida,
  395. Quantos ele estoqueia. Ulisses cauto
  396. Pelos pés arredava, por que andando
  397. Os novos crinipulcros não se espantem,
  398. Pouco avezados a pisar cadáveres.
  399. O herói vai ao trezeno, ao triste Reso,
  400. Que expira ao despertar de um pesadelo,
  401. Onde Minerva toda a noite a imagem
  402. Lhe pôs daquela morte à cabeceira.
  403. O Ítaco, desprendendo os corredores,
  404. Pelos freios da chusma a subtraí-los,
  405. De arco os fustiga, havendo-lhe esquecido
  406. No vário assento o esplêndido chicote,
  407. E a Diomedes adverte assobiando.
  408. Este, se audaz insista na matança,
  409. Pelo temão se o coche de áureas armas
  410. Tire cheio, ou se o leve aos próprios ombros,
  411. Dúbio examina; mas ali Minerva:
  412. “Já, regressa aos baixéis; não te afugentem,
  413. Ó filho de Tideu, caso outro nume
  414. Alerte os Frígios.” Ele a voz divina
  415. Sente e monta um cavalo: o seu verbera
  416. De arco o Laércio; à desfilada arrancam.
  417. O argenti-archeiro deus não cego espreita,
  418. Vê com Tidides Palas; desce e grita
  419. Furioso pelo Trácio Hipocoonte,
  420. Bravo primo de Reso e conselheiro.
  421. Este salta, examina o sítio vácuo
  422. Dos corcéis e os guerreiros palpitantes
  423. E o cruor fresco e negro; urrando geme,
  424. Chama o parente. Num ruído imenso,
  425. Tumultua-se o campo: o feito o assombra;
  426. Salvarem-se os varões foi pasmo aos Teucros.
  427. Junto ao corpo do espia Ulisses pára;
  428. O sócio apeia-se, o cruento espólio
  429. Toma e entrega ao de Júpiter valido,
  430. E torna a cavalgar. Tocados voam
  431. Para a frota os ungüíssonos contentes.
  432. O Pílio o seu trotar sentiu primeiro:
  433. “Se não desvairo, príncipes e amigos,
  434. De cavalos o estrépito me soa.
  435. Oh! se Diomedes e o Laércio fossem,
  436. Com Troianos solípedes roubados!
  437. Mas receio que à turba sucumbissem
  438. Tão bizarros Aqueus.” — Mal acabava,
  439. Desmontam-se eles: de alegria todos,
  440. Estreitadas as destras, o saúdam.
  441. Interroga Nestor: “Esses cavalos,
  442. Nobre Ulisses, da Grécia adorno e brilho,
  443. Donde os houvestes? Penetrando o campo,
  444. Ou de um deus recebendo-os no caminho?
  445. Radeiam como o Sol. Não fico ocioso,
  446. Bem que velho, e combato sempre os Teucros;
  447. Mas nunca tais corcéis meus olhos viram:
  448. De encontradiço deus julgo um presente;
  449. Sois ambos do Nubícogo mimosos,
  450. Da Glaucopide sua amados ambos.”
  451. E Ulisses: “Ó Neleio, ó glória nossa,
  452. Com tamanho poder, um deus querendo,
  453. Fácil nos doaria outros melhores;
  454. Mas recém vindos estes são dos Traces.
  455. Diomedes chefes doze e o rei matou-lhes;
  456. Próximo às naus, do espia demos cabo
  457. Que explorá-la Heitor e os seus mandaram.”
  458. Disse, e fez os corcéis pular o fosso,
  459. E iam com eles os Dânaos jubilosos.
  460. Ao Diomedes presepe os ata em loros
  461. Bem recortados, onde os mais comiam
  462. Suave trigo, e à popa sua Ulisses
  463. O de Dólon depõe sangüento espólio,
  464. Enquanto a Palas sacrifício apontam.
  465. N’aba do mar cervizes, coxas, pernas,
  466. Do suor que lhes mana, os dois expurgam:
  467. Depois que a sordidez mais crassa escorrem
  468. N’água salgada e o coração confortam,
  469. Em tinas polidíssimas se banham,
  470. Untam-se de óleo, com prazer almoçam,
  471. E de plena cratera entornam vinho,
  472. Que a Minerva melífico libavam. * * *

Nota a nota · 7 notas

v. 53–54Grita e alerta, nomeia em honra a todos
Os selvagens do nosso Brasil e da América toda, à maneira dos tempos heróicos, honram-se de ser chamados pelos nomes de seus pais: Chateaubriand amiúde lembra este costume na Atalá e nos Natchez. Agravam-se quando se lhes falta com semelhante cortesia, e perguntam se os crêem filhos das ervas.
↩ voltar à passagem, v. 53
v. 90–91E ao régio Idomeneu, que as naus tem longe,
Neste lugar diz a interpetração latina: “Horum enium naves absunt longissime, nec valde prope”. Os tradutores desatendem esta última circunstância: os navios de Idomeneu e de Ajax não só ficavam longe do pavilhão do Nestor, mas não perto um do outro. A ser como dizem os tradutores, fora de uma redundância viciosa o segundo hemistíquio de Homero.
↩ voltar à passagem, v. 90
v. 203Resta apenas um terço.” — Vestem-se ambos
Phasganon significa uma espécie de punhal, e era de dois gumes. Alguns o vertem por espada; mas Diomedes esqueceu a bordo, não a espada, sim o punhal, e deu-lhe um Trasimedes. Com ele mata a Dólon, que estava entre suas mãos, e com a espada mata a Reso e seus companheiros. Esse punhal traziam-no à direita. Servi-me de adaga, porque a adaga talhante ou de dois gumes assemelha-se ao phasganon. Veja-se em Moraes e Constâncio.
↩ voltar ao verso 203
v. 294Impedindo a escapula. À guarda e à frota
Escapula, de uso comum no Brasil tem o acento na penúltima, ainda que na antepenúltima o ponha Constâncio: não é a primeira vez que lhe noto erro no lugar do acento. Moraes, que não acentua a palavra, traz em exemplo de Jorge Ferreira, no qual, pelo toante, conhece-se que o acento é onde o pomos nós os Brasileiros; é o seguinte: Aos mortos sepultura, aos vivos escapúla.
↩ voltar ao verso 294
v. 390–402Aqui e ali talhava, os ais restrugem, ⋯ Lhe pôs daquela morte à cabeceira.
É incrível que ninguém despertasse no meio desta matança. Virgílio, que a imitou no episódio de Euríalo e Niso, para torná-la verosímil, faz um dos mortos vomitar sangue e vinho, mostrando que os inimigos dormiam embriagados; mas, não obstante a cautela, tem sofrido censuras, da parte de muitos que nada boquejam contra Homero. Pode-se dizer que tudo foi obra de Palas, que assistia a Diomedes e Ulisses; mas, além de que, a ser assim, era cousa que devera expressar-se, muito perderia de valor a façanha dos dois heróis. Injustíssimo é louvar-se no poeta Grego o mesmo que se repreende no Latino.
↩ voltar à passagem, v. 390
v. 462Suave trigo, e à popa sua Ulisses
Censuram dar Homero trigo por sustento a cavalos, porque trigo lhes é danoso. Não admira que assim fizessem naqueles tempos, quando eu vi os arrieiros, d’entre Coimbra e Lisboa, darem aos seus pão branco e vinho, mal os sentiam estafados ou frouxos de caminho.
↩ voltar ao verso 462
v. 469Em tinas polidíssimas se banham,
Riches baignoires, como traduzem alguns Franceses, assim como lavacri de Monti, pela sua generalidade, não traspassam o asaminthores de Homero. Esta palavra indica bem que as tais banheiras eram cubas ou tinas, como as que em meu tempo serviam no Maranhão para o mesmo fim: serravam pelo meio uma pipa, às vezes de vinho ou de aguardente, e depois de a rasparem por dentro e por fora, dela formavam duas tinas ou duas banheiras. O adjetivo enxestes acaso se [referiria a] semelhante operação? Seria um belo estudo aquele que nos [desse a] conhecer como os usos e arte dos Gregos e dos Romanos, [os mesmos] ou quase os mesmos, foram passando principalmente para [as cidades] Grego-latinas.
↩ voltar ao verso 469
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