Liga os demais a noite em mole sono
472 versos · 7 notas do tradutor
- Liga os demais a noite em mole sono;
- Em claro a passa o rei de tantas gentes,
- Gravíssimos cuidados ruminando:
- Qual de Juno pulcrícoma o consorte
- Lampeja crebro, se aguaceiro ajunta,
- Granizo ou neve que embranqueça as lavras,
- Ou se abre à guerra amarga as fauces negras;
- Tal suspira, e as entranhas lhe estremecem.
- Turbado considera em cerco de Ílio
- Os muitos fogos, o rumor dos homens,
- Das tíbias e trombetas; mas, se atenta
- O Aquivo exército e as silentes praias,
- Aos Céus queixando-se os cabelos carpe,
- No íntimo geme o coração brioso.
- Melhor enfim parece-lhe ao Nelides
- Ir consultivo e combinar com ele
- Como os Dânaos defenda. Ergue-se, os peitos
- Reveste, calça fúlgidas sandálias,
- De um leão fulvo com sanguíneos laivos
- Pele talar enverga, apunha a lança.
- De Menelau às pálpebras o sono
- Também não pousa; pelos Dânaos treme,
- Que em seu favor sulcando a azul campina,
- Audazes debelar vieram Tróia.
- De um pardo forra com manchado espólio
- O dorso largo, aêneo casco mete,
- E hasta na mão robusta, o irmão procura,
- Supremo regedor que o povo adora.
- À popa ainda se armava, e ledo encontra
- Ao pugnaz Menelau, que assim lhe fala:
- “Armas-te, augusto irmão? Noturno espia
- Mandar intentas? Que nos falte hei medo
- Quem sozinho se arrisque pelo escuro:
- Requer nímia ousadia empresa tanta.”
- A quem o régio irmão: “Celeste aluno,
- Precisamos conselho em tal perigo,
- Pois, mudado o Satúrnio, hoje prefere
- De Heitor os sacrifícios. Nem vi nunca,
- Nem de algum filho ouvi de deus ou deusa,
- Que num só dia como Heitor obrasse!
- Mortal sim, mas de Júpiter valido,
- Executou façanhas extremadas,
- Que longo viverão na mente Argiva.
- Tu corre, a Ajax e Idomeneu convoca;
- Vou Nestor acordar, que incite os guardas,
- Cuja coorte sacra, entregue ao filho
- Mormente e a Merion, de grado o atende.”
- Submisso Menelau: “De mim que ordenas?
- Ficar à tua espera, ou, convocados,
- Vir ter contigo?” — O rei tornou-lhe: “fica;
- Receio um desencontro em desvairados
- Caminhos do arraial. Por onde fores,
- Grita e alerta, nomeia em honra a todos
- Seus pais e estirpe; o tom de orgulho evita.
- Participemos das comuns fadigas:
- Desde o berço a lidar nos fadou Jove.”
- Com estas precauções o irmão despede.
- Acha na tenda o maioral Nelides
- Em brando leito, ao pé luzentes armas,
- O escudo, o capacete e lanças duas,
- O bem lavrado boldrié, que o cinge
- Ao comandar cruíssimas batalhas,
- Pois dos anos ao peso inda reluta.
- No cúbito arrimado, alça a cabeça,
- A perguntar: “Quem ronda o campo e a frota
- Por treva espessa, quando os mais repousam?
- Buscas um guarda ou companheiro? Fala;
- Que hás mister? Sem falar não te apropínqües.”
- “Nestor, glória da Grécia, o Atrida acode,
- Sou Agamemnon. Mais que a todos Jove
- Me oprime, e cessará quando este alento
- Em mim cesse, e os joelhos não se dobrem.
- Vagueio, por fugir-me o grato sono:
- A guerra, o dano dos Aqueus me pesa;
- Por eles desfaleço esmorecido;
- O coração tituba e sai do peito,
- Convulsos tenho os membros. Já que velas
- A meditar, à guarda me acompanhes;
- Vejamos se em descuido as sentinelas
- Dormem cansadas: próximo o inimigo,
- Empreenderá talvez noturno assalto.”
- E o de Gerena: “O providente Padre
- Nem tudo acabará que Heitor cogita;
- Creio, alto rei, que amargo lance o espera,
- Se Aquiles bane a cólera funesta.
- Já já te sigo. Despertemos outros,
- Diomedes grã lanceiro; ínclito Ulisses,
- O ágil filho de Oileu, valente Meges.
- Ao divo Telamônio alguém se expeça
- E ao régio Idomeneu, que as naus tem longe,
- E um do outro não perto. Embora o estranhes,
- O honrado amigo Menelau censuro:
- Dorme, e tu só te afanas? Não devera
- Contigo os chefes deprecar afável,
- Quando urge uma cruel necessidade?”
- Replica o Atrida: “Às vezes a espertá-lo
- Eu te exorto, ancião, porque amiúde
- Hesita e se retém, não por incúria,
- Não por moleza, sim por ter os olhos
- Fitos no meu exemplo: a mim contudo
- Hoje ele antecipou-se, e os que desejas
- Foi convocar. Às portas e entre os guardas
- Vamos, que juntos acharemos todos.”
- E Nestor: “Nenhum Grego há jus agora
- De argüi-lo e impugnar seu mando e aviso.”
- Então se arnesa, as nítidas sandálias
- Ata aos pés, amplidúplice e punícea
- Clâmide abrocha de lustrosa felpa,
- Rijo eriagudo pique hasteia, e parte.
- Ao gritar junto às naus dos lorigados,
- O cauto Ulisses lhe surgiu da tenda:
- “Porque sós percorreis na opaca noite
- O campo e a frota? ameaça algum desastre?”
- E o Gerênio: “Prudente como Jove,
- Longânimo Laércio, não te agastes:
- Dor crua agrava os Dânaos; vem conosco,
- Outro invitemos que da fuga ou prélio
- Deve deliberar. “Ulisses pronto
- À tenda volta, embraça o escudo e segue-os.
- Dão com Diomedes fora, e em torno os sócios,
- Por travesseiro a adarga, a ressonarem,
- Fixas de conto as lanças, o êneo lume
- O do raio imitando: o herói dormia
- De um boi selvagem no estirado couro,
- Com purpúreo tapete à cabeceira.
- O idoso Pilo ao calcanhar o toca,
- E o repreende e admoesta: “Sus, Tidides;
- Inteira a noite logras? Nem te acorda
- O fragor dos Troianos, que se acampam
- Na colina e das naus mui pouco distam?”
- O herói sacode o sono e clama: “É nímio
- O ardor e zelo teu; falecem moços
- Que pelo acampamento aos reis despaches?
- És, magnânimo velho, és incansável.”
- E ele: “Amigo, assim é, galhardos filhos
- Tenho e outros muitos que chamar-vos possam;
- Mas risco atroz nos preme: vida ou morte
- Pende aos Gregos do gume de um cutelo.
- Tu, que és moço e de mim te compadeces,
- Ajax de Oileu convoques e o Filides.”
- Leonina talar pele ombreia fulva
- Logo Diomedes, pega a lança e corre,
- Volve aqueles guerreiros conduzindo.
- Juntam-se à guarda, e alerta em armas todos
- Estão seus cabos. Se em vigia assídua
- O redil ovelhum molossos rodam
- E o lobo sentem vir do monte à selva,
- Mesclam ladros às vozes dos pastores,
- A quem morreu nas pálpebras o sono:
- Destarte, morto o seu na infausta noite
- O campo Teucro olhando os atalaias,
- Ao mais leve rumor atentos eram.
- O ancião folga e os louva: “Assim! meus filhos,
- Nenhum se renda ao pérfido repouso,
- Por não sermos escárnio do inimigo.”
- Eis salta o fosso, e vão-lhe após os Dânaos
- Reis congregados; à consulta acrescem
- Merion e o Nestório Trasimedes.
- Num sítio pousam da sangueira puro,
- Entre o espaço onde, envolto em sombra densa,
- Heitor pôs termo à Grega mortandade.
- Quando uns e outros vários debatiam,
- Fere o ponto Nestor: “Acaso, amigos,
- Há quem, no braço afouto; ao campo extremo
- Dos bravos Teucros vá, para que apanhe
- Desgraçado inimigo, ou mesmo indague
- Se eles ali permanecer tencionam,
- Ou recolher-se ufanos da vitória?
- Incólume e informado nos regresse,
- Que terá fama eterna e insigne prêmio:
- De cada capitão que em nau comanda
- Preta ovelha e de mama um cordeirinho
- Alcançará, presente incomparável,
- E sempre no banquete um posto honroso.”
- Disse; todos em roda emudeceram,
- Falou porém Diomedes valoroso:
- “O coração, Nestor, a entrar me impele
- No próximo arraial; mas outro sócio
- Me dará mor denodo e mor firmeza:
- Dois entre si advertem-se, combinam;
- Um, se concebe, é lento e menos ousa.”
- Querem-no já seguir de Marte servos
- Os Ajax, Merion; com ânsia o filho
- De Nestor; Menelau de ardida lança:
- Anela penetrar no campo Ulisses,
- Que tem sempre na mente empresas grandes.
- E o rei dos reis: “Amigo predileto,
- Prestam-se muitos, à vontade escolhe;
- Nem por algum respeito ou má vergonha,
- Considerando o sangue e a realeza,
- Um inferior guerreiro tu prefiras
- Ao que julgues mais apto.” — Assim discursa
- Pelo seu louro Menelau temendo.
- Porém Diomedes: “Se me dás a escolha,
- Posso o Laércio preterir divino,
- Paciente, animoso, caro a Palas?
- Com tão completo herói, constante e sábio,
- Ileso hei-de sair de ardentes chamas.”
- E Ulisses: “Nem me gabes, nem rebaixes,
- Que os Dânaos do que valho estão cientes.
- Vamos, Diomedes; as estrelas caem,
- Acena o albor, a noite já descamba,
- Resta apenas um terço.” — Vestem-se ambos
- De hórridas armas. Do belaz Nestório
- Tidides, que deixara a bordo a sua,
- Recebe adaga ancípite e a rodela,
- E sem crista e cimeira elmo taurino,
- Simples galero, defensão de imberbes.
- Cede Merion a Ulisses o terçado,
- Coldre e arco, e de pele um capacete
- Que, de rígidos loros dentro o forro,
- De javali tem fora os brancos dentes,
- Em reforço com arte à roda apostos,
- E feltro espesso o fundo lhe guarnece.
- De Eliona as casas de Amintor Ormênio
- Antólico arrombando, ali furtado
- A Anfidamas, Citério o deu na Escândia;
- Em penhor Anfidamas da hospedagem,
- A Molo; Molo, a Merion seu filho,
- Que ao Laércio cobriu com ele a fronte.
- De ponto em branco, dos consócios partem.
- Pela estrada Minerva à destra envia
- Garça que, invisa em feia baça treva,
- Grasnar ouviam. Ledo Ulisses ora:
- “Filha do Egífero, a quem nada oculto,
- Neste aperto me assiste, ó protetora,
- Mais do que nunca; dá que às naus voltemos,
- Findas árduas ações que aos Teucros doam.”
- Tidides segue: “Ajuda-me e acompanha,
- Indomável Tritônia, como a Tebas
- A meu pai, dos Aqueus eriarnesados
- Legado, que os largou do Asopo às ribas.
- Aos cadmeios a paz Tideu levava;
- Mas de volta acabou gentis façanhas,
- Graças a ti, benévola deidade.
- Preserva-me igualmente; em honra tua
- Aneja imolarei do jugo intacta,
- Larga de fronte, com dourados cornos.”
- Encomendando-se à fautora Palas,
- Deitam-se os dois leões por noite escura:
- Por montes de cadáveres, por armas
- Da carnagem recente ensangüentadas.
- Também não dorme Heitor, excita os cabos
- E com eles concerta: “Há quem se atreva,
- Por obter alto nome e digno prêmio,
- O inimigo espreitar? Prometo um carro
- E de cerviz altiva os dois mais finos
- Corcéis de junto a frota, a quem me explore
- Se inda a velam de noite, ou se aterrados
- E lassos de destroço, os Dânaos tratam
- Só da fuga, e não mais guardá-la querem.”
- Disse, e em redondo foi silêncio tudo.
- Mas um Dólon, do arauto Eumedes filho,
- Irmão de cinco irmãs, torpe de facha,
- Leve de pés, em ouro e bronze rico,
- A Heitor voltou-se: “Heitor, o ânimo forte
- A perscrutar me instiga as naus veleiras;
- Arvora o cetro, o coche eri-esplendente
- Jura dar-me e os frisões do exímio Aquiles.
- Explorador não sou que iluda e falhe:
- Entrado no arraial, me acerco à popa
- Agamenônia; ali talvez da fuga
- Ou da peleja os príncipes debatam.”
- O cetro pega Heitor: “Fico ao de Juno
- Altitonante esposo que essa biga
- Outro nenhum transportará dos nossos;
- Nela só brilharás.” Foi jura falsa;
- Mas Dólon inflamado encruza a arco,
- De lobo enfronha-se em fouveira pele,
- De pele de fuinha um gorro encacha,
- Toma dardo pontudo, e às naus caminha,
- Donde por ele Heitor não terá novas.
- Já, fora do tropel, cortava a trilha,
- O Ítaco, ao lobrigá-lo: “Alguém, Diomedes,
- Sai da parte contrária, acaso espia,
- Ou despir os cadáveres pretende?
- Passe por nós um pouco, e dele à pista,
- O agarremos depois. Se em pés nos vence,
- Para as naus, de hasta em reste, o impele sempre,
- A fim de que não se esgueire e não se acolha.”
- Desviam-se e agachados entre os mortos
- Os deixa o incauto. Longe quanto os sulcos
- De mulas distam, mais que bois aptadas
- A charrua a tirar por denso alqueive,
- Encalçam-no; ao rumor se tem, supondo
- Ser o do sócio que avocá-lo vinham;
- De lança a tiro, ou menos, reconhece-os,
- Rápido move os joelhos fugitivo,
- Mas eles apressados o perseguem:
- Qual dois sabujos de raivosos dentes
- Mais e mais lebre ou corça em brenha apertam,
- Que cisca-se a guinchar, assim Diomedes
- E Ulisses vastador o acossam lestos,
- Impedindo a escapula. À guarda e à frota
- Próximo o espia, a vulnerá-lo Palas,
- Por que nenhum blasone de primeiro,
- A Tidides influi, que bradou: “Pára,
- Ou desta lança ao bote a vida rendes.”
- Aqui, de jeito a vibra que lhe esflore
- O úmero destro e finque-se na terra:
- Dólon, quedo e medroso, os queixos bate,
- Soa da boca pálida o rangido,
- Aferram-no açodados, e ele chora:
- “Vivo deixai-me redimir, que tenho
- Bronze, ouro, ferro de lavor difícil,
- E vos dará meu pai riqueza infinda,
- Se preso me souber na Grega armada.”
- Logo o matreiro: “Eu te afianço a vida,
- Conta a verdade sem temor. No escuro
- Às naus caminhas, quando os mais repousam!
- Despir tentas os mortos? Vens mandado,
- Ou por teu mesmo impulso nos espias?”
- O mísero a tremer: “Num laço infesto
- Caí de Heitor, o coche eri-esplendente
- Prometeu-me e os frisões do exímio Aquiles,
- Em prêmio de ir pela sombria treva
- Explorar diligente, ao pé da frota,
- Se inda a velam de noite, ou se aterrados
- E lassos do destroço, os Dânaos tratam
- Só da fuga e não mais guardá-la querem.”
- Sorriu-se o astuto: “Apetecias muito,
- Frisões que homem nenhum sofreia e doma,
- Exceto o Eácio que gerou mãe deusa.
- Mas tu sê franco: Heitor onde é que estava?
- Onde o seu márcio arnês, onde os cavalos?
- Onde o grosso da tropa, onde os vigias?
- Eles ali permanecer intentam,
- Ou recolher-se alegres da vitória?”
- Volve o de Eumedes: “A verdade exponho.
- De Ilo ao túmulo sacro, Heitor e os chefes,
- Livres do burburinho, deliberam;
- Certos não há vigias e atalaias;
- Os Troianos, senhor, todos alertas,
- Exortam-se ao luzir de acesos fogos;
- A multidão porém de auxiliares,
- Sem mulheres nem filhos, nos da terra
- Descansa e dorme.” — “E dormem, torna Ulisses,
- Mistos mais os Troianos cavaleiros,
- Ou com longo intervalo? Nada encubras.”
- E Dólon: “Nada encubro. Ao mar vizinham
- Cares, Caucomes, Lelagas, Peones
- Arci-recurvos, ínclitos Pelasgos
- A Fimbra, Lícios e arrogantes Mísios,
- Eqüestres Frígios, campeões Meônios,
- Para que mais! se o campo entrar desejas.
- Sentou na extrema os Traces recem-vindos
- Reso Eiônides rei com seus cavalos,
- Quais nunca vi grandíssimos e belos,
- Auras na rapidez, no candor neve:
- O coche é de relevos de ouro e prata;
- Áureo o arnês de admirável artifício,
- Não próprio de mortais, mais sim de numes.
- Às alígeras naus levai-me agora,
- Ou de rijo amarrai-me, até que à volta
- Verifiqueis se falo ou não sincero.”
- Minaz Tidides: “Certo embora informes,
- De nossas mãos não contes evadir-te:
- Se te soltarmos ora, ou te remires,
- Virás espia ou combatendo às claras,
- Em torno as mesmas naus; se aqui te mato,
- Cessas por uma vez de ser danoso.”
- Súplice a forte mão do Grego ao mento
- Lança o infeliz; a adaga os tendões ambos
- Da garganta lhe tronca; inda falava,
- E rodou-lhe a cabeça na poeira.
- De lobo a pele, de fuinha o gorro,
- O extenso dardo e o arco renitente
- Sacam-lhe os dois, e à predadora Palas
- Oferta-os o Laércio deprecando:
- “Aceita-os, alma deusa, a quem no Olimpo
- Invocamos primeira; tu nos guia
- Dos Traces ao quartel e aos seus cavalos.”
- Disse, eleva o despojo, e a tamargueira
- Folhuda em que o suspende esgalha, canas
- Lhe enfeixa à roda, que tornando enxerguem
- Na incerta pressurosa escuridade.
- Entre armas e sangueira, enfim chegaram
- Dos Traces ao quartel, que de fadiga
- Ressonavam, dispostos em três filas.
- Ao lado arneses belos, a parelha
- Ao pé de cada um. No centro o Eiônides
- A dormir, tinha atrás do coche atados
- Em loros os sonípides ginetes.
- Ulisses, que os descobre: “Ei-lo, Diomedes,
- O guerreiro, os frisões que assinalou-nos
- O morto espia. Tens a espada em ócio?
- Desprega o teu valor; solta os cavalos,
- Ou deixa-os ao meu cargo e imola os homens.”
- A olhicerúlea então lhe dobra o esforço;
- Aqui e ali talhava, os ais restrugem,
- Roxa de sangue a terra: qual salteia
- Truculento leão rebanho ou fato
- Não vigiado; assim cai Diomedes
- Sobre os Traces, e a doze arranca a vida,
- Quantos ele estoqueia. Ulisses cauto
- Pelos pés arredava, por que andando
- Os novos crinipulcros não se espantem,
- Pouco avezados a pisar cadáveres.
- O herói vai ao trezeno, ao triste Reso,
- Que expira ao despertar de um pesadelo,
- Onde Minerva toda a noite a imagem
- Lhe pôs daquela morte à cabeceira.
- O Ítaco, desprendendo os corredores,
- Pelos freios da chusma a subtraí-los,
- De arco os fustiga, havendo-lhe esquecido
- No vário assento o esplêndido chicote,
- E a Diomedes adverte assobiando.
- Este, se audaz insista na matança,
- Pelo temão se o coche de áureas armas
- Tire cheio, ou se o leve aos próprios ombros,
- Dúbio examina; mas ali Minerva:
- “Já, regressa aos baixéis; não te afugentem,
- Ó filho de Tideu, caso outro nume
- Alerte os Frígios.” Ele a voz divina
- Sente e monta um cavalo: o seu verbera
- De arco o Laércio; à desfilada arrancam.
- O argenti-archeiro deus não cego espreita,
- Vê com Tidides Palas; desce e grita
- Furioso pelo Trácio Hipocoonte,
- Bravo primo de Reso e conselheiro.
- Este salta, examina o sítio vácuo
- Dos corcéis e os guerreiros palpitantes
- E o cruor fresco e negro; urrando geme,
- Chama o parente. Num ruído imenso,
- Tumultua-se o campo: o feito o assombra;
- Salvarem-se os varões foi pasmo aos Teucros.
- Junto ao corpo do espia Ulisses pára;
- O sócio apeia-se, o cruento espólio
- Toma e entrega ao de Júpiter valido,
- E torna a cavalgar. Tocados voam
- Para a frota os ungüíssonos contentes.
- O Pílio o seu trotar sentiu primeiro:
- “Se não desvairo, príncipes e amigos,
- De cavalos o estrépito me soa.
- Oh! se Diomedes e o Laércio fossem,
- Com Troianos solípedes roubados!
- Mas receio que à turba sucumbissem
- Tão bizarros Aqueus.” — Mal acabava,
- Desmontam-se eles: de alegria todos,
- Estreitadas as destras, o saúdam.
- Interroga Nestor: “Esses cavalos,
- Nobre Ulisses, da Grécia adorno e brilho,
- Donde os houvestes? Penetrando o campo,
- Ou de um deus recebendo-os no caminho?
- Radeiam como o Sol. Não fico ocioso,
- Bem que velho, e combato sempre os Teucros;
- Mas nunca tais corcéis meus olhos viram:
- De encontradiço deus julgo um presente;
- Sois ambos do Nubícogo mimosos,
- Da Glaucopide sua amados ambos.”
- E Ulisses: “Ó Neleio, ó glória nossa,
- Com tamanho poder, um deus querendo,
- Fácil nos doaria outros melhores;
- Mas recém vindos estes são dos Traces.
- Diomedes chefes doze e o rei matou-lhes;
- Próximo às naus, do espia demos cabo
- Que explorá-la Heitor e os seus mandaram.”
- Disse, e fez os corcéis pular o fosso,
- E iam com eles os Dânaos jubilosos.
- Ao Diomedes presepe os ata em loros
- Bem recortados, onde os mais comiam
- Suave trigo, e à popa sua Ulisses
- O de Dólon depõe sangüento espólio,
- Enquanto a Palas sacrifício apontam.
- N’aba do mar cervizes, coxas, pernas,
- Do suor que lhes mana, os dois expurgam:
- Depois que a sordidez mais crassa escorrem
- N’água salgada e o coração confortam,
- Em tinas polidíssimas se banham,
- Untam-se de óleo, com prazer almoçam,
- E de plena cratera entornam vinho,
- Que a Minerva melífico libavam. * * *