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IlíadaLivro VIII
LivroVIII

Ao desdobrar seu manto a crócea Aurora

455 versos · 4 notas do tradutor


  1. Ao desdobrar seu manto a crócea Aurora,
  2. No vértice do Olimpo cumioso
  3. Junta o Fulminador a etérea corte;
  4. Acena, e escutam-no: “O que em mim resolvo,
  5. Celícolas, sabei; nem deus, nem deusa
  6. Renua, mas unânimes concorram
  7. Para os projetos meus cumpridos serem.
  8. Se algum for socorrer Aqueus ou Frígios,
  9. Cá voltará golpeado e vergonhoso;
  10. Ou no Tártaro eu próprio hei-de afundi-lo,
  11. Gólfão de érea soleira e férreas portas,
  12. Do Orco distante como o céu da terra:
  13. Quem sou conheça. Duvidais? Suspensa
  14. Da abóboda estrelada áurea cadeia,
  15. Deuses e deusas, pendurai-vos dela
  16. E juntos forcejai, que a Jove sumo
  17. Nem mesmo abalareis; mas, se aprover-me,
  18. Puxar-vos-ei de cima e a terra e os mares,
  19. E enrolada a cadeia ao tope Olímpio,
  20. Penderá das alturas o orbe inteiro:
  21. Tanto os numes supero e tanto os homens.”
  22. Esta ameaça espanta-os e emudece,
  23. Menos a de olhos garços: “Pai Satúrnio,
  24. Senhor te confessamos e invencível.
  25. Se combater porém nos é vedado,
  26. Permite aconselhemos os briosos
  27. Lamentáveis Aqueus, para que ao sopro
  28. Da ira tua não pereçam todos.”
  29. E a sorrir o Nubícogo: “Tritônia,
  30. Descansa: austero fui, mas condescendo
  31. Contigo, ó filha amada.” — Aqui, jungindo
  32. Erípedes corcéis de crina de ouro,
  33. Monta cosido em ouro, em ouro o açoute
  34. Lavrado agita: a rápida parelha
  35. Entre o sidéreo pólo e a terra voa.
  36. No Ida, que em fontes brota e abunda em feras,
  37. Junto ao Gárgaro o autor de homens e deuses,
  38. Onde ara tem fragrante e umbroso luco,
  39. Solta os frisões do coche e os enevoa;
  40. De glória a comprazer-se, está no pino
  41. Contemplando a cidade e a frota Argiva.
  42. Depressa almoça a guedelhuda gente,
  43. Arma-se. Em menor cópia armam-se os Teucros;
  44. Insta a lei de amparar filhos e esposas.
  45. Francas as portas, com fragor borbotam
  46. Équites e peões. Já face a face,
  47. De érea malha os guerreiros se rechaçam,
  48. Cruzam-se hastas, embatem-se rodelas,
  49. Com tumulto e alarido: um cai gemendo,
  50. Este urra, outro alardeia; o sangue jorra.
  51. Cresce a luz matutina, o estrago é dúbio;
  52. Mas, quando o sol medeia, áurea balança
  53. Libra o Supremo, e dos partidos ambos
  54. De sonífera morte os fados pesa:
  55. A concha dos Aqueus se inclina e abate;
  56. Sobe a dos Frígios e se eleva aos astros.
  57. Contra os Aqueus fulgura e do Ida toa;
  58. Eles de frio susto e assombro enfiam:
  59. Idomeneu retira-se e Agamemnon,
  60. E os fulmíneos Ajax. Mau grado, resta
  61. Nestor só, dos Grajúgenas custódio;
  62. Que Alexandre frechou-lhe um dos cavalos
  63. Nos testos e onde vem primeiro a crina,
  64. Sítio letal. Varado o cerebelo,
  65. Dorido e em gêmeas, conturbando os outros,
  66. Ao pé da roda o bruto se debate:
  67. E, enquanto a gládio o velho corta os loros,
  68. De Heitor as éguas buscam-no fogosas,
  69. E audaz cocheiro as guia, o mesmo Heitor.
  70. Morto o Gerênio fora, se advertido
  71. Horrendo não bramasse o herói Diomedes:
  72. “Cauto Laércio, no tropel te ocultas?
  73. Vil por detrás um dardo não receias?
  74. Pára, afastemos o feroz contrário
  75. Do venerando amigo.” — Surdo Ulisses,
  76. Paciente e apressado, às naus caminha.
  77. Antessignano, bem que só, Tidides
  78. Chega-se ao bom Neleio, e sem demora:
  79. “Bravo ancião, mancebos te perseguem:
  80. Torpe enerva-te as forças a velhice;
  81. Fraco é teu pajem, teus cavalos débeis:
  82. Monta, e prova os de Troe, pouco há tomados
  83. Ao nobre Anquíseo artífice da fuga,
  84. No encalço ardentes, no evadir-se lestos.
  85. Esses aos nossos confia; o meu dos Frígios
  86. Contra os carros desfeche; a Heitor mostremos
  87. Se a lança em minhas mãos desvaira insana.”
  88. A Eurímedon e Estênelo animosos
  89. Deixa os corcéis Nestor, ascende e agita
  90. Logo o flagelo e as artefatas rédeas
  91. Ao coche de Tidides; que já perto
  92. A Heitor esgrime a lança; a lança errada
  93. Ao do grã Tebeu filho espeta a mama,
  94. A Eniópeo fiel, que, em punho as bridas,
  95. Cai do assento, e os ginetes retrocedem.
  96. O arcar do sócio ao bravo Heitor consterna,
  97. Que mesto e aflito, em busca de outro auriga,
  98. Expirante o abandona. Os corredores
  99. Não lhe tardou quem reja; encontra prestes
  100. Arqueptolemo Ifítides galhardo,
  101. Fá-lo subir e entrega-lhe os tirantes.
  102. Em derrota sanguenta, encurralados
  103. Seriam dentro os Frígios como ovelhas,
  104. Se ante o coche Diomédeo o pai dos deuses,
  105. Com medonho estampido, não vibrasse
  106. Candente raio de sulfúrea chama:
  107. Os solípedes fremem de assustados;
  108. Perde as bridas Nestor: “Hui! não retardes,
  109. Rege, Tidides, aos corcéis a fuga:
  110. Do infesto Jove o desfavor não sentes?
  111. Hoje é pelo inimigo, e se lhe agrade,
  112. A nós depois concederá vitória.
  113. De Jove ninguém há, por mais pujante,
  114. Que à vontade resista onipotente.”
  115. Responde ele: “Ancião, tu bem ponderas;
  116. Mas dói n’alma que Heitor jacte-se um dia:
  117. — De mim fugindo se embarcou Tidides. —
  118. Antes fenda-se a terra e em si me engula.”
  119. E o Gerênio: “Tidides, que proferes?
  120. Heitor chame-te embora ignavo e imbele,
  121. Certo o não crêem Dardânidas e Frígios,
  122. Nem as mulheres de adargados jovens
  123. Que arrojaste no pó.” — Nisto, à carreira
  124. Os ungüíssonos toca; Heitor e os Troas
  125. Bramando chovem gemebundos tiros.
  126. E o Priâmeo a zombar: “Tidides fera,
  127. No assento os Graios campeões te honravam,
  128. Das viandas na escolha e em cheias taças;
  129. Desprezam-te hoje, ó coração de fêmea.
  130. Foge, estes muros não transpões, donzela;
  131. Sou quem to impede: acabarás primeiro
  132. Que arrastes a teu bordo as caras Teucras.”
  133. Pugnaz Diomedes quis voltar seu coche;
  134. Cuida e o pensa três vezes, três vitória
  135. Sinalando aos Trojúgenas, murmura
  136. Dos serros do Ida o próvido Satúrnio.
  137. Então vozeia Heitor: “Sede homens, Lícios;
  138. Dardanos, Troas, afrontai perigos;
  139. Seu denodado esforço a todos lembre.
  140. Acena-me o Tonante; a glória é nossa,
  141. Ai deles! A meu braço empeço frágil,
  142. Essa trincheira estultos construíram.
  143. Lestos cavalos saltarão seu fosso.
  144. Tratai próximo às naus de acender fachos,
  145. Com que eu mesmo as abrase e imole nelas
  146. Os Aquivos no fumo estonteados.”
  147. E afalando os corcéis: “Pagai-me agora,
  148. Xanto, Lampo divino, Eton, Podargo,
  149. Da nobre Andrômaca Etiônia o penso,
  150. O doce farro, o prodigado vinho
  151. A vós primeiro do que a mim, que jovem
  152. Marido seu me ufano: eia, alcancemos
  153. De etérea fama áureo broquel Nestório
  154. De áureas embraçadeiras, e dos ombros
  155. Desse Diomedes o gibão dispamos,
  156. Primor Vulcâneo. Se os consigo, espero
  157. Que os Aqueus esta noite às naus se acolham.”
  158. Deste orgulho indignada, Juno augusta
  159. No trono agita-se e estremece o Olimpo;
  160. Olha a Netuno: “Enosigeu potente,
  161. Que! dó não tens dos miserandos Gregos?
  162. Enchem-te eles contudo em Hélice e Egas
  163. De guapos dons. Se os amas, seus fautores
  164. Unamo-nos, e os Troas rechaçados,
  165. A assentar-se no Gárgaro obriguemos
  166. O Amplo-fremente solitário e triste.”
  167. “Cala-te, ousada, lhe gritou Netuno;
  168. Com todos resistir eu não quisera
  169. A quem único a todos nos supera.”
  170. Entanto, coches e peões se apinham
  171. Desde a praia à trincheira e desta ao fosso;
  172. Que, a Marte igual, os atropela e cerra
  173. De glória Heitor por Jove cumulado.
  174. E ardera a frota, se, de Juno a impulsos,
  175. Por navios e tendas Agamemnon,
  176. Na mão purpúreo manto, não parasse
  177. De Ulisses no baixel, que era no centro,
  178. A fim de ouvido ser nos dois extremos,
  179. Onde o arraial, em seu valor afoutos,
  180. O Telamônio e Aquiles assentaram.
  181. Alto vociferou: “Que infâmia, ó Dânaos,
  182. Pasmosos em beleza, em obras torpes!
  183. Que é dos brios que em Lemnos blasonáveis,
  184. De cornígeros bois gostando as carnes,
  185. Das crateras bebendo engrinaldadas?
  186. Cem ou duzentos cada qual prostrava;
  187. Hoje Heitor só nos vence, e as naus em chamas
  188. Vai devorar!... Ó Padre, um potentado
  189. Hás por bem afligi-lo e desonrá-lo?
  190. Teu culto preteri na instruta popa?
  191. Tua ara não brilhou? Por toda a parte
  192. Gordura e coxas te queimei taurinas,
  193. Cobiçando assolar aqueles muros.
  194. Escaparmos, senhor, permite ao menos,
  195. Não consintas que os Teucros nos destruam.”
  196. Anui, das queixas condoído o nume,
  197. A que salve-se o campo; envia uma águia,
  198. Infalível augúrio, a qual das unhas
  199. Roubado o gamozinho à mãe ligeira
  200. Junto larga do altar, onde os Aquivos
  201. A Jove Panonfeu sacrificavam.
  202. Da ave Dial à vista, eles furentes
  203. A peleja precípites renovam.
  204. De tantos só Diomedes a carnagem,
  205. Transpondo o fosso em vívidos ginetes,
  206. Se gabou de estrear: muito antes de outrem.
  207. Mata o varão, que elmado ia fugindo,
  208. Fradmonide Agelau; entre as espáduas
  209. Enterra o dardo, que lhe sai aos peitos;
  210. Ao cair do seu coche, o arnês ressoa.
  211. Logo os Atridas, os Ajax forrados
  212. De intrepidez; Idomeneu seguiu-se
  213. Com Merion, rival do cru Mavorte;
  214. Mais o famoso Eurípilo Evemônio;
  215. O arco elástico atesa e é nono Teucro.
  216. Este ao pavês do grande irmão se abriga:
  217. Seguro em torno esguarda, e assim que frecha
  218. E derriba um na chusma, qual menino
  219. Da mãe ao seio, para Ajax reverte,
  220. Que sob o escudo esplêndido o protege.
  221. A quem o exímio herói prostrou primeiro?
  222. A Orsíloco e Detor, Crômio, Ofelestes,
  223. O Poliemônio Hamópaon e Órmeno,
  224. Menalipo e o disforme Licofonte;
  225. O almo chão de cadáveres juncando.
  226. Do arco letal, que batalhões descose
  227. Contente o rei dos reis chegou-se a Teucro:
  228. “De povos chefe amado, eia, sê brilho
  229. À Grécia e a Telamon, que a ti bastardo
  230. Criou-te em casa com paterno afeto;
  231. Honra-o de longe e paga-lhe a ternura.
  232. Se o Egíaco e Palas me consentem
  233. Soverter a cidade majestosa,
  234. Prometo-te após mim do prêmio a escolha,
  235. Uma trípode, ou carro e dois cavalos,
  236. Ou moça esbelta que te suba ao leito.”
  237. E Teucro: “Incitas-me, ínclito Agamemnon?
  238. Como! do ardor não vês que nada afrouxo?
  239. Deste que repelimos o inimigo,
  240. A dignos campeões disparo setas;
  241. Oito farpadas já vararam todas
  242. Corpos de oito mancebos valorosos;
  243. Mas o rábide cão tocar não posso.”
  244. Do nervo aqui desprega uma ansiosa
  245. De embeber-se em Heitor; mas deste a berra,
  246. Na polpa entrando peitoral do insigne
  247. Gorgition, que a Príamo parira
  248. Gentil consorte e airosa como as deusas,
  249. Castianira, de Ésima roubada:
  250. Qual dormideira em horto ao peso dobra
  251. Do fruto e verno humor, a testa o jovem
  252. Do elmo agravada inclina. — Eis outra em busca
  253. Zune de Heitor; mas, desviando-a Febo,
  254. De Arqueptolemo audaz, que em sanha ataca,
  255. Prega-se à mama; ao revirar do auriga
  256. Moribundo os solípedes recuam.
  257. O herói, pungido n’alma, o deixa; as bridas
  258. Comete a Cebrion, que ali presente,
  259. Monta ao coche do irmão; de um pulo, em terra
  260. O galeato sevo Heitor se apeia;
  261. Bramindo horrendamente, um seixo aferra,
  262. Ávido corre a Teucro, ao passo que este
  263. Seta amarga destoja e ao nervo adapta,
  264. E o puxa e ombreia já: mas o Priâmeo
  265. Joga a pedra à clavícula, onde os peitos
  266. Separa da cerviz, lugar funesto:
  267. Rota a corda, a munheca amortecida,
  268. Nos joelhos se escora, e foge-lhe o arco.
  269. Do irmão sem descuidar-se, à pressa o cobre
  270. Ajax com seu pavês, té que dois sócios,
  271. Divo Alastor e Mecisteu de Équio,
  272. Egro e gemente em braços o transportam.
  273. O Olímpio inflama os Troas, que em seu fosso
  274. Acuam o inimigo; Heitor à testa
  275. Gira medonho os lumes: qual sabujo
  276. Pós javardo ou leão, nos pés fiado,
  277. Ancas mordeu-lhe ou coxas; tal, no alcance,
  278. Mata o mais atrasado. Assim que os Dânaos,
  279. Depois de horrível perda, se entrincheiram
  280. E vão às naus, aos céus em altas vozes
  281. Alçam palmas; Heitor passeia em torno
  282. Bem-crinitos frisões, e uns olhos vibra
  283. Como a Górgona ou Marte sanguinário.
  284. A bracinívea Juno aguça a Palas:
  285. “Ah! do Egífero prole, aos Gregos nossos
  286. Nem valemos no lance derradeiro!
  287. Por fúria intolerável de um Priâmeo,
  288. Que de mortes! que males! que desastres!”
  289. “Na pátria ele acabara às mãos dos Gregos,
  290. Diz Minerva, se iníquo, insano e duro,
  291. Os ímpetos meu pai não me impedisse;
  292. Esquece que do céu baixei freqüente
  293. Para ao filho acudir que ao céu mandava
  294. De opressões de Euristeu carpidas queixas!
  295. Previsse eu tal, que nunca o mesmo Alcides,
  296. Do Orco às validas portas enviado
  297. A prender o atro cão do rei das sombras,
  298. Desse Estígio escapara abismo fundo.
  299. Hoje pospõe-me a Tétis, que os joelhos
  300. Beija-lhe e afaga o mento, para que honre
  301. O urbífrago Pelides; mas ainda
  302. A Glaucopide sua há-de chamar-me
  303. Aparelha os corcéis enquanto à régia
  304. Vou me arnesar, a ver se o nosso aspecto
  305. Alegra o herói famoso: a cães e abutres
  306. Cuido satisfará de zerbo e carnes,
  307. Junto às naus estirado, algum Troiano.”
  308. Presto a real Satúrnia arreia de ouro
  309. E orna a fronte aos cornípedes comados.
  310. Solta Minerva no paterno solho
  311. Bordado véu que nítido lavrara;
  312. Do nubícogo deus veste a loriga,
  313. Veste o arnês dos combates lagrimosos;
  314. Monta ao fulgente coche, enorme libra
  315. Hasta pesada, com que inteiras hostes,
  316. Do prepotente filha, irada prostra.
  317. Juno os tiros verbera: eis por si rangem
  318. Portões que as Horas guardam, sentinelas
  319. Da suma casa etérea, a cuja entrada
  320. Fechar e abrir lhes toca a nuvem densa;
  321. Dóceis transpassam-na os corcéis divinos.
  322. Do Gárgaro as vê torvo, expede o Padre
  323. Íris ali-dourada: “Eia, a caminho,
  324. Voa e volta, e nos poupa ímpia contenda;
  325. Hei-de ao jugo, assevero, os corredores
  326. Estropear, e derribadas elas,
  327. O carro esmigalhar: do raio as chagas
  328. Nem em dez nos sararão; Minerva
  329. Saiba quem é seu pai. Vezeira Juno
  330. Sempre a contrariar, me irrita menos.”
  331. Procelípede a núncia, do Ideu cimo
  332. Ao de altibaixos grande Olimpo adeja;
  333. Topa-as na falda: “Suspendei; mensagem
  334. Trago de Jove. Que furor vos cega?
  335. Ele vos tolhe auxiliar os Dânaos.
  336. Sob o jugo assevera os corredores
  337. Estropear, e derribadas ambas,
  338. O carro esmigalhar. Do raio as marcas
  339. Mais de anos dez comprovarão, Minerva,
  340. Quem é teu celso pai. Vezeira Juno
  341. Sempre a contrariá-lo, o irrita menos:
  342. Ousarás, insolente ladradora,
  343. Enristar contra Jove a enorme lança?”
  344. Íris foi-se, e virou-se a Palas Juno:
  345. “Ó do Egífero prole, eu já não quero
  346. Que por mortais com ele contendamos.
  347. Vivam, pereçam, como ordene a sorte;
  348. Reto o Supremo a seu prazer decida.”
  349. E os comantes sonípedes revira,
  350. Que as Horas desjungidos ao presepe
  351. Ligam suave, e às lúcidas paredes
  352. O carro inclinam: mestas, entre os numes,
  353. Em selas de ouro as duas se recostam.
  354. Do Ida ao céu roda o Padre em coche airoso;
  355. Que dos corcéis desprende, em linho o envolve
  356. Junto às aras Netuno. Do entronado
  357. Altissonante aos pés o Olimpo treme.
  358. Sós de parte, assentadas, Juno e Palas
  359. Nem boquejavam; mas percebe-as Jove:
  360. “Tristonha estás, Satúrnia, e tu Minerva?
  361. Quão lassas da batalha gloriosa
  362. Em que aborridos Teucros derrotastes!
  363. Esqueceu-vos que os íncolas do Olimpo
  364. Ao poder do meu braço não resistem?
  365. Antes mesmo das bélicas proezas,
  366. Os melindrosos membros vos tremiam.
  367. Fulminadas, por certo, em vosso coche
  368. Às mansões imortais não voltaríeis.”
  369. Contíguas, gemem comprimindo os lábios
  370. Juno e Minerva, e dano aos Teucros urdem.
  371. Cala e a seu pai Minerva oculta a raiva;
  372. Mas Juno estoura: “Cru minaz Satúrnio!
  373. Senhor te confessamos e invencível.
  374. Se combater porém nos é vedado,
  375. Permite aconselhemos os briosos
  376. Lamentáveis Aqueus, para que ao sopro
  377. Da ira tua não pereçam todos.”
  378. E o tonante: “Olhitáurea augusta Juno,
  379. Quem sou te mostrarei; verás, se o queres,
  380. N’alva os teus feros Gregos em derrota.
  381. Heitor há de acossá-los, té que esperte
  382. Um dia o ágil Pelides, ante as popas
  383. No estreitar-se ao cadáver de Pátroclo
  384. Sevíssimo conflito: é lei do fado.
  385. Que presta vão rancor? Nem que te sumas
  386. Da terra e mares nos confins, abismos
  387. Do Tártaro onde Iápeto e Saturno
  388. De aura jacunda e claro sol não logram;
  389. Nem que erres tão remota, iguais furores,
  390. Ó poço de impudência, em pouco tenho.”
  391. Não tuge a bracinívea. No Oceano
  392. Cai o Sol, e após ele na alma terra
  393. Se espalha a noite, com pesar dos Teucros;
  394. Mas aos Dânaos foi grata a espessa treva.
  395. Das naus longe, ante o rio vorticoso,
  396. Do morticínio fora, a Heitor atentos,
  397. Caro a Jove, os Troianos se apeavam,
  398. E em lança de onze cúbitos, luzida
  399. Com ênea cúspide e áureo anel em torno,
  400. Ele se apóia, e rápido perora:
  401. “Ouvi, Dardanos, Troas e aliados.
  402. Pouco há pensáveis, destruída a frota,
  403. Em Ílio entrar ovantes; mas na praia
  404. Salvou denso negrume as naus e os Gregos.
  405. Ceda-se à noite, e a ceia preparemos.
  406. Ao pasto soltos os frisões crinitos,
  407. Vinho comprai suave, e o pão das casas
  408. E bois trazei da praça e ovelhas gordas.
  409. Lenhai com que entreter noturnos fogos,
  410. Até que a filha da manhã resplenda:
  411. Pelo amplo dorso equóreo a gente Aquiva
  412. Não cometa às escuras escapar-nos;
  413. Nem se embarquem sem risco, mas na praia
  414. Cure-se algum dos tiros e lançadas
  415. Que o firam no trepar; temam vindouros
  416. Guerra mover chorosa a heróis Troianos.
  417. Apregoai, de Jove amados núncios,
  418. Que os de alvas cãs e os púberes em rondas
  419. Nos muros velem que imortais ergueram;
  420. Cada mulher seu fogaréu acenda;
  421. N’ausência nossa advirtam sentinelas
  422. De ataque súbito a cidade inerme.
  423. Isto se cumpra; de manhã, guerreiros,
  424. Mais vos direi. No Olimpo e em Jove espero
  425. Esses cães enxotar, que em fuscos vasos
  426. Trouxe destino infausto, e infausto os leve.
  427. De noite alerta, na arraiada prontos
  428. Junto às naus excitemos o acre Marte.
  429. Verei se o Grã Tidides me repele
  430. Das popas à muralha, ou de hasta aênea
  431. Se o prostro e arranco-lhe o sangüento espólio.
  432. Seu valor provará, se deste braço
  433. O embate sustiver, mas conto em frente
  434. Caia no albor do Sol, com muitos sócios.
  435. Isento eu seja da velhice e morte,
  436. E honre-me qual Minerva ou qual Apolo,
  437. Como o dia aos Aqueus será funesto.”
  438. O aplauso ecoa. Desjungidos foram
  439. Os suados ginetes, e a seu coche
  440. O tiro se encabresta. Ovelhas gordas
  441. E bois trazem da praça e o pão das casas,
  442. Vinho compram suave e lenha empilham;
  443. Fumo e cheiro do campo ao céu remontam;
  444. Em ordem bélica, ufanosos todos
  445. Ante os fogos pernoitam, quando no éter
  446. Sereno, em cerco da fulgente Lua,
  447. As formosas estrelas aparecem,
  448. Grutas, serros e brenhas aclarando:
  449. Abre-se imensa a região sidérea,
  450. E o pastor em si folga: de Ílio em face
  451. Iam-se tantos lumes acendendo
  452. Entre o Xanto e os baixéis. De mil fogueiras
  453. Homens cinqüenta a cada uma assistem.
  454. Farro e espelta os corcéis comendo, esperam
  455. A Aurora apoltronada em pulcro sólio. * * *

Nota a nota · 4 notas

v. 201A Jove Panonfeu sacrificavam.
Panonfeu, epíteto de Júpiter, quer dizer o que ouve todos os votos, ou aquele a quem todos invocam.
↩ voltar ao verso 201
v. 302A Glaucopide sua há-de chamar-me
Glaucopide, epíteto de Minerva, muito repetido nas obras de Homero, tenho-o traspassado pela frase de olhos garços, ou gázeos, ou zarcos; se é que não deva antes verter-se por de olhos verdemares ou cor de azeitona, como eu já disse em outro lugar; mas aqui parece-me, com Monti, que o bom gosto manda que se adote o adjetivo grego.
↩ voltar ao verso 302
v. 306Cuido satisfará de zerbo e carnes,
Zerbo ou zirbo é o redenho ou teagem celular dos animais: veja-se Moraes ou Constâncio.
↩ voltar ao verso 306
v. 331Procelípede a núncia, do Ideu cimo
Procelípede, epíteto imitado a Homero, mas de cunho latino, quer dizer de pés tão rápidos como a procela.
↩ voltar ao verso 331
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