Trépidos gamos na carreira os Teucros
434 versos · 7 notas do tradutor
- Trépidos gamos na carreira os Teucros
- À sombra dos merlões se refrigeram
- Do suor e da sede, e os inimigos
- De escudo sobre os ombros se aproximam.
- Como atado em grilhões a Heitor a Parca
- Demora às portas Ceias, e ao Pelides
- Fala Apolo: “Por que te afanas tanto?
- Cego de fúria, em mim não vês um nume?
- Olha que és transviado, e os fugitivos
- Dentro em seguro: um deus matar pretendes?”
- Turvo o herói: “Crudelíssimo de todos,
- Que assim me distraíste! O pó teriam
- Muitos mordido: a glória me roubaste
- Salvando aqueles vis, sem me temeres;
- Mas de ti, se pudesse, eu me vingara.”
- Então voa à cidade, e os passos move
- Qual vencedor ginete, que soberbo
- Árdego pelo campo o coche leva.
- Já nele avista Príamo essa estrela
- Cão de Órion nomeada, que, nascida
- No outono, os astros vence em noite bruna
- Por grande e resplendente, e agoura morbos
- Contra os homens calores dardejando:
- Na rapidez seu peito lampejava.
- Bate o velho na testa, eleva as palmas,
- Soluça, roga ao filho, que ante as portas
- Só por Aquiles brama: “Heitor, que fazes?
- Sem auxílio a tal monstro não te oponhas;
- Longe em forças te excede, e vai matar-te.
- Oh! Quanto a mim fosse ele aos deuses grato,
- Que, sendo em breve a cães e abutres cevo,
- Este meu coração consolaria!
- Trucidando ou vendendo em longes terras
- Filhos tantos e tais, privou-me deles;
- Nem Licaon enxergo e Polidoro,
- Que Laotoe me pariu formosa e casta:
- Se estão nos arraiais, com ouro e bronze,
- De Altes famoso à filha inteiro dote,
- Os remiremos; se a Plutão baixaram,
- Dor é minha e da mãe que os procriamos;
- Será breve a do povo, se de Aquiles
- Não te prostra o furor. Entra, meu filho,
- Não lhe dês glória tanta; para esteio
- De Tróia te reserva e das Troianas.
- Pena há de mim que, são de mente ainda,
- Sinto no cabo da velhice males
- Por Jove amontoados: filhos mortos,
- Filhas cativas, tálamos corruptos,
- No tropel a esmagarem-se crianças,
- Noras de rojo em brutas mãos profanas,
- Quiçá, de alma arrancada a brônzeo fio,
- Cães ao portal em peças me devorem,
- Guardas que à minha mesa eu nutri mesmo,
- E em meu sangue apagando a raiva e a gana,
- Se espojem no vestíbulo! Em batalha
- Jazendo um moço, lhe aparece tudo
- Nédio e composto; mas, defunto um velho,
- Já de cabeça branca e branca barba,
- De vergonhas à mostra, o lacerarem
- Torpes cães... Oh! Miséria das misérias!”
- Ele carpe-se e rasga-se ululando,
- Sem demover-se Heitor. Hécuba em pranto,
- Lastimosa do seio a mama tira:
- “Esta respeita, ó caro, com que eu meiga
- Teu vagir mitigava; a mãe to implora,
- Asila-te, meu filho, desse monstro,
- A sós não brigues. A matar-te a fera,
- Nem eu que te gerei, nem tua esposa,
- No leito funeral te choraremos:
- Serás perante as naus de cães pastura.”
- A lagrimar os velhos ambos rogam:
- Mas Heitor inconcusso espera Aquiles,
- Que agigantado assoma. Ao viandante
- Se pascida em má grama espreita a cobra,
- Fica assanhada e a vista acende horrível
- A enrolar-se na toca: Heitor não menos,
- Quedo e fogoso, à torre proeminente
- O escudo apóia fúlgido, e sentido
- Fala em sua alma grande: “Ai! Se entro agora,
- Mo exprobrará primeiro Polidamas,
- Que a recolher a gente aconselhou-me,
- A noite em que aziago alçou-se Aquiles.
- Fora melhor; a pertinácia minha
- Danou do povo a causa! Os nossos temo
- E as Troianas de peplos roçagantes;
- Ouço em roda: — Ei-lo Heitor, que temerário
- O exército perdeu! — Di-lo-ão por certo.
- Mais vale ou triunfar do imano Aquiles,
- Ou morrer pela pátria em luta honrosa.
- E se elmo e escudo e lança ao muro encosto,
- E indo encontrá-lo, dar prometo Helena,
- Motivo desta guerra, e o que Alexandre
- Nos trouxe em cavas naus, para os Atridas,
- Para os outros Aqueus o que Ílio encerra;
- Que de ancião com firmeza os Teucros jurem
- Nada ocultar, e dividir ao meio
- Quanta riqueza esconde a grã cidade...
- Quê! Deliras, minha alma? Eu suplicante!
- Sem mais dó nem resguardo, a mim sem armas,
- Qual imbele mulher, há-de imolar-me.
- Do rochedo e carvalho não é tempo
- De lhe ir falar como donzela e moço,
- Quando moço e donzela entre si falam.
- Combater, investir: saiba-se, e presto,
- A quem o Olímpio agora entrega a palma.”
- Entanto, igual a Marte, avança Aquiles
- De elmo a nutar, e à destra o lenho ingente,
- O arnês brilha em seu peito à semelhança
- De vivo ardente fogo ou sol no eoo.
- Trêmulo Heitor, ao vê-lo, as portas larga,
- Deita a correr; em pés fiado Aquiles,
- No encalço voa: açor montês imita,
- Ave a mais lesta, que, ao fugir de esguelha
- Tímida pomba, acerca-se guinchando
- Faminto à presa, a redobrados chofres.
- Precipita-se Aquiles, e o Priâmeo
- Em susto move rápido os joelhos.
- Vão, pela estrada ao longo da muralha,
- Da atalaia à ventosa baforeira,
- E às claras fontes chegam donde bolha
- O férvido Escamandro: uma flui quente,
- Como um lar acendido fumegando;
- No verão mesmo a outra é sempre fria,
- Tanto quanto a saraiva ou neve ou gelo.
- Ali, na paz que os Dânaos perturbaram,
- De pedra em largas elegantes pias
- Cônjuges Teucras e engraçadas virgens
- Roupa e vestes louçãs lavar soíam.
- Transpõem-nas ambos: o que foge é bravo,
- É mais bravo o que o segue: não bovina
- Vítima ou pele, da carreira prêmios,
- Do herói Priâmeo se disputa a vida.
- Qual circulando a meta os corredores,
- Para ganhar-se ou trípode ou cativa,
- Ágeis galopam nos funéreos jogos;
- Os dois assim de Príamo ante os muros
- Giram três vezes. Contemplando-os Jove,
- Aos mais deuses discursa: “Ah! vêem meus olhos,
- Com pesadume, a voltear aflito
- Varão que, em Pérgamo ou cabeços do Ida,
- Muitas coxas de bois me queima pio,
- E atrás o Velocípede! Salvá-lo
- Deliberemos se nos cumpre, ó numes,
- Ou se antes convirá que o dome Aquiles.”
- A Olhicerúlea exclama: “Onipotente
- Senhor do raio, à Parca já fadado
- Livras um mortal! Seja; mas todos
- Não to aprovamos.” — Respondeu-lhe o Padre:
- “Inda em nada assentei, sossega, filha,
- Quero aprazer-te, ampla licença tenhas.”
- Isto, por si disputa, incita a Palas,
- Que do Olimpo se arroja, enquanto Aquiles
- Urge tenaz a Heitor. Se, em monte ou vale,
- Do covil a cervato ergue o sabujo,
- A estremecer na moita ele se oculta,
- E o sabujo o rasteja até que o acha;
- Tal na trilha de Heitor ia o Pelides.
- Sempre que às torres e às Dardânias portas,
- Cujos tiros de cima o socorressem,
- Pende Heitor, ele aos muros mais vizinho,
- Lhe vem de frente, para o campo o arreda.
- Como em sonhos não pode ao fugitivo
- Este alcançar, nem se livrar aquele:
- Heitor assim de Aquiles não se livra,
- Nem Aquiles o alcança. E Heitor o golpe
- Evitara fatal, se ao lado Apolo
- Não lhe aumentasse a força e a ligeireza?
- Acena Aquiles de cabeça às tropas,
- Que a dardos não o ajudem, nem lhe tirem
- Ferir primeiro e só. No quarto giro
- Juntos eles às fontes, alça o Padre
- Áurea balança; numa concha o eterno
- Sono libra de Heitor, noutra o de Aquiles:
- Grave de Heitor a sorte a Plutão baixa,
- E Febo o deixa. A déia olhicerúlea
- Se avizinha ao Pelides: “Ora espero,
- Ó caro a Jove, encher de glória os Dânaos,
- Heitor aqui rendermos. De combates
- O insaciável escapar não conte,
- Nem que aos pés do Tonante o implore Febo.
- Tu quieto resfolga, e entanto eu mesma
- Vou suadi-lo a pelejar contigo.”
- Ele contente ao freixo de érea choupa
- Se encosta; e Palas a Deifobo o vulto
- E a voz toma indefessa: “Heitor, gritou-lhe,
- Fogoso ante a muralha o fero Aquiles,
- Ó divo irmão, te acossa; alto façamos
- Firmes a recebê-lo.”— E Heitor: “Prezado
- Me eras, Deifobo, sobre quantos filhos
- De Hécuba teve Príamo: hoje em dobro
- Te prezo, irmão, que, ao veres meu perigo,
- Vens sustentar-me, e dentro os mais se ficam.”
- Então Minerva: “Nossos pais augustos
- E os sócios, caro irmão, de medo frios,
- De joelhos, não sair me suplicavam;
- Mas dor interna o coração pungiu-me.
- Lutemos dardo a dardo e rosto a rosto,
- Sem pouparmos fadiga; às naus vejamos
- Se ele nos leva o espólio sanguinoso,
- Ou se desse teu pique hoje é domado.”
- Ei-la dolosa avança, e ambos já perto,
- O galeato herói primeiro fala:
- “Ante a cidade vezes três, Pelides,
- Sem te suster girei; não mais te fujo;
- Agora a te arrostar me força o brio,
- Ou vencer ou morrer. Porém guardemos
- Pacto que os deuses testemunhem todos:
- Se da vida privar-te eles me outorgam,
- Teu corpo restituo inteiro e puro,
- E só das pulcras armas despojado;
- Igual favor Pelides, me assegures.”
- E ele feroz: “Um pacto ousas propor-me,
- Acerbíssimo Heitor! Pacto há sincero
- Entre homem e leão, lobo e cordeiro?
- Ódio nutrem recíproco e perpétuo.
- Não, tratados jamais; de um de nós ceve
- O sangue esparso ao belicoso Marte.
- O valor todo envida; ora te cumpre
- N’hasta acérrimo ser e audaz guerreiro.
- Não tens refúgio, pune-te Minerva
- Por minha destra; as agonias vingo
- Dos meus que trucidaste.” E aqui dispara:
- Furta-se Heitor; Minerva às escondidas
- Da areia arranca o pique, ao dono o entrega.
- Diz o Dardânio: “Erraste, herói divino.
- De Jove, gabas-te, o meu fado sabes.
- São dolos teus pra remeter-me susto
- E embotar-me o valor. Se o quer um nume,
- Não de costas, no seio a ponta aênea
- Me cravarás. Evita agora a minha,
- Que em teu corpo oxalá se enterre toda.
- Será, tu morto, nosso afã mais leve;
- És o maior flagelo dos Troianos.”
- E desferida a lança, ao meio acerta;
- O escudo a repulsou. Do bote inútil
- Sentido o herói, demisso o rosto, enfia
- Por não ter outra lança, e a gritos pede
- Uma a Deifobo de alvo abroquelado;
- Este ali não se achava, e conhecendo
- A ilusão, clama Heitor: “Ai! morte os numes
- Me aprestam já! Deifobo ao lado eu cria;
- Mas ele é dentro, e me enganou Minerva.
- A Parca se apropinqua inelutável:
- De longe o quis o Padre e o filho archeiro,
- Meus custódios outrora. Urge-me o fado:
- Sequer não morro imbele; a glória minha
- Vá ressoar grandiosa nos vindouros.”
- Da espada aqui puxou, que lhe pendia
- Grande e fornida e aguda, e rui coberto,
- Bem como águia altaneira entre nublados
- Sobre tímida lebre ou tenra ovelha.
- Iracundo e ferino investe Aquiles:
- O escudo aos peitos brilha artificioso;
- No elmo de quatro cores relumbrante
- Áureo ondeia o penacho, que Vulcano
- Pela cimeira derramou. Qual Vésper,
- A mais donosa estrela em fusca noite,
- Fulge na destra a lança a Heitor funesta;
- Busca a jeito empregá-la, que a Pátroclo
- O arnês belo despido ao belo corpo
- Todo guarnece, e a crava em mortal sítio,
- Onde o pescoço ao ombro se articula;
- Mas não lhe ofende a jugular o bronze,
- Nem tronca a voz. No pó rola o vencido;
- O outro blasona: “Impune, Heitor, cuidavas
- Pátroclo despojar? Não vias, louco,
- Naquelas naus um vingador mais forte,
- Que vim hoje esses membros dissolver-te?
- Corvos te hão-de roer e torpes gozos,
- E ele terá pomposo enterramento.”
- Balbuciante o herói: “Por teus joelhos
- E por teus genitores, eu te obsecro,
- Não deixes animal dilacerar-me:
- Bronze e ouro aceites que meu pai te oferte
- E minha augusta mãe; Teucros e Teucras
- Ah! dêem meu corpo à fúnebre fogueira.”
- Torvo o Pelides: “Nem por meus joelhos,
- Nem por meus genitores, cão, me implores.
- Autor cru do meu mal, tivesse eu forças
- De tragar-te essas carnes palpitantes!
- Não tens remédio algum: de tais presentes
- Nem que o décuplo e em dobro se me oferte
- Com promessa de mais, nem que te pese
- Príamo a ouro, tua mãe augusta
- Há-de em leito feral chorar seu filho;
- Sê pasto e jogo de animais famintos.”
- E a vasquejar Heitor: “Previ que os rogos,
- Ó férreo coração, baldados eram:
- Talvez que esta impiedade irrite os numes,
- Quando, embora valente, às mãos caíres
- De Febo e de Alexandre às portas Ceias.”
- A morte a voz lhe embarga; a Plutão baixa
- A alma dos membros solta, a lamentá-lo
- Murcho em flóreo vigor da mocidade.
- Não vive mais, e o vencedor o insulta:
- “Morre, venham meus fados quando Jove
- E os outros imortais cumpri-los queiram.”
- Então lhe puxa a lança e a põe de parte,
- Despe-lhe o arnês sangüento. Em roda enxame
- De Argeus acode, que de Heitor pasmados,
- Admiram-lhe a estatura e gentileza;
- Vem cada qual feri-lo, e entre si dizem:
- “Hui! Como Heitor é brando e mais tratável
- Que ao deitar fogo às naus!” Com tais motetes,
- Lhe ia o tropel o corpo vulnerando.
- O espólio toma, e aos Gregos fala Aquiles:
- “Chefes e amigos, por favor celeste,
- Jaz o varão, que os Teucros todos juntos
- Mais nocivo: à cidade arremetamos;
- Toca saber se abandoná-la tentam,
- Ou contrastar-nos, bem que Heitor perdessem...
- Mas que resolvo? Está Pátroclo morto
- Ante as naus, insepulto e não chorado;
- De quem, mova eu na terra estes joelhos,
- Nunca me esquecerei, nem se no inferno
- Memória desta vida se consente.
- O peã entoai, mancebos Dânaos,
- E às naus frio o cadáver transportemos;
- Imensa glória sobre Heitor ganhamos
- Que era dos Troas como um deus honrado.”
- Logo, para ultrajá-lo, aos pés lhe fura
- Do calcanhar ao tornozelo as fibras,
- Bovinos loro mete, ao carro o prende,
- Cabeça a rastos: com o espólio monta,
- Sacode o açoute, os corredores voam.
- Rojado, o pó levanta, e o pó lhe afeia
- A coma negra, o vulto, que era há pouco
- Tão belo e nobre: Júpiter a injúrias
- Hostis o vota nos paternos campos!
- Da cena atroz à vista, a mãe coitada
- Se carpe e rasga, o véu nítido expele,
- E ulula e geme; triste o pai lamenta;
- Pela cidade o miserando povo
- Soluça em pranto, qual se Tróia em peso
- Do excelso cume em chamas desabasse.
- O velho mal continham de sair-se
- Pelas Dardânias portas; e ele a todos,
- Rolando-se na lama, suplicava,
- A chamar um por um: “Ir só deixai-me,
- De mim não se vos dê, perante a frota
- Ao cruel matador prostrado, amigos,
- Implorar, comover: talvez respeite
- Em mim o eqüevo de Peleu, que o teve
- E o nutriu para exício dos Troianos.
- Mormente a mim me cumulou de angústias:
- Quantos filhos em flor me tem roubado!
- Porém, dos que pranteio, um só de todos
- Me dói mais e me arrasta ao centro escuro
- Heitor... Oh! Se em meus braços expirasse!
- Em lágrimas eu mesmo, em ais e em luto,
- Com a mãe que mo gerou desafogara.”
- Gemente o chora o povo; entre as mulheres
- Hécuba rompe em lúgubres suspiros:
- “Morreste, filho, e eu vivo! Dia e noite
- Eras o meu orgulho e amparo d’Ílio,
- Eras um deus aos Teucros e às Troianas
- Já foste nossa glória, e és um cadáver!”
- Entanto, aviso Andrômaca nem tinha
- De que o marido só restasse fora.
- Em cima e no interior, tecia tela
- Dúplice e esplêndida, em folhagem vária;
- E às servas ordenara emadeixadas
- Um banho em ampla trípode aquecessem,
- Para quando voltasse da batalha.
- Néscia! De banhos longe, a gázea Palas
- Domado o havia pelas mãos de Aquiles.
- Mas da parte da torre ouviu lamentos
- E alto alarido; a lançadeira solta,
- Convulsa fala: “Duas me acompanhem.
- Que será? Sinto a voz da augusta sogra;
- Tremor no coração me salta aos lábios,
- E os frígidos joelhos se entorpecem:
- Algum dano sucede aos Priamidas.
- Oxalá que eu não ouça infausto anúncio!
- Mas temo que meu bravo Heitor sozinho
- Fora esteja, e o persiga o fero Aquiles;
- Que este lhe extinga a exicial coragem,
- Com que longe da turba e à frente lida,
- Nunca a ninguém cedendo em valentia...”
- E das fâmulas duas escoltada,
- Sai quase doida, a palpitar-lhe o peito;
- Sobe à torre, aos guerreiros se aproxima,
- E olha em torno do muro: a Heitor avista,
- Que de rojo os corcéis ante a cidade
- Para as naus cruelmente arrebatavam;
- Enoitam-se-lhe os olhos, e de costas
- Cai desmaiada, o espírito exalando.
- A laçaria e fitas se lhe espalham,
- Coifa e toucado, e o véu de Vênus prenda
- Quando, com dote infindo, o esposo a trouxe
- Da casa paternal. Para a conterem
- Ansiosa de acabar, de seu marido
- As irmãs e as cunhadas a rodeiam.
- Enfim no coração recobra o alento,
- Soluça e geme e chora: “Heitor, ai! Triste,
- Com fado igual nascemos, tu nos paços
- Do rei Príamo em Tróia, eu na Tebana
- Hipóplaco selvosa, onde criou-me
- De menina Eetion para infortúnios,
- E antes me não gerasse! Ora ao subtérreo
- Orco desces profundo, e em luto e nojo
- No viúvo aposento me abandonas;
- Nem do nosso filhinho és mais o arrimo,
- Nem ele o teu será. Da crua guerra
- A escapar, não se escapa à desventura;
- Mudado o marco, o esbulharão do prédio.
- O pupilo no dia da orfandade
- Perde os jovens amigos: baixo o rosto,
- Água nos olhos, se o do pai segura,
- Um pela túnica, outro pela capa,
- Indigente é repulso; o mais piedoso
- Bebida num copinho lhe escanceia,
- Que os beiços banha e o paladar não molha.
- O que possui os genitores ambos,
- Fero da mesa o expulsa, espanca e enxota:
- -Sai, conosco teu pai já não convive. —
- Tal há-de vir choroso à mãe viúva
- O infante meu, que aos paternais joelhos
- Com tutanos de ovelha se nutria,
- E lasso de brincar, entregue ao sono,
- Da nutriz afagado ao brando colo,
- Contente em mole berço adormecia.
- Órfão, misérias sofrerá meu filho,
- Que Astianax os nossos denominam,
- Porque eras, nobre Heitor, único apoio
- Destas muralhas. Ante as naus rostradas,
- Longe dos pais, hão-de roer-te vermes,
- Depois que nu te comam cães raivosos,
- A ti, que hás finas e elegantes vestes,
- Por tuas servas e por mim tecidas.
- Já que para a mortalha nem te servem,
- Em honra tua ao fogo vou queimá-las,
- Dos Teucros em presença e das Troianas.”
- As mulheres ao pranto ecos faziam. * * *