Jove, Heitor já na praia, deixa aos Teucros
678 versos · 8 notas do tradutor
- Jove, Heitor já na praia, deixa aos Teucros
- A angústia e o peso; aos Traces cavaleiros
- Fúlgidos olhos volve, aos Hipomolgos
- Glatófagos longevos, aos rompentes
- Mísios, Ábios justíssimos dos homens;
- Nem pensou que imortal algum viesse
- Favorecer a Gregos ou Troianos.
- Em não cega atalaia, do alto cume
- Da Samotrácia umbrosa, contemplando
- A guerra o Enosigeu, todo o Ida avista,
- A Priâmea cidade e as naus atenta:
- Ali do mar saíra, e dos vencidos
- Graios com dó, se inflama contra Jove.
- Desse alcantil baixando, o monte e a selva
- Sob seus pés retremem; dá três passos,
- E ao quarto Eges alcança, em cujos mares
- Tem fundo áureo palácio indestrutível.
- Entra, junge os erípedes fogosos
- De crinas de ouro, de ouro o corpo arnesa,
- De ouro o chicote apunha artificioso,
- E monta ao coche, pelas ondas voa:
- Conhecendo a seu rei, surdindo exultam
- Cetáceos mil; a vaga alegre amaina;
- A rapidez é tal que, sem molhar-se
- O eixo de bronze, à frota em breve chegam.
- Entre Imbro áspera e Tênedos, Netuno
- Em ampla equórea gruta os brutos larga,
- Para de ambrósio pasto alimentá-los,
- E em peias insolúveis e inquebráveis
- Áureas os prende, a fim que esperem quedos
- Que do exército Aqueu seu dono torne.
- Como incêndio ou procela, em sanha e urrando
- A Heitor seguem os Troas, na esperança
- De em suas naus exterminar os Gregos.
- Mas o que abarca a terra, do áqueo pego
- Estes veio animar; o vulto a Calcas
- Toma e a voz indefessa, e mais abrasa
- Os ardentes Ajax: “Ajax, mantende
- O Aquivo alento, longe o frio medo.
- Não temo alhures o inimigo ousado,
- Bem que o muro passasse; hão-de contê-lo
- Nossos heróis: de cá receio a fúria
- De Heitor, que marcha como horrível chama,
- E de filho de Júpiter blasona.
- Um deus vos dê firmeza, e ânimo aos outros
- Inspirai; que há de ser das naus repulso,
- Embora o excite o mesmo Onipotente.”
- Aqui toca-os Netuno com seu cetro,
- E os fortalece e alesta-lhes os membros,
- A mão lhes faz robusta e o pé ligeiro;
- E abalou como açor, que as asas bate
- E se despenha sobre fraca pomba.
- Ajax de Oileu persente e ao sócio fala:
- “Não é Calcas aquele, ó Telamônio,
- Mas íncola do Olimpo que, do vate
- Sob o semblante, propugnar nos manda:
- É por detrás diverso e na pegada:
- Fácil no andar se reconhece um nume.
- Por combates meu peito mais palpita,
- Pulsa-me o braço e o pé.” — Responde o amigo:
- “Ora espontâneo a mão da lança ferra,
- O ânimo cresce, à luta os pés me impelem
- Só por só com o indômito Priâmeo.”
- Enquanto alegres da peleja tratam,
- O deus que os acendera, anima a outros,
- Que extremos ante as naus do afã respiram;
- Dor íntima os trabalha e os esmorece,
- E ao ver que o muro escala a Teucra gente,
- Lágrimas das pestanas lhes borbulham,
- Crêem o exício infalível. Mas Netuno
- Concita as Graias hostes; vem primeiro
- Aos heróis Teucro e Antíloco e Deipiro,
- Merion e Leuto, Peneleu e Toas,
- E exclamou: “Que vergonha, ó flor dos jovens!
- Em vós eu punha a salvação da armada:
- Cessais de combater, e eis luz agora
- Nosso dia supremo. Oh! Céus, com pasmo
- Vejo incrível milagre, às naus chegarem
- Fugazes Troas como fracos cervos,
- Que errantes na floresta, são de pardos
- Chacais e lobos, cevo: à força Aquiva
- Dantes nem a arrostar se abalançavam;
- Hoje em face das naus feros pelejam!
- Do soberano é culpa, é dos soldados
- Que, a despeito das ordens, refusando
- O assalto repelir, matar se deixam.
- Mas, se obrou mal no insulto ao grande Aquiles,
- Toca-nos ao conflito nos furtarmos?
- Sus, não persistem no erro as almas nobres:
- Bravos dos bravos, onde o brio vosso?
- Desculpo o imbele que recua e afrouxa;
- Mas arde-me no peito essa moleza.
- O pejo e a repreensão vos falem n’alma:
- Cumulais nosso dano; o risco aumenta;
- Ante as naus já corusca o herói Priâmeo;
- Barras quebrou, despedaçou trincheiras.”
- Assim Netuno. Aos dois Ajax rodeiam
- Falanges tais, que Marte as aplaudira,
- E a belígera Palas. Gente egrégia
- A Heitor e os seus espera, escudo a escudo,
- Lança a lança, elmo a elmo, rosto a rosto;
- Flamejam confundidas as cimeiras
- E undantes crinas, tão cerrados eram;
- Vibram-se audazes freixos, vai travar-se
- O acérrimo conflito. — Heitor o enceta,
- Com densos batalhões acre rompendo.
- Se, túrgida por chuvas, a torrente
- Arruinador penedo arranca e rola
- De pedregoso vértice, ele aos tombos
- Com ímpeto incessante o bosque atroa,
- Té que em planície estaca e desfalece:
- Tal Heitor, que estender ao mar o estrago
- Ia e destruir tudo, à vista acalma
- De unidos batalhões; a dardo e espada
- Contêm-lhe os Dânaos o furor pujante.
- Rebatido repeda, e horrendo grita:
- “Pugnazes Lícios, Dárdanos, Troianos,
- Constância! não é longa a resistência:
- De lança espero aos Gregos esse basto
- Quadrado penetrar, se é que me inspira
- De Juno o altíssono e potente esposo.”
- Isto os robora. De rodela alçada,
- O Priâmeo Deifobo ardido avança
- Hasta fulgente Merion certeiro
- Vibra, e Deifobo receando o bote,
- No táureo escudo o apara, e ao pé da choupa
- Rebenta o cabo; aos seus reverte iroso
- O Grego herói, por ter falhado o golpe
- E quebrar-se o arremesso; em busca de outro,
- Que deixara na tenda, além do campo,
- Corre; e crescendo fica o estrondo e a guerra.
- Teucro o primeiro prostra bélico Ímbrio,
- Geração de Mentor em corcéis rico:
- Habitava em Pedeu, por mulher tendo
- Medesicasta, Priameia espúria;
- Mas, à nova da Grega instruta armada,
- Ínclito em armas veio, e em casa o sogro
- O honrava como a filho: o Telamônio
- Júnior de pique sob a orelha o fere;
- Sacado o pique, tomba como um freixo
- Que, vistoso de longe em pino excelso,
- Ao corte aêneo abate as folhas tenras;
- Na queda as armas soam. Teucro ansioso
- Quer despi-las, e Heitor um dardo esgrime,
- Que ele esquiva, e aos peitos vai de Anfímaco,
- Do Netúnio Cteato insigne prole,
- De fresco vindo; ao baque o arnês murmura.
- O elmo a desenlaçar-lhe Heitor se apressa;
- De lança o impede Ajax, que não lhe ofende
- O corpo horrente em bronze, mas do escudo
- Passa-lhe a copa e intrépido o repulsa.
- Heitor cede os cadáveres: de Atenas
- Os divos chefes Menesteu e Estíquio
- Vão carregando Anfímaco; impacientes
- Os fogosos Ajax de Ímbrio se apossam:
- Qual dois leões, que à densa moita levam
- Alta do chão nos queixos uma cabra,
- De cães de fila aos dentes arrancada,
- Sustêm-no os dois guerreiros e o despojam.
- Pela morte de Anfímaco irritado
- O Oilíades o estronca, e em ar de bola
- Joga à turba a cabeça, que rodando
- Aos pés do mesmo Heitor cai na poeira.
- Defunto o neto no hórrido conflito,
- Parte Netuno irado ao campo Grego,
- A maquinar dos Teucros a ruína;
- Encontra o hasteiro Idomeneu, que, entregue
- Aos médicos um sócio, no jarrete
- Pouco há ferido e em braços carregado,
- Vem da tenda saciar-se na batalha;
- O Enosigeu lhe fala, na figura
- De Toas Andremônio, que imperava
- Toda a Pleurona e a celsa Calidona,
- Do povo Etólio como um deus honrado:
- “Príncipe dos Cretenses, onde os feros
- E orgulhosa ameaça dos Aquivos?”
- O conselheiro Idomeneu responde:
- “Toas, nenhum varão, julgo eu, tem culpa,
- Pois todos hoje denodados fomos:
- Não há terror, desânimo ou frouxeza;
- Capricho é do Supremo que os Aquivos
- Longe da comum pátria inglórios morram.
- Toas belaz, os tíbios sempre exortas;
- Ora prossigas, e um por um despertes.”
- Mas o que abala a terra: “Nem de Tróia
- Saia mais, sim de cães ludíbrio seja,
- Quem neste dia abandonar o prélio,
- Anda; bem que só dois, já já, tardamos:
- Presta dos fracos mesmo unida a força;
- Mas nós com fortes pelejar sabemos.”
- Torna à peleja o deus, e o rei na tenda
- Se arma e hastis dois meneia: qual, vibrado
- Pelo Satúrnio do fulgente Olimpo,
- Lampeja o raio com que assusta os homens;
- Tal no peito ao marchar o arnês brilhava.
- Sai-lhe Merion seu pajem, que ia à tenda
- Buscar um pique, e Idomeneu lhe fala:
- “Veloz Merion Molides, caro amigo,
- Por que deixaste o prélio? Estás ferido
- E afligi-te algum dardo, ou vens por núncio?
- Languir não quero aqui, pelejar quero.”
- E o prudente Merion: “Se o hás, pedir-te,
- Príncipe dos de Creta eriarnesados,
- Venho um pique: no escudo o meu quebrou-se
- Do cru Deifobo.” — Idomeneu replica:
- “Se hastas queres, não uma, acharás vinte
- Sacadas a vencidos: eu me gabo
- De bater-me de perto; assim, da tenda
- Luzem-me nas paredes piques, dardos,
- E copados broquéis, lorigas, elmos.”
- Então Merion: “Despojos tenho muitos
- Na tenda e fusca nau, mas ficam longe.
- Também no marte e ação, que ilustra os homens,
- Sempre adiante, não deslembro a honra:
- Talvez o ignore algum, mas julgo o sabes.”
- “Sim, continua o herói, sei quanto vales;
- Mas por que mo recordas? Por escolha,
- Se estivéssemos ora de emboscada
- (Onde o medo aparece, onde a coragem;
- Onde o poltrão se encolhe, e gela e embaça,
- E titubam-lhe os pés e os dentes fremem,
- E pressago do mal dentro em seu peito
- Descompassado o coração lateja;
- Onde o forte nem treme nem descora,
- Arde pelo combate e quedo o espera),
- Quem teu vigor tachara ou tua audácia?
- Talvez serás ferido na refrega,
- Na nuca e dorso não, mas na arca e ventre,
- E sempre entre os primeiros. Basta, e cessem
- Estas jactâncias, que estranhar-nos podem;
- Da minha tenda uma hasta rija toma.”
- Celeríssimo o herói traz éreo pique,
- E segue o rei por se bater bramindo.
- Contra os Efiros ou briosos Flégias,
- Quando Marte homicida vem da Trácia
- Com seu filho o Terror, válido e ousado,
- Que os mais firmes assusta, inexoráveis
- A um dos partidos a vitória inclinam:
- Em bronze coruscante assim procedem
- Os cabos dois, e Merion começa:
- “Deucálide, à sinistra investir queres,
- Ou queres à direita, ou pelo centro?
- Geral contenda, creio avexa os Dânaos.”
- E Idomeneu: “No centro há defensores,
- Os dois Ajax e o nosso archeiro
- Teucro, inda a pé galhardo; e, bem que estrênuo
- Seja Heitor, formidando e impetuoso,
- Muito árduo lhe será vencer tais braços
- E as naus incendiar, salvo se às popas
- Darde o mesmo Satúrnio ardente facho:
- Não temas que se dobre o Telamônio
- A mortal que de Ceres coma os frutos,
- A bronze violável e a penedos:
- Nem ao rompe esquadrões sem-par Aquiles,
- Com quem se mede, exceto na carreira.
- Marchemos à sinistra, a ver em breve
- Se a glória será nossa ou do inimigo.”
- Disse e o márcio Merion põe-se a caminho,
- De ponto em branco assoma; o rei seu fogo
- Na turba acende, e junto às naus se travam.
- Se em dia seco sibilantes ventos
- Sublevam temporal, pulvérea nuvem
- Levanta-se em remoinhos das estradas:
- Assim mescla-se a lide; anseiam mútuos
- Enterrar no contrário ou dardo ou seta.
- Mortais farpas zunindo as carnes rasgam;
- Deslumbra e olhos comprime o fulgor d’elmos,
- De encontrados broquéis, de corsoletes
- Recém-polidos: fora despiedoso
- Quem não se entristecesse e ali folgasse.
- Os de Saturno poderosos filhos
- Discordes aos varões dor grave urdiam:
- Júpiter, que o triunfo a Heitor prepara,
- Não quer o Graio exício, quer de Tétis
- Honrar a prole, o glorioso Aquiles;
- Magoado, a furto o rei da salsa espuma
- Surge a bem dos Grajúgenas vencidos,
- E ira veemente contra o irmão concebe.
- São ambos de um só sangue, mas primeiro
- Foi Júpiter nascido e há mais ciência:
- Às claras pois Netuno os não socorre,
- Mas sob alheia forma os esporeia.
- Os dois corda insolúvel e infrangível
- Da atroz pendência pelos cabos tiram,
- Que os joelhos enlaça e a muitos prostra.
- Grisalho embora, inflama os companheiros
- Idomeneu, que aterra e dá nos Teucros.
- De Cabeso Otrioneu, da guerra à fama,
- De fresco vindo, a Príamo pedia,
- Sem dotá-la, a belíssima Cassandra,
- Prometendo expulsar de Tróia os Gregos:
- Sob a fé régia, a combater valente
- Arrogante marchava, quando a lança
- Reluz de Idomeneu, que ao ventre o encrava
- Pela aênea loriga; ele baqueia,
- E o Cresso ali blasona: “Se a palavra
- Ao de Dardânia, Otrioneu, cumprires,
- Dos mortais rei te aclamo: a filha sua
- Te afiançou; nós chamaremos de Argos
- Ao teu dispor do Atrida a mais formosa,
- A expugnares conosco Ílion soberba.
- Vem às naus assentar nos desposórios:
- Sogros também iliberais não somos.”
- Pela perna ei-lo o puxa; ultriz lhe ocorre
- Ásio a pé, cujo tiro em mãos do auriga
- Segue atrás respirando: ávido busca
- Ferir a Idomeneu, que sob o mento
- Lesto lhe embebe na garganta a choupa:
- Qual, para náutico uso, cai no monte,
- Por secure de artífice amolada,
- Robre duro, alto pinho ou branco choupo;
- Tal jaz ante seu coche, e estruge os dentes,
- E de punhos agarra o pó sanguíneo.
- O auriga de terror nem retrocede
- Para escapar: o infatigável pique
- De Antíloco lhe passa e a coira e o ventre:
- Ele em vascas do assento precioso
- Tomba e expira, e o magnânimo Nestório
- Toca os ginetes para as Gregas filas.
- De Asio em vingança a Idomeneu Deifobo
- Dorido esgrime: Idomeneu previsto
- Sob a rodela táurea e de êneas orlas,
- De aptos manúbrios dois, se agacha todo;
- A hasta por cima voa, e roça o escudo
- Que árido ronca; não frustrâneo o bote
- Pesado, por debaixo do diafragma
- Do Hipáside Hipsenor de povos cabo,
- Talha o fígado, os órgãos lhe descose.
- Troa Deifobo sobremodo ovante:
- “Asio inulto não morre: às portas mesmas
- Do atro Plutão regozijar-se deve,
- Pois lhe dei companheiro da jornada.”
- A Antíloco mormente o gabo aflige;
- Que, inda assim, do consócio não se olvida,
- Mas acorrendo sob o escudo o ampara,
- Té que em pranto Alastor e o de Équio filho
- Mecisteu morto o amigo às naus carregam.
- Sempre agro Idomeneu, cobrir deseja
- De tenebrosa noite algum Troiano,
- Ou de chofre acabar salvando os Gregos.
- Vai-se a Alcatôo, de Esietes prole,
- De Jove aluno, herói que na ampla Tróia
- Para Hipodame Anquises escolhera,
- Primogênita sua e mui prezada,
- Prazer da augusta mãe, exemplo em casa
- De préstimo e prudência e formosura:
- Tendo-o Netuno a Idomeneu votado,
- Lumes lhe ofusca, as plantas lhe ata e impede,
- Que nem fugir nem declinar pudesse;
- Qual coluna ou folhuda árvore esbelta
- Recebe o golpe, que éreo arnês lhe frange,
- Do gentil corpo seu defesa outrora;
- Muge a couraça, estrepitoso tomba;
- No coração tremente é fixa a lança,
- E o palpitar extremo o conto vibra,
- Té que o desarma o truculento Marte.
- Sem termo altivo, Idomeneu troveja:
- “Pouco há por um, Deifobo, te jactavas;
- Por três, cuido, me cabe o gloriar-me.
- Chega-te perto, provarás, demônio,
- Como é de Jove a estirpe: o deus a Minos
- Gerou de Creta abrigo; este, ao famoso
- Deucalion; Deucalion gerou-me,
- E à larga impero nos Minônios reinos.
- Vim por teu mal, de Príamo e seu povo.”
- Cala, e Deifobo ansioso cogitava
- Se vá pedir auxílio a heróis Troianos,
- Ou se acometa só; creu mais cordato
- A Eneias ir, postado na ala extrema,
- Desgostoso do rei, que o não tratava
- Conforme a seu valor: “Príncipe Eneias,
- Se te move o cadáver de um cunhado,
- Que te criou menino, a defendê-lo
- Vamos; do hasteiro Idomeneu foi morto.”
- Comoto e em brasa, a Idomeneu procura,
- Que não como criança a fuga toma;
- É montês javali, que em ermo sítio
- Audaz aguarda a gente e ouriça as cerdas,
- E contra cães e caçadores pronto,
- Os colmilhos aguça, em fogo os olhos.
- Firme o real Cretense o ataque espera
- Do Anquíseo impetuoso, e olhando em roda,
- Chama Ascálafo, Antíloco, Deipiro,
- Afareu, Merion, raios da guerra,
- E presto brada: “Amigos, socorrei-me;
- Temo o expedito herói na flor dos anos,
- De extrema robustez, belaz, cruento.
- Fosse eu, qual sou no brio, igual na idade,
- Que um de nós ganharia ingente glória.”
- Todos então num ânimo o rodeiam,
- De escudo no ombro. Os seus concita Eneias,
- Fitando a Páris, Agenor, Deifobo,
- Chefes também; atrás marchava a tropa,
- Qual anda após o aríete o rebanho,
- Do pastor com prazer, do prado à fonte:
- Ao séquito brilhante o herói jubila.
- Ruem por Alcatôo e enrestam lanças;
- Áspero o arnês ressoa aos fortes peitos,
- Buscando-se entre as alas: mais se estremam
- Os dois rivais de Marte, o Cresso e Eneias,
- No afogo de embeber um no outro o bronze.
- Primeiro a Idomeneu dardeja o Anquíseo:
- O rei furta-se e balda o enorme golpe;
- Tremula a cúspide érea, o chão profunda.
- Salvo ele, de Enomau nos intestinos
- Mete pelo vazio a letal farpa;
- No pó resvala o triste e o solo aferra:
- Idomeneu tirou-lhe o pique longo,
- Não a armadura; os remessões lhe chovem.
- Já frouxo, ir pelo seu nem mais podendo,
- Nem lestes evadir-se a qualquer outro,
- Fixo e tenaz peleja e a morte arreda,
- Lento recua. Ao tardo herói Deifobo
- Rancoroso desfecha hasta fulmínea,
- Que se esgarra, e em Ascálafo, renovo
- Do Eniálio, pelo úmero penetra;
- Ele de palmas deu consigo em terra.
- Do filho a queda ignora o deus violento;
- Pois lá no Olimpo, numa nuvem de ouro,
- Jove o retinha, e aos imortais vedava
- Participar do acérrimo conflito.
- Por Ascálafo o prélio se encruece.
- O lúcido elmo rouba-lhe Deifobo:
- Pula o márcio Merion, no punho o espeta;
- Pontudo esse elmo escapa-lhe estrondando;
- Qual abutre Merion de novo pula,
- Saca e recobra o dardo e aos seus reverte.
- Da horríssona tormenta o irmão Polites
- Em braços leva aonde o coche belo
- Atrás o pajem tem; gemente à casa
- Transportam-no, e do punho escorre o sangue.
- A ação prossegue, em tétrica alarida.
- De Afareu Caletóride arrostante
- Lanceia a gola Eneias: ele inclina
- Da outra parte a cabeça, o escudo e o casco;
- Cerca-o morte voraz, Toon dá costas;
- Ao percebê-lo, Antíloco lhe fende
- Veia que a nuca pelo dorso corre;
- Toon supino aos Teucros tende as palmas:
- O Nestório, esguardando-se, o desarma,
- Bem que a tropa lhe bata o vário escudo;
- Mas não lhe ofende a carne éreo chuveiro,
- Que o salva o Enosigeu de irosos tiros.
- Nem larga o posto; inquieto brande a lança,
- Ou de longe ou de perto a ferir prestes.
- Adamas, filho de Asio, que o pressente,
- Prega-lhe a sua no broquel em cheio;
- O mesmo azul Netuno o golpe esfria;
- Qual se fosse combusta, a frágil haste
- Meia fica pregada e meia em terra.
- Aos seus vai-se acolher: veloz, de encontro,
- Fisga-o Merion por entre o umbigo e o púbis,
- Ferida a mais fatal que inflige Marte;
- Segue do bote o impulso, a contorcer-se
- Bem como o boi laçado que os vaqueiros
- Trazem do monte à força; estrebuchando
- Breve palpita, que do corpo o Dânao
- Saca-lhe a ponta, em sono o imerge eterno.
- Com seu Trácio espadão talha a Deipiro
- Heleno a fonte, e roto o casco rola
- Aos pés dos Gregos, um dos quais o apanha;
- Nos olhos se lhe espalha escura noite.
- Magoado assalta Menelau valente
- O heróico Heleno, que seu arco atesa;
- Um de lança, um de seta, ambos remetem.
- Aos peitos voa a seta, e é repulsada
- Pela couraça: qual na eira ervanços
- E negras favas, que estridentes sopros
- Ao ventejar atiram pelos ares,
- A acerba frecha da armadura salta.
- O bravo Atrida à mão que o arco tinha
- Sacode a lança, e a lança a mão lhe crava
- No arco brunido: à sombra dos seus Teucros
- Volta, e na mão pendente arrasta o freixo;
- Que Agenor bom despega, e a chaga envolve
- Na atadura de lã que havia o pajem.
- Direito ao vencedor marcha Pisandro;
- Funesta sorte o leva a ser domado
- Por ti, sublime rei. Já cara a cara,
- Do Atrida a lança aberra; a de Pisandro
- Se lhe fixa ao broquel, e estrala a ponta
- Nas lâminas de bronze. O Teucro ovante
- N’alma se rega; mas de espada o Grego
- Claviargêntea acomete; sob o escudo
- O outro secure primorosa toma
- De oliagíneo cabo e terso e longo:
- Mais se encarniçam. No cocar eqüino
- Bate a secure; corta a espada a fronte
- Sobre o nariz e os ossos lhe espedaça:
- Em sangue aos pés derramam-se-lhe os olhos,
- Cumbo cai; Menelau lhe calca os peitos,
- Despe as armas ao morto, a gloriar-se:
- “Sereis assim repulsos com pujança,
- Sequiosos fedífragos Troianos.
- Não basta, cães, o agravo e a nódoa minha;
- Do hospitaleiro Jove altitonante,
- Que Tróia há-de assolar-vos, sem receio,
- Por mim não provocados, me roubastes
- Riquezas e a mulher que esposei virgem,
- Por quem, traidores, acolhidos fostes!
- Não contentes, às naus quereis pôr fogo.
- Matar Gregos heróis! Pois incitados
- Inda havemos no marte escarmentar-vos.
- Tudo isto vem de ti, que em siso, dizem,
- Vences, padre supremo, homens e deuses;
- Pois ora galardoas a aleivosos
- Troianos, que só folgam de injustiças,
- De prélios e ímpia guerra insaciáveis.
- Do sono todos e do amor se fartam,
- Como de airosa dança e canto ameno,
- Mais suaves prazeres que as batalhas:
- Eles nunca de estragos se aborrecem.”
- Nisto, o cruento espólio entrega aos sócios,
- Entre os chefes primeiros se mistura.
- Sai-lhe o filho do régio Pilemenes
- Harpelion, que o pai seguira a Tróia,
- E à pátria não tornou: do Atrida o escudo
- Fere de hasta, que amolga em êneas chapas,
- Vai recolher-se, em torno olhando cauto;
- Merion de frecha a nádega direita
- Lhe alcança, e a frecha por debaixo do osso
- Lhe atravessa a bexiga: em mãos dos sócios
- A alma exalando, pelo pó se torce
- Como um verme, e atro sangue a terra banha.
- Curam dele os briosos Paflagônios,
- Levam-no em carro a Ílio; o pai com estes
- Ia chorando o filho não vingado.
- Furente Páris, que hospedava o morto
- E a muitos Paflagônios, seta expede
- Ao Coríntio Euquenor possante e forte,
- Que embarcou já ciente do seu fado:
- Políido pai lhe disse, vate egrégio,
- Que de mal grave em casa morreria,
- Ou junto à Graia frota a mãos Troianas.
- Veio, por evitar castigo e opróbrio,
- Do tetro morbo a dor; mas sob a orelha
- Dá-lhe a seta no queixo, os laxos membros
- Desata, e o cerca de hórrida caligem.
- Em fogo arde o conflito; e Heitor ignora
- Que à sestra os seus perecem, que a vitória
- Os Dânaos vão ganhar: tanto os abrasa,
- Tanto os protege o Enosigeu Netuno.
- Persiste às portas, que assaltou por entre
- Eriadargadas hostes, e onde em seco
- Protesilau e Ajax as popas tinham;
- Lá se abaixava o muro, e mais renhido
- Peões e cavaleiros combatiam:
- Jônios de longas túnicas, Beócios,
- Lócrios, Ftios, Epeus, das naus propugnam;
- Mas rebater o flâmeo Heitor não podem.
- Na ala primeira Menesteu Petides
- A flor de Atenas rege; a outros Fidas
- E Estíquio e Bias forte; os Epeus claros
- Manda o Filides Meges, e Ânfio e Drácio;
- Medon e o pé-veloz Meneptolemo,
- Os Ftios: é Medon bastardo filho
- De Oileu e irmão de Ajax, e o da madrasta
- Eriópide havendo assassinado,
- Longe da pátria em Fílace habitava;
- Do Filácide Ificlo o outro é prole.
- À frente ambos dos Ftios belicosos,
- As naus entre os Beócios defendiam.
- Os dois Ajax um do outro não se apartam;
- Qual negros bois que, a tosco jugo atados,
- Água a brotarem da raiz dos cornos,
- Iguais em ânimo, a charrua tiram,
- E por duro maninho o sulco rasgam.
- Seguia ao Telamônio ardida gente,
- Que lhe agüenta o pavês, quando o cansaço
- E harto suor afraca-lhe os joelhos.
- O Oiliades não tinha alguma escolta,
- Que a pé seus Lócrios aturavam pouco:
- Sem cascos éreos de cimeira eqüina,
- Broquéis redondos nem fraxíneas lanças,
- De arco e lanosa bem tecida funda
- Arrojam-se a vir, e a crebros tiros
- As Troianas falanges derrotavam.
- Enquanto à frente opõem-se os lorigados
- Aos do Priâmeo herói, detrás os Lócrios,
- Inesperadamente a granizarem
- Bastas pedras e setas, os conturbam.
- A Ílio ventosa, com matança enorme,
- Fora a Troiana força rechaçada,
- Se Polidamas não clamasse: “Avisos
- Contigo, Heitor, não valem. Porque Jove
- Te fez guerreiro, os outros no conselho
- Cuidas vencer? Nem tudo abraçar podes.
- Ele a uns doa bélicas virtudes,
- A tais a dança, a tais a lira e o canto:
- No peito põe de alguns útil prudência,
- Que as cidades mais guarda e os homens rege,
- E quem dela é dotado o reconhece.
- Franco te falarei. Flagrante guerra
- Te coroa em redor; e os nobres Teucros,
- Depois do ataque, ou têm-se à parte em armas,
- Ou poucos sendo, o número os dispersa.
- Retrocedendo, os próceres convoca:
- Deliberemos se investir nos cumpre
- (O céu nos dê vitória) ou retirar-nos
- Em seguro. Que os Dânaos se desforrem
- De ontem receio: a bordo é sempre o homem
- Sequioso de batalhas, e eu duvido
- Que ele de pelejar de todo cesse.”
- Disto agradou-se Heitor, que armado apeia
- E acode com resposta: “Aqui retenhas
- Os mais galhardos. Vou-me à esquerda, e volto
- Mal a pugna restaure e as ordens passe.”
- Logo, a brilhar como nevoso monte,
- Voa aos Teucros bradando e aos federados.
- À sua voz, a vir se apressam todos
- Ao Pantóides virtuoso conselheiro.
- Heitor pela vanguarda Heleno busca,
- Deifobo, Ásio de Hirtácio e o filho Adamas;
- A nenhum acha ileso: extintos parte
- Em Gregas mãos jaziam; parte em Ílio,
- Ou de longe ou de perto vulnerados.
- Da lagrimosa lide à extrema esquerda,
- Encontra o sedutor da pulcra Argiva,
- A animar, a incitar, e assim o exprobra:
- “Mulherengo falaz, velo e funesto,
- Que é de Heleno e Deifobo, Adamas e Ásio?
- De Otrioneu dá-nos conta. Ah! do fastígio
- Tróia desaba, e incólume respiras.”
- “Irmão, replicou Páris, mesmo insonte
- Me culpas sempre. Subtraído às vezes
- Me tenho à guerra, sim; mas não cobarde
- Gerou-me nossa mãe; depois que à frota
- Nos mandaste, incessante arrosto os Gregos.
- Os que apontas morreram; dois somente,
- Deifobo e Heleno rei, na mão feridos
- Por hastas longas, os livrou Satúrnio.
- Guia-me aonde esse ânimo te pede:
- Prontos estamos; contentar-te espero
- Do meu próprio denodo: além das forças,
- Bem que abunde o querer, ninguém peleja.”
- Destarte o abranda; e à rija pugna marcham
- Onde Cebrion e o celso Polidamas,
- Orteu, Falces e o divo Polifetes,
- Resistem, mais os três Hipotiônios
- Pálmis e Ascânio e Móris, que da Ascânia
- Glebosa eram de véspera chegados,
- Por Júpiter às armas compelidos.
- Qual, trovejando o céu, tufão no campo
- Rui e o pego flutíssono encapela,
- Fervendo uma após outra a espuma e a vaga;
- Tais a seus cabos, em compactas filas,
- Os Teucros vão seguindo erifulgentes.
- Heitor à testa, a Marte cru parelho,
- De peles tem rodela e de êneas chapas,
- Elmo emplumado às fontes coruscante;
- Sonda as hostes em roda, e sob escudo
- Avança e crê turbá-las. Mas não curva
- O ânimo dos Aqueus, e a passos largos
- Ajax é que o provoca: “Vem, demônio,
- Vem de mais perto: amedrontar-nos cuidas!
- Imbeles não, mas nos castiga Jove.
- As naus arrasar pensas; por estorvos
- Nossos braços terás: primeiro, saibas,
- Extirparemos a orgulhosa Tróia;
- Nem longe está que ao Padre e aos numes rogues
- Asas de gavião, com que os ginetes,
- Entre nuvens de pó dispersa a coma,
- Levem-te em fuga a Ílio.” — Entanto, uma águia
- Altiva à destra voa; a Graia gente
- O fausto agouro jubilosa aplaude.
- Retorque Heitor: “Bazófio, devaneias?
- Do Egífero e de Juno veneranda
- Assim fosse eu nascido, e igual nas honras
- Sempre a Tritônia e Apolo, como é certo
- Que este dia aos Aqueus será funesto.
- Rasgar-te-ei também, se me arrostares,
- O mole corpo; de redenho e carne
- A cães e abutres cevarás em Tróia.”
- Disse, e a bramar o segue a flor dos sócios,
- E atrás em grita o exército o aclama.
- Lembra aos Dânaos seu brio, e guerra soam
- Do horrendo assalto à espera. De uns e de outros
- Fere o clamor de Jove a etérea casa. * * *