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IlíadaLivro XIII
LivroXIII

Jove, Heitor já na praia, deixa aos Teucros

678 versos · 8 notas do tradutor


  1. Jove, Heitor já na praia, deixa aos Teucros
  2. A angústia e o peso; aos Traces cavaleiros
  3. Fúlgidos olhos volve, aos Hipomolgos
  4. Glatófagos longevos, aos rompentes
  5. Mísios, Ábios justíssimos dos homens;
  6. Nem pensou que imortal algum viesse
  7. Favorecer a Gregos ou Troianos.
  8. Em não cega atalaia, do alto cume
  9. Da Samotrácia umbrosa, contemplando
  10. A guerra o Enosigeu, todo o Ida avista,
  11. A Priâmea cidade e as naus atenta:
  12. Ali do mar saíra, e dos vencidos
  13. Graios com dó, se inflama contra Jove.
  14. Desse alcantil baixando, o monte e a selva
  15. Sob seus pés retremem; dá três passos,
  16. E ao quarto Eges alcança, em cujos mares
  17. Tem fundo áureo palácio indestrutível.
  18. Entra, junge os erípedes fogosos
  19. De crinas de ouro, de ouro o corpo arnesa,
  20. De ouro o chicote apunha artificioso,
  21. E monta ao coche, pelas ondas voa:
  22. Conhecendo a seu rei, surdindo exultam
  23. Cetáceos mil; a vaga alegre amaina;
  24. A rapidez é tal que, sem molhar-se
  25. O eixo de bronze, à frota em breve chegam.
  26. Entre Imbro áspera e Tênedos, Netuno
  27. Em ampla equórea gruta os brutos larga,
  28. Para de ambrósio pasto alimentá-los,
  29. E em peias insolúveis e inquebráveis
  30. Áureas os prende, a fim que esperem quedos
  31. Que do exército Aqueu seu dono torne.
  32. Como incêndio ou procela, em sanha e urrando
  33. A Heitor seguem os Troas, na esperança
  34. De em suas naus exterminar os Gregos.
  35. Mas o que abarca a terra, do áqueo pego
  36. Estes veio animar; o vulto a Calcas
  37. Toma e a voz indefessa, e mais abrasa
  38. Os ardentes Ajax: “Ajax, mantende
  39. O Aquivo alento, longe o frio medo.
  40. Não temo alhures o inimigo ousado,
  41. Bem que o muro passasse; hão-de contê-lo
  42. Nossos heróis: de cá receio a fúria
  43. De Heitor, que marcha como horrível chama,
  44. E de filho de Júpiter blasona.
  45. Um deus vos dê firmeza, e ânimo aos outros
  46. Inspirai; que há de ser das naus repulso,
  47. Embora o excite o mesmo Onipotente.”
  48. Aqui toca-os Netuno com seu cetro,
  49. E os fortalece e alesta-lhes os membros,
  50. A mão lhes faz robusta e o pé ligeiro;
  51. E abalou como açor, que as asas bate
  52. E se despenha sobre fraca pomba.
  53. Ajax de Oileu persente e ao sócio fala:
  54. “Não é Calcas aquele, ó Telamônio,
  55. Mas íncola do Olimpo que, do vate
  56. Sob o semblante, propugnar nos manda:
  57. É por detrás diverso e na pegada:
  58. Fácil no andar se reconhece um nume.
  59. Por combates meu peito mais palpita,
  60. Pulsa-me o braço e o pé.” — Responde o amigo:
  61. “Ora espontâneo a mão da lança ferra,
  62. O ânimo cresce, à luta os pés me impelem
  63. Só por só com o indômito Priâmeo.”
  64. Enquanto alegres da peleja tratam,
  65. O deus que os acendera, anima a outros,
  66. Que extremos ante as naus do afã respiram;
  67. Dor íntima os trabalha e os esmorece,
  68. E ao ver que o muro escala a Teucra gente,
  69. Lágrimas das pestanas lhes borbulham,
  70. Crêem o exício infalível. Mas Netuno
  71. Concita as Graias hostes; vem primeiro
  72. Aos heróis Teucro e Antíloco e Deipiro,
  73. Merion e Leuto, Peneleu e Toas,
  74. E exclamou: “Que vergonha, ó flor dos jovens!
  75. Em vós eu punha a salvação da armada:
  76. Cessais de combater, e eis luz agora
  77. Nosso dia supremo. Oh! Céus, com pasmo
  78. Vejo incrível milagre, às naus chegarem
  79. Fugazes Troas como fracos cervos,
  80. Que errantes na floresta, são de pardos
  81. Chacais e lobos, cevo: à força Aquiva
  82. Dantes nem a arrostar se abalançavam;
  83. Hoje em face das naus feros pelejam!
  84. Do soberano é culpa, é dos soldados
  85. Que, a despeito das ordens, refusando
  86. O assalto repelir, matar se deixam.
  87. Mas, se obrou mal no insulto ao grande Aquiles,
  88. Toca-nos ao conflito nos furtarmos?
  89. Sus, não persistem no erro as almas nobres:
  90. Bravos dos bravos, onde o brio vosso?
  91. Desculpo o imbele que recua e afrouxa;
  92. Mas arde-me no peito essa moleza.
  93. O pejo e a repreensão vos falem n’alma:
  94. Cumulais nosso dano; o risco aumenta;
  95. Ante as naus já corusca o herói Priâmeo;
  96. Barras quebrou, despedaçou trincheiras.”
  97. Assim Netuno. Aos dois Ajax rodeiam
  98. Falanges tais, que Marte as aplaudira,
  99. E a belígera Palas. Gente egrégia
  100. A Heitor e os seus espera, escudo a escudo,
  101. Lança a lança, elmo a elmo, rosto a rosto;
  102. Flamejam confundidas as cimeiras
  103. E undantes crinas, tão cerrados eram;
  104. Vibram-se audazes freixos, vai travar-se
  105. O acérrimo conflito. — Heitor o enceta,
  106. Com densos batalhões acre rompendo.
  107. Se, túrgida por chuvas, a torrente
  108. Arruinador penedo arranca e rola
  109. De pedregoso vértice, ele aos tombos
  110. Com ímpeto incessante o bosque atroa,
  111. Té que em planície estaca e desfalece:
  112. Tal Heitor, que estender ao mar o estrago
  113. Ia e destruir tudo, à vista acalma
  114. De unidos batalhões; a dardo e espada
  115. Contêm-lhe os Dânaos o furor pujante.
  116. Rebatido repeda, e horrendo grita:
  117. “Pugnazes Lícios, Dárdanos, Troianos,
  118. Constância! não é longa a resistência:
  119. De lança espero aos Gregos esse basto
  120. Quadrado penetrar, se é que me inspira
  121. De Juno o altíssono e potente esposo.”
  122. Isto os robora. De rodela alçada,
  123. O Priâmeo Deifobo ardido avança
  124. Hasta fulgente Merion certeiro
  125. Vibra, e Deifobo receando o bote,
  126. No táureo escudo o apara, e ao pé da choupa
  127. Rebenta o cabo; aos seus reverte iroso
  128. O Grego herói, por ter falhado o golpe
  129. E quebrar-se o arremesso; em busca de outro,
  130. Que deixara na tenda, além do campo,
  131. Corre; e crescendo fica o estrondo e a guerra.
  132. Teucro o primeiro prostra bélico Ímbrio,
  133. Geração de Mentor em corcéis rico:
  134. Habitava em Pedeu, por mulher tendo
  135. Medesicasta, Priameia espúria;
  136. Mas, à nova da Grega instruta armada,
  137. Ínclito em armas veio, e em casa o sogro
  138. O honrava como a filho: o Telamônio
  139. Júnior de pique sob a orelha o fere;
  140. Sacado o pique, tomba como um freixo
  141. Que, vistoso de longe em pino excelso,
  142. Ao corte aêneo abate as folhas tenras;
  143. Na queda as armas soam. Teucro ansioso
  144. Quer despi-las, e Heitor um dardo esgrime,
  145. Que ele esquiva, e aos peitos vai de Anfímaco,
  146. Do Netúnio Cteato insigne prole,
  147. De fresco vindo; ao baque o arnês murmura.
  148. O elmo a desenlaçar-lhe Heitor se apressa;
  149. De lança o impede Ajax, que não lhe ofende
  150. O corpo horrente em bronze, mas do escudo
  151. Passa-lhe a copa e intrépido o repulsa.
  152. Heitor cede os cadáveres: de Atenas
  153. Os divos chefes Menesteu e Estíquio
  154. Vão carregando Anfímaco; impacientes
  155. Os fogosos Ajax de Ímbrio se apossam:
  156. Qual dois leões, que à densa moita levam
  157. Alta do chão nos queixos uma cabra,
  158. De cães de fila aos dentes arrancada,
  159. Sustêm-no os dois guerreiros e o despojam.
  160. Pela morte de Anfímaco irritado
  161. O Oilíades o estronca, e em ar de bola
  162. Joga à turba a cabeça, que rodando
  163. Aos pés do mesmo Heitor cai na poeira.
  164. Defunto o neto no hórrido conflito,
  165. Parte Netuno irado ao campo Grego,
  166. A maquinar dos Teucros a ruína;
  167. Encontra o hasteiro Idomeneu, que, entregue
  168. Aos médicos um sócio, no jarrete
  169. Pouco há ferido e em braços carregado,
  170. Vem da tenda saciar-se na batalha;
  171. O Enosigeu lhe fala, na figura
  172. De Toas Andremônio, que imperava
  173. Toda a Pleurona e a celsa Calidona,
  174. Do povo Etólio como um deus honrado:
  175. “Príncipe dos Cretenses, onde os feros
  176. E orgulhosa ameaça dos Aquivos?”
  177. O conselheiro Idomeneu responde:
  178. “Toas, nenhum varão, julgo eu, tem culpa,
  179. Pois todos hoje denodados fomos:
  180. Não há terror, desânimo ou frouxeza;
  181. Capricho é do Supremo que os Aquivos
  182. Longe da comum pátria inglórios morram.
  183. Toas belaz, os tíbios sempre exortas;
  184. Ora prossigas, e um por um despertes.”
  185. Mas o que abala a terra: “Nem de Tróia
  186. Saia mais, sim de cães ludíbrio seja,
  187. Quem neste dia abandonar o prélio,
  188. Anda; bem que só dois, já já, tardamos:
  189. Presta dos fracos mesmo unida a força;
  190. Mas nós com fortes pelejar sabemos.”
  191. Torna à peleja o deus, e o rei na tenda
  192. Se arma e hastis dois meneia: qual, vibrado
  193. Pelo Satúrnio do fulgente Olimpo,
  194. Lampeja o raio com que assusta os homens;
  195. Tal no peito ao marchar o arnês brilhava.
  196. Sai-lhe Merion seu pajem, que ia à tenda
  197. Buscar um pique, e Idomeneu lhe fala:
  198. “Veloz Merion Molides, caro amigo,
  199. Por que deixaste o prélio? Estás ferido
  200. E afligi-te algum dardo, ou vens por núncio?
  201. Languir não quero aqui, pelejar quero.”
  202. E o prudente Merion: “Se o hás, pedir-te,
  203. Príncipe dos de Creta eriarnesados,
  204. Venho um pique: no escudo o meu quebrou-se
  205. Do cru Deifobo.” — Idomeneu replica:
  206. “Se hastas queres, não uma, acharás vinte
  207. Sacadas a vencidos: eu me gabo
  208. De bater-me de perto; assim, da tenda
  209. Luzem-me nas paredes piques, dardos,
  210. E copados broquéis, lorigas, elmos.”
  211. Então Merion: “Despojos tenho muitos
  212. Na tenda e fusca nau, mas ficam longe.
  213. Também no marte e ação, que ilustra os homens,
  214. Sempre adiante, não deslembro a honra:
  215. Talvez o ignore algum, mas julgo o sabes.”
  216. “Sim, continua o herói, sei quanto vales;
  217. Mas por que mo recordas? Por escolha,
  218. Se estivéssemos ora de emboscada
  219. (Onde o medo aparece, onde a coragem;
  220. Onde o poltrão se encolhe, e gela e embaça,
  221. E titubam-lhe os pés e os dentes fremem,
  222. E pressago do mal dentro em seu peito
  223. Descompassado o coração lateja;
  224. Onde o forte nem treme nem descora,
  225. Arde pelo combate e quedo o espera),
  226. Quem teu vigor tachara ou tua audácia?
  227. Talvez serás ferido na refrega,
  228. Na nuca e dorso não, mas na arca e ventre,
  229. E sempre entre os primeiros. Basta, e cessem
  230. Estas jactâncias, que estranhar-nos podem;
  231. Da minha tenda uma hasta rija toma.”
  232. Celeríssimo o herói traz éreo pique,
  233. E segue o rei por se bater bramindo.
  234. Contra os Efiros ou briosos Flégias,
  235. Quando Marte homicida vem da Trácia
  236. Com seu filho o Terror, válido e ousado,
  237. Que os mais firmes assusta, inexoráveis
  238. A um dos partidos a vitória inclinam:
  239. Em bronze coruscante assim procedem
  240. Os cabos dois, e Merion começa:
  241. “Deucálide, à sinistra investir queres,
  242. Ou queres à direita, ou pelo centro?
  243. Geral contenda, creio avexa os Dânaos.”
  244. E Idomeneu: “No centro há defensores,
  245. Os dois Ajax e o nosso archeiro
  246. Teucro, inda a pé galhardo; e, bem que estrênuo
  247. Seja Heitor, formidando e impetuoso,
  248. Muito árduo lhe será vencer tais braços
  249. E as naus incendiar, salvo se às popas
  250. Darde o mesmo Satúrnio ardente facho:
  251. Não temas que se dobre o Telamônio
  252. A mortal que de Ceres coma os frutos,
  253. A bronze violável e a penedos:
  254. Nem ao rompe esquadrões sem-par Aquiles,
  255. Com quem se mede, exceto na carreira.
  256. Marchemos à sinistra, a ver em breve
  257. Se a glória será nossa ou do inimigo.”
  258. Disse e o márcio Merion põe-se a caminho,
  259. De ponto em branco assoma; o rei seu fogo
  260. Na turba acende, e junto às naus se travam.
  261. Se em dia seco sibilantes ventos
  262. Sublevam temporal, pulvérea nuvem
  263. Levanta-se em remoinhos das estradas:
  264. Assim mescla-se a lide; anseiam mútuos
  265. Enterrar no contrário ou dardo ou seta.
  266. Mortais farpas zunindo as carnes rasgam;
  267. Deslumbra e olhos comprime o fulgor d’elmos,
  268. De encontrados broquéis, de corsoletes
  269. Recém-polidos: fora despiedoso
  270. Quem não se entristecesse e ali folgasse.
  271. Os de Saturno poderosos filhos
  272. Discordes aos varões dor grave urdiam:
  273. Júpiter, que o triunfo a Heitor prepara,
  274. Não quer o Graio exício, quer de Tétis
  275. Honrar a prole, o glorioso Aquiles;
  276. Magoado, a furto o rei da salsa espuma
  277. Surge a bem dos Grajúgenas vencidos,
  278. E ira veemente contra o irmão concebe.
  279. São ambos de um só sangue, mas primeiro
  280. Foi Júpiter nascido e há mais ciência:
  281. Às claras pois Netuno os não socorre,
  282. Mas sob alheia forma os esporeia.
  283. Os dois corda insolúvel e infrangível
  284. Da atroz pendência pelos cabos tiram,
  285. Que os joelhos enlaça e a muitos prostra.
  286. Grisalho embora, inflama os companheiros
  287. Idomeneu, que aterra e dá nos Teucros.
  288. De Cabeso Otrioneu, da guerra à fama,
  289. De fresco vindo, a Príamo pedia,
  290. Sem dotá-la, a belíssima Cassandra,
  291. Prometendo expulsar de Tróia os Gregos:
  292. Sob a fé régia, a combater valente
  293. Arrogante marchava, quando a lança
  294. Reluz de Idomeneu, que ao ventre o encrava
  295. Pela aênea loriga; ele baqueia,
  296. E o Cresso ali blasona: “Se a palavra
  297. Ao de Dardânia, Otrioneu, cumprires,
  298. Dos mortais rei te aclamo: a filha sua
  299. Te afiançou; nós chamaremos de Argos
  300. Ao teu dispor do Atrida a mais formosa,
  301. A expugnares conosco Ílion soberba.
  302. Vem às naus assentar nos desposórios:
  303. Sogros também iliberais não somos.”
  304. Pela perna ei-lo o puxa; ultriz lhe ocorre
  305. Ásio a pé, cujo tiro em mãos do auriga
  306. Segue atrás respirando: ávido busca
  307. Ferir a Idomeneu, que sob o mento
  308. Lesto lhe embebe na garganta a choupa:
  309. Qual, para náutico uso, cai no monte,
  310. Por secure de artífice amolada,
  311. Robre duro, alto pinho ou branco choupo;
  312. Tal jaz ante seu coche, e estruge os dentes,
  313. E de punhos agarra o pó sanguíneo.
  314. O auriga de terror nem retrocede
  315. Para escapar: o infatigável pique
  316. De Antíloco lhe passa e a coira e o ventre:
  317. Ele em vascas do assento precioso
  318. Tomba e expira, e o magnânimo Nestório
  319. Toca os ginetes para as Gregas filas.
  320. De Asio em vingança a Idomeneu Deifobo
  321. Dorido esgrime: Idomeneu previsto
  322. Sob a rodela táurea e de êneas orlas,
  323. De aptos manúbrios dois, se agacha todo;
  324. A hasta por cima voa, e roça o escudo
  325. Que árido ronca; não frustrâneo o bote
  326. Pesado, por debaixo do diafragma
  327. Do Hipáside Hipsenor de povos cabo,
  328. Talha o fígado, os órgãos lhe descose.
  329. Troa Deifobo sobremodo ovante:
  330. “Asio inulto não morre: às portas mesmas
  331. Do atro Plutão regozijar-se deve,
  332. Pois lhe dei companheiro da jornada.”
  333. A Antíloco mormente o gabo aflige;
  334. Que, inda assim, do consócio não se olvida,
  335. Mas acorrendo sob o escudo o ampara,
  336. Té que em pranto Alastor e o de Équio filho
  337. Mecisteu morto o amigo às naus carregam.
  338. Sempre agro Idomeneu, cobrir deseja
  339. De tenebrosa noite algum Troiano,
  340. Ou de chofre acabar salvando os Gregos.
  341. Vai-se a Alcatôo, de Esietes prole,
  342. De Jove aluno, herói que na ampla Tróia
  343. Para Hipodame Anquises escolhera,
  344. Primogênita sua e mui prezada,
  345. Prazer da augusta mãe, exemplo em casa
  346. De préstimo e prudência e formosura:
  347. Tendo-o Netuno a Idomeneu votado,
  348. Lumes lhe ofusca, as plantas lhe ata e impede,
  349. Que nem fugir nem declinar pudesse;
  350. Qual coluna ou folhuda árvore esbelta
  351. Recebe o golpe, que éreo arnês lhe frange,
  352. Do gentil corpo seu defesa outrora;
  353. Muge a couraça, estrepitoso tomba;
  354. No coração tremente é fixa a lança,
  355. E o palpitar extremo o conto vibra,
  356. Té que o desarma o truculento Marte.
  357. Sem termo altivo, Idomeneu troveja:
  358. “Pouco há por um, Deifobo, te jactavas;
  359. Por três, cuido, me cabe o gloriar-me.
  360. Chega-te perto, provarás, demônio,
  361. Como é de Jove a estirpe: o deus a Minos
  362. Gerou de Creta abrigo; este, ao famoso
  363. Deucalion; Deucalion gerou-me,
  364. E à larga impero nos Minônios reinos.
  365. Vim por teu mal, de Príamo e seu povo.”
  366. Cala, e Deifobo ansioso cogitava
  367. Se vá pedir auxílio a heróis Troianos,
  368. Ou se acometa só; creu mais cordato
  369. A Eneias ir, postado na ala extrema,
  370. Desgostoso do rei, que o não tratava
  371. Conforme a seu valor: “Príncipe Eneias,
  372. Se te move o cadáver de um cunhado,
  373. Que te criou menino, a defendê-lo
  374. Vamos; do hasteiro Idomeneu foi morto.”
  375. Comoto e em brasa, a Idomeneu procura,
  376. Que não como criança a fuga toma;
  377. É montês javali, que em ermo sítio
  378. Audaz aguarda a gente e ouriça as cerdas,
  379. E contra cães e caçadores pronto,
  380. Os colmilhos aguça, em fogo os olhos.
  381. Firme o real Cretense o ataque espera
  382. Do Anquíseo impetuoso, e olhando em roda,
  383. Chama Ascálafo, Antíloco, Deipiro,
  384. Afareu, Merion, raios da guerra,
  385. E presto brada: “Amigos, socorrei-me;
  386. Temo o expedito herói na flor dos anos,
  387. De extrema robustez, belaz, cruento.
  388. Fosse eu, qual sou no brio, igual na idade,
  389. Que um de nós ganharia ingente glória.”
  390. Todos então num ânimo o rodeiam,
  391. De escudo no ombro. Os seus concita Eneias,
  392. Fitando a Páris, Agenor, Deifobo,
  393. Chefes também; atrás marchava a tropa,
  394. Qual anda após o aríete o rebanho,
  395. Do pastor com prazer, do prado à fonte:
  396. Ao séquito brilhante o herói jubila.
  397. Ruem por Alcatôo e enrestam lanças;
  398. Áspero o arnês ressoa aos fortes peitos,
  399. Buscando-se entre as alas: mais se estremam
  400. Os dois rivais de Marte, o Cresso e Eneias,
  401. No afogo de embeber um no outro o bronze.
  402. Primeiro a Idomeneu dardeja o Anquíseo:
  403. O rei furta-se e balda o enorme golpe;
  404. Tremula a cúspide érea, o chão profunda.
  405. Salvo ele, de Enomau nos intestinos
  406. Mete pelo vazio a letal farpa;
  407. No pó resvala o triste e o solo aferra:
  408. Idomeneu tirou-lhe o pique longo,
  409. Não a armadura; os remessões lhe chovem.
  410. Já frouxo, ir pelo seu nem mais podendo,
  411. Nem lestes evadir-se a qualquer outro,
  412. Fixo e tenaz peleja e a morte arreda,
  413. Lento recua. Ao tardo herói Deifobo
  414. Rancoroso desfecha hasta fulmínea,
  415. Que se esgarra, e em Ascálafo, renovo
  416. Do Eniálio, pelo úmero penetra;
  417. Ele de palmas deu consigo em terra.
  418. Do filho a queda ignora o deus violento;
  419. Pois lá no Olimpo, numa nuvem de ouro,
  420. Jove o retinha, e aos imortais vedava
  421. Participar do acérrimo conflito.
  422. Por Ascálafo o prélio se encruece.
  423. O lúcido elmo rouba-lhe Deifobo:
  424. Pula o márcio Merion, no punho o espeta;
  425. Pontudo esse elmo escapa-lhe estrondando;
  426. Qual abutre Merion de novo pula,
  427. Saca e recobra o dardo e aos seus reverte.
  428. Da horríssona tormenta o irmão Polites
  429. Em braços leva aonde o coche belo
  430. Atrás o pajem tem; gemente à casa
  431. Transportam-no, e do punho escorre o sangue.
  432. A ação prossegue, em tétrica alarida.
  433. De Afareu Caletóride arrostante
  434. Lanceia a gola Eneias: ele inclina
  435. Da outra parte a cabeça, o escudo e o casco;
  436. Cerca-o morte voraz, Toon dá costas;
  437. Ao percebê-lo, Antíloco lhe fende
  438. Veia que a nuca pelo dorso corre;
  439. Toon supino aos Teucros tende as palmas:
  440. O Nestório, esguardando-se, o desarma,
  441. Bem que a tropa lhe bata o vário escudo;
  442. Mas não lhe ofende a carne éreo chuveiro,
  443. Que o salva o Enosigeu de irosos tiros.
  444. Nem larga o posto; inquieto brande a lança,
  445. Ou de longe ou de perto a ferir prestes.
  446. Adamas, filho de Asio, que o pressente,
  447. Prega-lhe a sua no broquel em cheio;
  448. O mesmo azul Netuno o golpe esfria;
  449. Qual se fosse combusta, a frágil haste
  450. Meia fica pregada e meia em terra.
  451. Aos seus vai-se acolher: veloz, de encontro,
  452. Fisga-o Merion por entre o umbigo e o púbis,
  453. Ferida a mais fatal que inflige Marte;
  454. Segue do bote o impulso, a contorcer-se
  455. Bem como o boi laçado que os vaqueiros
  456. Trazem do monte à força; estrebuchando
  457. Breve palpita, que do corpo o Dânao
  458. Saca-lhe a ponta, em sono o imerge eterno.
  459. Com seu Trácio espadão talha a Deipiro
  460. Heleno a fonte, e roto o casco rola
  461. Aos pés dos Gregos, um dos quais o apanha;
  462. Nos olhos se lhe espalha escura noite.
  463. Magoado assalta Menelau valente
  464. O heróico Heleno, que seu arco atesa;
  465. Um de lança, um de seta, ambos remetem.
  466. Aos peitos voa a seta, e é repulsada
  467. Pela couraça: qual na eira ervanços
  468. E negras favas, que estridentes sopros
  469. Ao ventejar atiram pelos ares,
  470. A acerba frecha da armadura salta.
  471. O bravo Atrida à mão que o arco tinha
  472. Sacode a lança, e a lança a mão lhe crava
  473. No arco brunido: à sombra dos seus Teucros
  474. Volta, e na mão pendente arrasta o freixo;
  475. Que Agenor bom despega, e a chaga envolve
  476. Na atadura de lã que havia o pajem.
  477. Direito ao vencedor marcha Pisandro;
  478. Funesta sorte o leva a ser domado
  479. Por ti, sublime rei. Já cara a cara,
  480. Do Atrida a lança aberra; a de Pisandro
  481. Se lhe fixa ao broquel, e estrala a ponta
  482. Nas lâminas de bronze. O Teucro ovante
  483. N’alma se rega; mas de espada o Grego
  484. Claviargêntea acomete; sob o escudo
  485. O outro secure primorosa toma
  486. De oliagíneo cabo e terso e longo:
  487. Mais se encarniçam. No cocar eqüino
  488. Bate a secure; corta a espada a fronte
  489. Sobre o nariz e os ossos lhe espedaça:
  490. Em sangue aos pés derramam-se-lhe os olhos,
  491. Cumbo cai; Menelau lhe calca os peitos,
  492. Despe as armas ao morto, a gloriar-se:
  493. “Sereis assim repulsos com pujança,
  494. Sequiosos fedífragos Troianos.
  495. Não basta, cães, o agravo e a nódoa minha;
  496. Do hospitaleiro Jove altitonante,
  497. Que Tróia há-de assolar-vos, sem receio,
  498. Por mim não provocados, me roubastes
  499. Riquezas e a mulher que esposei virgem,
  500. Por quem, traidores, acolhidos fostes!
  501. Não contentes, às naus quereis pôr fogo.
  502. Matar Gregos heróis! Pois incitados
  503. Inda havemos no marte escarmentar-vos.
  504. Tudo isto vem de ti, que em siso, dizem,
  505. Vences, padre supremo, homens e deuses;
  506. Pois ora galardoas a aleivosos
  507. Troianos, que só folgam de injustiças,
  508. De prélios e ímpia guerra insaciáveis.
  509. Do sono todos e do amor se fartam,
  510. Como de airosa dança e canto ameno,
  511. Mais suaves prazeres que as batalhas:
  512. Eles nunca de estragos se aborrecem.”
  513. Nisto, o cruento espólio entrega aos sócios,
  514. Entre os chefes primeiros se mistura.
  515. Sai-lhe o filho do régio Pilemenes
  516. Harpelion, que o pai seguira a Tróia,
  517. E à pátria não tornou: do Atrida o escudo
  518. Fere de hasta, que amolga em êneas chapas,
  519. Vai recolher-se, em torno olhando cauto;
  520. Merion de frecha a nádega direita
  521. Lhe alcança, e a frecha por debaixo do osso
  522. Lhe atravessa a bexiga: em mãos dos sócios
  523. A alma exalando, pelo pó se torce
  524. Como um verme, e atro sangue a terra banha.
  525. Curam dele os briosos Paflagônios,
  526. Levam-no em carro a Ílio; o pai com estes
  527. Ia chorando o filho não vingado.
  528. Furente Páris, que hospedava o morto
  529. E a muitos Paflagônios, seta expede
  530. Ao Coríntio Euquenor possante e forte,
  531. Que embarcou já ciente do seu fado:
  532. Políido pai lhe disse, vate egrégio,
  533. Que de mal grave em casa morreria,
  534. Ou junto à Graia frota a mãos Troianas.
  535. Veio, por evitar castigo e opróbrio,
  536. Do tetro morbo a dor; mas sob a orelha
  537. Dá-lhe a seta no queixo, os laxos membros
  538. Desata, e o cerca de hórrida caligem.
  539. Em fogo arde o conflito; e Heitor ignora
  540. Que à sestra os seus perecem, que a vitória
  541. Os Dânaos vão ganhar: tanto os abrasa,
  542. Tanto os protege o Enosigeu Netuno.
  543. Persiste às portas, que assaltou por entre
  544. Eriadargadas hostes, e onde em seco
  545. Protesilau e Ajax as popas tinham;
  546. Lá se abaixava o muro, e mais renhido
  547. Peões e cavaleiros combatiam:
  548. Jônios de longas túnicas, Beócios,
  549. Lócrios, Ftios, Epeus, das naus propugnam;
  550. Mas rebater o flâmeo Heitor não podem.
  551. Na ala primeira Menesteu Petides
  552. A flor de Atenas rege; a outros Fidas
  553. E Estíquio e Bias forte; os Epeus claros
  554. Manda o Filides Meges, e Ânfio e Drácio;
  555. Medon e o pé-veloz Meneptolemo,
  556. Os Ftios: é Medon bastardo filho
  557. De Oileu e irmão de Ajax, e o da madrasta
  558. Eriópide havendo assassinado,
  559. Longe da pátria em Fílace habitava;
  560. Do Filácide Ificlo o outro é prole.
  561. À frente ambos dos Ftios belicosos,
  562. As naus entre os Beócios defendiam.
  563. Os dois Ajax um do outro não se apartam;
  564. Qual negros bois que, a tosco jugo atados,
  565. Água a brotarem da raiz dos cornos,
  566. Iguais em ânimo, a charrua tiram,
  567. E por duro maninho o sulco rasgam.
  568. Seguia ao Telamônio ardida gente,
  569. Que lhe agüenta o pavês, quando o cansaço
  570. E harto suor afraca-lhe os joelhos.
  571. O Oiliades não tinha alguma escolta,
  572. Que a pé seus Lócrios aturavam pouco:
  573. Sem cascos éreos de cimeira eqüina,
  574. Broquéis redondos nem fraxíneas lanças,
  575. De arco e lanosa bem tecida funda
  576. Arrojam-se a vir, e a crebros tiros
  577. As Troianas falanges derrotavam.
  578. Enquanto à frente opõem-se os lorigados
  579. Aos do Priâmeo herói, detrás os Lócrios,
  580. Inesperadamente a granizarem
  581. Bastas pedras e setas, os conturbam.
  582. A Ílio ventosa, com matança enorme,
  583. Fora a Troiana força rechaçada,
  584. Se Polidamas não clamasse: “Avisos
  585. Contigo, Heitor, não valem. Porque Jove
  586. Te fez guerreiro, os outros no conselho
  587. Cuidas vencer? Nem tudo abraçar podes.
  588. Ele a uns doa bélicas virtudes,
  589. A tais a dança, a tais a lira e o canto:
  590. No peito põe de alguns útil prudência,
  591. Que as cidades mais guarda e os homens rege,
  592. E quem dela é dotado o reconhece.
  593. Franco te falarei. Flagrante guerra
  594. Te coroa em redor; e os nobres Teucros,
  595. Depois do ataque, ou têm-se à parte em armas,
  596. Ou poucos sendo, o número os dispersa.
  597. Retrocedendo, os próceres convoca:
  598. Deliberemos se investir nos cumpre
  599. (O céu nos dê vitória) ou retirar-nos
  600. Em seguro. Que os Dânaos se desforrem
  601. De ontem receio: a bordo é sempre o homem
  602. Sequioso de batalhas, e eu duvido
  603. Que ele de pelejar de todo cesse.”
  604. Disto agradou-se Heitor, que armado apeia
  605. E acode com resposta: “Aqui retenhas
  606. Os mais galhardos. Vou-me à esquerda, e volto
  607. Mal a pugna restaure e as ordens passe.”
  608. Logo, a brilhar como nevoso monte,
  609. Voa aos Teucros bradando e aos federados.
  610. À sua voz, a vir se apressam todos
  611. Ao Pantóides virtuoso conselheiro.
  612. Heitor pela vanguarda Heleno busca,
  613. Deifobo, Ásio de Hirtácio e o filho Adamas;
  614. A nenhum acha ileso: extintos parte
  615. Em Gregas mãos jaziam; parte em Ílio,
  616. Ou de longe ou de perto vulnerados.
  617. Da lagrimosa lide à extrema esquerda,
  618. Encontra o sedutor da pulcra Argiva,
  619. A animar, a incitar, e assim o exprobra:
  620. “Mulherengo falaz, velo e funesto,
  621. Que é de Heleno e Deifobo, Adamas e Ásio?
  622. De Otrioneu dá-nos conta. Ah! do fastígio
  623. Tróia desaba, e incólume respiras.”
  624. “Irmão, replicou Páris, mesmo insonte
  625. Me culpas sempre. Subtraído às vezes
  626. Me tenho à guerra, sim; mas não cobarde
  627. Gerou-me nossa mãe; depois que à frota
  628. Nos mandaste, incessante arrosto os Gregos.
  629. Os que apontas morreram; dois somente,
  630. Deifobo e Heleno rei, na mão feridos
  631. Por hastas longas, os livrou Satúrnio.
  632. Guia-me aonde esse ânimo te pede:
  633. Prontos estamos; contentar-te espero
  634. Do meu próprio denodo: além das forças,
  635. Bem que abunde o querer, ninguém peleja.”
  636. Destarte o abranda; e à rija pugna marcham
  637. Onde Cebrion e o celso Polidamas,
  638. Orteu, Falces e o divo Polifetes,
  639. Resistem, mais os três Hipotiônios
  640. Pálmis e Ascânio e Móris, que da Ascânia
  641. Glebosa eram de véspera chegados,
  642. Por Júpiter às armas compelidos.
  643. Qual, trovejando o céu, tufão no campo
  644. Rui e o pego flutíssono encapela,
  645. Fervendo uma após outra a espuma e a vaga;
  646. Tais a seus cabos, em compactas filas,
  647. Os Teucros vão seguindo erifulgentes.
  648. Heitor à testa, a Marte cru parelho,
  649. De peles tem rodela e de êneas chapas,
  650. Elmo emplumado às fontes coruscante;
  651. Sonda as hostes em roda, e sob escudo
  652. Avança e crê turbá-las. Mas não curva
  653. O ânimo dos Aqueus, e a passos largos
  654. Ajax é que o provoca: “Vem, demônio,
  655. Vem de mais perto: amedrontar-nos cuidas!
  656. Imbeles não, mas nos castiga Jove.
  657. As naus arrasar pensas; por estorvos
  658. Nossos braços terás: primeiro, saibas,
  659. Extirparemos a orgulhosa Tróia;
  660. Nem longe está que ao Padre e aos numes rogues
  661. Asas de gavião, com que os ginetes,
  662. Entre nuvens de pó dispersa a coma,
  663. Levem-te em fuga a Ílio.” — Entanto, uma águia
  664. Altiva à destra voa; a Graia gente
  665. O fausto agouro jubilosa aplaude.
  666. Retorque Heitor: “Bazófio, devaneias?
  667. Do Egífero e de Juno veneranda
  668. Assim fosse eu nascido, e igual nas honras
  669. Sempre a Tritônia e Apolo, como é certo
  670. Que este dia aos Aqueus será funesto.
  671. Rasgar-te-ei também, se me arrostares,
  672. O mole corpo; de redenho e carne
  673. A cães e abutres cevarás em Tróia.”
  674. Disse, e a bramar o segue a flor dos sócios,
  675. E atrás em grita o exército o aclama.
  676. Lembra aos Dânaos seu brio, e guerra soam
  677. Do horrendo assalto à espera. De uns e de outros
  678. Fere o clamor de Jove a etérea casa. * * *

Sobre este livro · 2 notas

Vocabulário
[?] fragos quebrantadores da fé ou da aliança, é de Fran[?] [?]a tradução de Sílio Itálico, e penso que ainda em outros [?] as obras.
Interpretação
[?] No verso 770 do original há um toi, de que os tradutores [?]so; mas Heitor com esse toi (a ti), perguntando a Páris p[?] mortos ou feridos, lança-lhe a culpa de tais desgraças, a [?] seu crime para com Menelau: não é palavra que se possu[?] o fizeram alguns, e eu a torno bem saliente no me [?]

Nota a nota · 6 notas

v. 3–5Fúlgidos olhos volve, aos Hipomolgos
Os Hipomolgos chamam-se Glactófagos [Glatófagos], porque viviam de laticínios. — Abiõnte, do original, foi traspassado em latim por longœvorunque, e neste sentido o verteram Monti e outros. Creio porém, com M. Giguet e com o doutíssimo Calepino, que o poeta fala dos Ábios, antigos Citas ou Traces, e que não usa de um mero epíteto; posto que, tomada a palavra como epíteto, se possa aplicar aos mesmos povos.
↩ voltar à passagem, v. 3
v. 22–23Conhecendo a seu rei, surdindo exultam
Imitou Virgílio este lugar no décimo livro, do mar fazendo surdir as naus transformadas em ninfas a festejar a Eneas, que transportava auxiliares; mas na Eneida é mais interessante a aparição, porque entra no desenvolvimento do poema. Também o nosso grande poeta Antônio Ferreira, com feliz êxito, imita e amplifica esta passagem na sua égloga primeira, opulentíssima de pensamentos e de belas expressões.
↩ voltar à passagem, v. 22
v. 146Do Netúnio Cteato insigne prole,
Na enumeração das naus, livro II, diz Homero que Anfimaco era filho de Cteato, e que Tálpio e era de Eurito Actoriônio: aqui se diz que o mesmo Anfimaco era filho de Cteato Actoriônio, confundindo-se os pais desses dois cobos dos Epeus: ou foi este um descuido do poeta, ou mais provavelmente um erro introduzido no texto. M. Giguet, no livro II, diz que Tálpio era filho de Cteato, e que Anfimaco o era de Eurito nascido de Actoriônio; mas neste livro diz que o mesmo Anfimaco era filho de Cteato e descendente de Netuno: enganou-se no primeiro caso. Monti foi exato no livro II, mas neste seguiu o erro do texto. Eu, com o diligentíssimo Calepino, que duas vezes ao menos o afirma no seu laborioso dicionário, e com os olhos nos versos da enumeração das naus, tenho para mim que o pai de Anfimaco era Cteato, e não Actoriônio. E nesta fé, opino que não é puro o texto no livro XIII. Assim, traduzi com Monti a passagem da enumeração, e com M. Giguet suprimi a palavra Ahtoriõnos do verso 185 correspondente a este meu.
↩ voltar ao verso 146
v. 210E copados broquéis, lorigas, elmos.”
Advirta-se que o adjetivo copados unido a broquéis é para exprimir o embigo ou diamante ou copa dos escudos, isto é uma prominência de metal que há no meio de alguns: esta prominência tem em português três nomes, embigo, diamante, copa, e deste último forma-se o adjetivo de que me sirvo. É cousa diversa de copado que se aplica às arvores bem arramadas.
↩ voltar ao verso 210
v. 352Do gentil corpo seu defesa outrora;
Diz o texto que a loriga de Alcathoo [Alcatôo], que d’antes o livrava dos golpes, desta vez de nada lhe valeu, porque, por obra de Netuno, ficou ele estático e não se defendeu; e assim conserva-se-lhe a fama que tinha de bravo, pois ninguém pode resistir a um deus. Quase todos os tradutores entendem bem este lugar: Monti contudo, posto que de ordinário acerta, chama inútil a loriga do guerreiro, sem mais explicação; o que pode nele imprimir o ferrete de cobarde, contra a intenção de Homero. Atente-se em toda a passagem de que faz parte o verso 352.
↩ voltar ao verso 352
v. 469Ao ventejar atiram pelos ares,
O verbo ventejar, de cunho inteiramente português, usual nas fazendas e plantações de arroz no Brasil, não o traz Constâncio, nem Moraes mesmo, que certamente o ouviu amiúde. Posto que ventilar encerre igual sentido, ventejar aplica-se particularmente à operação de sacudir os diferentes grãos em peneira ou joeira, para ao vento se lhe [?]lha ou a casca; e ventilar tem outras significações, e toma[?] to, como se pode ver nos dous lexicógrafos.
↩ voltar ao verso 469
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