Num vau do refluente ameno Xanto
512 versos · 8 notas do tradutor
- Num vau do refluente ameno Xanto,
- Gérmen de Jove, os Teucros divididos,
- Parte à cidade Aquiles os rechaça,
- Por onde à fúria do ínclito Priâmeo
- Os Aquivos na véspera fugiram,
- E ora, expandindo Juno um nevoeiro,
- Detinha os outros: parte nas voragens
- Se despenham do fundo argênteo pego,
- E hórrido ao longe as ribas retumbando,
- Entre abismos a nado esparsos fremem.
- Se do fogo a um riacho os gafanhotos
- Voando abrigam-se e os persegue o fogo,
- N’água medrosos caem: assim de Aquiles
- Vão de envolta correndo homens e carros,
- E do sonoro Xanto o bojo atulham.
- Sob uma tamargueira esconde a lança,
- Como um demônio pula, e só de espada,
- Rumina estragos, estoqueia e talha;
- Gemidos e urros a seus golpes soam,
- E rubeja a corrente. Qual de enorme
- Delfim, que os vai tragando, em porto escuso
- Com susto refugiam-se os peixinhos;
- Tais os Teucros do Xanto impetuoso
- Nos recessos das bordas se agachavam.
- Já de matar cansado, escolhe doze
- Que do Menécio aos manes sacrifique;
- Do rio os tira, e como uns corçozinhos
- Estupefatos, para trás os pulsos,
- Ata-os com loros que gentis cingiam
- Das túnicas em torno, e a bordo os manda.
- Sedento na carnagem progredindo,
- Aquiles dá com Licaon Priâmeo
- A escafeder-se; o qual foi seu cativo,
- De assalto à noite nos paternos prédios,
- Onde uma baforeira a gume aêneo
- Para chaços e cambas esgalhava.
- De súbito empolgado, e na possante
- Lemnos ao filho de Jason vendido,
- Hóspede Eetion d’Imbro ali comprou-o
- Por alto preço, e o pôs na sacra Arisba,
- Donde ele fugitivo à casa veio.
- Ao duodécimo dia que no seio
- De parentes e amigos se alegrava,
- Fê-lo um deus recair nas mãos de Aquiles,
- Que a Dite sem refúgio ia enviá-lo.
- Quando o avistou nu d’elmo e escudo e lança
- (Do rio ao se escapar, tudo largara,
- De suor e cansaço titubando),
- Consigo o herói magnânimo se indigna:
- “Oh! Que portento! Os que hei mandado aos mares
- Certo ressurgirão do centro escuro,
- Se este aqui surde que, vendido em Lemnos,
- Foi da Parca poupado; nem reteve-o
- O espúmeo salso mar, que enfreia a tantos.
- Prove a cúspide nossa, a ver se torna
- Desta vez, ou se a terra ultriz, que impede
- Os mais valentes, impedi-lo sabe.”
- Enquanto o herói discursa, o triste anseia
- Abarcar-lhe os joelhos e esquivar-se
- Ao negro fado: mas esgrime Aquiles;
- Prostra-se o moço trêmulo, e por cima
- O pique vara e finca-se na terra,
- Desejando fartar-se em carne humana.
- Ele a sustém na destra, e com a esquerda
- Abraçando-lhe os pés, rápido exclama:
- “De Jove aluno, compaixão! Respeita
- Um como suplicante; pois de Ceres
- O pão já te comi, quando apanhado,
- Longe do pai e amigos me vendeste:
- Cem bois ganhaste, hoje haverás trezentos.
- Depois de tanta pena, há doze auroras
- Que de Ílio gozo, e a ti me entrega a sorte
- E o rancor do Satúrnio! Curto em anos
- Me produziu Laotoe, a de Altes filha,
- De Altes que rege os Lélagas da margem
- Do Satnióis em Pédaso escarpada:
- Príamo a teve esposa e outras princesas;
- Dela nascemos dois, e exício és de ambos:
- Entre os peões da frente a Polidoro
- Já tu sacrificaste; a vez me toca.
- Um mau gênio me trouxe, e não me salvo;
- Mas ouve ao menos: tem de mim piedade,
- Que eu uterino irmão não sou daquele
- Que do sócio privou-te e meigo e forte.”
- Assim perora, e imite voz escuta:
- “Louco! Em resgate falas? Grato me era,
- Antes que ao meu Pátroclo urgisse a Parca,
- Perdoar a alguns Teucros e vendê-los;
- Hoje a nenhum, que me depare um nume,
- Perdoarei, mormente aos Priameios.
- Amigo, morre; por que em vão pranteias?
- Também, melhor do que és, morreu Pátroclo.
- Vês-me aqui belo e bravo, de mãe deusa
- E ilustre pai gerado? Pois violento
- Fado me ocorrerá, quer manhã seja,
- Ou tarde ou meio-dia, quando a vida
- Alguém de hasta me tronque ou seta alada.”
- Esmorecido e de joelhos frouxos,
- Larga o pique e sentado as mãos protende:
- Logo o aucípite gládio puxa Aquiles,
- Entre a clavícula e a cerviz lho enterra;
- Ele de bruços tomba, em sangue negro
- O chão regando. Por um pé no rio
- O vencedor o arroja a gloriar-se:
- “Vai-te, e ao golpe te lamba audaz cardume:
- Nunca em fúnebre leito a mãe te chore,
- Mas em vórtices rola ao vasto ponto;
- Peixe entre a vaga turva em cima salte,
- E o ceve Licaon de branco zerbo.
- Hei de ir-vos trucidando e perseguindo
- Até rendermos Tróia, sem valer-vos
- De argêntea veia o férvido Escamandro,
- A quem freqüentes imolais novilhos,
- Vivos corcéis lançando-lhe às voragens.
- Sim, com morte cruel pagareis todos
- A de Pátroclo, ó vós que em minha ausência
- A alma a tantos Aquivos arrancastes.”
- O Xanto irou-se, e ali cogita o como
- Remova tal flagelo e os Teucros livre.
- De ávida lança entanto investe Aquiles
- A Asteropeu, de Pélegon gerado,
- Que o foi de Áxio profundo e amplo-fluente,
- Com quem mesclou-se Peribeia, a filha
- Maior de Acessameno: Pelegônio
- Com duas lanças do Escamandro surge,
- Que alento lhe infundiu, por indignar-se
- De que em seu seio Aquiles despiedoso
- Tantos jovens heróis sacrificasse.
- Já fronte a fronte, o pé-veloz pergunta:
- “Quem és para encarar-me? Os que se atrevem
- São de infelizes malfadados filhos.”
- E Asteropeu: “Magnânimo Pelides,
- Quem sou perguntas? Cabo vim de hastatos,
- Há somente onze auroras, da longínqua
- Fértil Peônia; entronco no Áxio rio
- De larga veia, a mais louçã na terra,
- No Áxio que é pai de Pélegon lanceiro,
- E este gerou-me. Agora pelejemos.”
- Disse-o minaz; levanta o freixo o Aquivo.
- Presto ambidestro esgrime o herói Peônio:
- Uma hasta o escudo fere, e no ouro pára,
- Dom de Vulcano; o cotovelo destro
- Esfola a outra, em sangue o tinge escuro,
- Finca-se em terra, as carnes anelando.
- Segundo Aquiles de matar ansioso,
- Vibra o voante lenho, que erradio
- Vai metade pregar-se à ribanceira;
- Puxa de junto a coxa o ardente gládio.
- Lidava Asteropeu com mão robusta
- Por despregar a furibunda lança,
- Três vezes tenta e as forças lhe falecem;
- Mas da quarta, encurvando-a por quebrá-la,
- Pronto, abaixo do umbigo, uma estocada
- Vaza-lhe as tripas, e atra noite o cobre.
- Salta-lhe em cima e o despe ovante Aquiles:
- “Jaze aí: se de um rio a origem trazes,
- Lutar é árduo com Dial progênie:
- Provir dizias do Áxio amplo-fluente;
- Eu me glorio de provir de Jove:
- O rei dos Mirmidões Peleu gerou-me,
- A este Eaco, a Eaco o padre sumo.
- Quanto ele é poderoso mais que os rios,
- De um rio a descendência à dele cede.
- Eis perto o largo Xanto, e não te vale,
- Pois nenhum ao Satúrnio se equipara;
- Nem o régio Aqueloo, nem o imenso,
- Flutíssono Oceano, donde os rios,
- Os mares todos manam, fontes, poços;
- Porque este mesmo do Tonante treme,
- Do celeste fragor, do raio horrendo.”
- Então saca da borda o pique aêneo;
- Deixa o morto na areia e turbas águas,
- Onde enguias em roda e peixes fervem,
- E dos rins a gordura ávidos comem.
- Caído o exímio cabo, os seus nos coches
- Do Xanto ao longo espavoridos fogem:
- Segue-os o celerípede, e lhes mata
- Astipilo, Ofelestes, Mneso e Trásio,
- Medon, Ênio e Tersíloco. Outros muitos,
- O herói prostara, se agastado o rio,
- Em vulto humano de profundo pego
- Entre voragens não falasse: “Aquiles,
- Em crueza e denodo os homens vences,
- E o Céu te ajuda. Se os Troianos todos
- Exterminar concede-te o Satúrnio,
- Sai do meu leito, ao campo o estrago leva;
- De mortos plena e estreita a clara veia,
- Não posso ao divo ponto abrir caminho,
- E inda mais de cadáveres me atulhas!
- Príncipe, é muito, o assombro meu te baste.”
- E ele: “Divo Escamandro, como ordenas
- Será; mas eu não cesso, antes que encerre
- Na cidade os fedífragos Troianos,
- E a braços com Heitor, ou morra ou mate.”
- Ao tropel eis dispara o atroz demônio,
- E a Febo clama o rio: “Argenti-archeiro,
- Do Satúrnio os preceitos não te lembram
- De assistires aos Teucros e amparares,
- Té que o sol vespertino o prado obumbre?”
- Da riba entanto se despenha Aquiles;
- Mas, qual touro mugindo e a revolver-se,
- Túmido o Xanto os apinhados mortos
- De si furioso expele, esconde os vivos
- Na alva corrente e vórtices profundos,
- E o voraz homicida escarcéus turvos
- Cerram, batem no escudo, os pés lhe embargam.
- Ei-lo, extirpando com porção da margem
- Olmo que ali viçoso ia crescendo,
- Sustém na rama a cheia e em ponte o lança,
- Por onde perturbado ao campo voa:
- Após negreja o rio e alteia vagas,
- Para impedir o exício dos Troianos.
- O herói saltando como um dardo alcança;
- Águia é fusca a dar caça impetuosa,
- Fortíssima e celérrima entre as aves:
- Troa-lhe o arnês medonho, e oblíquo foge;
- Mas flutíssono o rio atrás o acossa.
- Se de negro olho d’água o fontaneiro
- Arroio aduz por hortos e plantios,
- E de enxada o regueiro desentope,
- Decliva a linfa os seixos remexendo,
- Murmura, e em breve se adianta ao guia:
- Tal (pois os deuses mais que os homens valem)
- Supera a enchente ao pé-veloz Pelides.
- Sempre que arrosta e pára, a ver se à fuga
- Os celícolas todos o constrangem,
- Incha o rio e lhe banha e embate os ombros;
- Dá mesto um novo salto, e em roda o Xanto,
- Progênito de Jove, o enerva e cansa,
- Rouba-lhe às plantas a inundada areia.
- Geme enfim e olha os céus: “Nenhum dos numes,
- Ai! Júpiter, me livra deste rio?
- Socorro, e apararei qualquer tormenta.
- Não culpo outro imortal quanto a mãe culpo,
- Que mendaz com morrer me acalentava
- À frechada de Apolo ante Ílio sacra.
- Oh! Matasse-me Heitor, o herói Dardânio
- Fora de um bravo um bravo despojado.
- Hoje inglório pereço, aqui submerso,
- Como o zagal mesquinho que, ao passá-la,
- A torrente invernal o engole e afoga.”
- Netuno e Palas súbito aparecem
- Em vulto humano, a mão nas mãos lhe tomam;
- E o grande abalador: “Ânimo, Aquiles;
- Jove o permite, ajudo-te eu com Palas;
- No Xanto perecer não é teu fado,
- Refluir o verás. Escuta agora
- Prudente aviso: o braço não repouses
- Nem te recolhas, sem que dentro encoves
- Quantos possam fugir e Heitor suplantes;
- Nós te aplainamos o triunfo e a glória.”
- Finda, juntam-se os deuses; propelido,
- Ele ao campo alagado se arremessa,
- Onde armas e cadáveres boiavam,
- Com mor esforço, que lho influi Minerva,
- Salva de um pulo as vagas. O Escamandro
- Não desiste; sanhoso e intumescido,
- Mais se encarneira, ao Símois vocifera:
- “Caro irmão, reprimi-lo ambos devemos,
- Ou, só por este esparsos os Troianos,
- Desabará de Príamo a cidade.
- Acode, acode; o álveo encham-te as fontes,
- Os ribeiros concita, engrossa e estua,
- Derriba troncos, desarreiga pedras,
- Contra o imano varão, que assim campeia
- E ousa igualar-se a deuses. Que lhe prestam
- Garbo e vigor e pulcro arnês, se tudo
- Vai sumir-se em meu seio reminhoso
- E afundar-se no limo? Aquiles mesmo,
- Hei-de em saibro envolvê-lo e imensa vasa,
- Por único sepulcro; nem seus ossos
- Tem de colher-se, e exéquias celebradas,
- Sobre o corpo deitar-se amiga terra.”
- Túrbido eis se encapela e avança urrando,
- Subleva-se entre espuma e sangue e mortos;
- Mas, do Xanto divino quando a vaga
- Vermelha o assoberbava, um grito Juno
- Dá, receando que o revolto rio
- Na voragem profunda o herói sorvesse,
- E recorre a Vulcano: “Sus, meu filho,
- Combate o Xanto, e vasto fogo acende;
- Zéfiro e Noto eu chamo, e uma borrasca
- Soprem do ponto a propagar o incêndio,
- Que aos Troas armas e cabeças queime:
- As árvores do rio e o leito inflama,
- Nem te retenha o impulso ameaça ou rogo;
- Somente ao brado suspende a fúria.”
- Disse, e o fogo rebenta; os corpos queima
- Empilhados no campo, e o campo enxuga
- E estanca a inundação; qual, pelo outono
- Desseca Bóreas encharcadas veigas
- E alegra o lavrador. Ao rio as chamas
- O Ignipotente inclina; olmos, salgueiros,
- Tamargueiras, morraças, lotos, junças,
- Quanto as margens lhe adorna, abrasa tudo:
- Peixes e enguias, do hálito Vulcânico
- Aflitos, pelos vórtices mergulham;
- Violento o Xanto, abafa e diz: “Mulcíber,
- Nenhum deus se te opõe; lutar não quero
- Com tanto fogo, da contenda cessa;
- Expulse Aquiles da muralha os Teucros.
- De rixas e de auxílios que me importa?”
- Mais a ígnea tormenta se exaspera:
- Qual de um cevado a banha, a derreter-se
- Em caldeirão que muita lenha aquece,
- Crepita e bolha e espirra; assim fervia
- Do Xanto o belo seio, e sem que as águas
- Pudesse despejar, pois lhe vedavam
- Labareda e vapor, depreca: “Ó Juno,
- Por que teu filho contra mim só raiva?
- Se é culpa, Ílio outros numes favorecem.
- Pois o mandas, me abstenho, e ele desista;
- Eu juro nunca mais socorrer Tróia,
- Nem que inteira a consuma o fogo Argivo.”
- Ouviu-lhe a prece a bracinívea déia,
- A Vulcano bradou: “Bom filho, basta,
- Por humanos um deus não mais flageles.”
- Ei-lo súbito apaga o imano incêndio,
- E em regatos gentis reflui o Xanto:
- Os rivais, bem que irosa, aparta Juno.
- Ali nos corações dos outros numes
- Cresce o furor, o burburinho cresce,
- Reclama a larga terra e o céu remuge;
- Porém no Olimpo Júpiter sentado,
- Se regozija a rir-se do conflito.
- Já, testa a testa, o fura-escudos Marte
- Corre a Palas de lança: “Por que os deuses,
- Varejeira audacíssima, discordas?
- Lembras-te que, a Tidides instigando,
- A hasta sua, orgulhosa, dirigiste,
- E o meu corpo divino laceraste?
- Ora me vingarei daquela afronta.”
- E na terrível égide, que ao raio
- De Jove resistira, o desmedido
- Pique lhe crava; a recuar, Minerva
- Levanta negra pedra áspera e grossa,
- Com que seu campo antigos demarcavam;
- Fere ao pescoço o turbulento Marte,
- E lhe enfraquece os membros: sete jeiras
- Ocupa ao longo, e o pó lhe mancha a coma,
- Com desusado ronco o arnês ribomba.
- Rindo Minerva, gloriosa grita:
- “Néscio! Atreves-te a mim que sou mais forte?
- As maldições da mãe em ti caíram,
- Furiosa de que os Dânaos desertasses
- E os fedífragos Teucros auxilies.”
- Disse, e os numes arreda. Conduz Vênus
- A Marte, que os sentidos mal cobrando,
- Vai gemendo açodado. Avista-o Juno
- E diz: “Prole do Egífero indomada,
- Olha a mosca impudente, que inda leva
- Pela destra o flagelo dos humanos
- Entre o aceso alvoroto: a ela, filha.”
- Folga Minerva, e diligente parte;
- Senta a pesada mão no peito a Vênus,
- Que ajoelha e esmorece, e os dois prostrando,
- Orgulha-se a Tritônia: “Assim caíssem,
- Quantos protegem contra os Gregos Tróia!
- Firmes e ousados como Vênus fossem,
- Grande minha rival, de Marte apoio,
- Que há muito, finda a guerra, ao nosso esforço
- A altanada cidade se curvara.”
- A deusa bracinívea aqui sorriu-se.
- Fala Netuno a Febo: “Estamos quedos!
- Já dado o exemplo, é torpe à casa aênea
- De Júpiter voltarmos sem combate.
- Enceta: sou mais velho e mais ciente,
- Não me cabe o fazê-lo. Estulto, esqueces,
- O que ambos sós em Tróia padecemos?
- — Fora do Olimpo, um ano a Laomedonte
- Contratamos servir por justo preço,
- E ele ordens arrogante nos passava:
- Eu fundei-lhe à cidade inexpugnáveis
- Largos muros; flexípedes armentos
- Em vales do Ida e selvas lhe pastavas.
- Gratíssimas o termo as Horas trazem,
- E o tirano sem paga nos expulsa;
- De algemas e grilhões vender-te ao longe
- E as orelhas cortar-nos prometia:
- Partimos da injustiça estomagados.
- E em prêmio deste crime é que te negas
- De falsos a extirpar filhos e esposas?”
- Mas Febo rei: “Netuno, é coisa indigna
- Eu contender contigo por humanos,
- Que míseros, às folhas parecidos,
- Ora viçam com fruto, ora emurchecem.
- Retiremo-nos presto, os mais que briguem.”
- Em respeito a seu tio, ele se aparta:
- A caçadora irmã lho estranha e exprobra:
- “Foges, guapo frecheiro? Entregas fácil
- A vitória a Netuno, e esse arco ostentas.
- Nunca mais te ouvirei no eterno alcáçar
- Blasonar, como outrora entre os celestes,
- Que ao mesmo Enosigeu te afrontarias.”
- Nada contesta Apolo, e enfurecida
- A esposa do Satúrnio veneranda
- À fragueira Diana encara e ultraja:
- “E atreves-te, cachorra, a ter-me rosto?
- Essas frechas comigo não te valem:
- Deu-te Jove, leoa entre as mulheres,
- Feri-las a prazer; é menos árduo
- Correr cervos e corços que aos potentes
- Reagir com vigor. Provar se o queres,
- Quanto mais forte sou conhece agora.”
- Com a esquerda eis lhe prende ambos os pulsos,
- Do ombro a destra o carcás e o arco tira,
- Com que rindo lhe bate pelas faces,
- Fazendo-a voltear: por terra as setas,
- Foge a deusa a carpir, qual voa a pomba
- E ao gavião se esconde em oca penha,
- De cujas garras a desvia o fado.
- A Latona o Argicida mensageiro
- Cauto exclamou: “Contigo não combato;
- Esposa és do Nubícogo, e receio,
- Prontíssima aos celícolas te gabes
- De que à força de braço me venceste.”
- Vai Latona colhendo arcos e frechas
- Envoltos na poeira, após a filha.
- Esta chega do Olimpo aos éreos paços,
- Pranteia e senta-se ao paterno grêmio,
- O peplo a lhe tremer. Jove abraçou-a
- Com suave sorriso a interrogá-la:
- “Que deus, filha, atreveu-se a maltratar-te,
- Como se um erro às claras cometesses?”
- E a coroada caçadora: “Juno,
- A tua bracicândida consorte,
- Juno, que entre imortais lança a discórdia.”
- Sobe Febo entretanto a Ílio santa,
- Vela nos muros, por temer que os Dânaos
- Contra o fado esse dia os subvertessem.
- Entram no Olimpo os outros sempiternos,
- Quais agastados, quais de glória ovantes,
- Sentam-se em torno ao Padre. — Mas Aquiles
- Homens talha e corcéis: bem como, em chamas
- Por cólera celeste uma cidade,
- Entre nuvens de fumo o vasto incêndio
- Causa a todos fadiga e a muitos morte;
- Ele os Teucros molesta, acossa e rende.
- Príamo ali do torreão divino
- Os seus descobre sem defesa esparsos
- Ante o herói giganteu; choroso o velho
- Desce em terra, aos bravíssimos custódios
- Ordem passando expressa: “Tende abertas
- Nas mãos as portas, por que em fuga os nossos
- Livrem-se do furor do atroz Pelides,
- E assim que dentro em salvo respirarem
- Trancai-as logo: o mal está no cume!
- Hei medo que essa peste invada os muros.”
- As barras e os batentes se descerram
- Para abrigá-los, e de um pulo Febo
- Vem socorrer os que a cidade buscam,
- Sórdidos de poeira e ardendo em sede.
- Hasta em reste, os encalça o velocípede,
- Ira o esporeia e glória; e as rijas portas
- Certo arrombara, se no peito Febo
- De Agenor Antenórida mor brio
- E audácia não vertesse: ao pé da faia,
- Para o esquivar das graves mãos da Parca,
- Em atra névoa se coloca perto.
- Agenor, ao turrífrago avistando,
- Pensoso pára, o coração lhe ondeia,
- Com quem fala magnânimo e suspira:
- “Ai! Se fujo na turba ao fero Aquiles,
- Há-de alcançar-me, e acabarei cobarde;
- Mas, se o deixo o tropel ir derrotando,
- E pelo campo Ilíaco me deito
- No Ida a matejar, então no rio
- Lavado e fresco do suor, à tarde
- Entro em seguro... Que profiro? Ao ver-me
- Ir da cidade no fugaz empenho,
- Há-de apanhar-me e tenho certa a morte,
- Que ele os homens em força muito excede.
- Vou pois ante as muralhas encontrá-lo:
- Seu corpo a corte aêneo é vulnerável,
- E uma só alma tem; que é mortal soa,
- Posto que lhe dê Jove eterna glória.”
- Volto, o Eácida aguarda, e combatê-lo
- Pede-lhe o coração. Qual sai pantera
- Da mata ao caçador, sem que o ladrido
- A afugente ou perturbe, inda que a punja
- Pregada ou seta ou lança, não desiste,
- Antes que lute ou morra; assim não foge
- O divino Agenor, mas quer medir-se
- Com o Eácida mesmo. Arrodelado
- A hasta apontando, grita: “Ilustre Aquiles,
- Aos Troas derribar a grã cidade
- Contavas hoje: inda por ela, insano
- Sofrereis muitas lidas; inda há nela
- Muitos varões de pulso, que a defendam
- Pelos queridos pais, filhos e esposas.
- És tu que bebes hoje o mortal trago,
- Bem que audaz campeão terrível sejas.”
- Pronto, na perna o rigoroso tiro
- Sob o joelho acerta, e em torno à greva
- Ressoa o estanho; é repelido o bronze
- Da arma recente por Vulcano obrada.
- Contra Agenor deiforme rui Aquiles,
- Porém Febo a vitória assim roubou-lhe:
- Cobre de nuvem densa o herói Troiano,
- Põe-no fora; tomando-lhe a figura,
- Coloca-se ardiloso ante o Peleio,
- Que o segue rápido e abandona a liça;
- O Longe-vibrador entre as searas
- O atrai às margens do Escamandro pingues,
- Pouco avante correndo afasta Aquiles,
- Que espera celerípede alcançá-lo.
- Entanto, aforçurados os Troianos
- Entram no muro; e, fora uns pelos outros
- Nem esperar, nem conhecer querendo
- Os mortos e os incólumes, se espalham
- Pela cidade, lassos, impacientes,
- Quantos em pés ligeiros se escaparam. * * *