Menelau, no conflito percebendo
635 versos · 4 notas do tradutor
- Menelau, no conflito percebendo
- Que jaz Pátroclo, a proteger seu corpo
- Entre a vanguarda marcha erifulgúreo:
- Qual gemente primípara novilha
- Meiga cerca o filhinho, o louro Atrida
- Pugnaz, de hasta e rodela, ameaça firme
- A quem se apropinquar. Mas ante o morto
- O galhardo Pantóides pára ousado:
- “Vai-te, potente rei de Jove aluno,
- Anda, abandona-me o cruento espólio;
- A mim que, dos belígeros consócios,
- O herói feri primeiro. A imensa glória
- Tu não me impeças, ou te arranco a vida.”
- Suspira o Dânao: “Que indecoro orgulho,
- Satúrnio pai! Javardo nem pantera,
- Nem leão, de natura truculentos,
- Certo alojam nos peitos a fereza
- Que respiram de Panto os guapos filhos.
- O Équite Hiperenor, que fronte a fronte
- Chamou-me o Aqueu mais fraco, sem dos anos
- Lograr-se, creio, ao pé não foi dar gosto
- Aos venerandos pais e à cara esposa:
- Desgraça igual terás, se aqui me arrostas;
- Escondido na turba, o fado evites.
- O mal tarde os estultos reconhecem.”
- Indócil torna Euforbo: “Ó fero Atrida,
- Pagarás a ufania, o irmão defunto,
- O recente seu tálamo viúvo,
- Dos nossos pais o luto e mágoa infanda.
- Por consolar a Panto e a nobre Frontis,
- Essa cabeça e arnês eu lhes oferte.
- Mas cessem moras; de provar é tempo
- A quem assista o medo, a quem o esforço.”
- Então, brandida, a cúspide recurva
- Embaça no broquel. Porém o Atrida
- Ora a Jove, e ao contrário, que recua,
- A gola espeta; com robusto afinco,
- Lhe afunda a ponta e o brando colo passa:
- Ao fragoroso baque as armas fremem;
- Como a das Graças, lhe salpica o sangue
- De ouro e prata a madeixa entretecida.
- Qual, se o colono a pálida oliveira
- Em terreno alimenta solitário
- Que em mananciais abunde, ela formosa
- Viceja, e de alvas flores enfeitada
- Balança a coma ao vário Eólio sopro,
- Té que um pegão furioso a desarreiga
- E esfolha a encova; assim virente Euforbo,
- Em terra e exânime, é do arnês despido.
- Quando sevo leão, criado em brenhas,
- Rouba dos pastos a melhor bezerra,
- Quebra a cerviz a dente, e lacerando-a
- O cruor chupa e sorve-lhe as entranhas;
- Zagais e cães de longe amiúdam gritos,
- Mas descorado medo o pé lhes tolhe:
- Assim Teucro nenhum tinha a coragem
- De abalançar-se a Menelau sublime;
- Que arrancara ao Pantóides a armadura,
- Se ínvido Apolo, disfarçado em Mentes,
- Cicônio chefe, repentino ao márcio
- Priâmeo não clamasse: “Aqui persegues
- A biga, Heitor, que humanos mal sopeiam,
- Exceto Aquiles, de mãe deusa prole;
- E o flavo Atrida, a proteger Pátroclo,
- O valor terminou do exímio Euforbo.”
- Disse, e volta à batalha. A Heitor profundo
- Nojo calou; de giro, encontra o jovem
- Rubro humor a manar da atroz ferida,
- E o Grego a despojá-lo: entre as fileiras
- Trota, a estrugir agudo, eribrilhante,
- Como Vulcânea chama inextinguível.
- Ouvindo-lhe o estridor, o Atrida geme,
- Fala à sua alma: “Se abandono o espólio
- E o Menécio, que jaz pela honra minha,
- Hão-de estranhar-mo Aqueus; a Heitor se arrosto
- Só por vergonha, a gente que atrás segue
- Do seu elmo êneo e vário, há de envolver-me.
- Titubas, alma? A quem brigar se atreve
- Dos Céus contra um valido, a ruína é certa.
- E alguém me estranhará ceder ao homem
- Que um nume guia? A voz de Ajax soasse!
- Ambos, à divindade resistindo,
- O caro morto menos mal seria
- Restituirmos ao soberbo Aquiles.”
- Neste comenos, já de Heitor à vista,
- Solta o corpo; virando-se por vezes,
- Como leão barbudo retrocede,
- Que expulso a dardos e a ladridos e urros,
- Invito e em sanha do curral se aparta.
- Junto aos seus tem-se, busca em roda o grande
- Ajax, que à sestra o peso atura todo,
- E assombrados por Febo anima os sócios;
- Direito a ele corre: “Ajax amigo,
- Pátroclo a defender nos apressemos;
- Sequer seu nu cadáver tenha Aquiles,
- Pois de Heitor galeato o arnês é presa.”
- Comoto parte Ajax, e o flavo chefe,
- Pela frente. A Pátroclo já despido
- Arrastando ia Heitor, para entregá-lo,
- Decepada a cabeça, aos cães de Tróia;
- Mas, perto Ajax com torreado escudo,
- Ele à turba se acolhe, ao coche pula,
- E em troféu à cidade envia as armas.
- Do pavês cobre Ajax o herói defunto,
- Como a leoa ampara os seus cachorros
- Que em selva ataca chusma de monteiros.
- E os olhos eferados revolvendo,
- Os retrai às franzidas sobrancelhas.
- Ao bravo Menelau, que o ladeava,
- Recrescia no peito o luto acerbo.
- Turvado o argúi o Lício Hipoloquides:
- “Com esse garbo, Heitor, não vai teu brio;
- És fugaz, e te exalta injusta fama.
- Só com teus cidadãos cogita os meios
- De salvar a Troiana sociedade:
- Meus Lícios não terás. Que lucro houveram
- Da constância e denodo em tantos riscos?
- Há-de um guerreiro obscuro em ti fiar-se,
- Quando preia aos Grajúgenas largaste
- O camarada e hóspede Sarpédon,
- Em vivo teu apoio e de Ílio esteio?
- Nem dos cães te esforçaste a preservá-lo!
- Ouçam-me, e a casa voltaremos todos,
- E Ílio embora desabe. Aos Teucros falta
- O coração dos que ousam pela pátria
- Sofrer trabalhos e afrontar perigos;
- Aliás, Pátroclo a rojo aos celsos muros
- De Príamo subira, e as pulcras armas
- E o nosso rei tivéramos, em troca
- Do Aqueu fortíssimo ante as naus prostrado,
- Fâmulo caro do espantoso Aquiles.
- Mas de Ajax te amedrontas; quando o encaras,
- Pois vence-te em valor, desapareces.”
- Indignado o Priâmeo: “Altivo e agro
- Me insultas, Glauco? Amigo, o mais prudente
- Eu te julgava da glebosa Lícia;
- Mas ora insano de tremer perante
- O grande Ajax me acusas. A peleja
- Nunca assustou-me, ou dos corcéis o estrépito;
- Sujeito-me do Egíaco à vontade,
- Que audazes afugenta e a glória tira
- Ao próprio que instigou. Tu fica, observa
- Se em todo o dia fraco sou, qual pregas,
- Ou se a qualquer Argeu, por mais valente,
- Arredar sei do corpo de Pátroclo.”
- Presto bradou: “Sede homens, Lícios, Teucros,
- Do vosso ardor, ó Dárdanos, lembrai-vos;
- No entanto, visto o arnês do exímio Aquiles,
- Por mim saqueado ao bélico Pátroclo.”
- Da liça lagrimosa então saindo,
- Corre aos que a Ílio santa o arnês levavam;
- Alcança-os breve; manda o seu, que muda
- Pelo de Aquiles, imortal presente
- Feito a Peleu; do velho dado ao filho,
- Que o não trará por certo na velhice.
- Jove de parte o viu cingindo as armas
- Divinas, e a cabeça meneando,
- Falou consigo: “Ai! Longe a morte cuidas,
- E ela te acerca: do que tremem todos
- Revestes a armadura, e o forte e ameno
- Amigo seu matando, sem decoro
- Dessa armadura mesma o despojaste.
- Mas vou de glória encher-te, em recompensa
- De não voltares: triste! À esposa tua
- Nunca apresentarás o arnês de Aquiles.”
- Anui e arqueia as pretas sobrancelhas,
- A Heitor adapta o arnês; Mavorte horrendo
- Lhe exalta o brio e os membros lhe vigora.
- Ei-lo os mais feros busca; eri-esplendente
- Semelhando ao magnânimo Pelides,
- Se dirige a Medon, a Glauco e Mestles,
- A Asteropeu, Tersíloco, Hipotoo,
- Disinor, Fórcis, Crômio e Enomo vate,
- E clama e exorta: “Ouvi-me, inútil bando
- Cá não chamei das convizinhas tribos,
- Sim fiel gente que dos Gregos duros
- Nos defenda as mulheres e os meninos.
- Por sustentar seu zelo, esgoto os povos
- De víveres e dons; cumpre que ousado
- Cada qual morra ou vença: é lei da guerra.
- Quem a Ajax repelir e aos muros Teucros
- Rojar Pátroclo, de metade logre
- Do espólio todo, iguale-me na glória.”
- Disse; em coluna, de hasta em reste, avançam
- Contra os Aqueus, e ao Telamônio esperam
- Arrancar o cadáver. Insensatos!
- Ele é que há de arrancar a vida a muitos
- Sobre o cadáver; mas primeiro exclama:
- “Querido Menelau, de Jove aluno,
- Escaparmos não conto. Hei grande medo
- Ceve em Tróia o Menécio a cães e abutres,
- Quanto por mim receio e por ti mesmo:
- Heitor, bélica nuvem, tudo envolve;
- Negreja o nosso derradeiro dia.
- Eia, os mais fortes chama: oh! Se te ouvissem!”
- Pronto o guerreiro Menelau vozeia:
- “Chefes Aquivos, príncipes e amigos,
- Os que bebeis à mesa dos Atridas,
- E honrados sois de Jove e regeis povos,
- Do conflito no ardor mal vos distingo,
- Mas indignados vinde; a todos peje
- Ser escárnio o Menécio a cães de Tróia.”
- Súbito Ajax de Oileu, por entre as alas,
- Se precipita, e o rei Cretense e o pajem,
- Rival de Marte, Merion cruento.
- Quem poderia recordar os nomes
- De Graios tantos que a peleja instauram?
- Heitor condensa as tropas e arremete:
- Como, de um rio à foz por Jove inchado,
- Mugem contra a corrente as salsas ondas
- Que o mar vomita à praia; assim dos Teucros
- Muge o clamor. Num ânimo os Aquivos,
- De êneos escudos a Pátroclo muram,
- E névoa em torno aos coruscantes elmos
- Lhes derrama o Satúrnio, que o prezava;
- A defendê-lo excita os companheiros,
- Pois odioso lhe era aos cães de Tróia
- Deitado ser o fâmulo de Aquiles.
- Olhinegros Aqueus primeiro o corpo
- Trépidos abandonam, sem que os toquem
- Ávidas lanças dos bizarros Teucros.
- O morto iam rojando, e a poucos passos
- Acorre o Telamônio, que no aspecto
- E gentis feitos superava os Dânaos,
- Exceto o divo Eácida: à maneira
- De javali, que em montes perseguido,
- Virando-se entre a mata impetuoso,
- A molossos dissipa e a caçadores;
- Rompendo o grande Ajax pelas fileiras,
- Fácil espanca Ilíacas falanges,
- Que a Pátroclo circundam, na esperança
- De arrastá-lo à cidade e alcançar glória.
- Filho Hipotoo do Pelasgo Letos,
- Para agradar aos Frígios e ao Priâmeo,
- Liga o talim do tornozelo aos nervos,
- Entre o barulho o tira; eis, não valendo
- Muitos que o desejavam, pela turba
- Salta Ajax, o elmo aêneo lhe atravessa,
- E o da forçuda mão fulmíneo bote
- Fende o cocar eqüino, e pelo encaixe
- Do hastil espirra o cérebro sangüento.
- Soltando o pé do herói, desfalecido
- Sobre o cadáver se estirou de bruços,
- Longe da alma Larissa, aos pais ah! nunca
- Há-de pagar terníssimos cuidados,
- Pois gume atroz cortou-lhe os breves dias.
- Darda Heitor contra Ajax, que atento esquiva
- O resvalante golpe, mas o emprega
- No Ifítio Esquédio, exemplo dos Focences,
- Que em Panopeia alcáçar tinha vasto
- E em muitos imperava: a brônzea ponta
- Dá no pescoço e do ombro sai por cima;
- Na queda ronca o arnês. Ao Fenopides
- Fórcis, que de Hipotoo contendia,
- Ajax rompe a couraça e pelo ventre
- A cúspide lhe embebe nas entranhas;
- De palma em terra o belicoso arqueja.
- A vanguarda recua e o Teucro chefe;
- Em grita os Gregos, a Hipotoo e Fórcis
- Os corpos rojam, da armadura despem.
- E os de Ílio ignavos abrigar-se iriam,
- A vitória os Grajúgenas obtendo,
- Mau grado a Jove, por virtude própria,
- Se a Eneias não desperta o mesmo Apolo,
- Em figura do Epítides Perifas,
- Que arauto envelhecera ao pé de Anquises,
- E por sábio e sisudo era afamado;
- Perto lhe fala: “De que modo, Eneias,
- Vós contra um nume salvaríeis Tróia?
- Emulando os heróis que eu via outrora,
- Em seu denodo e em seu valor seguros,
- Na intrepidez de numerosas tropas:
- Jove antes é por nós que pelos Dânaos;
- Mas fugis aterrados, sem pugnardes.”
- Olha Eneias, conhece o Argenti-archeiro,
- E a voz desprega: “Heitor e auxiliares,
- Que desdouro é cobardes retornarmos,
- Repulsos dos Aquivos! Ora acaba
- De revelar-me um deus que o Padre sumo
- Será por nós. Comilitões, coragem!
- Direito aos Gregos; em sossego ao menos
- Eles às naus Pátroclo não recolham.”
- Fora eis avança e pára, e assim que os Teucros
- Voltam face, a Leócrito lanceia,
- De Arisbas filho; o bravo rola e expira.
- E logo o camarada Licomedes
- Encarna impetuoso o pique ardente
- No fígado por baixo do diafragma,
- De Apisaon Hipáside, e o prosterna:
- Da ubertosa Peônia digno chefe,
- Depois de Asteropeu, mais se estremava.
- O márcio Asteropeu rompe sentido
- A provocar os Dânaos, mas debalde;
- Eles, Pátroclo a rodear, em pinha
- De lanças e broquéis lhe fazem muro.
- De fileira em fileira, Ajax proíbe
- Sair das linhas e deixar o morto;
- Firmes ordena todo o choque esperem.
- Roxeia o sangue; uns sobre os outros morrem,
- O chão banhando, Lícios, Troas, Dânaos;
- Mas destes menos, porque em massa lutam,
- E com mútuo socorro se protegem.
- Qual fogo o prélio ardia, e pela treva
- Que o Menécio ocupava e os contendedores,
- Creras extinto o Sol, extinta a lua:
- Logravam-se os demais, em mole ataque,
- De ar sereno e de claro esparso lume,
- Campina e montes a brilhar sem nuvem,
- E de longe e interruptos pelejavam,
- Tiros mortais recíproco evitando;
- Os mais fortes no centro, os afligiam
- Caligem, dor, fadiga e sevo bronze.
- Dois heróis todavia inda ignoravam,
- Trasimedes e Antíloco, a desgraça
- Do bom Pátroclo, e acérrimo o supunham
- Em meio do conflito, enquanto apenas,
- Dos sócios prevenindo a perda e a fuga,
- Distantes combatiam, por cumprirem
- De Nestor os conselhos à partida.
- Pelo companha do veloz Pelides
- Cruel ferve o certame o dia inteiro,
- Pés, joelhos e pernas, o cansaço
- Afraca a todos, em suor escorrem
- Sujas faces e mãos. Quando mandados
- Servos, dispostos em redor, estiram
- De enorme touro a gordurosa pele,
- Puxam-no, até que, o leve humor purgando
- E impregnada grossura, o couro espicham:
- Assim, daqui dali num curto espaço
- O cadáver puxando, uns esperavam
- A Pérgamo levá-lo, outros à frota.
- Cresce o tumulto; e, ao vê-lo, os aplaudira
- Mesmo o feroz Gradivo e irosa Palas:
- Tanto ali nesse dia áspero estrago
- De varões e corcéis difundiu Jove!
- Morto o amigo inda Aquiles não sabia.
- Sendo ao longe a contenda e junto aos muros;
- São das portas cuidava que voltasse,
- Pois subverter a Tróia não podia,
- Sem ele nem com ele: a mãe por vezes
- Descobriu-lhe de Júpiter o arcano.
- Ele então lhe ocultava o caso horrível
- Ao seu mais caro sócio acontecido.
- Lança a lança, incessantes se matavam.
- Dizia um Grego: “É feio às naus voltarmos;
- Primeiro, amigos, nos engula a terra:
- Antes morrer que dar a glória aos Teucros
- De rojá-lo à cidade.” E um Teucro: “Amigos,
- Melhor é que nos dome a Parca a todos;
- Ninguém mais o cadáver desampare.”
- Assim, de parte a parte, se animavam.
- Enquanto insistem, sobe ao céu de bronze
- Pelo infrugífero ar rumor de ferro,
- Os cavalos do Eácida arredados,
- No pó sentindo o sólito cocheiro,
- Obra de Heitor ferino, lagrimavam:
- Já brando, já minaz, estala o açoute
- O Diório Automedon; mas nem queriam
- Do amplo Helesponto reverter às praias,
- Nem ao combate; quedos, como o cipo
- De varão no sepulcro ou de matrona,
- Ante o nítido carro, de olhos baixos,
- Do seu guia saudosos, quentes gotas
- Vertiam sobre a areia; em cerco ao jugo
- Manchada lhes flutua a espessa crina.
- O Satúrnio, do choro condoído,
- A cabeleira abana e entre si fala:
- “Qual! Não sujeitos à velhice e à morte,
- Ao rei mortal Peleu doados fostes,
- Para entre humanos padeceres mágoas?
- As criaturas são mais infelizes
- Das que na terra movem-se e respiram!
- Em coche que tireis nunca o Priâmeo
- Se assentará, que o vedo: não lhe basta
- Ufanar-se das armas temerário?
- Ânimo hei-de infundir-vos, por que a salvo
- Automedon vos reja. À instruta frota
- Levar inda a matança aos Troas caiba,
- Té que o Sol caia e assome a sacra noite.”
- Logo inspira aos corcéis força incansável:
- Ei-los, o pó da juba sacudindo,
- O coche entre uns e outros arrebatam.
- Em cima Automedon, que a dor comprime,
- Rui qual de chofre abutre sobre gansos;
- Ora foge ao tumulto, ora se envia
- Ao mais basto; repele-os sem matá-los,
- Que, só no divo assento, era impossível
- Suster as bridas e jogar da lança.
- Do Emônio Laerceu o avista o filho
- Alcimedon, que pára: “Um deus te cega!
- Só, na vanguarda combater intentas?
- O sócio egrégio, Automedon, foi morto,
- E exulta e ombreia Heitor o arnês de Aquiles!”
- Respondeu-lhe o Diório: “A que outro Grego,
- Depois do auriga divinal Pátroclo,
- Posso entregar, Alcimedon, a biga?
- Pois que ele preia foi da Parca horrível,
- Toma o chicote e as artefatas rédeas;
- Que a pé vou pelejar.” — o Laerceides
- Pula ao carro, o chicote e as rédeas pega;
- Automedon se apeia. Heitor adverte-o,
- Volta-se a Eneias: “Príncipe, os cavalos
- Do Eácida veloz, observo, trotam
- Com inábeis cocheiros: se me ajudas,
- Empolgados serão; pois de arrostar-nos
- Aos dois guerreiros faltará coragem.”
- Aplaude o Anquíseo. Vão direitos ambos,
- Com sólidos broquéis de couro táureo,
- De multíplices lâminas forrados.
- Crômio e o deiforme Areto os acompanham,
- Crendo imolar os dois e haver a biga
- De árdua cerviz: dementes! Não sem sangue
- Automedon consentirá que voltem.
- Este ora a Jove, o peito hirsuto mune
- De fortaleza, e ao fido sócio fala:
- “Perto os corcéis, Alcimedon, me tenhas,
- E às costas me respirem: não presumo
- Que Heitor amaine a fúria, antes que monte
- Os comados frisões, nos mate, em fuga
- Ponha os Aquivos, ou na empresa acabe.”
- Então chama os Ajax e o louro Atrida,
- Por socorro a bradar: “Curem do morto
- E preservem-no fortes que o circundam;
- O escuro dia repeli de vivos:
- Os Teucros de mor brio a nós remetem,
- Entre o choroso prélio, Heitor e Eneias.
- Pousa o evento aos joelhos dos supremos:
- Daqui dardejo, e deixo tudo a Jove.”
- Disse, e de Areto na rodela o pique
- Penetrando sem custo, lha atravessa,
- Pelo bálteo lhe fura o baixo ventre:
- Qual, se afiada secure de um mancebo
- De boi silvestre sobre os cornos talha
- O nervo todo, pula e cai a rês;
- Tal pula e cai Areto, e nas entranhas
- Hasta fremente as forças lhe descose.
- Despede Heitor a Automedon a sua:
- Este previsto se proclina e livra:
- Atrás se enterra a choupa e o conto abana,
- Até que Marte o ímpeto lhe quebra.
- De espada iam bater-se, a não romperem
- Os dois Ajax ardentes pela turba,
- Acudindo ao chamado; receosos
- Vão-se Eneias e Heitor e o divo Crômio,
- E Areto fica de rasgado seio:
- O márcio Automedon lhe tira as armas
- A jactar-se: “A Pátroclo este é somenos,
- Mas algum tanto o nojo me alivia.”
- Logo o espólio cruento ao carro sobe,
- Tendo punhos e pés ensangüentados,
- Como um leão que fez de um touro pasto.
- Sobre o corpo recresce a lagrimosa
- Contenda, exacerbada por Minerva,
- A quem, já de outro acordo, o pai supremo
- Do céu mandara acorçoar os Gregos:
- Bem como quando Jove aos homens tende
- O áreo purpúreo, indício de batalhas,
- Ou de fria procela, que suspende
- Rurais trabalhos e entristece o gado;
- Ela coberta assim de roxa nuvem,
- Do campo a dentro, a cada qual suscita.
- Primeiro a Menelau, que estava perto,
- A forma e a voz de Fênix indefessa
- Assumindo, clamou: “Que opróbrio, Atrida,
- Se os cães de Ílio consentes lacerarem
- O consócio fiel do exímio Aquiles!
- Eia, o exército anima, e sê brioso.”
- E o pugnaz Menelau: “Se, ó padre Fênix,
- Augusto velho, me assistisse Palas,
- E da chuva de setas me abrigasse
- Eu por certo a Pátroclo socorrera,
- Cuja morte me pesa e me angustia;
- Mas o fogo de Heitor e o voraz bronze
- Consumem tudo, e Jove o glorifica.”
- Alegre de invocada ser primeira,
- Joelhos e ombros lhe vigora a deusa;
- Põe-lhe no peito negro a teima e audácia
- Com que a mosca, enxotada, insiste e morde,
- Pois é de sangue humano apetitosa.
- Próximo de Pátroclo, a lança brande:
- Pelo talim perfura o Teucro Podes,
- Rico e forte plebeu, de Eetion nado,
- De Heitor estimadíssimo conviva;
- Que, ágil a se escapar, de roldão tomba.
- Para os Aquivos ao regalo Atrida,
- A Heitor exorta Apolo arcipotente,
- Em Fenope de Abido, filho de Ásio,
- O hóspede seu mais caro, disfarçado:
- “A que outro Grego, Heitor, serás tremendo,
- Se a Menelau, guerreiro pouco ilustre,
- Tens hoje medo? Ousa ele só de rastos
- Levar teu fido sócio, o estrênuo Podes,
- Entre os primipilares abatido.”
- O herói, de alma toldada e erifulgente,
- Sai da linha. A de fímbrias Jove apunha
- Égide jaspeada, o Ida enubla;
- O escudo a sacudir, corisca e toa,
- Em sinal da vitória dos Troianos.
- Primeiro foge Peneleu Beócio;
- Que de hasta, fronte a fronte, Polidamas
- O ombro lhe esflora e o osso lhe descarna.
- Heitor vulnera o corpo a Leuto, filho
- Digno de Alectrion; que, da ação fora,
- Trépido em roda olhando, se retira,
- Porque na mão suster não pode a lança.
- Idomeneu de Leuto o vê no encalço,
- À mama atira, o pique na couraça
- Pelo encaixe estralou, com Tróico aplauso.
- Heitor joga ao Deucálide, que ereto
- No coche estava; o bote errado apanha
- A Cerano, que lá da altiva Lictos
- Como escudeiro a Merion seguira.
- Pedestre Idomeneu, da armada vindo,
- Dera alta glória aos Teucros, se os cavalos
- Não traz Cerano, que de Heitor ferino
- Salva o Cretense rei, mas perde a vida:
- A ponta o fere sob a orelha e o queixo,
- Os dentes lhe espedaça e tronca a língua;
- Ele do coche rola e solta as rédeas.
- Curvo as colhe Merion, dizendo: “O açoute
- Maneja, Idomeneu, sus, corre à frota:
- Para os Dânaos, bem vês, não há vitória.”
- Já, temeroso, o crinipulcro tiro
- Toca o rei para bordo. Ajax percebe
- Com Menelau que a sorte é pelos Teucros,
- E o celso Telamônio assim discorre:
- “Ah! sente o mais estulto que o Satúrnio
- É contra nós: os inimigos dardos,
- Ou do imbele ou do bravo, ele os dirige;
- Os nossos pelo chão frustrâneos morrem.
- Eia, a melhor maneira excogitemos
- De ir com Pátroclo e encher de gosto os sócios
- Que tristes nos aguardam; nem já contam
- Suster as cruas mãos de Heitor invicto,
- Sim ante as naus cair. Oh! Para Aquiles,
- Que do amigo suponho ignora o fado,
- Houvesse um núncio! Mas ninguém descubro,
- Que homens e carros basta névoa esconde.
- Jove aos Dânaos dissipa tal negrume,
- Serena o tempo, dá-lhes vista aos olhos;
- Pereçam, pois te apraz, à claridade.”
- Do pranto seu comiserou-se o Padre;
- A caligem desfez. Refulge o campo
- À luz do sol, e o Telamônio instando:
- “Olha e vê, Menelau, se está com vida
- O magnânimo Antíloco Nestório:
- Corra, ao belaz Eácida anuncie
- Do predileto amigo a desventura.”
- Põe-se a caminho logo o bravo Atrida.
- Como leão, depois de haver de noite
- Cães provocado e vigilantes guardas,
- Que cevar-se nos bois lhe não consentem,
- Lasso de vãos assaltos, esfaimado,
- O curral deixa e de manhã se aparta,
- Mesto e raivoso, expulso por audazes,
- Contínuos dardos e tições voantes;
- Assim, forçado, o valoroso Atrida
- Saiu, temendo que por medo os Gregos
- Entregassem Pátroclo, e disse: “Ó nobres
- Chefes Ajax, tu Merion, não vades
- Esquecer-vos do mísero Menécio;
- A quem urge ora a Parca, e em vida todos
- Sabem como era generoso e brando.”
- Mal acaba, se foi. Como águia, dizem
- De agudíssimos olhos entre as aves,
- Das nuvens lobrigando em verde moita
- Lebre ligeira, de repente a empolga,
- Lacera e mata; assim, de Jove aluno,
- Com vista perspicaz em torno, indaga
- Pelas falanges todas se inda vive
- Antíloco Nestório. Estava à esquerda
- Concitando o combate, e já de perto
- Lhe fala o Atrida: “Aqui me escuta, amigo,
- Um triste anúncio, que oxalá não fora.
- Por ti conheces que o triunfo Jove
- Reserva aos Teucros e a ruína aos Gregos:
- Jaz Pátroclo fortíssimo, dos nossos
- Com mágoa imensa! Voa às naus de Aquiles:
- Venha salvar sequer o nu cadáver,
- Que de Heitor galeato o arnês é presa.”
- Antíloco, de ouvi-lo triste e mudo,
- Pegada a voz, em lágrimas rebenta;
- Mas obedece, confiando as armas
- A Laodoco esforçado, que os ginetes
- Lhe moderava, e aceleradamente
- Choroso os pés o levam para Aquiles,
- A anunciar-lhe o caso miserando.
- Nem tu, bizarro Menelau, quiseste
- Suprir de Antíloco a sentida falta:
- Seus Pílios ao divino Trasimedes
- Encomendas, e volves a Pátroclo,
- Junto aos Ajax parando: “O expresso voa;
- Mas, contra o nobre Heitor em que urre Aquiles,
- Não pode agora vir, que está sem armas.
- Deliberemos nós como remirmos
- Da baralha este corpo e a nossa vida.”
- E o Telamônio: “Amigo, bem discorres.
- Já, tu com Merion carrega o morto:
- Atrás nós cá, do mesmo nome e audácia,
- Que unidos sustentado o marte havemos,
- Da chusma e do acre Heitor vos resguardamos.”
- Os dois erguem nos braços o cadáver;
- Bramindo, ao vê-lo, os Teucros se arremessam.
- Quando cães, precedendo aos caçadores,
- Cerdo acossam ferido, impacientes
- De espedaçá-lo, a fera a poucos passos
- Vira sanhuda e a caniçalha foge:
- Em barda assim, de bipontudas lanças
- E de espadas os Teucros acometem;
- Mas, tanto que os Ajax torvo os encaram,
- Em tropel de cor mudam, nem se atrevem
- Sair da fila e disputar Pátroclo.
- Após os dois que os levam pressurosos
- Move-se atroz peleja, e de guerreiros
- E de corcéis horríssono tumulto;
- Qual, de estridentes sopros ao mugido
- Salta em cidade repentino incêndio,
- Que em vasta chama desmorona os tetos.
- Como rígidos mus, que da montanha,
- Labutando e em suor, ou trave ou mastro
- Naval trazem por áspera azinhaga;
- Vão ambos o cadáver transportando.
- E os Ajax o inimigo lhes arredam,
- Ao teor do mamilo nemoroso
- Que, na campina opondo-se à torrente,
- Afasta o rio e lhe desvia o curso.
- Em mó porém os Teucros os perseguem,
- Mormente o nobre Heitor e o divo Eneias;
- E por estes repulsos, à maneira
- De uma nuvem de gralhos e estorninhos,
- Que ao ver o gavião, terror das pombas,
- Guinchando foge, em alarida os Gregos
- Se esquecem do combate e retrocedem.
- Muito arnês cai no fosso à retirada;
- Não cessa todavia o morticínio. * * *