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IlíadaLivro XVII
LivroXVII

Menelau, no conflito percebendo

635 versos · 4 notas do tradutor


  1. Menelau, no conflito percebendo
  2. Que jaz Pátroclo, a proteger seu corpo
  3. Entre a vanguarda marcha erifulgúreo:
  4. Qual gemente primípara novilha
  5. Meiga cerca o filhinho, o louro Atrida
  6. Pugnaz, de hasta e rodela, ameaça firme
  7. A quem se apropinquar. Mas ante o morto
  8. O galhardo Pantóides pára ousado:
  9. “Vai-te, potente rei de Jove aluno,
  10. Anda, abandona-me o cruento espólio;
  11. A mim que, dos belígeros consócios,
  12. O herói feri primeiro. A imensa glória
  13. Tu não me impeças, ou te arranco a vida.”
  14. Suspira o Dânao: “Que indecoro orgulho,
  15. Satúrnio pai! Javardo nem pantera,
  16. Nem leão, de natura truculentos,
  17. Certo alojam nos peitos a fereza
  18. Que respiram de Panto os guapos filhos.
  19. O Équite Hiperenor, que fronte a fronte
  20. Chamou-me o Aqueu mais fraco, sem dos anos
  21. Lograr-se, creio, ao pé não foi dar gosto
  22. Aos venerandos pais e à cara esposa:
  23. Desgraça igual terás, se aqui me arrostas;
  24. Escondido na turba, o fado evites.
  25. O mal tarde os estultos reconhecem.”
  26. Indócil torna Euforbo: “Ó fero Atrida,
  27. Pagarás a ufania, o irmão defunto,
  28. O recente seu tálamo viúvo,
  29. Dos nossos pais o luto e mágoa infanda.
  30. Por consolar a Panto e a nobre Frontis,
  31. Essa cabeça e arnês eu lhes oferte.
  32. Mas cessem moras; de provar é tempo
  33. A quem assista o medo, a quem o esforço.”
  34. Então, brandida, a cúspide recurva
  35. Embaça no broquel. Porém o Atrida
  36. Ora a Jove, e ao contrário, que recua,
  37. A gola espeta; com robusto afinco,
  38. Lhe afunda a ponta e o brando colo passa:
  39. Ao fragoroso baque as armas fremem;
  40. Como a das Graças, lhe salpica o sangue
  41. De ouro e prata a madeixa entretecida.
  42. Qual, se o colono a pálida oliveira
  43. Em terreno alimenta solitário
  44. Que em mananciais abunde, ela formosa
  45. Viceja, e de alvas flores enfeitada
  46. Balança a coma ao vário Eólio sopro,
  47. Té que um pegão furioso a desarreiga
  48. E esfolha a encova; assim virente Euforbo,
  49. Em terra e exânime, é do arnês despido.
  50. Quando sevo leão, criado em brenhas,
  51. Rouba dos pastos a melhor bezerra,
  52. Quebra a cerviz a dente, e lacerando-a
  53. O cruor chupa e sorve-lhe as entranhas;
  54. Zagais e cães de longe amiúdam gritos,
  55. Mas descorado medo o pé lhes tolhe:
  56. Assim Teucro nenhum tinha a coragem
  57. De abalançar-se a Menelau sublime;
  58. Que arrancara ao Pantóides a armadura,
  59. Se ínvido Apolo, disfarçado em Mentes,
  60. Cicônio chefe, repentino ao márcio
  61. Priâmeo não clamasse: “Aqui persegues
  62. A biga, Heitor, que humanos mal sopeiam,
  63. Exceto Aquiles, de mãe deusa prole;
  64. E o flavo Atrida, a proteger Pátroclo,
  65. O valor terminou do exímio Euforbo.”
  66. Disse, e volta à batalha. A Heitor profundo
  67. Nojo calou; de giro, encontra o jovem
  68. Rubro humor a manar da atroz ferida,
  69. E o Grego a despojá-lo: entre as fileiras
  70. Trota, a estrugir agudo, eribrilhante,
  71. Como Vulcânea chama inextinguível.
  72. Ouvindo-lhe o estridor, o Atrida geme,
  73. Fala à sua alma: “Se abandono o espólio
  74. E o Menécio, que jaz pela honra minha,
  75. Hão-de estranhar-mo Aqueus; a Heitor se arrosto
  76. Só por vergonha, a gente que atrás segue
  77. Do seu elmo êneo e vário, há de envolver-me.
  78. Titubas, alma? A quem brigar se atreve
  79. Dos Céus contra um valido, a ruína é certa.
  80. E alguém me estranhará ceder ao homem
  81. Que um nume guia? A voz de Ajax soasse!
  82. Ambos, à divindade resistindo,
  83. O caro morto menos mal seria
  84. Restituirmos ao soberbo Aquiles.”
  85. Neste comenos, já de Heitor à vista,
  86. Solta o corpo; virando-se por vezes,
  87. Como leão barbudo retrocede,
  88. Que expulso a dardos e a ladridos e urros,
  89. Invito e em sanha do curral se aparta.
  90. Junto aos seus tem-se, busca em roda o grande
  91. Ajax, que à sestra o peso atura todo,
  92. E assombrados por Febo anima os sócios;
  93. Direito a ele corre: “Ajax amigo,
  94. Pátroclo a defender nos apressemos;
  95. Sequer seu nu cadáver tenha Aquiles,
  96. Pois de Heitor galeato o arnês é presa.”
  97. Comoto parte Ajax, e o flavo chefe,
  98. Pela frente. A Pátroclo já despido
  99. Arrastando ia Heitor, para entregá-lo,
  100. Decepada a cabeça, aos cães de Tróia;
  101. Mas, perto Ajax com torreado escudo,
  102. Ele à turba se acolhe, ao coche pula,
  103. E em troféu à cidade envia as armas.
  104. Do pavês cobre Ajax o herói defunto,
  105. Como a leoa ampara os seus cachorros
  106. Que em selva ataca chusma de monteiros.
  107. E os olhos eferados revolvendo,
  108. Os retrai às franzidas sobrancelhas.
  109. Ao bravo Menelau, que o ladeava,
  110. Recrescia no peito o luto acerbo.
  111. Turvado o argúi o Lício Hipoloquides:
  112. “Com esse garbo, Heitor, não vai teu brio;
  113. És fugaz, e te exalta injusta fama.
  114. Só com teus cidadãos cogita os meios
  115. De salvar a Troiana sociedade:
  116. Meus Lícios não terás. Que lucro houveram
  117. Da constância e denodo em tantos riscos?
  118. Há-de um guerreiro obscuro em ti fiar-se,
  119. Quando preia aos Grajúgenas largaste
  120. O camarada e hóspede Sarpédon,
  121. Em vivo teu apoio e de Ílio esteio?
  122. Nem dos cães te esforçaste a preservá-lo!
  123. Ouçam-me, e a casa voltaremos todos,
  124. E Ílio embora desabe. Aos Teucros falta
  125. O coração dos que ousam pela pátria
  126. Sofrer trabalhos e afrontar perigos;
  127. Aliás, Pátroclo a rojo aos celsos muros
  128. De Príamo subira, e as pulcras armas
  129. E o nosso rei tivéramos, em troca
  130. Do Aqueu fortíssimo ante as naus prostrado,
  131. Fâmulo caro do espantoso Aquiles.
  132. Mas de Ajax te amedrontas; quando o encaras,
  133. Pois vence-te em valor, desapareces.”
  134. Indignado o Priâmeo: “Altivo e agro
  135. Me insultas, Glauco? Amigo, o mais prudente
  136. Eu te julgava da glebosa Lícia;
  137. Mas ora insano de tremer perante
  138. O grande Ajax me acusas. A peleja
  139. Nunca assustou-me, ou dos corcéis o estrépito;
  140. Sujeito-me do Egíaco à vontade,
  141. Que audazes afugenta e a glória tira
  142. Ao próprio que instigou. Tu fica, observa
  143. Se em todo o dia fraco sou, qual pregas,
  144. Ou se a qualquer Argeu, por mais valente,
  145. Arredar sei do corpo de Pátroclo.”
  146. Presto bradou: “Sede homens, Lícios, Teucros,
  147. Do vosso ardor, ó Dárdanos, lembrai-vos;
  148. No entanto, visto o arnês do exímio Aquiles,
  149. Por mim saqueado ao bélico Pátroclo.”
  150. Da liça lagrimosa então saindo,
  151. Corre aos que a Ílio santa o arnês levavam;
  152. Alcança-os breve; manda o seu, que muda
  153. Pelo de Aquiles, imortal presente
  154. Feito a Peleu; do velho dado ao filho,
  155. Que o não trará por certo na velhice.
  156. Jove de parte o viu cingindo as armas
  157. Divinas, e a cabeça meneando,
  158. Falou consigo: “Ai! Longe a morte cuidas,
  159. E ela te acerca: do que tremem todos
  160. Revestes a armadura, e o forte e ameno
  161. Amigo seu matando, sem decoro
  162. Dessa armadura mesma o despojaste.
  163. Mas vou de glória encher-te, em recompensa
  164. De não voltares: triste! À esposa tua
  165. Nunca apresentarás o arnês de Aquiles.”
  166. Anui e arqueia as pretas sobrancelhas,
  167. A Heitor adapta o arnês; Mavorte horrendo
  168. Lhe exalta o brio e os membros lhe vigora.
  169. Ei-lo os mais feros busca; eri-esplendente
  170. Semelhando ao magnânimo Pelides,
  171. Se dirige a Medon, a Glauco e Mestles,
  172. A Asteropeu, Tersíloco, Hipotoo,
  173. Disinor, Fórcis, Crômio e Enomo vate,
  174. E clama e exorta: “Ouvi-me, inútil bando
  175. Cá não chamei das convizinhas tribos,
  176. Sim fiel gente que dos Gregos duros
  177. Nos defenda as mulheres e os meninos.
  178. Por sustentar seu zelo, esgoto os povos
  179. De víveres e dons; cumpre que ousado
  180. Cada qual morra ou vença: é lei da guerra.
  181. Quem a Ajax repelir e aos muros Teucros
  182. Rojar Pátroclo, de metade logre
  183. Do espólio todo, iguale-me na glória.”
  184. Disse; em coluna, de hasta em reste, avançam
  185. Contra os Aqueus, e ao Telamônio esperam
  186. Arrancar o cadáver. Insensatos!
  187. Ele é que há de arrancar a vida a muitos
  188. Sobre o cadáver; mas primeiro exclama:
  189. “Querido Menelau, de Jove aluno,
  190. Escaparmos não conto. Hei grande medo
  191. Ceve em Tróia o Menécio a cães e abutres,
  192. Quanto por mim receio e por ti mesmo:
  193. Heitor, bélica nuvem, tudo envolve;
  194. Negreja o nosso derradeiro dia.
  195. Eia, os mais fortes chama: oh! Se te ouvissem!”
  196. Pronto o guerreiro Menelau vozeia:
  197. “Chefes Aquivos, príncipes e amigos,
  198. Os que bebeis à mesa dos Atridas,
  199. E honrados sois de Jove e regeis povos,
  200. Do conflito no ardor mal vos distingo,
  201. Mas indignados vinde; a todos peje
  202. Ser escárnio o Menécio a cães de Tróia.”
  203. Súbito Ajax de Oileu, por entre as alas,
  204. Se precipita, e o rei Cretense e o pajem,
  205. Rival de Marte, Merion cruento.
  206. Quem poderia recordar os nomes
  207. De Graios tantos que a peleja instauram?
  208. Heitor condensa as tropas e arremete:
  209. Como, de um rio à foz por Jove inchado,
  210. Mugem contra a corrente as salsas ondas
  211. Que o mar vomita à praia; assim dos Teucros
  212. Muge o clamor. Num ânimo os Aquivos,
  213. De êneos escudos a Pátroclo muram,
  214. E névoa em torno aos coruscantes elmos
  215. Lhes derrama o Satúrnio, que o prezava;
  216. A defendê-lo excita os companheiros,
  217. Pois odioso lhe era aos cães de Tróia
  218. Deitado ser o fâmulo de Aquiles.
  219. Olhinegros Aqueus primeiro o corpo
  220. Trépidos abandonam, sem que os toquem
  221. Ávidas lanças dos bizarros Teucros.
  222. O morto iam rojando, e a poucos passos
  223. Acorre o Telamônio, que no aspecto
  224. E gentis feitos superava os Dânaos,
  225. Exceto o divo Eácida: à maneira
  226. De javali, que em montes perseguido,
  227. Virando-se entre a mata impetuoso,
  228. A molossos dissipa e a caçadores;
  229. Rompendo o grande Ajax pelas fileiras,
  230. Fácil espanca Ilíacas falanges,
  231. Que a Pátroclo circundam, na esperança
  232. De arrastá-lo à cidade e alcançar glória.
  233. Filho Hipotoo do Pelasgo Letos,
  234. Para agradar aos Frígios e ao Priâmeo,
  235. Liga o talim do tornozelo aos nervos,
  236. Entre o barulho o tira; eis, não valendo
  237. Muitos que o desejavam, pela turba
  238. Salta Ajax, o elmo aêneo lhe atravessa,
  239. E o da forçuda mão fulmíneo bote
  240. Fende o cocar eqüino, e pelo encaixe
  241. Do hastil espirra o cérebro sangüento.
  242. Soltando o pé do herói, desfalecido
  243. Sobre o cadáver se estirou de bruços,
  244. Longe da alma Larissa, aos pais ah! nunca
  245. Há-de pagar terníssimos cuidados,
  246. Pois gume atroz cortou-lhe os breves dias.
  247. Darda Heitor contra Ajax, que atento esquiva
  248. O resvalante golpe, mas o emprega
  249. No Ifítio Esquédio, exemplo dos Focences,
  250. Que em Panopeia alcáçar tinha vasto
  251. E em muitos imperava: a brônzea ponta
  252. Dá no pescoço e do ombro sai por cima;
  253. Na queda ronca o arnês. Ao Fenopides
  254. Fórcis, que de Hipotoo contendia,
  255. Ajax rompe a couraça e pelo ventre
  256. A cúspide lhe embebe nas entranhas;
  257. De palma em terra o belicoso arqueja.
  258. A vanguarda recua e o Teucro chefe;
  259. Em grita os Gregos, a Hipotoo e Fórcis
  260. Os corpos rojam, da armadura despem.
  261. E os de Ílio ignavos abrigar-se iriam,
  262. A vitória os Grajúgenas obtendo,
  263. Mau grado a Jove, por virtude própria,
  264. Se a Eneias não desperta o mesmo Apolo,
  265. Em figura do Epítides Perifas,
  266. Que arauto envelhecera ao pé de Anquises,
  267. E por sábio e sisudo era afamado;
  268. Perto lhe fala: “De que modo, Eneias,
  269. Vós contra um nume salvaríeis Tróia?
  270. Emulando os heróis que eu via outrora,
  271. Em seu denodo e em seu valor seguros,
  272. Na intrepidez de numerosas tropas:
  273. Jove antes é por nós que pelos Dânaos;
  274. Mas fugis aterrados, sem pugnardes.”
  275. Olha Eneias, conhece o Argenti-archeiro,
  276. E a voz desprega: “Heitor e auxiliares,
  277. Que desdouro é cobardes retornarmos,
  278. Repulsos dos Aquivos! Ora acaba
  279. De revelar-me um deus que o Padre sumo
  280. Será por nós. Comilitões, coragem!
  281. Direito aos Gregos; em sossego ao menos
  282. Eles às naus Pátroclo não recolham.”
  283. Fora eis avança e pára, e assim que os Teucros
  284. Voltam face, a Leócrito lanceia,
  285. De Arisbas filho; o bravo rola e expira.
  286. E logo o camarada Licomedes
  287. Encarna impetuoso o pique ardente
  288. No fígado por baixo do diafragma,
  289. De Apisaon Hipáside, e o prosterna:
  290. Da ubertosa Peônia digno chefe,
  291. Depois de Asteropeu, mais se estremava.
  292. O márcio Asteropeu rompe sentido
  293. A provocar os Dânaos, mas debalde;
  294. Eles, Pátroclo a rodear, em pinha
  295. De lanças e broquéis lhe fazem muro.
  296. De fileira em fileira, Ajax proíbe
  297. Sair das linhas e deixar o morto;
  298. Firmes ordena todo o choque esperem.
  299. Roxeia o sangue; uns sobre os outros morrem,
  300. O chão banhando, Lícios, Troas, Dânaos;
  301. Mas destes menos, porque em massa lutam,
  302. E com mútuo socorro se protegem.
  303. Qual fogo o prélio ardia, e pela treva
  304. Que o Menécio ocupava e os contendedores,
  305. Creras extinto o Sol, extinta a lua:
  306. Logravam-se os demais, em mole ataque,
  307. De ar sereno e de claro esparso lume,
  308. Campina e montes a brilhar sem nuvem,
  309. E de longe e interruptos pelejavam,
  310. Tiros mortais recíproco evitando;
  311. Os mais fortes no centro, os afligiam
  312. Caligem, dor, fadiga e sevo bronze.
  313. Dois heróis todavia inda ignoravam,
  314. Trasimedes e Antíloco, a desgraça
  315. Do bom Pátroclo, e acérrimo o supunham
  316. Em meio do conflito, enquanto apenas,
  317. Dos sócios prevenindo a perda e a fuga,
  318. Distantes combatiam, por cumprirem
  319. De Nestor os conselhos à partida.
  320. Pelo companha do veloz Pelides
  321. Cruel ferve o certame o dia inteiro,
  322. Pés, joelhos e pernas, o cansaço
  323. Afraca a todos, em suor escorrem
  324. Sujas faces e mãos. Quando mandados
  325. Servos, dispostos em redor, estiram
  326. De enorme touro a gordurosa pele,
  327. Puxam-no, até que, o leve humor purgando
  328. E impregnada grossura, o couro espicham:
  329. Assim, daqui dali num curto espaço
  330. O cadáver puxando, uns esperavam
  331. A Pérgamo levá-lo, outros à frota.
  332. Cresce o tumulto; e, ao vê-lo, os aplaudira
  333. Mesmo o feroz Gradivo e irosa Palas:
  334. Tanto ali nesse dia áspero estrago
  335. De varões e corcéis difundiu Jove!
  336. Morto o amigo inda Aquiles não sabia.
  337. Sendo ao longe a contenda e junto aos muros;
  338. São das portas cuidava que voltasse,
  339. Pois subverter a Tróia não podia,
  340. Sem ele nem com ele: a mãe por vezes
  341. Descobriu-lhe de Júpiter o arcano.
  342. Ele então lhe ocultava o caso horrível
  343. Ao seu mais caro sócio acontecido.
  344. Lança a lança, incessantes se matavam.
  345. Dizia um Grego: “É feio às naus voltarmos;
  346. Primeiro, amigos, nos engula a terra:
  347. Antes morrer que dar a glória aos Teucros
  348. De rojá-lo à cidade.” E um Teucro: “Amigos,
  349. Melhor é que nos dome a Parca a todos;
  350. Ninguém mais o cadáver desampare.”
  351. Assim, de parte a parte, se animavam.
  352. Enquanto insistem, sobe ao céu de bronze
  353. Pelo infrugífero ar rumor de ferro,
  354. Os cavalos do Eácida arredados,
  355. No pó sentindo o sólito cocheiro,
  356. Obra de Heitor ferino, lagrimavam:
  357. Já brando, já minaz, estala o açoute
  358. O Diório Automedon; mas nem queriam
  359. Do amplo Helesponto reverter às praias,
  360. Nem ao combate; quedos, como o cipo
  361. De varão no sepulcro ou de matrona,
  362. Ante o nítido carro, de olhos baixos,
  363. Do seu guia saudosos, quentes gotas
  364. Vertiam sobre a areia; em cerco ao jugo
  365. Manchada lhes flutua a espessa crina.
  366. O Satúrnio, do choro condoído,
  367. A cabeleira abana e entre si fala:
  368. “Qual! Não sujeitos à velhice e à morte,
  369. Ao rei mortal Peleu doados fostes,
  370. Para entre humanos padeceres mágoas?
  371. As criaturas são mais infelizes
  372. Das que na terra movem-se e respiram!
  373. Em coche que tireis nunca o Priâmeo
  374. Se assentará, que o vedo: não lhe basta
  375. Ufanar-se das armas temerário?
  376. Ânimo hei-de infundir-vos, por que a salvo
  377. Automedon vos reja. À instruta frota
  378. Levar inda a matança aos Troas caiba,
  379. Té que o Sol caia e assome a sacra noite.”
  380. Logo inspira aos corcéis força incansável:
  381. Ei-los, o pó da juba sacudindo,
  382. O coche entre uns e outros arrebatam.
  383. Em cima Automedon, que a dor comprime,
  384. Rui qual de chofre abutre sobre gansos;
  385. Ora foge ao tumulto, ora se envia
  386. Ao mais basto; repele-os sem matá-los,
  387. Que, só no divo assento, era impossível
  388. Suster as bridas e jogar da lança.
  389. Do Emônio Laerceu o avista o filho
  390. Alcimedon, que pára: “Um deus te cega!
  391. Só, na vanguarda combater intentas?
  392. O sócio egrégio, Automedon, foi morto,
  393. E exulta e ombreia Heitor o arnês de Aquiles!”
  394. Respondeu-lhe o Diório: “A que outro Grego,
  395. Depois do auriga divinal Pátroclo,
  396. Posso entregar, Alcimedon, a biga?
  397. Pois que ele preia foi da Parca horrível,
  398. Toma o chicote e as artefatas rédeas;
  399. Que a pé vou pelejar.” — o Laerceides
  400. Pula ao carro, o chicote e as rédeas pega;
  401. Automedon se apeia. Heitor adverte-o,
  402. Volta-se a Eneias: “Príncipe, os cavalos
  403. Do Eácida veloz, observo, trotam
  404. Com inábeis cocheiros: se me ajudas,
  405. Empolgados serão; pois de arrostar-nos
  406. Aos dois guerreiros faltará coragem.”
  407. Aplaude o Anquíseo. Vão direitos ambos,
  408. Com sólidos broquéis de couro táureo,
  409. De multíplices lâminas forrados.
  410. Crômio e o deiforme Areto os acompanham,
  411. Crendo imolar os dois e haver a biga
  412. De árdua cerviz: dementes! Não sem sangue
  413. Automedon consentirá que voltem.
  414. Este ora a Jove, o peito hirsuto mune
  415. De fortaleza, e ao fido sócio fala:
  416. “Perto os corcéis, Alcimedon, me tenhas,
  417. E às costas me respirem: não presumo
  418. Que Heitor amaine a fúria, antes que monte
  419. Os comados frisões, nos mate, em fuga
  420. Ponha os Aquivos, ou na empresa acabe.”
  421. Então chama os Ajax e o louro Atrida,
  422. Por socorro a bradar: “Curem do morto
  423. E preservem-no fortes que o circundam;
  424. O escuro dia repeli de vivos:
  425. Os Teucros de mor brio a nós remetem,
  426. Entre o choroso prélio, Heitor e Eneias.
  427. Pousa o evento aos joelhos dos supremos:
  428. Daqui dardejo, e deixo tudo a Jove.”
  429. Disse, e de Areto na rodela o pique
  430. Penetrando sem custo, lha atravessa,
  431. Pelo bálteo lhe fura o baixo ventre:
  432. Qual, se afiada secure de um mancebo
  433. De boi silvestre sobre os cornos talha
  434. O nervo todo, pula e cai a rês;
  435. Tal pula e cai Areto, e nas entranhas
  436. Hasta fremente as forças lhe descose.
  437. Despede Heitor a Automedon a sua:
  438. Este previsto se proclina e livra:
  439. Atrás se enterra a choupa e o conto abana,
  440. Até que Marte o ímpeto lhe quebra.
  441. De espada iam bater-se, a não romperem
  442. Os dois Ajax ardentes pela turba,
  443. Acudindo ao chamado; receosos
  444. Vão-se Eneias e Heitor e o divo Crômio,
  445. E Areto fica de rasgado seio:
  446. O márcio Automedon lhe tira as armas
  447. A jactar-se: “A Pátroclo este é somenos,
  448. Mas algum tanto o nojo me alivia.”
  449. Logo o espólio cruento ao carro sobe,
  450. Tendo punhos e pés ensangüentados,
  451. Como um leão que fez de um touro pasto.
  452. Sobre o corpo recresce a lagrimosa
  453. Contenda, exacerbada por Minerva,
  454. A quem, já de outro acordo, o pai supremo
  455. Do céu mandara acorçoar os Gregos:
  456. Bem como quando Jove aos homens tende
  457. O áreo purpúreo, indício de batalhas,
  458. Ou de fria procela, que suspende
  459. Rurais trabalhos e entristece o gado;
  460. Ela coberta assim de roxa nuvem,
  461. Do campo a dentro, a cada qual suscita.
  462. Primeiro a Menelau, que estava perto,
  463. A forma e a voz de Fênix indefessa
  464. Assumindo, clamou: “Que opróbrio, Atrida,
  465. Se os cães de Ílio consentes lacerarem
  466. O consócio fiel do exímio Aquiles!
  467. Eia, o exército anima, e sê brioso.”
  468. E o pugnaz Menelau: “Se, ó padre Fênix,
  469. Augusto velho, me assistisse Palas,
  470. E da chuva de setas me abrigasse
  471. Eu por certo a Pátroclo socorrera,
  472. Cuja morte me pesa e me angustia;
  473. Mas o fogo de Heitor e o voraz bronze
  474. Consumem tudo, e Jove o glorifica.”
  475. Alegre de invocada ser primeira,
  476. Joelhos e ombros lhe vigora a deusa;
  477. Põe-lhe no peito negro a teima e audácia
  478. Com que a mosca, enxotada, insiste e morde,
  479. Pois é de sangue humano apetitosa.
  480. Próximo de Pátroclo, a lança brande:
  481. Pelo talim perfura o Teucro Podes,
  482. Rico e forte plebeu, de Eetion nado,
  483. De Heitor estimadíssimo conviva;
  484. Que, ágil a se escapar, de roldão tomba.
  485. Para os Aquivos ao regalo Atrida,
  486. A Heitor exorta Apolo arcipotente,
  487. Em Fenope de Abido, filho de Ásio,
  488. O hóspede seu mais caro, disfarçado:
  489. “A que outro Grego, Heitor, serás tremendo,
  490. Se a Menelau, guerreiro pouco ilustre,
  491. Tens hoje medo? Ousa ele só de rastos
  492. Levar teu fido sócio, o estrênuo Podes,
  493. Entre os primipilares abatido.”
  494. O herói, de alma toldada e erifulgente,
  495. Sai da linha. A de fímbrias Jove apunha
  496. Égide jaspeada, o Ida enubla;
  497. O escudo a sacudir, corisca e toa,
  498. Em sinal da vitória dos Troianos.
  499. Primeiro foge Peneleu Beócio;
  500. Que de hasta, fronte a fronte, Polidamas
  501. O ombro lhe esflora e o osso lhe descarna.
  502. Heitor vulnera o corpo a Leuto, filho
  503. Digno de Alectrion; que, da ação fora,
  504. Trépido em roda olhando, se retira,
  505. Porque na mão suster não pode a lança.
  506. Idomeneu de Leuto o vê no encalço,
  507. À mama atira, o pique na couraça
  508. Pelo encaixe estralou, com Tróico aplauso.
  509. Heitor joga ao Deucálide, que ereto
  510. No coche estava; o bote errado apanha
  511. A Cerano, que lá da altiva Lictos
  512. Como escudeiro a Merion seguira.
  513. Pedestre Idomeneu, da armada vindo,
  514. Dera alta glória aos Teucros, se os cavalos
  515. Não traz Cerano, que de Heitor ferino
  516. Salva o Cretense rei, mas perde a vida:
  517. A ponta o fere sob a orelha e o queixo,
  518. Os dentes lhe espedaça e tronca a língua;
  519. Ele do coche rola e solta as rédeas.
  520. Curvo as colhe Merion, dizendo: “O açoute
  521. Maneja, Idomeneu, sus, corre à frota:
  522. Para os Dânaos, bem vês, não há vitória.”
  523. Já, temeroso, o crinipulcro tiro
  524. Toca o rei para bordo. Ajax percebe
  525. Com Menelau que a sorte é pelos Teucros,
  526. E o celso Telamônio assim discorre:
  527. “Ah! sente o mais estulto que o Satúrnio
  528. É contra nós: os inimigos dardos,
  529. Ou do imbele ou do bravo, ele os dirige;
  530. Os nossos pelo chão frustrâneos morrem.
  531. Eia, a melhor maneira excogitemos
  532. De ir com Pátroclo e encher de gosto os sócios
  533. Que tristes nos aguardam; nem já contam
  534. Suster as cruas mãos de Heitor invicto,
  535. Sim ante as naus cair. Oh! Para Aquiles,
  536. Que do amigo suponho ignora o fado,
  537. Houvesse um núncio! Mas ninguém descubro,
  538. Que homens e carros basta névoa esconde.
  539. Jove aos Dânaos dissipa tal negrume,
  540. Serena o tempo, dá-lhes vista aos olhos;
  541. Pereçam, pois te apraz, à claridade.”
  542. Do pranto seu comiserou-se o Padre;
  543. A caligem desfez. Refulge o campo
  544. À luz do sol, e o Telamônio instando:
  545. “Olha e vê, Menelau, se está com vida
  546. O magnânimo Antíloco Nestório:
  547. Corra, ao belaz Eácida anuncie
  548. Do predileto amigo a desventura.”
  549. Põe-se a caminho logo o bravo Atrida.
  550. Como leão, depois de haver de noite
  551. Cães provocado e vigilantes guardas,
  552. Que cevar-se nos bois lhe não consentem,
  553. Lasso de vãos assaltos, esfaimado,
  554. O curral deixa e de manhã se aparta,
  555. Mesto e raivoso, expulso por audazes,
  556. Contínuos dardos e tições voantes;
  557. Assim, forçado, o valoroso Atrida
  558. Saiu, temendo que por medo os Gregos
  559. Entregassem Pátroclo, e disse: “Ó nobres
  560. Chefes Ajax, tu Merion, não vades
  561. Esquecer-vos do mísero Menécio;
  562. A quem urge ora a Parca, e em vida todos
  563. Sabem como era generoso e brando.”
  564. Mal acaba, se foi. Como águia, dizem
  565. De agudíssimos olhos entre as aves,
  566. Das nuvens lobrigando em verde moita
  567. Lebre ligeira, de repente a empolga,
  568. Lacera e mata; assim, de Jove aluno,
  569. Com vista perspicaz em torno, indaga
  570. Pelas falanges todas se inda vive
  571. Antíloco Nestório. Estava à esquerda
  572. Concitando o combate, e já de perto
  573. Lhe fala o Atrida: “Aqui me escuta, amigo,
  574. Um triste anúncio, que oxalá não fora.
  575. Por ti conheces que o triunfo Jove
  576. Reserva aos Teucros e a ruína aos Gregos:
  577. Jaz Pátroclo fortíssimo, dos nossos
  578. Com mágoa imensa! Voa às naus de Aquiles:
  579. Venha salvar sequer o nu cadáver,
  580. Que de Heitor galeato o arnês é presa.”
  581. Antíloco, de ouvi-lo triste e mudo,
  582. Pegada a voz, em lágrimas rebenta;
  583. Mas obedece, confiando as armas
  584. A Laodoco esforçado, que os ginetes
  585. Lhe moderava, e aceleradamente
  586. Choroso os pés o levam para Aquiles,
  587. A anunciar-lhe o caso miserando.
  588. Nem tu, bizarro Menelau, quiseste
  589. Suprir de Antíloco a sentida falta:
  590. Seus Pílios ao divino Trasimedes
  591. Encomendas, e volves a Pátroclo,
  592. Junto aos Ajax parando: “O expresso voa;
  593. Mas, contra o nobre Heitor em que urre Aquiles,
  594. Não pode agora vir, que está sem armas.
  595. Deliberemos nós como remirmos
  596. Da baralha este corpo e a nossa vida.”
  597. E o Telamônio: “Amigo, bem discorres.
  598. Já, tu com Merion carrega o morto:
  599. Atrás nós cá, do mesmo nome e audácia,
  600. Que unidos sustentado o marte havemos,
  601. Da chusma e do acre Heitor vos resguardamos.”
  602. Os dois erguem nos braços o cadáver;
  603. Bramindo, ao vê-lo, os Teucros se arremessam.
  604. Quando cães, precedendo aos caçadores,
  605. Cerdo acossam ferido, impacientes
  606. De espedaçá-lo, a fera a poucos passos
  607. Vira sanhuda e a caniçalha foge:
  608. Em barda assim, de bipontudas lanças
  609. E de espadas os Teucros acometem;
  610. Mas, tanto que os Ajax torvo os encaram,
  611. Em tropel de cor mudam, nem se atrevem
  612. Sair da fila e disputar Pátroclo.
  613. Após os dois que os levam pressurosos
  614. Move-se atroz peleja, e de guerreiros
  615. E de corcéis horríssono tumulto;
  616. Qual, de estridentes sopros ao mugido
  617. Salta em cidade repentino incêndio,
  618. Que em vasta chama desmorona os tetos.
  619. Como rígidos mus, que da montanha,
  620. Labutando e em suor, ou trave ou mastro
  621. Naval trazem por áspera azinhaga;
  622. Vão ambos o cadáver transportando.
  623. E os Ajax o inimigo lhes arredam,
  624. Ao teor do mamilo nemoroso
  625. Que, na campina opondo-se à torrente,
  626. Afasta o rio e lhe desvia o curso.
  627. Em mó porém os Teucros os perseguem,
  628. Mormente o nobre Heitor e o divo Eneias;
  629. E por estes repulsos, à maneira
  630. De uma nuvem de gralhos e estorninhos,
  631. Que ao ver o gavião, terror das pombas,
  632. Guinchando foge, em alarida os Gregos
  633. Se esquecem do combate e retrocedem.
  634. Muito arnês cai no fosso à retirada;
  635. Não cessa todavia o morticínio. * * *

Nota a nota · 4 notas

v. 37A gola espeta; com robusto afinco,

Âncora ilegível na fonte: 37—16. Ancorada ao verso 37, o primeiro número impresso.

Gola é propriamente a parte inferior da garganta, e traspassa com exatidão o lugar do autor. — Do verso 43 a 46, com pouca mudança, pertence tudo a Francisco Manuel, que verteu esta passagem, em nota ao livro I dos Mártires.
↩ voltar ao verso 37
v. 87–105Como leão barbudo retrocede, ⋯ Como a leoa ampara os seus cachorros
Quase todos vertem eugeneios por cornado ou jubado; mas o leão, além da juba, tem barbas, e destas é que fala Homero. — Cachorros são os filhos dos cães, e também dos leões, dos lobos e de alguns outros animais.
↩ voltar à passagem, v. 87
v. 427Pousa o evento aos joelhos dos supremos:
Aqui traduzi literalmente, com Monti: porque não se deve perder esta bela imagem de estar sentada a sorte humana aos joelhos dos deuses. Muitos substituíram a imagem por cousa díferente.
↩ voltar ao verso 427
v. 482–501Rico e forte plebeu, de Eetion nado, ⋯ O ombro lhe esflora e o osso lhe descarna.
A palavra demou do verso 577 do original tem sido mal traduzida. Com ela nos mostra Homero que os príncipes daqueles tempos não se dedignavam de ter à sua mesa um homem do povo, de virtude e mérito; idéia que desaparece nas versões do meu conhecimento. — Pode parecer estranho o que se lê no verso 501, correspondente ao 599 do original, isto é que a ferida foi leve e contudo escarnou o osso; mas reflita-se que em cima do ombro fica a pele extremamente chegada ao osso. Homero é admirável ao descrever principalmente as partes externas do corpo humano.
↩ voltar à passagem, v. 482
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Próximo livroXVIIIArde a peleja, e Antíloco despede.