Pular para o texto
IlíadaLivro VII
LivroVII

Assim, das portas rui Heitor mais Páris

389 versos · 4 notas do tradutor


  1. Assim, das portas rui Heitor mais Páris,
  2. Ambos a respirar bélico incêndio:
  3. Com tanto anelo festejados foram,
  4. Como o vento que um deus bafeja amigo
  5. Do afã do remo a nautas quebrantados.
  6. Páris mata a Menéstio, que olhipulcra
  7. Pariu Filomedusa em Arna ao régio
  8. Areito porta-clava; o irmão, de um bote,
  9. Sob o elmo o colo talha e estira Eione.
  10. Ao Dexíada Ifino, que montava,
  11. Glauco dos Lícios de azagaia a espádua
  12. Fere, e do coche o atira agonizando.
  13. Vendo a cerúlea déia o Graio estrago,
  14. Lá do Olimpo frechou para Ílion santa;
  15. Febo, o triunfo aos Troas desejando,
  16. No enxergá-la de Pérgamo, apressou-se;
  17. Topam-se ao pé da faia; o Délio enceta:
  18. “Por que fúria e paixão voltaste, ó Palas?
  19. A indecisa vitória aos Gregos trazes?
  20. Não tens dos Frígios dó; mas, se me atendes,
  21. Suste-se o morticínio; ao depois, guerra,
  22. Té que Dardânia acabe; já que n’alma
  23. Vos compraz sovertê-la, ó cruas deusas.”
  24. “Para isso cá desci, Tritônia acode;
  25. Porém como aplacá-los?” — Segundou-lhe
  26. O Dial Febo: “O ânimo exaltemos
  27. De Heitor doma-corcéis, que desafie
  28. A duelo mortal qualquer dos Dânaos;
  29. E os de fúlgida greva, de indignados,
  30. Algum excitarão que a briga aceite.”
  31. Ela consente. Ao genitor benquisto
  32. Heleno, este aventando arbítrio e acordo,
  33. Apresenta-se a Heitor: “Ó tu Priâmeo,
  34. Como Jove sensato, o aviso queres
  35. Seguir fraterno? Aquieta Aqueus e Troas:
  36. A duelar provoca os mais famosos;
  37. Inda não te é chegada a hora extrema;
  38. Isto mesmo colhi da boca a numes.”
  39. Regozijou-se Heitor com tal conselho:
  40. A haste ao meio pegando, avança, e as hostes
  41. Retém, sossega. O Atrida os seus refreia.
  42. N’alta faia de Jove Apolo e Palas,
  43. De abutres sob a forma, alegres pousam,
  44. Vigiando os guerreiros que descansam,
  45. De elmos, broquéis, de lanças eriçados.
  46. Qual, de Zéfiro à súbita refega,
  47. Negreja o ponto e freme, as densas turmas
  48. Acaica e Frígia na campanha ondeiam.
  49. Eis de permeio Heitor: “Aquivos, Teucros,
  50. O que encerro no peito ouvi-me atentos.
  51. Não manteve o Satúrnio os pactos nossos;
  52. Mil desastres medita e nos reserva,
  53. Té que ajoelhe a turrígera cidade,
  54. Ou em destroço as naus vogando fujam.
  55. Cavaleiros de prol na Grécia há tantos:
  56. Um de mor brio, em singular certame,
  57. Se atreva ao divo Heitor, medir-se venha.
  58. Proponho, e o testemunhe o padre sumo:
  59. Se do herói caio ao bronze, leve as armas,
  60. Deixe porém que Ilíacas matronas
  61. Em piedosa fogueira me consumam;
  62. Se a cruenta vantagem dá-me Apolo,
  63. O arnês lhe tirarei, que em Ílio sacra
  64. Do Longe-vibrador pendure ao templo,
  65. E rendido seu corpo à instruta armada
  66. E exéquias feitas, os crinitos sócios
  67. Do amplo Helesponto às abas o tumulem.
  68. Em remeira galé do pego bradem:
  69. — Um valente ali jaz de antigas eras,
  70. Que arrostando-se a Heitor morreu com honra. —
  71. E eterno passarei de boca em boca.”
  72. Entre o pejo e o temor, tudo é silêncio.
  73. Menelau mesto surge e exprobra e geme:
  74. “Que! Jactantes Aqueus, antes Aquivas,
  75. A Heitor nenhum se afouta? Oh negra infâmia!
  76. Quedos, em água e pó sejais desfeitos,
  77. Cobardes sem pudor. À liça eu parto;
  78. Que afinal o vencer do Céu depende.”
  79. Loução já se arreiava; e ao Teucro braço,
  80. Que o seu muito mais forte, a luz perdera,
  81. Se, em pé da Grécia os reis, o irmão potente
  82. Não lhe aferrasse a destra: “Enlouqueceste?
  83. Siso, aluno de Jove, a dor sopeia;
  84. De afrontar ao Priâmeo não capriches
  85. Terror dos campeões: o próprio Aquiles
  86. Teme encontrá-lo e ter na glória quebra.
  87. Entre os sócios te assenta: os Gregos outrem
  88. Suscitarão. Pugnaz e insaciável
  89. Seja Heitor, eu presumo que de veras,
  90. A salvar-se do lance e ardente lide,
  91. Os joelhos curve e refocile os membros.”
  92. Da razão convencido e mitigado,
  93. Os servos seus com júbilo o desarmam.
  94. Então Nestor: “Que luto invade a Grécia!
  95. Que ais soltará Peleu, facundo e sábio,
  96. Équite aos Mirmidões antigo espelho,
  97. Que alvoraçado em casa me inquiria
  98. De Aqueus filhos e pais, se ora abatidos
  99. O saiba todos e de Heitor medrosos!
  100. Alçando as palmas, rogará que a Dite
  101. A alma se vá dos órgãos desatada.
  102. Fosse eu qual era, oh! Jove, Palas, Febo,
  103. Quando os hastatos Árcades e os Pílios
  104. Ante o rápido Céladon pugnavam,
  105. De Feia aos muros, do Jardano às ribas!
  106. Divo Ereutalion, na frente as armas,
  107. Tinha de Areito. Areito rei, que as damas
  108. E os varões Corinete apelidavam,
  109. Pois, de arco e pique não, de férrea maça
  110. Hostes batia. Num carreiro, estorvo
  111. A manejá-la, por traição Licurgo
  112. De hasta o salteia, ressupino o calca,
  113. Despe-lhe o arnês, do brônzeo Marte prenda:
  114. Sempre ao depois o trouxe nas batalhas,
  115. Té que envelhece e o doa ao companheiro
  116. Fido Ereutalion. Com tal socorro
  117. Esse atrevido provocava a todos,
  118. E todos de encará-lo estremeciam;
  119. Mas eu, do exército o menor, seguro
  120. Na força e ardência, me travei com ele:
  121. De Minerva por graça, obtive os gabos
  122. De conculcar o aspérrimo gigante,
  123. Que na arena vastíssimo estendeu-se-me.
  124. Tivesse o meu vigor e aquela idade,
  125. Que não me aguardaria o herói Troiano;
  126. Mas, da Grécia ó fortíssimos guerreiros,
  127. Nenhum de vós se move a combatê-lo!”
  128. A repreensão do velho incitou nove:
  129. O mor cabo se ergueu, Diomedes logo;
  130. Os robustos Ajax de ardor vestidos;
  131. Idomeneu e Merion seu pajem,
  132. Do homicida Eniálio êmulo digno;
  133. Eurípilo Evemônides preclaro,
  134. E Toas de Andremon e o grande Ulisses:
  135. Cada qual ser primeiro ambicionava.
  136. O Gerênio tornou: “Decida a sorte;
  137. O que for designado a Grécia o aprove:
  138. Ele na alma terá do esforço o prêmio,
  139. A livrar-se da luta e afronta grave.”
  140. Nisto, um por um, a cédula marcada
  141. No capacete a lançam de Agamemnon;
  142. Mãos e olhos para os céus, a turba orava:
  143. “Padre, caia em Ajax, caia em Tidides,
  144. Caia a sorte no rei da áurea Micenas.”
  145. O elmo agita Nestor: sai um que espalha
  146. Geral contento: a cifra à destra e em roda
  147. Ia o arauto mostrando, e a recusavam;
  148. Té que Ajax, que a traçou, de um só relance
  149. A reconhece, imerso em gozo a toma,
  150. Larga-a no chão gritando: “É minha, ó sócios,
  151. Oh! que prazer! de Heitor vitória espero.
  152. Sus, enquanto me arneso, ao bom Satúrnio
  153. Convosco deprecai, não o ouçam eles;
  154. Ou seja em alta voz, ninguém tememos.
  155. Na pátria Salamina exercitado,
  156. Força ou perícia alheia não me abala.”
  157. Fitando o azul convexo, entoam preces;
  158. E um do povo: “Triunfe o Telamônio,
  159. Do Ida augusto senhor, máximo e eterno!
  160. Mas, se amas o Troiano e dele curas,
  161. Equilibra o valor e a glória de ambos.”
  162. Arma-se Ajax, de ponto em branco fulge.
  163. Qual Marte Giganteu marcha entre humanos,
  164. Por Jove expostos à roaz discórdia
  165. E guerra atroz; com vulto assim medonho
  166. Sorrindo o herói, muralha dos Aquivos,
  167. Alarga os passos, a hasta ingente libra:
  168. Do aspecto os seus com regozijo fremem;
  169. Aos Troas frio susto os ossos corre;
  170. Mesmo de Heitor o coração palpita:
  171. Mas não pôde evadir-se e entrar na chusma,
  172. Sendo quem promovera o desafio.
  173. Vinha Ajax de pavês como érea torre,
  174. Que em Hila o exímio correeiro Tíquio,
  175. Seu apaniguado, lhe muniu de sete
  176. Couros de nédios bois, e em cima de ênea
  177. Lâmina oitavo o reforçou; com ele
  178. Dos peitos resguardado, perto e firme
  179. Troveja: “Agora provarás, Dardânio,
  180. Quão lesto os Graios príncipes duelam.
  181. Bem que o rompe-esquadrões Peleio Aquiles,
  182. Animoso leão, curta a seu bordo
  183. Ira e despeito contra o sumo Atrida,
  184. Restam muitos e tais que barba a barba
  185. Te resistamos. O combate enceta.”
  186. E o magno Heitor: “Ó maioral divino,
  187. Grã Telamônio, imbele não me julgues
  188. Ou menino ou mulher: eu sei batalhas
  189. E matanças dispor, zombar de ataques;
  190. Mover sei na direita, sei na esquerda
  191. O ardente escudo; em prélio sei pedestre
  192. Do sevo Marte ao som medir meus passos,
  193. Montar de salto, afoguear as éguas.
  194. Mas homem tal ferir não quero a furto;
  195. Aguarda o bote, que oxalá te alcance!”
  196. E o longo arremessão da enorme adarga
  197. Seis couros entra, ao sétimo se apega;
  198. Da lança indômita o reparo extremo,
  199. Que era oitavo e de bronze, intacto fica.
  200. Veio o turno de Ajax, cuja hasta horrenda
  201. Na hostil profunda lúcida rodela,
  202. Finca-se entre a couraça artificiosa,
  203. Junto ao vazio a túnica espedaça;
  204. Heitor se torce e a feia morte ilude.
  205. Seu pique um do outro saca, investem-se ambos,
  206. Crus famintos leões ou renitentes,
  207. Híspidos javalis. No escudo amolga,
  208. Sem penetrá-lo, a cúspide Priâmea.
  209. A rodela, num pulo, Ajax perfura,
  210. Sangra o pescoço ao dono arremetente;
  211. O cruor mana escuro. Mas não cessa
  212. O galeato herói: retrocedendo
  213. No campo agarra válido um penedo
  214. Áspero e denegrido; o centro abola
  215. Ao dobrado broquel de tergos sete;
  216. Circunsoa o metal. Mor pedra erguida,
  217. Ajax com fúria imensa a expede e roda:
  218. O molar seixo quebra a Heitor a tarja,
  219. Que, aos joelhos magoado e a tarja aos peitos,
  220. Cai de espinhaço; mas levanta-o Febo.
  221. Já se iam vulnerar de espadas, quando
  222. Núncios de Jove e dos mortais, o Acaico
  223. Taltíbio e Ideu Troiano, cautelosos
  224. Os cetros seus na briga interpuseram.
  225. E Ideu falou perito nos conselhos:
  226. “Não mais, diletos filhos: do Tonante
  227. Ambos amados sois, terríveis ambos,
  228. Confessamo-lo todos; mas é noite,
  229. Cumpre à noite ceder.”— E o Telamônio:
  230. “Ideu, pronto obedeço; Heitor comece,
  231. Que os Dânaos provocou mais destemidos.”
  232. Acode o bravo Teucro: “Ajax, dos Gregos
  233. És lanceiro o mais guapo; o Céu doou-te
  234. A grandeza, a prudência, a valentia:
  235. Suspendamos, até que noutro encontro
  236. A um de nós a fortuna entregue a palma.
  237. Noite é, ceda-se à noite: às naus Aquivas
  238. A alegrar volve amigos e consócios;
  239. Volvo de Príamo à cidade vasta
  240. A consolar os meus e as pias donas
  241. De roçagantes vestes, que suplicam
  242. Por mim no santuário. Mutuemos
  243. Comemoráveis dons; e os nossos digam:
  244. — Eles em voraz sanha combateram,
  245. Mas com sinais de estima se apartaram.”
  246. Nisto, ofertou-lhe a espada claviargêntea,
  247. De primor a bainha e fino bálteo;
  248. Purpúreo cinto recebeu lustroso.
  249. Aos Aqueus um regressa e o outro aos Frígios;
  250. Que, em susto há pouco, ao vê-lo exultam salvo
  251. Do invicto braço, e às portas o acompanham.
  252. Ovante Ajax, à tenda Agamenônia
  253. Seus grevados Grajúgenas o escoltam.
  254. O amplo-reinante ali sacrificava
  255. Qüinqüene touro ao padre onipotente:
  256. Esfolam-no, retalham-no, espostejam,
  257. De espeto as carnes cuidadosos assam.
  258. Pronto o festim, regalam-se os convivas
  259. De iguais porções; a Ajax embora desse
  260. O rei dos reis em honra o dorso inteiro.
  261. Exausta a fome e a sede, abre a consulta
  262. O facundo Nestor, cordato sempre:
  263. “Atridas e mais chefes, confundido
  264. O atro sangue no límpido Escamandro,
  265. Muitos crinitos Graios Marte acerbo
  266. Tem mandado a Plutão; na aurora, tréguas.
  267. De mus e bois em carroções colhidos,
  268. Queimem-se os mortos junto à frota; as cinzas,
  269. De volta à pátria, aos filhos seus rendamos.
  270. Todos numa fogueira e num sepulcro,
  271. Das naus e deles em defesa, torres
  272. Com portões para carros perto alcemos;
  273. Cave-se em roda um fosso, que proíba
  274. De équites e peões o ardido assalto.”
  275. O ancião termina, os príncipes aplaudem.
  276. Na cidadela, ao pórtico Priâmeo
  277. Tumultuava trépida assembléia;
  278. Sábio Antenor discorre: “O que em mim sinto
  279. Ei-lo, Dardanos, Teucros e aliados.
  280. Perjúrio é contender contra os Atridas:
  281. Restitua-se Helena e seus tesouros;
  282. Senão, vos digo, triste fim teremos.”
  283. Mal acabava, arrebatado surge
  284. Páris, da loura bela Argiva esposo:
  285. “Agravas-me, Antenor; al tu podias
  286. Excogitar: se falas sério, os deuses
  287. Roubaram-te o juízo. A minha Helena!
  288. Ah! não, declaro à face dos Troianos;
  289. Sim de Argos restituo o espólio todo,
  290. Mais do meu lhe acrescento.” E foi sentar-se.
  291. Então Príamo, igual no siso aos numes,
  292. Ergueu-se: “Ouvi, Dardânios e aliados,
  293. O que hei no peito. O exército se esparza,
  294. Depois da ceia, em rondas e atalaias;
  295. Vá-se Ideu na alvorada à grega frota,
  296. E anuncie aos Atridas a promessa
  297. Do autor desta pendência. Em tal ensejo,
  298. Para os mortos queimarmos tréguas peça;
  299. E findas, só da guerra o estrondo pare
  300. Ao dispor a fortuna da vitória.”
  301. Todos, com mais respeito, lhe obedecem;
  302. Em ranchos vão cear. N’alva Ideu parte;
  303. Em parlamento, à popa Agamenônia,
  304. Achando os Graios servos de Mavorte,
  305. No meio anunciou com voz canora:
  306. “Atridas, vós aqueus de fina greva!
  307. Príamo e outros senhores me ordenaram,
  308. Grato vos seja! que a promessa exponha
  309. Do autor desta pendência: os bens que trouxe
  310. (Ele antes acabara!) em cavos bojos,
  311. Dar-vos quer todos, e acrescenta muitos;
  312. Mas, apesar da instância dos Troianos,
  313. Vos denega a mulher que em virgem teve
  314. Menelau generoso. E também tréguas
  315. Pedem, para os cadáveres queimarmos;
  316. E findas, só da guerra o estrondo pare
  317. Ao dispor a fortuna da vitória.”
  318. Silêncio em torno reina, até que o márcio
  319. Diomedes o quebrou: “Ninguém receba
  320. Riquezas de Alexandre, ou mesmo Helena:
  321. A quem não for criança é manifesto
  322. Que iminente ruína os Teucros urge.”
  323. A aclamação geral seu dito aprova.
  324. E Agamemnon a Ideu: “Já tens, arauto,
  325. A unânime resposta, e eu dela folgo.
  326. Quanto à queima dos mortos, consentimos;
  327. Dilatar não se deve a cerimônia
  328. Jucunda aos manes: este pacto assele
  329. De Juno o excelso troador marido.”
  330. E aos imortais aqui seu cetro eleva.
  331. Dardanos e Troianos congregados
  332. O núncio aguardam, que, de volta a Ílio,
  333. A resulta expendeu no ajuntamento.
  334. Uns a lenhar, a carrear os corpos
  335. Aprestam-se outros: por igual motivo,
  336. Das instrutas galés desembarcavam.
  337. Tanto que o sol, ferindo monte e vale,
  338. Do manso undoso pélago arraiava,
  339. Topam-se todos. Cada um seus mortos
  340. Só distingue ao lavá-los da sangueira,
  341. E lamentando os metem nas carroças.
  342. Do grã Príamo aos seus vedado o choro,
  343. Tácitos os cadáveres cumulam,
  344. E celebrada a queima, se recolhem.
  345. Reprimindo igualmente a pena e o pranto
  346. Combustos numa pira os tristes restos,
  347. Volvem-se às naus os de elegante greva.
  348. Antes d’alva, ao crepúsculo, operários
  349. Um túmulo comum, junto à fogueira,
  350. Aos finados erigem: muro e torres,
  351. Das naus e deles em defesa, perto
  352. Com portões para carros edificam;
  353. Fosso profundo e largo externo cavam,
  354. De paliçada em roda guarnecido.
  355. A arte e perícia dos comantes Gregos,
  356. Do senhor dos trovões a par, os deuses
  357. Olham com pasmo. O Enosigeu Netuno:
  358. “Júpiter, vozeou, quem há no mundo
  359. Que de ora avante nos consulte e implore?
  360. Não vês como os Aqueus de ênea loriga,
  361. Sem preces nem solenes sacrifícios,
  362. Trincheira e fosso e torreões fabricam?
  363. Por onde a luz se expande, irá seu brado
  364. Calar o das muralhas que eu e Apolo
  365. A Laomedonte a custo levantamos.”
  366. Carrega-se o Nubícogo enfadado:
  367. “Poderoso Netuno, hui! que proferes?
  368. A deidade inferior fique esse medo:
  369. Por onde a luz se alargue, a tua glória
  370. Se alargará. Tolera, e assim que os Dânaos
  371. Do caro ninho em busca se embarcarem,
  372. Para que de obras tais o rasto apagues,
  373. Desmorona, submerge, arrasa tudo.
  374. Cobre e de areia inunda a vasta praia.”
  375. Cai, nisto, o Sol: do afã cessando, matam
  376. Nas tendas reses e da ceia cuidam.
  377. Em baixéis remetera Euneu de Lemnos,
  378. Prole de Hipsípile e Jason monarca,
  379. Medidas mil de vinho aos dois Atridas;
  380. O exército o comprava a bronze, a ferro
  381. Assacalado, a peles, bois e escravos:
  382. O festim se adereça. Inteira a noite,
  383. No campo os Dânaos, na cidade os Frígios,
  384. Ledos se deleitavam, quando alerta
  385. Aziago toa o próvido Satúrnio.
  386. Pálido lavra o susto; o vinho entorna
  387. Dos copos cada qual, nenhum bebia
  388. Sem prelibar ao prepotente Jove.
  389. Deitam-se alfim, no brando sono pegam. * * *

Sobre este livro · 1 nota

Vocabulário
Corinete, adotado por Monti e por M. Giguet, é o que se arma de clava ou maça. — Eniálio, também adotado por Monti, é sobrenome de Marte, ou de qualquer deus da guerra; quer dizer batalhador.

Nota a nota · 3 notas

v. 79–132Loução já se arreiava; e ao Teucro braço, ⋯ Do homicida Eniálio êmulo digno;
Certo crítico do meu amigo Lopes de Moura, não há muito falecido, em minha presença lhe censurou o verbo arreiar na acepção do enfeitar, ornar, ou adereçar; e, como aqui sou réu da mesma culpa, advogarei a nossa causa. Arreiar por guarnecer de arnês as bestas é em sentido restrito, sendo o mais antigo e genérico o de que ambos nos servimos. Constâncio, uma das boas autoridades para os afrancesados que desamam a genuína língua portuguesa, diz que arreio é verdadeiro sinônimo de adereço, por vir este de um radical arábico de significação idêntica à do verbo arreiar, o qual deriva do grego aro, isto é ornar. Escreveu Barros: “Jóias de que se eles (os Mouros) arreiam”. Escreveu Camões: “Mombaça que se arreia de casas suntuosas; — Escandinávia ilha que se arreia das vitórias.” Escreveu Diniz: “De preciosos rubins a fronte arreia.” Além destes exemplos, acham-se outros em Castanheda, em Fernão Alves do Oriente, em Fr. Luiz de Souza, em Vieira, em Pinto Ribeiro, em Elpino Duriense, em Filinto Elísio. Logo, apesar da crítica, posso eu usar aqui do verbo, e não fez mal o Dr. Lopes de Moura,
↩ voltar à passagem, v. 79
v. 255–257Qüinqüene touro ao padre onipotente:
Qüinqüene quer dizer cinco anos, e foi adotado por Monti e outros Italianos. — Note-se que, assim neste como em outros livros, quando fala Homero dos assados, ajunta um advérbio ou cousa que recorde quão difícil é consegui-los bons. Em nossos dias, Brillart-Savarin na sua Physiologie du Goût, escrevia que os cozinheiros fazem-se, mas que os assadores nascem; o que vai com o pensamento do poeta. Posto que os Ingleses na Europa são os que melhor sabem apreciar a iguaria preferida pelos heróis da Ilíada, é nos sertões do nosso Brasil, principalmente nos do Ceará e do Rio Grande do Sul, que os assados formam a comida principal. Não é só nisto que os sertanejos têm semelhança com os tais heróis; têm-na em muitos pontos: na simplicidade e singeleza, na hospitalidade, no amor da vingança bem como no costume de discursarem antes de se travarem em duelo; costume que há também entre os selvagens de toda a América, ainda mais parecidos com os homens de Homero.
↩ voltar à passagem, v. 255
v. 357Olham com pasmo. O Enosigeu Netuno:
Enosigeu, isto é abalador da terra, epíteto de Netuno, está admitido no italiano; e em nossa língua ainda mais afeita às palavras compostas e ainda mais ousada, cabe ele otimamente.
↩ voltar ao verso 357
↑ voltar ao topo das notas
Próximo livroVIIIAo desdobrar seu manto a crócea Aurora