Findo o certame, às naus dispersos correm
652 versos · 8 notas do tradutor
- Findo o certame, às naus dispersos correm;
- Cuidam na ceia, em brando sono pegam.
- Reluta à quietação, que enleia a todos,
- O Pelides saudoso a revolver-se,
- Ou supino, ou de bruços, ou de ilharga;
- Lembra-lhe a valentia, o ardor daquele
- Com quem tanto empreendeu, curtiu fadigas,
- Em duro marte, em perigosos mares,
- E debulha-se em lágrimas. Levanta-se,
- Vaga ao longo da praia, até que as ondas
- A aurora purpureia: então, jungindo
- O alado coche, atrás liga o Priâmeo;
- Roja-o três vezes do sepulcro em giro,
- Torna ao leito, e no pó deixa o cadáver.
- Dói-se Febo de Heitor, conserva-o puro,
- De égide áurea coberto, a fim que a rastos
- Lacerado não seja indignamente.
- Do mau trato os celícolas ditosos
- Compadecendo-se, o Argicida incubem
- De subtrair o divo herói defunto.
- O arbítrio aprouve, menos a Netuno,
- À irmã Satúrnia, à virgem de olhos garços:
- Elas a Príamo e seu povo odeiam
- Pela injúria e sentença de Alexandre,
- Que, em paga da lascívia e amor infesto,
- Em seu tugúrio a Vênus dera o pomo.
- Na duodécima aurora exclamou Febo:
- “Numes cruéis, Heitor seletas coxas
- Não vos queimou de bois e nédias cabras?
- Morto, ingratos, vedais que o veja a esposa,
- Mãe, filho e genitor, que o povo inteiro
- Alce-lhe a pira e o funeral celebre?
- Só vos agrada o iníquo atroz Pelides,
- Leão que, em si fiado, ama cevar-se
- Na triste grei, sem pejo ou consciência,
- Que humanos corações compensa ou pune.
- Quem perde irmão, conjunto, ou mesmo a prole,
- Suspira e chora, mas o nojo enfreia,
- Que é dos humanos sorte o resignar-se:
- Este, roubada ao nobre Heitor a vida,
- O arrasta pela campa do consócio;
- Contra insensível barro afronta inútil,
- Bruto furor que nos irrita e inflama.”
- Grita em cólera Juno: “Argenti-archeiro,
- Sócio dos maus, tais homens não compares:
- Heitor foi por mulher amamentado;
- Por deusa Aquiles, que, por mim nutrida,
- Esposei com Peleu, dos Céus dileto:
- Vós à boda assististes; ao convívio
- Tu, pérfido, na lira a decantaste.”
- Logo o Tonante: “Não te enfades, Juno.
- Diferem muito em honras; mas aos deuses
- E a mim esse era o Teucro predileto;
- Nem dons poupava, libações, banquetes,
- Nidor e fumo, recompensas nossas.
- Furtado não será, pois dia e noite
- Vela Tétis assídua. Aqui ma chamem;
- Discreto lhe direi que aceite Aquiles
- A remissão de Heitor e o renda a Príamo.”
- A núncia procelípede, por Samos
- E Imbro fragosa, ao pélago descende,
- E o salso lago freme; cala ao fundo
- Qual plúmbea péla que em selvagem corno
- Aos crudívoros peixes leva a morte.
- Numa gruta acha a Tétis e as Nereidas,
- Chorando o exímio Aquiles, n’alma Tróia
- Longe da pátria a falecer fadado:
- “Vem, Tétis, que te chama o Onipotente.”
- A argentípede acode: “Que pretende?
- Ir aflita me pesa à etérea corte;
- Mas Júpiter o manda, é quanto basta.”
- Eis cinge a deusa augusta o véu mais negro,
- De todos lugubríssimo, e dispara;
- Íris de aérea planta a precedia,
- E em derredor as ondas se apartavam.
- Tomam terra, ao céu voam: lá sentou-se
- No feliz coro Tétis; a cadeira
- Do Altitonante ao pé lhe cedeu Palas.
- Juno a consola, e em ouro passa o néctar;
- Bebe a Nereida e restitui o copo.
- E o pai de homens e deuses: “Cá vieste,
- Bem que indelével mágoa em ti concentres;
- Conheço-o, Tétis, mas te exponho a causa.
- Há nove dias sobre Heitor e Aquiles
- Urbífrago se alterca: instam que a furto
- O Argicida sutil salve o cadáver:
- Eu, por nossa amizade e o que te devo,
- Deixar quero a teu filho a glória toda.
- Anda, informa-o da cólera dos numes,
- Da minha indignação, pela crueza
- De reter ante as naus de Heitor o corpo;
- Remido o renda, se me teme e acata.
- Íris despacha ao Tróico rei brioso;
- Vá resgatar seu filho à Grega frota,
- E com largueza ao vencedor contente.”
- Frecha do Olimpo Tétis, e acha Aquiles
- Em ais na tenda; os íntimos cuidosos
- Para o festim lanuda rês degolam.
- Senta-se Tétis perto, a mão lhe afaga:
- “Filho, tua alma em lágrimas consomes?
- Enjeitas a comida, o leito esqueces?
- Busca alívio em amante carinhosa,
- Já que te acena a Morte e vou perder-te.
- Núncia de Jove, a indignação declaro
- Dele e de todo o Céu, pela crueza
- Com que reténs Heitor e a Tróia o negas.”
- Responde Aquiles: “Se é querer do Olimpio,
- Venha quem traga o preço e o corpo leve.”
- Enquanto a mãe e o filho assim discorrem,
- A Príamo o Satúrnio Íris deputa:
- “Sem demora, prescreve ao rei Troiano
- Que generoso rima o seu mais caro;
- O vencedor as dádivas contentem.
- Ele que vá sozinho, e idoso arauto
- Governe andejas mulas e a caleça
- Onde o morto carreie; e vá sem medo,
- Guia-lo-á Mercúrio aos pés de Aquiles.
- Do herói não tema em casa ofensa alguma,
- Nem de qualquer: sisudo, humano e atento,
- Um suplicante poupará benigno.”
- Disse; Íris procelípede ao palácio
- Real chega: o alarido e o luto encontra,
- Filhas de choro umedecendo as vestes
- Em cerco ao velho no seu manto envolto,
- Sujos cabeça e colo em cinza imunda,
- Que a rolar-se aos punhados esparzira;
- Filhas e noras ululando, errantes,
- Seus valentes invocam, tais e tantos,
- Pelos Aquivos golpes derribados.
- Ao rei trêmulo a núncia, em voz depressa
- Para o não abalar: “Coragem, disse,
- Nada receies, Príamo. Aqui Jove
- Benévolo me envia, e longe embora,
- De ti se compadece e tem cuidado.
- Que resgates Heitor ele te ordena,
- E o Pelides com dádivas comovas;
- Que vás às naus sozinho, e idoso arauto
- Governe andejas mulas e a caleça
- Onde o morto carreies: e vai sem medo,
- Guiar-te-á Mercúrio aos pés de Aquiles.
- Do herói ofensa alguma ali não temas,
- Nem de qualquer: sisudo, humano e atento,
- Um suplicante poupará benigno.”
- Partiu-se: aos filhos manda o rei que aprestem
- Mular caleça, e uma arca em cima liguem;
- Desce à fragrante câmara cedrina
- De excelso teto, encerro de tesouros;
- Chama por Hécuba: “Infeliz de Jove
- Me veio núncia prescrever que parta
- A remir nosso filho com presentes.
- Teu coração que diz? No meu resolvo
- Ir já buscar os arraiais dos Gregos.”
- E ela em soluços: “Onde o siso d’antes,
- Que estrangeiros e Teucros te louvavam?
- Sozinho ires às naus e ao cru verdugo
- Dos teus guerreiros numerosos filhos!
- De ferro entranhas tens. Se ele te empolga,
- Sem dó, respeito ou fé, será contigo.
- No interior destes paços o choremos;
- Pois ao pari-lo eu mesma, a feia Parca
- Fiou que, de seus pais ele apartado,
- Fartasse a gula dos sanhudos perros
- Do cruel, cujo fígado eu trincara
- Para vingar ultrajes do meu filho...
- Ah! nem fugiu, nem se esquivou cobarde;
- Morreu firme, por Tróia e pelas Teucras
- De regoado seio combatendo.”
- Replica o divo esposo: “Ave agoureira
- Tu não me sejas, nem me aqui demores:
- Não me convencerás. Fosse um terrestre
- Arúspice, adivinho ou sacerdote,
- Hesitar ou não crê-lo nos coubera;
- Mas ouvi mesmo a deusa e a vi presente,
- Não baldarei meu rogo. E se é destino
- Junto às naus Gregas acabar, acabo:
- Mata-me Aquiles; mas sequer meu filho
- Nestes braços estreite, e em choro apague
- Meu amargo pesar, minha saudade.”
- E destampando as caixas, doze aparta
- Peplos louçãos, mantas singelas doze,
- Doze tapetes, opas doze e estas
- Conformes várias túnicas; talentos
- Áureos dez, duas trípodes luzidas,
- Caldeirões quatro, e um copo superfino
- Que embaixador em Trácia lhe ofertaram:
- Nem reserva este em casa; a todo custo
- Redimir seu Heitor almeja o velho.
- Do pórtico o tropel gritando arreda:
- “Fora, vis; dor não tendes nem tristeza,
- Para aqui virdes agravar a minha?
- Ou folgais de que Jove me roubasse
- Meu bravo Heitor? Senti-lo-eis, perversos;
- Ele por terra, sois dos Gregos preia.
- Antes que Tróia aos olhos meus desabe,
- Do Orco me sorva o tragador abismo!”
- Disse, e os toca a bastão; mal que os expulsa,
- Os filhos nove increpa, Heleno, Páris,
- Divo Agáton, Antífono, Pamones,
- E Deifobo, e Hipotoo e o nobre Agavo,
- E Polites belaz: “Sus, preguiçosos,
- Paterno opróbrio! Em vez de Heitor, vós todos
- Jazêsseis ante as naus. Em Ílio, ai! Triste,
- Fortes gerei, nenhum dos quais me resta:
- Mestor deiforme, o campeão Troílo,
- Heitor, que entre os humanos parecia
- Não de um mortal nascido e sim de um nume,
- Perdeu-os Marte; ignavos sós me ficam,
- Falsos, hábeis na dança, ou na rapina
- De cabritos do público e de ovelhas.
- Como! Tardais em preparar as mulas,
- Pôr tudo na caleça, a fim que eu parta!”
- Humildes e submissos, leve e nova
- Caleça, arca, de buxo tiram jugo
- De embigo e anéis fornido, mais de um loro
- Jugal de nove cúbitos, que agitam
- Ao cabo do temão, por cuja argola
- E chaveta passando, com três voltas
- No embigo o enleiam de uma e de outra banda,
- Em nó sumindo por debaixo as pontas;
- Na caleça, da câmara trazido,
- O resgate acumulam precioso;
- As solípedes mulas emparelham,
- Com que a seu pai os Mísios regalaram;
- Ao velho os brutos férvidos conduzem,
- Que ele mesmo criara à manjedoura:
- Estes o arauto e o rei, no altivo pórtico,
- Jungem, n’alma conselhos fomentando.
- Chega-se Hécuba triste, e em áurea copa
- Vinho tendo suave, e junto pára
- Dos corcéis: “Toma, liba, ao grã Satúrnio
- Roga feliz tornada, já que à frota,
- A meu pesar, o ânimo te impele;
- Suplica e exora a Júpiter nimboso,
- Que do Ida em nós atenta, anúncio fausto:
- Voe à destra sua águia a mais dileta;
- Vejam-na os olhos teus, e afouto partas.
- Mas, se o altitonante o agouro nega,
- Bem que ardas em desejo, eu não te exorto
- A ir às naus dos furibundos Gregos.”
- “Sim responde o bom rei, concordo, esposa;
- Cumpre, a Jove implorando, alçar as palmas.”
- Nisto, água pura à despenseira pede;
- Ela queda sustêm bacia e jarro.
- Depois que lava as mãos, recebe o copo;
- No átrio em pé, liba e ora, os céus fitando:
- “Potente sumo deus, que do Ida imperas,
- Dá que benigno se apiade Aquiles;
- Tua águia mais dileta envia à destra;
- Vejam-na os olhos meus, para que afouto
- Às naus eu vá dos furibundos Gregos.”
- Próvido o escuta Jove, e a caçadora
- Morfom manda infalível nos augúrios,
- Percnon também chamada. Quanto é largo
- Portão soberbo de opulenta régia,
- Tanto ela à destra expande as asas fuscas;
- Tróia com regozijo a viu librar-se.
- Do ruidoso vestíbulo, montado,
- O rei despede o coche; Ideu prudente
- Rege de quatro rodas a caleça;
- Príamo atrás pela cidade excita
- E os ginetes flagela. Os mais conjuntos,
- Qual se andasse a morrer, chorando o seguem;
- Tanto que da muralha ao campo desce,
- Mestos genros e filhos se recolhem.
- Os dois compadecido avista Jove,
- E ao seu Mercúrio fala: “É-te agradável
- Os homens freqüentar e a gosto ouvi-los:
- Príamo às naus conduze, e o não pressintam,
- Antes que aos pés de Aquiles o introduzas.”
- À voz do excelso pai se inclina e apresta:
- Calça os áureos talares, com que adeja
- Sobre as terras sublime ou sobre ondas,
- Como rápido sopro; a vara empunha,
- Com que aos olhos mortais carrega o sono
- Ou desperta o prazer, e os ares tranca.
- À vista já de Tróia e do Helesponto,
- Num príncipe galhardo se disfarça
- Em venusta e pubente juventude.
- Aqueles, de Ilo o túmulo passado,
- Corcéis no rio e mulas abeberam;
- A Mercúrio, ao crepúsculo noturno,
- O arauto enxerga: “Para nós caminha,
- Dardânida, um varão; cogita o meio
- De nos salvarmos: ou fugir no carro,
- Ou de joelhos suplicar piedade.”
- Confuso o velho, atônito, hirta a coma,
- Retêm-se a estremecer. Mercúrio avança,
- A destra lhe segura e o interroga:
- “Quê! De noite, ancião, corcéis e mulas
- Chicotas, quando o sono os mais procuram!
- De inimigos cercado, não te assustas?
- Se algum te visse carretar no escuro
- Tesouros tais, que alvitre buscarias;
- Não és mancebo, e um velho te acompanha,
- Para a qualquer ataque resistires.
- Tu não me temas, defender-te quero,
- Pois te assemelhas a meu pai querido.”
- Príamo respondeu: “Bem dizes, filho:
- Mas protege-me um deus, que me apresenta
- Guia esbelto e gentil, prudente e afável;
- Ditosos os mortais que te geraram!”
- “Cordato falas, torna-lhe o Argicida;
- Mas sê sincero: onde as riquezas levas?
- Por ventura a estrangeiros, que tas guardem?
- Ou todos Ílio abandonais com medo?
- Ah! teu filho bravíssimo perdeste,
- Nada inferior aos Gregos no conflito.”
- E Príamo: “Quem és, de quem procedes,
- Ótimo jovem, que do extinto filho
- Falas-me assim cortês?” — Então Mercúrio:
- “Informações de Heitor obter ensaias.
- Muitas vezes o vi, mormente quando,
- Com assombro geral de lança botes
- Contra os baixéis os Dânaos rechaçava.
- Iroso Aquiles nos continha ignavos;
- Sou Mirmidon, na mesma nau viemos:
- Rico, velho também, de sete filhos,
- Me expediu Polictor por seu companha,
- Feito o sorteio. O acampamento exploro;
- Pois, na alvorada, os olhinegros Dânaos
- Ílio acometerão, que já não podem
- Os reis conter o exército fogoso.”
- Príamo inda: “Se fâmulo és de Aquiles,
- Dize, ante a frota jaz meu filho, ou preia
- Dos cães do vencedor foi lacerado?”
- “Jaz ante a frota, replicou Mercúrio;
- Aves nem cães o corpo lhe tocaram;
- Há doze dias, puro está sem vermes,
- De que os mortos na guerra são comidos.
- Ímpio, ao luzir da aurora, em torno o roja
- Do sepulcro do amigo: admirarias
- Quão fresca se acha a carne, estanque o sangue,
- Sem mais lesão, fechadas as feridas,
- Que lhe pregaram tantos. Já defunto,
- Gratos os deuses do Priâmeo curam.”
- Jubiloso o Dardânida: “Meu filho,
- Bom é render o que se deve aos numes;
- Em vivo nunca Heitor os esquecia;
- Dele extinto os celícolas se lembram.
- Toma este copo, e com favor supremo,
- Guarda-me e guia ao pavilhão de Aquiles.”
- “Sou moço, torna o deus, mas não me tentas;
- Na ausência do Pelides nada aceito;
- Muito o venero, desfalcá-lo temo
- E em seu ódio incorrer. Na via de Argos,
- Vás por mar ou por terra, hei-de ir contigo;
- Eu sendo o condutor, ninguém te ofende.”
- Eis pula ao carro; o açoite e as rédeas pega;
- Fogo inspira aos corcéis, às mulas fogo.
- Junto às navais trincheiras o Argicida
- Na ceia às ocupadas sentinelas
- Sono infunde, a porteira abre e destranca,
- Introduz a caleça e o real coche.
- Apropínqua-se à tenda, que de abeto
- Os Mirmidões para seu rei teceram,
- De híspida agreste cana a cobertura,
- Em derredor extensa paliçada.
- Sustinha a porta, que cerrava o claustro,
- Lígnea barra, a três homens grave peso,
- Do só Pelides facilmente alçada;
- O deus do lucro a Príamo a franqueia,
- Introduz a caleça, e em terra salta:
- “Velho, guiar-te aqui me ordenou Jove;
- Sou Mercúrio. O Pelides não me sinta,
- Volto; a mortais favorecer às claras
- Não cumpre às divindades. Entra, ajoelha,
- Pela mãe Tétis, pelo pai, depreca,
- Para amansá-lo o filho seu memora.”
- Mercúrio se ala; Príamo se apeia,
- Deixando fora a Ideu corcéis e mulas
- Seguiu direito; achou de Jove o aluno
- Dentro sentado, à parte os sócios, menos
- Alcimo e Automedon, ramos de Marte,
- Que à mesa diligentes o serviam,
- Onde satisfizera a sede e a fome.
- Não visto passa o corajoso velho,
- Até que prosternado, humilde beija
- A mão terrível que imolou seus filhos.
- Quando por homicídio alguém se exila,
- E em país estrangeiro e nobre albergue
- Refúgio encontra, espectadores pasmam:
- Pasma Aquiles assim, e os circunstantes
- Olham-se estupefatos. O Dardânio
- Súplice roga: “Lembre-te, ó Pelides,
- O idoso pai, como eu posto à soleira
- Da pesada velhice. Por vizinhos
- Talvez opresso, defensor não tenha;
- Vivo ao menos te sabe, e folga e espera
- Ver tornar cada dia o egrégio filho.
- Ai! Gerei tantos bravos na ampla Tróia,
- Dos quais eu penso que nenhum me resta.
- Cinqüenta ao vir o assédio, eram de um leito
- Dezenove, os demais de outras mulheres:
- Morte nos tem segado quase todos.
- O único esteio nosso, pela pátria
- A combater, acabas de roubar-mo,
- Heitor... Venho remi-lo à frota Argiva
- Com magníficos dons. Respeita os numes;
- Por teu bom pai, de um velho te apiades:
- Mais infeliz do que ele, estou fazendo
- O que nunca mortal fez sobre a terra:
- Esta mão beijo que matou meus filhos.”
- De Peleu mais saudoso, o herói suspira,
- Pega-lhe a destra e brando afasta o velho:
- Um de joelhos por Heitor pranteia;
- Outro chora seu pai, chora a Pátroclo:
- De ambos o soluçar na tenda estruge.
- Desafogada em lágrimas a pena,
- Ergue-se da cadeira o divo Aquiles,
- Por si levanta a Príamo, e o compunge
- Branca a régia cabeça e branca a barba:
- “Ai mísero, sobejo hás padecido!
- E a mim que te privei de extremos filhos,
- Buscas sozinho? Entranhas tens de ferro.
- Senta-te; ao luto agora devemos tréguas.
- Viver sempre em tristeza é lote humano:
- Existir sem cuidados é dos deuses.
- Há dois tonéis ao limiar de Jove
- De males e de bens: se misturados
- Os derrama o Tonante, o que os recebe
- Ora sofre e ora goza; mas, se entorna
- Somente males, em penúria o triste
- Vaga de pesadume em pesadume,
- Dos imortais ludíbrio e dos mundanos.
- Assim teve Peleu mil dons celestes,
- Brilho, opulência, império e uma deidade
- Por consorte; mas Júpiter negou-lhe
- Ao trono sucessor, porque imaturo
- Devo longe acabar, sem que de arrimo
- Lhe seja na velhice, em Tróia estando
- Para desgraça dela e teu flagelo.
- Também lograste já de quanto abrange
- Lesbos ao sul, de Macaris morada,
- A Frígia eoa e amplíssimo Helesponto;
- Brilhaste, velho, em filhos e riquezas;
- Mas, dês que o Céu mandou-te a crua guerra,
- Geme Ílio de matança e horror cingida.
- A alma em luto perpétuo não consumas;
- Com te afligir Heitor não ressuscitas;
- Quiçá maiores danos te ameaçam.”
- Mas Príamo: “Sentar-me, herói, não faças;
- Dentro sem sepultura está meu filho.
- Redimido, o mais breve mo apresentes;
- Os dons que trago aceita numerosos;
- Logra-os, à pátria volvas, tu que à vida
- E a luz do sol gozar hoje me outorgas.”
- Minaz Aquiles: “Não me irrites, basta;
- Heitor hei-de render, que prescreveu-mo,
- De Jove em nome, a genetriz Nereida.
- Sei, não mo ocultes, Príamo, às naus Graias
- Conduziu-te algum nume: entrar no campo
- Nunca ousara mortal, por mais florente;
- Nem iludira os guardas, nem das portas
- As barras facilmente descerrara.
- Não me comovas mais com teus queixumes;
- Inda que és suplicante, eu posso, velho,
- Expulsar-te, infringindo a lei de Jove.”
- Ei-lo, em susto, obedece; fora Aquiles
- Pula como um leão, mais seus dois pajens
- Alcimo e Automedon, que sobre todos,
- Morto o Menécio, honrava. Eles desatam
- As mulas e os corcéis; na tenda assentam
- Ideu canoro; da caleça tiram
- Do resgate os presentes preciosos;
- Dois mantos e uma túnica luzida
- Reserva o herói de Heitor para envoltório.
- As criadas mandou lavá-lo e ungi-lo,
- Sem visto ser do pai; receia que este
- Aflito rompa em cólera, e o constranja,
- Contra o querer de Jove, a assassiná-lo.
- Já perfumado, a túnica e um dos mantos
- Lançam-lhe; Aquiles o ergue e o põe num féretro,
- Que os dois com ele na caleça metem.
- Gemendo invoca o sócio: “Não te agraves,
- Pátroclo, se constar no reino escuro
- Que Heitor a Príamo entreguei remido;
- Pois tive egrégios dons, e a melhor parte
- Ser-te-á consagrada, alma querida.”
- Volve à tenda e à cadeira artificiosa,
- Donde saíra, na parede oposta:
- “Fiz, Príamo, o teu gosto, jaz teu filho
- No féretro; ao partir, na aurora o vejas.
- Porém da ceia agora nos lembremos.
- Níobe de comer também lembrou-se,
- A quem seis filhos e seis filhas jovens
- O Arcipotente com a irmã frecheira
- Prostrara a setas, porque a mãe formosa
- Se afrontava à pulcrícoma Latona,
- Tendo esta só dois partos, e ela doze:
- Os dois porém dos doze deram cabo.
- Nove dias sangüentos e insepultos,
- Pois Jove o povo em pedra convertera,
- Celestes ao dezeno os enterraram.
- Enfim comeu, de lágrimas cansada.
- Ora em Sípilo, entre ásperas montanhas,
- Onde as ninfas, que às margens do Aqueloo
- Guiam coreias, como é fama, alverga.
- Já transformada em rocha, inda sensível
- Estila a dor que os deuses lhe infligiram.
- Tratemos pois da ceia: ao transportá-lo,
- Divo ancião, prantearás teu filho.
- Tens muito que chorar, sossega um pouco.”
- Súbito sacrifica branca ovelha:
- Esfolam-na, esquartejam-na, e a preceito
- Assam de espeto no brasido as postas;
- Em canistréis na mesa o pão reparte
- Automedon, e Aquiles trincha as carnes.
- Às viandas se deitam; e saciados,
- Príamo admira o talhe do Pelides
- E a divina beleza, admira Aquiles
- A facúndia e presença do Dardânio.
- Depois de mutuamente se esguardarem,
- O ancião começa: “De Jove aluno,
- Repassar pelo sono me permite:
- Dês que às mãos tuas expirou meu filho,
- Não preguei mais as pálpebras; na cinza
- Rolo, em pranto recozo os meus pesares.
- Ora um bocado engulo a vez primeira,
- E em roxo vinho as fauces umedeço.”
- Estender manda ao pórtico o Pelides
- Belos colchões vermelhos, e por cima
- Tapetes e felpudos cobertores;
- Saem fora de tocha e diligentes
- As cativas preparam duas camas.
- O herói com falso medo: “Hospede amigo,
- No pórtico estarás, porquanto os Gregos
- Soem vir consultar-me n’alta noite;
- Se algum te enxerga e informar-se Agamemnon,
- Ser-te-ia o resgate retardado.
- Que tempo dize aos funerais precisas,
- Para eu conter o exército em repouso.”
- E o Tróico rei: “Se em funerais consentes
- Ao meu bom filho, esse favor me é grato.
- Em sítio nós, a mata longe temos,
- Ílio aterrada: ao luto nove dias,
- À sepultura o décimo e ao banquete,
- Ao túmulo o seguinte se consagre;
- Já que é força, ao dozeno combatamos.”
- “O que pedes será, tornou-lhe Aquiles;
- O ataque sustarei todo esse tempo.”
- E por mais segurança, a real destra
- Na sua aperta. Ao pórtico dormiram
- Príamo e Ideu, cuidados revolvendo:
- Mas dentro Aquiles e a gentil Briseida.
- Numes e campeões do sono logram;
- Velando só Mercúrio negocioso,
- Cogita como às naus subtraia o velho,
- E das portas iluda as sentinelas.
- Põe-se-lhe à cabeceira: “Entre inimigos
- Repousas, por te haver poupado Aquiles,
- Por excessivo preço Heitor vendendo?
- Por ti vivo os que restam lhe dariam
- Presentes em tresdobro, se Agamemnon
- E outros Gregos aqui te lobrigassem.”
- O rei, sobressaltado, o arauto acorda;
- Mesmo aparelha o deus corcéis e mulas,
- E sem que o sintam pelo campo os guia;
- No vau já do de Júpiter progênie
- Rápido Xanto, o vasto Olimpo sobe,
- Ao desferir seu manto a ruiva Aurora.
- Ambos chorosos e em suspiros trotam,
- Nem dos varões nem damas percebidos;
- Porém, montando a Pérgamo, Cassandra
- Áurea e venusta, o amado pai descobre
- E o defunto na tumba e Ideu canoro;
- Pela cidade soluçando ulula:
- “Vede, eis Heitor, ó Teucros e Troianas,
- Que em vivo, ao regressar de horrível pugna,
- De júbilo e esperança o povo enchia.”
- Nem homem nem mulher nas casas fica,
- Todos em nojo à entrada se apinhoam
- Do cadáver em torno; avante a esposa
- E augusta mãe ao féretro se arrojam,
- Carpem-se a coma, tocam-lhe a cabeça.
- A turba lastimava, e até sol posto
- Em pranto ali seria, se do assento
- O rei não grita: “Às mulas dêem passagem,
- Depois de mestas lágrimas fartai-vos.”
- Arredam-se, e a caleça ao paço roda.
- Em recortado leito o herói colocam,
- E músicos ao pé entoam nênias,
- A que o femíneo gemebundo coro
- Triste responsa. A bracinívea Andrômaca,
- A cabeça ao bravíssimo sustendo,
- O luto enceta: “Esposo em flor troncado,
- Viúva me abandonas, e o filhinho
- Que em mim geraste por desgraça dele!
- Púbere não será, sem que primeiro
- Do fastígio arruíne a excelsa Tróia;
- Pois acabaste, ó guarda e certo apoio
- De castas mães, de míseras crianças,
- Que arrastadas às naus serão comigo.
- Tens, meu Astianax, de acompanhar-me,
- Sob um cruel senhor escravo indigno;
- Ou ser de horrível torre despenhado
- Por Graio a cujo irmão, genitor, prole,
- Fez morder a poeira em cem batalhas
- Teu valoroso pai, na guerra acerbo:
- É por isso que o povo inteiro o chora.
- Dos parentes, Heitor, é grave a pena;
- Mas a dor que me punge é inda mais crua.
- Ah! moribundo a mão nem me estendeste,
- Nem adeus me disseste e os bons conselhos,
- Que dia e noite em pranto eu recordasse!”
- O lamento femíneo então redobra,
- E Hécuba em ais prorrompe: “Heitor, meu filho
- O mais amado, em vivo aceito aos numes,
- És seu valido em morto. Os mais Aquiles
- Tomados os vendia além dos mares,
- Em Samos, Imbro, em Lemnos de árduo porto:
- A ti, cortada a vida a brônzeo gume,
- Te rojou pela campa de Pátroclo,
- Se do inferno evocá-lo a que o mandaste;
- Mas fresco e belo estás, como a quem Febo
- Do arco argênteo vibrou rápida seta.”
- Exaspera-se o luto, e Helena exclama:
- “Heitor, ó meu cunhado e o mais querido,
- Pois, consorte me trouxe o divo Páris,
- E oxalá que primeiro eu perecesse!
- Quase há vinte anos sou da pátria ausente,
- Nunca te ouvi dictério e um só remoque;
- E, se irmã tua ou cunhada minha,
- Irmão teu, minha sogra (pois no sogro
- Meigo pai sempre encontro) me increpava,
- Manso e humano e indulgente o coibias.
- Choro-te pois e a mim, que, odiosa a todos,
- Não tenho quem me ampare e me perdoe.”
- Seu suspirar maior tristeza infunde;
- E ao povo imenso Príamo: “Troianos,
- Ide, lenhai, sem susto de emboscada;
- Que, ao despedir-me, Aquiles prometeu-me
- Só na dozena aurora o saltear-nos.”
- Ligam presto às carroças bois e mulos,
- Juntam-se ante a muralha. Ingentes cargas
- De lenha acarretando nove dias,
- Ao décimo entre lágrimas levantam,
- E no cimo da pira Heitor colocam,
- E ateiam fogo. A dedirrósea Aurora
- Veio raiando, e a gente refervia.
- Depois que em roxo vinho apagam todos
- Em roda a chama, seus irmãos e amigos,
- De arroios d’água as faces alagadas,
- Em urna de ouro os brancos ossos colhem,
- De finos mantos carmesins coberta,
- Na cova a metem, que por cima forram
- De grossas lajes. Do sepulcro ereto
- Em roda há sentinelas, que previnam
- Dos de greva louçã qualquer ataque.
- Já tumulado, aos paços reverteram,
- Onde Príamo rei, de Jove aluno,
- Lhes deu funéreo esplêndido convívio.
- Heitor doma-corcéis tais honras teve. * * *