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IlíadaLivro XII
LivroXII

Enquanto cura a Eurípilo o Menécio

370 versos · 5 notas do tradutor


  1. Enquanto cura a Eurípilo o Menécio,
  2. Renhia-se o conflito; nem já fosso
  3. Nem já larga trincheira às naus valia.
  4. Feita sem hecatombes tal defensa
  5. Da frota e presa opima, em ódio aos numes,
  6. Longa dura não teve. Irado Aquiles,
  7. Vivo Heitor, inda assente a régia Tróia,
  8. Era em pé dos Aqueus o ingente muro;
  9. Dos Frígios morta a flor, ao décimo ano
  10. Destruída a cidade, e retirados
  11. Os restantes Grajúgenas, as obras
  12. Tratou com Febo de assolar Netuno.
  13. O Careso, o Heptaporo, o Esepo, o Ródio,
  14. O Reso, o Grânico, o divino Xanto,
  15. O Símois, que revolto escudos e elmos
  16. E heróis muitos rolara, quantos rios
  17. Prorrompe do Ida ao mar, Apolo a todos
  18. As fozes convertendo, nove dias
  19. Juntos os remessou contra as muralhas;
  20. Jove a chover mais presto as aluía;
  21. De tridente Netuno os alicerces
  22. De pedra e estacas de labor tamanho
  23. Para o pego empuxava, até que ao longo
  24. Do rápido Helesponto aplanou tudo:
  25. Na areia litoral submerso o muro,
  26. No álveo entrou cada rio, como dantes
  27. Formoso a deslizar. Netuno e Apolo
  28. Tinham de assim fazer: mas ígneo prélio
  29. Então zurrava em torno dos reparos,
  30. Traves das torres a soar batidas.
  31. Flagelados por Jove se metiam
  32. Nas cavas naus os Dânaos, receosos
  33. Do artífice da fuga Heitor violento,
  34. Que inda era um furacão. Se os lumes sevos
  35. Leão vibra ou javardo a cães e à turba,
  36. Amiudam-lhe em quadrado os caçadores
  37. Tiros e tiros; bem que o mate o brio,
  38. Não treme ou retrocede, gira e tenta,
  39. E por onde assalteia as linhas cedem:
  40. Assim desfecha Heitor, que anima os sócios
  41. A transcursar o fosso. À borda hesitam
  42. A nitrir os corcéis, que, largo e fundo,
  43. Árduo era de saltar-se e intransitável:
  44. Com precipícios em redor, por cima
  45. Hirtos estrepes, do inimigo empeços,
  46. Volúvel carro a custo o passaria;
  47. Mas passá-lo os pedestres almejavam.
  48. A Heitor avizinhou-se Polidamas:
  49. “Temerário, e vós Teucros e aliados,
  50. Impelirmos ao fosso os corredores!
  51. Vendo não estais o perigoso passo,
  52. Pontudos paus e por detrás o muro?
  53. A cavalo vencê-lo é-nos defeso,
  54. E naquela estreitura o dano é certo.
  55. Se nos ama o Tonante e quer perdê-los,
  56. Sem glória acabem já, da pátria longe;
  57. Porém, se em novo ataque nos repelem,
  58. Seremos nesse fosso despenhados,
  59. Sem nos restar quem leve o anúncio a Tróia.
  60. Ouvi-me pois: à borda os pajens fiquem
  61. Os ginetes contendo, e a pé densados
  62. Sigamos nós a Heitor; se é vinda aos Gregos
  63. A luz funesta, relutar não podem.”
  64. Aceito o justo aviso, Heitor em armas
  65. Logo se apeia, e o mesmo os outros fazem;
  66. Cada auriga os frisões retém mandado.
  67. Formam-se em corpos cinco: ao de mais gente,
  68. Mais duro e ansioso de romper os valos,
  69. Heitor comanda e o celso Polidamas,
  70. E também Cebrion, que Heitor escolhe
  71. E a outrem menos bravo o coche entrega;
  72. Ao segundo Alcatôo, Agenor, Páris;
  73. Ao terceiro, os Priâmeos sábio Heleno
  74. E divinal Deifobo, mais de Arisba
  75. Ásio Hirtácio, que em nítidos cavalos
  76. Das margens do Seleis ali viera;
  77. Ao quarto, o egrégio Anquíseo, e os Antenórios
  78. Hábil Arquéloco e pugnaz Acamas;
  79. Ao quinto enfim, de ilustres coligados
  80. Sarpédon, Glauco e Asteropeu mavórcio.
  81. Eis os fortes que Heitor mais tinha em preço
  82. Depois de si, fortíssimo de todos.
  83. Num grupo, à sombra de bovinas tarjas,
  84. Dão sobre os Dânaos, que encerrados criam,
  85. Sem resistirem, nos escuros bojos.
  86. A Polidamas Teucros e os mais chefes,
  87. Menos o príncipe Ásio, obedeceram:
  88. Insensato! Os corcéis (ruim fado o empuxa)
  89. Não larga e às naus se envia; mas ovante
  90. Não voltará seu coche a Ílion soberba;
  91. Infensa o enreda a Parca e o vota à lança
  92. De Idomeneu Deucálida. À sinistra,
  93. Por onde à frota os équites Aquivos
  94. Voltavam, trota, e abertas inda as portas
  95. Acha de par em par e destrancadas,
  96. Para Aqueus fugitivos recolherem.
  97. Altivo o carro expede, e os seus dementes
  98. Seguem-no a gritos, crendo abordo os Gregos;
  99. Mas dois robustos Lápitas o empecem,
  100. De Peritôo o filho Polipetes
  101. O homicida Leonteu parelho a Marte:
  102. Quais em montes carvalhos corpulentos,
  103. Que, a chuvas renitindo e a ventanias,
  104. Têm-se às grossas raízes penetrantes;
  105. Eles, no braço e no valor fiados,
  106. Às portas o grande Ásio esperam quedos.
  107. Contra o muro a fremir, de escudos no alto,
  108. Na trilha de Ásio vão, do filho Acamas,
  109. De Enomao e Toom, Jameno e Orestes:
  110. À exortação dos Lápitas acodem
  111. Grevados Gregos, mas do assalto a vista
  112. Fuga e alarido gera. Os dois rompentes
  113. São feros javalis que, em brenha ouvindo
  114. Bulha de gente e cães, de esguelha investem,
  115. Quebram da selva e desarreigam troncos,
  116. E até que um dardo os mate os queixos rangem:
  117. Aos peitos seus, daqui dali ferido,
  118. Ronca o fulgente bronze; afoutos pugnam
  119. Em si, nas tropas que das torres chovem,
  120. De naus e tendas em defesa, pedras.
  121. Qual tufão, sacudindo opacas nuvens,
  122. Lança em flocos a neve n’alma terra;
  123. Assim das mãos Aquivas e Troianas
  124. Manavam tiros, os calhaus zuniam,
  125. Broquéis e elmos do choque estrepitavam.
  126. Gemendo o Hirtácio rei, nas ancas bate,
  127. A blasfemar: “Ó Júpiter, mentiste!
  128. Não pensava que Dânaos todo o esforço
  129. Das nossas mãos invictas sustentassem.
  130. Quando em áspera toca nidificam
  131. Fuscas vespas e abelhas, nunca deixam,
  132. Porém tenazes em favor do enxame
  133. Ferram-se aos crestadores: tais à entrada
  134. Aqueles, bem que dois, só prisioneiros
  135. Hão-de render-se ou mortos.” Surdo Jove
  136. No ânimo guarda para Heitor a glória.
  137. Nas outras portas outras pugnas fervem;
  138. Mas narrar tudo, como um deus, não posso.
  139. Em fogo rochas contra os muros voam:
  140. Mestos é força que os Aqueus propugnem,
  141. Mestos estão seus protetores numes.
  142. Os Lápitas carregam. Polipetes,
  143. Atalhando-lhe o ardor, pela viseira,
  144. Cujo metal não veda a cúspide érea
  145. De esmiolá-lo, a Dâmaso lanceia;
  146. Pilon de igual maneira e Ormeno caem.
  147. Furioso Leonteu, Mavórcio ramo,
  148. Filho de Antímaco, ao talim de um bote
  149. A Hipómaco traspassa; o gládio puxa,
  150. Rábido pela turba, e ressupino
  151. Deita por terra Antífate; uns sobre outros,
  152. Vai prostrando a Menon, Jameno e Orestes.
  153. Enquanto eles cadáveres desarmam,
  154. Polidamas e Heitor mor cópia guiam
  155. De ousados campeões, que anelam brecha
  156. Abrir no muro e incendiar a frota.
  157. Indo o fosso a transpor, à borda hesitam;
  158. Porque à sestra águia altívola pairando,
  159. Nas unhas traz cruento e palpitante
  160. Vivo enorme dragão, não descuidoso
  161. De morder contorcido o peito e o colo
  162. Da ave roubaz, que em agra dor e aos guinchos
  163. O larga em terra, e d’aura ao sopro adeja.
  164. Do Egíaco o portento, o maculado
  165. Réptil, assombra e assusta; e Polidamas
  166. Vira-se para Heitor: “Heitor, meu voto
  167. Costumas reprovar; mas é desdouro
  168. De um cidadão, no campo ou na assembléia,
  169. Servir o teu poder contra a verdade.
  170. Franco serei: do assalto às naus cessemos.
  171. Do ávido arrojo à esquerda a revocar-nos
  172. Águia altaneira vivo e ensangüentado
  173. Esse dragão deixou cair das unhas,
  174. Sem levá-lo por cevo ao caro ninho:
  175. Assim, bem que, envidando o extremo esforço,
  176. Portas e muros aos Gregos arrombemos,
  177. Pelo mesmo caminho à retirada
  178. Nos forçarão das naus os defensores,
  179. Com perda imensa. É como o interpretara
  180. Áugur perito, e o povo obedecera.”
  181. Minaz Heitor: “Pungente és, Polidamas;
  182. Sabes tu que opinar melhor podias:
  183. Se falas sério, a mente o Céu turvou-te.
  184. Do Altitonante o aceno e mando esqueces,
  185. E por aves guiar-me ali-espalmadas
  186. Queres, das quais nem curo nem me importa,
  187. Voem da destra para o sol e aurora,
  188. Ou da sinistra para o ocaso e trevas.
  189. Ouvir cumpre o senhor de homens e deuses:
  190. Combater pela pátria, ótimo agouro!
  191. Temes pugnar? Em torno à frota Argiva
  192. Outros acabarão, não tu, covarde
  193. Sem ímpeto e firmeza. Mas, se fora
  194. Da ação te vejo, ou seduzindo a outrem,
  195. Ao gume desta lança a vida expiras.”
  196. Disse, e acomete; voz em grita, o seguem.
  197. Do Ida o Fulminador, por dar-lhe a glória,
  198. Tufão manda, que em nuvens de poeira
  199. Afoga os vasos e amolenta os Gregos.
  200. No esforço e no sinal firmes os Teucros,
  201. Toda a muralha derrocar tentavam:
  202. Os parapeitos e merlões demolem,
  203. De alavancas pilares desmantelam,
  204. Os principais das torres fundamentos,
  205. Brecha esperando abrir. Mas não recuam
  206. Inda os Aqueus; de tarjas premunidos,
  207. Vão da ameia frechando os que a subiam.
  208. De torre a torre os dois Ajax correndo,
  209. Aos frouxos brando animam, duro increpam:
  210. “Amigos, do mais fraco ao mais valente
  211. Necessitamos na aflição que vedes;
  212. Não cabe a todos ser no prélio exímios:
  213. Sem temor de alaridos, exortai-vos;
  214. Avante, a fuga é vil. Talvez o Olímpio
  215. Rechaçá-los nos faça até seus muros.”
  216. Isto excita e afervora. Em dia hiberno,
  217. Quando aos homens despede o Fulgurante
  218. Bastas lanças de gelo, eis calam ventos,
  219. Constante em flocos neva, dealbando
  220. Vértices, cumes, hortos, veigas, prados;
  221. Mesmo encanece o mar no porto e praia,
  222. Mas vaga assídua o branco véu desmancha
  223. Com que Júpiter cobre a natureza:
  224. De parte a parte, assim granizam pedras;
  225. Burburinho e fragor no campo ecoam.
  226. Mas não quebrara Heitor com seus Troianos
  227. Portas e barras, se o prudente Padre
  228. O seu bravo Sarpédon aos Grajúgenas,
  229. Como um leão a touros, não lançasse.
  230. Ao peito ênea rodela, onde hábil fabro
  231. Dúcteis lâminas pulcras adaptara
  232. De bois a denso espólio e de ouro as orlas,
  233. Brande hastas duas. Quando o rei dos bosques
  234. Faminto vaga em busca de carniça,
  235. O guardado curral tenta animoso
  236. Contra zagais alerta e bons rafeiros,
  237. Nem sofre ser da empresa repelido,
  238. Sem que roube carneiro ou dardo o fira:
  239. É como o herói divino audaz empreende
  240. Romper o muro e derribar trincheiras.
  241. Eis de Hipóloco o filho assim perora:
  242. “Glauco, por que na Lícia o primo assento,
  243. Carnes e pleno o copo e as honras temos
  244. De numes, e do Xanto à riba herdades,
  245. Vasto ameno pomar, vinhedo e lavras?
  246. É para hoje ocuparmos a vanguarda
  247. Na ardente luta, a fim que um Lício diga:
  248. — Nossos reis não debalde ovelhas gordas
  249. Ou doce vinho logram; pois valentes
  250. À testa nossa gloriosos marcham. —
  251. Amigo, se esquivando ora esta guerra,
  252. À velhice escapássemos e à morte,
  253. Nem combatera eu mesmo, nem te instara
  254. Pela fama a pugnar; mas dos mil transes
  255. Letais ninguém se exime: eia, ganhemos
  256. Ou demos a ganhar embora a palma.”
  257. Glauco não se escusou. Da gente Lícia
  258. À frente ao vê-los Menesteu Petides
  259. A torre que defende ameaçando,
  260. Estremeceu: procura alguém de roda
  261. Que o auxilie, e os dois Ajax, no posto,
  262. Avista insaciáveis de pelejas,
  263. Com Teucro ao pé, da tenda há pouco vindo.
  264. Era em vão seu bradar, que os céus troavam
  265. De escudos e comados capacetes
  266. Ao choque e estrépido, ao rumor das portas
  267. Que batidas a um tempo restrugiam;
  268. Logo a Toon: “Vai, nobre arauto, parte,
  269. Chama, chama os Ajax, e acudam ambos;
  270. Fero aqui tem de ser em breve o estrago;
  271. Os Lícios cabos de furor provado
  272. Em tanto encontro, sobre nós desfecham.
  273. Se márcia lida o embarga, o Telamônio
  274. Venha ao menos com Teucro arciperito.”
  275. O arauto ao longo da muralha corre:
  276. “A vós, Ajax, dos Gregos lorigados
  277. Chefes de prol, Vos pede ajuda o filho
  278. De Peteu o caro a Jove, ambos segui-me
  279. Um momento sequer; em breve o estrago
  280. Tem lá de ser maior, por onde assaltam
  281. Os Lícios cabos de furor provado.
  282. Se márcia lida o embarga, o Telamônio
  283. Venha ao menos com Teucro arciperito.”
  284. Ao de Oileu presto fala o companheiro:
  285. “Ajax, tu e o robusto Licomedes
  286. Excitai com firmeza o ardor Aquivo;
  287. Vou socorrê-lo, e cá serei de volta,
  288. Removido o perigo.” Disse, e marcha
  289. Mais Teucro irmão paterno, e vai com ele
  290. Pandion que de Teucro os arcos leva.
  291. Na torre já, do muro atrás se postam
  292. No instante em que da Lícia os reis e os cabos
  293. A ameia em negro turbilhão trepavam:
  294. Foi rijo o encontro, horríssono o tumulto.
  295. No ardido Epicles, de Sarpédon sócio,
  296. Estréia Ajax, lascando enorme cimo
  297. De um dos merlões, que o jovem mais florente
  298. Hoje com duas mãos nem levantara;
  299. Alça o braço o mais alto, e o canto o elmo
  300. De quatro cones fende e o crânio racha:
  301. Da torre Epicles de mergulho tomba,
  302. E a vida os ossos deixa. Teucro o pulso,
  303. Onde o viu nu, frechou do Hipoloquides
  304. Que o muro ia subindo: ele, cessando,
  305. Saltou furtivo, aos olhos subtraiu-se
  306. E às vaias dos Aqueus. Ausente Glauco,
  307. Dói a Sarpédon, que não larga a pugna;
  308. Segue e ao Testórida Alacmaon vulnera,
  309. Despega a lança, e o triste cai de bruços;
  310. Toa êneo vário arnês. Nervudos punhos
  311. Deita aos merlões, e inteiro um traz consigo:
  312. O muro é descoberto, é feita a brecha.
  313. Eis Teucro e Ajax. De frecha em torno aos peitos
  314. Alcança Teucro a lúcida correia
  315. Do vasto escudo: ao filho ampara Jove;
  316. Que ante as popas acabe não permite.
  317. De um bote ao mesmo escudo Ajax repele-o:
  318. Susta-se um pouco, mas não perde o fogo
  319. O Lício herói, na glória esperançado;
  320. Vira-se e clama: “Ó sócios, esquecei-vos
  321. Da honra e intrepidez? Posso eu valente
  322. Rasgar sozinho a brecha e abrir a estrada?
  323. Vamos, das naus o ataque a todos cumpre.”
  324. De pejo então os Lícios mais refervem
  325. Rodeando o seu rei; dentro os Aquivos,
  326. Na urgente pressa, as hostes corroboram:
  327. Nem pode o esforço de uns ir mais avante,
  328. Nem o de outros vedar o acesso ao muro.
  329. Quando em campo comum seus marcos fixam,
  330. De medida nas mãos, dois litigantes
  331. O terreno disputam palmo a palmo:
  332. Tal a ameia os separa. Aos peitos roncam
  333. Harto o pavês, a tarja, a leve adarga:
  334. Feridos pela frente, expiram muitos;
  335. Ai do que mostra as costas e as desnuda!
  336. Sevo bronze as traspassa e ao próprio escudo.
  337. Torres e parapeito escorrem sangue,
  338. Sem que ou Dânao repeda ou Lício avance.
  339. Qual de honesta mulher, para que aos filhos,
  340. Traga o duro salário, as conchas libram
  341. O peso e as lãs, iguala-se a peleja,
  342. Até que Jove a Heitor conceda a glória
  343. De entrar primeiro o muro. A voz tonante
  344. Ei-lo esforça: “Investi, briosos Teucros,
  345. Muro em terra, e na frota a voraz chama.”
  346. Na orelha a todos retiniu seu brado:
  347. Remetem logo, ao parapeito sobem,
  348. Lança nas mãos. Heitor pontuda e grossa
  349. Pedra arrancou da verga de uma porta,
  350. Que ora nem dois forçudos camponeses
  351. Poderiam mover, sem carreá-la:
  352. Por Jove aligeirada, ele a maneja,
  353. Como simples tosão que em sua esquerda
  354. Mal o ovelheiro sente; vai direito
  355. Ao biforme portão de bastas pranchas,
  356. Que muniam por dentro encruzilhadas
  357. Barras duas e enorme fechadura;
  358. Por não falhar o tiro, o herói de perto,
  359. Alarga as pernas e nos pés se estriba;
  360. Rechina o grave seixo; os gonzos parte;
  361. Batentes e portais horrendo estralam;
  362. Cedem barras, pranchões uns contra os outros
  363. Se despedaçam. Pula Heitor, medonho
  364. Como escuro bulcão; brande hastas duas,
  365. Fulgura em bronze, os lumes lhe chamejam;
  366. No ímpeto um deus somente o suspendera.
  367. A transpor a trincheira instiga os Troas:
  368. Quais a ameia superam, quais transcendem
  369. As broncas portas. Em tropel os Gregos
  370. Às naus se acolhem, num ruído imenso. * * *

Nota a nota · 5 notas

v. 22De pedra e estacas de labor tamanho
Lavor ou labor vem do latim labor; mas em português [há] diferença: lavor significa as mais das vezes uma obra artif[icial], é sempre trabalho penoso.
↩ voltar ao verso 22
v. 37Tiros e tiros; bem que o mate o brio,
Digo eu — bem que o mate o brio —, tomando o do[?] Homero no sentido de posto que, como o fez Monti: no sen[?] ou porem, que é o usual, fica o lugar ininteligível. Creio [que] quer dizer que o leão ou o javali, ainda que morra ou se exp[?]te, não recua nem foge mas acomete com brio.
↩ voltar ao verso 37
v. 134–135Aqueles, bem que dois, só prisioneiros
Prin g’n’è kataktamen né álónai, é interpreta[?] vis Homerica: “Antequam vel interficiantur vel capiantur[]raquo; [?]pretação latina diz assim; “Antequam vel interficiant alios [?]piantur.” A última explicação, adotada por M. Giguet, [?]pire a ser mais literal, não apresenta um sentido claro e n[?] a primeira com Monti. Rochefort, por fugir à dificuldade [?] passagem.
↩ voltar à passagem, v. 134
v. 290Pandion que de Teucro os arcos leva.
Homero, mais Virgilo, usam arcos no plural por [sin]gular, elegância própria do grego e do latim; mas aqui pa[rece] se deve conservar o plural; o pajem Pandion leva mais de um [?] possível de quebrar-se o que Teucro trazia nas mãos. Quant[?] não se importaram desta miudeza.
↩ voltar ao verso 290
v. 359Alarga as pernas e nos pés se estriba;
Alguns, não Monti que foi exatíssimo, omitiram [?]dade exprimida no texto pelas palavras Eu diabas com as p[?] e separadas, firmiter divaricatis cruribus stans, como diz o [?] latino; não refletiram que era uma circunstância muito [?] Heitor alargou as pernas para melhor firmar-se; ação nat[ural entre] os lutadores, para não serem facilmente derribados, costu[?] mesmo. Pode bem um tradutor, e até creio que é seu de[ver como] opinei em outro lugar, passar em silêncio epítetos em deu[?] dos, contanto que saiba escolher as ocasiões em que tais epí[tetos] acrescentem à situação; mas nunca deve pôr de parte a mai[?] [?]vacão do autor, se aspira à honra de ser fiel.
↩ voltar ao verso 359
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