Enquanto cura a Eurípilo o Menécio
370 versos · 5 notas do tradutor
- Enquanto cura a Eurípilo o Menécio,
- Renhia-se o conflito; nem já fosso
- Nem já larga trincheira às naus valia.
- Feita sem hecatombes tal defensa
- Da frota e presa opima, em ódio aos numes,
- Longa dura não teve. Irado Aquiles,
- Vivo Heitor, inda assente a régia Tróia,
- Era em pé dos Aqueus o ingente muro;
- Dos Frígios morta a flor, ao décimo ano
- Destruída a cidade, e retirados
- Os restantes Grajúgenas, as obras
- Tratou com Febo de assolar Netuno.
- O Careso, o Heptaporo, o Esepo, o Ródio,
- O Reso, o Grânico, o divino Xanto,
- O Símois, que revolto escudos e elmos
- E heróis muitos rolara, quantos rios
- Prorrompe do Ida ao mar, Apolo a todos
- As fozes convertendo, nove dias
- Juntos os remessou contra as muralhas;
- Jove a chover mais presto as aluía;
- De tridente Netuno os alicerces
- De pedra e estacas de labor tamanho
- Para o pego empuxava, até que ao longo
- Do rápido Helesponto aplanou tudo:
- Na areia litoral submerso o muro,
- No álveo entrou cada rio, como dantes
- Formoso a deslizar. Netuno e Apolo
- Tinham de assim fazer: mas ígneo prélio
- Então zurrava em torno dos reparos,
- Traves das torres a soar batidas.
- Flagelados por Jove se metiam
- Nas cavas naus os Dânaos, receosos
- Do artífice da fuga Heitor violento,
- Que inda era um furacão. Se os lumes sevos
- Leão vibra ou javardo a cães e à turba,
- Amiudam-lhe em quadrado os caçadores
- Tiros e tiros; bem que o mate o brio,
- Não treme ou retrocede, gira e tenta,
- E por onde assalteia as linhas cedem:
- Assim desfecha Heitor, que anima os sócios
- A transcursar o fosso. À borda hesitam
- A nitrir os corcéis, que, largo e fundo,
- Árduo era de saltar-se e intransitável:
- Com precipícios em redor, por cima
- Hirtos estrepes, do inimigo empeços,
- Volúvel carro a custo o passaria;
- Mas passá-lo os pedestres almejavam.
- A Heitor avizinhou-se Polidamas:
- “Temerário, e vós Teucros e aliados,
- Impelirmos ao fosso os corredores!
- Vendo não estais o perigoso passo,
- Pontudos paus e por detrás o muro?
- A cavalo vencê-lo é-nos defeso,
- E naquela estreitura o dano é certo.
- Se nos ama o Tonante e quer perdê-los,
- Sem glória acabem já, da pátria longe;
- Porém, se em novo ataque nos repelem,
- Seremos nesse fosso despenhados,
- Sem nos restar quem leve o anúncio a Tróia.
- Ouvi-me pois: à borda os pajens fiquem
- Os ginetes contendo, e a pé densados
- Sigamos nós a Heitor; se é vinda aos Gregos
- A luz funesta, relutar não podem.”
- Aceito o justo aviso, Heitor em armas
- Logo se apeia, e o mesmo os outros fazem;
- Cada auriga os frisões retém mandado.
- Formam-se em corpos cinco: ao de mais gente,
- Mais duro e ansioso de romper os valos,
- Heitor comanda e o celso Polidamas,
- E também Cebrion, que Heitor escolhe
- E a outrem menos bravo o coche entrega;
- Ao segundo Alcatôo, Agenor, Páris;
- Ao terceiro, os Priâmeos sábio Heleno
- E divinal Deifobo, mais de Arisba
- Ásio Hirtácio, que em nítidos cavalos
- Das margens do Seleis ali viera;
- Ao quarto, o egrégio Anquíseo, e os Antenórios
- Hábil Arquéloco e pugnaz Acamas;
- Ao quinto enfim, de ilustres coligados
- Sarpédon, Glauco e Asteropeu mavórcio.
- Eis os fortes que Heitor mais tinha em preço
- Depois de si, fortíssimo de todos.
- Num grupo, à sombra de bovinas tarjas,
- Dão sobre os Dânaos, que encerrados criam,
- Sem resistirem, nos escuros bojos.
- A Polidamas Teucros e os mais chefes,
- Menos o príncipe Ásio, obedeceram:
- Insensato! Os corcéis (ruim fado o empuxa)
- Não larga e às naus se envia; mas ovante
- Não voltará seu coche a Ílion soberba;
- Infensa o enreda a Parca e o vota à lança
- De Idomeneu Deucálida. À sinistra,
- Por onde à frota os équites Aquivos
- Voltavam, trota, e abertas inda as portas
- Acha de par em par e destrancadas,
- Para Aqueus fugitivos recolherem.
- Altivo o carro expede, e os seus dementes
- Seguem-no a gritos, crendo abordo os Gregos;
- Mas dois robustos Lápitas o empecem,
- De Peritôo o filho Polipetes
- O homicida Leonteu parelho a Marte:
- Quais em montes carvalhos corpulentos,
- Que, a chuvas renitindo e a ventanias,
- Têm-se às grossas raízes penetrantes;
- Eles, no braço e no valor fiados,
- Às portas o grande Ásio esperam quedos.
- Contra o muro a fremir, de escudos no alto,
- Na trilha de Ásio vão, do filho Acamas,
- De Enomao e Toom, Jameno e Orestes:
- À exortação dos Lápitas acodem
- Grevados Gregos, mas do assalto a vista
- Fuga e alarido gera. Os dois rompentes
- São feros javalis que, em brenha ouvindo
- Bulha de gente e cães, de esguelha investem,
- Quebram da selva e desarreigam troncos,
- E até que um dardo os mate os queixos rangem:
- Aos peitos seus, daqui dali ferido,
- Ronca o fulgente bronze; afoutos pugnam
- Em si, nas tropas que das torres chovem,
- De naus e tendas em defesa, pedras.
- Qual tufão, sacudindo opacas nuvens,
- Lança em flocos a neve n’alma terra;
- Assim das mãos Aquivas e Troianas
- Manavam tiros, os calhaus zuniam,
- Broquéis e elmos do choque estrepitavam.
- Gemendo o Hirtácio rei, nas ancas bate,
- A blasfemar: “Ó Júpiter, mentiste!
- Não pensava que Dânaos todo o esforço
- Das nossas mãos invictas sustentassem.
- Quando em áspera toca nidificam
- Fuscas vespas e abelhas, nunca deixam,
- Porém tenazes em favor do enxame
- Ferram-se aos crestadores: tais à entrada
- Aqueles, bem que dois, só prisioneiros
- Hão-de render-se ou mortos.” Surdo Jove
- No ânimo guarda para Heitor a glória.
- Nas outras portas outras pugnas fervem;
- Mas narrar tudo, como um deus, não posso.
- Em fogo rochas contra os muros voam:
- Mestos é força que os Aqueus propugnem,
- Mestos estão seus protetores numes.
- Os Lápitas carregam. Polipetes,
- Atalhando-lhe o ardor, pela viseira,
- Cujo metal não veda a cúspide érea
- De esmiolá-lo, a Dâmaso lanceia;
- Pilon de igual maneira e Ormeno caem.
- Furioso Leonteu, Mavórcio ramo,
- Filho de Antímaco, ao talim de um bote
- A Hipómaco traspassa; o gládio puxa,
- Rábido pela turba, e ressupino
- Deita por terra Antífate; uns sobre outros,
- Vai prostrando a Menon, Jameno e Orestes.
- Enquanto eles cadáveres desarmam,
- Polidamas e Heitor mor cópia guiam
- De ousados campeões, que anelam brecha
- Abrir no muro e incendiar a frota.
- Indo o fosso a transpor, à borda hesitam;
- Porque à sestra águia altívola pairando,
- Nas unhas traz cruento e palpitante
- Vivo enorme dragão, não descuidoso
- De morder contorcido o peito e o colo
- Da ave roubaz, que em agra dor e aos guinchos
- O larga em terra, e d’aura ao sopro adeja.
- Do Egíaco o portento, o maculado
- Réptil, assombra e assusta; e Polidamas
- Vira-se para Heitor: “Heitor, meu voto
- Costumas reprovar; mas é desdouro
- De um cidadão, no campo ou na assembléia,
- Servir o teu poder contra a verdade.
- Franco serei: do assalto às naus cessemos.
- Do ávido arrojo à esquerda a revocar-nos
- Águia altaneira vivo e ensangüentado
- Esse dragão deixou cair das unhas,
- Sem levá-lo por cevo ao caro ninho:
- Assim, bem que, envidando o extremo esforço,
- Portas e muros aos Gregos arrombemos,
- Pelo mesmo caminho à retirada
- Nos forçarão das naus os defensores,
- Com perda imensa. É como o interpretara
- Áugur perito, e o povo obedecera.”
- Minaz Heitor: “Pungente és, Polidamas;
- Sabes tu que opinar melhor podias:
- Se falas sério, a mente o Céu turvou-te.
- Do Altitonante o aceno e mando esqueces,
- E por aves guiar-me ali-espalmadas
- Queres, das quais nem curo nem me importa,
- Voem da destra para o sol e aurora,
- Ou da sinistra para o ocaso e trevas.
- Ouvir cumpre o senhor de homens e deuses:
- Combater pela pátria, ótimo agouro!
- Temes pugnar? Em torno à frota Argiva
- Outros acabarão, não tu, covarde
- Sem ímpeto e firmeza. Mas, se fora
- Da ação te vejo, ou seduzindo a outrem,
- Ao gume desta lança a vida expiras.”
- Disse, e acomete; voz em grita, o seguem.
- Do Ida o Fulminador, por dar-lhe a glória,
- Tufão manda, que em nuvens de poeira
- Afoga os vasos e amolenta os Gregos.
- No esforço e no sinal firmes os Teucros,
- Toda a muralha derrocar tentavam:
- Os parapeitos e merlões demolem,
- De alavancas pilares desmantelam,
- Os principais das torres fundamentos,
- Brecha esperando abrir. Mas não recuam
- Inda os Aqueus; de tarjas premunidos,
- Vão da ameia frechando os que a subiam.
- De torre a torre os dois Ajax correndo,
- Aos frouxos brando animam, duro increpam:
- “Amigos, do mais fraco ao mais valente
- Necessitamos na aflição que vedes;
- Não cabe a todos ser no prélio exímios:
- Sem temor de alaridos, exortai-vos;
- Avante, a fuga é vil. Talvez o Olímpio
- Rechaçá-los nos faça até seus muros.”
- Isto excita e afervora. Em dia hiberno,
- Quando aos homens despede o Fulgurante
- Bastas lanças de gelo, eis calam ventos,
- Constante em flocos neva, dealbando
- Vértices, cumes, hortos, veigas, prados;
- Mesmo encanece o mar no porto e praia,
- Mas vaga assídua o branco véu desmancha
- Com que Júpiter cobre a natureza:
- De parte a parte, assim granizam pedras;
- Burburinho e fragor no campo ecoam.
- Mas não quebrara Heitor com seus Troianos
- Portas e barras, se o prudente Padre
- O seu bravo Sarpédon aos Grajúgenas,
- Como um leão a touros, não lançasse.
- Ao peito ênea rodela, onde hábil fabro
- Dúcteis lâminas pulcras adaptara
- De bois a denso espólio e de ouro as orlas,
- Brande hastas duas. Quando o rei dos bosques
- Faminto vaga em busca de carniça,
- O guardado curral tenta animoso
- Contra zagais alerta e bons rafeiros,
- Nem sofre ser da empresa repelido,
- Sem que roube carneiro ou dardo o fira:
- É como o herói divino audaz empreende
- Romper o muro e derribar trincheiras.
- Eis de Hipóloco o filho assim perora:
- “Glauco, por que na Lícia o primo assento,
- Carnes e pleno o copo e as honras temos
- De numes, e do Xanto à riba herdades,
- Vasto ameno pomar, vinhedo e lavras?
- É para hoje ocuparmos a vanguarda
- Na ardente luta, a fim que um Lício diga:
- — Nossos reis não debalde ovelhas gordas
- Ou doce vinho logram; pois valentes
- À testa nossa gloriosos marcham. —
- Amigo, se esquivando ora esta guerra,
- À velhice escapássemos e à morte,
- Nem combatera eu mesmo, nem te instara
- Pela fama a pugnar; mas dos mil transes
- Letais ninguém se exime: eia, ganhemos
- Ou demos a ganhar embora a palma.”
- Glauco não se escusou. Da gente Lícia
- À frente ao vê-los Menesteu Petides
- A torre que defende ameaçando,
- Estremeceu: procura alguém de roda
- Que o auxilie, e os dois Ajax, no posto,
- Avista insaciáveis de pelejas,
- Com Teucro ao pé, da tenda há pouco vindo.
- Era em vão seu bradar, que os céus troavam
- De escudos e comados capacetes
- Ao choque e estrépido, ao rumor das portas
- Que batidas a um tempo restrugiam;
- Logo a Toon: “Vai, nobre arauto, parte,
- Chama, chama os Ajax, e acudam ambos;
- Fero aqui tem de ser em breve o estrago;
- Os Lícios cabos de furor provado
- Em tanto encontro, sobre nós desfecham.
- Se márcia lida o embarga, o Telamônio
- Venha ao menos com Teucro arciperito.”
- O arauto ao longo da muralha corre:
- “A vós, Ajax, dos Gregos lorigados
- Chefes de prol, Vos pede ajuda o filho
- De Peteu o caro a Jove, ambos segui-me
- Um momento sequer; em breve o estrago
- Tem lá de ser maior, por onde assaltam
- Os Lícios cabos de furor provado.
- Se márcia lida o embarga, o Telamônio
- Venha ao menos com Teucro arciperito.”
- Ao de Oileu presto fala o companheiro:
- “Ajax, tu e o robusto Licomedes
- Excitai com firmeza o ardor Aquivo;
- Vou socorrê-lo, e cá serei de volta,
- Removido o perigo.” Disse, e marcha
- Mais Teucro irmão paterno, e vai com ele
- Pandion que de Teucro os arcos leva.
- Na torre já, do muro atrás se postam
- No instante em que da Lícia os reis e os cabos
- A ameia em negro turbilhão trepavam:
- Foi rijo o encontro, horríssono o tumulto.
- No ardido Epicles, de Sarpédon sócio,
- Estréia Ajax, lascando enorme cimo
- De um dos merlões, que o jovem mais florente
- Hoje com duas mãos nem levantara;
- Alça o braço o mais alto, e o canto o elmo
- De quatro cones fende e o crânio racha:
- Da torre Epicles de mergulho tomba,
- E a vida os ossos deixa. Teucro o pulso,
- Onde o viu nu, frechou do Hipoloquides
- Que o muro ia subindo: ele, cessando,
- Saltou furtivo, aos olhos subtraiu-se
- E às vaias dos Aqueus. Ausente Glauco,
- Dói a Sarpédon, que não larga a pugna;
- Segue e ao Testórida Alacmaon vulnera,
- Despega a lança, e o triste cai de bruços;
- Toa êneo vário arnês. Nervudos punhos
- Deita aos merlões, e inteiro um traz consigo:
- O muro é descoberto, é feita a brecha.
- Eis Teucro e Ajax. De frecha em torno aos peitos
- Alcança Teucro a lúcida correia
- Do vasto escudo: ao filho ampara Jove;
- Que ante as popas acabe não permite.
- De um bote ao mesmo escudo Ajax repele-o:
- Susta-se um pouco, mas não perde o fogo
- O Lício herói, na glória esperançado;
- Vira-se e clama: “Ó sócios, esquecei-vos
- Da honra e intrepidez? Posso eu valente
- Rasgar sozinho a brecha e abrir a estrada?
- Vamos, das naus o ataque a todos cumpre.”
- De pejo então os Lícios mais refervem
- Rodeando o seu rei; dentro os Aquivos,
- Na urgente pressa, as hostes corroboram:
- Nem pode o esforço de uns ir mais avante,
- Nem o de outros vedar o acesso ao muro.
- Quando em campo comum seus marcos fixam,
- De medida nas mãos, dois litigantes
- O terreno disputam palmo a palmo:
- Tal a ameia os separa. Aos peitos roncam
- Harto o pavês, a tarja, a leve adarga:
- Feridos pela frente, expiram muitos;
- Ai do que mostra as costas e as desnuda!
- Sevo bronze as traspassa e ao próprio escudo.
- Torres e parapeito escorrem sangue,
- Sem que ou Dânao repeda ou Lício avance.
- Qual de honesta mulher, para que aos filhos,
- Traga o duro salário, as conchas libram
- O peso e as lãs, iguala-se a peleja,
- Até que Jove a Heitor conceda a glória
- De entrar primeiro o muro. A voz tonante
- Ei-lo esforça: “Investi, briosos Teucros,
- Muro em terra, e na frota a voraz chama.”
- Na orelha a todos retiniu seu brado:
- Remetem logo, ao parapeito sobem,
- Lança nas mãos. Heitor pontuda e grossa
- Pedra arrancou da verga de uma porta,
- Que ora nem dois forçudos camponeses
- Poderiam mover, sem carreá-la:
- Por Jove aligeirada, ele a maneja,
- Como simples tosão que em sua esquerda
- Mal o ovelheiro sente; vai direito
- Ao biforme portão de bastas pranchas,
- Que muniam por dentro encruzilhadas
- Barras duas e enorme fechadura;
- Por não falhar o tiro, o herói de perto,
- Alarga as pernas e nos pés se estriba;
- Rechina o grave seixo; os gonzos parte;
- Batentes e portais horrendo estralam;
- Cedem barras, pranchões uns contra os outros
- Se despedaçam. Pula Heitor, medonho
- Como escuro bulcão; brande hastas duas,
- Fulgura em bronze, os lumes lhe chamejam;
- No ímpeto um deus somente o suspendera.
- A transpor a trincheira instiga os Troas:
- Quais a ameia superam, quais transcendem
- As broncas portas. Em tropel os Gregos
- Às naus se acolhem, num ruído imenso. * * *