Ronda-se a praça. Os Dânaos sobre-humano
583 versos · 6 notas do tradutor
- Ronda-se a praça. Os Dânaos sobre-humano
- Abalo invade, irmão de frio medo;
- Agro luto os fortíssimos domina.
- Qual da Trácia a roncar Zéfiro e Bóreas,
- Incha a piscoso ponto, e escarcéu turvo
- Em monte arqueia e de alga inunda as praias;
- Tal borrasca aos Aqueus revolve o seio.
- Chagado n’alma o Atrida, arautos manda
- Convocar em segredo a flor dos sócios,
- E ele alguns sem estrépito procura.
- Mal abanca o tristonho juntamento,
- Ergue-se, e como de árdua penha brota
- Negro olho d’água, em fio lagrimando,
- Fundo suspira: “Príncipes e amigos,
- Enredou-me o Satúrnio em lance infesto!
- Para a Grécia anuiu que eu só voltasse
- Depois de Ílio assolada, e quer arteiro
- Que, perdido o meu povo, inglório volte?
- Pois vença o prepotente, que há prostrado
- Muitas, e muitas prostrará cidades:
- Ele extirpar nos veda a excelsa Tróia;
- Naveguemos à pátria, eia, fujamos.”
- Silêncio em todos concentrou-se mudo,
- Que Diomedes quebranta belicoso:
- “A tal delírio oponho-me, Agamemnon.
- É jus deste conselho, e não te agraves.
- Perante jovens e anciãos, primeiro
- Tu de ignavo e cobarde me argüiste:
- O cetro e mando sumo deu-te o filho
- Do cálido Saturno, mas negou-te
- O maior dos poderes, a coragem.
- Louco? E esperas dos Graios a fraqueza
- De que os apodas? Se fugir cobiças,
- Foge; tens franco o mar, tens perto os vasos
- Que alterosos da Argólida esquipaste.
- Para exício de Tróia os mais cá ficam,
- E caso os Dânaos contamine o exemplo,
- Sós Diomedes e Estênelo bastamos
- A destruí-la: um nume nos protege.”
- O entusiasmo estronda, e Nestor surge:
- “És, Tidides, sem-par no márcio jogo,
- E entre os eqüevos ótimo discorres:
- Aqueu não há quem impugne e te conteste,
- Mas nem tudo previste. Bem puderas
- Ser meu filho menor, e a reis comados
- Falastes sério. Destas cãs blasono,
- E opinarei do mais: nenhum rejeite,
- Nem o máximo Atrida, meu conselho;
- Só deseja a intestina horrenda guerra
- Homem sem lar, sem teto, sem família.
- Mas ao repasto obriga a opaca sombra;
- Fora, esperta vigia e sentinelas:
- Isto encomendo aos jovens, que ordená-lo
- Toca-te, ó rei dos reis. É bom convides
- Os mais provectos: vinhos te sobejam,
- Que à Trácia em gregas naus contínuo exporta;
- O necessário tens, em cópia servos.
- Então se delibere, e o melhor colhas:
- Pouca é toda a prudência, que as fogueiras
- Dos inimigos junto às naus flamejam.
- Ah! quem se alegrará, quando esta noite
- Vai ressalvar o exército ou perdê-lo.”
- Ouvem-no, a guarda aprestam: sete cabos,
- O maioral Nestório Trasimedes,
- Os mavórcios Ascálafo e Jalmeno,
- Afareu, Merion, Deipiro, o nobre
- Licomedes Creôncio, rege hastatos
- Cada qual cem guerreiros; que, de vela
- Por entre o muro e o fosso iluminados,
- Curam da ceia. Aos próceres o Atrida
- Abre a tenda e os regala; os convidados
- Apegam-se às gostosas iguarias.
- Cheio o apetite, enceta o que antes sábio
- Tanto agradara, e seu discurso trama:
- “Dos varões glorioso augusto chefe,
- Por ti começo e acabo em ti: que Jove
- Dos povos concedeu-te a monarquia:
- Cabe-te expor aos príncipes teu voto,
- E o deles atender, se um mais discreto
- Se te inspirasse. Escuta-me e decide.
- Não pode haver mais salutar aviso
- Que este que em mim pondero, não só de hoje,
- Mas dês que, ó divo garfo, em sanha Aquiles,
- Da tenda arrebataste-lhe Briseida,
- Contra o nosso querer e meus esforços:
- Tu seu prêmio reténs; com dons e os obséquios
- De amaciá-lo o meio excogitemos.”
- “Sim, prudente ancião, responde o Atrida,
- Errei, confesso: o herói de Jove amado
- Batalhões equivale, e em honra sua
- Jove doma os Aqueus; mas, em desconto,
- Meus presentes magníficos o amolguem,
- E enumerá-los vou: trípodes sete
- Puras da chama, de ouro dez talentos,
- Caldeirões vinte esplêndidos, com doze
- Ungüíssonos que ao páreo vencedores,
- Me hão tais prêmios ganhado, que seu dono
- Do precioso metal não terá míngua.
- Sete acrescentarei prendadas moças,
- Que ele apresou na populosa Lesbos
- E entre as escravas elegi mais guapas.
- Irá Briseida mesma; e nunca, eu juro,
- Fui com ela varão, toquei seu leito.
- Isto já já; mas, quando apraza aos deuses
- Demolir as Priâmeas fortalezas,
- O espólio ao dividirmos, de ouro e bronze
- As naus cumule, e Teucras vinte escolha
- As mais belas depois de Argiva Helena.
- Se Argos Acaica ubérrima atingirmos,
- Seja meu genro, e igual ao próprio Orestes,
- Que, único herdeiro, na abundância medra.
- Hei filhas três no vasto meu palácio,
- Crisotêmis, Laódice e Ifianassa:
- A de seu gosto, sem que a dote, leve
- À casa de Peleu; cá me encarrego
- De a dotar, como nunca o foi donzela:
- Célebres lhe darei cidades sete,
- Cardâmile, Enope, Hira verdejante,
- Risonha Epéia, pascigosa Anteia,
- Pédaso uvífera, a sagrada Feres;
- Todas não longe da arenosa Pilos
- E à beira-mar, em gado e armento opimas,
- Têm gentes que o honorem como a nume,
- E amplos tributos a seu cetro paguem.
- Isto lhe oferto, se remite as iras:
- Ceda exorável, que Plutão por duro
- O deus é que os humanos mais odeiam;
- Ceda, que sou do que ele mais potente;
- Ceda, que sou do que ele mais idoso.”
- Inda o Gerênio: “Soberano egrégio,
- Dons não despiciendos lhe destinas.
- Legados, sus, ao pavilhão de Aquiles;
- Aqui mesmo os nomeio, e não recusem:
- Fênix guie, de Júpiter privado,
- O magno Ajax, o sapiente Ulisses,
- E arautos Hódio e Euríbates com eles.
- Águas às mãos, freio às línguas, deprequemos;
- De nós se comisere o deus supremo.”
- O aviltre aceitam: linfa arautos vertem,
- E de urnas coroadas vertem servos
- Dos auspicantes pelos copos vinho.
- Fartos de libações, iam saindo;
- Nestor a cada um lançando os olhos
- E ao Laértides mais, no empenho os firma
- De abrandar o magnânimo Pelides.
- Pelas do mar flutissonantes praias
- Ao padre Enosigeu vão suplicando
- Que as entranhas do Eácida comova.
- Já no arraial dos Mirmidões o encontram
- A recrear-se na artefata lira,
- Que travessa une argêntea, insigne presa
- Dos raros muros d’Etion: façanhas
- De valentes cantava, e só Pátroclo
- Tácito à espera está que finde o canto.
- Chegam-se, à testa Ulisses; e o Peleio
- Em pé, na sestra a lira, estupefato,
- Com seu fido consócio, as destras cerra:
- “Que urge? A que vindes? Bem que irado, amigos,
- Exulto ao ver os Dânaos que mais prezo.”
- À tenda eis se encaminha; sobre escanos
- De purpúreo tapete os acomoda,
- E ao seu dileto: “Na maior cratera
- Tu mescles do mais puro e aprontes copos;
- Caríssimos varões meu teto acolhe.”
- O camarada obedeceu contente.
- Ele, ante o lar, em cúpreo largo disco
- Dorso depôs de ovelha e gorda cabra
- E de um cevado os suculentos lombos:
- Automedon segura, o herói perito
- Em pessoa esposteja, enrosca e espeta;
- O Menécio deiforme atiça o fogo:
- Lânguida a flama, ao rúbido brasido
- Sobre as lareiras os espetos vira,
- De sal tempera-os sacro; todo assado
- Põe da cozinha à mesa, e o pão ministra
- Em lindos canistréis. Do Ítaco em face
- Toma a parede e as carnes trincha Aquiles;
- O sacrifício incumbe ao companheiro,
- Que ao fogo atira as divinais primícias.
- Deitam mãos dos manjares os convivas.
- Já satisfeitos, cabeceia a Fênix
- Ajax; Ulisses que o sinal percebe,
- Rasa o copo e alça o brinde: “Aquiles salve!
- Ou do Atrida na tenda, ou nesta agora,
- Semelhantes festins nos não falecem,
- Onde pratos gratíssimos abundam;
- Mas os dissaboreia o extremo risco
- Da instruta armada, se ó de Jove aluno,
- Da tua intrepidez te não revestes.
- Já da trincheira à vista acampam feros
- Os Teucros e os longínquos aliados,
- Que, acesas mil fogueiras, se gloriam
- De entrar sem resistência em nossos vasos.
- O Satúrnio propício lhes troveja:
- Nele estribado e em si, terrível senho
- Rola Heitor, e sanhudo não faz caso
- De homens nem de outros numes; freme e invoca
- O lento albor; às naus jura os aplustres
- Mesmo romper, despedaçar no incêndio
- Em cinza e fumo atônitos Aquivos.
- Tremo que se efetue essa ameaça;
- Que, longe das fecundas pátrias veigas,
- O céu nos fade a perecer em Tróia.
- Sus, bem que tarde, acode a aflita Grécia;
- Dor sentirás depois se a desamparas,
- Pois o mal consumado é sem remédio:
- Salva a tempo os Aqueus da fatal hora.
- Peleu de Ftia, amigo ao despedir-te,
- Para Agamemnon: — Filho meu, bradou-te,
- Minerva e Juno, se o quiserem, força
- Dêem-te e valor; sopeia tu no peito
- O orgulho e humano sê, de rixas foge,
- Por que moços e velhos te honrem sempre. —
- De tal pai tais conselhos esqueceste:
- Lembrem-te, enfreia as iras; se o fizeres
- Provarás as larguezas de Agamemnon.
- Ouve os dons que, em presença da Assembléia,
- O rei te destinou: trípodes sete
- Puras da chama, de ouro dez talentos,
- Caldeirões vinte esplêndidos, com doze
- Ungüíssonos que, ao páreo vencedores,
- Lhe hão tais prêmios ganhado, que seu dono
- Do precioso metal não terá míngua.
- Sete acrescentará prendadas moças
- Que em Lesbos apresaste populosa,
- E entre as escravas elegeu mais guapas.
- Virá Briseida mesma; e, jura, nunca
- Foi com ela varão, tocou seu leito.
- Isto já já; mas, quando apraza aos deuses
- Demolir as Priâmeas fortalezas
- O espólio ao dividirmos, de ouro e bronze
- As naus cumules, Teucras vinte escolha
- As mais belas depois de Argiva Helena.
- Se Argos Acaica ubérrima atingirmos,
- Serás seu genro e igual ao próprio Orestes,
- Que, único herdeiro, na abundância medra.
- Há filhas três no vasto seu palácio,
- Crisotêmis, Laódice e Ifianassa:
- A do teu gosto, sem que a dotes, leves
- À casa de Peleu; fica-lhe o encargo
- De a dotar, como nunca o foi donzela:
- Célebres haverás cidades sete,
- Cardâmile, Enope, Hira verdejante,
- Risonha Epéia, pascigosa Anteia,
- Pédaso uvífera, a sagrada Feres;
- Todas não longe da arenosa Pilos
- E à beira-mar, em gado e armento opimas,
- Têm gentes que te honorem como a nume,
- E amplos tributos a teu cetro paguem.
- Tanto promete, as iras se te aplaquem.
- Mas, se aborreces com seus dons o Atrida,
- Os consternados arraiais te movam,
- Que hão de às estrelas elevar teu nome.
- Anda, imola esse Heitor, que ousa afrontar-te.
- Raiva e alardeia que nenhum o iguala
- De quantos Gregos nossas naus trouxeram.”
- E o fogoso Pelides: “Sem rebuço,
- Dial sangue e astutíssimo Laércio,
- Declaro-te o que sinto, em que hei sentado;
- Nem mais teimem comigo, nem me azoinem.
- Qual do Orco as portas, abomino aquele
- Que de boca desmente o oculto n’alma.
- Descubro a minha: o Atrida não me dobra,
- Nem outro Grego, a tanto esforço ingratos
- O acre ou forte em conflito, o imbele ou frouxo
- Quinhão parelho têm e as mesmas honras;
- Têm o enérgico e o mole igual sepulcro.
- Que tirei de cruéis padecimentos,
- De infindos prélios, de hórridos perigos?
- Ave sou, que afamada olvida as penas,
- Pesquisando o cibato a implumes filhos.
- Noites insones, sanguinários dias
- Curti sem conto a contrastar guerreiros
- Pelas mulheres vossas. Praças doze
- Eu devastei por mar, onze por terra
- Nessas veigas Troianas. Vim de alfaias
- E espólios carregado, e à vista os punha
- De Agamemnon; que a bordo os ferrolhava,
- E poucos repartia a reis e a cabos.
- Estes os têm consigo: eu só dos Gregos,
- Fui da querida minha defraudado...
- Pois que durma e deleite-se com ela.
- Por que esta guerra? O exército Agamemnon
- Por causa não chamou da pulcra Helena?
- Atridas sós entre os falantes amam?
- Ama a consorte sua o reto e probo;
- Eu muito amava aquela, embora serva.
- Arrancou-ma falaz: pois basta, cesse
- De me tentar em vão. Contigo e os outros
- Busque, Ulisses, as naus livrar do incêndio.
- Sem mim já fez milagres, celsas torres,
- Profundo e largo fosso e paliçadas:
- Nem pode assim de Heitor suster o choque!
- Do fero Heitor, que nunca, eu posto em campo,
- Quis longe pelejar das portas Ceias,
- Nem da faia passar! um dia apenas
- Meu ímpeto arrostou; salvou-se a custo.
- O herói não mais profligo; e na alvorada,
- Assim que imole à corte e ao rei celeste,
- Meus baixéis bem providos se o desejas,
- Verás em nado, e ao som da ardente voga
- O piscoso Helesponto irem sulcando.
- Com favor de Netuno, à luz terceira
- Seremos nas de Ftia amigas várzeas.
- Riquezas lá deixei, partida infausta!
- Bronze e ouro, do sorteio, airosas moças,
- Ferro polido ajunto-lhes; que o dado
- O magnânimo Atrida retomou-me.
- Repete-lhe isto às claras ante os Gregos,
- Por que todos se indignem, se impudente
- Conta iludir algum. Protervo e ousado,
- O descoco não teve de encarar-me.
- Nem mais consulto, nem com ele trato:
- Enganou-me, ofendeu-me; é de sobejo.
- De mim descanse; ao precipício corra,
- Que o privou da razão previsto Jove.
- Como a escravo o desprezo e os dons lhe odeio:
- Nem que o décuplo e em dobro me ofertasse
- Do que amontoa e cobiçoso espera,
- Quanto Orcómeno importa, quanto a Egípcia
- Hecatômpila Tebas entesoura,
- Que, duzentos campeões de cada porta
- Vazando, carros vinte mil despede;
- Nem que prometa os mares e as areias,
- Me há de acalmar, sem que me pague o insulto
- Gota por gota. A filha, não lha quero,
- Vênus fosse em beleza, em lavor Palas:
- Aspire a genro de mais polpa e vulto.
- A preservar-me o Céu, de Hélade e Ftia
- Peleu me escolha algumas dentre as virgens
- De príncipes colunas dos Estados,
- E a que eu prefira me será consorte:
- O coração me pede grata esposa,
- Que se afeiçoe aos prédios meus paternos.
- São à vida inferiores os tesouros
- Que, antes do cerco, a populosa Tróia
- Em si continha, e as do vibrante Febo
- Da sáxea Pito do marmóreo templo:
- Reconquistar podemos bois e ovelhas,
- Trípodes e frisões de ruiva crina:
- Mas do encerro dos dentes a alma nossa
- Fora uma vez, não se recobra nunca,
- A mãe déia argentípede o meu duplo
- Fado abriu: se debelo a grã cidade,
- Não regresso, mas compro glória eterna;
- Se torno ao doce ninho, murcha a glória,
- Terei velhice longa e fim tardio.
- Os mais que voguem: não vereis o termo
- De Ílio escarpada; o mesmo Altitonante
- A mão lhe estende e exalta-lhe a coragem.
- Ide anunciar aos próceres, Aquivos,
- É dever de legados, que outro plano
- Tracem de proteger as naus e as tropas:
- Este falhou, persisto incontrastável.
- Pernoite Fênix, e amanhã me siga,
- Por gosto e não forçado, aos pátrios lares.”
- Tal dureza os contrista, e calam todos;
- Mas geme e chora o venerando Fênix,
- De mágoa e susto pela frota Argiva:
- “Se furente ir cogitas, sem livrares
- De ígnea peste os baixéis, como aqui, filho,
- Me abandonas? Contigo, estranho jovem
- À guerra e discussões que heróis afamam,
- Longevo o bom Peleu para Agamemnon
- De Ftia me expediu, que na loqüela
- Te amestrasse e no obrar: de ti repugno
- Desunir-me, ó querido, nem que um nume
- Conceba remoçar-me e enverdecer-me,
- Qual saí de Hélade em beldades fértil,
- Do Ormenida Amintor pai meu fugindo.
- Por flava pelice este a esposa ultraja;
- Para ter a comborça em asco o Velho,
- A mãe súplice instou-me a conhecê-la,
- E fi-lo assim; mas Amintor o aventa,
- Ruge e impreca às Eumênides que nunca
- Um nado meu nos joelhos se lhe pouse:
- Maldição tal os Céus, o inferno, Jove,
- A tremenda Prosérpina, escutaram.
- Então (quanto o furor nos cega e arrasta!)
- Pérfido eu quis... O braço um deus reteve,
- E me salvou de horrendo parricídio.
- Para ficar no antigo irado alvergue
- Faltou-me coração. Parentes obstam
- E amigos a rogar; degolam pretos
- Bífidos bois e ovelhas vicejantes,
- Ao fogo pelam saginados porcos,
- Os cangirões paternos se esvaziam.
- Dormindo ao pé de mim com luz constante,
- Por turno, um vela ao pórtico do pátio,
- Outro ao vestíbulo ante a minha alcova.
- Décima noite negrejando, alerta
- Forço e desfecho a porta o claustro pulo,
- Sem que o percebam guardas, nem mulheres,
- Corro a Hélade; em Ftia pecorosa
- Tratou-me o rei bem como único herdeiro
- Que em vastas possessões tardio houvesse;
- Nos confins de Ftiótide, opulentas
- Lavras doou-me; os Dólopes governo.
- Eu te criei com mimo e igual aos deuses;
- Nem com outro ir querias a banquetes,
- Ou em casa comer, sem que a meu colo
- Te saciasse partindo as iguarias,
- Regrando o vinho, que em vestido e seio
- Me arremessavas, caprichoso infante.
- Por ti que sofrimentos, que fadigas!
- Eu sem prole em ti via, ó alma grande,
- Filho que me valesse em dúbio transe.
- “Doma-te, essa aspereza mal te assenta:
- Rendem-se os deuses de maior virtude,
- Glória e poder; acalma-os o culpado
- Com libações e votos e holocaustos.
- Gérmen do Eterno, as enrugadas Preces,
- Coxas, vesgas, pós Ate se apressuram;
- Ate incansável, de robustas plantas,
- Remexe a terra e a vexa; atrás, as Preces
- A quem quer que as invoca o mal temperam:
- Ai do que as repelir! Subindo ao padre
- Exoram que Ate mesmo o fira e puna.
- Curva-te, Aquiles, do Satúrnio às filhas,
- Como os demais heróis também se curvam.
- Se, obstinado, o Atrida nem presentes
- Fizesse ou dons futuros, que amainasses
- Não te pedira, posto que de auxílio
- Precisamos os Gregos; mas dá muito,
- Muito promete, envia a suplicar-te
- Os do exército eleitos que mais amas;
- Nossos passos respeita e nosso empenho.
- A pertinácia tua era escusável;
- Mas de priscos varões nos conta a fama
- Que, se os picava a cólera, exoráveis,
- A brindes e razões eram sensíveis.”
- “Ora, amigos, me ocorre um velho exemplo.
- Na amena Calidona, encarniçados
- Batiam-se os Curetes e os Etólios,
- Estes por defender, ardendo aqueles
- Com fúria marcial por devastá-la.
- Da auritrônia Diana foi castigo,
- Porque Eneu, por olvido ou negligência
- Lhe falhou com primícias de agros férteis,
- Nem de outros imortais nas hecatombes
- A aquinhou: dorida a casta Febe
- De alvos colmilhos despediu javardo,
- Que o régio campo estraga, árvores prostra,
- Fruto e raízes confundindo e flores.
- Das vizinhanças, Meleagro Enides
- Chusmas de cães reúne e caçadores
- Para o poder matar; tamanha fera
- Muitos mandou primeiro à triste pira.
- A deusa entre os Etólios e os Curetes,
- Pela cabeça horrenda e hirsuta pele,
- Move guerra e tumulto. Enquanto o Marte
- Enides combatia, inda que imensos,
- O arraial os Curetes não largavam;
- Mas, de ira, que incha o peito aos mesmos sábios,
- Contra a mãe sua Alteia, em ócio esteve
- Junto à mulher Cleópatra, progênie
- Da Evemina Marpissa, cujo esposo
- Idas, então neste orbe o mais valente,
- Pela de pé mimoso casta ninfa
- De arco arrojou-se a Febo: Alcion em casa
- A apelidaram, pois da mãe saudosa,
- Que roubado lhe tinha o altifrecheiro:
- Como Alcion gemente suspirava.
- Ele nutria a sanha, porque Alteia
- Rogava aos numes, e das mãos ferindo
- A alma terra e de lágrimas lavada,
- Posta em joelhos, imprecava a Dite
- E à medonha Prosérpina que a vinguem
- Da morte dos irmãos no próprio filho:
- Do Erebo fundo Erínis despiedosa,
- Pelas trevas errando, ouviu-lhe as pragas.
- Às portas rui o estrondo e abala as torres:
- Disputam-lhe anciãos e sacerdotes
- A implorar que rechace os inimigos,
- Que no melhor da Calidona escolha
- Cinqüenta jeiras de fecundo prédio,
- Metade em vinhas e metade em lavras.
- Monta-lhe ao quarto o grave Eneu, cerrados
- Os batentes sacode e observa o filho;
- Arrependida a madre e irmãs suplicam,
- E companheiros e íntimos amigos:
- Ele tenaz renui, até que soube,
- No quarto os gritos a dobrar e os golpes,
- Dos muros a escalada e dentro o fogo.
- Aqui chorando o exora a bela esposa,
- Da cativa cidade os males pinta,
- Arquejando os varões, em cinza as casas,
- Presas virgens de rojo e as mães e os filhos.
- Tanto horror o comove; corre, veste
- Brilhantes armas, os Etólios salva
- Por ti, que à vista pulcros dons não tinha.
- Nenhum demônio, amigo, assim te influa;
- É pior socorrer as naus combustas:
- As dádivas recebe e vem conosco,
- Um deus serás aos Dânaos; se as recusas,
- Mas te demoras, menos honras alcanças,
- Bem que essa invicta mão remova a guerra.”
- Ei-lo então: “Fênix pai, dos Céus benquisto,
- Honras escuso; espero-as só de Jove,
- Que há de abordo reter-me, enquanto alento
- Haja o peito e sustentem-se os joelhos.
- No imo isto agora imprime: não me turbes
- Com mesto choro por amor do Atrida;
- Quero-te muito, em ódio não me sejas;
- A ti cabe agravar a quem me agrave.
- Estes que voltem, reina tu comigo.
- Meiado o meu poder, meiada a glória:
- Terás mórbida cama, e à luz da aurora,
- Se ficamos ou não, consultaremos.”
- A Pátroclo eis acena estenda o leito,
- A fim que os dois mais cedo se retirem.
- “Sábio Ulisses, rebenta Ajax divino,
- Laércio nobilíssimo, a caminho;
- Do bárbaro orgulhoso nada obtemos.
- Cumpre ao congresso, que por nós aguarda,
- Levar a atroz resposta, aos mesmos dada
- Que sem igual na frota o veneramos.
- Do irmão, do morto filho aceita a paga,
- Numa cidade congraçados vivem
- Ofendido e ofensor. No âmago alojas,
- Pelides sevo, um coração de bronze,
- Por conta de uma escrava, e te ofertamos
- Hoje beldades sete e mil presentes!
- Bane o despeito, reverente aos lares;
- Escolha dos Aquivos, tens em casa
- Amicíssimos teus que mais estimas.”
- “Bem dizes, torna Aquiles, generoso
- Príncipe Telamônio; mas a bílis
- Se me intumesce ao recordar a afronta
- Que em público me fez o audaz Atrida
- Como se eu fora ignóbil vagabundo.
- Porém desempenhar ide a mensagem:
- A sanguinosa guerra não me importa,
- Antes que aos Mirmidões o herói Priâmeo
- Com incêndio e matança o campo ataque;
- Da tenda e negra popa aqui pretendo
- Para sempre extinguir-lhe o márcio fogo.”
- Duplicôncova taça os dois empunham,
- Libam, vão-se, e o Laércio precedia.
- Servos e servas, de Pátroclo ao mando,
- Alastram cama de ovelhumes peles,
- Fina alva tela e tinta cobertura;
- Té que raie a manhã, deitou-se Fênix.
- Dorme Aquiles no fundo com Diomeda,
- Filha de Forbas de rosadas faces,
- Cativa em Lesbos. Dorme além Pátroclo
- E Ífis airosa, que lha trouxe o amigo
- Do íngrime Ciros, de Enieu cidade.
- Chegando aqueles ao real, os Dânaos
- Recebem-nos em pé com áureas taças,
- E Agamemnon primeiro os interroga:
- “Fala, adorno da Grécia, ó nobre Ulisses,
- Quer das naus afastar o hostil incêndio,
- Ou teimoso na cólera persiste?”
- “Na cólera persiste, e inda mais agora,
- O paciente Ulisses respondeu-lhe;
- Teus dons e a ti, chefe de heróis, desdenha:
- Diz que resolvas tu, com outros Graios,
- Como o Exército nosso e a frota escudes.
- Vogar ameaça no luzir da Aurora,
- E aconselha aos demais também naveguem
- À pátria cara: o termo não veremos
- De Ílio escarpada: o mesmo Altitonante
- A mão lhe presta e exalta-lhe a coragem.
- Ajax o testemunha e os dois arautos,
- Prudentes ambos. Lá pernoita Fênix,
- E Aquiles, sem forçá-lo, prescreveu-lhe
- Que em remeiros baixéis com ele parta.”
- Consterna-os a repulsa e calam todos;
- Mas Diomedes belaz: “Com dons infindos,
- Oh! nunca, rei sublime, o suplicaras!
- Era insolente, e refinou soberbo.
- Ou fique ou vá, nossa missão cumpramos:
- Peleje quanto queira e um deus lho inspire.
- Nisto ora concordar: refeitos vamos
- De Baco a Ceres, de homens força e brio,
- Nos recostar; e, assim que a dedirrósea
- Aurora brilhe, eqüestre e pedestre
- Ante a frota os perfiles e acorçoes,
- E tu mesmo combatas na vanguarda.”
- O équite exímio em roda excita aplausos:
- Fazem-se as libações; na tenda sua
- Cada qual em descanso adormecia. * * *