Enquanto com o herói sedentos Graios
408 versos · 5 notas do tradutor
- Enquanto com o herói sedentos Graios
- Se armam na frota, e na colina os Teucros,
- Do Olimpo sinuoso expede Jove
- Têmis, que gira tudo e chama os deuses
- À Dial corte: menos o Oceano,
- Rio algum não faltou, nem faltou ninfa
- Que bosque habite ou fonte ou prado ervoso.
- Já do Nubícogo em polidas selas,
- Que lhe engenhou Vulcano, estavam todos,
- Quando cortês o rei dos mares chega,
- Toma seu trono e diz: “Senhor do raio,
- Por que de novo os imortais convocas?
- Sobre os Aqueus e os Teucros deliberas,
- Prestos a arder em sanguinosa lide?”
- Responde o irmão: “Netuno, em mim penetras;
- Eu de Ílio curo, bem que já no extremo.
- Mas, do espetáculo a gozar tranqüilo,
- No celso Olimpo ficarei; vós outros,
- A bel-prazer, a Gregos ou Troianos
- Auxiliai: se Aquiles só combate
- Os que de o ver atônitos fugiram,
- Nem por um pouco o susterão, mormente
- Ora que pelo amigo enraiva e brame.
- Temo que assole, contra o fado, o muro.”
- Com isto inflama os deuses, que discordes
- Vão-se: às naus, Juno e Palas, mais Netuno,
- O útil sutil Mercúrio, e o coxo nume
- Duro e atroz, bem que as tíbias lhe vacilem;
- Mas aos Troas, Gradivo de éreo casco,
- O intenso Apolo, a madre, a irmã frecheira,
- Xanto e a ridente Vênus. Longe os deuses
- Da luta, ovantes os Aqueus floreiam
- Da aparição de Aquiles, e os Troianos
- Tremem do velocípede, que em armas
- Lampeja e emula ao cru Belipotente;
- Mas, do Olimpo ao descerem, num ruído
- Ferve tudo: Minerva ora do fosso,
- Ora da praia ressonante grita;
- Qual negro furacão rugindo Marte,
- Anima os Teucros, ou do sumo alcáçar,
- Ou do Símois correndo os verdes coles.
- Mal os celestes o conflito abrasam,
- Troveja horrendo Júpiter; Netuno
- Abala a terra ingente e os celsos montes,
- Do Ida manante os cimos e as raízes,
- A Troiana cidade e as naus Aquivas;
- Pálido o inferno rei do trono salta,
- Com medo exclama de que, o chão fendendo,
- O Enosigeu aos vivos descobrisse
- A hedionda mansão, terror dos homens,
- De que as mesmas deidades se horrorizam:
- Com tal fragor os imortais contendem!
- Febo a Netuno opunha-se de setas;
- Palas a Marte; a Juno a de arco-de-ouro
- Do Longe-vibrador irmã fragueira;
- Ao lucroso Mercúrio a mãe de Apolo:
- A Vulcano o Escamandro, que os Supremos
- Xanto nomeiam, vorticoso rio.
- Deus a deus se afrontava: mas Aquiles
- Busca entre a chusma Heitor, que no seu sangue
- Da guerra o nume ceve. Apolo entanto
- Esperta e incita o coração de Eneias,
- Simula a voz de Licaon Priâmeo:
- “Onde, ilustre Anquisiada, a promessa,
- Que entre os copos fizeste ameaçadora,
- De arrostar o Peleio?” — Eneias logo:
- “Por que assim, Priamides, me constranges
- A pelejar contra o soberbo Aquiles?
- Já nos medimos, do Ida já de lança
- Me afugentou, caindo em nossos gados
- E arrasando-nos Pédaso e Lirnesso:
- Jove deu-me asas e vigor nas pernas;
- Senão, domado eu fora; porque avante
- Minerva a derribar o acorçoava
- Com bronze agudo a Lélagas e Troas.
- Varão não se lhe atreve: um deus ao lado
- Preserva-o sempre, e o tiro seu voando
- Sem falência transpassa humanas carnes.
- Tivesse eu patrocínio igual ao dele,
- Que o Pelides não fácil me vencera,
- Ser de metal embora se glorie.”
- Febo tornou: “Depreca os Sempiternos.
- De inferior deusa vem, que o dizem filho
- Da filha de Nereu; por mãe tens Vênus,
- Prole de Jove. De éreo pique, a ele;
- De seus feros, herói, não te acobardes.”
- Assim o inspira, e o maioral de povos
- Brioso à frente sai e armado brilha.
- Juno em busca do Eácida o percebe
- Turmas rompendo, e ao bando seu previne:
- “Olhai como isto irá, Netuno e Palas;
- Contra Aquiles Apolo o Anquíseo impele.
- Repulsemos o deus, e um de nós perto
- Corrobore o Pelides; o herói sinta
- Que deuses potentíssimos o escudam,
- E outros em pró de Tróia em vão se empenham.
- Do Olimpo aqui baixamos, para que hoje
- Não padeça: ao depois lhe estale o fio
- Curto que desde o berço as Parcas dobam.
- Se informado não for por nós Aquiles,
- Temerá qualquer deus que infenso veja;
- Que a presença de um deus sempre é terrível.”
- O Enosigeu responde: “Não te assustes,
- Fica-te mal, Satúrnia. Por mais fortes,
- Nos abstenhamos, e os mortais que briguem:
- De atalaia espreitemos. Entre em liça
- Marte ou Febo, de Aquiles a ação tolham,
- Que travaremos guerra; e estou que em breve
- À divina assembléia e sacro Olimpo
- Terão de reverter, por nós domados.”
- Então sobe à muralha o azul monarca
- Por Minerva e os Troianos construída,
- Refúgio para Alcides, se a tremenda
- Orca da praia o perseguisse ao plaino:
- Sentam-se ali Netuno e os sócios deuses,
- De insolúvel nublado circunfusos.
- D’além, Arcitenente, nesses coles
- Os teus com Marte urbífrago te cercam.
- Uns e outros espaçosos deliberam,
- Estrear duvidando o morticínio;
- O Satúrnio de cima os esporeia.
- Luzem no cheio campo homens e carros,
- Treme e reboa do estrupido a terra;
- Mas dois varões ao meio ardentes marcham,
- O Anquíseo belicoso e o divo Aquiles.
- De elmo a nutar pesado, avança Eneias,
- Minaz agita o escudo e o peito cobre,
- Brande êneo pique; vem de encontro o Grego.
- Sevo leão, que um pago todo investe,
- Primeiro desdenhoso encara a turba;
- Se de azagaia o sangra ousado moço,
- Torcido e hiante mostra espúmeos dentes,
- Geme, de cauda açouta ilhais e coxas,
- Raiva, olhos gázeos rola, aos dianteiros
- Pular ensaia ou perecer com brio:
- Tal fúria invade o coração de Aquiles
- Contra o galhardo corajoso Eneias.
- Já fronte a fronte, o pé-veloz começa:
- “Por que, Eneias, tão fora estás da linha?
- Vens combater comigo, e imperar contas
- Nos cavaleiros Teucros? Se venceres,
- Príamo em tuas mãos não larga o cetro,
- Que há prole e mente sã. Talvez esperas,
- Por matar-me, vinhedo e férteis veigas?
- Árdua empresa, pois cuido que esta lança
- Talvez te afugentou. Lembras-te quando,
- Longe dos bois, do Ida rechacei-te?
- Nem para trás olhavas na carreira,
- Até Lirnesso. Com Minerva e o Padre,
- A Lirnesso abati, privei do livre
- Dia as mulheres e comigo as trouxe;
- Mas Júpiter salvou-te: hoje em vão pensas
- Que ele te salve. Às linhas te recolhas;
- Evita o meu furor, foge, que é tempo.
- Do erro tarde o insensato se arrepende.”
- Retorque Eneias: “Eu não sou, Pelides,
- Criancinha que assustes com palavras.
- Posso também de injúrias carregar-te;
- Que sabemos de ouvida a estirpe nossa,
- Bem que avós teus não conheci de vista,
- Nem conheceste os meus. Prole te aclamam
- Peleia e da pulcrícoma Nereida;
- Nasci de Vênus e do grande Anquises:
- Parte hoje destes chorarão seu filho;
- Pois não creio daqui nos separemos,
- De pueris bravatas satisfeitos.
- Mas ouve, se te apraz ouvir quem somos,
- Que Júpiter gerou, como é constante,
- A quem Dardânia ergueu; pois Ílion sacra
- Em pé não era, e do Ida fontanoso
- À raiz os falantes habitavam.
- Dárdano houve o riquíssimo dos homens
- Erictônio, que em brejos lhe pasciam
- Éguas três mil, da nédia raça ufanas:
- Prenhes do amante Bóreas, na aparência
- De um corcel negro de azulada crina,
- Pariram doze poldros, que saltando
- Pela alma terra, a messe nem feriam,
- E a brincar pela vasta equórea espalda,
- Leves no salso argento escorregavam.
- Erictônio houve a Troa, que o príncipe Ilo
- Teve e Assáraco após, e o mais formoso
- Dos mortais o deiforme Ganimedes,
- Para escanção de Jove arrebatado,
- Celícola gentil. Foi de Ilo fruto
- O exímio Laomedonte; o qual por filhos
- Contou Clício e Titon, Príamo e Lampo,
- Hicetoon mavórcio. Cápis, que era
- De Anquises pai, de Assáraco foi nado,
- Gerou Príamo a Heitor, gerou-me Anquises,
- Gabo-me sim de uma prosápia ilustre;
- Bem que, absoluto e onisciente, Jove
- Alça ou baixa o valor no peito humano.
- Mas loquela infantil cesse entre as armas,
- Podemos ambos despejar opróbrios
- Que uma nau de cem remos abarrotem;
- Que a língua é solta e infindos os dictérios,
- E troco é de um convício outro convício.
- Mas para que ralharmos, quais mulheres
- Que, na rua assanhadas altercando,
- Se insultam com verdades e mentiras?
- Pronto a pugnar, teus feros não me aterram.
- Eia, as lanças de perto experimentemos.”
- E vibra a sua contra o escudo horrendo,
- Onde fixa ressoa a cúspide ênea.
- Turba-se Aquiles, e do peito o escudo
- Com mão robusta afasta, receando
- Que o magnânimo Eneias lho atravesse:
- Deslembra estulto que divinas armas
- Fácil ao braço de um mortal não cedem.
- Lâminas cinco lhe dobrou Vulcano,
- De cobre as duas, as de estanho em baixo,
- Áurea a do meio: nesta embaça o tiro,
- Que as de cima traspassa o herói Troiano.
- Então sua hasta longa expede Aquiles,
- E a rodela inimiga no alto fura,
- Onde éreo fio em derredor corria
- E tênue couro: o arnês rebrame ao choque
- Do Pelíaco freixo; o corpo Eneias
- De susto encolhe, e a tarja ao longe estende;
- Ávido rasga o pique as orlas duas,
- Por sobre o dorso vara e o solo espeta.
- Livre do bote, os olhos se lhe ofuscam
- De centúplice dor, sentindo a lança
- Perto no chão pregada. Lesto Aquiles
- De gládio o investe com terríveis urros.
- Pega e meneia o Anquíseo pedra enorme,
- A dois varões d’agora nímia carga:
- Certo, por defender-se, o escudo ou casco
- Eneias lhe fendera; mas à espada
- O matara o Pelides, se Netuno
- Aos deuses não bradasse: “Dói-me, ó numes,
- Que às mãos de Aquiles o brioso Eneias
- Louco desça a Plutão, por confiar-se
- No Longe-vibrador, que o não socorre.
- Por que inocente pagará por outros
- Quem sempre aos imortais mil dons oferta?
- Salvemo-lo, que Jove há-de agastar-se
- De o ver extinto. É fado que a progênie
- Permaneça de Dárdano, a mais cara
- Prole que de mulher teve o Satúrnio;
- A geração de Príamo ele odeia:
- Quer pois que Eneias reine, mais seus filhos,
- E os que dos filhos procedendo forem.”
- A quem Juno olhitáurea: “Considera
- Contigo, Enosigeu, se tu o resguardas,
- Ou se acabe no instante o pio Eneias;
- Que eu e Palas juramos ante os deuses
- Nunca a um Teucro valer, nem que Ílio em cinzas
- Caia abrasada pela Grega chama.
- Isto ouvindo Netuno, entre o ruído
- E furor do combate, a Eneias busca;
- Derrama logo em torno do Pelides
- Cego negrume; da rodela saca
- Do bravo Teucro o freixo de érea ponta,
- Põe-no aos pés do rival; com rude impulso
- Faz o deus que de um salto Eneias vença
- Muitas filas de heróis, de carros muitas,
- E pare n’ala extrema, onde em batalha
- Armavam-se os Caucomes. Face a face,
- Presto Netuno exclama-lhe: “Insensato!
- Que deus ora te excita contra Aquiles,
- Mais do que tu valente aceito aos numes?
- Ah! foge de encontrá-lo, a não quereres,
- Apesar do destino, ir aos infernos:
- Mas, quando a morte o ceife, audaz propugnes;
- De outro Aquivo nenhum temer-te podes.”
- Assim que instrui a Eneias, d’ante Aquiles
- Desfaz a névoa grossa. Este vê claro,
- Entre si diz gemente: “Hui! Que prodígio!
- A hasta a meus pés, sumiu-se o herói que ardente
- Com ela eu quis matar! Os deuses o amam,
- Não é vanglória sua. E bem, comigo
- Não mais se atreverá: salvou-se, basta.
- Ora sus; aguçado o esforço Aquivo,
- Os mais Teucros provemos. Logo às filas
- Salta, exorta um por um: “Valentes Gregos,
- Longe estais; barba a barba, arremessai-vos:
- Por mais forte que seja, é-me impossível
- A tantos perseguir, lutar com todos;
- Nem Mavorte imortal, nem Palas mesma
- Turmas tais acossando opugnaria.
- Mas, quanto em mãos e em pés e em brio valho,
- Tudo vos sagro, e sem respiro aos Teucros
- Me enviarei; nem folgará, presumo,
- Quem deste pique a tiro se aproxime.”
- Também Heitor concita, aos seus promete
- Ao Pelides marchar: “Bizarros Frígios,
- Aquiles não temais. Eu de palavras
- Posso aos deuses me opor, nunca de lança,
- Que mais potentes são: nem tudo Aquiles
- Tem de acabar; obtenha uma façanha,
- Que outra será no meio mutilada.
- Corro a encontrá-lo, embora ao ferro ou bronze
- Imite seu valor, seu braço ao fogo.”
- Animados os Teucros, de hasta em punho,
- Em algazarra, em mó se precipitam
- Mas a Heitor susta Febo: “Heitor, suspende,
- Que se da linha sais, a estoque ou dardo
- O Aqueu te prostrará.” Da voz divina
- Heitor se abala, no tropel se esconde.
- De coragem vestido, urrando fero,
- Surge Aquiles. De lança em duas racha
- A testa a Ifition, de imensos cabo,
- Do turrífrago Otrinto insigne gérmen,
- De uma Naida parido sob o Tmolo
- Nervoso, de Hides no opulento burgo;
- Ele baqueia, e orgulha-se o Pelides:
- “Tremendíssimo Otrintes, aqui jazes,
- Bem que a família e os agros tens paternos
- Do lago Gíjes nas risonhas margens,
- Ao pé do Hilo piscoso e túrbido Hermo.”
- Entanto, Ifition se imerge em trevas,
- E a rodar Graios coches o espedaçam.
- A Demoleon, belígero Antenórida,
- Pela viseira a têmpora atravessa;
- Nem éreo o elmo ao campeão defende,
- Que ávida a choupa os ossos e os miolos
- Quebra ou derrama: o temerário tomba.
- A Hipodamas, que apeia-se e escapole,
- No dorso enterra a cúspide: ele expira
- A alma feroz, mugindo como touro
- Que ante o Helicônio Enosigeu mancebos
- Arrastam, com prazer do azul tirano.
- Atira-se ao deiforme Polidoro,
- A quem Príamo pai vedava a pugna,
- Porque era o seu menor e estremecido;
- Porém, sobre os irmãos de pés ligeiro.
- Vaidoso na vanguarda ia correndo,
- Quando Aquiles veloz lhe enfia às costas,
- Onde encruzam do bálteo áureas fivelas
- Em reforço da coura: pelo umbigo
- Lhe sai a ponta; ajoelha-se ululando,
- E em letal noite os intestinos colhe.
- Heitor, que vê rolar o irmão por terra
- Os intestinos a reter, os olhos
- Ofusca em treva, do Pelides longe
- Não pode mais estar; brandindo a lança,
- Como chama arremete. Exulta Aquiles
- E diz jactancioso: “Eis quem no peito
- Mais me pungiu, matando-me o dileto!
- Cessemos de fugir-nos mutuamente
- Por atalhos do exército.” E prossegue
- A olhar medonho: “Heitor, chega-te perto,
- Para mais breve a morte receberes.”
- O divo Heitor impávido responde:
- “Não sou menino que falando assustes;
- Prescindamos, Aquiles, de impropérios.
- Conheço que és valente e que me excedes;
- Mas dos deuses no grêmio a sorte pousa,
- E inferior eu talvez te arranque a vida,
- Pois também do meu dardo a ponta fura.”
- Vibra o arremesso então, que ao leve sopro
- De Palas, desviando-se de Aquiles,
- Torna aos pés do senhor. Feroz bramindo
- Presto o Pelides rui sanguissedento;
- Mas Febo, como deus, rápido leva
- E encerra Heitor em tenebrosa nuvem.
- Três vezes o fogoso esgrime a lança,
- Três verbera a espessíssima caligem;
- Da quarta enfim como um demônio troa:
- “Inda escapaste, cão; salvou-te Apolo,
- Que entre o márcio estampido invocas sempre.
- Mas noutro encontro, se me assiste um nume,
- Certo mo pagarás: dos teus agora,
- Quantos possa alcançar, farei matança.”
- Nisto, a cerviz a Dríope lanceia.
- Deixa-o, fere na rótula o famoso
- Demouco Filetório, que detido
- A gládio acaba. A Dárdano e Laogono,
- De Bias prole, do seu coche deita;
- Este cai de um revés, de um bote aquele.
- Troe Alastório prostra-se, rogando
- Que o deixe vivo, e igual idade alega
- Por comovê-lo: estulto! É sem brandura
- O atroz Peleio, e no ato em que aos joelhos
- Ia Troe abraçá-lo, a espada irosa
- Desentranha-lhe o fígado, que o seio
- De cruor enche; inânime o coitado
- Escuros olhos fecha. Ao perto em Múlio
- De orelha a orelha embebe a choupa aênea.
- De estoque vara do Agenório Equéclos
- A testa, e o sangue a empunhadura aquece;
- Fatal purpúrea morte o cega e rende.
- A Deucalion dardeja onde se ligam
- Pulso e cúbito; o braço a atormentá-lo,
- Aguarda a instante Parca: degolado,
- A medula da vértebra desparge,
- E ao longe elmo e cabeça, o tronco estira.
- A Rigmo estrênuo, de Pireu nascido
- Lá na glebosa Trácia, o ventre passa,
- De cima o arroja: ao fâmulo Arcitoo,
- O coche ao revirar, perfura o dorso;
- Derrui da sela, espantam-se os cavalos.
- Qual, de árida montanha em fundos vales,
- Amplo devora a mata imano incêndio,
- A contorcer-se do Ábrego às rajadas;
- Assim furente, como um deus, Aquiles
- Arde, e no morticínio a terra ensopa.
- Qual a junta de bois de larga fronte,
- Na eira a separar branca cevada,
- Mugindo os feixes pisa e os grãos debulha;
- Assim vão os ungüíssonos calcando
- Corpos e escudos: sangue o eixo escorre,
- Que das patas espirra; o assento em roda
- Gotas aspergem que dos aros vertem.
- As mãos o invicto herói, na glória aceso,
- De suor sujas leva e pó cruento. * * *