Sós na lide os mortais, de parte a parte
468 versos · 8 notas do tradutor
- Sós na lide os mortais, de parte a parte
- Ígneo furor aqui e ali se ateia;
- Nos dois campos graniza, arremessada
- Entre o Símois e o Xanto, ênea procela.
- Ajax, da Grécia muro, escala a Tróica
- Falange, e livra os seus do Eussório Acamas,
- Dos Traces o maior, mais formidável:
- Dardo pelo cocar de espessa crina
- O osso varou da testa, e em feral treva
- Os lumes lhe apagou. — Diomedes rende
- O Teutrânida Axilo, que opulento
- Na grandiosa Arisba, humano em casa,
- Da estrada à beira agasalhava a todos:
- Mas nenhum lhe acorreu no transe amaro,
- Nem ao pajem Calésio, então cocheiro;
- Que ao reino de Sumano ambos desceram.
- Prostra Euríalo a Dreso e Oféltio; assalta
- Pédaso com Esepo, que houve gêmeos
- Bucolion da náiada Abarbárea:
- Vero Bucolion de Laomedonte
- Primogênito filho, inda que espúrio,
- Ovelhas pastorava, e em doce amplexo
- Concebeu-os a ninfa: os pulcros membros
- Lhes dissolve e os despoja o Mecisteide.
- A Astíalo o aguerrido Polipetes,
- A Pedites Percósio enfia Ulisses;
- Teucro ao divo Etaon, a Ablero Antíloco;
- O rei dos reis a Elato, que da altiva
- Pédaso o puro Satnióis gozava.
- A Fílaco fuginte o heróico Leuto
- Veloz suplanta; Eurípilo a Melântio.
- Partindo-se o temão desembestados
- A Adresto os brutos, pávidos num ramo
- De tamargueira se enlearam, quando
- Para a cidade em fuga os mais seguia:
- Testa no pó, revira junto à roda;
- Menelau toma-o vivo e a lança aponta;
- Adresto ajoelha e implora: “Sê piedoso,
- Por mim resgate esplêndido recebe:
- Cobre, ouro, ferro variamente obrado,
- Entesourou meu pai; com mão profusa
- Dará, se a bordo me souber cativo.”
- Já, de compadecido, ia entregá-lo
- A um servo que o levasse à Grega frota;
- Minaz bramindo acorre-lhe Agamemnon:
- “Débil a Teucros, Menelau, perdoas?
- De certo agradeceram-te a hospedagem.
- Nem mesmo o infante no materno ventre
- Escape à nossa fúria; em cinzas Tróia,
- Inglórios todos insepultos jazam.”
- Com tais razões mudado, o irmão lhe empurra
- O nobre Adresto; a quem na ilharga fere,
- Supino estende, e a retrair o freixo,
- O pé finca-lhe aos peitos Agamemnon.
- Nestor a gritos: “Eia, amigos Dânaos;
- Nenhum, de Marte ó fâmulos, se atrase
- Para às naus se tornar com pingue espólio:
- Matai, matai; que os mortos pelo campo
- Devagar ao depois saquearemos.”
- Isto os atiça e alenta. E em Ílio os Teucros
- Talvez de acobardados se acoutassem
- Lá se não fosse Heleno Priamides,
- Augur sem par: “Em vós, Heitor e Eneias,
- Que sois no pulso e aviso os mais prestantes,
- Lícios e Troas a esperança libram:
- De ala em ala, ide já deter os nossos,
- Que em destroço nos braços das consortes
- Não se salvem, com riso dos contrários.
- Mas, assim que exortardes as falanges,
- Nós, do cansaço opressos, neste aperto
- Combateremos firmes, para aos muros
- Ires, Heitor. A nossa mãe requeiras
- Que as matronas congregue, e de Minerva
- Subindo ao sumo alcáçar, os batentes
- Ao sacrário descerre; oferte às plantas
- Da olhicerúlea crinipulcra déia
- De quantos peplos guarda o que mais preza
- Por grande e por donoso, e doze intactas
- Anejas indomadas lhe prometa
- Sacrificar, se houver dos nossos filhos
- E das esposas dó, longe da santa
- Ílio apartando o campeão Tidides,
- Formidoloso artífice da fuga.
- Dos Gregos valentíssimo o reputo;
- Nem de Aquiles, que prole crêem divina,
- Nos temíamos tanto: agora aquele
- Mais sanhudo se mostra e inelutável!”
- Concorde o irmão, do carro em armas salta,
- Hastas pontudas brande, e por onde ia
- Inflama os seus, que revertendo arrostam.
- Vão-se escoando os Gregos da matança,
- E o rumor se espalhou que em pró dos Frígios
- Do estelífero pólo um deus baixara.
- Clama a todos Heitor: “Ânimo, Teucros,
- Vós longínquos amigos e aliados,
- Sede homens, vosso ardor não se arrefeça,
- Enquanto vou-me a idosos conselheiros
- E às consortes propor que o Céu demovam
- Com preces e hecatombes.” Nisto ombreia
- O galeato herói de copa o escudo,
- E ao marchar o debrum de couro negro
- A cerviz lhe batia e os calcanhares.
- Na ânsia de pelejar, da liça em meio
- Glauco de Hipóloco e o Tidides perto
- Já se afrontavam; mas falou Diomedes:
- “Quem és, homem bravíssimo, a quem nunca
- Vi no conflito, que os varões afama?
- Tu na afouteza a todos longe excedes,
- Expondo-te ao rigor da lança minha;
- Só filhos malfadados se me atrevem.
- Do céu vens? Com celestes não contendo:
- Viveu pouco o Driâncio atroz Licurgo
- Que a tal se abalançou. De Baco as amas
- Pelo sacro Nisseio perseguidas,
- Picou-as de aguilhada, e elas no afogo
- Deixam cair os tirsos; Baco mesmo,
- De susto de um mortal, se atira às ondas,
- E trêmulo em seu seio o abriga Tétis.
- Os de perene vida enraiveceram,
- E o Satúrnio o cegou: de curto alento
- Sepultou-se aborrido pelos deuses.
- Com bem-aventurados não me avenho.
- Mas, se a terra te nutre com seus frutos,
- Chega-te, e as raias tocarás da morte.”
- Então Glauco: “Magnânimo Tidides,
- Quem sou perguntas? Como as folhas somos;
- Que umas o vento as leva emurchecidas,
- Outras brotam vernais e as cria a selva:
- Tal nasce e tal acaba a gente humana.
- Pois o queres, conhece-me a linhagem;
- É bem sabida. — Num recesso de Argos,
- A corcéis pacigosa, avulta Efira,
- Onde Sísifo Eólides, o astuto
- Mais cadimo reinou; seu filho Glauco
- Teve a Belerofonte, a quem prendaram
- Os Céus de esforço e garbo e gênio afável.
- Mas de Preto a mulher, a diva Anteia,
- Louca de amores, desejou furtiva
- Misturar-se com ele, e despeitosa
- De não ter seduzido o casto peito
- Pérfida ao rei mentiu: — Belerofonte
- Intentou-me forçar; ou morre ou mata-o —,
- Em sanha Preto, a cujo prepotente
- Cetro os Aquivos sujeitara Jove,
- O exilou da cidade; e, religioso
- Temendo assassiná-lo, urdiu na mente
- Feia vingança: de funestas cifras
- Ao sogro o envia com fechado rolo,
- Onde a sentença lhe traçou de morte.
- Por numes escoltado, ao Xanto e à Lícia
- Plaga admitido, em novenal hospício
- Lhe imolou touros nove o rei benigno;
- Mas na décima aurora dedirrósea
- O interrogou, pedindo-lhe a tabela
- Que lhe fiara Preto. Os caracteres
- Fatais lendo, a Quimera inexpugnável
- Mandou-lhe exterminar: tinha esse monstro,
- De raça divinal que não terrestre,
- A cara de leão, de serpe a cauda,
- Caprino ventre, ignívoma a garganta;
- E ele extinguiu-a por celeste influxo.
- Logo os Solimos debelou, façanha
- Que julgava a maior; e enfim deu cabo
- Das Amazonas varonis. De volta,
- Os mais guapos da Lícia e destemidos,
- Juntos numa cilada, o herói desfê-los,
- Nenhum restando que levasse a nova.
- Nele então vendo o rei divino garfo,
- O aquinhoou no império e aceitou genro;
- Em patrimônio os povos lhe escolheram
- Amplo vinhedo e lavras. Da princesa
- Houve Hipóloco e Isandro e Laodâmia.
- Esta no toro do prudente Jove
- O deiforme gerou pugnaz Sarpédon.
- Belerofonte, já dos Céus malquisto,
- Na alma comendo-se e evitando os homens,
- Sozinho errava pelo campo Aleio.
- A Isandro, que os Solimos opugnava,
- Trucidou Marte; à Laodâmia Febe,
- Que áureas bridas meneia em carro argênteo.
- Hipóloco é meu pai, que, no expedir-me
- De Ílio em socorro, superior coragem
- Me encomendou; que nunca desmentisse
- De meus nobres avós, não só de Efira,
- Da Lícia em peso altíssimos guerreiros.
- Deste preclaro sangue eu me glorio.”
- Ledo no chão Diomedes prega a lança,
- E diz brandíloquo ao pastor de povos:
- “Certo hóspede paterno me és antigo;
- Por Eneu dias vinte agasalhado
- Belerofonte, mútuos se brindaram:
- Coube-lhe um bálteo fúlgido e puníceo;
- Coube a Eneu duplicôncova áurea taça,
- Prenda que tenho em casa. Não me lembro
- De Tideu, que deixou-me em tenra infância,
- Indo à facção Tebana, infausta aos Gregos.
- Sou teu hóspede em Argos; sê na Lícia
- O meu também. Reciprocar os tiros
- Mesmo evitemos na refrega: Teucros
- Nem outros faltam que eu persiga ou renda,
- E Aqueus te sobram, se os depare a sorte.
- Patenteemos, permutando as armas,
- Que dos avós o hospício respeitamos.”
- Nisto, apeiam-se os dois, as destras cerram,
- Penhor de fé. Na troca dos arneses
- Ofusca Jove a Glauco: pois demente
- Com Diomedes cambeia ouro por cobre,
- A valia de cem por nove touros.
- Vizinho à faia Heitor e às portas Ceias,
- Cercam-no e indagam donas e donzelas
- Por amigos e irmãos, filhos e esposos.
- “Em regra aos numes obsecrai, responde;
- Ide, urge a muitas iminente luto.”
- Os pórticos reais polidos passa:
- Dentro, em lapídeas câmaras contíguas,
- Noras cinqüenta e os Priameus dormiam;
- E no alto, além do pátio, numas doze,
- Também contíguas e também lapídeas,
- Os genros e as castíssimas consortes.
- A carinhosa mãe, que no aposento
- Visitava a pulquérrima Laódice,
- O encontra e a mão lhe prende: “O duro prélio
- Deixaste, filho? Ah! próximo lutando,
- O odioso inimigo assédio estreita;
- E desejaste as palmas vir do alcáçar
- Para Jove estender. Fica-te um pouco,
- Vinho te quero ministrar melífluo,
- Com que libes ao Padre e às mais deidades:
- Restaurarás bebendo as lassas forças;
- Que o vinho as corrobora, e as esgotaste
- Por defender os cidadãos lidando.”
- “Não, venerável mãe, torna o guerreiro,
- Do suave licor não me ofereças,
- Que me enerve e do brio me deslembre:
- E ao das nuvens Senhor com mãos impuras
- Temo libar, e infando é suplicá-lo
- De sangueira poluto. Mas ao templo
- Da predadora Palas com perfumes
- Vai-te asinha, e as matronas congregando,
- Oferta aos pés da crinipulcra déia
- De quantos peplos guardas o que prezas
- Por grande e por donoso; e doze intactas
- Anejas indomadas lhe prometas
- Sacrificar, se houver dos nossos filhos
- E das esposas dó, longe da santa
- Ílio apartando o campeão Tidides,
- Incutidor feroz de espanto e medo.
- Ao templo sobe; eu vou, se me ouvir Páris,
- Do ócio espertá-lo. Aberta, o sorva a terra!
- O Olímpio o fez medrar, funesto à pátria,
- Funesto ao rei. No inferno se afundisse,
- Cuido que olvidaria os meus pesares.”
- Disse; a mãe volve ao quarto, e pelas servas
- De Ílio convoca as donas. Desce mesma
- À fragrante recâmara, onde os peplos
- Vários tinha e gentis, lavor das moças
- Que trouxe da Sidônia o divo Páris,
- Da vez que o largo pélago sulcava
- Com sua Helena excelsa. Hécuba escolhe
- Um que último encontrou, mais recamado
- Grande e loução, fulgente como um astro.
- Põe-se a caminho; as damas a acompanham.
- Ei-las no sumo templo, que a Cisseide
- Fresca Teano, de Antenor esposa,
- Dali sacerdotisa instituída,
- Lhes escancara. As palmas logo todas
- Com pranto e grita para o altar ergueram;
- E, aceito o peplo, o colocou Teano
- Aos pés de Palas, deprecando à filha
- Pulcrícoma de Jove: “Honra das deusas,
- De Ílio apoio, a Diomedes quebra a lança:
- O pó morda, ó Minerva, às portas Ceias;
- Doze intactas indômitas anejas
- Te imolaremos já, se houveres mágoa
- Destes muros, de nós, de nossos filhos.”
- Renui Tritônia a rogos tais; e enquanto
- As mães votavam, ganha Heitor o alvergue,
- Primor que engenhou Páris e os mais destros
- Operários de Tróia executaram,
- De átrios, salões e camarins soberbos,
- Junto a Príamo e Heitor na cidadela.
- Entra o herói caro a Jove, sustentando
- De onze cúbitos haste, onde encavada
- Fulge ênea choupa, que aro de ouro aperta.
- Na câmara acha o irmão lustrando a malha,
- Curvos arcos, loriga e fino escudo;
- E, entre as criadas suas, a Lacena
- Às servas repartindo insignes obras.
- “Páris, disse agro Heitor, ó desastrado,
- Ódio vão cevas, e por ti pugnando
- Perecem tantos! Ruge em torno a guerra,
- Arde o clamor; e a ti mormente os frouxos
- Competia aguçar. Vem, vem, desperta,
- Antes que lavre o incêndio em nossos lares.”
- E o deiforme Alexandre: “Eu não to nego,
- Justo me argúis. Atende-me contudo:
- Não por despeito aos nossos, mas por folga
- À dor pungente, em ócio me encerrava.
- E brando agora mesmo Helena ao prélio
- Me compelia; abraço-lhe o conselho,
- Porque alterna a vitória os seus favores.
- Que eu vista as armas deixa, ou me antecede;
- Lá sem demora, irmão, serei contigo.”
- Calou-se Heitor, e meiga Helena fala:
- “Oxalá, bom cunhado, eu fenecera
- Nas entranhas maternas, ou que a brenhas
- Um tufão me arrojara, ou me afundira
- No flutíssono mar, de horríveis danos
- Para não ser a abominanda causa,
- Nem perpetrar sem pejo infâmias tantas!
- Mas, já que o fado o quis, eu fosse ao menos
- Mulher de um bravo, a quem doesse o opróbrio
- E o motejar dos homens: sem firmeza,
- Nunca a terá por certo, e o fruto espere.
- Agora neste escano, irmão, descansa
- Do afã que te salteia o peito e a mente,
- Por imprudência minha e culpa dele.
- Ah! cruel condição! de Jove opressos,
- Fábula às gentes no porvir seremos.”
- E o cristado varão: “Cortês e afável,
- Não me contes reter: esta alma ferve
- Por ajudar os que por mim suspiram.
- Ativa a Páris, que dos muros dentro
- Se me reúna: a despedir-me corro
- Da família, da esposa e meu filhinho;
- Ignoro se me outorgue o céu revê-los,
- Ou se domar-me ordene às mãos dos Gregos.”
- Nem mais; segue, e acha fora de seu paço
- Andrômaca gentil, que albinitente,
- Com o infante e uma serva bem velada,
- A gemer e a chorar na torre estava.
- Desencontrando a cônjuge incorrupta,
- Já da soleira, às fâmulas virou-se:
- “Que é da senhora? declarai sinceras:
- A uma de longo peplo ou minha ou sua
- Cunhada iria, ou agregar-se as damas
- Que a Palas crinipulcra infensa aplacam ?”
- Respondeu-lhe a zelosa despenseira:
- “Pois o queres a flórida princesa
- Com nenhuma cunhada ou tua ou dela
- De longo peplo está, nem entre as donas
- Que a Palas crinipulcra infensa aplacam;
- Sim na grã torre de Ílio: ouviu que os nossos
- Eram da força Graia assoberbados;
- E, levando o menino em braços da ama,
- Como doida partiu para as trincheiras.”
- Ei-lo as praças desanda e extensas ruas;
- E às portas Ceias, no sair ao campo,
- Ocorre a esposa, de Eetion nascida,
- Que os Cilícios, de Hipóplaco selvosa,
- Rei dominava na Hipoplácia Tebas;
- De Eetion, que a dotou grandiosamente
- Para dá-la ao Priâmeo eriarnesado.
- O tenro único Hectóreo, astro em beleza,
- A ama o afagava: o nome de Escamândrio
- Seu pai lhe impôs, de Astianax o povo,
- Por herdeiro do herói de Tróia apoio.
- Tácito ele sorriu no filho absorto;
- A lagrimar Andrômaca nas suas
- A mão lhe aperta e clama: “Temerário!
- Perde-te esse valor, nem te amiseras
- Desta criança, nem de mim coitada
- Cedo viúva; que da Grega fúria
- O alvo serás. A terra me sepulte,
- Se me faltares tu: só pesadumes
- Hão-de cercar-me, sem nenhum conforto.
- Pai nem mãe tenho: rasa a de altas portas
- Cilícia Tebas, o tremendo Aquiles
- A Eetion matou; com seu dedáleo
- Arnês, sem despojá-lo, o queimou pio,
- E térreo ergueu-lhe um túmulo, que de olmos
- Em redor as Oréadas plantaram,
- Do Egífero almas filhas. De irmãos sete,
- Num dia o Celeríssimo no inferno
- Todos mos despenhou, quando pasciam
- Bois flexípedes, cândidas ovelhas.
- A augusta mãe de Hipóplaco rainha,
- Trouxe-a com basta presa; ao depois solta
- Por um preço infinito, em seu palácio
- Vítima foi de Artemide frecheira.
- Tu me és, Heitor, mãe, pai, irmão, florente
- Consorte e amigo: tem de mim piedade;
- Cá te fiques na torre; órfão não deixes
- O infante e a mulher tua. A gente postes
- Cerca da baforeira, onde acessíveis
- Prestam-se os muros nossos à escalada.
- Vezes três os melhores a empreenderam,
- Os dois Ajax, Idomeneu, Diomedes,
- E os Atridas; ou fosse de agoureiros,
- Ou de seus próprios ânimos impulso.”
- E Heitor: “São meus, esposa, os teus cuidados;
- Mas dos Frígios me temo e das matronas
- De roçagantes opas, se em muralhas
- Qual fraco a luta evado; e hei-de mim pejo,
- Que tenho à frente combatido sempre,
- Vindicando a paterna e a glória minha.
- Prevejo n’alma o fim da sacra Tróia,
- Do corajoso Príamo e seu povo;
- Ah! da pátria o porvir me aflige menos,
- Da mãe, do rei, de tanto irmão valente
- Estendido no pó, que de um soldado
- Brutal cativa e em pranto imaginar-te,
- E em Argos a tecer, e da estrangeira
- Por duro império, atroz necessidade!
- À fonte ir de Hipereia ou de Messeide.
- E dir-te-ão, do choro teu movidos:
- — Pobre mulher de Heitor, o herói que de Ílio
- Com mais denodo propugnava em torno! —
- De teu marido gemerás saudosa
- Para te libertar. Cubra-me a terra,
- Antes que os ais te escute e a rastos veja.”
- Eis lança ao filho as mãos, que averso e em gritos,
- No seio da ama de elegante cinto,
- Espantado se encolhe ao pátrio aspecto;
- A armadura o apavora, a juba eqüina
- Que da cimeira aênea hórrido nuta:
- Sorriu-se Heitor, a augusta mãe sorriu-se.
- Despe o guerreiro o fulgurante casco,
- Pousa-o no pavimento; a seu querido
- Em braços leve embala e o beija e ameiga:
- “Ó Júpiter, perora, ó deuses todos,
- Como eu dai que este seja aos Teucros honra;
- Potente o cetro empunhe; ao vir do prélio,
- — Inda é que o pai mais forte —, alguém lhe exclame;
- Morto o inimigo, no cruento espólio
- Volte, e a mãe leda folgue.” À doce esposa
- O entrega então, que entre chorando e rindo
- No fragrante regaço o filho acolhe.
- Terno olhando o consorte, a acaricia:
- “Por mim tanto, anjo meu, não te consternes:
- Contra o fado abismar-me ninguém pode,
- Nem há nascido quem se furte ao fado,
- Por estrênuo ou medroso. A casa busca;
- No tear, no lavor, na roca entende,
- E as servas atarefa: aos homens de Ílio,
- E a mim principalmente, a guerra incumbe.”
- Do chão leva o emplumado capacete,
- E retirou-se Andrômaca, amiúde
- Atrás volvendo os olhos gotejantes.
- Na cômoda mansão de Heitor sangrento
- Em luto encontra as servas, que o pranteiam
- Vivo, por crerem que do urgente risco
- Nem dos feros Aqueus se escaparia.
- Não langue Páris na orgulhosa estância;
- De brônzeo arnês vistoso revestido,
- Com pé ligeiro atravessava as ruas.
- De centeio cevado à manjedoura,
- Do amor pungido, a claro banho afeito,
- Roto o cabresto, unguíssono cavalo
- Pulsa o campo; a cabeça engala e emproa,
- A crina a flutuar pelas espáduas;
- Da bizarria ufano, ágil galopa
- Ao rio ameno e aonde as éguas pastam:
- Assim de Pérgamo o Priâmeo em armas
- Desce, luz como o Sol, exulta e marcha;
- De pronto e lesto alcança a Heitor, que vinha
- Da prática de Andrômaca, e lhe fala
- Pressuroso: “Eu talvez, remisso às ordens,
- Te hei, venerando irmão, contido o fogo.”
- E alegre Heitor: “Quem saiba avaliar-te
- Far-te-á justiça, ó caro; és denodado,
- Mas tíbio e inerte e mole; é-me penoso
- Exprobrarem-te os sócios, que padecem
- Pelo erro teu. Avante; comporemos
- Estas questões, quando aprouver a Jove
- Que, expulsos os Grajúgenas grevados,
- Em nosso lar brindemos e erijamos
- Livre cratera aos sempiternos deuses.” * * *