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IlíadaLivro XIV
LivroXIV

Entre o beber sentiu Nestor o estrondo

441 versos · 4 notas do tradutor


  1. Entre o beber sentiu Nestor o estrondo:
  2. “Que será, grita, ó nobre Esculapides?
  3. Perto a voz cresce de alentados jovens.
  4. Liba tu roxo vinho, enquanto aquece
  5. A de louras madeixas Hecamede
  6. Banho em que lave da ferida os grumos:
  7. Vou da atalaia examinar o caso.”
  8. Nisto, o insigne broquel de Trasimedes,
  9. Que o paterno enfiara, ombreia, toma
  10. Rija eriaguda lança; vê de fora
  11. Triste espetáculo: em destroço o Grego,
  12. Atrás ufano o Teucro, e rota a brecha.
  13. Tácito quando o pélago purpúreo
  14. Percebe o temporal, se embrusca imóvel,
  15. E aguarda o vento que de Jove desça;
  16. Tal, indeciso o velho, agita n’alma
  17. Se ao conflito se deite, ou busque o Atrida.
  18. Mas o segundo arbítrio enfim prefere.
  19. Mútuo se encrua o ataque, e a brônzea malha
  20. De hastas e gládios percutida soa.
  21. Desembarcando, com Nestor se encontram
  22. Os vulnerados reis de Jove alunos,
  23. Ulisses e Diomedes e Agamemnon.
  24. Longe da liça, as naus em seco tinham
  25. N’alva areia; no plaino outras havia,
  26. E ante as popas o muro edificado:
  27. A larga praia a todas não bastava,
  28. E apertaria as tropas. Numa escala
  29. Montavam pois, do golfo enchendo a fauce
  30. Que abrangem vasta os promontórios ambos.
  31. Juntos os reis, para o combate olharem,
  32. Tristes vêm vindo às lanças arrimados.
  33. A presença aterrou-os do Nelides,
  34. E aflito o rei dos reis: “Da Grécia adorno,
  35. Por que o prélio carnívoro deixaste?
  36. Receio o fero Heitor, que em parlamento
  37. Jurou não recolher-se, antes que a frota
  38. Queime e nos extermine. Essa ameaça
  39. Ora, oh! Céus, vai cumprir-se; e, como Aquiles,
  40. Enraivecido[s] os grevados Gregos
  41. A defender-me as popas se recusam.”
  42. Responde-lhe o Gerênio: “É mais que certo,
  43. Nem o feito mudar poderá Jove:
  44. O muro, que fiávamos da frota
  45. Fosse reparo e nosso, está caído;
  46. O incessante conflito às naus se estende;
  47. Nem saberás onde ele é menos acre,
  48. Pois destroço geral perturba os Dânaos;
  49. No éter freme o alarido, e a morte reina.
  50. Se inda há remédio, agora o consultemos.
  51. Combater não vos cumpre assim feridos.”
  52. Mas o rei: “Já que as popas nos debelam,
  53. Sem valer fosso e muro, em que infalível
  54. Ter críamos refúgio, e construídos
  55. Com tanto custo, é que ao Supremo agrada
  56. Que em terra estranha inglórios feneçamos.
  57. Nunca o pensei, quando ajudados fomos:
  58. Exalta hoje os Troianos como a deuses;
  59. Os ânimos nos liga e as mãos nos tolhe.
  60. Eia, escutai-me: as naus do mar vizinhas
  61. Ponham-se em nado e em âncoras, à espera
  62. Da calada erma noite; eles da pugna
  63. Se absterão por ventura, e poderemos
  64. Deitar n’água as demais. Da noite à sombra
  65. Menor culpa é fugir que ser cativo.”
  66. O fecundo em recursos torvo o encara:
  67. “Desses dentes, Atrida, que proferes?
  68. A vis antes mandasses, nunca a homens
  69. A quem, dos verdes anos à velhice,
  70. Deu Jove árduas facções levar ao cabo,
  71. Até que morte honrada consigamos!
  72. Como! A soberba Tróia abandonares,
  73. Que tanta pena e afã nos tem custado!
  74. Cala, não te ouçam feio e insano voto,
  75. Indigno de um cetrado, a quem de Argivos
  76. Tal e tamanho exército obedece.
  77. Condeno o parecer de ao mar deitarmos
  78. No fervor da contenda as naus remeiras:
  79. Isso era incitamento aos vencedores,
  80. E a nós ruína; que, à manobra voltos,
  81. Os Dânaos da batalha afrouxariam.
  82. Rei dos reis, teu projeto é pernicioso.”
  83. E Agamemnon: “Tocou-me, ó sábio Ulisses,
  84. A tua increpação; nem mando à força
  85. As naus desencalhar: de velho ou moço,
  86. Que ora opine melhor, o arbítrio aceito.”
  87. Logo Diomedes: “Junto a vós o tendes,
  88. Longe não vades, se quereis conselho;
  89. Nem vos indigne que eu mais moço fale:
  90. De Tideu prole sou, de estirpe ilustre,
  91. Que em Tebas jaz sepulto. Claros filhos,
  92. Que habitavam Pleurona e Calidona,
  93. Teve Porteu, chamados Ágrio e Melas
  94. E Eneu, pai de meu pai, terceiro em anos
  95. E o primeiro em valor: viveu na pátria
  96. Meu avô; mas, depois de errores tantos,
  97. (Foi permissão do Céu) de Adrasto em Argos
  98. Meu pai tendo esposado uma das filhas,
  99. Herdou casa opulenta, grossas lavras
  100. De alamedas em torno, e muito gado;
  101. E excedia na lança os Dânaos todos.
  102. Que é verdade o sabeis; que não provenho
  103. De imbele geração nem baixa origem:
  104. Não desprezeis portanto o meu conselho,
  105. Urge a necessidade; à liça, amigos,
  106. Mesmo feridos: fora sim dos tiros,
  107. Para evitarmos golpe sobre golpe,
  108. Com palavra e presença os despeitados
  109. E os remissos ao prélio excitaremos.”
  110. Marcham de acordo os reis, o Atrida à frente.
  111. Nem cego os espreitava o grã Netuno,
  112. Que, em figura de velho, de Agamemnon
  113. Pega a destra a exclamar: “À vista agora
  114. Do Aquivo estrago e susto, o cru Pelides,
  115. Sem de senso haver sombra, está folgando:
  116. Pois morra, e de vergonha um deus o cubra!
  117. Nem todo o Céu te odeia; os chefes Teucros
  118. Pelo campo, das naus para a cidade,
  119. Verás de novo em pulverosa fuga.”
  120. Disse, e a correr soltou Netuno um grito:
  121. Qual de nove ou dez mil que o marte encetam,
  122. Ressoa a voz, nos corações metendo
  123. Força e vivo desejo de combates.
  124. Do vértice do Olimpo, mui gozosa,
  125. Acérrimo o cunhado e irmão pugnando
  126. A auritrônia descobre, e no Ida sumo
  127. Multimanante a Júpiter sentado,
  128. Consorte aborrecido; como o engane
  129. A olhitáurea cogita augusta Juno:
  130. Ótimo pareceu-lhe ir ter com ele
  131. Guapa e ornada e ao concúbito inflamá-lo,
  132. E um dormente sossego doce e meigo
  133. Nos sentidos e pálpebras verter-lhe.
  134. À câmara se foi, do seu Vulcano
  135. Obra, a que ele ajeitou secreta chave,
  136. Que nenhum deus a abrisse; fecha entrando
  137. Os fúlgidos batentes: com ambrosia
  138. Purifica primeiro o corpo amável,
  139. Unge-o de óleo suavíssimo e sagrado,
  140. Cuja fragrância, no Dial palácio
  141. Esparsa, o pólo banha e a terra o sente;
  142. Perfumada, penteia e anela a coma,
  143. Que da imortal cabeça em flocos brilha;
  144. Dedáleo odoro peplo airosa veste,
  145. Bordado por Minerva, e ao peito o enlaça
  146. Áurea presilha; um cinto em franjas belo
  147. Ajusta; nas orelhas bem furadas
  148. Pingentes mete insignes, de três gemas
  149. De água ofuscantes; enrola à testa régia
  150. Faixa nova e louçã, como o Sol clara;
  151. Ata aos pés luzidíssimas sandálias.
  152. Do camarim saiu toda enfeitada,
  153. E a parte a Vênus chama: “Escuta, filha:
  154. Negar-me-ás um favor, porque te enfada
  155. Ser eu contrária a Tróia e a pró dos Gregos?”
  156. Respondeu-lha a enteada: “Augusta prole
  157. Do Grã Saturno, dize o que tens n’alma;
  158. Que a minha é prestes a cumprir teu mando,
  159. Se for possível.” — E a matreira Juno:
  160. “Concede-me os desejos com que domas
  161. Humanos e imortais: aos fins do globo
  162. Visitar o Oceano pai dos deuses
  163. E a Tétis madre vou, que em seus palácios,
  164. Tomada a Reia, me criaram, quando
  165. Exul à terra e ao mar insemeável
  166. A Saturno arrojou previsto Jove:
  167. Congraçá-los pretendo; há largo tempo
  168. Do amor se abstêm, de cólera assaltados.
  169. Se os reduzo no leito a se afagarem,
  170. Ser-lhes-ei cara sempre e veneranda.”
  171. E dos risos a mãe: “Nem recusar-to
  172. Posso nem devo, a ti que em braços dormes
  173. Do nume soberano.” Eis da petrina
  174. Desprende o vário pespontado cesto,
  175. Onde havia em desenho os amorosos
  176. Deleites, os colóquios, as blandícias,
  177. Que abrem na mente ao sábio oculta brecha;
  178. E ao lho emprestar: “Esconde-o, ele os mistérios
  179. Do amor encerra todos; não presumo
  180. Que sem lograr o intento aqui retornes.”
  181. A olhitáurea sorriu, sorrindo o guarda
  182. No alvo seio; e, mal Vênus se recolhe,
  183. Ela do Olimpo rápida à Pieria
  184. Desce e à risonha Emátia, aos níveos serros
  185. Traces prossegue, e a planta o chão nem roça.
  186. Do Atos sulcando ao flutuoso ponto,
  187. Pousa em Lemnos, donde era o divo Toas;
  188. Lá se encaminha ao Sono irmão da Morte,
  189. A destra lhe estreitou: “Como antes, Sono,
  190. Senhor de homens e deuses, tu me atendas,
  191. E a minha gratidão será perene:
  192. Depois de estarmos no amoroso leito,
  193. Sopita a Jove os perspicazes lumes.
  194. Terás pulcro áureo trono incorruptível,
  195. Em que se esmere o coxo meu Vulcano,
  196. Mais um lindo escabelo onde repouses
  197. Os refulgentes pés nas lautas mesas.”
  198. E o Sono: “De Saturno ó régio garfo,
  199. Outro imortal sem custo eu sopitara,
  200. Mesmo o rio Oceano amplo-fluente,
  201. Gérmen de tudo; a Jove, não me atrevo,
  202. Salvo se ele o mandar. Já, por servir-te
  203. Me expus, no dia que da rasa Tróia
  204. Seu magnânimo filho navegava:
  205. No Egífero eu suave e sutilmente
  206. Me insinuei; borrasca seva erguendo
  207. O destroço do herói tu maquinaste;
  208. Longe de seus amigos o impeliste
  209. À populosa Cós. Desperto o Padre,
  210. O Olimpo assombra, em fúria a mim se envia,
  211. E do éter me jogara ao mar, se a Noite,
  212. Dos homens e dos deuses domadora,
  213. Não me abrigasse: irado, se conteve,
  214. A celérrima Noite respeitando.
  215. E ordenas que hoje corra igual perigo?”
  216. Juno assim contestou: “Que temes, Sono?
  217. Pensas que Jove troe a bem dos Frígios,
  218. Qual se agastou por Hércules seu filho?
  219. Anda; em prêmio haverás para consorte
  220. A mais jovem das Graças Pasiteia,
  221. Que hás sempre suspirado e almejas tanto.”
  222. Contentíssimo o Sono: “Tu mo jures
  223. Pela água Estígia; n’alma terra a destra
  224. E no mar cristalino toque a sestra:
  225. Ínferos numes, que a Saturno cercam,
  226. Testemunha que em paga me prometes
  227. A mais jovem das Graças Pasiteia,
  228. Que hei sempre suspirado e almejo tanto.”
  229. A bracicândida obedece, e invoca
  230. Tartáreos deuses, os Titãs chamados.
  231. Perfeito o juramento, Lemnos e Imbro
  232. Desertando, enublados se apressuram;
  233. No Ida, em feras e arroios abundante,
  234. Largam Lectos e o mar; o monte sobem,
  235. E andando os cimos da floresta abalam.
  236. Sem que o lobrigue Jove, na ramada
  237. Se oculta o Sono de um gigante abeto,
  238. Que pelo éter o tope desferia:
  239. Lá num gárrulo pássaro das selvas
  240. Se transforma, Cimíndis nomeado
  241. Pelos mortais, e pelos deuses Cálcis.
  242. Ao trepar Juno ao Gárgaro, eminente
  243. Pico do Ida, o Nubícogo a descobre:
  244. Ao vê-la, o amor enturva-lhe o juízo,
  245. Como a primeira vez que, subtraídos
  246. A seus pais, ternamente se ajuntaram;
  247. Veio encontrá-la e disse: “Por que, ó Juno,
  248. Sem carro nem corcéis do Olimpo desces?”
  249. A ardilosa responde: “Aos fins do globo
  250. Visitar o Oceano pai dos deuses
  251. E a Tétis madre vou, que em seus palácios,
  252. De Reia a pedimento, me criaram:
  253. Congraçá-los pretendo; há largo tempo
  254. Do amor se abstêm, de cólera assaltados.
  255. À raiz tenho do Ida os corredores
  256. Que por úmido e seco me caminham.
  257. Cá por ti venho, a fim que não te agaste
  258. Ir eu silente aos paços do Oceano.”
  259. Replicou-lhe o Nubícogo: “Vai, Juno,
  260. Depois que em doce enleio adormeçamos.
  261. Nunca deusa ou mulher me inflamou tanto:
  262. Nem de Ixion a esposa, que o valente
  263. Me produziu divino Pirítoo;
  264. Nem a filha de Acrísio delicada,
  265. Que me pariu Perseu de heróis espelho;
  266. Nem a do ínclito Fênix, de quem tive
  267. Minos e Radamanto igual aos numes;
  268. Nem de Baco, alegria dos humanos,
  269. A mãe Sêmele; nem Alcmena em Tebas,
  270. A do indomável Hércules meu filho;
  271. Nem inda a régia criniflava Ceres,
  272. A gloriosa Latona, nem tu mesma:
  273. Hoje em fogo mais vívido me acendes.”
  274. Ela acode: “Gravíssimo Satúrnio,
  275. Que proferiste? Se amoroso queres
  276. Dormir hoje comigo no Ideu cume,
  277. Tudo, olha, está patente: que seria,
  278. Se aqui nos visse algum dos sempiternos
  279. E aos demais nos mostrasse? Eu com que rosto
  280. Para os céus dos teus braços voltaria?
  281. Se o desejas, ao tálamo nos vamos
  282. De rijas portas que te obrou meu filho:
  283. Quando for de teu gosto, ali durmamos.”
  284. “Juno, torna o marido, não receies
  285. Deus nem homem; tecer vou nuvem de ouro,
  286. Que ao mesmo Sol impedirá de ver-nos,
  287. Cujo olho é o mais fino e penetrante.”
  288. Nisto, ao colo o Satúrnio abraça a esposa:
  289. Télus brota erva tenra, cróceas flores,
  290. Mole jacinto, rosciado loto,
  291. Fofa e macia cama que os soleva;
  292. Lúcido orvalho da áurea nuvem côa.
  293. Pelo amor subjugado, enquanto Jove
  294. No regaço de Juno enlanguescia,
  295. Do Gárgaro aos baixéis desliza o Sono,
  296. Para avisar o deus que abala a terra:
  297. “Já já, socorre os Dânaos, glorifica-os,
  298. Pois que Júpiter jaz por mim sopito,
  299. Em carícias de Juno adormentado.”
  300. Instante assim o anima, e aleia e parte,
  301. Várias famosas tribos invadindo.
  302. Salta à frente Netuno: “Outra vitória
  303. Cederemos, Aqueus? Heitor blasona
  304. Render as naus, por ver em ócio Aquiles;
  305. Mas fará menos falta esse iracundo,
  306. Se recíproco apoio nos prestarmos.
  307. Segui-me pois; adarguem-se os melhores;
  308. De elmos e piques fúlgidos, marchemos;
  309. Diante irei, nem cuido nos resista,
  310. Por ardente que seja, o Priamides.
  311. Seu pequeno broquel mutue o forte
  312. Pelo escudo maior do mais imbele.”
  313. Dóceis o escutam, mesmo os reis feridos,
  314. Ulisses e Diomedes e Agamemnon.
  315. Ao forte as fortes, ao mais fraco as fracas,
  316. Revestem márcias armas: coruscantes
  317. Em éreo arnês os guia o rei das ondas,
  318. Fulgúreo a manejar montante horrível;
  319. Mas, crendo injusto combater, assusta
  320. E reprime os contrários. Os Troianos
  321. Se aparelham também. Crua batalha
  322. Vai medonha empenhar-se: de uma parte
  323. Assiste o azul Netuno; de outra, ordena,
  324. E exorta e inflama os seus, o herói Dardânio.
  325. Incha o pego inundando as naus e as tendas;
  326. Com tremendo alarido se abalroam.
  327. Nem tanto, a impulsos do sanhudo Bóreas,
  328. Brame na praia a salsa equórea vaga;
  329. Nem tanto o incêndio em labaredas freme,
  330. Ao queimar incitado o monte e a selva
  331. Nem tanto pela coma dos carvalhos
  332. Muge o vento mais sevo, quão ruidoso
  333. Toa o geral clamor no ataque horrendo.
  334. Sem se esgarrar, estréia o Hectóreo dardo
  335. Por Ajax, que arrostava; mas dois bálteos,
  336. O da tarja e do gládio claviargênteo,
  337. Cercando o peito as carnes lhe preservam.
  338. Raivoso Heitor de lhe falhar o tiro,
  339. Por salvar-se recua: Ajax um seixo,
  340. Dos muitos que das naus escoras eram
  341. E topavam-se a rodo, agarra e joga;
  342. O seixo a revoltões, por sobre o escudo,
  343. Junto ao pescoço lhe acertou nos peitos.
  344. Roble que extirpa o fulminante Jove,
  345. Trescala odor sulfúreo, e quem vê treme,
  346. Do raio e da caída: assim baqueia
  347. Heitor no pó; largado o pique, o seguem
  348. O escudo e casco, e o vário arnês ressoa.
  349. Os Aqueus, na esperança de arrastá-lo,
  350. A gritos correm, jaculando crebros:
  351. Ninguém pôde ferir de perto ou longe
  352. De povos o pastor; que em roda acodem
  353. Com Polidamas Agenor e Eneias,
  354. Sarpédon chefe Lício e Glauco insigne,
  355. E os mais guerreiros de broquéis o escudam.
  356. Levam-no em braços aos frementes brutos,
  357. Atrás pelo escudeiro ao coche atados,
  358. Que a Ílio gemebundo o conduziram;
  359. Mas ante o vau do Xanto revoltoso,
  360. Rio gentil progênito de Jove,
  361. De água fresca o borrifam desmontado:
  362. Ele o espírito cobra, o céu fitando,
  363. E em joelhos vomita um sangue negro;
  364. Tomba de novo, e os olhos se lhe enturvam,
  365. A alma do golpe ainda esmorecida.
  366. Fora da liça Heitor, mais se enfurecem
  367. Os Dânaos. Lesto pula e fere de hasta
  368. O Oilíades a Satnio, que uma Náiada
  369. Linda pariu do Satnióis à margem,
  370. De Enopo que seu gado ali pascia;
  371. Apanha-lhe o quadril, supino o abate:
  372. Em torno ao corpo assanha-se o conflito.
  373. Por vingá-lo, o Pantóides Polidamas
  374. Brande a Protoenor Arcilícides
  375. Cruel dardo, que o fisga no ombro destro;
  376. Vai de palmas à terra, e Polidamas
  377. A bradar sem medida se ufaneia:
  378. “O Pantóides brioso um dardo inútil
  379. Por certo não vibrou; nele apoiado
  380. Um Dânao, creio, a Dite baixa agora.”
  381. Sente, mais do que todos, esses gabos
  382. O belaz Telamônio, a cujo lado
  383. Caiu Protoenor, e expede o bronze;
  384. Num salto oblíquo, furta-se o Troiano
  385. Ao golpe atroz, que, por querer divino,
  386. Arquéloco Antenórida recebe:
  387. Na junta que ao pescoço une a cabeça,
  388. Talha a vértebra extrema e os tendões ambos;
  389. Primeiro do que as pernas e os joelhos,
  390. No chão batem-lhe a testa e boca e ventas.
  391. Chasqueia Ajax também: “Falemos sério,
  392. Bom Polidamas, no varão prostrado
  393. Vingo a Protoenor; nem me parece
  394. Ignóbil ou covarde, e pelos traços
  395. De Antenor é parente, irmão ou filho.”
  396. Ele o conclui, e a mofa os Teucros punge.
  397. Acorrendo lanceia o irmão Acamas
  398. A Prómaco Beócio, que puxava
  399. Pelos pés o defunto, e ovante brada:
  400. “Valentões de balhesta e de bravatas,
  401. Não sós teremos luto; a vós alquando
  402. Vos ceifa a morte: ao gume desta lança,
  403. Vosso Prómaco dorme; inulto, vede,
  404. Longe não jaz Arquéloco. O valente
  405. Sempre em seu lar depreca a irmão que o vingue.”
  406. Isto os Gregos magoa, e mais ao régio
  407. Peneleu, cuja fúria contra Acamas,
  408. Que a não susteve, rui; o bote alcança
  409. A Ilioneu, que o pecoroso Forbas,
  410. De Mercúrio o Troiano predileto,
  411. Único a mãe pariu: da sobrancelha
  412. Por baixo, a ponta o lagrimal penetra,
  413. E vaza-lhe a pupila e sai à nuca;
  414. Ele de palmas tomba. A gládio o Aquivo
  415. A cabeça decepa-lhe, que elmada
  416. Como a da dormideira foi rolando;
  417. E, inda no olho metida a farpa aguda,
  418. Ergue o troféu sangüento, alardeando:
  419. “De Ilioneu preclaro aos pais queridos
  420. Anunciai-me ó Troas, que o lamentem
  421. No ululante palácio, já que a esposa
  422. Do Alegenório Prómaco ao marido
  423. Não saudará também com rosto ledo,
  424. Ao regressar a Graia mocidade.”
  425. Cessa, e medrosos pálidos os Frígios
  426. Contra a Parca um refúgio em roda esguardam.
  427. Celestes Musas, declarai-mo agora,
  428. Que Argeu cruentos conseguiu despojos,
  429. Dês que a vitória desviou Netuno?
  430. Ajax primeiro imola o Mísio cabo
  431. Girtíade Hírcio; Antíloco a Mermero
  432. Desarma e a Falces; Merion derriba
  433. A Hipótio e Móris; Teucro, a Perifetes
  434. E Protoon; na ilharga o Atrida ensopa
  435. Do maioral Hipérenor o bronze,
  436. E os rotos intestinos lhe derrama:
  437. Em treva os olhos fecha, o alento exala
  438. Pela crua ferida. A muitos prostra
  439. O ágil filho de Oileu; pois, do inimigo
  440. No encalço, a pé ninguém se lhe igualava,
  441. Quando fuga e terror Jove incutia. * * *

Nota a nota · 4 notas

v. 165Exul à terra e ao mar insemeável
Atrygetoio foi vertido em latim por infructuosum; é melhor infrugiferum, isto é o que não produz messes nem frutos da terra. Infructuosum é mais genérico, assim como o é em latim fructus em comparação de fruges: o mar é infrugífero, porque não produz messes nem frutos da terra; mas não é infrutuoso, porque produz muitos frutos que lhe são particulares. Servi-me de insemeável, que não deixa dúvida alguma.
↩ voltar ao verso 165
v. 342O seixo a revoltões, por sobre o escudo,
A revoltões, das odes de Francisco Manoel, bem que não venha em dicionário, aqui parece-me que exprime cabalmente a idéia de Homero.
↩ voltar ao verso 342
v. 362Ele o espírito cobra, o céu fitando,
Aparto-me de Monti e de M. Giguet: o primeiro diz que Heitor girò le luci intorno; o segundo, que entr’ouvre les yeux: cuido que o autor disse olhou para o céu.
↩ voltar ao verso 362
v. 415–416A cabeça decepa-lhe, que elmada
Elmada quer dizer coberta com o elmo. Creio ter lido este adjetivo em autor nosso; mas, se me engano, por minha conta vá, sendo usado por Monti, cuja língua nos acudia muitas vezes nas pressas, nos melhores tempos da nossa poesia, nos de Camões e Diogo Bernardes. — Quanto ao kodeia do verso 499 do original, penso, com Monti, que o poeta compara a caída da cabeça de Ilioneu com a cabeça de dormideira: muitos omitiram esta circunstância, nisto seguindo a Clavis de Samuel Patriolo.
↩ voltar à passagem, v. 415
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