Entre o beber sentiu Nestor o estrondo
441 versos · 4 notas do tradutor
- Entre o beber sentiu Nestor o estrondo:
- “Que será, grita, ó nobre Esculapides?
- Perto a voz cresce de alentados jovens.
- Liba tu roxo vinho, enquanto aquece
- A de louras madeixas Hecamede
- Banho em que lave da ferida os grumos:
- Vou da atalaia examinar o caso.”
- Nisto, o insigne broquel de Trasimedes,
- Que o paterno enfiara, ombreia, toma
- Rija eriaguda lança; vê de fora
- Triste espetáculo: em destroço o Grego,
- Atrás ufano o Teucro, e rota a brecha.
- Tácito quando o pélago purpúreo
- Percebe o temporal, se embrusca imóvel,
- E aguarda o vento que de Jove desça;
- Tal, indeciso o velho, agita n’alma
- Se ao conflito se deite, ou busque o Atrida.
- Mas o segundo arbítrio enfim prefere.
- Mútuo se encrua o ataque, e a brônzea malha
- De hastas e gládios percutida soa.
- Desembarcando, com Nestor se encontram
- Os vulnerados reis de Jove alunos,
- Ulisses e Diomedes e Agamemnon.
- Longe da liça, as naus em seco tinham
- N’alva areia; no plaino outras havia,
- E ante as popas o muro edificado:
- A larga praia a todas não bastava,
- E apertaria as tropas. Numa escala
- Montavam pois, do golfo enchendo a fauce
- Que abrangem vasta os promontórios ambos.
- Juntos os reis, para o combate olharem,
- Tristes vêm vindo às lanças arrimados.
- A presença aterrou-os do Nelides,
- E aflito o rei dos reis: “Da Grécia adorno,
- Por que o prélio carnívoro deixaste?
- Receio o fero Heitor, que em parlamento
- Jurou não recolher-se, antes que a frota
- Queime e nos extermine. Essa ameaça
- Ora, oh! Céus, vai cumprir-se; e, como Aquiles,
- Enraivecido[s] os grevados Gregos
- A defender-me as popas se recusam.”
- Responde-lhe o Gerênio: “É mais que certo,
- Nem o feito mudar poderá Jove:
- O muro, que fiávamos da frota
- Fosse reparo e nosso, está caído;
- O incessante conflito às naus se estende;
- Nem saberás onde ele é menos acre,
- Pois destroço geral perturba os Dânaos;
- No éter freme o alarido, e a morte reina.
- Se inda há remédio, agora o consultemos.
- Combater não vos cumpre assim feridos.”
- Mas o rei: “Já que as popas nos debelam,
- Sem valer fosso e muro, em que infalível
- Ter críamos refúgio, e construídos
- Com tanto custo, é que ao Supremo agrada
- Que em terra estranha inglórios feneçamos.
- Nunca o pensei, quando ajudados fomos:
- Exalta hoje os Troianos como a deuses;
- Os ânimos nos liga e as mãos nos tolhe.
- Eia, escutai-me: as naus do mar vizinhas
- Ponham-se em nado e em âncoras, à espera
- Da calada erma noite; eles da pugna
- Se absterão por ventura, e poderemos
- Deitar n’água as demais. Da noite à sombra
- Menor culpa é fugir que ser cativo.”
- O fecundo em recursos torvo o encara:
- “Desses dentes, Atrida, que proferes?
- A vis antes mandasses, nunca a homens
- A quem, dos verdes anos à velhice,
- Deu Jove árduas facções levar ao cabo,
- Até que morte honrada consigamos!
- Como! A soberba Tróia abandonares,
- Que tanta pena e afã nos tem custado!
- Cala, não te ouçam feio e insano voto,
- Indigno de um cetrado, a quem de Argivos
- Tal e tamanho exército obedece.
- Condeno o parecer de ao mar deitarmos
- No fervor da contenda as naus remeiras:
- Isso era incitamento aos vencedores,
- E a nós ruína; que, à manobra voltos,
- Os Dânaos da batalha afrouxariam.
- Rei dos reis, teu projeto é pernicioso.”
- E Agamemnon: “Tocou-me, ó sábio Ulisses,
- A tua increpação; nem mando à força
- As naus desencalhar: de velho ou moço,
- Que ora opine melhor, o arbítrio aceito.”
- Logo Diomedes: “Junto a vós o tendes,
- Longe não vades, se quereis conselho;
- Nem vos indigne que eu mais moço fale:
- De Tideu prole sou, de estirpe ilustre,
- Que em Tebas jaz sepulto. Claros filhos,
- Que habitavam Pleurona e Calidona,
- Teve Porteu, chamados Ágrio e Melas
- E Eneu, pai de meu pai, terceiro em anos
- E o primeiro em valor: viveu na pátria
- Meu avô; mas, depois de errores tantos,
- (Foi permissão do Céu) de Adrasto em Argos
- Meu pai tendo esposado uma das filhas,
- Herdou casa opulenta, grossas lavras
- De alamedas em torno, e muito gado;
- E excedia na lança os Dânaos todos.
- Que é verdade o sabeis; que não provenho
- De imbele geração nem baixa origem:
- Não desprezeis portanto o meu conselho,
- Urge a necessidade; à liça, amigos,
- Mesmo feridos: fora sim dos tiros,
- Para evitarmos golpe sobre golpe,
- Com palavra e presença os despeitados
- E os remissos ao prélio excitaremos.”
- Marcham de acordo os reis, o Atrida à frente.
- Nem cego os espreitava o grã Netuno,
- Que, em figura de velho, de Agamemnon
- Pega a destra a exclamar: “À vista agora
- Do Aquivo estrago e susto, o cru Pelides,
- Sem de senso haver sombra, está folgando:
- Pois morra, e de vergonha um deus o cubra!
- Nem todo o Céu te odeia; os chefes Teucros
- Pelo campo, das naus para a cidade,
- Verás de novo em pulverosa fuga.”
- Disse, e a correr soltou Netuno um grito:
- Qual de nove ou dez mil que o marte encetam,
- Ressoa a voz, nos corações metendo
- Força e vivo desejo de combates.
- Do vértice do Olimpo, mui gozosa,
- Acérrimo o cunhado e irmão pugnando
- A auritrônia descobre, e no Ida sumo
- Multimanante a Júpiter sentado,
- Consorte aborrecido; como o engane
- A olhitáurea cogita augusta Juno:
- Ótimo pareceu-lhe ir ter com ele
- Guapa e ornada e ao concúbito inflamá-lo,
- E um dormente sossego doce e meigo
- Nos sentidos e pálpebras verter-lhe.
- À câmara se foi, do seu Vulcano
- Obra, a que ele ajeitou secreta chave,
- Que nenhum deus a abrisse; fecha entrando
- Os fúlgidos batentes: com ambrosia
- Purifica primeiro o corpo amável,
- Unge-o de óleo suavíssimo e sagrado,
- Cuja fragrância, no Dial palácio
- Esparsa, o pólo banha e a terra o sente;
- Perfumada, penteia e anela a coma,
- Que da imortal cabeça em flocos brilha;
- Dedáleo odoro peplo airosa veste,
- Bordado por Minerva, e ao peito o enlaça
- Áurea presilha; um cinto em franjas belo
- Ajusta; nas orelhas bem furadas
- Pingentes mete insignes, de três gemas
- De água ofuscantes; enrola à testa régia
- Faixa nova e louçã, como o Sol clara;
- Ata aos pés luzidíssimas sandálias.
- Do camarim saiu toda enfeitada,
- E a parte a Vênus chama: “Escuta, filha:
- Negar-me-ás um favor, porque te enfada
- Ser eu contrária a Tróia e a pró dos Gregos?”
- Respondeu-lha a enteada: “Augusta prole
- Do Grã Saturno, dize o que tens n’alma;
- Que a minha é prestes a cumprir teu mando,
- Se for possível.” — E a matreira Juno:
- “Concede-me os desejos com que domas
- Humanos e imortais: aos fins do globo
- Visitar o Oceano pai dos deuses
- E a Tétis madre vou, que em seus palácios,
- Tomada a Reia, me criaram, quando
- Exul à terra e ao mar insemeável
- A Saturno arrojou previsto Jove:
- Congraçá-los pretendo; há largo tempo
- Do amor se abstêm, de cólera assaltados.
- Se os reduzo no leito a se afagarem,
- Ser-lhes-ei cara sempre e veneranda.”
- E dos risos a mãe: “Nem recusar-to
- Posso nem devo, a ti que em braços dormes
- Do nume soberano.” Eis da petrina
- Desprende o vário pespontado cesto,
- Onde havia em desenho os amorosos
- Deleites, os colóquios, as blandícias,
- Que abrem na mente ao sábio oculta brecha;
- E ao lho emprestar: “Esconde-o, ele os mistérios
- Do amor encerra todos; não presumo
- Que sem lograr o intento aqui retornes.”
- A olhitáurea sorriu, sorrindo o guarda
- No alvo seio; e, mal Vênus se recolhe,
- Ela do Olimpo rápida à Pieria
- Desce e à risonha Emátia, aos níveos serros
- Traces prossegue, e a planta o chão nem roça.
- Do Atos sulcando ao flutuoso ponto,
- Pousa em Lemnos, donde era o divo Toas;
- Lá se encaminha ao Sono irmão da Morte,
- A destra lhe estreitou: “Como antes, Sono,
- Senhor de homens e deuses, tu me atendas,
- E a minha gratidão será perene:
- Depois de estarmos no amoroso leito,
- Sopita a Jove os perspicazes lumes.
- Terás pulcro áureo trono incorruptível,
- Em que se esmere o coxo meu Vulcano,
- Mais um lindo escabelo onde repouses
- Os refulgentes pés nas lautas mesas.”
- E o Sono: “De Saturno ó régio garfo,
- Outro imortal sem custo eu sopitara,
- Mesmo o rio Oceano amplo-fluente,
- Gérmen de tudo; a Jove, não me atrevo,
- Salvo se ele o mandar. Já, por servir-te
- Me expus, no dia que da rasa Tróia
- Seu magnânimo filho navegava:
- No Egífero eu suave e sutilmente
- Me insinuei; borrasca seva erguendo
- O destroço do herói tu maquinaste;
- Longe de seus amigos o impeliste
- À populosa Cós. Desperto o Padre,
- O Olimpo assombra, em fúria a mim se envia,
- E do éter me jogara ao mar, se a Noite,
- Dos homens e dos deuses domadora,
- Não me abrigasse: irado, se conteve,
- A celérrima Noite respeitando.
- E ordenas que hoje corra igual perigo?”
- Juno assim contestou: “Que temes, Sono?
- Pensas que Jove troe a bem dos Frígios,
- Qual se agastou por Hércules seu filho?
- Anda; em prêmio haverás para consorte
- A mais jovem das Graças Pasiteia,
- Que hás sempre suspirado e almejas tanto.”
- Contentíssimo o Sono: “Tu mo jures
- Pela água Estígia; n’alma terra a destra
- E no mar cristalino toque a sestra:
- Ínferos numes, que a Saturno cercam,
- Testemunha que em paga me prometes
- A mais jovem das Graças Pasiteia,
- Que hei sempre suspirado e almejo tanto.”
- A bracicândida obedece, e invoca
- Tartáreos deuses, os Titãs chamados.
- Perfeito o juramento, Lemnos e Imbro
- Desertando, enublados se apressuram;
- No Ida, em feras e arroios abundante,
- Largam Lectos e o mar; o monte sobem,
- E andando os cimos da floresta abalam.
- Sem que o lobrigue Jove, na ramada
- Se oculta o Sono de um gigante abeto,
- Que pelo éter o tope desferia:
- Lá num gárrulo pássaro das selvas
- Se transforma, Cimíndis nomeado
- Pelos mortais, e pelos deuses Cálcis.
- Ao trepar Juno ao Gárgaro, eminente
- Pico do Ida, o Nubícogo a descobre:
- Ao vê-la, o amor enturva-lhe o juízo,
- Como a primeira vez que, subtraídos
- A seus pais, ternamente se ajuntaram;
- Veio encontrá-la e disse: “Por que, ó Juno,
- Sem carro nem corcéis do Olimpo desces?”
- A ardilosa responde: “Aos fins do globo
- Visitar o Oceano pai dos deuses
- E a Tétis madre vou, que em seus palácios,
- De Reia a pedimento, me criaram:
- Congraçá-los pretendo; há largo tempo
- Do amor se abstêm, de cólera assaltados.
- À raiz tenho do Ida os corredores
- Que por úmido e seco me caminham.
- Cá por ti venho, a fim que não te agaste
- Ir eu silente aos paços do Oceano.”
- Replicou-lhe o Nubícogo: “Vai, Juno,
- Depois que em doce enleio adormeçamos.
- Nunca deusa ou mulher me inflamou tanto:
- Nem de Ixion a esposa, que o valente
- Me produziu divino Pirítoo;
- Nem a filha de Acrísio delicada,
- Que me pariu Perseu de heróis espelho;
- Nem a do ínclito Fênix, de quem tive
- Minos e Radamanto igual aos numes;
- Nem de Baco, alegria dos humanos,
- A mãe Sêmele; nem Alcmena em Tebas,
- A do indomável Hércules meu filho;
- Nem inda a régia criniflava Ceres,
- A gloriosa Latona, nem tu mesma:
- Hoje em fogo mais vívido me acendes.”
- Ela acode: “Gravíssimo Satúrnio,
- Que proferiste? Se amoroso queres
- Dormir hoje comigo no Ideu cume,
- Tudo, olha, está patente: que seria,
- Se aqui nos visse algum dos sempiternos
- E aos demais nos mostrasse? Eu com que rosto
- Para os céus dos teus braços voltaria?
- Se o desejas, ao tálamo nos vamos
- De rijas portas que te obrou meu filho:
- Quando for de teu gosto, ali durmamos.”
- “Juno, torna o marido, não receies
- Deus nem homem; tecer vou nuvem de ouro,
- Que ao mesmo Sol impedirá de ver-nos,
- Cujo olho é o mais fino e penetrante.”
- Nisto, ao colo o Satúrnio abraça a esposa:
- Télus brota erva tenra, cróceas flores,
- Mole jacinto, rosciado loto,
- Fofa e macia cama que os soleva;
- Lúcido orvalho da áurea nuvem côa.
- Pelo amor subjugado, enquanto Jove
- No regaço de Juno enlanguescia,
- Do Gárgaro aos baixéis desliza o Sono,
- Para avisar o deus que abala a terra:
- “Já já, socorre os Dânaos, glorifica-os,
- Pois que Júpiter jaz por mim sopito,
- Em carícias de Juno adormentado.”
- Instante assim o anima, e aleia e parte,
- Várias famosas tribos invadindo.
- Salta à frente Netuno: “Outra vitória
- Cederemos, Aqueus? Heitor blasona
- Render as naus, por ver em ócio Aquiles;
- Mas fará menos falta esse iracundo,
- Se recíproco apoio nos prestarmos.
- Segui-me pois; adarguem-se os melhores;
- De elmos e piques fúlgidos, marchemos;
- Diante irei, nem cuido nos resista,
- Por ardente que seja, o Priamides.
- Seu pequeno broquel mutue o forte
- Pelo escudo maior do mais imbele.”
- Dóceis o escutam, mesmo os reis feridos,
- Ulisses e Diomedes e Agamemnon.
- Ao forte as fortes, ao mais fraco as fracas,
- Revestem márcias armas: coruscantes
- Em éreo arnês os guia o rei das ondas,
- Fulgúreo a manejar montante horrível;
- Mas, crendo injusto combater, assusta
- E reprime os contrários. Os Troianos
- Se aparelham também. Crua batalha
- Vai medonha empenhar-se: de uma parte
- Assiste o azul Netuno; de outra, ordena,
- E exorta e inflama os seus, o herói Dardânio.
- Incha o pego inundando as naus e as tendas;
- Com tremendo alarido se abalroam.
- Nem tanto, a impulsos do sanhudo Bóreas,
- Brame na praia a salsa equórea vaga;
- Nem tanto o incêndio em labaredas freme,
- Ao queimar incitado o monte e a selva
- Nem tanto pela coma dos carvalhos
- Muge o vento mais sevo, quão ruidoso
- Toa o geral clamor no ataque horrendo.
- Sem se esgarrar, estréia o Hectóreo dardo
- Por Ajax, que arrostava; mas dois bálteos,
- O da tarja e do gládio claviargênteo,
- Cercando o peito as carnes lhe preservam.
- Raivoso Heitor de lhe falhar o tiro,
- Por salvar-se recua: Ajax um seixo,
- Dos muitos que das naus escoras eram
- E topavam-se a rodo, agarra e joga;
- O seixo a revoltões, por sobre o escudo,
- Junto ao pescoço lhe acertou nos peitos.
- Roble que extirpa o fulminante Jove,
- Trescala odor sulfúreo, e quem vê treme,
- Do raio e da caída: assim baqueia
- Heitor no pó; largado o pique, o seguem
- O escudo e casco, e o vário arnês ressoa.
- Os Aqueus, na esperança de arrastá-lo,
- A gritos correm, jaculando crebros:
- Ninguém pôde ferir de perto ou longe
- De povos o pastor; que em roda acodem
- Com Polidamas Agenor e Eneias,
- Sarpédon chefe Lício e Glauco insigne,
- E os mais guerreiros de broquéis o escudam.
- Levam-no em braços aos frementes brutos,
- Atrás pelo escudeiro ao coche atados,
- Que a Ílio gemebundo o conduziram;
- Mas ante o vau do Xanto revoltoso,
- Rio gentil progênito de Jove,
- De água fresca o borrifam desmontado:
- Ele o espírito cobra, o céu fitando,
- E em joelhos vomita um sangue negro;
- Tomba de novo, e os olhos se lhe enturvam,
- A alma do golpe ainda esmorecida.
- Fora da liça Heitor, mais se enfurecem
- Os Dânaos. Lesto pula e fere de hasta
- O Oilíades a Satnio, que uma Náiada
- Linda pariu do Satnióis à margem,
- De Enopo que seu gado ali pascia;
- Apanha-lhe o quadril, supino o abate:
- Em torno ao corpo assanha-se o conflito.
- Por vingá-lo, o Pantóides Polidamas
- Brande a Protoenor Arcilícides
- Cruel dardo, que o fisga no ombro destro;
- Vai de palmas à terra, e Polidamas
- A bradar sem medida se ufaneia:
- “O Pantóides brioso um dardo inútil
- Por certo não vibrou; nele apoiado
- Um Dânao, creio, a Dite baixa agora.”
- Sente, mais do que todos, esses gabos
- O belaz Telamônio, a cujo lado
- Caiu Protoenor, e expede o bronze;
- Num salto oblíquo, furta-se o Troiano
- Ao golpe atroz, que, por querer divino,
- Arquéloco Antenórida recebe:
- Na junta que ao pescoço une a cabeça,
- Talha a vértebra extrema e os tendões ambos;
- Primeiro do que as pernas e os joelhos,
- No chão batem-lhe a testa e boca e ventas.
- Chasqueia Ajax também: “Falemos sério,
- Bom Polidamas, no varão prostrado
- Vingo a Protoenor; nem me parece
- Ignóbil ou covarde, e pelos traços
- De Antenor é parente, irmão ou filho.”
- Ele o conclui, e a mofa os Teucros punge.
- Acorrendo lanceia o irmão Acamas
- A Prómaco Beócio, que puxava
- Pelos pés o defunto, e ovante brada:
- “Valentões de balhesta e de bravatas,
- Não sós teremos luto; a vós alquando
- Vos ceifa a morte: ao gume desta lança,
- Vosso Prómaco dorme; inulto, vede,
- Longe não jaz Arquéloco. O valente
- Sempre em seu lar depreca a irmão que o vingue.”
- Isto os Gregos magoa, e mais ao régio
- Peneleu, cuja fúria contra Acamas,
- Que a não susteve, rui; o bote alcança
- A Ilioneu, que o pecoroso Forbas,
- De Mercúrio o Troiano predileto,
- Único a mãe pariu: da sobrancelha
- Por baixo, a ponta o lagrimal penetra,
- E vaza-lhe a pupila e sai à nuca;
- Ele de palmas tomba. A gládio o Aquivo
- A cabeça decepa-lhe, que elmada
- Como a da dormideira foi rolando;
- E, inda no olho metida a farpa aguda,
- Ergue o troféu sangüento, alardeando:
- “De Ilioneu preclaro aos pais queridos
- Anunciai-me ó Troas, que o lamentem
- No ululante palácio, já que a esposa
- Do Alegenório Prómaco ao marido
- Não saudará também com rosto ledo,
- Ao regressar a Graia mocidade.”
- Cessa, e medrosos pálidos os Frígios
- Contra a Parca um refúgio em roda esguardam.
- Celestes Musas, declarai-mo agora,
- Que Argeu cruentos conseguiu despojos,
- Dês que a vitória desviou Netuno?
- Ajax primeiro imola o Mísio cabo
- Girtíade Hírcio; Antíloco a Mermero
- Desarma e a Falces; Merion derriba
- A Hipótio e Móris; Teucro, a Perifetes
- E Protoon; na ilharga o Atrida ensopa
- Do maioral Hipérenor o bronze,
- E os rotos intestinos lhe derrama:
- Em treva os olhos fecha, o alento exala
- Pela crua ferida. A muitos prostra
- O ágil filho de Oileu; pois, do inimigo
- No encalço, a pé ninguém se lhe igualava,
- Quando fuga e terror Jove incutia. * * *