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IlíadaLivro XXIII
LivroXXIII

Gemia a grã cidade, e pelas praias

741 versos · 7 notas do tradutor


  1. Gemia a grã cidade, e pelas praias
  2. Do alto Helesponto às naus se encaminhavam.
  3. Sem dispersar os Mirmidões, Aquiles:
  4. “Équites caros, disse, os corredores
  5. Não soltemos; de coche, ao morto vamos
  6. O tributo de lágrimas pagar-lhe.
  7. Assim que em ais ali desafogarmos,
  8. Desatem-se os cavalos e ceemos.”
  9. Após ele, os Aqueus nas crinipulcras
  10. Bigas circundam vezes três Pátroclo,
  11. E Tétis exacerba o luto e o pranto;
  12. Do afugenta-esquadrões saudosos todos,
  13. O chão regam do choro, as armas regam.
  14. Em soluços Aquiles, urra impondo
  15. As homicidas mãos do sócio aos peitos:
  16. “Salve, Pátroclo, na Plutônia estância!
  17. Hei-de a palavra encher: Heitor em pasto
  18. A cães dar; em vingança, doze ilustres
  19. Jovens de Ílio ante a pira degolar-te.”
  20. Aqui, no pó de bruços, obra indigna!
  21. Roja à tumba do amigo o herói Troiano.
  22. As éreas deixam coruscantes armas,
  23. Os cavalos altíssonos desjungem:
  24. Da capitânia em roda, o lauto aprestam
  25. Feral banquete: a ferro bois sangrados
  26. Mugem, balam ovelhas, berram cabras;
  27. Tostam-se ao fogo de Vulcano os pêlos
  28. De gordos porcos de alvejantes presas;
  29. Mana em torno a Pátroclo o sangue em ondas.
  30. Entanto, ao sumo Atrida o rei Pelides,
  31. Iroso e consternado, os mais conseguem
  32. A custo conduzir. Chegados sendo
  33. Ao real de Agamemnon, este arautos
  34. Canoros aquecer trípode manda,
  35. Para expurgar-se da sangueira Aquiles.
  36. Este o recusa: “Pelo Deus supremo
  37. E ótimo, juro não tocar em banho,
  38. Antes que ao meu Pátroclo a pira ateie,
  39. Sepulcro erija, este cabelo sagre:
  40. Pena igual não terei, por mais que viva.
  41. Ora ao festim odioso nos prestemos.
  42. N’alva ordena, Agamemnon, que à fogueira
  43. Cumulem grossa lenha, a elevem digna
  44. Do herói que baixa a Dite, e aos olhos nossos
  45. Hão-de sumir infatigáveis chamas;
  46. Depois, o exército às muralhas marche.”
  47. Obedecem-lhe e comem, nem se queixam
  48. De quinhões desiguais; já bem ceados,
  49. Vai cada qual se repousar na tenda.
  50. Só nas praias flutíssonas Aquiles
  51. No meio jaz dos Mirmidões, num sítio
  52. Onde a vaga rugia; e, quando o sono
  53. Meigo lhe esparge o alívio do cansaço,
  54. De perseguir Heitor perante os muros
  55. E de tanto chorar, espectro em sonhos,
  56. Ao mísero Pátroclo parecido
  57. Em trajo, em voz, no talhe e belos olhos,
  58. Põe-se-lhe à cabeceira: “Aquiles dormes?
  59. E o morto esqueces que na vida amaste:
  60. Sepulta-me, que junto às portas erro
  61. Da ampla casa Plutônia; dos finados
  62. Repulsando-me as almas, não permitem
  63. Com elas misturar-me além do Estige.
  64. Dá-me essa mão, que em lágrimas eu lave;
  65. Combusto apenas, do Orco mais não torno
  66. Em segredo não mais consultaremos!
  67. Tragou-me a sorte que de berço tive;
  68. A tua é perecer, divino Aquiles,
  69. Aos muros dos belígeros Troianos.
  70. Peço-te e recomendo que os meus ossos
  71. Unas aos teus, Pelides, já que unidos
  72. Criados fomos, dês que lá de Opunte
  73. Mocinho com Menetes vim a Ftia,
  74. Porque, ao jogo irritado, involuntário
  75. Matei sem tento o filho de Anfidamas.
  76. Teu pai me recolheu benignamente,
  77. Alimentou-me e nomeou teu pajem;
  78. Nossos ossos encerre a de asas de ouro
  79. Urna pela mãe deusa a ti doada.”
  80. “A mim, dileto irmão, responde Aquiles,
  81. Vens com tais ordens? Vou cumpri-las todas.
  82. Ah! chega-te, e sequer nos abracemos,
  83. Desabafo ao pesar.” E as mãos lhe estende,
  84. Mas nada abraça, alteia a sombra um grito,
  85. Como em fumo soterra-se. O Pelides,
  86. Palma com palma atônito batendo,
  87. Mesto profere: “Oh! Certo há no Orco fundo
  88. Vácuas imagens, não tangíveis corpos:
  89. A alma do meu Pátroclo, de estupenda
  90. Semelhança com ele, aqui me intima
  91. Tristíssima e chorosa expressas ordens.”
  92. Com isto o luto acende, e a rósea Aurora
  93. Acha-o carpindo em cerco do cadáver.
  94. Da tenda gente e mus, que tragam lenha,
  95. Expede o Atrida, e Merion com eles,
  96. De Idomeneu guapíssimo escudeiro.
  97. Munidos vão de cordas e machados,
  98. E os mus diante; encostas, morros, vales
  99. E azinhagas transpondo, às matas chegam
  100. Do Ida multimanante; a bronze afiado
  101. Carvalhos de alta grenha à pressa abatem,
  102. Que estrepitosos roncam; sempre alerta,
  103. Carregam logo os mus, que o solo calcam
  104. Entre espinhais, do plaino desejosos;
  105. E eles, prescreve-o Merion, carretam
  106. À praia troncos, onde o herói sepulcro
  107. Erigir a Pátroclo e a si traçara.
  108. Em torno ao lígneo monte se apinhoam.
  109. Armar-se aos Mirmidões ordena Aquiles
  110. E as parelhas dispor; alvoroçados
  111. Revestem-se de bronze, aos carros montam
  112. Combatentes e aurigas; seguem nuvens
  113. De infantaria; o esquife amigos trazem,
  114. Que o morto cobrem de aparadas crinas;
  115. O herói mesto a cabeça atrás sustenta,
  116. Que a Dite envia com funérea pompa.
  117. Deposto o esquife no lugar marcado,
  118. A lenha empilham sobre. — O divo Aquiles
  119. Al medita: afastando-se da pira,
  120. Corta o louro cabelo, que florente,
  121. Votado ao rio Espérquio, lhe crescia;
  122. Geme, olha o negro mar: “Debalde, Espérquio,
  123. To consagrou Peleu por meu retorno,
  124. Prometendo imolar uma hecatombe
  125. E cinqüenta carneiros junto às fontes,
  126. Onde ara tens odora e santo luco;
  127. Pois do ancião desatendeste as preces,
  128. Nem torno à doce pátria. Assim, permite
  129. Que este cabelo o amigo a Plutão leve.”
  130. Ao metê-lo nas mãos do seu Pátroclo,
  131. Mais ateava o luto; o qual durara
  132. Além do sol cadente, se ele mesmo
  133. Não dissesse a Agamemnon: “Para choros
  134. Fica assaz tempo. Às tropas te compete
  135. Fazer cear: o funeral nos deixem;
  136. Os cabos sós conosco permaneçam.”
  137. O Atrida a gente pelas naus desparze,
  138. Das exéquias restando os funcionários.
  139. De pés cúbitos cem fogueira alçando,
  140. O corpo em cima contristados pousam.
  141. Esfolam pretos bois, ovelhas pingues:
  142. Da gordura o Pelides unge-o todo
  143. Em derredor as carnes lhe acumula.
  144. Ânforas de óleo e mel no esquife emborca;
  145. Árduos quatro corcéis com pena lança
  146. À fogueira, e dois cães também degola,
  147. Dos nove à sua mesa apascentados;
  148. Os nobres filhos doze, obra inumana!
  149. De Troianos magnânimos imola,
  150. E para os consumir atiça o fogo.
  151. A soluçar enfim o amigo invoca:
  152. “Salve, Pátroclo, na Plutônia estância!
  153. A palavra cumpri: queimei contigo
  154. Os doze Teucros, não a Heitor Priâmeo,
  155. Que só destino a famulentos perros.”
  156. Ameaça em vão; de dia e noite Vênus
  157. De Heitor aparta os cães, e por que a rojo
  158. Não se espedace, untou-o de rosado
  159. Óleo divino: adensa em roda Apolo
  160. Nuvem cerúlea, impede que o sol forte
  161. Os músculos e nervos lhe desseque.
  162. Não arde a pira entanto. O nobre Aquiles
  163. Cogita a parte, belos sacrifícios
  164. A Bóreas vota e a Zéfiro; suplica,
  165. Libando em áurea taça, que animada
  166. O cadáver consuma a voraz chama.
  167. Íris o escuta e voa; encontra os ventos
  168. Na caverna de Zéfiro sonoro
  169. Em banquete solene. A núncia ao verem
  170. Queda à entrada lapídea, erguem-se todos,
  171. E cada qual o encosto lhe oferece;
  172. Mas ela: “Não me assento, porque às margens
  173. Do Oceano e aos Etíopes retorno:
  174. Quero participar das hecatombes,
  175. Que aos imortais prodigam. Pede Aquiles
  176. A vós, Zéfiro e Bóreas, com promessas
  177. E egrégios votos, que inflameis a pira
  178. Ante a qual a Pátroclo os Dânaos gemem.”
  179. Foi-se; os ventos rugindo impelem nuvens,
  180. Com sopro hórrido e ríspido encapelam
  181. O clamoroso pego, a Tróia arribam,
  182. Encostam-se à fogueira, o esforço dobram:
  183. Toda a noite respira e estala a chama;
  184. De áurea cratera toda noite Aquiles,
  185. Em taça duplicôncova exaurindo,
  186. O chão de vinho ensopa, evoca a sombra:
  187. Qual pai queimando os ossos do esposado
  188. Filho, com mágoa da família extinto,
  189. O herói chora ao queimar os ossos,
  190. Roja-se em crebros ais perante a pira.
  191. Quando anuncia Lúcifer que os mares
  192. Vêem desdobrar seu manto a crócea Aurora,
  193. O fogo langue e morre; ao Trácio ponto,
  194. Que freme inchado, os ventos se retiram.
  195. Distante, lasso o herói, no sono pega;
  196. Mas acorda ao rumor dos que se agregam
  197. De Agamemnon em roda, e em pé discorre:
  198. “Atrida, e vós ó príncipes da Grécia,
  199. Com roxo vinho o fogo apaguei todo;
  200. Os ossos do Menécio recolhamos,
  201. Fáceis de conhecer, porque ele em meio
  202. Da pira estava, e os outros nos extremos,
  203. Mistos combustos homens e cavalos.
  204. Em duplo zerbo envoltos, urna de ouro
  205. Guarde-os, até que a Dite eu mesmo desça.
  206. Túmulo alto não quero, mas decente:
  207. Amplo no-lo alçareis, quando aqui, Dânaos,
  208. Nas cavas naus partindo, me deixardes.”
  209. Prontos, com roxo vinho o fogo apagam
  210. Da pira inteira, e ao fundo abate a cinza;
  211. A chorar do bom sócio os brancos ossos,
  212. Com duplo zerbo, em urna de ouro colhem;
  213. Metem-na em véu sutil, na tenda a fecham;
  214. Terra ao pé da fogueira amontoando,
  215. Ao circular sepulcro as bases lançam.
  216. Feito o que, já voltavam; mas detém-os
  217. E assenta-os o Peleio em vasto corro:
  218. Das naus vêm caldeirões, trípodes, vasos,
  219. Vêm cachaçudos bois, ginetes, mulas,
  220. E airosas moças e polido ferro.
  221. Para o curso dos carros mostra os prêmios:
  222. É primeiro, formosa hábil cativa,
  223. E capaz de medidas vinte duas
  224. Trípode asada; é outro, égua bravia
  225. De seis anos, que um mu no ventre encerra;
  226. Terceiro, um caldeirão nunca servido,
  227. Luzente e limpo, de medidas quatro;
  228. Áureos talentos dois seguem-se; é quinto,
  229. Biaurito boião da chama ileso.
  230. Aquiles se ergue: “Atrida e Graios chefes,
  231. Eis os Prêmios dos rápidos aurigas.
  232. A ser diversa a causa do certame,
  233. Certo o primeiro à tenda eu levaria;
  234. Tenho imortais corcéis, que a todos vencem,
  235. Dom Netunino, que Peleu passou-me:
  236. Eu descanso e os corcéis. Ah! que lhes falta
  237. Quem, lavando-os em límpida corrente,
  238. Os ungia e afagava as belas crinas;
  239. Ora, espalhada a coma, aqui lagrimam,
  240. Com dor no coração! Vós outros, eia,
  241. Aparecei; do exército concorram
  242. Os que em seus coches e cavalos fiam.”
  243. Disse, e lestos aurigas se apresentam.
  244. Filho de Admeto o maioral Eumelo,
  245. Afamado cursor, surgiu primeiro.
  246. Surgiu Diomedes na parelha ganha
  247. Ao salvo Eneias por mercê de Apolo.
  248. Surgiu no seu Podargo o louro Atrida
  249. E em Eta, égua veloz, que em paga houvera
  250. De Equepolo Anquisíada Agamemnon,
  251. Por dispensá-lo da Troiana guerra,
  252. E o deixar na opulenta Sicíone
  253. Fruir delícias, do Satúrnio dadas.
  254. Foi quarto o nobre Antíloco, do grande
  255. Nestor filho, e agitava amplo-crinita
  256. Biga de Pilos em voante carro.
  257. Então seu pai desperta-lhe a prudência:
  258. “De pequeno te amou Jove e Netuno,
  259. Que todo eqüestre jogo te ensinaram;
  260. Pouco hás mister. Girar as metas sabes,
  261. Só dos lentos corcéis temo a tardança:
  262. Nenhum rival te excede em manejá-los,
  263. Bem que os tenham melhores. Sê, meu filho,
  264. Destro e previsto, não te fuja o prêmio.
  265. Mais vale arte que força ao carpinteiro;
  266. Arte guia o piloto em lenho frágil
  267. Da tormenta açoitado: assim, com arte
  268. Cursor vence a cursor. Quem tudo libra
  269. Em cavalos e coche, anda às guinadas,
  270. A vagar pelo estádio sem governo:
  271. Quem dos seus desconfia, atento à meta
  272. Rente a circula, as bridas retém firme
  273. Ou laxa a tempo, olhando ao que o precede.
  274. Observas? Uma braça está de fora
  275. De lariço ou carvalho o seco tronco,
  276. Pelas chuvas não podre; há brancas pedras,
  277. Uma de cada parte, onde o caminho
  278. Da planície no meio a boca estreita,
  279. São feral monumento, ou priscos marcos:
  280. Lá pôs Aquiles da carreira o termo;
  281. Lá dirige o teu carro. À esquerda um pouco
  282. No assento inclina; ameaça, grita, inflama
  283. Da direita o cavalo, afrouxa as rédeas;
  284. Cerre-se o outro à meta, que pareça
  285. I-la o meião rascando, sem que esbarres,
  286. E ofendas os corcéis e o coche rompas:
  287. Opróbrio teu seria e alheio gáudio.
  288. Filho, cautela: a meta se urges perto,
  289. Nenhum pode apanhar-te ou preterir-te;
  290. Nem que após te viesse Arion ginete,
  291. Raça imortal, possuído por Adrasto,
  292. Nem os que Laomedonte aqui nutria.”
  293. Ao filho assim adverte, e ao posto volve.
  294. Quinto apronta Merion comantes brutos.
  295. Montam; sacode Aquiles no elmo as sortes
  296. Primeiro sai Antíloco Nestório;
  297. Segundo Eumelo; é Menelau terceiro;
  298. Merion quarto; é último o sublime
  299. Tidides forte. Em linha se colocam;
  300. Indica o herói no plaino as longes metas;
  301. Onde era o de Peleu divino pajem
  302. Fênix, que tudo imparcial decida.
  303. A gritos e a chicote a ponto incitam
  304. Os corcéis que da praia ao campo arrancam.
  305. De pó nuvens aos peitos se enovelam,
  306. Crinas ao vento a flutuar: os coches
  307. Ora tocam no chão, ora alto pulam;
  308. Têm-se firmes nas selas os cursores;
  309. Pelo triunfo os corações palpitam;
  310. Cada qual seus ginetes estimula.
  311. Que a terra a esboroar, não correm, voam.
  312. Girada a meta, a toda brida voltam
  313. Ao mar encanecido, e mais o afogo
  314. Dos heróis se distingue. Longe avançam
  315. As éguas agilíssimas de Feres:
  316. Depois, Diomedes nos cavalos Tróicos
  317. A respirar tão próximos, que o bafo
  318. De Eumelo o dorso aquenta e os vastos ombros,
  319. Ao coche as ventas protendidas bufam.
  320. Vencera ou fora dúbio o vencimento,
  321. Se infesto Apolo o açoute luzidio
  322. Não sacasse a Tidides. Este brame,
  323. D’água os olhos arrasa, ao ver as éguas
  324. Mais desenvoltas, os cavalos menos,
  325. Por lhes faltar o estímulo. De Apolo
  326. Sente a fraude Minerva, e de repente
  327. Restitui o chicote, alenta a biga:
  328. De Admeto ao filho a déia quebra o jugo:
  329. O temão rola, as éguas se extraviam:
  330. Cai junto à roda Eumelo; aos cotovelos,
  331. Boca e nariz, ao pé das sobrancelhas,
  332. Fere-se, coalha a voz, lagrima irado.
  333. Fulge avante o rival: prestou Minerva
  334. Aos sonípedes força, e deu-lhe a palma.
  335. Insta o Nestório atrás do flavo Atrida
  336. Brada ao paterno tiro: “Eia, estirai-vos
  337. Em celérrimo curso. Não pretendo
  338. Com Diomedes lutar, a quem Minerva
  339. Afogueia os corcéis, reserva a glória,
  340. Mas segui-me incessantes os do Atrida:
  341. Eta fêmea é vergonha preterir-vos.
  342. Por que desfaleceis? Prometo e faço:
  343. Não mais Nestor vos tratará com mimo,
  344. Antes mortos sereis a brônzeo gume,
  345. Se obtenho um prêmio vil por vossa incúria.
  346. Precipitamente arrebatai-me:
  347. Infalível ardil maquino, esguardo
  348. Como no estreito a Menelau supere.”
  349. Da ameaça com medo, eles disparam;
  350. O incansável Antíloco no instante
  351. O passo viu: barranco era precípite,
  352. Pela invernada aberto no caminho.
  353. Cose-se a ele o Atrida, um choque evita;
  354. Mas o rival torcendo empuxa os brutos
  355. Um pouco fora, e desviado segue.
  356. Em susto Menelau: “Suspende, insano,
  357. Enfreia o curso teu na augusta via;
  358. Deixa que alargue, e passarás a folgo:
  359. Os carros entre si não se espedacem.”
  360. Surdo aguilhoa Antíloco a parelha:
  361. Correram quanto solto abrange o disco
  362. De atleta jovem, que o vigor ostenta.
  363. Recua Eta o Podargo: o Atrida cessa,
  364. Teme os coches e arreios se embaracem,
  365. Por terra da vitória os contendores.
  366. “Antíloco, bradou, sábio eras crido,
  367. E ninguém há mais pérfido; prossegue,
  368. Mas sem jurares não terás o prêmio.”
  369. Logo afala os corcéis: “Bem que arrojados,
  370. Não demoreis; das patas e joelhos
  371. Primeiro aqueles cansarão por velhos.”
  372. Dóceis, à desfilada, eis se apropinquam.
  373. De circo espectadores aguardavam
  374. Os férvidos alípedes poentos.
  375. O Cresso cabo os avistou primeiro,
  376. Na atalaia sentado, e a voz sentia
  377. Do mais próximo auriga; reconhece
  378. Baio ginete que na testa malha
  379. Branca tinha e redonda como a Lua;
  380. Ergue-se e diz: “Amigos chefes Graios,
  381. Olhai vós: outro coche, outro escudeiro,
  382. Fora do que pensávamos, descubro.
  383. Certo as éguas de Eumelo estão feridas,
  384. Que mais lestas eu vi dobrando a meta,
  385. E enxergá-las não posso, inda que os olhos
  386. Por tudo espalhe. As rédeas lhe escaparam,
  387. Ou girou mal o guia, ou não conteve
  388. Na meta o coche; que é talvez em peças,
  389. Derribado o seu dono, extraviadas
  390. As éguas em furor. Em pé vós outros
  391. Atentai: não discirno, mas suponho
  392. O chefe Etólio ser, do cavaleiro
  393. Tideu prole condigna, Diomedes.”
  394. O Oiliades o argúi: “Falas às tontas,
  395. Idomeneu? Pela ampla arena as éguas
  396. Aerípedes vêm. Não és tão moço
  397. Para teres a vista mais aguda.
  398. És temerário; não te cabe à toa
  399. Pronunciar, outros juízes temos:
  400. Elas marcham diante, e as rege Eumelo.”
  401. Retorque Idomeneu: “Sempre insolente,
  402. Malédico e rixoso, és entre os Gregos
  403. Inferior no demais. Ora apostemos
  404. Uma caldeira ou trípode; Agamemnon
  405. Nos julgue, Ajax, à tua custa aprendas
  406. Que essas rápidas éguas se atrasaram.”
  407. O Oiliades replica exasperado;
  408. E azedara a contenda, se o Peleio
  409. Não se interpõe: “De injúrias vos abstende,
  410. Ajax e Idomeneu; por certo em outros
  411. Escandecência tal estranharíeis.
  412. Ora tranqüilos esperai por todos;
  413. Conhecereis em breve quais ginetes
  414. Primeiro são no páreo, e quais segundos.”
  415. Não acabava, e relumbrou Tidides,
  416. Fustigando entonados vencedores,
  417. Que empoeiram seu guia, o espaço tragam;
  418. De ouro e estanho luzindo, o leve coche
  419. Na fina areia as rodas mal sinala;
  420. Queda no circo a biga, dos pescoços
  421. E peitorais em bagas escorria.
  422. Diomedes pula da brilhante sela,
  423. Encosta ao jugo o açoite; sem demora
  424. Toma Estênelo a trípode e a cativa,
  425. Que entrega aos sócios, e os corcéis desprende.
  426. Antíloco Neleio, mais por dolo
  427. Que por destreza, a Menelau precede:
  428. Quanto um cavalo da rodagem dista,
  429. Lambendo-a em círculo a peluda cauda;
  430. Ao bater a campina em curso alado,
  431. Assim distava o Atrida, bem que a tiro
  432. De disco esteve já: mais se alentava
  433. Eta criniluzente, e, houvesse espaço,
  434. Fora certa a vitória. Atrás o estrênuo
  435. Merion Cretense vinha, de hasta quanto
  436. O bote alcança; que era larga a biga,
  437. E ele mesmo o cursor menos perito.
  438. De Admeto o filho, derradeiro, as éguas
  439. E ornadíssimo coche a pé tirava.
  440. De vê-lo comisera-se o Pelides,
  441. E aos Aquivos exclama: “Vem prosterna
  442. Do mais prestante a unguíssona parelha!
  443. Justo é lhe darmos o segundo prêmio,
  444. E o filho de Tideu guarde o primeiro.”
  445. Soa o aplauso, e de Eumelo a égua fora,
  446. Se não reclama Antíloco: “Pelides,
  447. Essa iníqua sentença me exacerba!
  448. Negas meu jus com pena de que um nume,
  449. Frustrando-lhe a destreza, lhe ofendesse
  450. O coche e leve tiro! Aos céus rogasse,
  451. Não seria o postremo. Se hás piedade
  452. E o amas, tens rebanho e ouro e cobre,
  453. Tens escravas contigo e bons cavalos,
  454. Com que ao diante, ou já, brindá-lo possas;
  455. Então a gosto aplaudem-te os Aquivos.
  456. Meu prêmio não darei; se alguém o anela,
  457. Ora de armas na mão buscá-lo venha.”
  458. Sorrindo Aquiles, ao querido sócio
  459. Disse afável: “Será como desejas;
  460. De Asteropeu lustrosa Eumelo tenha
  461. Érea couraça de alvo estanho orlada,
  462. Que ele há-de apreciar.” Da tenda manda
  463. Que a traga Automedon seu camarada.
  464. Na posse do presente, Eumelo folga.
  465. O divo Menelau, sentido iroso,
  466. Do arauto, que silêncio impôs aos Gregos,
  467. Tomado arvora o cetro: “Que é da tua
  468. Honra e prudência, Antíloco? Infamaste
  469. Meu valor, meus corcéis, de encontro a eles
  470. Os teus de menos brio atravessando;
  471. Príncipes Gregos, sem favor julgai-nos;
  472. Ninguém diga: — Mentindo e prepotente
  473. O Atrida obteve do Nestório o prêmio;
  474. Pois, se ronceiros os cavalos tinha,
  475. Em violência e furor o avantajava. —
  476. Eu mesmo o julgarei, nem cuido que haja
  477. Dânao que o desaprove: ao rito nosso,
  478. De Jove aluno Antíloco, ante o carro,
  479. O flagelo empunhando que agitavas,
  480. Tange os cavalos, por Netuno jura
  481. Que o meu curso impediste involuntário.”
  482. Responde o sábio Antíloco: “Perdoa,
  483. Rei Menelau; na idade e na valia
  484. Me vences muito, os erros não ignoras
  485. Da cega juventude irrefletida;
  486. Sê comigo indulgente. A égua é tua,
  487. De mim recebe-a; se do meu quiseres,
  488. Tudo, ó ramo de Jove, aqui te oferto;
  489. Contanto que não saia do teu peito,
  490. Nem perjure as deidades.” Nisto, a égua
  491. Ao rei trouxe o magnânimo Nestório.
  492. Qual derrama-se orvalho nas espigas
  493. Da crescida seara ao vento crespas
  494. No coração do nobre Atrida aspersa
  495. A alegria o repassa, e verteu fora:
  496. “Quebro, Antíloco, as iras, pois que nunca,
  497. Menos hoje, iludiu-te a mocidade;
  498. Cauto os melhores enganar evites.
  499. Graio nenhum mais presto me aclamara;
  500. Por mim tens padecido amargos transes,
  501. E teu bom pai e irmão. Rendo-me e dou-te
  502. Esta que é minha; testemunhem todos
  503. Que alma ingrata não tenho e empedernida.”
  504. E a égua a Noemon, do moço pajem,
  505. Remete, e aceita o caldeirão fulgente.
  506. Levanta Merion em quarto prêmio
  507. Os dois áureos talentos. Resta o quinto,
  508. Biaurito boião, que entre o concurso
  509. Leva a Nestor Aquiles: “Velho augusto,
  510. Não mais verás Pátroclo; por memória,
  511. Esta fúnebre dádiva conserves.
  512. É prêmio de honra, não de cesto ou luta,
  513. Dardo ou carreira: os anos te acabrunham.”
  514. Cala, e entrega o boião. Nestor contente
  515. Pega-lhe, e ajunta: “Bem discorres, filho:
  516. Nem fortes membros tenho ou pés ligeiros,
  517. Nem movo ágil na espádua o frouxo braço.
  518. Fosse eu na flor, como um Burpásio, quando
  519. Ao régio Amarinceu com ricos prêmios
  520. Funeral seus herdeiros celebraram!
  521. Nenhum valente ali se me igualava,
  522. Nem de Epeus, nem de Pílios, nem de Etólios;
  523. Venci no cesto o Enópio Clitomedes;
  524. Na luta, o desenvolto Anceu Pleurônio;
  525. O celérrimo Ificlo, na carreira;
  526. No arremesso, a Fileu e a Polidoro.
  527. Os Actóridas sós me antepassaram,
  528. Que eram dois, e invejavam-me a vitória
  529. De mor preço: os corcéis um destes gêmeos
  530. Regia sempre sempre, outro açoitava.
  531. Tal fui; toca aos mancebos imitar-me:
  532. Hoje à cruel velhice a fronte curvo,
  533. Dante sobre os heróis me distinguia.
  534. Conclui os funerais do sócio egrégio.
  535. Teu benévolo dom me regozija;
  536. Porque de mim te lembras, nem prescindes
  537. De acatar, como justo, o idoso amigo.
  538. Largo o Céu te agradeça a cortesia.”
  539. Depois de ouvir os gabos do Neleio,
  540. Rompe Aquiles a turba, indica os prêmios
  541. Do pugilato cru: no circo amarra,
  542. Primo, indefessa de seis anos mula,
  543. Braba e quase indomável; em segundo,
  544. Põe bicôncava copa: “Atridas, clama,
  545. Vós grevados Argeus, que os punhos vibrem
  546. Dois prestantes varões determinemos:
  547. A quem triunfo Apolo der às claras,
  548. Esse a mula obtenha laboriosa;
  549. A bicôncava copa haja o vencido.”
  550. Surge o varão, nervudo e corpulento,
  551. Panopides Epeu, no cesto exímio,
  552. E agarra a mula: “Quem deseje a copa,
  553. Venha; esta cuido que nenhum me ganhe;
  554. De primeiro púgil eu me glorio.
  555. Não basta ser obscuro nas batalhas?
  556. Mas não é de um mortal primar em tudo.
  557. Ouse qualquer, e com certeza afirmo
  558. Que hei-de os ossos moer-lhe. Assistam muitos,
  559. Que o retirem daqui por mim domado.”
  560. Reina mudo silêncio; mas deiforme
  561. Só levantou-se Euríalo, do régio
  562. Talaionides Mecisteu renovo,
  563. O qual nos jogos fúnebres de Edipo
  564. Rendera em Tebas os Cadmeios todos.
  565. O lanceiro Diomedes o acorçoa,
  566. E lhe almeja a vitória; ata-lhe um cinto,
  567. Guantes lhe calça de silvestre couro.
  568. A ponto, ambos no circo se oferecem;
  569. Punho a punho engalfinham-se e rebatem;
  570. Bolha em cópia o suor, os queixos rangem.
  571. O divo Epeu de chofre o rosto esmaga
  572. Ao circunspecto Euríalo, que ter-se
  573. Mais não podendo, abate os pulcros membros.
  574. Qual, ao sopro do norte, em praia algosa
  575. D’água à tona enrugada salta o peixe,
  576. E o serve a negra vaga; assim ferido
  577. Rolou, mas generoso Epeu levanta-o
  578. Com rijo braço. Amigos o transportam,
  579. Rojando inúteis pés, cruor cuspindo,
  580. A nutar a cabeça e desmaiado;
  581. Da bicôncava copa não se esquecem.
  582. Da luta prêmios dois presenta Aquiles:
  583. Apta ao fogo, uma trípode é primeiro,
  584. Preço de doze bois; outro, uma serva,
  585. Que se estimava em quatro e boa em tudo.
  586. Alçado aos Gregos diz: “Surgi, valentes,
  587. Vosso esforço provai neste certame.”
  588. Soberbo o Telamônio ofereceu-se,
  589. Depois Ulisses nos ardis fecundo.
  590. Nus, mas tangados, mão por mão se atracam
  591. Da liça em meio, como escoras mestras,
  592. Na cumeeira traveja artífice hábil
  593. Contra aquilões; constritos os costados
  594. Pelo válido braço, harto rouquejam;
  595. Pinga o suor; cruentas roxas bolhas
  596. Crescem nos ombros e quadris; cobiçam
  597. Tamanha glória, a trípode excelente:
  598. Ulisses derribar a Ajax não pode,
  599. Nem este a Ulisses de vigor pasmoso.
  600. O tédio já lavrava, e Ajax vozeia:
  601. “Divo astuto Laércio, ou me levantes,
  602. Ou eu to faça: o resto incumbe a Jove.”
  603. Nisto, acima o levou; com treta Ulisses,
  604. De um cambapé na curva, o laxa e estira,
  605. E sobre ele supino cai de peitos:
  606. O povo os admirava estupefato.
  607. Vai também levantá-lo, e a custo um pouco
  608. Move-o do chão, nos joelhos implicado;
  609. Sujos enrolam-se ambos na poeira.
  610. Tentavam nova luta, quando Aquiles
  611. Os coibiu: “Cesse o cruel certame,
  612. Tais forças não gasteis. Vencestes ambos,
  613. E o prêmio igual será. Fique aos mais Gregos
  614. A liça franca.” Os dois heróis o escutam,
  615. O pó limpam do corpo e se revestem.
  616. Para o pedestre curso, ostende insigne
  617. Capaz de seis medidas uma argêntea
  618. Cratera, em todo o mundo a mais formosa:
  619. Pela indústria Sidônia elaborada,
  620. Por mar chatins Fenícios a importaram,
  621. Dádiva a Toas; mas Euneu Jasônio,
  622. Que houve-a depois, de Licaon Priâmeo
  623. Solveu com ela o preço ao bom Menécio.
  624. Então com ela premiava Aquiles
  625. A quem fosse mais leve na carreira.
  626. Pôs ao segundo um gordo boi vistoso;
  627. Áureo meio talento, ao mais tardio:
  628. “Sus, grita, neste páreo assinalai-vos.”
  629. Surde o Oiliades bravo, o Ítaco sábio,
  630. Surde Antíloco o jovem mais ligeiro;
  631. Postam-se em fila: o termo Aquiles marca,
  632. E lhes acena. Da barreira atiram-se:
  633. Reluz avante Ajax, Ulisses perto,
  634. Quanto a que tece da petrina airosa
  635. Afasta a lançadeira, que hábil joga,
  636. Trama extensa no urdume entrelaçando.
  637. Antes que o pó se apague da pegada,
  638. Ele a calca, e o pescoço lhe bafeja
  639. No alado curso. Aclamações e vivas
  640. Sustentavam-lhe o afogo da vitória.
  641. No extremo quase, em mente o Laercides
  642. Ora: “Auxílio, Minerva olhicerúlea!”
  643. A deusa o atende; os membros lhe agilita,
  644. Pernas e mãos; já já no fim, transvia
  645. A Ajax, que sobre o esterco das mugentes
  646. Vítimas imoladas ao Menécio,
  647. Resvalando, enlameia a boca e as ventas.
  648. Leva a cratera o paciente Ulisses;
  649. Ajax do boi silvestre aferra os cornos,
  650. A bosta escarra: “Os pés falsou-me a deusa;
  651. Ah! de Ulisses mãe terna o assiste sempre.”
  652. Com doce gargalhada o receberam.
  653. Toma o Nestório o derradeiro prêmio,
  654. E diz sorrindo: “Amigos, estais vendo,
  655. O céu honra os provectos: pouco em anos
  656. Me sobra Ajax; aquele, bem que nado
  657. Com nossos pais, é verde, e na carreira
  658. Ninguém há que o supere, exceto Aquiles.”
  659. O herói folgou do encômio, e respondeu-lhe:
  660. “Este louvor, Antíloco, não perdes.”
  661. E outro meio talento ao moço oferta,
  662. Que ledo e contentíssimo o recebe.
  663. Depois o pique trouxe e o elmo e escudo
  664. Que Pátroclo a Sarpédon arrancara:
  665. “Dois valentes agora se aparelhem
  666. E provem seu denodo. Quem primeiro
  667. Com choupa aênea, à vista da assembléia,
  668. O arnês do seu rival tingir de sangue,
  669. Esse terá de Asteropeu rendido
  670. Bela Treícia claviargêntea espada;
  671. Comuns serão as armas de Sarpédon:
  672. Lauto festim na minha tenda aceitem.”
  673. Surge o grã Telamônio e o grã Tidides.
  674. Preparando-se à parte, à pugna investem
  675. Com cenho que aterrora e espanta os Gregos;
  676. Ardendo as lanças vezes três sopesam,
  677. Cerram-se três: o escudo Ajax perfura,
  678. A couraça ao rival defende a pele;
  679. Por cima do pavês a cúspide ênea
  680. Busca Diomedes lhe embeber no colo.
  681. Temendo por Ajax, partir os prêmios
  682. E o combate fechar determinaram;
  683. Mas a Diomedes um montante Aquiles
  684. Deu com sua bainha e bálteo insigne.
  685. Bruto, qual sai da forja, um disco expõe-se
  686. Que jogava Eetion, e o trouxe Aquiles
  687. Entre a riqueza ao forte rei tomada:
  688. “Em pé, grita, o Grajúgena robusto;
  689. Por vastos que haja o vencedor seus campos,
  690. Assaz ferro terá para cinco anos,
  691. Sem quinteiro ou pastor ir ao mercado.”
  692. Polipetes pugnaz, Leonteu deiforme,
  693. O Telamônio e Epeu, se perfilaram.
  694. Epeu roda-o, nervoso e pouco destro,
  695. Com risada geral. De Marte ramo,
  696. Foi segundo Leonteu. Rijo e forçudo,
  697. O gigantesco Ajax transcende as marcas.
  698. Já Polipetes o torneia e expede;
  699. Quanto o báculo voa do boieiro
  700. A revoltões por cima da manada,
  701. Supera o tiro seu: ressoa o aplauso;
  702. Do rei braçudo ovantes camaradas
  703. Aquele enorme disco às naus recolhem.
  704. De ferro, aos sagitários, dez bipenes,
  705. Dez machadinhas põe; na arena, ao longe
  706. Um mastro erige da cerúlea proa;
  707. Alvo das frechas, num cordel apensa
  708. Do tope, atada aos pés, tímida pomba:
  709. “Quem, disse, nela acerte, haja as bipenes;
  710. Quem, aberrando, os fios lhe desfaça,
  711. Como inferior, as machadinhas leve.”
  712. Com ímpeto o rei Teucro se levanta,
  713. Mais o escudeiro Merion. De Teucro
  714. Sai do elmo a sorte; incontinente a vira
  715. Dispara, sem que a Febo uma hecatombe
  716. Sagre de primogênitos cordeiros:
  717. Cioso o deus o arreda, mas a farpa
  718. Corta os laços dos pés, que ao chão vieram;
  719. Ei-la nos céus adeja, e os vivas soam.
  720. O arco verga Merion e a seta aponta;
  721. Ao Longe-vibrador um sacrifício
  722. Vota solene; à revoante pomba
  723. N’asa entre as nuvens percutindo a seta,
  724. Ante o que a desfechou fisga-se em terra;
  725. A ave recai no mastro, o colo pende,
  726. A envergadura estira; a veloz alma
  727. Evola-se, e distante o corpo tomba.
  728. Fica espantado o povo. As dez bipenes
  729. Ganha Merion, e Teucro as machadinhas.
  730. De atiradores prêmio, um longo pique
  731. Presenta, e um caldeirão todo escultado,
  732. Puro das chamas, do valor de um touro.
  733. Ergue-se o amplo-reinante e o Cresso pajem
  734. Merion; mas atalha-os o Pelides:
  735. “É sabido, Agamemnon, quanto em forças
  736. E em dardejar exceles. Para bordo
  737. Manda o vaso, eu te rogo, e o pique demos
  738. Ao bravo Merion, se tu o consentes.”
  739. Não se opôs Agamemnon: dado o pique
  740. A Merion, Taltíbio arauto aceita
  741. Para seu amo o caldeirão formoso. * * *

Nota a nota · 7 notas

v. 229Biaurito boião da chama ileso.
Phiate não pode ser traduzido sempre da mesma maneira: acima, verso 212, eu o verto por urna, porque trata-se do vaso em que se depositaram os ossos de Pátroclo; aqui chamo-lhe boião, porque trata-se de um vaso apto para o fogo. E porque escolhi boião? M. Alexandre, no seu copioso dicionário, explica phiate por tasse, bol: tasse ou taça aqui não pode servir; bol, que é uma tigela, pode ir ao fogo, e nesta acepção é que tomo phiate. Mas, como as tigelas que vão ao fogo, chamam-se comumente púcaras e também boiões, escolhi este último: Moraes o define vaso para conservas; mas, citando a Couto, diz que nos boiões se cozinhava o arroz, o que não traz Constâncio. Ora boiões há com duas asas, como o vaso de que se trata nesta passagem.
↩ voltar ao verso 229
v. 285–308I-la o meião rascando, sem que esbarres, ⋯ Têm-se firmes nas selas os cursores;
Meião vem em Moraes e não em Constâncio: é peça da roda do coche, do meio onde entra a mecha do eixo. — Gáudio, palavra não apontada nos dicionários, no meu tempo era de uso em Coimbra (ali por ventura a nossa língua tem sido melhor conservada) na mesma acepção latina. Talvez os dicionaristas a omitem, por não a terem achado em algum escrito; como se o bom uso da gente culta, quais são os que naquela universidade servem-se dela, não equivalesse a autores, alguns dos quais, pouco ilustres, os nossos dicionários os citam com nímia seguridade. — Sela não é só o assento em que se monta a cavalo: é também o do cocheiro, e tem outras acepções análogas, sendo uma delas a de cadeira de braços.
↩ voltar à passagem, v. 285
v. 432–490De disco esteve já: mais se alentava ⋯ Nem perjure as deidades.” Nisto, a égua
É belo que Antíloco, tendo falado com tanta força ao quererem sem razão pospô-lo a Eumelo, agora se humilhe e fuja de jurar falso, confessando o seu erro. Em jogos infantis, lembra-me que muitas vezes algum se obstinava em mentir, e diziam-lhe os companheiros: “Se és capaz, jura o que afirmas”. O mentiroso abstinha-se; não ousando jurar falso. Mas, na verdade, eram cousas de crianças: os bárbaros juram, trijuram e prejuram. E se é em constituições e negócios politicos? então isso é da moda e de bom gosto.
↩ voltar à passagem, v. 432
v. 590Nus, mas tangados, mão por mão se atracam
Sirvo-me de um termo do Brasil e da Ásia Portuguesa, tangar. Vem já nos dicionários, nem temos outro verbo que exprima a idéia com particularidade. É tangar ocultar as partes pudendas com um pano: cobrir ou cingir, sem declarar-se o que, segundo o fazem tradutores, é evidente que não especifica o pensamento original. Bom é saber que, se Gregos ao depois combateram inteiramente nus, assim não acontecia nos tempos de que trata Homero.
↩ voltar ao verso 590
v. 634–644Quanto a que tece da petrina airosa
Pensam uns que se fala aqui da mulher que afasta a roca do peito para fiar; outros se referem à tecedeira. Sou da última opinião, porque julgo serem imperiosas as palavras kanon, pénion, miton, ainda que para mim seria mais bela a comparação, a se poder torcer para o primeiro sentido. O verso correspondente ao meu 644, traz a palavra mãos, que alguns têm omitido; mas Homero com ela quis mostrar que o movimento das mãos ou dos braços influi na rapidez e segurança da carreira.
↩ voltar à passagem, v. 634
v. 683–684Mas a Diomedes um montante Aquiles
Não obstante clamarem todos que findasse a luta e se repartissem igualmente os prêmios, Monti e outros fazem que dê Aquiles a Diomedes a espada de Asteropeu, isto é o primeiro prêmio; mas, se Diomedes o alcançasse, então se lhe dava o triunfo sobre Ajax, e fora uma contradição. Eu creio que a espada concedida a Diomedes foi outra, e que os prêmios ao depois seriam divididos, segundo a equidade, ou segundo o arbítrio do mesmo Aquiles; e neste sentido é a minha versão.
↩ voltar à passagem, v. 683
v. 720O arco verga Merion e a seta aponta;
Querem alguns que Merion tomasse a Teucro o arco para disparar a seta contra a pomba, que já cortava os ares: tenho por mais natural que tivesse cada contendor o seu arco; pois, ao tempo que tomasse Merion o do seu rival, a ave podia remontar o vôo e desaparecer. M. Giguet é do meu sentir.
↩ voltar ao verso 720
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