Arde a peleja, e Antíloco despede.
526 versos · 3 notas do tradutor
- Arde a peleja, e Antíloco despede.
- No já completo a meditar, Aquiles
- Ante as naus esporadas suspirava
- Dentro em sua alma nobre: “Hui! por que os Dânaos
- Turbados pelo campo as naus procuram?
- É que os numes o trago me preparam
- Por minha mãe predito; ela afirmava
- Que mão Troiana ao Mirmidon mais forte
- Roubaria, inda eu vivo, a luz diurna:
- Certo jaz morto o mísero Menécio!
- Cá voltar o mandei, remoto o incêndio,
- E nunca expor-se do Priâmeo à fúria.”
- Enquanto assim pensava, o bom Nestório
- Chega-se, em quentes lágrimas lavado:
- “Ai! Pelides sem-par, ouve o mais triste
- Fúnebre anúncio, que oxalá não fora:
- Nu disputa-se o corpo de Pátroclo,
- E Heitor brilhante lhe possui as armas.”
- O herói súbito enubla-se: aos punhados,
- De pó suja a cabeça e o rosto afeia,
- Denigre em cinza a túnica olorosa;
- Carpindo e lacerando as gentis faces,
- Por grande espaço o grande corpo estira.
- As que ele cativara e o seu Pátroclo,
- Mestas lamentam, saem fora e o cercam,
- A punhos contundindo o seio belo,
- Laxos os membros. O Nestório aflito
- Chora, nas suas tendo as mãos de Aquiles,
- Receia que este a ferro se degole.
- O urrar medonho ouviu-lhe a augusta madre
- Com seu pai no áqueo pego, e ulula e geme.
- Logo a torneiam Glauca, Toa, Acteia,
- Neseia, Espio, Cimódoce e Talia,
- Olhipulcra Hália, Jera, Agave e Doto,
- E Melita e Cimótoe, e Linoria,
- Proto, Ferusa, Dinamene e Dóris,
- Calianira, Anfínome, Dexamene,
- Nemerte, Apseude, Calianassa, Anfítoe,
- Panopéia, e a famosa Galateia,
- Mais Climene, Oritia, Ianassa e Mera,
- E Janira e Amatia auricomada;
- Quantas Nereidas há nos fundos mares
- Enchem-lhe a gruta argêntea, os peitos ferem.
- Tétis seu luto exala: “Irmãs, as penas
- Sabei que me angustiam. Miseranda!
- O maior dos heróis pari mesquinha!
- Criado como planta em horto ameno,
- Forte medrava e belo, quando a Ílion
- Mandei-o em naus rostradas. Ah! mais nunca
- Posso abraçá-lo no Peleio alcáçar!
- Enquanto à luz do sol inda boceja,
- Não me é dado abrandar seus pesadumes;
- Mas parto a ver na ausência dos combates
- Que desgosto assaltou meu caro filho.”
- Então saiu da gruta, e as mais com ela
- Vão lagrimosas dividindo as vagas;
- Sobem de Tróia à praia, onde varadas
- As numerosas naus de Aquiles eram.
- Do imo ele soluçava, e a deusa um grito
- Soltando agudo, abraça-lhe a cabeça,
- Dorido o coração: “Tu choras, filho?
- Que amargor sentes? Fala, não mo encubras.
- Fez Jove o que pediste alçando as palmas:
- Opressos, rebatidos e acuados,
- Os Aquivos sem ti por ti suspiram.”
- “Sim, minha mãe, responde gemebundo;
- Mas que prazer terei, se é morto aquele
- Que eu tanto como a vida apreciava?
- Heitor, ao trucidá-lo, da armadura
- O despojou, pasmoso dom celeste
- Feito a Peleu, no dia em que os Supremos
- No toro de um mortal te colocaram.
- Oh! Também com mortal fosse ele unido,
- E entre as marinhas déias habitasse!
- Não te causara dor imensa um filho,
- Que não hás-de rever no lar paterno.
- Nem respirar o peito me consente
- No meio de homens, sem que a lança minha
- A alma arranque de Heitor, vingue a Pátroclo.”
- “Ah! torna Tétis alagada em pranto,
- Que dizes, filho meu? Se Heitor sucumbe,
- Tens iminente o fado.” — “Pois morramos,
- Diz soluçando Aquiles, já que ao sócio,
- Que tão longe expirou do pátrio ninho,
- Remir do bronze hostil não me era dado;
- Já que voltar a Ftia me é defeso;
- Já que a tantos Grajúgenas amigos
- Das mãos Hectóreas preservar não pude;
- Já que, excedendo na peleja a todos,
- Quanto no parlamento alguns me excedem,
- Fiquei-me aqui da terra inútil peso.
- Dos numes, dos mortais, vá-se a discórdia,
- Vá-se a ira que cega ao mesmo sábio:
- Ela mais doce do que o mel estila,
- Evapora-se e cresce e os peitos incha;
- Tal ma acendeste, poderoso Atrida.
- Mas deslembremos a cruel injúria,
- Submissos à fatal necessidade.
- Do meu Pátroclo ao matador já corro,
- Embora os Céus a morte me acelerem.
- Hércules a esquivou, tão caro a Jove?
- A Parca e Juno em cólera o domaram.
- Eu jaza onde cair, se é tal meu fado;
- Porém colha primeiro ingente glória.
- De seio airoso as Dardanas e Teucras,
- Em mestos ais, das faces delicadas
- Às mãos ambas as lágrimas enxuguem;
- Sintam que eu repousava. Nem mo empeças,
- Que nisto, minha mãe, não te obedeço.”
- A Argentípede logo: “É bom, meu filho,
- Que dos consócios teus o exício afastes:
- Ora, a exultar, o insigne Heitor ombreia
- A ênea tua armadura coruscante;
- Mas não exultará sobejo tempo.
- Tu não entres no marte, sem que eu volte
- Aos olhos teus: ao rei Vulcano parto;
- Haverás na arraiada o que precisas.”
- E às Nereidas virou-se: “Ao fundo aquoso
- Ide, irmãs, e a Nereu contai meus males:
- Ao celso fabro subo, que a meu filho
- Tempere e forje lampejantes armas.”
- Cessa; as Nereidas súbito mergulham,
- E ao celso Olimpo se encaminha Tétis.
- Fremindo às praias do Helesponto os Gregos,
- Do fero Heitor batidos, se acolhiam,
- Sem livrarem Pátroclo dentre as lanças;
- Pois, como chama, eqüestres e pedestres
- E o fulmíneo Priâmeo o perseguiam:
- Três vezes pelos pés ávido o agarra
- E brama aos seus; de esforço revestidos,
- Os Ajax vezes três do morto o expelem:
- Ele ardido, ora investe e escala as turmas,
- Ora tem-se a bradar, mas não recua:
- Sempre aos dois campeões tenaz resiste,
- Qual faminto leão se aferra à presa,
- Apesar dos pastores que a vigiam.
- E glorioso a rastos o levara,
- Se, da corte celeste às escondidas,
- De Juno por mandado, não descesse
- A núncia procelípede ao Pelides,
- A quem rápido clama: “Eia, ó dos homens
- O mais terrível, a Pátroclo salva,
- Por cujo o corpo acérrimos contendem,
- Mortes reciprocando, uns a retê-lo,
- Outros querendo a Pérgamo arrastá-lo;
- Heitor mormente, que num poste almeja
- Espetar-lhe a cabeça decepada.
- Sus, de ócio basta; pese-te a vergonha
- De jogo o amigo ser aos cães de Tróia:
- Opróbrio é teu, se ultrajam-lhe o cadáver.”
- “Iris, que deus, pergunta-lhe o Peleio,
- Te envia aqui?” — Responde-lhe a Taumância:
- “Do Satúrnio a consorte soberana.
- Sublime ele o não sabe, ou qualquer outro
- Que habite os cumes do nevoso Olimpo.”
- “Como, Aquiles tornou, pelejar posso?
- Eles me têm o arnês; a mãe querida,
- Antes que volte, proibiu-me a guerra:
- Prometeu-me trazer Vulcânias armas.
- E não sei que outras vista, exceto o escudo
- Do Telamônio Ajax; mas este, creio,
- Pelo Menécio luta e a morte espalha.”
- “Oculto não nos é, replicou Íris,
- Que roubaram-te o arnês: mesmo sem ele
- Vai-te ao fosso e aos Troianos apareças;
- Da ação talvez atônitos se abstenham,
- E os Gregos marciais do afã respirem:
- O mais breve respiro é proveitoso.”
- Dali sumiu-se. Ergueu-se o divo Aquiles;
- A grã Minerva a égide franjada
- Pôs-lhe aos válidos ombros, de áurea nuvem
- Refulgente o coroou: qual monta o fumo
- De ilha distante e praça, em morte horrível
- Dos cidadãos no dia propugnada,
- Onde, ao cadente Sol, nas atalaias
- Acendem fogaréus, por que os vizinhos
- Tragam naval socorro; assim da nobre
- Cabeça o resplendor feria os ares.
- Ei-lo ante o fosso, obediente à madre,
- Sem mesclar-se no prélio, alteia o grito,
- E o da mesma Tritônia inda o reforça,
- Pelos Teucros lavrou tumulto e espanto.
- Como o clangor da tuba, em duro cerco
- De hostes exiciais, o alarma soa,
- A voz soou de Aquiles érea e clara:
- Treme o inimigo; retrocedem coches,
- Dano os frisões comados pressagiam;
- Assustam-se os aurigas, do Pelides
- Ao ver sobre a cabeça o fogo horrendo,
- Mais por Minerva cérula inflamado.
- Vezes três sobre o fosso grita Aquiles,
- Três debandam-se os Teucros e aliados;
- Na confusão, feridos por seu bronze,
- Nos coches próprios doze heróis perecem.
- Ledos os Dânaos a Pátroclo salvam,
- E deposto em seu leito, em roda o choram
- Amigos seus. O Eácida com estes
- Mestas lágrimas verte, contemplando
- No féretro a jazer dilacerado
- O fido sócio que enviara à pugna,
- Para não mais o receber com vida.
- O infadigável Sol, da augusta Juno
- Constrangido, mergulha no oceano,
- E hão do cruel conflito os Gregos trégua.
- Os Troianos também, cessada a lide,
- Os tiros desjungindo a ceia esquecem
- E em pé se ajuntam, que nenhum se assenta;
- Inda os assusta o aparecer Aquiles,
- Do funesto combate há muito fora.
- A mão toma o Pantóida, único atento
- Ao passado e ao futuro, à mesma noite
- Nascido com Heitor, seu companheiro,
- Mais eloqüente, se inferior na lança;
- Cordato orou: “Cautela agora, amigos:
- Não se aguarde no campo a ruiva aurora;
- Toca a entrar na cidade, é longe o muro.
- Irado esse homem contra o fero Atrida,
- Menos acres os Dânaos combatiam;
- Ledo eu cá pernoitava, na esperança
- De rendermos as naus dupliagitadas:
- Hoje me temo do veloz Pelides.
- Bravo como é, não ficará na liça
- Do esforço marcial de Aqueus e Troas;
- Irá dentro as mulheres disputar-nos.
- Segui-me, isto não falha, eia, marchemos.
- A alma noite o retém: se aqui nos colhe,
- Crástino alguém terá de exprimentá-lo.
- Feliz do que se escape em Ílio santa!
- Muitíssimos serão de abutres pasto.
- Nunca eu ouça tal nova! Em que vos pese,
- A concordar-se, à noite nos munamos
- De valioso conselho: propugnemos
- Das torres nossas, reforçando as portas
- Com travessas e barras bem travadas.
- N’alva aos merlões em armas resistamos:
- Ser-lhe-á mais árduo contender conosco;
- Se as praias deixa, voltará confuso,
- Saciados os corcéis de vãos tentames
- E correrias, sem pedir-lhe o peito
- A cidade assolar: antes que o faça,
- De vagabundos cães será tragado.”
- Austero Heitor: “Despraz-me, Polidamas,
- Na muralha encerrarmo-nos de novo:
- Não vos cansais de estardes clausurados?
- De ouro, de bronzes rica, humanas línguas
- De Príamo a cidade apregoavam;
- Mas vender as alfaias e os tesouros
- Foram-se à Frígia, foram-se à Meônia,
- Depois de infesto Júpiter: e agora,
- Que rebater e encurralar os Gregos
- Ele outorgou-me... Insano, cal-te e cessa;
- Ninguém há que te escute, e eu não permito.
- Obedecei-me à risca: ceie em ranchos
- Todo o exército; vele homem por homem,
- Rondem, patrulhem. Quem receia e cuida
- Perder seus bens, à tropa os distribua;
- É melhor que ela os goze do que os Dânaos.
- Ao luzir da manhã, batalha seva
- Excite-se ante as naus. Se o divo Aquiles
- Surge, o caso talvez será mais grave:
- Do horríssono conflito eu não lhe fujo;
- Hei-de firme arrostá-lo, e um de nós haja
- Claro triunfo. A todos Marte ajuda,
- E o que matar espera às vezes morre.”
- Cegos os Teucros por Minerva, aplaudem
- Este fatal arbítrio, e o bom rejeitam
- Que expendera o sisudo Polidamas.
- Ceia depois o exército. — Os Aquivos
- Lastimando a Pátroclo a noite gastam,
- E ao luto a suspirar o herói preside,
- Postas as sevas mãos do amigo aos peitos.
- Qual barbudo leão, que à densa furna
- Chega tarde e acha faltos os cachorros,
- Triste e em sanha se atira pelos vales,
- Buscando o roubador e os seus vestígios;
- Tal geme e brada aos Mirmidões Aquiles:
- “Céus, que promessa vã! Dentro em seu paço
- Ao grã Menetes segurei que ovante
- A Opunta voltaria o filho amado,
- Da rasa Tróia com porção da presa!
- Nem sempre cumpre Jove humanos votos.
- Ambos fadado está que rubriquemos
- A mesma terra; e aqui terei jazigo,
- Sem que à mãe deusa torne e aos pátrios lares.
- Já que após ti, Menécio, à campa desço,
- Teus funerais espaço, até que eu mesmo
- Tire ao teu matador a vida e as armas,
- E em desafogo Teucros doze ilustres
- Na pira tua imole. Entanto, junto
- Fiques das negras naus, e dia e noite
- Carpindo em cerco, as Dárdanas formosas
- De reguados seios te pranteiem,
- Essas que à lança ardidos conquistamos,
- Opulentas cidades assolando.”
- Então faz pôr ao fogo trípode ampla,
- Onde a sangueira expurgue-se a Pátroclo:
- Assentam prestes num brasido o vaso,
- Enchem-no, acendem por debaixo lenha,
- E a chama em roda lambe e aquece o bojo.
- A água mal ferve no sonoro cobre,
- Lavado e ungido esparzem-lhe nas chagas
- Um bálsamo novene, e em lençol fino,
- Da fronte aos pés o envolvem sobre o leito,
- Alvo manto por cima. Inteira a noite
- Choram-no os Mirmidões, geme o Pelides.
- Jove à consorte e irmã: “Juno olhipulcra,
- O ardor enfim de Aquiles inflamaste:
- Certamente os Aqueus amplo-comados
- Provêm de ti.” — Responde a augusta Juno:
- “Terrífico Satúrnio, que proferes?
- Mortal e a nós somenos em cordura,
- O homem consegue o intento contra o homem;
- E eu que as deusas precedo, eu sangue e esposa
- Do nume soberano, eu só não devo
- Dano aos Teucros urdir e encher meu ódio!”
- Chega, entanto, a argentípede Nereida
- À Vulcânea estrelada e incorruptível,
- Estupendo lavor do coxo mestre;
- Suado a azafamado aos foles o acha,
- Trípodes vinte a fabricar, adornos
- Da aênea régia: em rodas áureas pousam,
- Com que espontâneo ao divinal congresso
- Vão-se e tornem-se à casa, oh maravilha!
- Perfeitas quase, as pegas só lhes faltam,
- Cujos cravos aguça. Ao tempo que ele
- Isto engenhava, aproximou-se Tétis.
- Eis Cáris, de Vulcano a bem toucada
- Gentil consorte, a mão lhe aperta e fala:
- “Deusa louçã de flutuante peplo,
- Eras aqui mui rara; a que vens hoje?
- Anda, vou pôr-te hospitaleira mesa.”
- Já, de escabelo aos pés, dentro a coloca
- Em primorosa claviargêntea sela;
- Depois chama a Vulcano: “Vem, que Tétis
- Algo há mister.” — O artífice responde:
- “Que! Vejo a deusa que salvou-me aflito,
- Quando ocultar esse aleijão querendo,
- Me fez do céu cair indigna Juno!
- Quanto eu sofrera, a não me dar asilo,
- Mais do Oceano refluente a prole
- Eurínome formosa! Por nove anos
- Em cava gruta lhes forjei colares,
- Anéis, fivelas, braceletes, brincos:
- Roncava espúmeo em torno o imenso pego;
- Homem nem deus algum de mim sabia,
- Porque Eurínome e Tétis me velavam.
- Procura-me a pulquérrima Nereida;
- Pagar-lhe devo obrigações tamanhas.
- Tu lhe apresenta opíparos manjares,
- Enquanto os foles e instrumentos guardo.”
- Já deixa a incude o monstruoso fabro,
- A vacilar nas bambas frouxas pernas:
- Retira os foles, mete em arca argêntea
- Os utensis; de esponja a cara enxuga,
- Pulsos, cachaço e cabeludos peitos;
- E, com túnica limpa e um grave cetro,
- Vem coxeando; o rei trôpego esteiam
- Moças de ouro que às vivas assemelham
- Na força e mente e voz, por dom celeste;
- Ladeiam-no cuidosas. Tardo o passo,
- Vizinho a Tétis, em brilhante sólio
- Senta-se, a mão lhe cerra acaricioso:
- “De roçagante peplo ó deusa augusta,
- Raro aqui vinhas; que pretendes hoje?
- Fala segura; o coração me pede
- Fazer tudo por ti, se for possível.”
- E ela a chorar: “Do Olimpo qual das deusas
- Tem curtido, Vulcano, as amarguras
- Que me propina Jove? Entre as Nereidas
- Fui só quem de um mortal entrei no toro,
- Do Eácida Peleu forçada esposa:
- Velho jaz e abatido; eu, mesta e aflita.
- Parir deu-me e criar o herói mais bravo,
- Que medrou como planta em horto ameno:
- Crescido, o enviei mesma em naus rostradas
- Contra estes Teucros. No Peleio alvergue
- Não mais hei-de abraçá-lo, e enquanto vejo
- E goza a luz do sol, vive em tristezas.
- Nem consolá-lo sei: roubou-lhe o Atrida
- A quem houve em prêmio, e a dor e o pejo o ralam.
- Dante as popas os Dânaos, rechaçados,
- Nem saíam; deprecam-lhe os melhores
- E honrosos dons prometem: nega-se ele,
- Mas no seu mesmo arnês manda a Pátroclo
- E os Mirmidões, que às portas Ceias pugnam
- O dia inteiro. E então caíra Tróia,
- Se Apolo entre a vanguarda não matasse,
- Para glória de Heitor, ao bom Menécio,
- Que amplo estrago esparzia. A teus pés rogo
- Faças ao filho meu de curta vida
- Elmo, escudo, loriga e afiveladas
- Grevas gentis: perdeu-lhe o amigo as armas;
- E ele opresso e no pó jaz consternado.”
- Diz Vulcano: “Sossega, não te aflijas.
- Pudesse à minaz Parca subtraí-lo,
- Como lhe hei de aprestar brilhantes armas,
- Dos humanos espanto.” Eis vai-se aos foles,
- Vira-os ao fogo, e ordena-lhes que operem.
- Eles em vinte forjas respiravam,
- Ora com sopro lento, ora apressado,
- Segundo o que há na mente e quer o artista.
- Cobre indômito ao fogo e estanho e prata
- E ouro pôs fino, ao cepo vasta incude,
- A tenaz numa mão, noutra o martelo.
- Sólido forma o escudo, ornado e vário
- De orla alvíssima e triple, donde argênteo
- Boldrié pende, e lâminas tem cinco.
- Com dedáleo primor, divino engenho,
- Insculpiu nele os céus e o mar e a terra;
- Nele as constelações, do pólo engastes,
- Orion valente, as Híadas, as Pleias,
- A Ursa que o vulgo domina Plaustro,
- A só que não se lava no Oceano.
- Duas cidades povoou. — Solenes
- Bodas há numa: as noivas, entre fachos,
- Vêm dos tálamos, guiam-nas chamando
- Por himeneu; de giro dançam moços,
- Tocam flautas e cítaras; mulheres,
- Dos vestíbulos seus, estão pasmadas.
- Apinham-se no foro, a ver o pleito
- Que por causa da multa as partes erguem
- De um recente homicídio; afirma ao povo
- Um tê-la pago à risca, o outro o nega,
- Produzir ambos testemunhas querem;
- Divide-se o favor, soa o tumulto,
- E impõe silêncio arautos; sobre lisa
- Pedra, em círculo sacro, estão juízes,
- Que em varas dos arautos clamorosos,
- Por seu turno opinando, em pé se encostam;
- Ali no meio há de ouro dois talentos,
- Para quem proferir melhor sentença.
- Na outra cidade, exércitos se acampam
- A reluzir. Os cercadores traçam
- Destruí-la, ou metade saquear-lhe
- Do que há no soberbíssimo castelo.
- Os de dentro, insistindo, armam ciladas;
- Em guarda ao muro os velhos e as mulheres
- E os meninos deixando, uma sortida
- Fazem com Marte e Palas, ambos de ouro
- E de ouro as vestes, cujo brilho e talhe
- Dos humildes mortais os distinguiam.
- Eles, já de emboscada ao pé de um rio
- E onde o armento bebia não se despem
- Do fulgoroso bronze, e avante postam
- Vigias dois que da chegada avisem
- De negros bois e ovelhas. Já descobrem
- Uns pastores que, alheios das insídias,
- Na avena divertiam-se, e improvisos
- Aos míseros matando, se apossavam
- Do alvo rebanho e gado. Os cercadores,
- Em assembléia, a bulha e o mugir fere,
- E montando os corcéis, rápido às abas
- Do rio empenham férvida batalha:
- Vaga a Discórdia, o Susto; aferra a Parca
- De fresco um vulnerado e um são e um morto,
- E os roja pelos pés, e tinto em sangue
- Ata aos ombros o manto. Os combatentes
- Parecem vivos; de uma e de outra parte,
- Dos sócios os cadáveres carregam.
- Mole alqueive insculpiu, largo, abundoso,
- Três vezes amanhado, e o lavram muitos,
- Aqui e ali dos bois virando o jugo;
- Ao fim de cada sulco, um homem sempre
- Lhes verte um copo de suave baco;
- Eles outros começam, desejosos
- De profundá-los todos. Bem que de ouro,
- Atrás negreja o alqueive, nem que arado
- Verdadeiro o fendesse: oh grã prodígio!
- Insculpiu loura messe, e dos ceifeiros
- Foice a talha afiada: em linha os molhos
- Por terra vão caindo; enfeixadores
- Seguem três para atá-los, e uns meninos
- Lestos atrás colhendo, os acumulam.
- Numa paveia, o rei cetrado assiste,
- Silente e alegre; à sombra de um carvalho
- Arautos põem-lhe a mesa, espostejada
- Enorme rês; mulheres aos ceifeiros
- Mesclam vária farinha e a ceia aprontam.
- Áurea vinha insculpiu de roxos cachos,
- Que ao peso verga, e arrima-se em argêntea
- Fieira de tanchões; de estanho sebe,
- Fosso de esmalte a cinge; uma azinhaga
- Só tem para a vindima: adolescentes
- E donzelinhas, de ânimo sinceros,
- O doce fruto em canistréis apanham.
- Tange um menino harmônico alaúde,
- E canta com voz meiga ao som das cordas;
- Bailam tripudiando os vinhateiros,
- A repetir a ponto as melodias.
- Manada ali gravou de altivos cornos:
- De ouro e de estanho os bois, mugindo rompem
- Do curral para o pasto, indo-se às margens
- De ressonante caniçoso rio;
- De ouro há vaqueiros quatro e mastins nove;
- Dois medonhos leões na frente empolgam
- Um touro berrador, que a rastos geme;
- Segue a matilha e a gente, mas as feras
- Chupam-lhe o sangue e as láceras entranhas;
- Os vaqueiros seus cães debalde açulam;
- Os cães morder as feras não se atrevem,
- Bem que de perto ladrem. — Pôs Vulcano
- Em vale ameno cândidas ovelhas,
- E redis e tapigos e tugúrios.
- Coreia ali gravou, qual na ampla Cnosso
- Fez Dédalo à pulcrícoma Ariadna.
- Moços e virgens palma a palma enlaçam.
- A terra pulsam: tênue linha as veste,
- Veste-os guapo tecido azeitonado;
- Elas flóreas grinaldas, eles trazem
- Áureos alfanjes em talins de prata.
- Com mestra e leve planta, ou já discorrem
- Qual do oleiro tocada ao móbil torno
- Rápida volve a roda, ou já desfilam:
- Deleita-se o tropel que em cerca pasma.
- Dois adiante uma toada rompem,
- A voltear e aos pulos. — Em remate,
- Na orla esculpiu do enorme rijo escudo
- A ingente força do Oceano rio.
- Depois forma a couraça mais que o fogo
- Resplandecente, e à fronte acomodado
- Grave brunido casco de áurea crista,
- E de dúctil estanho as grevas tece.
- Completo alçando o arnês, à mãe de Aquiles
- O deus o oferta; ao gavião parelha,
- Toma as Vulcânias coruscantes armas,
- Do alto nevoso Olimpo se despenha. * * *