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IlíadaLivro XV
LivroXV

Do valo e fosso com matança expulsos

628 versos · 9 notas do tradutor


  1. Do valo e fosso com matança expulsos,
  2. Té seus carros vão indo espavoridos:
  3. No Ideu cimo do grêmio da consorte
  4. Erguido Jove, os Teucros vê fugindo
  5. E os Dânaos com Netuno a persegui-los,
  6. E entre os sócios, mais longe, Heitor jazendo
  7. Sem tino, em ânsias, vomitando sangue,
  8. Por um pulso não débil vulnerado;
  9. E, condoído, o pai de homens e deuses
  10. A Juno olha terrível: “Com teu dolo
  11. Que danos, embusteira, produziste!
  12. Heitor fora da ação e em fuga as tropas.
  13. Não sei bem se, em castigo desta insídia,
  14. Aqui pespegue-te um gibão de açoites.
  15. Já não te lembra que, em algemas de ouro
  16. Infrangíveis e aos pés duas bigornas,
  17. Entre as nuvens e o éter pendurei-te,
  18. Sem que os raivosos numes te valessem?
  19. Do limiar do Olimpo o que o tentasse
  20. Fora à terra sem folgo despenhado.
  21. Nem o nojo aplaquei, de, unida a Bóreas
  22. Proceloso, o meu Hércules jogares,
  23. Pelo ponto infrugífero sem rumo,
  24. À populosa Cós; dali salvei-o,
  25. Depois de tanto afã reposto em Argos.
  26. Eu to recordo, e saibas que improfícuo
  27. Te é concúbito e amplexo, a que ardilosa
  28. Do alto vieste cá para enganar-me.”
  29. Juno a tremer: “A terra e o céu convexo
  30. A Estige inferna, aos deuses formidável,
  31. Essa cabeça atesto sacrossanta
  32. E o nosso toro conjugal, debalde
  33. Nunca invocado: não por meus conselhos
  34. Infenso a Heitor, Netuno ajuda aos Gregos;
  35. Mas, de seu moto próprio, comoveu-se
  36. De que ante a frota sua os derrotassem.
  37. Vou, se te apraz, Nubícogo, exortá-lo
  38. A se afastar, conforme às ordens tuas.”
  39. Sorriu-se o Padre: “Se, olhipulcra Juno,
  40. Comigo ante os mais deuses concordares,
  41. Netuno ao meu querer, bem que repugne,
  42. Breve se renderá. Sincero falas?
  43. Pois da celeste corte Íris me envies
  44. E Apolo arcipotente. Ao campo Argivo
  45. Íris baixe e me intime ao rei dos mares
  46. Que abandone o combate e se recolha.
  47. Febo robore a Heitor e ao prélio excite,
  48. Calme-lhe as dores de que jaz opresso:
  49. Ele de novo aos trépidos Aquivos
  50. Mande a Fuga e o Terror, e em montões caiam
  51. Junto às remeiras naus do herói Pelides.
  52. Este a Pátroclo instigará, que, ante Ílio
  53. Muitos matando e ao claro meu Sarpédon,
  54. Sob a lança de Heitor por fim sucumba:
  55. A Heitor imolará furioso Aquiles.
  56. D’então concederei vitória aos Gregos,
  57. Té que, por traça de Minerva, assolem
  58. Ílion soberba; mas não sofro austero
  59. Que os auxilie um deus, antes que o voto
  60. Cumpra selado com meu nuto, quando
  61. Os joelhos abraçou-me a rogar Tétis
  62. Que eu lhe exaltasse o vastador Aquiles.”
  63. Submissa a bracinívea, do Ida monta
  64. Ao celso Olimpo. Como o pensamento
  65. Voa do que há lustrado longes terras,
  66. E volvendo lembranças diz consigo:
  67. — Estive eu lá —; destarte os ares frecha
  68. Comota Juno. Os congregados numes,
  69. Ao avistá-la no celeste alcáçar,
  70. Levantando-se as taças lhe oferecem;
  71. Toma a de Têmis, que formosa e afável
  72. Se lhe apresenta: “A que vieste, Juno?
  73. Tu pareces de susto repassada:
  74. Teu marido o Satúrnio é disso a causa?”
  75. “Têmis, respondeu ela, não mo inquiras;
  76. Sabes quanto é cruel e imperioso.
  77. O festim continue; ouvireis juntos
  78. O anúncio e duro mando: homens ou deuses,
  79. Poucos regozijar-se agora podem,
  80. Se é que inda algum se alegra nos banquetes.”
  81. Aqui seu trono ocupa, e os deuses fremem.
  82. Nos lábios um sorriso, escrito o luto
  83. Na turva testa e negras sobrancelhas,
  84. Indignada prossegue: “Oh! Nós dementes,
  85. Que, em sanha contra Jove, refreá-lo
  86. Com razões ou com forças desejamos!
  87. Longe, nem disso cura, e se gloria
  88. De absoluto senhor incontrastável:
  89. Tolerai pois o mal que dele mana.
  90. A Marte um coube: Ascálafo está morto,
  91. Homem que ele mais ama e tem por filho.”
  92. Marte, às punhadas nas robustas coxas,
  93. Urra e chora: “Celícolas, o filho
  94. Não me estranheis que vingue, a raio embora,
  95. Em sangue e pó, no morticínio o Padre
  96. Me derribe ante as naus.” — Súbito a Fuga
  97. Manda e o Terror aparelhar o coche,
  98. Armas fulgúreas veste. Mor seria
  99. A indignação do Olimpo contra Jove,
  100. Se do sólio, temendo pelos deuses,
  101. Não saltasse ao vestíbulo Minerva:
  102. A tarja do ombro, da cabeça o elmo,
  103. Da rija mão lhe saca a brônzea lança,
  104. E conteve-lhe a fúria: “Desalmado,
  105. Enlouqueceste; já não tens orelhas,
  106. Nem siso, nem pudor. Não compreendeste
  107. O discorrer da augusta Soberana,
  108. De Jove Olímpio em nome? Queres mesmo
  109. Voltar cá de mil dores contristado,
  110. E atrair sobre nós infindas penas?
  111. Deixando ele os Troianos e os Aquivos,
  112. Virá de chofre nos lançar do Olimpo,
  113. Um por um, inocentes e culpados.
  114. Por teu filho, to ordeno, abranda a cólera:
  115. Outros inda mais bravos têm caído
  116. E cairão; progênie ou parto nosso,
  117. Árduo é livrar da morte, imposta aos homens.”
  118. Então Minerva o reconduz ao trono,
  119. E Juno a parte chama Apolo e Íris,
  120. Núncia entre os imortais: “Ide apressados,
  121. Jove no Ida vos quer; fitai-lhe o vulto
  122. E obedecei à risca as ordens suas.”
  123. Disse, e outra vez no sólio colocou-se.
  124. De vôo os dois, no Gárgaro, cabeço
  125. Do Ida multimanante, asilo a feras,
  126. O onividente Júpiter acharam,
  127. De odorífera nuvem circundado:
  128. Corteses param; satisfeito acolhe-os
  129. De obedecerem pronto à sua esposa,
  130. E a Íris se endereça: “Ao rei Netuno
  131. Anuncia fiel quanto eu prescrevo:
  132. Já já, largue a batalha; ao céu remonte,
  133. Ou se recolha ao mar. Se refratário
  134. E indócil for, pondere se é de força
  135. Bastante a me arrostar; pois de mais velho
  136. E muito mais potente me glorio,
  137. Bem que a bazófia de igualar-me tenha,
  138. A mim que enfreio e aterro as mais deidades.”
  139. Aerípede a núncia, impaciente,
  140. A Tróia voa, qual saraiva ou neve,
  141. Gelada pelo frio e seco Bóreas;
  142. Súbito: “Crinicérulo Netuno,
  143. Mensageira do Egífero a ti venho.
  144. Já já, larga a batalha; ao céu remonta,
  145. Ou recolhe-te ao mar. Se refratário
  146. Ousares ser, pondera se tens forças
  147. De arrostá-lo em furor, pois se gloria
  148. De mais idoso e muito mais potente,
  149. Bem que a bazófia tenhas de igualar-te
  150. A quem aterra e enfreia as mais deidades.”
  151. Arde e urra Netuno: “Ah! se é potente,
  152. Orgulhoso ameaça constranger-me,
  153. Seu par em honras. De Saturno e Reia
  154. Nascemos três, ele, eu e o rei Tartáreo.
  155. Feita a partilha, em sorte pertenceu-me
  156. O pélago espumoso, a Dite as sombras,
  157. O éter nublado a Jove e o largo pólo;
  158. É-nos comum a terra e o celso Olimpo.
  159. Sujeito não lhe sou; nos próprios reinos
  160. Do altíssimo poder goze tranqüilo.
  161. Como um vil, do seu braço não me assusto:
  162. Imponha aos que gerou filhos e filhas,
  163. A se curvar sem réplica obrigados.”
  164. Íris contesta: “A Júpiter, Netuno,
  165. Tão cru recado! Nem sequer o alteras?
  166. O erro emenda o prudente. Assaz conheces
  167. Que as Fúrias ao mais velho assistem sempre.”
  168. “Reto falas, tornou-lhe o azul monarca;
  169. Inda bem, quando o núncio a tempo adverte.
  170. Mas do igual, por direito e por destino,
  171. Pungem nímio arrogâncias e ameaças.
  172. Desta vez por mim quebro: só lhe digas,
  173. E n’alma o sinto, que, se a mim contrário
  174. E a Minerva Ageleia, a Juno e a Hermes
  175. E ao rei Vulcano, a Pérgamo sustendo,
  176. Recusar aos Aquivos o triunfo,
  177. Há-de ser nossa cólera implacável.”
  178. Aqui, ficando os Graios consternados,
  179. Por entre as ondas se abismou de um salto.
  180. Então Júpiter: “Vai, meu filho Apolo,
  181. Ao nobre Heitor. O Enosigeu sumiu-se,
  182. Esta destra evitando: a luta nossa
  183. Aos ouvidos, no inferno, até zoara
  184. Dos que o trono rodeiam de Saturno;
  185. Mas foi dita escapar-se-me furente,
  186. Que eu enxuto vencê-lo não podia.
  187. Pega, sacode a égide fimbriada,
  188. Ó divinal frecheiro, espanta os Gregos;
  189. Cura de Heitor, o alento lhe vigores,
  190. Até que no Helesponto às naus se acoutem:
  191. Como respirem traçarei folgado.”
  192. Lesto e contente, Apolo do Ida parte,
  193. Semelha ao gavião, terror das pombas,
  194. Pássaro o mais ligeiro; acha o Priâmeo
  195. Já sentado e não mais desfalecido,
  196. Reconhecendo os sócios que o ladeiam,
  197. Sem ânsias nem suor, pois o alentava
  198. Do Egífero o querer; disse-lhe ao perto:
  199. “Longe da ação, te assentas e esmoreces!
  200. Que dor viva, Dardânio, aqui te invade?”
  201. Lânguido o herói: “Quem és, ótimo nume,
  202. Que me interrogas? Junto às naus, ignoras
  203. Que, ao lhe imolar os sócios, uma pedra
  204. Aos peitos atirou-me Ajax valente,
  205. O ímpeto meu tolhendo? A alma exalando,
  206. Ir ver Plutão cuidava e os negros manes.”
  207. Mas o deus: “Sus, mandou-me do Ida o Padre
  208. Ajudar-te: sou Febo de áureo alfanje,
  209. Teu patrono e de Pérgamo: não tardes,
  210. Compele contra as naus teus cavaleiros;
  211. Diante, abro-te a via e espanco os Dânaos.”
  212. Disse, e o reforça e infunde-lhe alto brio.
  213. De cevada nutrido à manjedoura,
  214. Do rio afeito à veia, se o cabresto
  215. Quebra o corcel, de patas pulsa o campo,
  216. Alça a testa, arrogante e nédio agita
  217. Na espádua a crina: levam-no os joelhos
  218. Aos notos sítios onde as éguas pastam:
  219. Assim marchava Heitor, à voz de Febo,
  220. Concitando apressado os cavaleiros.
  221. Se galgos e vilões, em mata ou penha,
  222. Cervo acossam galheiro ou montês cabra,
  223. E aos berros do animal, que os fados poupam,
  224. Sai barbudo leão, do ardente encalço
  225. Retêm-se: tais os Dânaos, que de estoque
  226. E bipontudo pique a Teucra gente
  227. Atropelavam, dês que Heitor avistam
  228. Correndo as alas, tomam-se de medo,
  229. E aos pés o coração lhes cai a todos.
  230. Mas Toas Andremônio, flor Etólia,
  231. Ao dardo exímio, estrênuo fronte a fronte,
  232. Que em discussões a poucos dava a palma,
  233. Cordato arenga: “Oh! Deuses, que prodígio!
  234. Heitor, que morto críamos ao golpe
  235. Do Telamônio, incólume ressurge!
  236. Certo algum dos Supremos o preserva,
  237. E ei-lo nos vai solvendo muitas vidas,
  238. E solverá; pois cuido que aparece,
  239. Do Tonante incitado. Ora, atendei-me:
  240. A multidão à frota recolhamos;
  241. E os conspícuos do exército, cerrados,
  242. De lança em reste, o choque repulsemos.
  243. Por fogoso que seja, Heitor espero
  244. Que receie agredir a tantos Gregos.”
  245. Isto os convence. Os dois Ajax e Teucro,
  246. Merion e o rei Cretense e o márcio Meges,
  247. Enquanto às naus se retirava a tropa,
  248. Contra o Priâmeo um denso corpo formam.
  249. Dos seus à frente, a largo passo investe
  250. Heitor; e os guia Febo anuviado,
  251. A de franjas brandindo égide horrenda,
  252. Obra e esmero das forjas de Mulcíber,
  253. Com que derrama Jove os combatentes.
  254. Sustêm o embate os Graios: o tumulto
  255. Misto ecoa; dos nervos setas fremem;
  256. Bravos hastis nos campeões se encarnam,
  257. Ou, com gana de em sangue saturar-se,
  258. Desfalecem no meio. Quando pára
  259. A égide Febo Apolo, a tiros morrem
  260. De parte a parte; quando a move e os olhos
  261. Nos Dânaos fixa e formidável troa,
  262. Moles e tíbios seu denodo esquecem.
  263. Qual manada ou rebanho, que a desoras,
  264. Falto o pastor, salteiam duas feras,
  265. Afugentam-se os Gregos: enviou-lhes
  266. Febo o terror, aos Teucros a vitória.
  267. Cada herói prostra alguém na debandada.
  268. Imola Heitor a Arcesilau, caudilho
  269. De arnesados Beócios; mais a Estíquio,
  270. De Menesteu brioso o camarada.
  271. Imola Enéas a Medon, bastardo
  272. De Oileu e irmão de Ajax, que o da madrasta
  273. Eriópide havendo assassinado,
  274. Longe da pátria em Fílace habitava;
  275. E a Jaso, Ático chefe, e dito prole
  276. Do Bucólida Esfelo. A Mecisteu
  277. Na ala primeira imola Polidamas,
  278. A Équio Polites, Agenor a Clônio.
  279. Ao revirar Deioco, o bronze Páris
  280. Da espádua por debaixo atrás lhe prega.
  281. Enquanto o espólio sacam, pelos valos
  282. Ao fosso os Gregos de tropel se atiram,
  283. A encerrar-se no muro constrangidos;
  284. E Heitor gritava, impondo aos seus que avancem,
  285. Nem lhes importa a sanguinosa presa:
  286. “Quem das naus se alongar tema esta lança;
  287. Cães tem sós de rojá-lo ante a cidade,
  288. Sem que irmão nem irmã lhe acenda a pira.”
  289. E os cavalos nas pás fustiga e trota
  290. Pelas filas; a ameaça repetindo,
  291. Os mais, entre alarido, os seus propelem.
  292. Destorroando a pés no fosso as bordas,
  293. Ponte ampla alonga Febo, como o tiro
  294. De hasta que destra mão sopesa e vibra.
  295. Passam-na em turmas; de égide ele à testa,
  296. Fácil destrói o muro, qual menino
  297. Que, na praia a brincar, desmancha e pisa
  298. E de areia confunde o fabricado:
  299. Foi como, Arcipotente, aos Gregos tanto
  300. Labor desfeito, em fuga os aterraste!
  301. Eles, suspensos ante as naus, se exortam,
  302. E olhos e mãos para o estrelado pólo,
  303. Em alta voz deprecam; sobre todos
  304. Clama o Gerênio, dos Argeus custódio:
  305. “Na Argólida feraz, de ovelha ou touro
  306. Se ao queimarem-te, ó Padre, as coxas pingues,
  307. Ao regresso dos Gregos anuíste,
  308. Lembre-te, Olímpio, o extremo dia arredes,
  309. Nem consintas que os Teucros nos oprimam.”
  310. Trovejou no éter Jove, a prece ouviu-lhe.
  311. Do Egífero ao sinal, mais aferventa
  312. E o prélio encrua Heitor. Qual salsa vaga
  313. Ruge à fúria do vento, e as amuradas
  314. Sobrepuja crescida; assim trasbordam
  315. O muro, em algazarra, os assaltantes.
  316. Já dentro, barba a barba combatiam
  317. Uns, dos carros, com lanças bipontudas:
  318. Outros, com fustes longos de éreo gume,
  319. Armas navais nos bojos reservadas.
  320. Das popas longe enquanto era a peleja,
  321. Do virtuoso Eurípilo na tenda
  322. Conversando Pátroclo o deleitava,
  323. E à chaga a dor com bálsamos lenia:
  324. Porém, dentro no muro ao ver os Teucros,
  325. Em grita e fuga os Dânaos, carpe, aos murros
  326. Nos quadris, geme e chora: “Eu mais não devo
  327. Estar contigo, Eurípilo; a derrota
  328. Sobe de ponto; o servo de ti cure,
  329. Vou compelir Aquiles ao combate.
  330. Quem sabe se um bom nume há-de ajudar-me?
  331. Do amigo a voz os corações comove.”
  332. Presto levam-no os pés. Firmeza e audácia
  333. Não podem rebater os poucos Teucros,
  334. Nem estes, prerrompendo as hostes Graias,
  335. Naus invadir nem tendas: qual industre
  336. Carpinteiro, amestrado por Minerva,
  337. Prancha marítima a cordel nivela;
  338. Da linha assim teimosos não se apartam,
  339. E assim da frota em roda se entrechocam.
  340. Rui contra Ajax Heitor; o embate agüentam
  341. Cerca de uma das popas, sem que obtenha
  342. Um, repulso o rival, incendiá-las,
  343. O outro, o varão forçar que um deus guiava.
  344. A Caletor filho de Clício, ao tempo
  345. Que um lenho ia queimar, Ajax de um bote
  346. O peito arromba, com fragor baqueia,
  347. Larga o aceso tição. Heitor, que o primo
  348. Vê revolto no pó, brada e conforta:
  349. “Lícios e Troas, campeões Dardânios,
  350. Nenhum de vós afrouxe em tanto aperto;
  351. Não deixes despojar de Clício o filho,
  352. Morto aqui no recinto em que pugnamos.”
  353. E contra Ajax dispara, e o tiro emprega
  354. Em Licofron Mastório, de Ajax pajem
  355. Dês que em Citera assassinou, divina,
  356. Pátria sua, um varão: perfura a ponta
  357. Pela orelha a cabeça; vai de costas
  358. Ante um baixel, e solvem-se-lhe os membros
  359. Do amigo ao pé, que freme e a Teucro chama:
  360. “Sangue meu jaz rendido ao braço Hectóreo.
  361. O filho de Mastor, fiel companha,
  362. Que de Citera vindo, hóspede em casa,
  363. A par de nossos pais honramos sempre:
  364. Que presta o arco letal que deu-te Apolo?”
  365. Teucro o percebe, e de arco teso e aljava
  366. Corre a frechar a Clito Piseonório,
  367. Que, auriga do preclaro Polidamas,
  368. Armando aos gabos do Priâmeo e Troas,
  369. Batendo as bridas revirava as éguas
  370. Ao grosso das falanges perturbadas:
  371. Votos recusa a Parca; atrás lhe zune
  372. E adere à nuca a seta lagrimosa:
  373. Tomba do assento; as éguas retrocedem,
  374. Rojam vazio estrepitando o carro.
  375. Óbvio o Pantóides veio, e a biga ardente
  376. A Astinos entregou Protiaônio,
  377. E ordenando que o siga passo a passo,
  378. Reuniu-se aos primeiros contendores.
  379. Teucro outra seta ao nobre Heitor aponta,
  380. Cuja morte livrara as naus do ataque;
  381. Mas Jove, que o pressente e nele vela,
  382. Negou tal glória ao jovem Telamônio,
  383. Nas mãos quebrou-lhe a corda: escapa-se o arco,
  384. E a seta esgarra pelo aêneo peso.
  385. Teucro estremece e clama: “Ajax, um nume
  386. Nos burla certo; o arco lançou fora,
  387. Rompeu-lhe a nova corda, que hoje mesmo
  388. Liguei torcendo-a para crebros tiros.”
  389. Diz-lhe o mais velho: “Irmão, depõe esse arco
  390. E farpões que dispersa ínvido nume;
  391. Pega do escudo, longo pique arvora,
  392. Aos Troianos remete e anima as tropas;
  393. Ao menos, sem perigo não se apossem
  394. Da instruta frota; ousados resistamos.”
  395. O arco na tenda encosta, e embraça Teucro
  396. O quadrúplice escudo, enfia insigne
  397. De eqüina hórrida crista elmo comante,
  398. Válida lança empunha de érea choupa,
  399. E em reforço de Ajax volta açodado.
  400. Falhando as setas por mercê divina:
  401. “Amigos, brama Heitor, sede homens, Teucros,
  402. Dardanos, Lícios, e quem sois vos lembre.
  403. A frecha eu vi baldar-se ao grande archeiro;
  404. Fácil descobre-se o favor de Jove,
  405. Quando exalta ou suplanta os que lhe agrada:
  406. Ele nos glorifica e abaixa os Dânaos;
  407. Unidos assaltai. Quem mortal golpe
  408. Beber de perto ou longe, honrado acabe:
  409. Quanto é belo salvar os bens e a casa,
  410. E os filhos e a mulher, deixar-lhes pátria,
  411. Se os Dânaos para a sua as velas derem!”
  412. Com tais vozes denodo inspira a todos.
  413. Além, se opunha Ajax: “Que pejo, ó Gregos!
  414. Vencer hoje ou morrer! Guardai-me as popas:
  415. Se o de fulgúreo casco e undante as rende,
  416. Contais a pé chegar ao doce ninho?
  417. Ouvis como furente a incendiá-las
  418. Incita os seus? Por certo que os não manda
  419. Bailar, mas combater. Melhor conselho
  420. É mão por mão travarmo-nos com eles.
  421. Ou já perder a vida ou conservá-la;
  422. Inultos pouco a pouco a não gastemos,
  423. Com menores guerreiros contendendo.”
  424. Seu discorrer os corações robora.
  425. A Esquédio Perimédites, caudilho
  426. Fócio, Heitor mata; Ajax mata a Laodamas,
  427. Claro Antenórida e pedestre cabo;
  428. A Oto Cilênio, chefe Epeu galhardo,
  429. Companheiro de Meges, Polidamas.
  430. Salta-lhe Meges: furta-se o Troiano,
  431. E o golpe esgarra: não permite Apolo
  432. Que o Pantóides à frente ali pereça;
  433. A lança os peitos atravessa a Cresmos,
  434. Deita-o por terra; e, ao desarmá-lo o Dânao,
  435. Sai Dolope, fogoso hábil hasteiro,
  436. Prole do ótimo Lampo Laomedôncio,
  437. Que ao Fileides ao meio passa o escudo
  438. Rosto a rosto, embaçando a ponta em juntas
  439. Convexas placas da loriga espessa:
  440. Da assente Efire do Sileis à margem
  441. Trouxe-a Fileu; dom foi do régio Eufetes,
  442. Para que ele em batalhas se munisse,
  443. E agora à morte lhe subtrai o filho.
  444. No cocar do elmo aêneo o pique Meges
  445. Eis crava-lhe, e o penacho destacado
  446. Brilha puníceo e fresco entre a poeira.
  447. Inda assim, briga e insiste esperançoso;
  448. Mas de hasta Menelau, surdindo a furto,
  449. A Dolope traspassa pela espádua:
  450. Ao peito sai a cúspide raivosa
  451. E o debruça na arena; os dois correram
  452. Dos ombros a arrancar-lhe as pulcras armas.
  453. Heitor aqui desperta os consangüíneos,
  454. Mormente a Menalipo Hicetaônio:
  455. Este em Percote armentos pastorava;
  456. Mas acudindo à guerra, espelho aos Teucros,
  457. Príamo em casa o honrava como a filho.
  458. Acoimado assim foi: “Quê! Menalipo,
  459. Remissos nós! E a ti nem te comove
  460. O morto primo? O afogo em despojá-lo
  461. Não vês? Segue-me: os Gregos é vergonha
  462. Combatermos de longe: ou se exterminem,
  463. Ou nade Ílio no sangue de seus filhos.”
  464. Marcha, e com Menalipo a um deus parelho.
  465. Os Aqueus excitava o Telamônio:
  466. “Tende, amigos, pudor no atroz conflito:
  467. A morte menos ceifa os que enrubescem
  468. Temendo a infâmia; sem socorro acabam
  469. E sem glória os fujões.” Com tais palavras
  470. A repelir o ataque inflama os Graios,
  471. Que de êneo muro a frota circundaram;
  472. Porém Jove os Trojúgenas alenta.
  473. Súbito Menelau: “Nenhum dos nossos,
  474. Antíloco, te excede em juventude,
  475. Em ligeireza e força; olha se um bravo
  476. Aqui prosternas.” Disse, e desparece.
  477. O Nestório incitado, em roda esguarda,
  478. Salta e esgrime: os Troianos se arredaram,
  479. Mas não se perde o fúlgido arremesso;
  480. Na mama espeta ao forte Hicetaônio
  481. Que arremetia, e ao baque o arnês retumba.
  482. Qual despede o sabujo ao corçozinho
  483. Que, da cova ao pular, sucumbe ao golpe
  484. De venábulo cru; tal, Menalipo,
  485. Desfecha Antíloco a despir-te as armas.
  486. Sentido corre Heitor por entre as filas;
  487. Mas, bem que audaz, Antíloco lhe foge:
  488. Assim mosca-se a fera, morto havendo
  489. A rafeiro ou pastor, antes que em pinha
  490. Assaltem-na os vilões. Heitor e os Teucros
  491. Tiros mortais bramando lhe amiúdam;
  492. Só pára e a face volta ao pé dos sócios.
  493. Famélicos leões às naus carregam,
  494. Os decretos de Júpiter cumprindo,
  495. Que os esforçava e amolecia os Gregos.
  496. De Tétis escutando a injusta prece,
  497. Quer deprimi-los e exaltar a glória
  498. De Heitor, que à frota infadigáveis chamas
  499. Há-de arrojar; e espera o árbitro sumo
  500. Ver pelas negras naus luzir o incêndio,
  501. Para a seu turno acabrunhar os Teucros
  502. E aos Dânaos conceder cabal vitória.
  503. Júpiter pois a Heitor suscita e abrasa,
  504. Ardente por si mesmo: o herói braveja,
  505. Como o lanceiro Marte, ou voraz fogo
  506. Ateado em profunda e basta selva;
  507. E, por graça do Egífero que acima
  508. Dos varões o elevava, ele campeia,
  509. Fulgor no torvo olhar, na boca espuma,
  510. Na fronte o casco horrendo flutuando.
  511. Ah! Palas já lhe encurta a fatal hora
  512. Sob o tremendo Aquiles! Voa entanto
  513. Alas a desfazer, por onde avista
  514. Arneses mais louçãos, mais condensados;
  515. E, apesar do desejo, em vão trabalha,
  516. Pois num quadrado os Gregos renitiam:
  517. Firmes o embate aparam, qual penedo
  518. Repele o choque de sonoros ventos,
  519. De alva mareta que o salpica e ronca.
  520. Ruindo enfim pelo tropel, um facho
  521. Meneia Heitor. Se em rápida procela
  522. Encanece o escarcéu, nas cintas bate
  523. E de água inunda a nau rajada enorme
  524. No velame a zunir: enfiam nautas,
  525. Por tão pouco da morte separados:
  526. A alma no peito Argivo assim tituba.
  527. Se dá no armento, em paludoso pasto,
  528. Um leão carniceiro, e o guarda inábil
  529. Não sabe defendê-lo: atrás e avante
  530. Pula a fera, no meio uma devora,
  531. Trêmulas dispersando as mais novilhas:
  532. Assim por Jove e Heitor são destroçados
  533. Os Dânaos todos; e o Troiano chefe
  534. Mata um só, Perifetes de Micenas,
  535. Filho desse Copéo, que ao divo Alcides
  536. De Euristeu duro as ordens intimava.
  537. De indigno pai, mas em virtudes raro,
  538. Sábio entre os Miceneus, ágil, valente,
  539. Ali deu maior gabo à lança Hectórea:
  540. Ao virar-se na extrema orla do escudo,
  541. Que descia aos talões, embaraçou-se;
  542. Cai de costas, e às fontes o elmo soa
  543. Medonhamente: ao baque Heitor ocorre,
  544. A hasta lhe enterra ao pé de muitos sócios,
  545. Que mestos socorrê-lo não podiam,
  546. Do formidável pulso tremebundos.
  547. Forçados os Aqueus, defronte haviam
  548. As dianteiras naus, e as mais vizinhas
  549. Ao mar tinham detrás; num corpo todos,
  550. Junto aos seus pavilhões as linhas cerram.
  551. Medo e pejo os retêm, mútuos se animam,
  552. Sempre a vociferar; Nestor Gerênio,
  553. Deles custódio, a cada qual suplica
  554. E obsecra por seus pais: “Constância, amigos,
  555. Dos homens o labéu temei: lembrai-vos
  556. Dos filhos, das mulheres, dos haveres,
  557. Dos vossos vivos pais, dos já defuntos;
  558. Pelos ausentes vos conjuro e imploro,
  559. Tende-vos quedos, não fujais, Aquivos.”
  560. Com isto acesos, removeu Minerva
  561. Nuvem divina que os cegava: às claras
  562. Vêem o assalto geral da frota em roda;
  563. Vêem a Heitor e os seus bravos, de reserva
  564. Quantos estavam, quantos combatiam.
  565. O magnânimo Ajax entre os consócios
  566. Não quis ficar: naval brandindo chuça
  567. De alguns vinte dois cúbitos, com pregos
  568. Reforçada, ao convés de uma das popas
  569. O passo largo monta; e, como eqüestre
  570. Volantim, que do campo uma quadriga
  571. Toca para a cidade e as ruas corre,
  572. De cavalo em cavalo aos pulos sempre,
  573. Mulheres e varões embasbacando,
  574. De convés em convés o herói saltava;
  575. Sobe aos astros a voz, que assídua os Gregos
  576. A proteger instiga as naus e as tendas.
  577. Nem com a armada chusma era o Priâmeo;
  578. De chofre, como invade uma águia parda
  579. Gansos ou grous ou colilongos cisnes
  580. Que em bando à fresca riba se apascentam,
  581. Vai contra um vaso de cerúlea proa:
  582. A mão de Jove o impele e os seus Troianos.
  583. Tão furioso o conflito renovou-se,
  584. Que disseras intactos e indefessos
  585. Pela primeira vez se acometiam.
  586. Diverso ânimo os leva: os Dânaos lutam
  587. Não cuidando escapar; os de Ílio contam
  588. Extinguir seus heróis e às naus pôr fogo:
  589. Insistia a esperança e o desespero.
  590. A popa aferra Heitor que alada e bela
  591. Trouxe a Protesilau, nem mais à pátria
  592. O há-de restituir: Aqueus e Troas
  593. Matando-se esta nau se disputavam.
  594. Não bastam frechas, dardos; testa a testa,
  595. De uma alma aviventados, pelejavam
  596. A gume de secures, de bipenes,
  597. De montantes e piques bipontudos.
  598. Caem de ombros e mãos punhais e alfanjes,
  599. De escuros punhos e maçãs fornidos;
  600. Flui o sangue de envolta e o chão denigre.
  601. Não larga Heitor a popa que aferrara,
  602. E seguro no aplustre, aos seus bradava:
  603. “Fogo, Teucros, cerrai-vos. Luz o dia
  604. Em que Júpiter sara os nossos males;
  605. Tome-se a frota que, apesar dos numes,
  606. Tão fatal nos tem sido, por frieza
  607. De velhos que, atalhando os meus desejos,
  608. De a vir bater o exército impediam:
  609. O Tonante, que a mente nos turbava,
  610. Hoje é quem nos alenta e nos compele.”
  611. Disse, e afervora a pugna. Ajax, em tiros
  612. Submerso, morrer pensa e pouco a pouco
  613. Do tombadilho para um banco passa
  614. De sete pés: dali, de chuça arreda
  615. A quem trazia a infatigável chama,
  616. Sempre atento e a rugir com voz terrível:
  617. “Márcios Dânaos heróis, firmeza, amigos,
  618. Sede o que fostes sempre: acaso temos
  619. Atrás qualquer socorro e um forte muro?
  620. Falta-nos gente fresca e torreada
  621. Munida praça; o mar nos tolhe e estreita;
  622. Na terra estamos dos belazes Teucros,
  623. Longe da própria: em tréguas não fiemos,
  624. A salvação consiste em nossos braços.”
  625. Sua arma então brandindo formidável,
  626. A perseguir a quem, de Heitor a instâncias,
  627. De facho às cavas naus se apropinquava,
  628. Repentino ele o fere, e a doze estende. * * *

Sobre este livro · 1 nota

Comparação
É uma excelente versão, com acréscimo de circunstâncias aqui marcadas em grifo: a primeira, conscius audacis facti, é felicíssima, por mostrar o instinto com que o lobo (assim o faz o gato e outros animais) conhece que obrou de modo que lhe pode ser danoso; a segunda, caudamque remulcens subjecit pavitantem utero é a observação de um naturalista, qual era Virgílio, que descreve e pinta os efeitos do medo na raça lupina e canina, um dos quais é recolher a cauda. Rochefort, que dificilmente aceita o que não vem nas imperiosas regras de Boileau, censura a última circunstância como baixa; e, para lograr o seu intento, o de ridiculizar o modelo do decoro do estilo, ajunta à sua explicação as palavras entre les jambes, estranhas ao texto, buscando assim afeiar a expressão com que o poeta enobrece o pensamento. Censura tal nasce daquele mesmo depravado gosto que, para as comparações, tem escolhido certos animais privilegiados, e veda ao escritor o servir-se de toda a natureza (excluído o que é obceno e indecente) para bem declarar o que lhe dita o coração, a experiência e a fantasia.

Nota a nota · 8 notas

v. 14Aqui pespegue-te um gibão de açoites.
Um gibão de açoites, em português, significa muitos açoites nas costas; o que sem disfarce traduz a ameaça de Júpiter. Alguns vertem esta passagem com certo ar de decoro, que não lhe podem prestar quaisquer ambages e circunlocuções: esta é uma das várias em que os deuses em Homero são grosseiros e miseráveis, como os supunha o pagnanismo. Muitos se apegam vãmente ao sentido alegórico para o desculparem em tais passagens; mas, posto que a base daquelas crenças fosse a alegoria, os poemas de Homero não a sustentam sistematicamente. Quando ele pinta os deuses tais quais o vulgo, ou antes o povo todo, os considerava, são pela maior parte injustos, bárbaros, devassos e criminosos; quando, com incomparável imaginação, os realça, aproximam-se da perfeição inerente à natureza divina; no primeiro caso, é um fiel historiador desses tempos; no segundo, como que se adianta ao seu século mostrando melhores idéias, que talvez tinha dentro da alma e não ousava declarar. Para mim está justificado Homero, sem recorrer a alegorias e subterfúgios, pois não fez mais que historiar as incoerentes crenças populares. E quanto ao seu engenho e fantasia e força criadora, que poderei dizer que não tenha sido apregoado pela voz de tantas gerações?
↩ voltar ao verso 14
v. 179Por entre as ondas se abismou de um salto.
Este verso é de Bocage, no seu Idílio Tritão: verte e exorna o presente lugar de Homero.
↩ voltar ao verso 179
v. 229E aos pés o coração lhes cai a todos.
Cair o coração aos pés, diretamente vindo do grego para o português, exprime um súbito e grande medo. M. Giguet procurou aproximar-se do poeta, quanto lhe permitia a sua língua. Salvini e Monti foram fiéis, sem a graça do original, por não terem adotade no italiano a locução grega. Ignoro se foi adotada em outra língua; mas não a tenho encontrado em versão alguma.
↩ voltar ao verso 229
v. 276–289Do Bucólida Esfelo. A Mecisteu ⋯ E os cavalos nas pás fustiga e trota
Traduções há em que Polidamas imola a Mecisteu e a Polites Echio; mas enganaram-se: Polydamas imolou a Mecisteu, e Polites a Équio. Polites, filho de Príamo, do partido de Polidamas, imolou-o Pirro em presença do mesmo Príamo, como se lê no segundo da Eneida. — O que vem do verso 286 a 288 é louvado por Longino, por causa de uma repentina transição em que, mudando-se de pessoa imprime-se um grande movimento ao discurso: a mudança começa no verso 286. Uso de no sentido geral pela omoplata e não segundo Moraes copiado por Constâncio. Diz um adágio: “É como a carne da pá, que nem é boa nem má.” Se a pá fosse, como querem os dous lexicógrafos, a parte mais alta e carnuda da perna da rês junto à articulação com o tronco, o adágio não dissera que não era boa nem má; porque, pelo contrário é uma das mais saborosas e estimadas.
↩ voltar à passagem, v. 276
v. 351–372Não deixes despojar de Clício o filho, ⋯ E adere à nuca a seta lagrimosa:
Vários tradutores vertem somente que o filho de Clício acaba de sucumbir no conflito; eu creio que Heitor, para mais excitar os Troianos, lhes diz que não deixem despojar aquele guerreiro, morto no recinto em que seus bravos sócios estão combatendo: o intérprete latino foi da minha opinião. — O verso 435, verti-o no meu 358, eu o entendendo com M. Giguet, não com Monti e outros, que foram mal guiados pela interpretação latina, a qual diz: “Navis a puppe humi cecidit”. A preposição apo, bem que signifique de ou a parte donde vem a ação, tem sentidos mui diversos, como se pode ver nos dicionários antigos e no moderno de M. Alexandre; e o primeiro sentido é inadmissível. Por conselho de Toas, a soldadesca se tinha refugiado às naus, ficando fora somente os principais campeões, que formavam um batalhão sagrado contra o inimigo; Ajax, como era seu costume, brilhava na primeira fila: caindo a seu lado seu amigo Licofron e de costas, não podia cair de cima de uma das popas, sim ante ela, ou ao pé da que Ajax mais defendia. — Os Franceses não ousaram verter o epíteto polustonos, lutuoso ou lagrimoso, dado à seta porque a sua ferida causa lágrimas e luto mas a nossa língua admite esta elegância e arrojo, como admitiu a italiana.
↩ voltar à passagem, v. 351
v. 488–490Assim mosca-se a fera, morto havendo
O rei do estilo poético assim imitou a Homero: “Ac velut ille priusquam tela inimica sequantur, Continuo in montes sese avias abdite altos, Occiso pastore lupus, magnove juvenco, Conscius audacis facti, caudamque remulcens. Subjecit pavitantem utero, silvas que petivit.”
↩ voltar à passagem, v. 488
v. 526A alma no peito Argivo assim tituba.
Homero coloca no peito a alma humana: nem sempre verto eu o seu pensamento à letra; mas algumas vezes o faço, para não omitir uma opinião daqueles tempos. Uso do singular peito Argivo significando os Gregos todos, como diz Camões o peito Lusitano por todos os Portugueses.
↩ voltar ao verso 526
v. 602E seguro no aplustre, aos seus bradava:
Aplustre em latim, vocábulo que nos falta, é o mesmo que chamavam os Grego acrostolon, a saber, o alto quer da popa quer da proa, incluídos os ornamentes; mas o alto da popa chamavam especialmente aphlaston, que é o termo de Homero neste lugar. Porém como, à vista do que antecede, se conhece bem que o aplustre de que se trata é o da popa, quis adotar antes o termo da mãe latina do que o grego aphlaston. M. Jal, no Virgilius nauticus, cita esta passagem, mas o seu impresso vem errado: em vez de livro V da Ilíada, estou certo de que o autor escreveu livro XV.
↩ voltar ao verso 602
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