Do valo e fosso com matança expulsos
628 versos · 9 notas do tradutor
- Do valo e fosso com matança expulsos,
- Té seus carros vão indo espavoridos:
- No Ideu cimo do grêmio da consorte
- Erguido Jove, os Teucros vê fugindo
- E os Dânaos com Netuno a persegui-los,
- E entre os sócios, mais longe, Heitor jazendo
- Sem tino, em ânsias, vomitando sangue,
- Por um pulso não débil vulnerado;
- E, condoído, o pai de homens e deuses
- A Juno olha terrível: “Com teu dolo
- Que danos, embusteira, produziste!
- Heitor fora da ação e em fuga as tropas.
- Não sei bem se, em castigo desta insídia,
- Aqui pespegue-te um gibão de açoites.
- Já não te lembra que, em algemas de ouro
- Infrangíveis e aos pés duas bigornas,
- Entre as nuvens e o éter pendurei-te,
- Sem que os raivosos numes te valessem?
- Do limiar do Olimpo o que o tentasse
- Fora à terra sem folgo despenhado.
- Nem o nojo aplaquei, de, unida a Bóreas
- Proceloso, o meu Hércules jogares,
- Pelo ponto infrugífero sem rumo,
- À populosa Cós; dali salvei-o,
- Depois de tanto afã reposto em Argos.
- Eu to recordo, e saibas que improfícuo
- Te é concúbito e amplexo, a que ardilosa
- Do alto vieste cá para enganar-me.”
- Juno a tremer: “A terra e o céu convexo
- A Estige inferna, aos deuses formidável,
- Essa cabeça atesto sacrossanta
- E o nosso toro conjugal, debalde
- Nunca invocado: não por meus conselhos
- Infenso a Heitor, Netuno ajuda aos Gregos;
- Mas, de seu moto próprio, comoveu-se
- De que ante a frota sua os derrotassem.
- Vou, se te apraz, Nubícogo, exortá-lo
- A se afastar, conforme às ordens tuas.”
- Sorriu-se o Padre: “Se, olhipulcra Juno,
- Comigo ante os mais deuses concordares,
- Netuno ao meu querer, bem que repugne,
- Breve se renderá. Sincero falas?
- Pois da celeste corte Íris me envies
- E Apolo arcipotente. Ao campo Argivo
- Íris baixe e me intime ao rei dos mares
- Que abandone o combate e se recolha.
- Febo robore a Heitor e ao prélio excite,
- Calme-lhe as dores de que jaz opresso:
- Ele de novo aos trépidos Aquivos
- Mande a Fuga e o Terror, e em montões caiam
- Junto às remeiras naus do herói Pelides.
- Este a Pátroclo instigará, que, ante Ílio
- Muitos matando e ao claro meu Sarpédon,
- Sob a lança de Heitor por fim sucumba:
- A Heitor imolará furioso Aquiles.
- D’então concederei vitória aos Gregos,
- Té que, por traça de Minerva, assolem
- Ílion soberba; mas não sofro austero
- Que os auxilie um deus, antes que o voto
- Cumpra selado com meu nuto, quando
- Os joelhos abraçou-me a rogar Tétis
- Que eu lhe exaltasse o vastador Aquiles.”
- Submissa a bracinívea, do Ida monta
- Ao celso Olimpo. Como o pensamento
- Voa do que há lustrado longes terras,
- E volvendo lembranças diz consigo:
- — Estive eu lá —; destarte os ares frecha
- Comota Juno. Os congregados numes,
- Ao avistá-la no celeste alcáçar,
- Levantando-se as taças lhe oferecem;
- Toma a de Têmis, que formosa e afável
- Se lhe apresenta: “A que vieste, Juno?
- Tu pareces de susto repassada:
- Teu marido o Satúrnio é disso a causa?”
- “Têmis, respondeu ela, não mo inquiras;
- Sabes quanto é cruel e imperioso.
- O festim continue; ouvireis juntos
- O anúncio e duro mando: homens ou deuses,
- Poucos regozijar-se agora podem,
- Se é que inda algum se alegra nos banquetes.”
- Aqui seu trono ocupa, e os deuses fremem.
- Nos lábios um sorriso, escrito o luto
- Na turva testa e negras sobrancelhas,
- Indignada prossegue: “Oh! Nós dementes,
- Que, em sanha contra Jove, refreá-lo
- Com razões ou com forças desejamos!
- Longe, nem disso cura, e se gloria
- De absoluto senhor incontrastável:
- Tolerai pois o mal que dele mana.
- A Marte um coube: Ascálafo está morto,
- Homem que ele mais ama e tem por filho.”
- Marte, às punhadas nas robustas coxas,
- Urra e chora: “Celícolas, o filho
- Não me estranheis que vingue, a raio embora,
- Em sangue e pó, no morticínio o Padre
- Me derribe ante as naus.” — Súbito a Fuga
- Manda e o Terror aparelhar o coche,
- Armas fulgúreas veste. Mor seria
- A indignação do Olimpo contra Jove,
- Se do sólio, temendo pelos deuses,
- Não saltasse ao vestíbulo Minerva:
- A tarja do ombro, da cabeça o elmo,
- Da rija mão lhe saca a brônzea lança,
- E conteve-lhe a fúria: “Desalmado,
- Enlouqueceste; já não tens orelhas,
- Nem siso, nem pudor. Não compreendeste
- O discorrer da augusta Soberana,
- De Jove Olímpio em nome? Queres mesmo
- Voltar cá de mil dores contristado,
- E atrair sobre nós infindas penas?
- Deixando ele os Troianos e os Aquivos,
- Virá de chofre nos lançar do Olimpo,
- Um por um, inocentes e culpados.
- Por teu filho, to ordeno, abranda a cólera:
- Outros inda mais bravos têm caído
- E cairão; progênie ou parto nosso,
- Árduo é livrar da morte, imposta aos homens.”
- Então Minerva o reconduz ao trono,
- E Juno a parte chama Apolo e Íris,
- Núncia entre os imortais: “Ide apressados,
- Jove no Ida vos quer; fitai-lhe o vulto
- E obedecei à risca as ordens suas.”
- Disse, e outra vez no sólio colocou-se.
- De vôo os dois, no Gárgaro, cabeço
- Do Ida multimanante, asilo a feras,
- O onividente Júpiter acharam,
- De odorífera nuvem circundado:
- Corteses param; satisfeito acolhe-os
- De obedecerem pronto à sua esposa,
- E a Íris se endereça: “Ao rei Netuno
- Anuncia fiel quanto eu prescrevo:
- Já já, largue a batalha; ao céu remonte,
- Ou se recolha ao mar. Se refratário
- E indócil for, pondere se é de força
- Bastante a me arrostar; pois de mais velho
- E muito mais potente me glorio,
- Bem que a bazófia de igualar-me tenha,
- A mim que enfreio e aterro as mais deidades.”
- Aerípede a núncia, impaciente,
- A Tróia voa, qual saraiva ou neve,
- Gelada pelo frio e seco Bóreas;
- Súbito: “Crinicérulo Netuno,
- Mensageira do Egífero a ti venho.
- Já já, larga a batalha; ao céu remonta,
- Ou recolhe-te ao mar. Se refratário
- Ousares ser, pondera se tens forças
- De arrostá-lo em furor, pois se gloria
- De mais idoso e muito mais potente,
- Bem que a bazófia tenhas de igualar-te
- A quem aterra e enfreia as mais deidades.”
- Arde e urra Netuno: “Ah! se é potente,
- Orgulhoso ameaça constranger-me,
- Seu par em honras. De Saturno e Reia
- Nascemos três, ele, eu e o rei Tartáreo.
- Feita a partilha, em sorte pertenceu-me
- O pélago espumoso, a Dite as sombras,
- O éter nublado a Jove e o largo pólo;
- É-nos comum a terra e o celso Olimpo.
- Sujeito não lhe sou; nos próprios reinos
- Do altíssimo poder goze tranqüilo.
- Como um vil, do seu braço não me assusto:
- Imponha aos que gerou filhos e filhas,
- A se curvar sem réplica obrigados.”
- Íris contesta: “A Júpiter, Netuno,
- Tão cru recado! Nem sequer o alteras?
- O erro emenda o prudente. Assaz conheces
- Que as Fúrias ao mais velho assistem sempre.”
- “Reto falas, tornou-lhe o azul monarca;
- Inda bem, quando o núncio a tempo adverte.
- Mas do igual, por direito e por destino,
- Pungem nímio arrogâncias e ameaças.
- Desta vez por mim quebro: só lhe digas,
- E n’alma o sinto, que, se a mim contrário
- E a Minerva Ageleia, a Juno e a Hermes
- E ao rei Vulcano, a Pérgamo sustendo,
- Recusar aos Aquivos o triunfo,
- Há-de ser nossa cólera implacável.”
- Aqui, ficando os Graios consternados,
- Por entre as ondas se abismou de um salto.
- Então Júpiter: “Vai, meu filho Apolo,
- Ao nobre Heitor. O Enosigeu sumiu-se,
- Esta destra evitando: a luta nossa
- Aos ouvidos, no inferno, até zoara
- Dos que o trono rodeiam de Saturno;
- Mas foi dita escapar-se-me furente,
- Que eu enxuto vencê-lo não podia.
- Pega, sacode a égide fimbriada,
- Ó divinal frecheiro, espanta os Gregos;
- Cura de Heitor, o alento lhe vigores,
- Até que no Helesponto às naus se acoutem:
- Como respirem traçarei folgado.”
- Lesto e contente, Apolo do Ida parte,
- Semelha ao gavião, terror das pombas,
- Pássaro o mais ligeiro; acha o Priâmeo
- Já sentado e não mais desfalecido,
- Reconhecendo os sócios que o ladeiam,
- Sem ânsias nem suor, pois o alentava
- Do Egífero o querer; disse-lhe ao perto:
- “Longe da ação, te assentas e esmoreces!
- Que dor viva, Dardânio, aqui te invade?”
- Lânguido o herói: “Quem és, ótimo nume,
- Que me interrogas? Junto às naus, ignoras
- Que, ao lhe imolar os sócios, uma pedra
- Aos peitos atirou-me Ajax valente,
- O ímpeto meu tolhendo? A alma exalando,
- Ir ver Plutão cuidava e os negros manes.”
- Mas o deus: “Sus, mandou-me do Ida o Padre
- Ajudar-te: sou Febo de áureo alfanje,
- Teu patrono e de Pérgamo: não tardes,
- Compele contra as naus teus cavaleiros;
- Diante, abro-te a via e espanco os Dânaos.”
- Disse, e o reforça e infunde-lhe alto brio.
- De cevada nutrido à manjedoura,
- Do rio afeito à veia, se o cabresto
- Quebra o corcel, de patas pulsa o campo,
- Alça a testa, arrogante e nédio agita
- Na espádua a crina: levam-no os joelhos
- Aos notos sítios onde as éguas pastam:
- Assim marchava Heitor, à voz de Febo,
- Concitando apressado os cavaleiros.
- Se galgos e vilões, em mata ou penha,
- Cervo acossam galheiro ou montês cabra,
- E aos berros do animal, que os fados poupam,
- Sai barbudo leão, do ardente encalço
- Retêm-se: tais os Dânaos, que de estoque
- E bipontudo pique a Teucra gente
- Atropelavam, dês que Heitor avistam
- Correndo as alas, tomam-se de medo,
- E aos pés o coração lhes cai a todos.
- Mas Toas Andremônio, flor Etólia,
- Ao dardo exímio, estrênuo fronte a fronte,
- Que em discussões a poucos dava a palma,
- Cordato arenga: “Oh! Deuses, que prodígio!
- Heitor, que morto críamos ao golpe
- Do Telamônio, incólume ressurge!
- Certo algum dos Supremos o preserva,
- E ei-lo nos vai solvendo muitas vidas,
- E solverá; pois cuido que aparece,
- Do Tonante incitado. Ora, atendei-me:
- A multidão à frota recolhamos;
- E os conspícuos do exército, cerrados,
- De lança em reste, o choque repulsemos.
- Por fogoso que seja, Heitor espero
- Que receie agredir a tantos Gregos.”
- Isto os convence. Os dois Ajax e Teucro,
- Merion e o rei Cretense e o márcio Meges,
- Enquanto às naus se retirava a tropa,
- Contra o Priâmeo um denso corpo formam.
- Dos seus à frente, a largo passo investe
- Heitor; e os guia Febo anuviado,
- A de franjas brandindo égide horrenda,
- Obra e esmero das forjas de Mulcíber,
- Com que derrama Jove os combatentes.
- Sustêm o embate os Graios: o tumulto
- Misto ecoa; dos nervos setas fremem;
- Bravos hastis nos campeões se encarnam,
- Ou, com gana de em sangue saturar-se,
- Desfalecem no meio. Quando pára
- A égide Febo Apolo, a tiros morrem
- De parte a parte; quando a move e os olhos
- Nos Dânaos fixa e formidável troa,
- Moles e tíbios seu denodo esquecem.
- Qual manada ou rebanho, que a desoras,
- Falto o pastor, salteiam duas feras,
- Afugentam-se os Gregos: enviou-lhes
- Febo o terror, aos Teucros a vitória.
- Cada herói prostra alguém na debandada.
- Imola Heitor a Arcesilau, caudilho
- De arnesados Beócios; mais a Estíquio,
- De Menesteu brioso o camarada.
- Imola Enéas a Medon, bastardo
- De Oileu e irmão de Ajax, que o da madrasta
- Eriópide havendo assassinado,
- Longe da pátria em Fílace habitava;
- E a Jaso, Ático chefe, e dito prole
- Do Bucólida Esfelo. A Mecisteu
- Na ala primeira imola Polidamas,
- A Équio Polites, Agenor a Clônio.
- Ao revirar Deioco, o bronze Páris
- Da espádua por debaixo atrás lhe prega.
- Enquanto o espólio sacam, pelos valos
- Ao fosso os Gregos de tropel se atiram,
- A encerrar-se no muro constrangidos;
- E Heitor gritava, impondo aos seus que avancem,
- Nem lhes importa a sanguinosa presa:
- “Quem das naus se alongar tema esta lança;
- Cães tem sós de rojá-lo ante a cidade,
- Sem que irmão nem irmã lhe acenda a pira.”
- E os cavalos nas pás fustiga e trota
- Pelas filas; a ameaça repetindo,
- Os mais, entre alarido, os seus propelem.
- Destorroando a pés no fosso as bordas,
- Ponte ampla alonga Febo, como o tiro
- De hasta que destra mão sopesa e vibra.
- Passam-na em turmas; de égide ele à testa,
- Fácil destrói o muro, qual menino
- Que, na praia a brincar, desmancha e pisa
- E de areia confunde o fabricado:
- Foi como, Arcipotente, aos Gregos tanto
- Labor desfeito, em fuga os aterraste!
- Eles, suspensos ante as naus, se exortam,
- E olhos e mãos para o estrelado pólo,
- Em alta voz deprecam; sobre todos
- Clama o Gerênio, dos Argeus custódio:
- “Na Argólida feraz, de ovelha ou touro
- Se ao queimarem-te, ó Padre, as coxas pingues,
- Ao regresso dos Gregos anuíste,
- Lembre-te, Olímpio, o extremo dia arredes,
- Nem consintas que os Teucros nos oprimam.”
- Trovejou no éter Jove, a prece ouviu-lhe.
- Do Egífero ao sinal, mais aferventa
- E o prélio encrua Heitor. Qual salsa vaga
- Ruge à fúria do vento, e as amuradas
- Sobrepuja crescida; assim trasbordam
- O muro, em algazarra, os assaltantes.
- Já dentro, barba a barba combatiam
- Uns, dos carros, com lanças bipontudas:
- Outros, com fustes longos de éreo gume,
- Armas navais nos bojos reservadas.
- Das popas longe enquanto era a peleja,
- Do virtuoso Eurípilo na tenda
- Conversando Pátroclo o deleitava,
- E à chaga a dor com bálsamos lenia:
- Porém, dentro no muro ao ver os Teucros,
- Em grita e fuga os Dânaos, carpe, aos murros
- Nos quadris, geme e chora: “Eu mais não devo
- Estar contigo, Eurípilo; a derrota
- Sobe de ponto; o servo de ti cure,
- Vou compelir Aquiles ao combate.
- Quem sabe se um bom nume há-de ajudar-me?
- Do amigo a voz os corações comove.”
- Presto levam-no os pés. Firmeza e audácia
- Não podem rebater os poucos Teucros,
- Nem estes, prerrompendo as hostes Graias,
- Naus invadir nem tendas: qual industre
- Carpinteiro, amestrado por Minerva,
- Prancha marítima a cordel nivela;
- Da linha assim teimosos não se apartam,
- E assim da frota em roda se entrechocam.
- Rui contra Ajax Heitor; o embate agüentam
- Cerca de uma das popas, sem que obtenha
- Um, repulso o rival, incendiá-las,
- O outro, o varão forçar que um deus guiava.
- A Caletor filho de Clício, ao tempo
- Que um lenho ia queimar, Ajax de um bote
- O peito arromba, com fragor baqueia,
- Larga o aceso tição. Heitor, que o primo
- Vê revolto no pó, brada e conforta:
- “Lícios e Troas, campeões Dardânios,
- Nenhum de vós afrouxe em tanto aperto;
- Não deixes despojar de Clício o filho,
- Morto aqui no recinto em que pugnamos.”
- E contra Ajax dispara, e o tiro emprega
- Em Licofron Mastório, de Ajax pajem
- Dês que em Citera assassinou, divina,
- Pátria sua, um varão: perfura a ponta
- Pela orelha a cabeça; vai de costas
- Ante um baixel, e solvem-se-lhe os membros
- Do amigo ao pé, que freme e a Teucro chama:
- “Sangue meu jaz rendido ao braço Hectóreo.
- O filho de Mastor, fiel companha,
- Que de Citera vindo, hóspede em casa,
- A par de nossos pais honramos sempre:
- Que presta o arco letal que deu-te Apolo?”
- Teucro o percebe, e de arco teso e aljava
- Corre a frechar a Clito Piseonório,
- Que, auriga do preclaro Polidamas,
- Armando aos gabos do Priâmeo e Troas,
- Batendo as bridas revirava as éguas
- Ao grosso das falanges perturbadas:
- Votos recusa a Parca; atrás lhe zune
- E adere à nuca a seta lagrimosa:
- Tomba do assento; as éguas retrocedem,
- Rojam vazio estrepitando o carro.
- Óbvio o Pantóides veio, e a biga ardente
- A Astinos entregou Protiaônio,
- E ordenando que o siga passo a passo,
- Reuniu-se aos primeiros contendores.
- Teucro outra seta ao nobre Heitor aponta,
- Cuja morte livrara as naus do ataque;
- Mas Jove, que o pressente e nele vela,
- Negou tal glória ao jovem Telamônio,
- Nas mãos quebrou-lhe a corda: escapa-se o arco,
- E a seta esgarra pelo aêneo peso.
- Teucro estremece e clama: “Ajax, um nume
- Nos burla certo; o arco lançou fora,
- Rompeu-lhe a nova corda, que hoje mesmo
- Liguei torcendo-a para crebros tiros.”
- Diz-lhe o mais velho: “Irmão, depõe esse arco
- E farpões que dispersa ínvido nume;
- Pega do escudo, longo pique arvora,
- Aos Troianos remete e anima as tropas;
- Ao menos, sem perigo não se apossem
- Da instruta frota; ousados resistamos.”
- O arco na tenda encosta, e embraça Teucro
- O quadrúplice escudo, enfia insigne
- De eqüina hórrida crista elmo comante,
- Válida lança empunha de érea choupa,
- E em reforço de Ajax volta açodado.
- Falhando as setas por mercê divina:
- “Amigos, brama Heitor, sede homens, Teucros,
- Dardanos, Lícios, e quem sois vos lembre.
- A frecha eu vi baldar-se ao grande archeiro;
- Fácil descobre-se o favor de Jove,
- Quando exalta ou suplanta os que lhe agrada:
- Ele nos glorifica e abaixa os Dânaos;
- Unidos assaltai. Quem mortal golpe
- Beber de perto ou longe, honrado acabe:
- Quanto é belo salvar os bens e a casa,
- E os filhos e a mulher, deixar-lhes pátria,
- Se os Dânaos para a sua as velas derem!”
- Com tais vozes denodo inspira a todos.
- Além, se opunha Ajax: “Que pejo, ó Gregos!
- Vencer hoje ou morrer! Guardai-me as popas:
- Se o de fulgúreo casco e undante as rende,
- Contais a pé chegar ao doce ninho?
- Ouvis como furente a incendiá-las
- Incita os seus? Por certo que os não manda
- Bailar, mas combater. Melhor conselho
- É mão por mão travarmo-nos com eles.
- Ou já perder a vida ou conservá-la;
- Inultos pouco a pouco a não gastemos,
- Com menores guerreiros contendendo.”
- Seu discorrer os corações robora.
- A Esquédio Perimédites, caudilho
- Fócio, Heitor mata; Ajax mata a Laodamas,
- Claro Antenórida e pedestre cabo;
- A Oto Cilênio, chefe Epeu galhardo,
- Companheiro de Meges, Polidamas.
- Salta-lhe Meges: furta-se o Troiano,
- E o golpe esgarra: não permite Apolo
- Que o Pantóides à frente ali pereça;
- A lança os peitos atravessa a Cresmos,
- Deita-o por terra; e, ao desarmá-lo o Dânao,
- Sai Dolope, fogoso hábil hasteiro,
- Prole do ótimo Lampo Laomedôncio,
- Que ao Fileides ao meio passa o escudo
- Rosto a rosto, embaçando a ponta em juntas
- Convexas placas da loriga espessa:
- Da assente Efire do Sileis à margem
- Trouxe-a Fileu; dom foi do régio Eufetes,
- Para que ele em batalhas se munisse,
- E agora à morte lhe subtrai o filho.
- No cocar do elmo aêneo o pique Meges
- Eis crava-lhe, e o penacho destacado
- Brilha puníceo e fresco entre a poeira.
- Inda assim, briga e insiste esperançoso;
- Mas de hasta Menelau, surdindo a furto,
- A Dolope traspassa pela espádua:
- Ao peito sai a cúspide raivosa
- E o debruça na arena; os dois correram
- Dos ombros a arrancar-lhe as pulcras armas.
- Heitor aqui desperta os consangüíneos,
- Mormente a Menalipo Hicetaônio:
- Este em Percote armentos pastorava;
- Mas acudindo à guerra, espelho aos Teucros,
- Príamo em casa o honrava como a filho.
- Acoimado assim foi: “Quê! Menalipo,
- Remissos nós! E a ti nem te comove
- O morto primo? O afogo em despojá-lo
- Não vês? Segue-me: os Gregos é vergonha
- Combatermos de longe: ou se exterminem,
- Ou nade Ílio no sangue de seus filhos.”
- Marcha, e com Menalipo a um deus parelho.
- Os Aqueus excitava o Telamônio:
- “Tende, amigos, pudor no atroz conflito:
- A morte menos ceifa os que enrubescem
- Temendo a infâmia; sem socorro acabam
- E sem glória os fujões.” Com tais palavras
- A repelir o ataque inflama os Graios,
- Que de êneo muro a frota circundaram;
- Porém Jove os Trojúgenas alenta.
- Súbito Menelau: “Nenhum dos nossos,
- Antíloco, te excede em juventude,
- Em ligeireza e força; olha se um bravo
- Aqui prosternas.” Disse, e desparece.
- O Nestório incitado, em roda esguarda,
- Salta e esgrime: os Troianos se arredaram,
- Mas não se perde o fúlgido arremesso;
- Na mama espeta ao forte Hicetaônio
- Que arremetia, e ao baque o arnês retumba.
- Qual despede o sabujo ao corçozinho
- Que, da cova ao pular, sucumbe ao golpe
- De venábulo cru; tal, Menalipo,
- Desfecha Antíloco a despir-te as armas.
- Sentido corre Heitor por entre as filas;
- Mas, bem que audaz, Antíloco lhe foge:
- Assim mosca-se a fera, morto havendo
- A rafeiro ou pastor, antes que em pinha
- Assaltem-na os vilões. Heitor e os Teucros
- Tiros mortais bramando lhe amiúdam;
- Só pára e a face volta ao pé dos sócios.
- Famélicos leões às naus carregam,
- Os decretos de Júpiter cumprindo,
- Que os esforçava e amolecia os Gregos.
- De Tétis escutando a injusta prece,
- Quer deprimi-los e exaltar a glória
- De Heitor, que à frota infadigáveis chamas
- Há-de arrojar; e espera o árbitro sumo
- Ver pelas negras naus luzir o incêndio,
- Para a seu turno acabrunhar os Teucros
- E aos Dânaos conceder cabal vitória.
- Júpiter pois a Heitor suscita e abrasa,
- Ardente por si mesmo: o herói braveja,
- Como o lanceiro Marte, ou voraz fogo
- Ateado em profunda e basta selva;
- E, por graça do Egífero que acima
- Dos varões o elevava, ele campeia,
- Fulgor no torvo olhar, na boca espuma,
- Na fronte o casco horrendo flutuando.
- Ah! Palas já lhe encurta a fatal hora
- Sob o tremendo Aquiles! Voa entanto
- Alas a desfazer, por onde avista
- Arneses mais louçãos, mais condensados;
- E, apesar do desejo, em vão trabalha,
- Pois num quadrado os Gregos renitiam:
- Firmes o embate aparam, qual penedo
- Repele o choque de sonoros ventos,
- De alva mareta que o salpica e ronca.
- Ruindo enfim pelo tropel, um facho
- Meneia Heitor. Se em rápida procela
- Encanece o escarcéu, nas cintas bate
- E de água inunda a nau rajada enorme
- No velame a zunir: enfiam nautas,
- Por tão pouco da morte separados:
- A alma no peito Argivo assim tituba.
- Se dá no armento, em paludoso pasto,
- Um leão carniceiro, e o guarda inábil
- Não sabe defendê-lo: atrás e avante
- Pula a fera, no meio uma devora,
- Trêmulas dispersando as mais novilhas:
- Assim por Jove e Heitor são destroçados
- Os Dânaos todos; e o Troiano chefe
- Mata um só, Perifetes de Micenas,
- Filho desse Copéo, que ao divo Alcides
- De Euristeu duro as ordens intimava.
- De indigno pai, mas em virtudes raro,
- Sábio entre os Miceneus, ágil, valente,
- Ali deu maior gabo à lança Hectórea:
- Ao virar-se na extrema orla do escudo,
- Que descia aos talões, embaraçou-se;
- Cai de costas, e às fontes o elmo soa
- Medonhamente: ao baque Heitor ocorre,
- A hasta lhe enterra ao pé de muitos sócios,
- Que mestos socorrê-lo não podiam,
- Do formidável pulso tremebundos.
- Forçados os Aqueus, defronte haviam
- As dianteiras naus, e as mais vizinhas
- Ao mar tinham detrás; num corpo todos,
- Junto aos seus pavilhões as linhas cerram.
- Medo e pejo os retêm, mútuos se animam,
- Sempre a vociferar; Nestor Gerênio,
- Deles custódio, a cada qual suplica
- E obsecra por seus pais: “Constância, amigos,
- Dos homens o labéu temei: lembrai-vos
- Dos filhos, das mulheres, dos haveres,
- Dos vossos vivos pais, dos já defuntos;
- Pelos ausentes vos conjuro e imploro,
- Tende-vos quedos, não fujais, Aquivos.”
- Com isto acesos, removeu Minerva
- Nuvem divina que os cegava: às claras
- Vêem o assalto geral da frota em roda;
- Vêem a Heitor e os seus bravos, de reserva
- Quantos estavam, quantos combatiam.
- O magnânimo Ajax entre os consócios
- Não quis ficar: naval brandindo chuça
- De alguns vinte dois cúbitos, com pregos
- Reforçada, ao convés de uma das popas
- O passo largo monta; e, como eqüestre
- Volantim, que do campo uma quadriga
- Toca para a cidade e as ruas corre,
- De cavalo em cavalo aos pulos sempre,
- Mulheres e varões embasbacando,
- De convés em convés o herói saltava;
- Sobe aos astros a voz, que assídua os Gregos
- A proteger instiga as naus e as tendas.
- Nem com a armada chusma era o Priâmeo;
- De chofre, como invade uma águia parda
- Gansos ou grous ou colilongos cisnes
- Que em bando à fresca riba se apascentam,
- Vai contra um vaso de cerúlea proa:
- A mão de Jove o impele e os seus Troianos.
- Tão furioso o conflito renovou-se,
- Que disseras intactos e indefessos
- Pela primeira vez se acometiam.
- Diverso ânimo os leva: os Dânaos lutam
- Não cuidando escapar; os de Ílio contam
- Extinguir seus heróis e às naus pôr fogo:
- Insistia a esperança e o desespero.
- A popa aferra Heitor que alada e bela
- Trouxe a Protesilau, nem mais à pátria
- O há-de restituir: Aqueus e Troas
- Matando-se esta nau se disputavam.
- Não bastam frechas, dardos; testa a testa,
- De uma alma aviventados, pelejavam
- A gume de secures, de bipenes,
- De montantes e piques bipontudos.
- Caem de ombros e mãos punhais e alfanjes,
- De escuros punhos e maçãs fornidos;
- Flui o sangue de envolta e o chão denigre.
- Não larga Heitor a popa que aferrara,
- E seguro no aplustre, aos seus bradava:
- “Fogo, Teucros, cerrai-vos. Luz o dia
- Em que Júpiter sara os nossos males;
- Tome-se a frota que, apesar dos numes,
- Tão fatal nos tem sido, por frieza
- De velhos que, atalhando os meus desejos,
- De a vir bater o exército impediam:
- O Tonante, que a mente nos turbava,
- Hoje é quem nos alenta e nos compele.”
- Disse, e afervora a pugna. Ajax, em tiros
- Submerso, morrer pensa e pouco a pouco
- Do tombadilho para um banco passa
- De sete pés: dali, de chuça arreda
- A quem trazia a infatigável chama,
- Sempre atento e a rugir com voz terrível:
- “Márcios Dânaos heróis, firmeza, amigos,
- Sede o que fostes sempre: acaso temos
- Atrás qualquer socorro e um forte muro?
- Falta-nos gente fresca e torreada
- Munida praça; o mar nos tolhe e estreita;
- Na terra estamos dos belazes Teucros,
- Longe da própria: em tréguas não fiemos,
- A salvação consiste em nossos braços.”
- Sua arma então brandindo formidável,
- A perseguir a quem, de Heitor a instâncias,
- De facho às cavas naus se apropinquava,
- Repentino ele o fere, e a doze estende. * * *