[Prólogo no Céu]
125 versos
O Empíreo. Ao meio o Senhor, no trono. À roda a corte celestial, com as suas jerarquias: anjos, arcanjos, querubins, serafins, tronos, potestades, dominações, virtudes, e coros.
Cena ÚNICA
O SENHOR, a sua corte, logo depois MEFISTÓFELES
( Acercam-se do trono os três Arcanjos )
RAFAEL (cantando)
- No coro sideral o sol vai prosseguindo,
- qual na origem lho hás dado, o curso harmonioso.
- Tonitruante baixo em teu concerto infindo,
- só mandando-lho tu, Senhor, terá repouso.
- Sua luz dobra a nossa, enchendo-nos de espanto
- não podermos sondar-lhe a portentosa essência.
- Como o fora a princípio, ó sacra Omnipotência,
- teu sol é hoje ainda enigma, assombro, encanto.
GABRIEL (cantando)
- E da terráquea esfera a máquina esplendente
- segue em seu torvelino, eterno, arrebatado;
- por que ora à luz dos céus florido Éden se ostente,
- ora descanse envolta em negro véu bordado.
- O mar espuma, troa, investe as brutas fragas,
- que o repulsam desfeito, em nunca finda guerra.
- Mas na perpétua luta, as rochas como as vagas
- seguem juntas, sem termo, o volutear da terra.
MIGUEL (cantando)
- Dos solos contra o mar, do oceano aos continentes,
- jogam-se os temporais com ímpeto profundo;
- zona de assolasses e criações potentes,
- que desfaz e refaz perpetuamente o mundo.
- Ígnea precede a morte ao trovejante horror.
- Mas nós, os cortesãos da tua imensidade,
- gozamos luz e paz por toda a eternidade.
- Bendito sejas tu, Senhor! Senhor! Senhor!
OS TRÊS (juntos)
- As tuas criações enchem os céus de espanto;
- nem o arcanjo lhes sonda a portentosa essência.
- Como o fora a princípio, ó sacra Omnipotência,
- teu mundo é hoje ainda enigma, assombro, encanto.
MEFISTÓFELES (cortejando ao Padre Eterno)
- Inda enfim cá tornei. Visto quereres
- saber por mim o que lá vai no mundo,
- pronto; que antigamente (inda me lembra)
- gostavas de me ouvir. É só por isso
- que me tornas a ver entre esta súcia.
- Tem paciência! Eu, retóricas sublimes,
- é coisa que não gasto; e mesmo escuso
- deste augusto congresso expor-me às vaias.
- Co’o meu patos tu próprio te ririas,
- a não teres perdido esse costume.
- Sei cá palavrear de sois! de mundos!
- Toda a minha sabença é perder homens.
- O deusito da terra está na mesma:
- parvo como ab initio . Melhor fora
- (digo eu cá) não lhe teres infundido
- o raio dessa luz, que lá se chama
- Razão, e que na prática só presta
- para o tornar mais bruto que os mais brutos.
- Com licença da Tua Majestade,
- o que ele me parece, é gafanhoto
- pernilongo, com mescla de cigarra,
- já voador, já saltão, já num relvado
- co’a sua solfa velha a estrugir tudo.
- E vá lá, se da erva não saísse
- inda era meio mal; mas tem o sestro
- de se andar sempre à cata de imundícies.
O SENHOR
- Parece-se contigo. O teu regalo
- é esse: acusar sempre. Então no mundo
- nada há bom?
MEFISTÓFELES
- Não senhor. Quanto eu lá vejo
- passa até de ruim. Chega a haver dias
- que eu próprio tenho lástima dos homens,
- coitados! nem me animo a atormentá-los.
O SENHOR
- Viste Fausto?
MEFISTÓFELES
- O Doutor?
SENHOR
- Sim, o meu servo.
MEFISTÓFELES
- Servo teu? guapo servo! o rei dos parvos.
- Seu comer e beber são do outro mundo.
- Pasce-se no fervor da cachimónia,
- que o traz há muito aéreo; em suma, é doido,
- e ele próprio o suspeita. Ambiciona
- cá do céu as estrelas mais formosas,
- da terra gozos máximos. Nem perto
- nem longe, vê, nem sonha, em que se farte.
O SENHOR
- Por enquanto, anda à toa; em breves dias
- lhe darei claridade. O fazendeiro
- antevê, no abrolhar, a flor e o fruto.
MEFISTÓFELES
- Quer Vossa Majestade uma apostinha?
- Verá se também este se não perde,
- uma vez que me deixe encaminhá-lo.
O SENHOR
- Deixo, enquanto for vivo. Onde há cobiças,
- é natural o errar.
MEFISTÓFELES
- Muito obrigado.
- Pois co’os vivos também é que me eu quero;
- com defuntos embirro; o meu regalo
- é tentar caras rechonchudas, frescas;
- sou como o gato: de murganho morto
- não faço caso; o meu divertimento
- é correr e arpoar aos que me fogem.
O SENHOR
- Como queiras. Permito-te que o tentes.
- Se lograres caçá-lo desbaptiza-o,
- e inferna-o muito embora. Mas, corrido
- fiques tu in æternum , se confessas
- que o bom, dado que errar às vezes possa,
- nunca nos sai da estrada, a recta, a nossa.
MEFISTÓFELES
- Bom. Não lhe há-de tardar o desengano,
- Ganhei tão certo a aposta, como é certo
- chamar-me eu Mefistófeles. Se eu vingo
- na empresa, a palma do triunfo é minha.
- Há-de se regalar de comer terra,
- como a tia serpente.
O SENHOR
- Alargo a vénia.
- Outorgo, enquanto andares nesse empenho,
- poderes incarnar, viver co’os homens.
- Aos demos como tu, maraus e alegres,
- nunca os aborreci tão cá de dentro,
- como aos demais que a minha essência negam.
- O homem cansa depressa; e quando cansa
- nada mais quer fazer. Em razão disso
- é que eu houve por bem dar-lhe estes sócios
- que o despertam, activam; potestades
- criadoras até!
( Voltando-se para os anjos )
- Vós outros, filhos
- legítimos de Deus! regozijai-vos
- nesta mansão das perenais delícias,
- aqui onde o poder que vive eterno
- e eternamente cria, vos enlaça
- com vínculos de amor indissolúveis.
- E essas do mundo cambiantes cenas,
- ide assentando na vivaz memória!
( Cerra-se o empíreo, dissipando-se os espíritos ).
MEFISTÓFELES (só)
- E está bem conservado. Não desgosto
- de o ver de vez em quando. O meu sistema
- de não quebrar com ele inteiramente,
- mesmo assim, não é mau. Tamanho vulto
- conversar tanto à mão co’um diabrete
- não é leve honraria.
- E se eu lhe ganho a aposta! oh! que ufania!...