Um arvoredo de passeio
81 versos
Cena I
FAUSTO vai e vem meditabundo. MEFISTÓFELES
MEFISTÓFELES (acercando-se furioso a Fausto)
- Voto ao falsear no amor! Voto às essências
- do meu reino infernal!... e votaria
- praga maior, se me lembrasse. Voto...
FAUSTO
- Que tens? quem te fez mal? Nunca vi cara
- de tanto desespero.
MEFISTÓFELES
- Hoje ao diabo,
- se o eu não fosse, me daria eu próprio.
FAUSTO
- Que pancada na mola! Acho pilhéria
- nesse teu bravejar.
MEFISTÓFELES
- Faça de conta
- que o ladrão de um sotaina...
FAUSTO
- Um padre?
MEFISTÓFELES
- Um padre:
- atabafou à pobre Margarida
- quanto o Doutor lhe dera. Aí vai a história:
- Entra-lhe a mãe no quarto; avista as jóias,
- e enche-se de terror. É que a velhusca
- tem um faro! Como anda de contínuo
- afocinhada no seu livro de Horas,
- só por esse fortum distingue à légua
- se o cheiro que lhe vem de cada coisa
- é santo, ou cá dos meus. Por conseguinte
- pronta aventou nas jóias do adereço
- cheirarem pouco a céu:
- - «Digo-te, filha
- - resmoneou - que os bens mal adquiridos
- peste são d’alma e corpo. O mais seguro
- é darmo-los de oferta à Mãe Santíssima,
- e a benção do Senhor será connosco!»
- A Margarida, um tanto amuadinha,
- pensou consigo, a sós:
- «Cavalo dado,
- et cœt’ra . E quem nos manda um tal presente,
- de um modo tão cortês, não dá motivo
- para o crermos perverso.»
- A mestra abelha
- sempre à cautela foi chamando o bonzo.
- Este, apenas ouvida a brincadeira,
- quis ver; alvoroçaram-se-lhe os olhos,
- e exclamou:
- - «Sim senhora, isso é que é honra!
- Quem se vence é que vence. A madre igreja
- esmoe bem, Deus louvado; engole reinos
- sem ter indigestão. Só ela pode,
- minhas caras irmãs, tragar sem risco
- riquezas mal ganhadas.»
FAUSTO
- Quanto a isso
- tem companheiros. Um judeu, podendo,
- e um Rei lêem pelo mesmo breviário.
MEFISTÓFELES (continuando)
- E acto continuo, foi chamando ao bolso
- afogador, aneis, pulseiras, tudo
- como coisas de nada, um cabazinho
- de avelãs chochas. Deu-lhes por seguros
- mil prémios na outra vida, e pôs ao fresco,
- deixando-as grandemente edificadas.
FAUSTO
- E a Margarida? a Margarida?
MEFISTÓFELES
- Ai! essa
- lá está sentada a malucar sozinha,
- sem saber o que deva, ou que resolva.
- Não lhe saem da ideia as louçainhas,
- e menos quem lhas deu.
FAUSTO
- Portanto pena;
- e eu por ela também. Corre a buscar-lhe
- novo adereço, e vê se melhorado,
- que o outro realmente era bem pífio!
MEFISTÓFELES
- Com que então, pareceram-lhe as tais jóias
- uns bonitos de feira! Agradecido,
- magnânimo Doutor!
FAUSTO
- Silêncio! Parte,
- e arranja as coisas a meu gosto. Ouviste?
- Faze-te bem de casa co’a vizinha!
- Não sejas papa-assorda, e presto presto
- já nova joalharia.
MEFISTÓFELES (com humildade afectada)
- Inteiramente
- ao seu dispor meu amo.
( Sai Fausto. )
Cena II
MEFISTÓFELES (só)
- Um doido amante
- daquela força, iria, se pudesse,
- às estrelas, à lua, ao sol pôr lume,
- só para regalar a sua amada
- de ver nos céus um fogo d’artifício,
- em que tudo estoirando esfuzilasse.