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FaustoQuadro X
QuadroX

Um arvoredo de passeio

81 versos


Cena I

FAUSTO vai e vem meditabundo. MEFISTÓFELES

MEFISTÓFELES (acercando-se furioso a Fausto)

  1. Voto ao falsear no amor! Voto às essências
  2. do meu reino infernal!... e votaria
  3. praga maior, se me lembrasse. Voto...

FAUSTO

  1. Que tens? quem te fez mal? Nunca vi cara
  2. de tanto desespero.

MEFISTÓFELES

  1. Hoje ao diabo,
  2. se o eu não fosse, me daria eu próprio.

FAUSTO

  1. Que pancada na mola! Acho pilhéria
  2. nesse teu bravejar.

MEFISTÓFELES

  1. Faça de conta
  2. que o ladrão de um sotaina...

FAUSTO

  1. Um padre?

MEFISTÓFELES

  1. Um padre:
  2. atabafou à pobre Margarida
  3. quanto o Doutor lhe dera. Aí vai a história:
  4. Entra-lhe a mãe no quarto; avista as jóias,
  5. e enche-se de terror. É que a velhusca
  6. tem um faro! Como anda de contínuo
  7. afocinhada no seu livro de Horas,
  8. só por esse fortum distingue à légua
  9. se o cheiro que lhe vem de cada coisa
  10. é santo, ou cá dos meus. Por conseguinte
  11. pronta aventou nas jóias do adereço
  12. cheirarem pouco a céu:
  13. - «Digo-te, filha
  14. - resmoneou - que os bens mal adquiridos
  15. peste são d’alma e corpo. O mais seguro
  16. é darmo-los de oferta à Mãe Santíssima,
  17. e a benção do Senhor será connosco!»
  18. A Margarida, um tanto amuadinha,
  19. pensou consigo, a sós:
  20. «Cavalo dado,
  21. et cœt’ra . E quem nos manda um tal presente,
  22. de um modo tão cortês, não dá motivo
  23. para o crermos perverso.»
  24. A mestra abelha
  25. sempre à cautela foi chamando o bonzo.
  26. Este, apenas ouvida a brincadeira,
  27. quis ver; alvoroçaram-se-lhe os olhos,
  28. e exclamou:
  29. - «Sim senhora, isso é que é honra!
  30. Quem se vence é que vence. A madre igreja
  31. esmoe bem, Deus louvado; engole reinos
  32. sem ter indigestão. Só ela pode,
  33. minhas caras irmãs, tragar sem risco
  34. riquezas mal ganhadas.»

FAUSTO

  1. Quanto a isso
  2. tem companheiros. Um judeu, podendo,
  3. e um Rei lêem pelo mesmo breviário.

MEFISTÓFELES (continuando)

  1. E acto continuo, foi chamando ao bolso
  2. afogador, aneis, pulseiras, tudo
  3. como coisas de nada, um cabazinho
  4. de avelãs chochas. Deu-lhes por seguros
  5. mil prémios na outra vida, e pôs ao fresco,
  6. deixando-as grandemente edificadas.

FAUSTO

  1. E a Margarida? a Margarida?

MEFISTÓFELES

  1. Ai! essa
  2. lá está sentada a malucar sozinha,
  3. sem saber o que deva, ou que resolva.
  4. Não lhe saem da ideia as louçainhas,
  5. e menos quem lhas deu.

FAUSTO

  1. Portanto pena;
  2. e eu por ela também. Corre a buscar-lhe
  3. novo adereço, e vê se melhorado,
  4. que o outro realmente era bem pífio!

MEFISTÓFELES

  1. Com que então, pareceram-lhe as tais jóias
  2. uns bonitos de feira! Agradecido,
  3. magnânimo Doutor!

FAUSTO

  1. Silêncio! Parte,
  2. e arranja as coisas a meu gosto. Ouviste?
  3. Faze-te bem de casa co’a vizinha!
  4. Não sejas papa-assorda, e presto presto
  5. já nova joalharia.

MEFISTÓFELES (com humildade afectada)

  1. Inteiramente
  2. ao seu dispor meu amo.

( Sai Fausto. )

Cena II

MEFISTÓFELES (só)

  1. Um doido amante
  2. daquela força, iria, se pudesse,
  3. às estrelas, à lua, ao sol pôr lume,
  4. só para regalar a sua amada
  5. de ver nos céus um fogo d’artifício,
  6. em que tudo estoirando esfuzilasse.
Próximo quadroXICasa da vizinha Marta. Quarto pobre. Porta ao fundo, entre duas janelas cortinadas. Cadeir