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FaustoQuadro VII
QuadroVII

Vasta caverna de Feiticeira. Ao fundo, uma porta baixa e informe. Do lado esquerdo, uma la

357 versos · 1 notas do tradutor


Cena I

Ao pé do caldeirão, e a escumá-lo, com sentido que não deite por fora, está sentada uma CERCOPITECA ( macaca muito grande, de rabo comprido ) (*) . O CERCOPITECO ( o macho) está sentado, com os filhinhos ao pé, a aquecer-se . FAUSTO, MEFISTÓFELES.

FAUSTO (a Mefistófeles)

  1. Este sarapatel de nigromâncias
  2. faz-me nojo, declaro. E projectava
  3. este diabo restaurar-me a vida
  4. em tão vil charco de hediondezes fúteis!
  5. Aconselhem-se lá co’uma carcassa!
  6. Ou tenham fé que possam burundangas
  7. duma cozinha assim descarregar-me
  8. trinta anos do cachaço. A não saberes
  9. receita que mais valha, estou servido.
  10. Pois dar-se-á que não tenha a natureza
  11. algum bálsamo seu, já descoberto
  12. por algum alto engenho?

MEFISTÓFELES

  1. Aí ’stão palavras
  2. que mostram não ser parvo o nosso amigo.
  3. Sim senhor; sem sair da natureza
  4. há também com que um homem se remoce.
  5. Vem isso noutra obra; e bem curioso
  6. que ele é, o tal capítulo.

FAUSTO

  1. Declara-o!

MEFISTÓFELES

  1. Guapa receita. E curativo grátis,
  2. sem precisar Doutor, nem feiticeira.
  3. Ponha-se fora; vá-se aos campos; are;
  4. cave; enclausure-se, alma e corpo, em solo
  5. dadivoso mas parco; esteie a vida
  6. com frugal passadio; aprenda e exerça
  7. co’os seus brutinhos o viver nativo;
  8. não julgue desairar-se, em repartindo
  9. por suas mãos o adubo ao chão que o nutre.
  10. Fie-se em mim: se há coisa que descargue
  11. de oitenta anos, é isto.

FAUSTO

  1. Agora é tarde
  2. para me acostumar. Nunca até hoje
  3. peguei num alvião. Para o meu génio
  4. esse viver obscuro era insofrível.

MEFISTÓFELES

  1. Então, é recorrer à feiticeira.

FAUSTO

  1. Mas porque há-de ser logo a preferida
  2. a tal mondonga velha? Não podias
  3. preparar-me tu próprio a beberagem?

MEFISTÓFELES

  1. Belo divertimento! Eu preferia
  2. gastar o tempo em construir mil pontes.
  3. Para arranjar os filtros desta casta
  4. quer-se, além do saber, paciência e muita,
  5. e atenção de anos largos; só co’o tempo
  6. é que se alcança o fermentar completo
  7. do líquido eficaz. Pois a quantia
  8. d’ingredientes raríssimos! É certo
  9. que o diabo é quem os sabe, e ensina tudo;
  10. mas lá para os estar manipulando
  11. é que não tem pachorra.

( Reparando nos animais )

  1. Olhe a gracinha
  2. do casal que ali está! São a criada
  3. e o servo cá da casa.

( Aos animais )

  1. Olá! já vejo
  2. que a velhusca, vossa ama, anda por fora.

OS ANIMAIS

  1. Eh eh eh eh!
  2. Ao fricassé!
  3. Foi pelo cano
  4. da chaminé.

MEFISTÓFELES

  1. Gasta lá nessas frescatas
  2. muito tempo a feiticeira?

OS ANIMAIS

  1. O tempo em que na lareira
  2. nós aquecemos as patas.

MEFISTÓFELES (a Fausto)

  1. Que tais acha estes nossos bicharecos?

FAUSTO

  1. Ai! de apetite! Nunca os vi mais feios.

MEFISTÓFELES

  1. E eu então o meu gosto é conversá-los.

( Aos animais )

  1. Dizei, bonecos danados,
  2. que tendes no caldeirão,
  3. que estais tão azafamados
  4. a mexer co’o colherão?

OS ANIMAIS

  1. Pois não vês? esta iguaria
  2. são as sopas dos mendigos.

MEFISTÓFELES

  1. Nesse caso, meus amigos,
  2. tereis muita freguesia.

O CERCOPITECO MEFISTÓFELES (tira da canastra o copo dos dados, e vai-se chegando a)

  1. Joguemos aos dados!
  2. Meu rico parceiro,
  3. não tenho dinheiro,
  4. fazei-mo ganhar.
  5. Ser pobre é ser parvo.
  6. Espírito nobre,
  7. salvai-me de pobre,
  8. salvai-me de alvar.

MEFISTÓFELES

  1. Este cercopiteco endoidecia,
  2. se pudesse ganhar na loteria.

( Nestes entrementes, andam os cercopitequinhos a brincar com uma grande bola que tiraram da canastra, e vão rolando diante de si. )

O CERCOPITECO

  1. Tal é o mundo!
  2. Rolar, correr,
  3. subir, descer.
  4. Vidro rotundo
  5. sonoro e ouco,
  6. a pouco e pouco
  7. fendas a abrir.
  8. Aqui brilhante;
  9. lá coruscante;
  10. sempre cambiante,
  11. sempre a fugir.
  12. Fala-te um ente,
  13. qual tu vivente,
  14. qual tu mortal.
  15. Evita, amigo,
  16. esse inimigo
  17. mundo fatal.
  18. Crê-lo maciço,
  19. e é quebradiço
  20. como cristal.

MEFISTÓFELES

  1. Que faz aqui esta peneira?
  2. Tem algum préstimo?

O CERCOPITECO (tirando a peneira do prego)

  1. Pois não?
  2. Mostra a verdade nua e inteira.
  3. Supõe que fosses um ladrão,
  4. cara de santo e fala arteira,
  5. logo eu te via a maganeira,
  6. em observando o teu carão
  7. pela peneira!

( Corre para a fêmea, a quem obriga a olhar para Mefistófeles, através da peneira )

  1. Toma a luneta, companheira,
  2. observa, observa o figurão.
  3. Reconheceste-lo à primeira.
  4. Declara o nome do ladrão!
  5. Viva a peneira!

MEFISTÓFELES (aproximando-se do lume)

  1. E este pote?

OS CERCOPITECOS (macho e fêmea)

  1. Fora zote,
  2. burro, estúpido, asneirão.
  3. Não vês que é um caldeirão?
  4. Chama a um caldeirão um pote!

MEFISTÓFELES

  1. Bruta corja!

O CERCOPITECO (levanta arrebatadamente do chão um abano de rabo e mete-o na mão de Mefistófeles)

  1. O quê! Depressa!
  2. Toma o rabo deste abano!
  3. Assenta-te na tripeça,
  4. e esperta a fogueira, mano!

( Obriga Mefistófeles a sentar-se numa das tripeças, fazendo do abano ventarola )

FAUSTO (que durante todo este tempo, estivera parado defronte de um espelho, ora aproximando-se, ora recuando)

  1. Oh mago espelho! que divina imagem!
  2. Asas, asas, Amor! conduz-me a ela!
  3. Se me acerco, recua, e mal a avisto
  4. sombra de sombra esmorecida em névoa.
  5. Tais graças feminis, dar-se-á que existam?
  6. Estarei vendo neste esbelto corpo
  7. das delícias dos céus a quinta essência?
  8. Cabe ao mundo um tal dom?

MEFISTÓFELES

  1. Naturalmente.
  2. Quando lida na obra um Deus seis dias,
  3. ao sétimo a contempla, e exclama: Bravo!
  4. De ver está que executou portento
  5. de costa acima. Farte os olhos, farte!
  6. Deixe-me furoar que tarde ou cedo
  7. lhe hei-de desencantar esse tesoiro.
  8. Feliz quem no obtiver.

( Continua Fausto a olhar para o espelho. Mefistófeles espreguiçando-se na tripeça, e brincando com o abano, continua a falar. )

  1. Que belo assento,
  2. em que eu me estou aqui repetenando!
  1. Nem rei no trono. Empunho um ceptro. Resta
  2. vir a coroa radiar-me a testa.

OS ANIMAIS (que até aqui tem estado, uns com os outros, fazendo trejeitos e momices, trazem da canastra a Mefistófeles uma coroa, com grande algazarra)

  1. Tome-a lá! Grude-a a si bem grudada,
  2. com suores e sangue, oh Senhor!

( Ao brincarem à doida, deixam cair a coroa, que se parte em pedaços. Apanham-nos e atiram-nos por joguete uns aos outros. )

  1. Ih! Quebrou-se a coroa sagrada!
  2. Viva a turba! Acabou-se o temor.
  3. Galrar já podemos,
  4. de ventas no ar.
  5. As zangas que temos,
  6. até poderemos,
  7. querendo, rimar.

FAUSTO (sem se apartar do espelho)

  1. Ui que sanzala! Esvaem-me o juízo!

MEFISTÓFELES

  1. Se até eu tenho a bola à roda, à roda!

OS ANIMAIS

  1. E se a coisa desta feita
  2. vinga e dá seu resultado,
  3. das ideias a colheita
  4. torna o mundo afortunado.

FAUSTO (como acima)

  1. Já me arde o coração. Presto, fujamos!

MEFISTÓFELES

  1. Já se vê pelo menos que estes mecos
  2. tem para a poesia embocadura.

( Como a macaca tinha largado o caldeirão, começa este a entornar-se, ocasionando grande labareda que sobe pela chaminé. Pelo meio dessa labareda, desce a Feiticeira vozeando. )

Cena II

A FEITICEIRA e os MESMOS

FEITICEIRA

  1. Ão, ão, ão, ão!
  2. Maldita mona,
  3. que me entornaste
  4. o caldeirão,
  5. e a vossa dona
  6. incendiaste!
  7. Maldita! ão, ão!

( Repara em Fausto e Mefistófeles )

  1. Que temos? Vós quem sois? Quem teve o atrevimento
  2. de vos deixar entrar? qual era o vosso intento?
  3. Por entrardes sem vénia e a furto aos lares nossos,
  4. má fogo que vos queime, e vos derreta os ossos!

( Mete o colherão na caldeira; tira-o cheio; sacode o líquido, que vai cair, convertido em chamas, sobre Fausto, Mefistófeles e os animais. Os bichos lançam grandes guinchos )

MEFISTÓFELES (levantando-se a súbitas, revira o abano com o cabo para fora, e começa a malhar com ele na caldeira, e em tudo que vê diante)

  1. Ah! tu brincas? Pois eu faço
  2. à tua solfa o meu compasso,
  3. múmia ascosa. Na fogueira
  4. vaso as sopas. A caldeira
  5. ela aí vai tornada estilhas;
  6. e atrás dela estas vasilhas...
  7. Nada inteiro há-de ficar.

( A Feiticeira tem ido retrocedendo, cheia de terror )

  1. Monstro! horror! arcaboiço! Olá! Não reconheces
  2. o teu amo e senhor? Ínfima das refeces,
  3. queres-te opor a mim? Não sei que me tem mão
  4. que vos não leve a pau, desfeitas, de rondão,
  5. tu, e toda a relé da tua bicharia.
  6. Pois já esta demente acaso esqueceria
  7. este cocar de galo? a cor de grã que eu visto?
  8. até o meu semblante? Ainda, após tudo isto,
  9. para saber quem sou precisa que lhe ponha
  10. claro, eu próprio, o meu nome, a biltre sem vergonha!

A FEITICEIRA

  1. Confesso, Grão Senhor, que foi mal recebido.
  2. Vossa alteza perdoe;... mas tinha-lhe esquecido
  3. o pezinho cabrum e o par de corvos .

MEFISTÓFELES

  1. Bem.
  2. Por esta inda te passo.

( A Fausto )

  1. Ele havia também
  2. já tantíssimo tempo, a dizer a verdade,
  3. que me não tinha visto!... A lei da humanidade
  4. também se estende a nós: Le monde marche. Um vento
  5. que se chama O Progresso, ora rijo, ora lento
  6. mas constante, que varre e leva a quanto existe,
  7. também por cá chegou. Foi-se o fantasma triste
  8. do nevoento Norte. Onde há já ’í diabo,
  9. que use chavelhos, garra ou pé de cabra e rabo?
  10. Ora eu enquanto ao pé, - membro que não dispenso,
  11. por ser quem me carreia em basta gente assenso -
  12. quanto ao pé, anos há que uso ao disfarce botas,
  13. como usam panturrilha os magrizéis janotas.

A FEITICEIRA (cantando e dançando)

  1. Não caibo em mim d’alegria
  2. por ver meu Dom Santanás
  3. nesta minha cova fria,
  4. tal como outrora soía,
  5. lá quando eu era algum dia
  6. menos velha, e ele rapaz.
  7. Viva o meu Dom Santanás!

MEFISTÓFELES

  1. Vedo que nunca mais tal nome se me dê.

A FEITICEIRA

  1. Pois que mal lhe fez ele? explique-se: porquê?

MEFISTÓFELES

  1. Nome é que anda há já muito entre outros mil escritos
  2. no volumoso rol das fábulas e mitos.

( A Fausto )

  1. Coisas da espécie humana: o génio mau proscrevem
  2. e ficam-se co’os maus; a esses não se atrevem.

( À Feiticeira )

  1. Chama-me se te apraz «Barão!» «Senhor Barão!»
  2. Não há mais que dizer. Fico um fidalgarrão
  3. como os do sangue azul. Quanto eu sou nobre, escuso
  4. encarecer-to; e aí vão as armas do meu uso!

( Faz certo accionado. )

A FEITICEIRA (rindo a bandeiras despregadas)

  1. Ah ah ah ah!
  2. Ih ih ih ih!
  3. Nunca vi, não há,
  4. não há, nunca vi
  5. brejeiro maior!
  6. Bargante, bargante!
  7. Em moço, tunante;
  8. em velho, pior!

MEFISTÓFELES (a Fausto)

  1. Repare, meu amigo e aprenda! Esta a maneira
  2. como deve tratar co’a súcia feiticeira.

A FEITICEIRA

  1. Que desejam agora estes senhores?

MEFISTÓFELES

  1. Mando
  2. que nos tragas já já um copo trasbordando
  3. da sabida mistela, e quanto mais anosa
  4. a tiveres, melhor, mais eficaz.

A FEITICEIRA

  1. Gostosa
  2. obedeço já já.

( Tira uma garrafa e um copo da cantareira )

  1. Nesta garrafa tenho
  2. com que dar ao seu mando óptimo desempenho.
  1. Desta é que eu muita vez mato o bicho. Fortum
  2. nem por onde ele passe. Um copo! e mais do que um
  3. se quiser, essa é boa!

( Baixo a Mefistófeles )

  1. Olhe que o sujeitinho,
  2. se traga aquilo assim como quem bebe vinho,
  3. sem se ter preparado, estoira antes de um’hora,
  4. bem sabe.

MEFISTÓFELES (baixo à Feiticeira)

  1. O teu receio é mal cabido agora.
  2. Eu sou amigo dele e não lhe quero a morte.
  3. Podes-lhe dar sem medo o que haja de mais forte
  4. no teu laboratório. A l’obra, presto, a l’obra!
  5. Risca-me nesse chão o círculo da cobra.
  6. Reza lá o conjuro, e dá-lhe um copo cheio.

( A Feiticeira com solenes ademães, risca um círculo e põe-lhe dentro coisas esquisitas. Para logo principiam os utensis e os copos a traquinar, com certa afinação. Traz afinal um cartapácio. Mete no círculo os cercopitecos. Um deles fica a servir-lhe de estante. Os outros archotes tirados da canastra, e que per si se acenderam simultaneamente. A Feiticeira acena a Fausto, que se lhe acerque )

FAUSTO (a Mefistófeles)

  1. Mas tudo isso a que vem? Patranhas vãs! Descreio
  2. de quanto vejo aqui: visagens estudadas,
  3. imposturas sem sal, tontices, meros nadas.
  4. Sei tudo isso de cor; tenho-lhe nojo.

MEFISTÓFELES

  1. Asneira!
  2. É forte bravejar contra uma brincadeira!
  3. Pois não vês que a mulher não faz em tudo aquilo
  4. senão seguir à risca o medical estilo?
  5. para que te aproveite e preste a beberagem,
  6. põe muito palavrão, muitíssima visagem.

A FEITICEIRA (empurra Fausto para dentro do círculo; e põe-se a ler no livro, declamando com grande ênfase)

  1. Agora me explico,
  2. Do um, dez fareis;
  3. o dois deixareis;
  4. o três uguareis;
  5. e já sondes rico.
  6. Lançar quatro fora.
  7. Dos cinco e dos seis,
  8. sete e oito fareis.
  9. São estas as leis,
  10. e andai-vos embora.
  11. E os nove são um;
  12. e os dez são nenhum.
  13. E tenho acabada,
  14. segundo cumpria,
  15. toda a tabuada
  16. da feitiçaria.

FAUSTO (a Mefistófeles)

  1. Ela estará com febre? A modo que extravaga.

MEFISTÓFELES

  1. Ai! de pouco se admira. Inda por ora a saga
  2. do intróito não passou; e todo o calhamaço
  3. vai no mesmo teor. Eu já o li de espaço;
  4. por sinal que até fiz sobre o seu conteúdo
  5. o estudo mais cabal, mais sério, mais miúdo,
  6. do que vim a inferir o que lhe exponho franco:
  7. no que é contraditório, o sábio fica em branco,
  8. assim como o ignorante. Esta arte, meu amigo,
  9. é velha e nova; há nela, a par do imenso antigo,
  10. algo também moderno. Inda não houve idade,
  11. que, a bem de traficar co’a pobre humanidade,
  12. não andasse a espalhar, com rara impavidez,
  13. erros de três por um, ou erros de um por três.
  14. Onde havia ensinar-se o claro, o verdadeiro,
  15. mentiu-se adrede ao vulgo estólido e crendeiro.
  16. Contra a superstição e audácia, era preciso
  17. combater e suar; e a gente de juízo
  18. preferiu sempre a tudo um bom viver pacato.
  19. Nos mortais em geral dá-se um pendor inato
  20. para absorverem crença. Era melhor primeiro
  21. pensar, e crer depois; crer só no verdadeiro.

A FEITICEIRA (continuando)

  1. A potência da ciência
  2. que anda oculta em névoa escura,
  3. só revela a sua essência
  4. ao mortal que a não procura.

FAUSTO

  1. Que absurdo nos diz ela? A tantos disparates
  2. já se me oira a cabeça; oitenta mil orates
  3. não doidejavam mais.

MEFISTÓFELES

  1. Nobre sibila, basta!
  2. Venha o copo e bem cheio. Um homem desta casta,
  3. um famoso Doutor em tanta faculdade,
  4. pode beber sem risco e sem dificuldade.
  5. Mal imaginas tu que tragos de alto engodo
  6. ele já tem provado.

( Notando em Fausto alguma hesitação, continua. )

  1. Abaixo! abaixo! Todo!
  2. Animo! escorripicha! E tu verás em breve
  3. como esse coração bate contente e leve.
  4. Ora gosto de ti! Convives co’o demónio
  5. tu cá, tu lá , e agora estás como um bolónio
  6. com medo a um fogachinho!

( Fausto acaba de beber resolutamente o copo apesar de saírem dele pequenas chamas. )

( A Feiticeira desfaz o círculo. Fausto sai dele. )

  1. Estás liberto. Agora,
  2. exercício que farte.

A FEITICEIRA

  1. Em muito boa hora
  2. que tomasse o meu filtro.

MEFISTÓFELES (à Feiticeira)

  1. E tu, se me quiseres
  2. alguma coisa, velha, é bom que lá me esperes
  3. na Valburga esta noite.

A FEITICEIRA (a Fausto)

  1. Aprenda outra cantiga
  2. antes de se ir embora; e é dadiva de amiga.
  3. Toda a vez que a entoar, há-de sentir no peito
  4. um certo não lho digo; enfim um certo efeito

( Fausto dá-lhe costas enjoado, com ar desprezativo )

MEFISTÓFELES (a Fausto)

  1. Vem comigo, eu te guio. Afim de que a poção
  2. no interior e por fora opere a sua acção,
  3. não há que estar à espera; é necessário e urgente
  4. medir terra, correr, suar copiosamente.
  5. Depois te ensinarei como se logra a vida
  6. no suave far niente em flores envolvida,
  7. e como o deus de amor brinca, borboleteia,
  8. e oferta aos lábios mel pela áurea taça cheia.

FAUSTO (querendo tornar-se ao espelho)

  1. Deixem-me inda uma vez mirar nesse brilhante
  2. venturoso cristal a que é sem semelhante,
  3. da graça o non plus ultra.

MEFISTÓFELES

  1. À fé, que a imagem dela
  2. era de todo o ponto e em todo o extremo bela;
  3. mas que não dirás tu, em vendo o original?
  4. vivinho! em carne e osso! ao pé de ti!

( À parte )

  1. Que tal!
  2. Co’a dose que tomou, qualquer mulher que aviste
  3. vai julgá-la outra Helena.
  4. Ah, sábio, alfim caíste!

Nota a nota · 1 nota

v. 196o pezinho cabrum e o par de corvos .
* – Par de corvos. – Corvos são acessórios com que se pinta o diabo na mitologia do Norte.
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