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FaustoQuadro IV
QuadroIV

O anterior camarim de Fausto

389 versos


Cena I

FAUSTO, entrando pela porta do fundo, que deixa aberta, seguido de um grande cão d’água preto

FAUSTO

  1. Lá deixei planície, prados,
  2. tristemente sepultados
  3. na mudez da noite escura.
  4. A alma pura sobre a impura
  5. já cá dentro predomina
  6. com sutis pressentimentos;
  7. calca a essência alta e divina
  8. as terrenas sensações.
  9. Oh! que insólitos momentos!
  1. Redimi-me das paixões,
  2. que no âmago consomem
  3. o melhor dos meus dois eus.
  4. Só respiro afecto ao homem;
  5. só respiro afecto a Deus.

( Voltando-se para o cão, que anda desassossegado )

  1. Pára aí, cão! Já basta de corridas.
  2. Que fariscas à porta? Ali tens lume;
  3. vai-te deitar ao pé! Toma, cachorro,
  4. a almofada melhor que tenho em casa.

( Atira-lhe para o pé do fogão a almofada de cima da cadeira em que se costuma sentar )

  1. Já que lá no caminho da montanha
  2. a correr e pular nos divertiste,
  3. hei-de tratar-te bem, se o mereceres.

( Senta-se à mesa, e espevita o candeeiro )

  1. Aqui sim, no meu cantinho
  2. vendo rir-me o candeeiro,
  3. gozo o bem de estar sozinho,
  4. e esquecer o mundo inteiro.
  1. N’esta mansa claridade
  2. reamanhece o coração!
  3. Dentro, há paz, serenidade;
  4. raia luz, fala a razão;
  5. refloresce a esp’rança amante;
  6. e um saudoso instinto envida
  7. em nosso ânimo anelante
  8. o grão Ser, o Autor da vida.

( Uiva o cão )

  1. Não me uives, cão! Tapa essa boca, bruto!
  2. Belo acompanhamento às harmonias
  3. que vão dentro de mim! Costume é de homens
  4. zombar do que transcende a sua esfera;
  5. belo e bom muita vez os incomodam,
  6. por isso rosnam; queres tu, cachorro,
  7. fazer-te igual juiz? rosnar como eles?

( Pausa )

  1. Por demais é cansar-me. O júbilo celeste
  2. foi-se, não volta mais. É força de desgraça,
  3. oh minha alma sedenta, achar no ermo agreste
  4. abundante matriz, entrar a encher a taça,
  5. e cair, sem ter morto o ardor com que vieste!
  6. Comigo é sempre assim. Paciência! O que inda val
  7. como compensação, é esta ânsia inata
  8. que nos ala o querer, do ínfimo escuro val,
  9. às altas regiões, onde a alma se dilata,
  10. em comunicação co’o sobrenatural.
  11. Salve, ó revelação! Teu mais brilhante assento
  12. é o Evangelho Santo, o Novo Testamento.
  13. Cobiço perscrutar o texto primitivo,
  14. e co’a maior lealdade, e o escrúpulo mais vivo,
  15. transplantar, se puder, à locução materna,
  16. à minha língua amada, a augusta frase eterna.

( Abre a Bíblia no Evangelho de S. João )

  1. No princípio era o Verbo . É esta a letra expressa;
  2. aqui está... No sentido é que a razão tropeça.
  3. Como hei-de progredir? há ’í quem tal me aclare?
  4. O Verbo!! Mas o Verbo é coisa inacessível.
  5. Se apurar a razão, talvez se me depare
  6. para o lugar de Verbo um termo inteligível...
  1. Ponho isto: No princípio era o Senso... Cautela
  2. nessa primeira linha; às vezes se atropela
  3. a verdade e a razão co’a rapidez da pena;
  4. pois o Senso faz tudo, e tudo cria e ordena?...
  5. É melhor No princípio era a Potência... Nada!
  6. Contra isto que pus interna voz me brada.
  7. (Sempre a almejar por luz, e sempre escuridão!)
  8. ... Agora é que atinei: No princípio era a acção.

( Voltando-se para o cão )

  1. Entendamo-nos, cão. Se te agrada o meu quarto,
  2. não me tornes a uivar, que já ’stou mais que farto.
  3. Não tolero ao meu lado um atrapalhador.
  4. Desempata: - eu ou tu! - Dei-te abrigo e calor;
  5. sou o teu hospedeiro, e da hospitalidade
  6. não quero as leis quebrar. Tens plena liberdade:
  7. se te agrada sair, bem vês a porta aberta.

( Vai-se o cão transformando, do modo que a fala indica )

  1. Mas... que é isto que observo? Assim se desconcerta
  2. das coisas o teor, o ser da natureza!
  3. Sonho, ou velo?... O meu cão não tinha esta grandeza,
  4. nem este corpanzil. E o súbito denodo
  5. com que se ergueu de um pulo! Isto de todo em todo
  6. não é já cão; os cães não tem esta figura.
  7. Então, que génio mau, que horrenda diabrura
  8. hospedei eu em casa? Ui! como vai crescendo!
  9. Que hipopótamo é este! Horrendo vulto, horrendo!
  10. Vibra chamas do olhar! ameaça co’a dentuça!...
  11. Teu diabólico ser debalde se rebuça;
  12. apanhei-te. Ora espera; e tu verás se o signo
  13. do grande Salomão contra o poder maligno
  14. de vós, relé do inferno, essências vis e imundas,
  15. te não vai atirar de súbito às profundas.

ESPÍRITOS MAUS ((no corredor)

  1. Um de nós lá caiu na esparrela.
  2. Companheiros, cautela, cautela,
  3. não entreis em tal casa. Podemos
  4. cá de fora observar; observemos.
  5. E era um lince do inferno, o coitado
  6. que lá jaz na armadilha atrusado
  7. a tremer como um triste raposo.
  1. Sus, escravos do perro tinhoso,
  2. vogai para cá!
  3. vogai para lá!
  1. Acima e abaixo!
  2. Com isso faredes
  3. que o sócio oprimido
  4. se livre do empacho
  5. das magicas redes.
  6. À obra! Sentido!
  7. Sois-lhes todos devedores
  8. de favores.
  9. De os pagar é vinda a hora.
  10. Ponde-o fora
  11. da prisão que o desalenta.
  12. Leva! Gira! Aferventa! Aferventa!

FAUSTO (abrindo um vade-mecum de magia)

  1. Atiro-me ao bruto; primeiro, co’a fórmula
  2. dos quatro chamada:
  1. «Arda a Salamandra! Retorça-se a Ondina!
  2. «Esvaia-se o Silfo! Da terra na mina
  3. vá Gnomo lidar!»
  4. (Quem não soubesse a fundo os elementos,
  5. o seu poder, as suas qualidades,
  6. por nenhum modo punha leis a génios.)

( Torna-se ao livro )

  1. «Tu, se és Salamandra, salta flamejante!
  2. «Se Ondina, difunde-te em vaga espumante!
  3. «Se és Silfo, em meteoro te exala brilhante!
  4. «Íncubo, Íncubo! acode! Protege a vivenda!
  5. «Sai do chão, sai! Acabe tão longa contenda!»
  6. Nenhum dos quatro é nele; está bem visto.
  7. Nem se ergue, nem se move; olha-me fito,
  8. imóvel que nem órbitas de crânio.
  9. Inda lhe não fiz mossa. Em vão persiste;
  10. a est’outra imprecação não me resiste:

( Voltando ao livro )

  1. És tu do inferno prófugo,
  2. bruto animal?
  3. Então, encara, pícaro,
  4. este sinal
  5. que espanta as negras cáfilas
  6. do antro infernal!

( Continua o bicho a inchar, esconde-se atrás do fogão; cresce até o tamanho de elefante; vai-se ainda desenvolvendo cada vez mais. )

  1. Oh! que balofo inchar! que pelos hirtos!
  2. Podes tu ler, maldito, o ente incriado,
  3. o inefável, o que enche a imensidade,
  4. o que expirou na cruz alanceado,
  5. e redimiu da culpa a humanidade?
  1. Olha aquilo! Emprazado atrás do lume,
  2. cresce, intufa-se; é vulto de elefante.
  3. Mais? enche tudo; em breves audiências,
  4. vêl-o-eis desfeito em névoa.

( Ao bicho )

  1. Não me esbarres
  2. pela abóbada! Aqui! Aqui! Lançar-te
  3. já já aos pés do Mestre! Toma tento,
  4. que eu não ameaço em vão; bem o tens visto.
  5. Tisno-te ao fogo sacro; não te exponhas
  6. ao corisco trisulco! não provoques
  7. das artes em que excedo a mais terrível!

Cena II

FAUSTO, e MEFISTÓFELES, que, dissipada a névoa, sai de trás do fogão, em trajo de estudante em jornada

MEFISTÓFELES

  1. Que berreiro, Senhor! às suas ordens.

FAUSTO

  1. O recheio do cão cifrou-se nisto!
  2. Um viandante escolar! faz rir, faz.

MEFISTÓFELES

  1. Salve,
  2. luzeiro do saber! Fez-me, confesso,
  3. suar a bom suar.

FAUSTO

  1. Como te chamas?

MEFISTÓFELES

  1. Ridícula pergunta para um sábio
  2. que timbra tanto em desprezar palavras,
  3. não pode ver sem tédio as aparências,
  4. e só aspira ao âmago das coisas.

FAUSTO

  1. Dos entes como tu saber-se o nome
  2. (Blasfemo, Tentador, Pai da Mentira)
  3. é para logo conhecer-lhe as manhas.
  4. Quem és pois?

MEFISTÓFELES

  1. Quem eu sou? Parte da força,
  2. que, empenhada no mal, o bem promove.

FAUSTO

  1. Não te percebo o enigma.

MEFISTÓFELES

  1. Sou o espírito
  2. que estorva sempre. E com razão, pois tudo
  3. quanto nasceu merece aniquilado;
  4. portanto era melhor não ter nascido.
  5. Meu elemento é o que chamais vós outros
  6. Destruição, Pecado, o Mal, em suma.

FAUSTO

  1. Dizes que és parte, e eu vejo-te completo!

MEFISTÓFELES

  1. Falo verdade chã. Retro bazófias!
  2. Cada homem (microcosmo de loucuras)
  3. imagina-se um todo; e eu sou, confesso,
  4. parte da parte que era tudo in ovo ;
  5. parte da treva, mãe da luz, sim dessa
  6. vaidosa luz, que à sua mãe pleiteia
  7. foros de universal; por mais que o tente
  8. não lhos há-de usurpar; quem lhe deu posses
  9. para mais que abraçar as superfícies?
  10. penetra num só corpo? (e inumeráveis
  11. são eles) só os tinge e aformosenta;
  12. e o mais pequeno em seu correr a embarga.
  13. Deixál-a; tenho fé que cedo acabe;
  14. se perece a matéria, está perdida.

FAUSTO

  1. Já sei o que és, e qual teu nobre empenho.
  2. Como não podes destruir o todo,
  3. pões-te a tomar desforra em ninharias.

MEFISTÓFELES

  1. Consigo pouco, é certo. O oposto ao Nada ,
  2. o Que quer que é que existe, o mundo bronco,
  3. por mais que em vulnerá-lo me desvele,
  4. fica-me sempre ileso. Em vão lhe arrojo
  5. ondas, procelas, fogos, terremotos;
  6. ao cabo, terra e mar ficam serenos.
  7. Pois a relé nojosa, a corja humana!
  8. Não há meter-lhe dente. Ando, há que tempos,
  9. a matar neles, sem parar na faina,
  10. e a espécie a medrar sempre em sangue, em forças.
  11. É para endoidecer! De ar, água, e terra,
  12. do quente e frio, do húmido e do seco
  13. mil germes brotam... Se não pilho o fogo,
  14. ficava-me sem nada.

FAUSTO

  1. E opões à força
  2. eterno-activa, criadora, amante.
  3. pobre demónio, o punho teu fechado!
  4. Busca outro ofício, aborto vil de caos.

MEFISTÓFELES

  1. Pensarei nisso, e falaremos. Posso
  2. ir-me embora; pois não?

FAUSTO

  1. Pedes-me vénia!
  2. Não te percebo. És livre. Mas, agora
  3. que já sei quem tu és, outorga franca
  4. para me vires ver, quando quiseres.
  5. Aí tens a janela, aqui a porta,
  6. e além a chaminé, que se não fecha.

MEFISTÓFELES

  1. Bom; mas para sair, força é dizê-lo,
  2. acho um certo empecilho: e é ver pintado
  3. no limiar um pé de feiticeira.

FAUSTO

  1. Tens medo ao pentagrama! Essa é bonita!
  2. E quando entraste, diabão do inferno,
  3. emandingou-te acaso? Um génio desses
  4. deixa-se assim lograr?

MEFISTÓFELES

  1. Repare o sábio!
  2. Aquele pentagrama está mal feito.
  3. O ângulo que aponta para a rua
  4. não fechou bem.

FAUSTO

  1. Ditoso acaso. Temos
  2. portanto que estás preso, e eu sou teu dono.
  3. Foi o tal bico-aberto uma fortuna.

MEFISTÓFELES

  1. O cão vinha a correr; não viu a coisa.
  2. Agora é que reparo no busílis.
  3. Não há sair; não há.

FAUSTO

  1. Pela janela.

MEFISTÓFELES

  1. É uma lei de espectros e demónios:
  2. sai-se por onde se entra; à entrada livres,
  3. forçados no sair.

FAUSTO

  1. Regulamentos
  2. até no inferno! Bravo! Então convosco
  3. também, senhores meus, pode haver pactos?

MEFISTÓFELES

  1. Mau é nós prometermos; que faltar-vos
  2. nenhum de nós vos falta; é pagamento
  3. rés-vés; nem meio chavo se lhe sisa.
  4. ... Essas explicações são contos largos;
  5. ficam para outra vez. Agora, peço
  6. co’a maior ânsia, deixe-me ir embora!

FAUSTO

  1. Mais um instante: lê-me a buena-dicha!

MEFISTÓFELES

  1. Basta de me emprazar. Solte-me e breve
  2. há-de tornar-me a ver então prometo
  3. satisfazer-lhe em cheio as veleidades.

FAUSTO

  1. Não te armei laço algum. Se estás na rede,
  2. foi por teu alvedrio. Asno me julgas
  3. que havendo às mãos o demo, o lance a monte,
  4. e que fique boca aberta a ver se torna?

MEFISTÓFELES

  1. Mui bem. Se leva em gosto a convivência,
  2. também eu; já não parto. O que lhe ponho
  3. por condição, é que há-de permitir-me
  4. entretê-lo tão só co’as minhas artes.
  5. É nobre passatempo,

FAUSTO

  1. Assino, pondo
  2. por condição também, que essas tais artes
  3. me possam divertir.

MEFISTÓFELES

  1. Dou-lhe a certeza,
  2. caro amigo e senhor. Vai regalar-se
  3. numa só hora mais que em todo um ano
  4. do seu viver monótono. Os cantares
  5. que se hão-de ouvir a espíritos mimosos,
  6. e as imagens formosas, sedutoras,
  7. que esse coro gentil virá mostrando,
  8. será tudo real, que não prestígios
  9. de nenhuma arte oculta enganadora.
  10. Haverá para o olfacto almas delícias.
  11. Depois para o paladar tão finos gostos
  12. como nunca os provou. Depois volúpias
  13. até às fibras íntimas. À obra!
  14. Tudo é prestes.
  15. Espíritos potentes!
  16. Podeis principiar. Eis-nos presentes.

Cena III

OS MESMOS. Sai do corredor um bando de ESPÍRITOS, cantando

( Ao som dos seguintes cânticos, Fausto, que se havia sentado na sua cadeira, vai a pouco e pouco descaindo no sono )

ESPÍRITOS

  1. Some-te, abóbada
  2. torva e sombria!
  3. Éter cerúleo,
  4. verte a alegria
  5. neste lugar!
  6. As nuvens sumam-se!
  7. Brilhar, cardumes
  8. dos sois noctívagos!
  9. Suaves lumes,
  10. brilhar! brilhar!
  11. Lindezas célicas,
  12. cercai este homem
  13. com danças lânguidas
  14. que todo o tomem
  15. de almo langor.
  1. Co’as vossas túnicas,
  2. lindezas puras,
  3. velai no tácito
  4. das espessuras,
  5. ninhos de amor,
  6. onde, abraçando-se
  7. amantes pares,
  8. mil votos férvidos
  9. mandem aos ares
  10. de amar sem fim.
  11. Como prolíficas
  12. da flor vem flores,
  13. do amor delícias,
  14. - destas amores
  15. brotem assim.
  16. Sus, cachos túrgidos!
  17. Presto aos lagares,
  18. espúmeas púrpuras,
  19. que entre dançares
  20. à luz brotais!
  21. Correi quais Ródanos,
  22. fulgi quais lagos,
  23. espelhos trémulos,
  24. dos cumes vagos,
  25. nus de vinhais!
  26. E vós, ó pássaros,
  27. que irrequietos
  28. sempre andais sôfregos
  29. de haurir afectos,
  30. luz e prazer;
  31. eia, aos céus rútilos
  32. das madrugadas!
  33. Voai às ínsulas
  34. afortunadas,
  35. onde há viver,
  36. torrões fluctívagos
  37. respira em cânticos
  38. de noite e dia,
  39. e onde sem véus
  40. o amor e o júbilo
  41. de mil dançantes,
  42. de horas suavíssimas
  43. fazendo instantes,
  44. relembram céus.
  45. Vão, espairecem-se
  46. pelos oiteiros,
  47. por vales flóridos,
  48. ou nos ribeiros
  49. retoiçam nus.
  50. Vários e unânimes
  51. cada qual mira
  52. a estrela próspera
  53. por quem suspira,
  54. e que o seduz.

MEFISTÓFELES

  1. Adormeceu. Bem haja a criançada aérea,
  2. que assim mo acalentou!

( Apontando para Fausto )

  1. Inda homem não és, vil filho da matéria,
  2. para reteres preso um génio como eu sou.

( Dirige-se aos Espíritos )

  1. De visões mágicas
  2. povoai-lhe os sonhos,
  3. fáceis, risonhos
  4. filhos do ar!
  5. Adormecestes-mo.
  6. Dure profundo
  7. o seu jucundo
  8. feliz sonhar.

( Saem os Espíritos. )

Cena IV

MEFISTÓFELES, FAUSTO adormecido, depois uma ratazana

MEFISTÓFELES

  1. Agora toca a ver se desfazemos
  2. o encalhe da soleira. Quem nos dera
  3. dente de rato aqui!... Pedi-lo e tê-lo,
  4. tudo foi um; já lhe oiço a roedura;
  5. não tarda uma unha negra. Esconjuremo-lo!
  6. «O Senhor dos ratos, murganhos e moscas,
  7. «das rãs, percevejos e mais sevandijas,
  8. «ordena que roas as figuras toscas,
  9. «que ele unta de azeite nestas pedras rijas.

( Sai do buraco uma ratazana, e chega-se à soleira da porta do fundo )

  1. Saiu do buraco; já chega à soleira.
  2. Brio, ratazana, que a obra é só tua!
  3. Rapa do triângulo a ponta cimeira
  4. do degrau na aresta que dá para a rua!
  1. Ali é que o pé do diabo esbarrou.
  2. Mais dois raspõesinhos, e acabas, meu filho.
  3. ... Zan... zan...Belamente. Mil graças te dou.
  4. Podes-te ir embora; desfez-se o empecilho.

( Volta o rato para o buraco )

  1. Sonha, Fausto, sonha, que eu salto a soleira.
  2. Fica-te, meu sábio, e até à primeira.

Cena V

FAUSTO (acordando)

  1. Olé, já outra! pois não seria
  2. tudo isto, e os génios que eu via e ouvia,
  3. mais do que abortos da fantasia?
  4. e o que eu supunha demónio astuto
  5. não passaria de um mero bruto?
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