O anterior camarim de Fausto
389 versos
Cena I
FAUSTO, entrando pela porta do fundo, que deixa aberta, seguido de um grande cão d’água preto
FAUSTO
- Lá deixei planície, prados,
- tristemente sepultados
- na mudez da noite escura.
- A alma pura sobre a impura
- já cá dentro predomina
- com sutis pressentimentos;
- calca a essência alta e divina
- as terrenas sensações.
- Oh! que insólitos momentos!
- Redimi-me das paixões,
- que no âmago consomem
- o melhor dos meus dois eus.
- Só respiro afecto ao homem;
- só respiro afecto a Deus.
( Voltando-se para o cão, que anda desassossegado )
- Pára aí, cão! Já basta de corridas.
- Que fariscas à porta? Ali tens lume;
- vai-te deitar ao pé! Toma, cachorro,
- a almofada melhor que tenho em casa.
( Atira-lhe para o pé do fogão a almofada de cima da cadeira em que se costuma sentar )
- Já que lá no caminho da montanha
- a correr e pular nos divertiste,
- hei-de tratar-te bem, se o mereceres.
( Senta-se à mesa, e espevita o candeeiro )
- Aqui sim, no meu cantinho
- vendo rir-me o candeeiro,
- gozo o bem de estar sozinho,
- e esquecer o mundo inteiro.
- N’esta mansa claridade
- reamanhece o coração!
- Dentro, há paz, serenidade;
- raia luz, fala a razão;
- refloresce a esp’rança amante;
- e um saudoso instinto envida
- em nosso ânimo anelante
- o grão Ser, o Autor da vida.
( Uiva o cão )
- Não me uives, cão! Tapa essa boca, bruto!
- Belo acompanhamento às harmonias
- que vão dentro de mim! Costume é de homens
- zombar do que transcende a sua esfera;
- belo e bom muita vez os incomodam,
- por isso rosnam; queres tu, cachorro,
- fazer-te igual juiz? rosnar como eles?
( Pausa )
- Por demais é cansar-me. O júbilo celeste
- foi-se, não volta mais. É força de desgraça,
- oh minha alma sedenta, achar no ermo agreste
- abundante matriz, entrar a encher a taça,
- e cair, sem ter morto o ardor com que vieste!
- Comigo é sempre assim. Paciência! O que inda val
- como compensação, é esta ânsia inata
- que nos ala o querer, do ínfimo escuro val,
- às altas regiões, onde a alma se dilata,
- em comunicação co’o sobrenatural.
- Salve, ó revelação! Teu mais brilhante assento
- é o Evangelho Santo, o Novo Testamento.
- Cobiço perscrutar o texto primitivo,
- e co’a maior lealdade, e o escrúpulo mais vivo,
- transplantar, se puder, à locução materna,
- à minha língua amada, a augusta frase eterna.
( Abre a Bíblia no Evangelho de S. João )
- No princípio era o Verbo . É esta a letra expressa;
- aqui está... No sentido é que a razão tropeça.
- Como hei-de progredir? há ’í quem tal me aclare?
- O Verbo!! Mas o Verbo é coisa inacessível.
- Se apurar a razão, talvez se me depare
- para o lugar de Verbo um termo inteligível...
- Ponho isto: No princípio era o Senso... Cautela
- nessa primeira linha; às vezes se atropela
- a verdade e a razão co’a rapidez da pena;
- pois o Senso faz tudo, e tudo cria e ordena?...
- É melhor No princípio era a Potência... Nada!
- Contra isto que pus interna voz me brada.
- (Sempre a almejar por luz, e sempre escuridão!)
- ... Agora é que atinei: No princípio era a acção.
( Voltando-se para o cão )
- Entendamo-nos, cão. Se te agrada o meu quarto,
- não me tornes a uivar, que já ’stou mais que farto.
- Não tolero ao meu lado um atrapalhador.
- Desempata: - eu ou tu! - Dei-te abrigo e calor;
- sou o teu hospedeiro, e da hospitalidade
- não quero as leis quebrar. Tens plena liberdade:
- se te agrada sair, bem vês a porta aberta.
( Vai-se o cão transformando, do modo que a fala indica )
- Mas... que é isto que observo? Assim se desconcerta
- das coisas o teor, o ser da natureza!
- Sonho, ou velo?... O meu cão não tinha esta grandeza,
- nem este corpanzil. E o súbito denodo
- com que se ergueu de um pulo! Isto de todo em todo
- não é já cão; os cães não tem esta figura.
- Então, que génio mau, que horrenda diabrura
- hospedei eu em casa? Ui! como vai crescendo!
- Que hipopótamo é este! Horrendo vulto, horrendo!
- Vibra chamas do olhar! ameaça co’a dentuça!...
- Teu diabólico ser debalde se rebuça;
- apanhei-te. Ora espera; e tu verás se o signo
- do grande Salomão contra o poder maligno
- de vós, relé do inferno, essências vis e imundas,
- te não vai atirar de súbito às profundas.
ESPÍRITOS MAUS ((no corredor)
- Um de nós lá caiu na esparrela.
- Companheiros, cautela, cautela,
- não entreis em tal casa. Podemos
- cá de fora observar; observemos.
- E era um lince do inferno, o coitado
- que lá jaz na armadilha atrusado
- a tremer como um triste raposo.
- Sus, escravos do perro tinhoso,
- vogai para cá!
- vogai para lá!
- Acima e abaixo!
- Com isso faredes
- que o sócio oprimido
- se livre do empacho
- das magicas redes.
- À obra! Sentido!
- Sois-lhes todos devedores
- de favores.
- De os pagar é vinda a hora.
- Ponde-o fora
- da prisão que o desalenta.
- Leva! Gira! Aferventa! Aferventa!
FAUSTO (abrindo um vade-mecum de magia)
- Atiro-me ao bruto; primeiro, co’a fórmula
- dos quatro chamada:
- «Arda a Salamandra! Retorça-se a Ondina!
- «Esvaia-se o Silfo! Da terra na mina
- vá Gnomo lidar!»
- (Quem não soubesse a fundo os elementos,
- o seu poder, as suas qualidades,
- por nenhum modo punha leis a génios.)
( Torna-se ao livro )
- «Tu, se és Salamandra, salta flamejante!
- «Se Ondina, difunde-te em vaga espumante!
- «Se és Silfo, em meteoro te exala brilhante!
- «Íncubo, Íncubo! acode! Protege a vivenda!
- «Sai do chão, sai! Acabe tão longa contenda!»
- Nenhum dos quatro é nele; está bem visto.
- Nem se ergue, nem se move; olha-me fito,
- imóvel que nem órbitas de crânio.
- Inda lhe não fiz mossa. Em vão persiste;
- a est’outra imprecação não me resiste:
( Voltando ao livro )
- És tu do inferno prófugo,
- bruto animal?
- Então, encara, pícaro,
- este sinal
- que espanta as negras cáfilas
- do antro infernal!
( Continua o bicho a inchar, esconde-se atrás do fogão; cresce até o tamanho de elefante; vai-se ainda desenvolvendo cada vez mais. )
- Oh! que balofo inchar! que pelos hirtos!
- Podes tu ler, maldito, o ente incriado,
- o inefável, o que enche a imensidade,
- o que expirou na cruz alanceado,
- e redimiu da culpa a humanidade?
- Olha aquilo! Emprazado atrás do lume,
- cresce, intufa-se; é vulto de elefante.
- Mais? enche tudo; em breves audiências,
- vêl-o-eis desfeito em névoa.
( Ao bicho )
- Não me esbarres
- pela abóbada! Aqui! Aqui! Lançar-te
- já já aos pés do Mestre! Toma tento,
- que eu não ameaço em vão; bem o tens visto.
- Tisno-te ao fogo sacro; não te exponhas
- ao corisco trisulco! não provoques
- das artes em que excedo a mais terrível!
Cena II
FAUSTO, e MEFISTÓFELES, que, dissipada a névoa, sai de trás do fogão, em trajo de estudante em jornada
MEFISTÓFELES
- Que berreiro, Senhor! às suas ordens.
FAUSTO
- O recheio do cão cifrou-se nisto!
- Um viandante escolar! faz rir, faz.
MEFISTÓFELES
- Salve,
- luzeiro do saber! Fez-me, confesso,
- suar a bom suar.
FAUSTO
- Como te chamas?
MEFISTÓFELES
- Ridícula pergunta para um sábio
- que timbra tanto em desprezar palavras,
- não pode ver sem tédio as aparências,
- e só aspira ao âmago das coisas.
FAUSTO
- Dos entes como tu saber-se o nome
- (Blasfemo, Tentador, Pai da Mentira)
- é para logo conhecer-lhe as manhas.
- Quem és pois?
MEFISTÓFELES
- Quem eu sou? Parte da força,
- que, empenhada no mal, o bem promove.
FAUSTO
- Não te percebo o enigma.
MEFISTÓFELES
- Sou o espírito
- que estorva sempre. E com razão, pois tudo
- quanto nasceu merece aniquilado;
- portanto era melhor não ter nascido.
- Meu elemento é o que chamais vós outros
- Destruição, Pecado, o Mal, em suma.
FAUSTO
- Dizes que és parte, e eu vejo-te completo!
MEFISTÓFELES
- Falo verdade chã. Retro bazófias!
- Cada homem (microcosmo de loucuras)
- imagina-se um todo; e eu sou, confesso,
- parte da parte que era tudo in ovo ;
- parte da treva, mãe da luz, sim dessa
- vaidosa luz, que à sua mãe pleiteia
- foros de universal; por mais que o tente
- não lhos há-de usurpar; quem lhe deu posses
- para mais que abraçar as superfícies?
- penetra num só corpo? (e inumeráveis
- são eles) só os tinge e aformosenta;
- e o mais pequeno em seu correr a embarga.
- Deixál-a; tenho fé que cedo acabe;
- se perece a matéria, está perdida.
FAUSTO
- Já sei o que és, e qual teu nobre empenho.
- Como não podes destruir o todo,
- pões-te a tomar desforra em ninharias.
MEFISTÓFELES
- Consigo pouco, é certo. O oposto ao Nada ,
- o Que quer que é que existe, o mundo bronco,
- por mais que em vulnerá-lo me desvele,
- fica-me sempre ileso. Em vão lhe arrojo
- ondas, procelas, fogos, terremotos;
- ao cabo, terra e mar ficam serenos.
- Pois a relé nojosa, a corja humana!
- Não há meter-lhe dente. Ando, há que tempos,
- a matar neles, sem parar na faina,
- e a espécie a medrar sempre em sangue, em forças.
- É para endoidecer! De ar, água, e terra,
- do quente e frio, do húmido e do seco
- mil germes brotam... Se não pilho o fogo,
- ficava-me sem nada.
FAUSTO
- E opões à força
- eterno-activa, criadora, amante.
- pobre demónio, o punho teu fechado!
- Busca outro ofício, aborto vil de caos.
MEFISTÓFELES
- Pensarei nisso, e falaremos. Posso
- ir-me embora; pois não?
FAUSTO
- Pedes-me vénia!
- Não te percebo. És livre. Mas, agora
- que já sei quem tu és, outorga franca
- para me vires ver, quando quiseres.
- Aí tens a janela, aqui a porta,
- e além a chaminé, que se não fecha.
MEFISTÓFELES
- Bom; mas para sair, força é dizê-lo,
- acho um certo empecilho: e é ver pintado
- no limiar um pé de feiticeira.
FAUSTO
- Tens medo ao pentagrama! Essa é bonita!
- E quando entraste, diabão do inferno,
- emandingou-te acaso? Um génio desses
- deixa-se assim lograr?
MEFISTÓFELES
- Repare o sábio!
- Aquele pentagrama está mal feito.
- O ângulo que aponta para a rua
- não fechou bem.
FAUSTO
- Ditoso acaso. Temos
- portanto que estás preso, e eu sou teu dono.
- Foi o tal bico-aberto uma fortuna.
MEFISTÓFELES
- O cão vinha a correr; não viu a coisa.
- Agora é que reparo no busílis.
- Não há sair; não há.
FAUSTO
- Pela janela.
MEFISTÓFELES
- É uma lei de espectros e demónios:
- sai-se por onde se entra; à entrada livres,
- forçados no sair.
FAUSTO
- Regulamentos
- até no inferno! Bravo! Então convosco
- também, senhores meus, pode haver pactos?
MEFISTÓFELES
- Mau é nós prometermos; que faltar-vos
- nenhum de nós vos falta; é pagamento
- rés-vés; nem meio chavo se lhe sisa.
- ... Essas explicações são contos largos;
- ficam para outra vez. Agora, peço
- co’a maior ânsia, deixe-me ir embora!
FAUSTO
- Mais um instante: lê-me a buena-dicha!
MEFISTÓFELES
- Basta de me emprazar. Solte-me e breve
- há-de tornar-me a ver então prometo
- satisfazer-lhe em cheio as veleidades.
FAUSTO
- Não te armei laço algum. Se estás na rede,
- foi por teu alvedrio. Asno me julgas
- que havendo às mãos o demo, o lance a monte,
- e que fique boca aberta a ver se torna?
MEFISTÓFELES
- Mui bem. Se leva em gosto a convivência,
- também eu; já não parto. O que lhe ponho
- por condição, é que há-de permitir-me
- entretê-lo tão só co’as minhas artes.
- É nobre passatempo,
FAUSTO
- Assino, pondo
- por condição também, que essas tais artes
- me possam divertir.
MEFISTÓFELES
- Dou-lhe a certeza,
- caro amigo e senhor. Vai regalar-se
- numa só hora mais que em todo um ano
- do seu viver monótono. Os cantares
- que se hão-de ouvir a espíritos mimosos,
- e as imagens formosas, sedutoras,
- que esse coro gentil virá mostrando,
- será tudo real, que não prestígios
- de nenhuma arte oculta enganadora.
- Haverá para o olfacto almas delícias.
- Depois para o paladar tão finos gostos
- como nunca os provou. Depois volúpias
- até às fibras íntimas. À obra!
- Tudo é prestes.
- Espíritos potentes!
- Podeis principiar. Eis-nos presentes.
Cena III
OS MESMOS. Sai do corredor um bando de ESPÍRITOS, cantando
( Ao som dos seguintes cânticos, Fausto, que se havia sentado na sua cadeira, vai a pouco e pouco descaindo no sono )
ESPÍRITOS
- Some-te, abóbada
- torva e sombria!
- Éter cerúleo,
- verte a alegria
- neste lugar!
- As nuvens sumam-se!
- Brilhar, cardumes
- dos sois noctívagos!
- Suaves lumes,
- brilhar! brilhar!
- Lindezas célicas,
- cercai este homem
- com danças lânguidas
- que todo o tomem
- de almo langor.
- Co’as vossas túnicas,
- lindezas puras,
- velai no tácito
- das espessuras,
- ninhos de amor,
- onde, abraçando-se
- amantes pares,
- mil votos férvidos
- mandem aos ares
- de amar sem fim.
- Como prolíficas
- da flor vem flores,
- do amor delícias,
- - destas amores
- brotem assim.
- Sus, cachos túrgidos!
- Presto aos lagares,
- espúmeas púrpuras,
- que entre dançares
- à luz brotais!
- Correi quais Ródanos,
- fulgi quais lagos,
- espelhos trémulos,
- dos cumes vagos,
- nus de vinhais!
- E vós, ó pássaros,
- que irrequietos
- sempre andais sôfregos
- de haurir afectos,
- luz e prazer;
- eia, aos céus rútilos
- das madrugadas!
- Voai às ínsulas
- afortunadas,
- onde há viver,
- torrões fluctívagos
- respira em cânticos
- de noite e dia,
- e onde sem véus
- o amor e o júbilo
- de mil dançantes,
- de horas suavíssimas
- fazendo instantes,
- relembram céus.
- Vão, espairecem-se
- pelos oiteiros,
- por vales flóridos,
- ou nos ribeiros
- retoiçam nus.
- Vários e unânimes
- cada qual mira
- a estrela próspera
- por quem suspira,
- e que o seduz.
MEFISTÓFELES
- Adormeceu. Bem haja a criançada aérea,
- que assim mo acalentou!
( Apontando para Fausto )
- Inda homem não és, vil filho da matéria,
- para reteres preso um génio como eu sou.
( Dirige-se aos Espíritos )
- De visões mágicas
- povoai-lhe os sonhos,
- fáceis, risonhos
- filhos do ar!
- Adormecestes-mo.
- Dure profundo
- o seu jucundo
- feliz sonhar.
( Saem os Espíritos. )
Cena IV
MEFISTÓFELES, FAUSTO adormecido, depois uma ratazana
MEFISTÓFELES
- Agora toca a ver se desfazemos
- o encalhe da soleira. Quem nos dera
- dente de rato aqui!... Pedi-lo e tê-lo,
- tudo foi um; já lhe oiço a roedura;
- não tarda uma unha negra. Esconjuremo-lo!
- «O Senhor dos ratos, murganhos e moscas,
- «das rãs, percevejos e mais sevandijas,
- «ordena que roas as figuras toscas,
- «que ele unta de azeite nestas pedras rijas.
( Sai do buraco uma ratazana, e chega-se à soleira da porta do fundo )
- Saiu do buraco; já chega à soleira.
- Brio, ratazana, que a obra é só tua!
- Rapa do triângulo a ponta cimeira
- do degrau na aresta que dá para a rua!
- Ali é que o pé do diabo esbarrou.
- Mais dois raspõesinhos, e acabas, meu filho.
- ... Zan... zan...Belamente. Mil graças te dou.
- Podes-te ir embora; desfez-se o empecilho.
( Volta o rato para o buraco )
- Sonha, Fausto, sonha, que eu salto a soleira.
- Fica-te, meu sábio, e até à primeira.
Cena V
FAUSTO (acordando)
- Olé, já outra! pois não seria
- tudo isto, e os génios que eu via e ouvia,
- mais do que abortos da fantasia?
- e o que eu supunha demónio astuto
- não passaria de um mero bruto?