Um chafariz
60 versos
Cena I
MARGARIDA e LUISINHA, com os seus cântaros
LUISINHA
- E a Bárbara? que tal! sabes?
MARGARIDA
- Eu não: a gente
- vive tão retirada!
LUISINHA
- A Beatriz não mente;
- foi ela que mo disse. A sonsa, a delambida,
- tão cheia de fidúcia, aí ’stá também caída!
MARGARIDA
- A Bárbara! ó mulher, explica-te! A pequena
- que é que fez?
LUISINHA
- Mete nojo. Era tão açucena,
- e agora...
MARGARIDA
- Agora o quê, Luisinha?
LUISINHA
- Agora come
- e bebe para dois, senão morria à fome.
MARGARIDA
- Credo!
LUISINHA
- Foi um castigo. Aquilo tinha jeito?
- Sempre como carraça agarrada ao sujeito
- em passeios ao campo, em dançarás, tratada
- com bom doce e bom vinho, e toda empantufada
- nem que fora fidalga. E então de boniteza
- presunção até ali! Pois, com ser tão princesa,
- chegou c’oa desvergonha até a aceitar mimos!
- Tais princípios, tais fins; nós sempre o presumimos.
- Do obséquio ao galanteio, um passo; do namoro,
- outro ao atrevimento; e meio ao desaforo.
- Assim é que a florinha, em breves audiências,
- fez víspere; entendeste? Aí tens as consequências.
MARGARIDA
- Coitadinha!
LUISINHA
- Ah! tens dó? e eu não. A gente à roca
- empregada a engordar a sua maçaroca
- num quartinho fechado, e a mãe por sentinela;
- e ela... imagina bem como era o serão dela!
- No corredor escuro, ali ao pé da entrada,
- co’o chichisbéu no banco em paz repetenada
- horas e horas; que admira? o relógio aos amantes
- faz de um dia uma hora, e de uma hora instantes.
- Agora há-de pagar (e tenha paciência);
- há-de à porta da Igreja ir fazer penitência,
- beijar aquele chão, de vaso e dó trajada,
- e servir de desprezo à gente recatada.
MARGARIDA
- Ele há-de-a receber de certo por mulher.
LUISINHA
- Espera lá por isso! ele é parvo? ele quer
- levar fruta do chão, um rapaz como um maço?
- Para se divertir acha-as a cada passo.
- De mais a mais, que é dele? onde estará já agora,
- se bem andar?
MARGARIDA
- Fugiu?!
LUISINHA
- Logrou-a, e foi-se embora.
MARGARIDA
- Jesus, que acção tão feia!
LUISINHA
- Inda que ele tornasse
- e a recebesse a ela, os gostos desse enlace,
- Deus me livre de os ter: vinha a rapaziada
- arrancar da cabeça a c’roa à desposada,
- e nós à porta dela havíamos de ir todas
- lançar palha picada. Olha que lindas bodas!
( Põe o cântaro à cabeça e parte. )
Cena II
( Tomando também da fonte o seu cântaro, e partindo-se com ele para casa, em direcção diversa da de Luisinha )
MARGARIDA (só)
- Também eu no meu tempo, em vendo moça errada,
- logo a punha por monstro: a língua era uma espada,
- e feita eu própria ré de atroz descaridade
- benzia-me, e ficava impando de vaidade!...
- E hoje... incursa no mesmo!!
( Após alguns momentos )
- Oh! Deus! mas quem podia livrar-se de um prazer, que as pedras fundiria?