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FaustoQuadro XVII
QuadroXVII

Um chafariz

60 versos


Cena I

MARGARIDA e LUISINHA, com os seus cântaros

LUISINHA

  1. E a Bárbara? que tal! sabes?

MARGARIDA

  1. Eu não: a gente
  2. vive tão retirada!

LUISINHA

  1. A Beatriz não mente;
  2. foi ela que mo disse. A sonsa, a delambida,
  3. tão cheia de fidúcia, aí ’stá também caída!

MARGARIDA

  1. A Bárbara! ó mulher, explica-te! A pequena
  2. que é que fez?

LUISINHA

  1. Mete nojo. Era tão açucena,
  2. e agora...

MARGARIDA

  1. Agora o quê, Luisinha?

LUISINHA

  1. Agora come
  2. e bebe para dois, senão morria à fome.

MARGARIDA

  1. Credo!

LUISINHA

  1. Foi um castigo. Aquilo tinha jeito?
  2. Sempre como carraça agarrada ao sujeito
  3. em passeios ao campo, em dançarás, tratada
  4. com bom doce e bom vinho, e toda empantufada
  5. nem que fora fidalga. E então de boniteza
  6. presunção até ali! Pois, com ser tão princesa,
  7. chegou c’oa desvergonha até a aceitar mimos!
  8. Tais princípios, tais fins; nós sempre o presumimos.
  9. Do obséquio ao galanteio, um passo; do namoro,
  10. outro ao atrevimento; e meio ao desaforo.
  11. Assim é que a florinha, em breves audiências,
  12. fez víspere; entendeste? Aí tens as consequências.

MARGARIDA

  1. Coitadinha!

LUISINHA

  1. Ah! tens dó? e eu não. A gente à roca
  2. empregada a engordar a sua maçaroca
  3. num quartinho fechado, e a mãe por sentinela;
  4. e ela... imagina bem como era o serão dela!
  5. No corredor escuro, ali ao pé da entrada,
  6. co’o chichisbéu no banco em paz repetenada
  7. horas e horas; que admira? o relógio aos amantes
  8. faz de um dia uma hora, e de uma hora instantes.
  1. Agora há-de pagar (e tenha paciência);
  2. há-de à porta da Igreja ir fazer penitência,
  3. beijar aquele chão, de vaso e dó trajada,
  4. e servir de desprezo à gente recatada.

MARGARIDA

  1. Ele há-de-a receber de certo por mulher.

LUISINHA

  1. Espera lá por isso! ele é parvo? ele quer
  2. levar fruta do chão, um rapaz como um maço?
  3. Para se divertir acha-as a cada passo.
  4. De mais a mais, que é dele? onde estará já agora,
  5. se bem andar?

MARGARIDA

  1. Fugiu?!

LUISINHA

  1. Logrou-a, e foi-se embora.

MARGARIDA

  1. Jesus, que acção tão feia!

LUISINHA

  1. Inda que ele tornasse
  2. e a recebesse a ela, os gostos desse enlace,
  3. Deus me livre de os ter: vinha a rapaziada
  4. arrancar da cabeça a c’roa à desposada,
  5. e nós à porta dela havíamos de ir todas
  6. lançar palha picada. Olha que lindas bodas!

( Põe o cântaro à cabeça e parte. )

Cena II

( Tomando também da fonte o seu cântaro, e partindo-se com ele para casa, em direcção diversa da de Luisinha )

MARGARIDA (só)

  1. Também eu no meu tempo, em vendo moça errada,
  2. logo a punha por monstro: a língua era uma espada,
  3. e feita eu própria ré de atroz descaridade
  4. benzia-me, e ficava impando de vaidade!...
  5. E hoje... incursa no mesmo!!

( Após alguns momentos )

  1. Oh! Deus! mas quem podia livrar-se de um prazer, que as pedras fundiria?
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