Casa da vizinha Marta. Quarto pobre. Porta ao fundo, entre duas janelas cortinadas. Cadeir
250 versos
Cena I
MARTA (só)
- Valha-te Deus, marido! Ires-te assim à tuna
- pelo mundo de Cristo à cata da fortuna,
- e deixares-me aqui em frio celibato,
- tristinha, muda, e só, nas palhas de um grabato!
- E então porquê? porquê? Dei-lhe eu razão de queixa?
- Não lhe quis sempre tanto?
( Desata a chorar )
- E ele não só me deixa,
- senão que nem me escreve, a dar-me algum conforto,
- por modo que nem sei se é vivo ou se está morto.
- Se me tivera vindo ao menos certidão
- de estar já com o Senhor...!
Cena II
MARTA, e MARGARIDA, que entra azafamada com um cofre escondido
MARGARIDA
- Pode-se entrar?
MARTA
- Pois não!
MARGARIDA
- Venho fora de mim, Senhora Marta!
MARTA
- O que é,
- menina? que tens tu?
MARGARIDA
- Mal posso ter-me em pé.
MARTA
- Pois senta-te!
( Margarida senta-se )
- Que tens? que foi?
MARGARIDA
- No guarda-fato
- outro cofre. Este agora é de ébano. O aparato
- das jóias que ele encerra é tal, que em brilho e preço
- deixa a perder de vista o primeiro adereço.
MARTA
- Agora desta vez cautela e mais cautela!
- Tua mãe que o não sonhe! A beatice dela
- já tu viste onde chega. O confessor matreiro
- fazia deste achado o que fez do primeiro.
MARGARIDA (abrindo no regaço o cofre, e tirando de dentro um afogador de brilhantes)
- Veja só isto, veja, e diga-me...
MARTA (que à proporção que fala, vai enfeitando Margarida com as jóias, enquanto esta se está narcisando ao espelho)
- O que eu digo,
- Margaridinha, é só que à fé que anda contigo
- fada de bom condão.
MARGARIDA
- Pois sim, mas que me presta
- possuir estes dons? Numa ocasião de festa
- eu não os posso pôr, nem ir com isto à rua.
MARTA
- Que importa? Nesta casa estás como na tua.
- Podes vir para cá as vezes que te agrade;
- fechamo-nos por dentro; estás em liberdade;
- pões em cima de ti as tuas jóias ricas;
- e o espelho te dirá que linda que não ficas,
- passeando a espanejar-te uma hora, se quiseres,
- vendo-te nele a flor e a inveja das mulheres.
- Muito hemos de folgar; verás. Depois, lá vem
- certas ocasiões em que parece bem
- pôr mais um dixezinho, agora uma corrente,
- depois uns brincos bons, sem que se espante a gente.
- A pouco e pouco assim, todos os teus asseios
- irão saindo à praça. E rir de vãos receios!
- Lá enquanto à mãezinha, adeus; tão enlevada
- vive nas orações, que não repara em nada.
- E também que repare, embutes-lhe uma peta.
MARGARIDA
- Mas quem poria lá no armário esta boceta,
- e já também a outra? Aqui anda bruxedo,
- por força, e não dos bons. Eu fino-me de medo.
( Batem à porta. Margarida estremece. )
- Jesus! Se é minha mãe:
MARTA (levantando a cortina da janela, e olhando para fora)
- É um desconhecido.
( Vai à porta e abre )
- Pode entrar.
Cena III
MEFISTÓFELES, e as ditas
MEFISTÓFELES
- Co’o respeito a damas tais devido
- peço humilde perdão desta importunidade.
( Inclina-se respeitosamente diante de Margarida. )
- Saber-me-iam dizer onde é, nesta cidade
- que assiste, e daqui perto, uma senhora Marta,
- mulher de um Espadinha?
MARTA
- A própria. Se traz carta
- do meu homem, sou eu.
MEFISTÓFELES (baixo a Marta)
- Bem. Visto achar-se agora
- aqui esta fidalga, à tarde a qualquer hora
- eu voltarei.
MARTA (em voz alta)
- Não vês, Menina, as honrarias,
- que deves ao Senhor? «Fidalga!» Não sabias.
MARGARIDA
- Não passo, meu senhor, de uma pobre de Cristo.
- Isso é bondade sua! Eu fidalga? Por isto?
( Apontando para os adereços )
- Mas nada disto é meu.
MEFISTÓFELES
- Que importa? que valia
- tem junto a graças tais o oiro e a pedraria?
- Pois esse olhar tão nobre! e a senhoril presença!
- o tudo que a distingue... Encanta-me a licença
- de poder demorar-me.
MARTA
- Então que novidade
- me traz? mate depressa esta curiosidade!
MEFISTÓFELES
- Quisera-lhe trazer melhores novidades.
- O seu homem morreu, e manda-lhe saudades.
MARTA
- Morreu! Bem mo dizia o coração. Morreu
- o meu homem! Jesus, que desamparo o meu!
- Vou ter um faniquito.
MARGARIDA (a Marta)
- Anime-se, vizinha!
- Conforme-se!
MEFISTÓFELES
- Já agora, a senhora Espadinha
- há-de ouvir toda a história.
MARGARIDA
- Aí tem porque eu nem quero
- ouvir falar de amor; um golpe assim tão fero
- dava-me logo a morte.
MEFISTÓFELES
- É mundo: às alegrias
- juntam-se as aflições, e o gosto às agonias.
MARTA
- E o seu fim como foi?
MEFISTÓFELES
- Jaz em Pádua enterrado
- ao pé de Santo António; um sítio abençoado;
- cama fresquinha e eterna.
MARTA
- E vamos: além disso
- que mais me traz?
MEFISTÓFELES
- Mais nada... Ah, sim; pede um serviço
- custoso, mas enfim muitíssimo preciso;
- que lhe mande dizer pela alma, e de improviso,
- trezentas missas. Nada e nada mais. Tão pobre
- morreu, que não deixou nem meio chavo em cobre.
MARTA
- O quê! pois nada nada! inteiramente nada!
- Pois nem uma prendinha! Até um jornaleiro
- tem sempre no bornal coisa que val dinheiro,
- e não se desfaz dela, inda que peça esmola
- para matar a fome.
MEFISTÓFELES
- É certo; desconsola
- ouvir tamanha míngua; o que eu porém lhe atesto
- é que, se consumiu até o último resto,
- não foi por perdulário; e fique persuadida
- que se arrependeu muito, ao despedir da vida.
- Fazia uns escarcéus sobre a sua desgraça,
- que abria os corações.
MARTA
- Que desditosa raça
- não deixou a mãe Eva! O que eu prometo, amiga,
- é rezar-lhe por alma.
MEFISTÓFELES (a Margarida)
- Eu, deixe que lho diga,
- acho que uma gentil de tanta formosura
- devia já pôr casa.
MARGARIDA
- Inda não há marido.
MEFISTÓFELES
- Mas pode haver amante. O moço mais garrido,
- mais amável, mais bom, dar-se-ia por ditoso
- se chegasse a abraçar corpinho tão mimoso.
MARGARIDA
- Isso cá não é uso.
MEFISTÓFELES
- Uso ou não uso, queira
- e arranja-se.
MARTA (a Mefistófeles)
- Que mais? Porque me não inteira
- de tudo, já que o sabe?
MEFISTÓFELES
- Ai, sei; pois se eu me achava
- em pé, junto da cama onde ele agonizava!
- (No chamar cama àquilo, amoldo-me ao costume;
- era um retraço podre, até pior que estrume.)
- Porém lá que morreu morte cristã, morreu;
- pensando mesmo assim que o grande rol que encheu
- de pecados por cá talvez no grande dia
- à entrada para o céu muito o atrapalharia.
- «- Hoje me quero mal - dizia - pela asneira
- de ter desamparado a minha companheira
- e o meu riquinho ofício. É esta uma lembrança,
- que dá cabo de mim. Vá; veja-me se a amansa,
- para que me perdoe.»
MARTA (interrompe-o, chorando)
- Há muito, coitadinho,
- que eu, já lhe perdoei.
MEFISTÓFELES (continuando a frase)
- «Mas se eu lhe fui daninho,
- Nosso Senhor bem sabe o que ela também era.»
MARTA
- Mente, mente. Olha aquilo! A Morte ali à espera
- e ele ainda a mentir!
MEFISTÓFELES
- Oiço que na agonia
- muita gente de tino às vezes tresvaria
- (que eu disso entendo pouco). E prosseguiu choroso:
- - «Toda a vida a lidar sem hora de repouso,
- e vir a parar nisto! Eu a engendrar-lhe filhos
- por lhe dar gosto a ela! Entre esses empecilhos,
- eu a arranjar-lhe o pão... o pão, à própria o digo,
- pão negro sem conduto; eu, cruzes, inimigo!
- rilhando o meu motreco, às vezes sem sossego...»
MARTA (interrompendo)
- E nada de falar do meu desassossego,
- da honra da mulher, do amor que ela lhe tinha!
MEFISTÓFELES
- Ai! falava; pois não? Da senhora Espadinha
- nunca se deslembrou. - «Quando saí de Malta
- - tartameleava-me ele - há-de crer que me assalta
- uma saudade tal dela e dos pequerruchos,
- que não só desatei dos olhos dois repuxos,
- senão que até rezei com entranhada gana
- por toda aquela súcia! O céu, que não se engana,
- pagou-me a devoção. Permitiu Deus aos nossos
- prear uma galé de mercadores grossos,
- todos relé turquesca, a qual galé levava
- de mimo ao Grão Senhor, além de muita escrava
- de rara formosura, uma carga, um tesoiro
- de armas, de gorgorões, de pérolas, e de oiro.
- Lançada ao mar primeiro a moirisma vencida,
- o nosso capitão, da carga ali colhida
- talhou logo quinhões, que deu proporcionados
- aos que na sarrafusca andaram mais ousados,
- proclamando: - O Espadinha é que foi o primeiro!
- (era um pirata honrado, e amigo verdadeiro).» -
MARTA (interrompendo)
- Espere! mas então... esse lote de vulto
- havia de ficar nalguma parte oculto.
MEFISTÓFELES
- Pois não? procure bem; nem rasto. Se avarentos
- enterram, este cá foi por ares e ventos.
- Em Nápoles, um dia, andando seu marido,
- como estrangeiro que era, a correr divertido
- as ruas da cidade, adergou que uma bela
- o pescasse ao anzol de cima da janela;
- e tanto gostou dele (era um ricaço ainda),
- tais provas lhe embutiu a pescadora linda
- do seu íntimo ardor, que as teve, até o instante
- do trânsito feliz, a recordar-lhe a amante.
MARTA
- Ladrão dos filhos! traste! A gente cá ralada,
- e ele às soltas por lá naquela vida airada!
MEFISTÓFELES
- Aí tem; por isso jaz debaixo dos torrões.
- Eu, se fosse a senhora, atirava paixões
- p’ra trás das costas; punha um lutozinho d’ano,
- por decência, e entretanto ia-me piano piano
- buscando outra fortuna.
MARTA
- Outro como o primeiro!
- Nem correndo co’um prego aceso o mundo inteiro
- não o torno eu achar. Gaiato mais amável!
- O que ele tinha só de menos convinhável
- era o nunca parar; fazer seu pé d’alferes
- à solteira, à casada, a todas as mulheres;
- gostar dos vinhos bons das terras lá de fora,
- e do maldito jogo...
MEFISTÓFELES
- E mesmo assim deplora
- não no ter; vamos lá. Falando sem disfarce:
- ou ambos ou nenhum tem causa de queixar-se.
- Ele fez-lhe o que pôde; a senhora igualmente
- fez-lhe o que pôde a ele; a conta está corrente.
- Com semelhante ajuste, eu próprio aceitaria
- matrimoniar-me já.
MARTA
- Quem? O senhor! Não ria.
MEFISTÓFELES (lá de si para si)
- Ai! fujo. Esta é capaz de obrigar o demónio
- a restaurar com ela o santo matrimonio.
( A Margarida )
- E a menina! Que diz esse coraçãozinho?
MARGARIDA
- Sobre quê? não percebo.
MEFISTÓFELES (à parte)
- Imaculado arminho!
( Despedindo-se )
- Minhas senhoras!
MARTA
- Sai?
MARGARIDA (cumprimentando)
- Meu senhor!
MARTA
- Um momento,
- nada mais. Poderia obter-me um documento
- do quando, como, e onde, o meu consorte amado
- faleceu, e onde jaz? Fui sempre, Deus louvado,
- muito amiga do arranjo. Até cá no Diário
- muito estimava eu ler entre o noticiário
- a morte do meu tudo.
MEFISTÓFELES
- Esteja descansada;
- isso há-de-se arranjar, e sem lhe custar nada.
- Em qualquer terra, havendo um par de testemunhas
- fidedignas (e embora a gente lhe unte a unhas)
- prova-se logo tudo. Em minha companhia
- veio outro figurão que muito o conhecia.
- Vai comigo ao juiz, depõe... Se determina
- que o traga também cá...
MARTA
- Pois não!
MEFISTÓFELES
- E esta menina
- também cá se há-de achar; não há-de? É um moço belo,
- tem visto muito mundo, e não no há mais modelo
- em pontos da galã.
MARGARIDA
- Jesus! Um tal senhor
- ver-me a mim... que vergonha!
MEFISTÓFELES
- Um Rei, e Imperador
- do mundo que ele fosse, afoita deveria
- olhá-lo sem corar.
MARTA
- Ao despedir do dia,
- no quintal junto à casa, há-de ela estar comigo
- à espera do senhor e do seu nobre amigo.