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FaustoQuadro XI
QuadroXI

Casa da vizinha Marta. Quarto pobre. Porta ao fundo, entre duas janelas cortinadas. Cadeir

250 versos


Cena I

MARTA (só)

  1. Valha-te Deus, marido! Ires-te assim à tuna
  2. pelo mundo de Cristo à cata da fortuna,
  3. e deixares-me aqui em frio celibato,
  4. tristinha, muda, e só, nas palhas de um grabato!
  5. E então porquê? porquê? Dei-lhe eu razão de queixa?
  6. Não lhe quis sempre tanto?

( Desata a chorar )

  1. E ele não só me deixa,
  2. senão que nem me escreve, a dar-me algum conforto,
  3. por modo que nem sei se é vivo ou se está morto.
  4. Se me tivera vindo ao menos certidão
  5. de estar já com o Senhor...!

Cena II

MARTA, e MARGARIDA, que entra azafamada com um cofre escondido

MARGARIDA

  1. Pode-se entrar?

MARTA

  1. Pois não!

MARGARIDA

  1. Venho fora de mim, Senhora Marta!

MARTA

  1. O que é,
  2. menina? que tens tu?

MARGARIDA

  1. Mal posso ter-me em pé.

MARTA

  1. Pois senta-te!

( Margarida senta-se )

  1. Que tens? que foi?

MARGARIDA

  1. No guarda-fato
  2. outro cofre. Este agora é de ébano. O aparato
  3. das jóias que ele encerra é tal, que em brilho e preço
  4. deixa a perder de vista o primeiro adereço.

MARTA

  1. Agora desta vez cautela e mais cautela!
  2. Tua mãe que o não sonhe! A beatice dela
  3. já tu viste onde chega. O confessor matreiro
  4. fazia deste achado o que fez do primeiro.

MARGARIDA (abrindo no regaço o cofre, e tirando de dentro um afogador de brilhantes)

  1. Veja só isto, veja, e diga-me...

MARTA (que à proporção que fala, vai enfeitando Margarida com as jóias, enquanto esta se está narcisando ao espelho)

  1. O que eu digo,
  2. Margaridinha, é só que à fé que anda contigo
  3. fada de bom condão.

MARGARIDA

  1. Pois sim, mas que me presta
  2. possuir estes dons? Numa ocasião de festa
  3. eu não os posso pôr, nem ir com isto à rua.

MARTA

  1. Que importa? Nesta casa estás como na tua.
  2. Podes vir para cá as vezes que te agrade;
  3. fechamo-nos por dentro; estás em liberdade;
  4. pões em cima de ti as tuas jóias ricas;
  5. e o espelho te dirá que linda que não ficas,
  6. passeando a espanejar-te uma hora, se quiseres,
  7. vendo-te nele a flor e a inveja das mulheres.
  8. Muito hemos de folgar; verás. Depois, lá vem
  9. certas ocasiões em que parece bem
  10. pôr mais um dixezinho, agora uma corrente,
  11. depois uns brincos bons, sem que se espante a gente.
  12. A pouco e pouco assim, todos os teus asseios
  13. irão saindo à praça. E rir de vãos receios!
  14. Lá enquanto à mãezinha, adeus; tão enlevada
  15. vive nas orações, que não repara em nada.
  16. E também que repare, embutes-lhe uma peta.

MARGARIDA

  1. Mas quem poria lá no armário esta boceta,
  2. e já também a outra? Aqui anda bruxedo,
  3. por força, e não dos bons. Eu fino-me de medo.

( Batem à porta. Margarida estremece. )

  1. Jesus! Se é minha mãe:

MARTA (levantando a cortina da janela, e olhando para fora)

  1. É um desconhecido.

( Vai à porta e abre )

  1. Pode entrar.

Cena III

MEFISTÓFELES, e as ditas

MEFISTÓFELES

  1. Co’o respeito a damas tais devido
  2. peço humilde perdão desta importunidade.

( Inclina-se respeitosamente diante de Margarida. )

  1. Saber-me-iam dizer onde é, nesta cidade
  2. que assiste, e daqui perto, uma senhora Marta,
  3. mulher de um Espadinha?

MARTA

  1. A própria. Se traz carta
  2. do meu homem, sou eu.

MEFISTÓFELES (baixo a Marta)

  1. Bem. Visto achar-se agora
  2. aqui esta fidalga, à tarde a qualquer hora
  3. eu voltarei.

MARTA (em voz alta)

  1. Não vês, Menina, as honrarias,
  2. que deves ao Senhor? «Fidalga!» Não sabias.

MARGARIDA

  1. Não passo, meu senhor, de uma pobre de Cristo.
  2. Isso é bondade sua! Eu fidalga? Por isto?

( Apontando para os adereços )

  1. Mas nada disto é meu.

MEFISTÓFELES

  1. Que importa? que valia
  2. tem junto a graças tais o oiro e a pedraria?
  3. Pois esse olhar tão nobre! e a senhoril presença!
  4. o tudo que a distingue... Encanta-me a licença
  5. de poder demorar-me.

MARTA

  1. Então que novidade
  2. me traz? mate depressa esta curiosidade!

MEFISTÓFELES

  1. Quisera-lhe trazer melhores novidades.
  2. O seu homem morreu, e manda-lhe saudades.

MARTA

  1. Morreu! Bem mo dizia o coração. Morreu
  2. o meu homem! Jesus, que desamparo o meu!
  3. Vou ter um faniquito.

MARGARIDA (a Marta)

  1. Anime-se, vizinha!
  2. Conforme-se!

MEFISTÓFELES

  1. Já agora, a senhora Espadinha
  2. há-de ouvir toda a história.

MARGARIDA

  1. Aí tem porque eu nem quero
  2. ouvir falar de amor; um golpe assim tão fero
  3. dava-me logo a morte.

MEFISTÓFELES

  1. É mundo: às alegrias
  2. juntam-se as aflições, e o gosto às agonias.

MARTA

  1. E o seu fim como foi?

MEFISTÓFELES

  1. Jaz em Pádua enterrado
  2. ao pé de Santo António; um sítio abençoado;
  3. cama fresquinha e eterna.

MARTA

  1. E vamos: além disso
  2. que mais me traz?

MEFISTÓFELES

  1. Mais nada... Ah, sim; pede um serviço
  2. custoso, mas enfim muitíssimo preciso;
  3. que lhe mande dizer pela alma, e de improviso,
  4. trezentas missas. Nada e nada mais. Tão pobre
  5. morreu, que não deixou nem meio chavo em cobre.

MARTA

  1. O quê! pois nada nada! inteiramente nada!
  2. Pois nem uma prendinha! Até um jornaleiro
  3. tem sempre no bornal coisa que val dinheiro,
  4. e não se desfaz dela, inda que peça esmola
  5. para matar a fome.

MEFISTÓFELES

  1. É certo; desconsola
  2. ouvir tamanha míngua; o que eu porém lhe atesto
  3. é que, se consumiu até o último resto,
  4. não foi por perdulário; e fique persuadida
  5. que se arrependeu muito, ao despedir da vida.
  6. Fazia uns escarcéus sobre a sua desgraça,
  7. que abria os corações.

MARTA

  1. Que desditosa raça
  2. não deixou a mãe Eva! O que eu prometo, amiga,
  3. é rezar-lhe por alma.

MEFISTÓFELES (a Margarida)

  1. Eu, deixe que lho diga,
  2. acho que uma gentil de tanta formosura
  3. devia já pôr casa.

MARGARIDA

  1. Inda não há marido.

MEFISTÓFELES

  1. Mas pode haver amante. O moço mais garrido,
  2. mais amável, mais bom, dar-se-ia por ditoso
  3. se chegasse a abraçar corpinho tão mimoso.

MARGARIDA

  1. Isso cá não é uso.

MEFISTÓFELES

  1. Uso ou não uso, queira
  2. e arranja-se.

MARTA (a Mefistófeles)

  1. Que mais? Porque me não inteira
  2. de tudo, já que o sabe?

MEFISTÓFELES

  1. Ai, sei; pois se eu me achava
  2. em pé, junto da cama onde ele agonizava!
  3. (No chamar cama àquilo, amoldo-me ao costume;
  4. era um retraço podre, até pior que estrume.)
  5. Porém lá que morreu morte cristã, morreu;
  6. pensando mesmo assim que o grande rol que encheu
  7. de pecados por cá talvez no grande dia
  8. à entrada para o céu muito o atrapalharia.
  9. «- Hoje me quero mal - dizia - pela asneira
  10. de ter desamparado a minha companheira
  11. e o meu riquinho ofício. É esta uma lembrança,
  12. que dá cabo de mim. Vá; veja-me se a amansa,
  13. para que me perdoe.»

MARTA (interrompe-o, chorando)

  1. Há muito, coitadinho,
  2. que eu, já lhe perdoei.

MEFISTÓFELES (continuando a frase)

  1. «Mas se eu lhe fui daninho,
  2. Nosso Senhor bem sabe o que ela também era.»

MARTA

  1. Mente, mente. Olha aquilo! A Morte ali à espera
  2. e ele ainda a mentir!

MEFISTÓFELES

  1. Oiço que na agonia
  2. muita gente de tino às vezes tresvaria
  3. (que eu disso entendo pouco). E prosseguiu choroso:
  4. - «Toda a vida a lidar sem hora de repouso,
  5. e vir a parar nisto! Eu a engendrar-lhe filhos
  6. por lhe dar gosto a ela! Entre esses empecilhos,
  7. eu a arranjar-lhe o pão... o pão, à própria o digo,
  8. pão negro sem conduto; eu, cruzes, inimigo!
  9. rilhando o meu motreco, às vezes sem sossego...»

MARTA (interrompendo)

  1. E nada de falar do meu desassossego,
  2. da honra da mulher, do amor que ela lhe tinha!

MEFISTÓFELES

  1. Ai! falava; pois não? Da senhora Espadinha
  2. nunca se deslembrou. - «Quando saí de Malta
  3. - tartameleava-me ele - há-de crer que me assalta
  4. uma saudade tal dela e dos pequerruchos,
  5. que não só desatei dos olhos dois repuxos,
  6. senão que até rezei com entranhada gana
  7. por toda aquela súcia! O céu, que não se engana,
  8. pagou-me a devoção. Permitiu Deus aos nossos
  9. prear uma galé de mercadores grossos,
  10. todos relé turquesca, a qual galé levava
  11. de mimo ao Grão Senhor, além de muita escrava
  12. de rara formosura, uma carga, um tesoiro
  13. de armas, de gorgorões, de pérolas, e de oiro.
  14. Lançada ao mar primeiro a moirisma vencida,
  15. o nosso capitão, da carga ali colhida
  16. talhou logo quinhões, que deu proporcionados
  17. aos que na sarrafusca andaram mais ousados,
  18. proclamando: - O Espadinha é que foi o primeiro!
  19. (era um pirata honrado, e amigo verdadeiro).» -

MARTA (interrompendo)

  1. Espere! mas então... esse lote de vulto
  2. havia de ficar nalguma parte oculto.

MEFISTÓFELES

  1. Pois não? procure bem; nem rasto. Se avarentos
  2. enterram, este cá foi por ares e ventos.
  3. Em Nápoles, um dia, andando seu marido,
  4. como estrangeiro que era, a correr divertido
  5. as ruas da cidade, adergou que uma bela
  6. o pescasse ao anzol de cima da janela;
  7. e tanto gostou dele (era um ricaço ainda),
  8. tais provas lhe embutiu a pescadora linda
  9. do seu íntimo ardor, que as teve, até o instante
  10. do trânsito feliz, a recordar-lhe a amante.

MARTA

  1. Ladrão dos filhos! traste! A gente cá ralada,
  2. e ele às soltas por lá naquela vida airada!

MEFISTÓFELES

  1. Aí tem; por isso jaz debaixo dos torrões.
  2. Eu, se fosse a senhora, atirava paixões
  3. p’ra trás das costas; punha um lutozinho d’ano,
  4. por decência, e entretanto ia-me piano piano
  5. buscando outra fortuna.

MARTA

  1. Outro como o primeiro!
  2. Nem correndo co’um prego aceso o mundo inteiro
  3. não o torno eu achar. Gaiato mais amável!
  4. O que ele tinha só de menos convinhável
  5. era o nunca parar; fazer seu pé d’alferes
  6. à solteira, à casada, a todas as mulheres;
  7. gostar dos vinhos bons das terras lá de fora,
  8. e do maldito jogo...

MEFISTÓFELES

  1. E mesmo assim deplora
  2. não no ter; vamos lá. Falando sem disfarce:
  3. ou ambos ou nenhum tem causa de queixar-se.
  4. Ele fez-lhe o que pôde; a senhora igualmente
  5. fez-lhe o que pôde a ele; a conta está corrente.
  6. Com semelhante ajuste, eu próprio aceitaria
  7. matrimoniar-me já.

MARTA

  1. Quem? O senhor! Não ria.

MEFISTÓFELES (lá de si para si)

  1. Ai! fujo. Esta é capaz de obrigar o demónio
  2. a restaurar com ela o santo matrimonio.

( A Margarida )

  1. E a menina! Que diz esse coraçãozinho?

MARGARIDA

  1. Sobre quê? não percebo.

MEFISTÓFELES (à parte)

  1. Imaculado arminho!

( Despedindo-se )

  1. Minhas senhoras!

MARTA

  1. Sai?

MARGARIDA (cumprimentando)

  1. Meu senhor!

MARTA

  1. Um momento,
  2. nada mais. Poderia obter-me um documento
  3. do quando, como, e onde, o meu consorte amado
  4. faleceu, e onde jaz? Fui sempre, Deus louvado,
  5. muito amiga do arranjo. Até cá no Diário
  6. muito estimava eu ler entre o noticiário
  7. a morte do meu tudo.

MEFISTÓFELES

  1. Esteja descansada;
  2. isso há-de-se arranjar, e sem lhe custar nada.
  3. Em qualquer terra, havendo um par de testemunhas
  4. fidedignas (e embora a gente lhe unte a unhas)
  5. prova-se logo tudo. Em minha companhia
  6. veio outro figurão que muito o conhecia.
  7. Vai comigo ao juiz, depõe... Se determina
  8. que o traga também cá...

MARTA

  1. Pois não!

MEFISTÓFELES

  1. E esta menina
  2. também cá se há-de achar; não há-de? É um moço belo,
  3. tem visto muito mundo, e não no há mais modelo
  4. em pontos da galã.

MARGARIDA

  1. Jesus! Um tal senhor
  2. ver-me a mim... que vergonha!

MEFISTÓFELES

  1. Um Rei, e Imperador
  2. do mundo que ele fosse, afoita deveria
  3. olhá-lo sem corar.

MARTA

  1. Ao despedir do dia,
  2. no quintal junto à casa, há-de ela estar comigo
  3. à espera do senhor e do seu nobre amigo.
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