Rua, com casas de ambos os lados, entre as quais, mais perto da boca do teatro, - da direi
183 versos
Cena I
VALENTIM (só)
- Dantes era regalo ir a uma súcia,
- daquelas onde a gente bravateia
- sem ninguém lho estranhar. Cada confrade
- chamava à sua a flor das raparigas,
- empinava um copázio em honra dela,
- e, fincando na mesa os cotovelos,
- quedava-se todo ancho. Eu, do meu canto,
- ia-os mui pachorrento ouvindo, ouvindo,
- a sorrir-me, e a anediar este bigode;
- depois, erguendo ao alto o copo cheio,
- proclamava: «Não digo menos disso;
- porém que iguale à minha Margarida,
- nem lhe deite água às mãos, quitam buscá-la;
- sou seu irmão, e ufano-me de sê-lo.»
- «Toque! Faço a razão!» vozeavam todos,
- todos à uma, ao terlintim dos copos.
- - «Não diz nada de mais: a Margarida
- é realmente a jóia das mulheres!»
- Não se ouvia outra coisa; os roncadores
- nem chus nem bus...
- E agora! Dão-me ganas
- de arrancar estas barbas de vergonha,
- e esmagar numa esquina esta cabeça!
- Agora, pode já qualquer patife
- mirar-me de revés, e até deitar-me
- sua picuinha; e eu moita, sem ousio
- para me erguer sequer, suando em bagas,
- que nem ruim-paguilha, atanazado
- diante do credor. Fazer em postas
- um bruto desses não custava muito;
- mas desmenti-lo...
( Vem do fundo do teatro acercando-se Mefistófeles e Fausto, e conversando entre si sem ser ouvidos. Valentim começa a coser-se com a casa de Marta. )
- Enxergo além dois vultos.
- Para cá se encaminham... Vem pisando
- com passo de patrulha. Alto! observemos!
- Dá-me no coração que estes figuros
- hão-de ser os meus dois. Se apanho o melro,
- já o não largo, senão feito em postas.
Cena II
MEFISTÓFELES, de guitarra às costas, e FAUSTO, descendo para a boca do teatro, observados por VALENTIM, recolhido ao portal de Marta.
FAUSTO
- Arde a perene alâmpada do templo.
- Repara na alta fresta!
( Apontando para uma das janelas cimeiras da Igreja )
- O lume santo
- circunfunde-se em luz, que a pouco e pouco
- vai de círculo em círculo caindo
- até penumbra, e da penumbra em trevas:
- imagem deste amor na escuridade.
MEFISTÓFELES
- Entendo, e até já estou com farnicoques
- como os do meu Doutor. Não nos comparo
- co’a lâmpada da Igreja. Só me lembra
- um bichano em janeiro, quando sobe,
- a arrulhar e a esfregar-se, ao paraíso
- do telhado, onde a bela o está chamando.
- A gente como nós ama a virtude;
- mas, uma vez por outra, lá se alembra
- de cobiçar o alheio, e andar à tuna.
- Eu só de pôr na ideia o regabofe,
- que em Valburga vou ter co’o femeaço
- já depois de amanhã, não tenho fibra
- que não me ande a bailar dentro no corpo.
- Quem perde assim a noite é quem na ganha.
FAUSTO
- Vamos nós: o tesoiro soterrado
- que me fizeste ver, e que inda aos olhos
- me está brilhando, entregas-mo, ou que fazes?
MEFISTÓFELES
- Pode desenterrar, se o leva em gosto,
- por suas próprias mãos. Que panelada
- de boas peças de oiro! Eu, que lho digo,
- é que já noutro dia as vi com estes,
- e estive-as namorando.
FAUSTO
- Não me arranjas,
- ademais disso, algum condigno adorno
- com que eu possa arraiar a minha amante?
MEFISTÓFELES
- Ah! lembrou bem! A modo que entre as loiras
- enxerguei... não sei quê... de aneis, de brincos...
- Nada; um colar de pérolas.
FAUSTO
- Aprovo.
- Quando a vou procurar co’as mãos vazias,
- vexo-me.
MEFISTÓFELES
- O desfrutar gratuito às vezes
- também tem seu lugar.
- Noite de estrelas
- como esta, meu Doutor, pede um descante.
- Vamos-lho dar por baixo da janela.
FAUSTO
- A do seu quarto é essa, onde estão vasos,
MEFISTÓFELES
- Se ainda não dorme, escutará gostosa.
- São trovas de mão cheia, e sobretudo
- muito morais. Assim é que as eu logro.
( Canta, acompanhando-se com a guitarra )
- Que fazes, por vida minha,
- à porta do namorado,
- quando inda não é sol-nado,
- Catarininha?
- Ai, levianita, cautela,
- cautela com essa entrada!
- Vais donzela; mas, coitada,
- sairás donzela?
- Florinha, esquiva-te à aragem,
- por mais que amor te prometa
- que, em fugindo a borboleta,
- boa viagem!
- Com ave que não tem medo
- bem vai ao passarinheiro.
- Catarininha! primeiro,
- o anel no dedo!
VALENTIM (adiantando-se furioso)
- A quem vai o descante, alma danada?
- Leva-te a breca a banza, e a ti com ela.
( Arranca-lhe o instrumento e quebra-o. )
MEFISTÓFELES
- Escangalhou-ma, que não tem concerto.
VALENTIM (desembainhando a espada e arremetendo com Fausto)
- E agora essa caveira!
MEFISTÓFELES (à parte para Fausto, e dirigindo-lhe o braço)
- Alma! Não ceda,
- Senhor Doutor! Cosa-se bem comigo,
- que eu lhe tenteio o jogo. Ande com ele
- Esgrima-me o chanfalho! Afronte os botes,
- que eu lhos aparo.
VALENTIM
- Apara-me este.
MEFISTÓFELES
- E aparo.
VALENTIM
- Mais este.
MEFISTÓFELES
- Pronto.
VALENTIM
- Brigo co’o diabo.
- Deu-me estupor no pulso.
MEFISTÓFELES
- Ande-me, acabe-o!
VALENTIM (que, varado de uma estocada de Fausto, vai estrebuchando até cair sentado no degrau da porta de Margarida, e encostado à ombreira.)
- Ai!
MEFISTÓFELES
- Já está manso o bruto. Agora ao fresco!
( Ouve-se vozear e abrir janelas, em várias casas da rua; depois principiam a sair das portas os moradores com luzes
- Já anda alvoratada a vizinhança.
- Fugir, que vem gentio. Eu da polícia
- sei muito bem safar-me; agora em coisa
- de foro crime, até o demo esbarra.
( Vão-se. )
Cena III
VALENTIM, MARTA e MARGARIDA, primeiro, nas suas janelas e depois na rua , HOMENS e MULHERES
MARTA (com luz à janela)
- Acudam!
MARGARIDA (com luz à janela)
- Tragam luz!
MARTA (mais alto)
- É gente aos gritos:
- brigam na rua; ouvi tinir espadas.
( Os populares vêm das casas a correr com luzes. )
HOMEM DO POVO
- Homem morto!
MARTA (correndo)
- Onde estão os matadores?
MARGARIDA (ainda na janela)
- Quem jaz aí?
HOMEM DO POVO
- Jaz teu irmão.
MARGARIDA (da janela)
- Socorro!
- Grande Deus!
( Margarida desce à cena. Todas as mulheres estão chorando, e lamentando o caso umas com as outras. )
VALENTIM
- Morro. Curto é o dito; e o feito
- muito mais curto. Porque está chorando
- todo esse mulherio? Aqui!... Mais perto...
- Escutem-me!
( Acercam-se-lhe as mulheres )
- Tu, mana Margarida,
- inda estás verde em anos e em juízo;
- não sabes arranjar-te. Um bom conselho,
- aqui muito entre nós. De prostituta
- já tu tens praça; então, marchar em frente!
- a valer! a valer!
MARGARIDA
- Que estás dizendo,
- irmão? Meu Deus!
VALENTIM
- A que vem Deus chamado
- para estas coisas? Por desgraça, o feito
- já ninguém to desfaz; e a ruins entranças
- mais ruins saídas.
- Principiaste, a ocultas,
- com um; provado o bolo, acodem outros;
- em se chegando à dúzia, é porta aberta.
- Vem fraquinha, a princípio, a desvergonha.
- Teme ser vista, embuça-se co’as trevas.
- Não custava a matá-la. Como a deixam,
- medra, até sair nua; e como cuida
- que a desnudez a alinda, embora a afeie,
- despida, ao sol, na praça, se apavona.
- Dentro em bem pouco toda a gente honrada
- há-de fugir de ti, rameira indigna,
- como se foge de um cadáver podre.
- Se alguém te encarar fito, há-de transir-te.
- Não pões mais oiros. Já não vais na Igreja
- para a capela mor: nem com romeiras
- de rendas finas florear nas danças.
- Hás-de-te encafuar numa possilga,
- refúgio de pedintes e aleijados.
- Talvez que Deus ao cabo te perdoe,
- mas o mundo é que nunca.
MARTA
- Recomende
- sua alma a Deus; não ’steja a encarregá-la
- com mais ódios e injúrias!
VALENTIM (para Marta)
- Quem me dera
- poder-te lançar mão desse arcaboiço,
- alcaiota maldita! Ai! que indulgência
- que indulgência plenária a que eu ganhava!
MARGARIDA
- Valentim! meu irmão! ai! que suplício!
VALENTIM
- Sabes que mais? Deixemos choradeiras.
- Quando tu deste mate ao teu decoro,
- correste-me no peito uma estocada
- que me acabou.
- Já a morte me adormenta.
- Vou-me acordar em Deus. Fui bom soldado
- e homem de bem; feneço descansado.