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FaustoQuadro XIX
QuadroXIX

Rua, com casas de ambos os lados, entre as quais, mais perto da boca do teatro, - da direi

183 versos


Cena I

VALENTIM (só)

  1. Dantes era regalo ir a uma súcia,
  2. daquelas onde a gente bravateia
  3. sem ninguém lho estranhar. Cada confrade
  4. chamava à sua a flor das raparigas,
  5. empinava um copázio em honra dela,
  6. e, fincando na mesa os cotovelos,
  7. quedava-se todo ancho. Eu, do meu canto,
  8. ia-os mui pachorrento ouvindo, ouvindo,
  9. a sorrir-me, e a anediar este bigode;
  10. depois, erguendo ao alto o copo cheio,
  11. proclamava: «Não digo menos disso;
  12. porém que iguale à minha Margarida,
  13. nem lhe deite água às mãos, quitam buscá-la;
  14. sou seu irmão, e ufano-me de sê-lo.»
  15. «Toque! Faço a razão!» vozeavam todos,
  16. todos à uma, ao terlintim dos copos.
  17. - «Não diz nada de mais: a Margarida
  18. é realmente a jóia das mulheres!»
  19. Não se ouvia outra coisa; os roncadores
  20. nem chus nem bus...
  21. E agora! Dão-me ganas
  22. de arrancar estas barbas de vergonha,
  23. e esmagar numa esquina esta cabeça!
  24. Agora, pode já qualquer patife
  25. mirar-me de revés, e até deitar-me
  26. sua picuinha; e eu moita, sem ousio
  27. para me erguer sequer, suando em bagas,
  28. que nem ruim-paguilha, atanazado
  29. diante do credor. Fazer em postas
  30. um bruto desses não custava muito;
  31. mas desmenti-lo...

( Vem do fundo do teatro acercando-se Mefistófeles e Fausto, e conversando entre si sem ser ouvidos. Valentim começa a coser-se com a casa de Marta. )

  1. Enxergo além dois vultos.
  2. Para cá se encaminham... Vem pisando
  3. com passo de patrulha. Alto! observemos!
  4. Dá-me no coração que estes figuros
  5. hão-de ser os meus dois. Se apanho o melro,
  6. já o não largo, senão feito em postas.

Cena II

MEFISTÓFELES, de guitarra às costas, e FAUSTO, descendo para a boca do teatro, observados por VALENTIM, recolhido ao portal de Marta.

FAUSTO

  1. Arde a perene alâmpada do templo.
  2. Repara na alta fresta!

( Apontando para uma das janelas cimeiras da Igreja )

  1. O lume santo
  2. circunfunde-se em luz, que a pouco e pouco
  3. vai de círculo em círculo caindo
  4. até penumbra, e da penumbra em trevas:
  5. imagem deste amor na escuridade.

MEFISTÓFELES

  1. Entendo, e até já estou com farnicoques
  2. como os do meu Doutor. Não nos comparo
  3. co’a lâmpada da Igreja. Só me lembra
  4. um bichano em janeiro, quando sobe,
  5. a arrulhar e a esfregar-se, ao paraíso
  6. do telhado, onde a bela o está chamando.
  7. A gente como nós ama a virtude;
  8. mas, uma vez por outra, lá se alembra
  9. de cobiçar o alheio, e andar à tuna.
  10. Eu só de pôr na ideia o regabofe,
  11. que em Valburga vou ter co’o femeaço
  12. já depois de amanhã, não tenho fibra
  13. que não me ande a bailar dentro no corpo.
  14. Quem perde assim a noite é quem na ganha.

FAUSTO

  1. Vamos nós: o tesoiro soterrado
  2. que me fizeste ver, e que inda aos olhos
  3. me está brilhando, entregas-mo, ou que fazes?

MEFISTÓFELES

  1. Pode desenterrar, se o leva em gosto,
  2. por suas próprias mãos. Que panelada
  3. de boas peças de oiro! Eu, que lho digo,
  4. é que já noutro dia as vi com estes,
  5. e estive-as namorando.

FAUSTO

  1. Não me arranjas,
  2. ademais disso, algum condigno adorno
  3. com que eu possa arraiar a minha amante?

MEFISTÓFELES

  1. Ah! lembrou bem! A modo que entre as loiras
  2. enxerguei... não sei quê... de aneis, de brincos...
  3. Nada; um colar de pérolas.

FAUSTO

  1. Aprovo.
  2. Quando a vou procurar co’as mãos vazias,
  3. vexo-me.

MEFISTÓFELES

  1. O desfrutar gratuito às vezes
  2. também tem seu lugar.
  3. Noite de estrelas
  4. como esta, meu Doutor, pede um descante.
  5. Vamos-lho dar por baixo da janela.

FAUSTO

  1. A do seu quarto é essa, onde estão vasos,

MEFISTÓFELES

  1. Se ainda não dorme, escutará gostosa.
  2. São trovas de mão cheia, e sobretudo
  3. muito morais. Assim é que as eu logro.

( Canta, acompanhando-se com a guitarra )

  1. Que fazes, por vida minha,
  2. à porta do namorado,
  3. quando inda não é sol-nado,
  4. Catarininha?
  5. Ai, levianita, cautela,
  6. cautela com essa entrada!
  7. Vais donzela; mas, coitada,
  8. sairás donzela?
  9. Florinha, esquiva-te à aragem,
  10. por mais que amor te prometa
  11. que, em fugindo a borboleta,
  12. boa viagem!
  13. Com ave que não tem medo
  14. bem vai ao passarinheiro.
  15. Catarininha! primeiro,
  16. o anel no dedo!

VALENTIM (adiantando-se furioso)

  1. A quem vai o descante, alma danada?
  2. Leva-te a breca a banza, e a ti com ela.

( Arranca-lhe o instrumento e quebra-o. )

MEFISTÓFELES

  1. Escangalhou-ma, que não tem concerto.

VALENTIM (desembainhando a espada e arremetendo com Fausto)

  1. E agora essa caveira!

MEFISTÓFELES (à parte para Fausto, e dirigindo-lhe o braço)

  1. Alma! Não ceda,
  2. Senhor Doutor! Cosa-se bem comigo,
  3. que eu lhe tenteio o jogo. Ande com ele
  4. Esgrima-me o chanfalho! Afronte os botes,
  5. que eu lhos aparo.

VALENTIM

  1. Apara-me este.

MEFISTÓFELES

  1. E aparo.

VALENTIM

  1. Mais este.

MEFISTÓFELES

  1. Pronto.

VALENTIM

  1. Brigo co’o diabo.
  2. Deu-me estupor no pulso.

MEFISTÓFELES

  1. Ande-me, acabe-o!

VALENTIM (que, varado de uma estocada de Fausto, vai estrebuchando até cair sentado no degrau da porta de Margarida, e encostado à ombreira.)

  1. Ai!

MEFISTÓFELES

  1. Já está manso o bruto. Agora ao fresco!

( Ouve-se vozear e abrir janelas, em várias casas da rua; depois principiam a sair das portas os moradores com luzes

  1. Já anda alvoratada a vizinhança.
  2. Fugir, que vem gentio. Eu da polícia
  3. sei muito bem safar-me; agora em coisa
  4. de foro crime, até o demo esbarra.

( Vão-se. )

Cena III

VALENTIM, MARTA e MARGARIDA, primeiro, nas suas janelas e depois na rua , HOMENS e MULHERES

MARTA (com luz à janela)

  1. Acudam!

MARGARIDA (com luz à janela)

  1. Tragam luz!

MARTA (mais alto)

  1. É gente aos gritos:
  2. brigam na rua; ouvi tinir espadas.

( Os populares vêm das casas a correr com luzes. )

HOMEM DO POVO

  1. Homem morto!

MARTA (correndo)

  1. Onde estão os matadores?

MARGARIDA (ainda na janela)

  1. Quem jaz aí?

HOMEM DO POVO

  1. Jaz teu irmão.

MARGARIDA (da janela)

  1. Socorro!
  2. Grande Deus!

( Margarida desce à cena. Todas as mulheres estão chorando, e lamentando o caso umas com as outras. )

VALENTIM

  1. Morro. Curto é o dito; e o feito
  2. muito mais curto. Porque está chorando
  3. todo esse mulherio? Aqui!... Mais perto...
  4. Escutem-me!

( Acercam-se-lhe as mulheres )

  1. Tu, mana Margarida,
  2. inda estás verde em anos e em juízo;
  3. não sabes arranjar-te. Um bom conselho,
  4. aqui muito entre nós. De prostituta
  5. já tu tens praça; então, marchar em frente!
  6. a valer! a valer!

MARGARIDA

  1. Que estás dizendo,
  2. irmão? Meu Deus!

VALENTIM

  1. A que vem Deus chamado
  2. para estas coisas? Por desgraça, o feito
  3. já ninguém to desfaz; e a ruins entranças
  4. mais ruins saídas.
  1. Principiaste, a ocultas,
  2. com um; provado o bolo, acodem outros;
  3. em se chegando à dúzia, é porta aberta.
  4. Vem fraquinha, a princípio, a desvergonha.
  5. Teme ser vista, embuça-se co’as trevas.
  6. Não custava a matá-la. Como a deixam,
  7. medra, até sair nua; e como cuida
  8. que a desnudez a alinda, embora a afeie,
  9. despida, ao sol, na praça, se apavona.
  10. Dentro em bem pouco toda a gente honrada
  11. há-de fugir de ti, rameira indigna,
  12. como se foge de um cadáver podre.
  13. Se alguém te encarar fito, há-de transir-te.
  14. Não pões mais oiros. Já não vais na Igreja
  15. para a capela mor: nem com romeiras
  16. de rendas finas florear nas danças.
  17. Hás-de-te encafuar numa possilga,
  18. refúgio de pedintes e aleijados.
  19. Talvez que Deus ao cabo te perdoe,
  20. mas o mundo é que nunca.

MARTA

  1. Recomende
  2. sua alma a Deus; não ’steja a encarregá-la
  3. com mais ódios e injúrias!

VALENTIM (para Marta)

  1. Quem me dera
  2. poder-te lançar mão desse arcaboiço,
  3. alcaiota maldita! Ai! que indulgência
  4. que indulgência plenária a que eu ganhava!

MARGARIDA

  1. Valentim! meu irmão! ai! que suplício!

VALENTIM

  1. Sabes que mais? Deixemos choradeiras.
  2. Quando tu deste mate ao teu decoro,
  3. correste-me no peito uma estocada
  4. que me acabou.
  5. Já a morte me adormenta.
  6. Vou-me acordar em Deus. Fui bom soldado
  7. e homem de bem; feneço descansado.
Próximo quadroXXInterior de um templo, com eça armada, entre tocheiros acesos. Altar mor do lado direito,