O quarto da Margarida
43 versos
Cena ÚNICA
MARGARIDA (só, fiando na roca, e cantando)
- Sinto o coração pesado.
- Dias de paz, onde estais?
- Ai, descanso abençoado,
- nunca, nunca, nunca mais!
- Inda não quitei a vida,
- e já ’stou na sepultura.
- Quem nasceu tão sem ventura,
- melhor não fora nascida.
- Trago esvaído o juízo,
- o coração como louco.
- Sempre durastes bem pouco,
- horas do meu paraíso.
- Sinto o coração pesado.
- Dias de paz, onde estais?
- Ai, descanso abençoado,
- nunca, nunca, nunca mais!
- Canso a buscar-te por fora;
- canso à janela a esperar-te,
- sem ver em nenhuma parte,
- nem saber quem te demora.
- Que nobre andar! que figura!
- que olhar! que riso! e que boca,
- donde eu sentia já louca
- jorrar caudais de doçura
- E aquela mão, que inda vejo
- a apertar convulsa a minha
- o fogo que ela não tinha!
- E o beijo! oh meu Deus, o beijo!
- Sinto o coração pesado.
- Dias de paz, onde estais?
- Ai, descanso abençoado,
- nunca, nunca, nunca mais!
- Onde estás, que me esvoaço
- por colher-te? onde...? não sei.
- Se outra vez a ti me abraço,
- das angústias que hoje passo
- como então me vingarei!
( Levantando-se, e declamando com veemência. )
- Prendo-te ao seio,
- já sem receio
- de te perder.
- Farto os desejos
- de toda em beijos
- me desfazer.