Prisão. Janela alta gradeada. Uma alcova ao fundo da prisão, onde há, sobre uma tarimba, u
226 versos · 10 notas do tradutor
Cena I
FAUSTO, por trás da grade, com um molho de chaves e uma lanterna. MARGARIDA, deitada na cama de rosto para o espectador, ferros aos pés e nos pulsos, e o cobertor por cima de si; está pálida, e numa espécie de sonolência.
FAUSTO
- Arrepios assim nunca eu senti. (Fraqueza
- da humana condição.) Aqui, nesta escura,
- nesta humidade infecta onde entro horrorizado,
- e que ela está vivendo, é que ela tem penado
- por um sonho de gosto horas sem fim de luto.
- Que é isto, coração! Tremes irresoluto
- no momento de ir vê-la! A sua aparição,
- que tem para assustar-te? Avante, coração!
- Valor! Para a salvar apenas resta um passo.
- Cada instante perdido acerca-a do trespasso.
( Mete a chave na fechadura. )
MARGARIDA (cantando em delírio)
- Nasci de uma perdida.
- Gerou-me um salteador.
- A mãe roubou-me a vida.
- O pai tragou-me em flor.
- Saltou-me a irmã vizinha
- do fresco seu coval;
- mudou-me em avezinha
- no agreste matagal;
- fugi da terra feia;
- vim ser feliz no ar;
- aqui só me recreia
- voar, voar, voar.
FAUSTO (diligenciando abrir a fechadura)
- Ah! Mal sabe a infeliz, que o seu querido ausente
- já tão perto lhe está, que lhe ouve claramente
- o tinir dos grilhões, das palhas o soído,
- cada vez que revolve o corpo dolorido.
( Entra )
MARGARIDA (desvairada, envolve-se no cobertor, voltando-se para a parede)
- Jesus, vê-los lá vem! Que horrendo fim!
FAUSTO (mansinho)
- Não tremas.
- Não grites; sou eu; venho arrancar-te as algemas
- salvar-te.
MARGARIDA (arrastando-se para Fausto)
- Se és acaso um ente humano, e pode
- tocar-te um mal extremo, ao meu martírio acode!
FAUSTO
- Silêncio! O teu clamor acorda os guardas.
( Pega nos grilhões para os abrir. )
MARGARIDA (de joelhos)
- Não!
- Não! Quem te deu licença, algoz, de me pôr mão?
- Antes da meia noite! É cedo. Tem piedade!
- Um pouco mais de vida! Espera a claridade!
( Levanta-se )
- Sou tão nova, tão nova! Hei-de morrer tão nova?
- Meu Deus! diz que sou bela, e vou por isso à cova.
- Ai! qu’é do meu querido? antes sempre ao meu lado,
- e agora tão distante? a c’roa do noivado
- desmanchou-se-me; o pó sumiu-lhe as tristes flores.
( Fausto forceja para a levar )
- Larga-me os pulsos, larga! «Acrescentar-me dores,
- selvagem! para quê? fiz-te algum mal? até
- nunca te vi.
FAUSTO
- Que transe!
MARGARIDA
- Estás-me aqui ao pé;
- bem vês que te não fujo. É mister que amamente
- primeiro o meu menino, e depois o adormente,
- que toda a santa noite a levámos de vela,
- a criancinha a rir-me, e eu a afagá-la a ela.
- Para me atormentar, furtam-ma, e agora teimam
- que a matei eu! Vê, vê, co’as penas que me afreimam
- se posso nunca mais ter hora de alegria?
- Até já pela rua (olha que tirania!)
- cantam a Margarida; a moda é moda antiga,
- mas comigo é que entende a letra da cantiga.
FAUSTO (caindo em joelhos)
- É ele, o amado, o teu, que te ora de mãos postas
- ajoelhado a teus pés, que o sigas, que dês costas
- a este infame horror.
MARGARIDA (ajoelhando ao lado dele)
- Oh sim; ajoelhemos.
- Nos céus mora a piedade; os santos invoquemos.
- Vê, ouve lá por baixo o inferno em fúria, a sanha
- com que o espírito mau o fogo eterno assanha!
FAUSTO (em voz mais alta)
- Margarida, repara! Atende, Margarida!
MARGARIDA (atenta)
- Ouvi-lhe a voz... Chamou-me... Onde está?
( Caem-lhe os grilhões e as algemas )
- Desprendida!
- Já o posso abraçar; já posso neste peito
- senti-lo palpitar no abraço mais estreito.
- Chamou-me. Vi-o ali. Todo o motim do inferno
- a escarnecer-me em coro, e a blasfemar do Eterno,
- não lhe encobriu a voz; reconheci-lha; disse
- Margarida! e era a mesma, a mesma na meiguice.
FAUSTO
- Sou eu.
MARGARIDA
- És tu?! Repete-o.
( Tacteando-o )
- És; és; já não duvido.
- Ficai-vos, meus grilhões, meu cárcere insofrido!
- Vens salvar-me: estou salva e livre... Espera!... aqui
- é (se a não reconheço?!) a rua em que eu te vi
- pela primeira vez; a porta além diviso
- que entra ao quintal da Marta, ao nosso paraíso.
FAUSTO (forcejando para que saiam)
- Vem, vem! Segue-me!
MARGARIDA
- Espera. É tão grande a alegria
- que estou sentindo aqui na tua companhia!
( Afagando-o. )
FAUSTO
- Se teimas em ficar, perdemo-nos.
MARGARIDA
- Já vejo
- que tudo lhe esqueceu: pois nem sequer um beijo?
- Não me entendo! a abraçar-te e inda aflita! Mas dantes
- quando o teu falar terno, os teus olhos amantes
- me envolviam de céu, beijavas-me; um beijar
- como quem me queria em beijos sufocar.
- Beija-me, ou beijo-te eu.
( Beija-o )
- Que lábios! que regelo!
- que mudez! Tanto amor, pudeste-me esquecê-lo?
( Vai-se afastando dele )
FAUSTO
- Vem! Segue-me, querida! Anima-te! Protesto
- que ardo por ti, mas sai deste lugar funesto!
- Nada mais te suplico. Anda comigo.
MARGARIDA (encarando-o, indecisa)
- Creio...
- mas não sei se és o mesmo. Afirma-mo! Receio
FAUSTO
- Sou, sou; fujamos!
MARGARIDA
- Bom. Tens-me desalgemada.
- Senta-me no teu colo!... Estou maravilhada
- de me olhares sem tédio. Ignoras por ventura
- quem seja esta mulher, a quem vens dar soltura,
- meu amigo?
FAUSTO
- Vem, vem! Já rompe a alva.
MARGARIDA
- A mãe
- matei-a; a criancinha afoguei-a também...
- mas não era só minha, era tua igualmente;
- para os dois, é que Deus a dera de presente;
- sim, também para ti...
- Mas, fala-me sincero:
- és na verdade o mesmo? ou será sonho? Quero
- sentir nas minhas mãos a tua mão querida.
( Toma-lhe a mão )
- Enxuga-a! que lentor!
( Encarando fitamente na mão )
- De sangue vem tingida!
- Justos céus, que fizeste? Embainha essa espada!
- Pela cruz to suplico.
FAUSTO
- O pretérito é nada.
- Matas-me.
MARGARIDA
- Não te hás-de ir, antes de satisfeito
- o que aos mortos se deve, e exige pronto efeito,
- e amanhã já. Repara! Importa que to explique:
- No principal sepulcro a mãe; meu mano fique
- logo ao pé dela. A mim, talha-me a cama fria
- mais longe, mas, por Deus, não longe em demasia.
- Ao meu seio direito, o nosso pequenino
- muito aconchegadinho; e mais, só determino
- que junto a mim, ninguém. Por suma glória tinha
- jazer-me ao pé de ti; foi outra sorte a minha.
- Como que sinto um braço a empuxar-me invisível
- para ti... de ti outro a repulsar-me horrível.
- E mesmo assim és tu, que me olhas tão piedoso.
FAUSTO
- Pois se vês que sou eu, se vês que te amo, e ouso
- salvar-te, é vir comigo, e já.
MARGARIDA
- Lá para fora?
FAUSTO
- Sim, sim, para o ar livre.
MARGARIDA
- Ai, não, não. Nesta hora
- anda por lá a morte à minha espreita. Escuta!
- Avizinha-se; fico; e espero-a resoluta.
- Não movo pé daqui senão para a jazida
- onde nunca se acorda, e todo o mal se olvida.
- Adeus, e para sempre, amado Henrique! Parte!
- Vive!... Não poder eu agora acompanhar-te!
FAUSTO
- Podes, queira-lo tu. A porta está patente.
MARGARIDA
- Não me é dado sair. Perdida totalmente
- a esperança! Fugir! E para quê, se eu sei
- que me alcançavam logo? oh! não, não fugirei.
- Achavas que era dita andar de terra em terra
- a mendigar o pão, comigo própria em guerra?
- sempre em sustos? Quem foge a tantos mil espias?
FAUSTO
- Bem; morrerei contigo, uma vez que aporfias.
MARGARIDA
- Vem! Corre! Dá-te pressa!
- Acude ao teu filhinho!
- Sabes? a via é essa,
- que borda o ribeirinho.
- Remonta-lhe a corrente!
- Corta-o na ponte! Dás
- num matagal em frente!
- À esquerda encontrarás
- o açude de um moinho...
- É lá, é lá,
- que inda boiando está
- o inocentinho.
- Vai, salva-o, que és seu pai!
- vai! vai!
FAUSTO
- Deliras, Margarida! Ah! torna em ti! Desperta!
- Decide-te! Um só passo, ó cara, e estás liberta.
MARGARIDA
- Oh! quem já me dera passado este monte!
- A mãe lá em cima diviso sentada
- na penha escalvada, que fica defronte!
- Que mão regelada as tranças me aferra!
- Não posso; fujamos; assombra-me; aterra
- ver sempre defronte a mãe assentada
- na penha escalvada no cimo do monte.
- Meneia a fronte,
- sem que me veja.
- Não pestaneja.
- Que ar de quebranto!
- Se dormiu tanto!
- Dorme, e jamais há-de acordar:
- adormeceu para deixar
- o nosso amor em liberdade.
- Gostos da minha mocidade,
- quão breve tínheis de acabar!
FAUSTO
- Já que és surda à razão, e às súplicas do amor,
- levo-te à força.
( Deitando-lhe as mãos. )
MARGARIDA
- Pára! Afasta-te! Ousas pôr
FAUSTO
- Doce amor da minha alma, é dia; vês? é dia.
( Apontando-lhe para as grades da janela )
MARGARIDA
- Vejo; o meu derradeiro, o mesmo que devia
- sagrar o nosso enlace.
- Esconde a toda a gente
- que estiveste comigo.
- Adeus eternamente,
- pobre coroa minha!
- Hajamos esperança
- de tornar-nos a ver, mas não será na dança.
- ... Em cada rua povo! e povo! e povo! a praça
- apinhada em silêncio; o juiz que espedaça
- a vara, e aos pés ma atira! aquilo é o campanário,
- que lá me está chorando o dobre funerário!
- Tomam-me; atam-me as mãos; chegam-me ao cepo, sente
- cada um no seu colo o golpe ao meu pendente...
- Acabou-se o universo.
FAUSTO
- Antes não ter nascido
- se tinha de ver isto: ela, assim! eu perdido!
Cena II
MEFISTÓFELES da parte de fora da grade, os DITOS
MEFISTÓFELES
- Perdidos, se exauris em frases e terrores
- o instante de escapar.
( Entra )
- Os nosso corredores
- escarvam d’impaciência. A manhã rasga.
MARGARIDA (com grande terror))
- Aquilo
- que surde além do chão... quem é?! Vai despedi-lo,
- Ele, ele! que me quer! Tenta levar-me! Ousado
- vem-me inda perseguir neste lugar sagrado!
FAUSTO
- Viverás!
MARGARIDA (pondo os olhos no céu)
- Juiz Sumo, a ti me entrego.
MEFISTÓFELES (a Fausto)
- Vem,
- ou deixo-te com ela. Escolhe!
MARGARIDA
- Sumo Bem,
- Pai meu, que estás nos céus, salva-me, que eu sou tua
- Santos Anjos de Deus, levai-me à vista sua!
- Henrique, horror a ti minha alma purifique!
Cena III
Abre-se por cima o Empíreo . CORO DE ANJOS e OS DITOS
MEFISTÓFELES
- Sentenciada!
CORO DE ANJOS
- Salva!
MEFISTÓFELES (apossando-se de Fausto e levando-o consigo)
- És meu.
MARGARIDA (já nas alturas, para onde tem ido subindo)
- Henrique! Henrique!