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FaustoQuadro XXIV
QuadroXXIV

Prisão. Janela alta gradeada. Uma alcova ao fundo da prisão, onde há, sobre uma tarimba, u

226 versos · 10 notas do tradutor


Cena I

FAUSTO, por trás da grade, com um molho de chaves e uma lanterna. MARGARIDA, deitada na cama de rosto para o espectador, ferros aos pés e nos pulsos, e o cobertor por cima de si; está pálida, e numa espécie de sonolência.

FAUSTO

  1. Arrepios assim nunca eu senti. (Fraqueza
  2. da humana condição.) Aqui, nesta escura,
  3. nesta humidade infecta onde entro horrorizado,
  4. e que ela está vivendo, é que ela tem penado
  5. por um sonho de gosto horas sem fim de luto.
  1. Que é isto, coração! Tremes irresoluto
  2. no momento de ir vê-la! A sua aparição,
  3. que tem para assustar-te? Avante, coração!
  4. Valor! Para a salvar apenas resta um passo.
  5. Cada instante perdido acerca-a do trespasso.

( Mete a chave na fechadura. )

MARGARIDA (cantando em delírio)

  1. Nasci de uma perdida.
  2. Gerou-me um salteador.
  3. A mãe roubou-me a vida.
  4. O pai tragou-me em flor.
  5. Saltou-me a irmã vizinha
  6. do fresco seu coval;
  7. mudou-me em avezinha
  8. no agreste matagal;
  9. fugi da terra feia;
  10. vim ser feliz no ar;
  11. aqui só me recreia
  12. voar, voar, voar.

FAUSTO (diligenciando abrir a fechadura)

  1. Ah! Mal sabe a infeliz, que o seu querido ausente
  2. já tão perto lhe está, que lhe ouve claramente
  3. o tinir dos grilhões, das palhas o soído,
  4. cada vez que revolve o corpo dolorido.

( Entra )

MARGARIDA (desvairada, envolve-se no cobertor, voltando-se para a parede)

  1. Jesus, vê-los lá vem! Que horrendo fim!

FAUSTO (mansinho)

  1. Não tremas.
  2. Não grites; sou eu; venho arrancar-te as algemas
  3. salvar-te.

MARGARIDA (arrastando-se para Fausto)

  1. Se és acaso um ente humano, e pode
  2. tocar-te um mal extremo, ao meu martírio acode!

FAUSTO

  1. Silêncio! O teu clamor acorda os guardas.

( Pega nos grilhões para os abrir. )

MARGARIDA (de joelhos)

  1. Não!
  2. Não! Quem te deu licença, algoz, de me pôr mão?
  1. Antes da meia noite! É cedo. Tem piedade!
  2. Um pouco mais de vida! Espera a claridade!

( Levanta-se )

  1. Sou tão nova, tão nova! Hei-de morrer tão nova?
  2. Meu Deus! diz que sou bela, e vou por isso à cova.
  3. Ai! qu’é do meu querido? antes sempre ao meu lado,
  4. e agora tão distante? a c’roa do noivado
  5. desmanchou-se-me; o pó sumiu-lhe as tristes flores.

( Fausto forceja para a levar )

  1. Larga-me os pulsos, larga! «Acrescentar-me dores,
  2. selvagem! para quê? fiz-te algum mal? até
  3. nunca te vi.

FAUSTO

  1. Que transe!

MARGARIDA

  1. Estás-me aqui ao pé;
  2. bem vês que te não fujo. É mister que amamente
  3. primeiro o meu menino, e depois o adormente,
  4. que toda a santa noite a levámos de vela,
  5. a criancinha a rir-me, e eu a afagá-la a ela.
  6. Para me atormentar, furtam-ma, e agora teimam
  7. que a matei eu! Vê, vê, co’as penas que me afreimam
  8. se posso nunca mais ter hora de alegria?
  9. Até já pela rua (olha que tirania!)
  10. cantam a Margarida; a moda é moda antiga,
  11. mas comigo é que entende a letra da cantiga.

FAUSTO (caindo em joelhos)

  1. É ele, o amado, o teu, que te ora de mãos postas
  2. ajoelhado a teus pés, que o sigas, que dês costas
  3. a este infame horror.

MARGARIDA (ajoelhando ao lado dele)

  1. Oh sim; ajoelhemos.
  2. Nos céus mora a piedade; os santos invoquemos.
  3. Vê, ouve lá por baixo o inferno em fúria, a sanha
  4. com que o espírito mau o fogo eterno assanha!

FAUSTO (em voz mais alta)

  1. Margarida, repara! Atende, Margarida!

MARGARIDA (atenta)

  1. Ouvi-lhe a voz... Chamou-me... Onde está?

( Caem-lhe os grilhões e as algemas )

  1. Desprendida!
  2. Já o posso abraçar; já posso neste peito
  3. senti-lo palpitar no abraço mais estreito.
  4. Chamou-me. Vi-o ali. Todo o motim do inferno
  5. a escarnecer-me em coro, e a blasfemar do Eterno,
  6. não lhe encobriu a voz; reconheci-lha; disse
  7. Margarida! e era a mesma, a mesma na meiguice.

FAUSTO

  1. Sou eu.

MARGARIDA

  1. És tu?! Repete-o.

( Tacteando-o )

  1. És; és; já não duvido.
  2. Ficai-vos, meus grilhões, meu cárcere insofrido!
  3. Vens salvar-me: estou salva e livre... Espera!... aqui
  4. é (se a não reconheço?!) a rua em que eu te vi
  5. pela primeira vez; a porta além diviso
  6. que entra ao quintal da Marta, ao nosso paraíso.

FAUSTO (forcejando para que saiam)

  1. Vem, vem! Segue-me!

MARGARIDA

  1. Espera. É tão grande a alegria
  2. que estou sentindo aqui na tua companhia!

( Afagando-o. )

FAUSTO

  1. Se teimas em ficar, perdemo-nos.

MARGARIDA

  1. Já vejo
  2. que tudo lhe esqueceu: pois nem sequer um beijo?
  3. Não me entendo! a abraçar-te e inda aflita! Mas dantes
  4. quando o teu falar terno, os teus olhos amantes
  5. me envolviam de céu, beijavas-me; um beijar
  6. como quem me queria em beijos sufocar.
  7. Beija-me, ou beijo-te eu.

( Beija-o )

  1. Que lábios! que regelo!
  2. que mudez! Tanto amor, pudeste-me esquecê-lo?

( Vai-se afastando dele )

FAUSTO

  1. Vem! Segue-me, querida! Anima-te! Protesto
  2. que ardo por ti, mas sai deste lugar funesto!
  3. Nada mais te suplico. Anda comigo.

MARGARIDA (encarando-o, indecisa)

  1. Creio...
  2. mas não sei se és o mesmo. Afirma-mo! Receio

FAUSTO

  1. Sou, sou; fujamos!

MARGARIDA

  1. Bom. Tens-me desalgemada.
  2. Senta-me no teu colo!... Estou maravilhada
  3. de me olhares sem tédio. Ignoras por ventura
  4. quem seja esta mulher, a quem vens dar soltura,
  5. meu amigo?

FAUSTO

  1. Vem, vem! Já rompe a alva.

MARGARIDA

  1. A mãe
  2. matei-a; a criancinha afoguei-a também...
  3. mas não era só minha, era tua igualmente;
  4. para os dois, é que Deus a dera de presente;
  5. sim, também para ti...
  6. Mas, fala-me sincero:
  7. és na verdade o mesmo? ou será sonho? Quero
  8. sentir nas minhas mãos a tua mão querida.

( Toma-lhe a mão )

  1. Enxuga-a! que lentor!

( Encarando fitamente na mão )

  1. De sangue vem tingida!
  2. Justos céus, que fizeste? Embainha essa espada!
  3. Pela cruz to suplico.

FAUSTO

  1. O pretérito é nada.
  2. Matas-me.

MARGARIDA

  1. Não te hás-de ir, antes de satisfeito
  2. o que aos mortos se deve, e exige pronto efeito,
  3. e amanhã já. Repara! Importa que to explique:
  4. No principal sepulcro a mãe; meu mano fique
  5. logo ao pé dela. A mim, talha-me a cama fria
  6. mais longe, mas, por Deus, não longe em demasia.
  7. Ao meu seio direito, o nosso pequenino
  8. muito aconchegadinho; e mais, só determino
  9. que junto a mim, ninguém. Por suma glória tinha
  10. jazer-me ao pé de ti; foi outra sorte a minha.
  11. Como que sinto um braço a empuxar-me invisível
  12. para ti... de ti outro a repulsar-me horrível.
  13. E mesmo assim és tu, que me olhas tão piedoso.

FAUSTO

  1. Pois se vês que sou eu, se vês que te amo, e ouso
  2. salvar-te, é vir comigo, e já.

MARGARIDA

  1. Lá para fora?

FAUSTO

  1. Sim, sim, para o ar livre.

MARGARIDA

  1. Ai, não, não. Nesta hora
  2. anda por lá a morte à minha espreita. Escuta!
  3. Avizinha-se; fico; e espero-a resoluta.
  4. Não movo pé daqui senão para a jazida
  5. onde nunca se acorda, e todo o mal se olvida.
  6. Adeus, e para sempre, amado Henrique! Parte!
  7. Vive!... Não poder eu agora acompanhar-te!

FAUSTO

  1. Podes, queira-lo tu. A porta está patente.

MARGARIDA

  1. Não me é dado sair. Perdida totalmente
  2. a esperança! Fugir! E para quê, se eu sei
  3. que me alcançavam logo? oh! não, não fugirei.
  4. Achavas que era dita andar de terra em terra
  5. a mendigar o pão, comigo própria em guerra?
  6. sempre em sustos? Quem foge a tantos mil espias?

FAUSTO

  1. Bem; morrerei contigo, uma vez que aporfias.

MARGARIDA

  1. Vem! Corre! Dá-te pressa!
  2. Acude ao teu filhinho!
  3. Sabes? a via é essa,
  4. que borda o ribeirinho.
  5. Remonta-lhe a corrente!
  6. Corta-o na ponte! Dás
  7. num matagal em frente!
  8. À esquerda encontrarás
  9. o açude de um moinho...
  10. É lá, é lá,
  11. que inda boiando está
  12. o inocentinho.
  13. Vai, salva-o, que és seu pai!
  14. vai! vai!

FAUSTO

  1. Deliras, Margarida! Ah! torna em ti! Desperta!
  2. Decide-te! Um só passo, ó cara, e estás liberta.

MARGARIDA

  1. Oh! quem já me dera passado este monte!
  2. A mãe lá em cima diviso sentada
  3. na penha escalvada, que fica defronte!
  4. Que mão regelada as tranças me aferra!
  5. Não posso; fujamos; assombra-me; aterra
  6. ver sempre defronte a mãe assentada
  7. na penha escalvada no cimo do monte.
  8. Meneia a fronte,
  9. sem que me veja.
  10. Não pestaneja.
  11. Que ar de quebranto!
  12. Se dormiu tanto!
  13. Dorme, e jamais há-de acordar:
  14. adormeceu para deixar
  15. o nosso amor em liberdade.
  16. Gostos da minha mocidade,
  17. quão breve tínheis de acabar!

FAUSTO

  1. Já que és surda à razão, e às súplicas do amor,
  2. levo-te à força.

( Deitando-lhe as mãos. )

MARGARIDA

  1. Pára! Afasta-te! Ousas pôr

FAUSTO

  1. Doce amor da minha alma, é dia; vês? é dia.

( Apontando-lhe para as grades da janela )

MARGARIDA

  1. Vejo; o meu derradeiro, o mesmo que devia
  2. sagrar o nosso enlace.
  3. Esconde a toda a gente
  4. que estiveste comigo.
  5. Adeus eternamente,
  6. pobre coroa minha!
  7. Hajamos esperança
  8. de tornar-nos a ver, mas não será na dança.
  9. ... Em cada rua povo! e povo! e povo! a praça
  10. apinhada em silêncio; o juiz que espedaça
  11. a vara, e aos pés ma atira! aquilo é o campanário,
  12. que lá me está chorando o dobre funerário!
  13. Tomam-me; atam-me as mãos; chegam-me ao cepo, sente
  14. cada um no seu colo o golpe ao meu pendente...
  15. Acabou-se o universo.

FAUSTO

  1. Antes não ter nascido
  2. se tinha de ver isto: ela, assim! eu perdido!

Cena II

MEFISTÓFELES da parte de fora da grade, os DITOS

MEFISTÓFELES

  1. Perdidos, se exauris em frases e terrores
  2. o instante de escapar.

( Entra )

  1. Os nosso corredores
  2. escarvam d’impaciência. A manhã rasga.

MARGARIDA (com grande terror))

  1. Aquilo
  2. que surde além do chão... quem é?! Vai despedi-lo,
  3. Ele, ele! que me quer! Tenta levar-me! Ousado
  4. vem-me inda perseguir neste lugar sagrado!

FAUSTO

  1. Viverás!

MARGARIDA (pondo os olhos no céu)

  1. Juiz Sumo, a ti me entrego.

MEFISTÓFELES (a Fausto)

  1. Vem,
  2. ou deixo-te com ela. Escolhe!

MARGARIDA

  1. Sumo Bem,
  2. Pai meu, que estás nos céus, salva-me, que eu sou tua
  3. Santos Anjos de Deus, levai-me à vista sua!
  4. Henrique, horror a ti minha alma purifique!

Cena III

Abre-se por cima o Empíreo . CORO DE ANJOS e OS DITOS

MEFISTÓFELES

  1. Sentenciada!

CORO DE ANJOS

  1. Salva!

MEFISTÓFELES (apossando-se de Fausto e levando-o consigo)

  1. És meu.

MARGARIDA (já nas alturas, para onde tem ido subindo)

  1. Henrique! Henrique!

Sobre este livro · 10 notas

Nota do tradutor
* Título da obra – FAUSTO – Este personagem extraordinário, misto de história e lenda, e trinta vezes tratado antes de Goethe por escritores alemães, ingleses, e franceses, já em crónicas, já em dramas, já em romances, parece ter vivido na segunda metade do século XV, e (conforme a opinião mais aceita) nas cercanias de Weimar, que foi a terra adoptiva do nosso poeta. São todos concordes em pintar Fausto como homem versado em todos os conhecimentos do seu tempo, inclusivamente na magia, e o qual, com ânsia de saciar as suas ambições, fizera doação da sua alma ao diabo, para este o servir em tudo por decurso de vinte e quatro anos. Estes vinte e quatro anos, levou-os ele sem envelhecer na mais desonrada vida; até que, findo o prazo fatal da escritura assinada com o seu sangue, o diabo, que em tudo o servira pontualmente, o levou consigo para os infernos. Aí está o que desde a puerícia de Goethe, lhe trabalhava no espírito, e lhe namorava o talento, desde que vira pela primeira vez, num teatro de títeres, a mais que popularíssima, plebeia representação, das aventuras do doutor João Fausto. E à fé que havia naquelas descomunais narrativas matéria, que, sendo tratada por um talento de primeira plana, não podia menos de cativar fortemente a atenção de todo o género de leitores. Ousou Goethe cometê-lo; e saiu-se realmente com a mais famigerada de todas as obras fantásticas; um livro sobre que se podem escrever muitos de fácil e justa crítica, mas que é ao mesmo tempo um tesoiro abundantíssimo, no qual, segundo a expressão de uma grande filosofa, se encontra tudo, e algumas coisas mais. Apesar de se haver saído triunfalmente de tal façanha, a ambição do poeta ainda de si para consigo se não dava por satisfeita. Muitos anos depois, e bem entrado já na velhice, retomou o assunto donde o tinha deixado, e compôs o seu novíssimo Fausto. Nesse, se a linguagem, se a riqueza lírica, icem (segundo afirmam tedescos) quilates ainda mais subidos, força é confessar que já o primitivo vigor se não encontra; e as extravagâncias absurdas são muito mais repugnantes ao bom senso; razão porque não empreendemos traduzi-lo. Quem ler atentamente a vida de Goethe descobrirá sem dúvida, que o especial interesse que ele achou no Fausto provinha da muita semelhança que havia entre o espírito e génio do cantor e do cantado: avidez insaciável de saber; tendência inata para o maravilhoso, para o misticismo, e ao mesmo tempo para o cepticismo, para a cabala e para as ciências ocultas; frenesi de gozar sensualmente, e orgulho sem limites. Isto não é decerto uma apoteose; mas vale mais do que se o fosse: é uma verdade.
Nota do tradutor
* – DIÁLOGO PRELIMINAR. – Sob este titulo encerrou o autor, não sabemos se o seu credo poético, se uma apologia, ou, pelo menos, desculpa antecipada das novidades da sua tragédia, se uma curiosa sátira do teatro alemão. Quer seja alguma destas coisas, quer o complexo de todas elas, como é mais provável, esta cena preambular é inegavelmente escrita com talento e graça, e não deixa de oferecer a espíritos meditativos alguns princípios literários de grande alcance.
Nota do tradutor
* – MEFISTÓFELES. – Nome, que (segundo a sua etimologia grega) parece significar inimigo da luz. Assim se chamava o demónio de Fausto nas antigas lendas alemãs; donde Goethe o fez passar para a sua tragédia. Diz Philarète Chasles: On assure que le Baron de Merk, ami de Goethe, a posé pour Méfistofélès.
Nota do tradutor
* – CENA III – As diatribes contra as ciências, blasonadas por Mefistófeles, saem das próprias convicções do autor. Este, depois de cursar a Universidade de Leipsick saiu desenganado da lógica, da teologia, da jurisprudência, da medicina, e dos mais estudos, que todos lhe pareceram imperfeitos, incompletos, e falazes; logomaquias impostoras mais, que verdadeiros conhecimentos.
Nota do tradutor
* – QUADRO VII – Oiçamos a Baronesa de Stael acerca desta cena: «Tem esta feiticeira ao seu mando uns animais meio macacos meio gatos. Esta cena pode a alguns respeitos haver-se em conta de paródia das feiticeiras na tragédia Macbeth de Shakespeare. As feiticeiras de Macbeth cantam palavras misteriosas, a que basta o seu soído descomunal, para fazerem impressão de sortilégio. As feiticeiras de Goethe proferem, não menos, palavras insólitas, abundantemente rimadas com artificiosa indústria. Estas palavras dispõem para que se folgue, até em razão do como vem extravagantemente construídas; por onde o diálogo, que a ser em prosa não passara de burlesco, assume índole mais alta pelo condão da poesia. «Quem ouve as falas cómicas daqueles gatos-macacos, cuida estar descobrindo quais seriam as ideias dos animais, se eles as pudessem expressar, e que impressões toscas e ridículas lhes produziriam a Natureza e os homens. Em dramas franceses pode dizer que não há exemplo de pilhérias assim, assentes no maravilhoso, portentos, feiticerias, transformações, et reliqua; um brincar com a natureza assim como na comédia de costumes se brinca com o homem. Mas para se achar graça no cómico desta espécie, não se lhe há-de aplicar o raciocínio: é tomar os recreios da fantasia como um passatempo livre e sem alvo. Pois mesmo assim, passatempos tais não são fáceis, porque das barreiras se fazem muitas vezes arrimos; e quando alguém em coisas de literatura se entrega a invenções sem termo, só a exorbitância e o rapto do talento é que lhe podem dar algum mérito. Consorciar extravagância com medíocre ninguém o perdoaria.»
Nota do tradutor
* – Na caverna da feiticeira, o caldeirão. – O caldeirão desta feiticeira está bem longe de desbancar ao das feiticeiras do grande Shakespeare no acto 4.° do Macbeth. A caverna mágica do poeta inglês e o que nela nos aparece é de muito mais subido quilate poético, sem que pretendamos com esta confissão abater o merecimento de Goethe. Para baixo de Shakespeare há ainda inumeráveis graus de talento gloriosos e invejáveis. (*) Raça atravessada de mono e gato, segundo Madame de Stael na sua análise ao Fausto. [Nas fontes digitais, esta nota está colocada no corpo do texto. NE]
Nota do tradutor
* – Noite de Santa Valburga. – Santa Valburga ou Valpurga (Walpurg em alemão) é figura de vulto no calendário dos católicos alemães; e não só lá, mas também em Inglaterra, na Holanda, na Bélgica, e em muitas terras de França, onde o povo lhe transtorna o nome de modos vários: Vaubourg, Gauburge, Gualbourg, Falbourg, e Avaugour. Foi abadessa de Heidenheim na Baviera, e faleceu no ano de 779, ou antes 780. A sua festa era geralmente celebrada no 1.° de Maio. A véspera ou vigília de Santa Valburga era de grande festança popular em Heidenheim. Por isso talvez é que o poeta se lembrou de chamar a esta balbúrdia de feiticeiras, duendes, e trasgos, Noite de Santa Valburga, sendo que a bem-aventurada nada tinha com bruxas nem demónios; assim como iam bem entre nós a véspera de S. João foi sempre famosa pelas moiras encantadas, vaticínios de amores, passagem pelo vime, virtudes das orvalhadas, etc.; coisas que nunca nem pela ideia passariam ao Santo do deserto, apesar de profeta. Muito bem nota o tradutor italiano Maffei, que o poeta alemão, como protestante que era, intitulou isto Noite de Valburga e não de Santa Valburga, segundo é costume entre os católicos. O importante, e o que faz ao nosso propósito é que na noite de 30 de Abril para o 1.° de Maio os camponeses, no pressuposto de que as feiticeiras andam por essas horas escuras fazendo invisivelmente as suas procissões e correrias pelos campos, giram com archotes e aos tiros por toda a parte, a ver se as disturbam e afugentam.
Nota do tradutor
* – Uma roda de velhos. – É natural que nestes cinco velhos o autor aludisse satiricamente a pessoas do seu tempo.
Nota do tradutor
* – ÁUREAS NÚPCIAS DE OBERON E TITÂNIA; INTERMESSO. – Por este próprio título se reconhece que o autor tinha presente ao espírito, quando compôs este quadro intercalar, o curiosíssimo e formoso drama Sonho de uma noite de S. João, de Shakespeare. Dos epigramas satíricos enfiados neste comprido ramal diz um comentador o seguinte: haviam eles sido na primitiva feitos para saírem no Almanaque das Musas, do ano de 1798, de Schiller, para complemento, e se não complemento, continuação dos xénios que haviam saído no Almanaque do ano anterior; não saíram porém então a lume, em razão de ter o Schiller assentado em dar de mão a polemicas literárias, ocasionadoras que sempre são de dissabores e arrependimentos, e miserabilíssimo desperdício das horas de oiro. Amis, ce temps qui fuit peut nous rendre immortels! Não sofria a Goethe o coração, depois de ter forjado, brunido, e ervado tantas frechas, perder-lhes assim o feitio; tornou a aperfeiçoar nelas, e cá as embutiu como pôde no seu Fausto.
Nota do tradutor
* – Campo. Dia enuviado. – Esta cena vem no original escrita em prosa; porquê? O tradutor, que não aventa solução possível a tal pergunta, passou-a para verso e entende que ela o merecia. O mais que pôde fazer, para observar até nisto um longe de fidelidade, foi abster-se de rimas e empregar só decassílabos, enfim arremedar, como quer que fosse, a prosa. FIM. Proibido todo e qualquer uso comercial. Se você pagou por esse livro VOCÊ FOI ROUBADO! Você tem este e muitos outros títulos GRÁTIS direto na fonte: www.eBooksBrasil.org ©2003 - Johann Wolfgang von Goethe Versão para eBook eBooksBrasil.org __________________ Julho 2003 eBookLibris © 2003 eBooksBrasil.org
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