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FaustoQuadro III
QuadroIII

Fora de portas. Variado campo. Ao fundo escureja a porta baixa e arqueada da cidade. À dir

537 versos


Cena I

Vem sucessivamente aparecendo OFICIAIS DE OFÍCIO, CRIADAS DE SERVIR, ESTUDANTES, BURGUESES, UM MENDIGO, UMA VELHA, DUAS SENHORITAS, UM RANCHO DE SOLDADOS, e PASSEANTES DE TODA A CASTA, que vem saindo da cidade, a espairecer-se .

( Diversos oficiais de ofício )

UM

  1. Por aí!

OUTRO

  1. Não é caminho
  2. para a casa do monteiro?

O PRIMEIRO

  1. Nós gostamos mais do oiteiro
  2. do Moinho.

UM OFICIAL

  1. Para a parte da cascata
  2. é que era o melhor recreio.

SEGUNDO

  1. Isso é caminho que mata,
  2. não passeio.

OUTRO

  1. Tu que votas? que é que fazes?

TERCEIRO

  1. Sei cá? vou c’os mais.

QUARTO

  1. Rapazes,
  2. é mister que alguém decida.

FAUSTO

  1. Toca a Burgdorf; é subida,
  2. mas vale a pena; verão
  3. belas moças de feição;
  4. cerveja de encher o papo;
  5. e para um chibante guapo,
  6. como todos vocês são,
  7. muito labrosta pimpão
  8. com quem se jogue o sopapo.

QUINTO

  1. Já te não lembram, farsola,
  2. as duas vezes que lá
  3. te derrearam as costas?
  4. Queres terceira! Se gostas
  5. sopeteia, vai; eu cá
  6. não caio na corriola.

UMA CRIADA DE SERVIR

  1. Escusas de aporfiar!
  2. Torno já para a cidade.

OUTRA

  1. Verás que o vamos achar
  2. além no olmedo a esperar
  3. comidinho de saudade.

A PRIMEIRA

  1. E eu com isso que aproveito?
  2. Se eu gostasse do sujeito,
  3. valeria a pena; assim
  4. só para o ver no terreiro
  5. ser teu constante parceiro
  6. no bailarico, isso sim!
  7. Olha que bem para mim!

OUTRA

  1. Vem decerto acompanhado.

A PRIMEIRA

  1. Sim?

A OUTRA

  1. Sim; disse-me que vinha
  2. com ele o tal Carapinha,
  3. que assim tinham ajustado.

UM ESTUDANTE (para outro)

  1. Ih! que pernas que elas tem!
  2. Parecem-me ventoinhas.
  3. Digo que estas cachopinhas
  4. dão calças à gente. Vem!
  5. Vem daí! mexe-te! avia,
  6. senão perdemo-lhe a pista.
  7. Eu cá dos gáudios na lista
  8. só acho três de valia:
  9. pinga forte, esperto fumo,
  10. e servas embonecradas.

UMA DONZELA BURGUESA (afirmando-se nos estudantes)

  1. Mocetões assim, no rumo
  2. das tristes de umas criadas!
  3. É força de indignidade!
  4. Não podiam conseguir,
  5. em mais nobre sociedade,
  6. objectos a quem servir?

SEGUNDO ESTUDANTE (ao primeiro)

  1. Forte correr! Pouco atrás
  2. vem duas tão bem vestidas,
  3. tão elegantes! Verás.
  4. São duas páscoas floridas.
  5. ... Ai ai ai, que vem com elas
  6. a minha bela das belas.
  7. Oh! que dita! A minha, a minha
  8. formosíssima vizinha,
  9. o meu anjo, o meu amor!
  10. co’o seu passo miudinho
  11. aposto seja o que for
  12. que nos alcança o ranchinho.

PRIMEIRO

  1. Que seca de emprazadoras!
  2. Anda daí, companheiro.
  3. Deixa-as lá. Não ’stão primeiro
  4. criadas, do que senhoras?
  5. Achavas agora graça
  6. em perder o rasto à caça
  7. que vai fugindo? Vem, vem!
  8. Olha que a mão que mais destra
  9. varre ao sábado, também
  10. domingo a amimar é mestra.

UM BURGUÊS

  1. O tal Burgomestre novo
  2. não me cheira. A nomeação
  3. fê-lo soberbo co’o povo:
  4. vara na mão do vilão.
  5. Que bem tem feito à cidade?
  6. O que eu vejo cada dia
  7. é crescerem sem piedade
  8. vexames e tirania.

UM MENDIGO

  1. Oh meus devotos senhores!
  2. Minhas santinhas floridas!
  3. Lançai vistas condoídas
  4. A quem só vos canta dores!!
  5. Co’a vossa bendita esmola
  6. calai-me as lamúrias tristes!
  7. A esmola que repartistes
  8. também voss’alma consola.
  9. Almas devotas e pias,
  10. haja festa para todos!
  11. Sobras dos ricos são bodos,
  12. e trégua a mil agonias.

OUTRO BURGUÊS

  1. Ao domingo, ou num dia de festa,
  2. não conheço delícia como esta
  3. de estar a gente
  4. nas suas terras,
  5. mansa e contente,
  6. forra a perigos,
  7. falando em guerras
  8. co’os seus amigos.
  9. Diz que a Sublime Porta
  10. tudo em barulho traz.
  11. E a nós que nos importa
  12. que haja lá guerra ou paz?
  13. A Turquia é no cabo do mundo.
  14. Onde há pois outro bem mais jucundo
  15. do que isto de estar
  16. um homem pregado
  17. na sua janela,
  18. vazando quod ores,
  19. e a ver pelo rio
  20. os barcos pintados
  21. de tanto feitio,
  22. que sobem, que descem,
  23. a remos e à vela!
  24. Corre o dia satisfeito;
  25. chega a noite regalada;
  26. vai-se ao leito
  27. prosseguir sonhando a eito
  28. nesta paz abençoada.

TERCEIRO BURGUÊS

  1. Assim digo eu também, senhor vizinho.
  2. Deixá-los lá matar-se os tais Turquescos,
  3. com tanto que haja paz neste cantinho,
  4. vivendo todos como bons Tudescos.

UMA VELHA (a uma Senhorita)

  1. Psiu! Como vai casquilha!
  2. Certo é que a mocidade
  3. é quem no mundo brilha.
  4. Ai, benza-te Deus, filha,
  5. que a tal graciosidade
  6. seria maravilha
  7. que resistisse alguém.
  8. É só esse desdém
  9. esse ar de soberbia
  10. que lhe não fica bem.
  11. Sorria!... Isso que tem?
  12. Sorria!... Vá... sorria!
  13. Assim. Ora inda bem.
  14. Não sabe? Tenho um dedo,
  15. que tudo me adivinha,
  16. e diz que esta rosinha
  17. nutre, mas em segredo,
  18. um bicho que a definha...
  19. amores, bem me entende,
  20. e eu sei quem eles são;
  21. e dar-lhe o que pretende
  22. está na minha mão.

SENHORITA

  1. Que impertinência! Oh Águeda,
  2. Deixe-me! tenha siso!
  3. E forte causticar!
  4. Para me governar
  5. conselhos não preciso,
  6. Se alguém nos visse agora
  7. aqui sós de palestra
  8. com esta bruxa-mestra...
  9. Suma-se, vá-se embora

( Aparte para as companheiras )

  1. E contudo o certo é
  2. que em noite de Santo André
  3. me amostrou distintamente
  4. a figura que há-de ter
  5. o futuro pretendente
  6. com quem me hei-de receber.

A OUTRA

  1. Tal qual, sem tirar nem pôr.
  2. Mandou-me o espelho mirar,
  3. e vi nele um militar,
  4. que há-de ser o meu amor.
  5. E que figura tão linda
  6. que ele era entre os mais soldados!
  7. Desde então, dez mil cuidados
  8. tenho posto em no buscar,
  9. e não o encontrei ainda.

SOLDADOS (cantando)

  1. Castelos roqueiros,
  2. e altivas donzelas
  3. de assalto levar;
  4. ¿onde há, bons guerreiros,
  5. coroas mais belas
  6. para um militar?
  7. Se é agra a vitória,
  8. a glória é sem par.
  9. Tocou-se a rebate.
  10. Vencer ou morrer!
  11. Voe-se, ao combate!
  12. Isto é que é viver.
  13. Caí, fortalezas!
  14. Rendei-vos, belezas!
  15. Triunfo e cantar!
  16. Se é agra a vitória,
  17. a glória é sem par.
  18. Ao som dos peloiros
  19. ceifaram-se os loiros.
  20. Avante, soldados!
  21. Por nós são os fados.
  22. Avante! marchar!

Cena II

A maior parte dos ditos, que giram ad libitum . FAUSTO, WAGNER ( Wagner é um amigo e discípulo do Doutor Fausto )

FAUSTO (conversando e caminhando com Wagner para o proscénio)

  1. Descoalharam-se os rios e ribeiros.
  2. Bem haja a primavera! Já nos viça
  3. por todas essas veigas esperança.
  4. O inverno, já caduco, aí vai buscando
  5. refúgio pelas serras. Pobre inverno!
  6. ver como ainda está baldando raivas
  7. por se vingar da fuga! e nós a rirmos
  8. dos tiros mortos, que de lá nos lança,
  9. granizo imbele, que realça os verdes,
  10. mal que um raio de sol os desmortalha.
  11. Por toda a parte desabrolham vidas.
  12. Que folgazão que é o sol! Como se alegra
  13. de entrajar de matiz a natureza!
  14. Como inda por aqui lhe minguam flores,
  15. supre-as com tanta gente pintalgada.

( Continua sempre a sair gente da cidade )

  1. Vira-te para trás! Desta eminência
  2. olha para a cidade; o formigueiro,
  3. que do escuro da porta vem surdindo!
  4. Não há quem neste dia não cobice
  5. vir ao campo assoalhar-se. Este alvoroço
  6. co’o ressurgir de Cristo, é clara mostra
  7. de outra ressurreição em todos eles.
  8. - Da casa-sepultura, - das canseiras
  9. da oficina ou do trato; - da estreiteza
  10. dessas vielas, que apelidam ruas,
  11. - do soturno dos templos, - é o instinto
  12. quem os promove à luz. Vê com que anseio
  13. se atira a turbamulta ao campo, às quintas!
  14. Que barcadas de gente jubilosa
  15. sobem, descem, transpõem a movediça
  16. veia do rio! Vê-me aquele bote
  17. além, além, o último; de cheio
  18. já mete a borda na água; até as sendas
  19. dos montes lá ao longe estão querendo
  20. quebrar-nos olhos co’as garridas cores
  21. do gentio que as peja. Já cá chega
  22. o estrondear da aldeia. O céu do povo,
  23. se há céu do povo, é isto; o rapazio,
  24. os homens feitos, tudo grita, salta,
  25. ri, tripudia. Aqui me sinto eu homem,
  26. e me é dado que o seja.

WAGNER

  1. Honra e proveito,
  2. Senhor Doutor, é o passear convosco.
  3. Mas eu, se dirigisse este passeio,
  4. não vinha para aqui; nunca achei graça
  5. ao que cheira e tresanda a grosseria.
  6. Este zangarrear cantigas toscas,
  7. estes jogos de bola, esta algazarra,
  8. tudo isso odeio; implica-me co’os nervos.
  9. Andam doidos; parecem-me possessos.
  10. Nem é cantar nem festa; é só balbúrdia.

VOZ

  1. Viva o bailarico!
  2. Já está no terreiro
  3. o nosso ovelheiro
  4. de graças mais rico;
  5. laços no pelico,
  6. flores por cimeiro.

CORO

  1. Dancemos, voemos à volta do til,
  2. rapazes e moças do balho gentil!
  3. Zina, zana, zana,
  4. zana, zana, zim.
  5. Rabeca magana,
  6. tocar sempre assim!

VOZ

  1. Tão sôfrego vinha
  2. que esbarrou no seio
  3. de esbelta mocinha,
  4. que assim reconveio:
  5. - «Olha que lorpinha
  6. «que ao balho nos veio!»

CORO

  1. Dancemos, voemos à roda do til,
  2. rapazes e moças do balho gentil!
  3. Zina, zana, zana,
  4. zana, zana, zim.
  5. Quem viu nunca, ai mana!
  6. ovelheiro assim?

VOZ

  1. E como vai dando
  2. co’os seus calcanhares!
  3. Gire, gire o bando!
  4. Saias pelos ares!
  5. Ai, já vão cansando;
  6. pendam-se aos seus pares!

CORO

  1. Dancemos, voemos à roda do til,
  2. rapazes e moças do balho gentil!
  3. Zina, zana, zana,
  4. zana, zana, zim.
  5. Apertar com gana
  6. braços de marfim

VOZ

  1. - «Não seja atrevido,
  2. «que eu não sou daquelas
  3. «com quem se tem rido»
  4. Baldadas cautelas!
  5. Co’o seu repelido
  6. fugiu dentre as belas.

CORO

  1. Dancemos, voemos à volta do til,
  2. rapazes e moças do balho gentil!
  3. Zina, zana, zana,
  4. zana, zana, zim.
  5. Rabeca magana,
  6. tocar sempre assim!

UM CAMPÓNIO VELHO (trazendo uma infusa, e dirigindo-se para Fausto)

  1. Guapa acção, sô Doutor! Num dia destes
  2. vir juntar-se co’a gente cá de fora,
  3. toda ignorante, um sábio dessa polpa!
  4. Aceite-nos portanto esta infusinha.
  5. Melhor não se encontrou. Que a pinga é fresca,
  6. isso é; mas o que importa mais que tudo
  7. é ser de boamente oferecida
  8. para que a beba em gosto, e tantos anos
  9. lhe acrescente de vida, quantas gotas
  10. contêm no bojo.

FAUSTO

  1. Bem hajais! Aceito
  2. o refresco oportuno; e correspondo
  3. com outro tanto afecto ao de vós todos.

( Reúne-se o povo à roda )

OUTRO CAMPÓNIO VELHO

  1. Quem nos dias ruins não faltou nunca,
  2. bem devia na festa aparecer-nos.
  3. Aqui está, vivo e são, mais de um salvado
  4. pelo pai do senhor, quando as malinas
  5. levavam tudo a eito; e a não ser ele,
  6. inda agora durava a epidemia.
  7. O senhor nesse tempo era um crianço,
  8. e mesmo assim andava em roda viva
  9. co’o paizinho por casa dos enfermos.
  10. Caíam como tordos os defuntos,
  11. e ele sempre de pé. Livrou de boa!
  12. Livrou? Quis de propósito salvá-lo,
  13. para bem nosso, o Salvador do mundo.

TODOS

  1. Viva, viva tempos largos
  2. quem nos põe à morte embargos!

FAUSTO

  1. Reservai para Deus as vossas graças!
  2. Quem ensina a salvar, quem salva é Ele.

( Vão-se todos para o fundo, e depois a pouco e pouco vão-se dispersando, ficando só Fausto e Wagner a conversar no proscénio. )

Cena III

FAUSTO e WAGNER, passeando

WAGNER

  1. Mestre! mestre! Que arroubo hão-de causar-lhe
  2. estas aclamações! Feliz quem saca
  3. do talento e saber tão belos frutos.
  4. Correm todos a vê-lo; os pais aos filhos
  5. o apontam; é o oráculo das turbas.
  6. Emudece a rabeca; a dança estaca;
  7. formam alas ao sábio; as carapuças
  8. voam pelo ar; e quase lhe ajoelham,
  9. nem que fora o viático.

FAUSTO

  1. Subamos
  2. um pouco mais a encosta, e poisaremos
  3. além na pedra.

( Sobem e sentam-se na pedra )

  1. Quanta vez, meu Wagner,
  2. não vim eu assentar-me aqui, sozinho,
  3. co’a mente desvairada, consumido
  4. do orar e de jejuns, rico de esp’ranças,
  5. firme na fé! Que choros e suspiros,
  6. que estorcer destas mãos, a ver se obtinha
  7. do poder sobre-humano o fim da peste!
  8. Estas aclamações soam-me a escárnio.
  9. Se bem me leras no íntimo, verias
  10. que nem filho nem pai merecem glórias.
  11. Meu pai era um sujeito obscuro, honrado,
  12. crendeirão, todo entregue a vãs teorias
  13. sobre o teor do enigma Natureza.
  14. Logrou ter seus prosélitos. Fechavam-se
  15. numa cozinha negra, onde tentavam
  16. toda a casta de récipes co’a mira
  17. na fusão dos contrários: Leão ruivo ,
  18. (peralvilho montês) ia a consórcio
  19. co’a tenra Flor de lis em banho morno;
  20. passados logo a fogo mais intenso,
  21. levantavam fervura ambos os noivos,
  22. cada qual em sua câmara, e se uniam,
  23. feitos os dois um só; bastava aquilo
  24. para surdir num íris de mil cores
  25. dentro no copo a juvenil princesa .
  26. ’Stava pronto o remédio; era tomá-lo,
  27. o enfermo ia puxando, e ninguém punha
  28. nem suspeição de culpa ao mata-sano.
  29. (Morre quem tem seus dias acabados!)
  30. Aqui verás com que infernais mistelas,
  31. socolor de atacar a epidemia,
  32. fomos por todas estas vizinhanças
  33. muito mais peste do que a própria peste.
  34. A quantos mil não propinei eu mesmo
  35. a bebida funesta! e vendo-os ir-se,
  36. ouvia ao mesmo tempo encomiados
  37. por coisa grande os brutos assassinos!

WAGNER

  1. Que aflição por tão pouco! A probidade
  2. que mais tem que exigir, quando se exerce
  3. honrada e pontualmente o que aprendemos?
  4. Enquanto foi rapaz, novel no ofício,
  5. ia-se com seu pai, que era o seu mestre,
  6. e exemplar que na cópia se revia.
  7. Cresceu, adiantou conhecimentos;
  8. nada, mais natural. Depois, seu filho,
  9. se o tiver, lançará mais longe a barra.

FAUSTO

  1. Que ditosa ilusão, supor que ao homem
  2. seja dado emergir do mar dos erros!
  3. O que é mister saber, ninguém no atinge,
  4. e o que se alcança para nada presta.

( Após alguns momentos de absorção: )

  1. Fora com tais tristezas, que destoam
  2. deste festivo dia!
  3. Cede, ó alma, aos rebates da alegria!
  1. Que lindeza de tarde! Olha os casais fronteiros
  2. engastados no verde, e como estão festeiros,
  3. banhados no esplendor do sol que vai fugindo!
  4. Mais um dia vivido, um dia mais que é findo.
  5. Vê-lo lá vai agora, o astro procriador,
  6. alegrar sucessivo, e encher de almo calor
  7. terras, céus, regiões, montes, cidades, povos,
  8. que em círculo sem termo avista sempre novos.
  9. E eu, eu, que o sigo assim co’os votos e co’a mente,
  10. sem asas, preso ao solo e escravo eternamente!
  11. Que delícia montar num raio vespertino,
  12. e acompanhar no curso ao grão farol divino,
  13. vendo sob os meus pés, na imensa profundeza,
  14. sem eu lhe ouvir nem som, girar a redondeza!
  15. montes a trajar sol; vales escurecidos;
  16. os regatos de prata, em oiro convertidos!
  17. Abismos e alcantis da serra mais bravia
  18. não serviram de empacho à minha etérea via.
  19. Oh! pasmo! aí vem o mar co’as mornas enseadas!
  20. Que é isto, ó sol! quem faz que aos olhos meus te evadas?
  21. Cansei-me eu de o seguir? Como? Por quê?
  22. Reassumo
  23. do querer força nova; hei-de alcançar-te, ó sumo
  24. voador luminoso, eterno fugitivo,
  25. fartar-me em ti de luz, vulcão perene-activo.
  26. O dia me precede; a noite me acompanha;
  27. por cima os céus; aos pés a undísona campanha.

( Pausa )

  1. Que aprazível sonhar! mas ah, que o sol no entanto
  2. cada vez mais se aparta e me desfaz o encanto.
  3. Nas sedes do infinito, ó alma, em vão te abrasas:
  4. prende-te ao solo o corpo; o corpo não tem asas...
  5. não tem, não pode ter. Mas todos, por instinto,
  6. já sentiram por certo o mesmo que em mim sinto:
  7. cobiças de transpor, anseios de subir.
  8. Quando na madrugada em giros se vê ir
  9. subindo pelo azul a esperta cotovia,
  10. que, já sumida à vista, inda o seu canto envia;
  11. quando as águias reaes, sobre os pinhais da serra
  12. pairam lá pela altura; e sobre o mar e a terra
  13. o grou retorna à pátria, ao ninho, aos seu amores...
  14. quem não inveja a sorte àqueles voadores?

WAGNER

  1. Quimeras, também eu tenho sonhado;
  2. mas dessa casta nunca. Isto de campos
  3. depressa me enfastia; o ser alado
  4. para quem gosta será bom, concedo,
  5. mas eu não tenho inveja ao passaredo.
  6. Tem lá comparação co’os gozos d’alma
  7. do que anda a viajar de livro em livro
  8. e de página em página! Há delícia
  9. para alegrar no inverno as seroadas
  10. como isto, que até dá calor aos membros?
  11. Desenrolando um nobre pergaminho,
  12. parece-me que a bem-aventurança
  13. toda se embebe em mim.

FAUSTO

  1. Sim. Por enquanto
  2. não aspiras a mais. Conheces uma
  3. das duas sedes d’alma; o céu te livre
  4. de sentires a outra.
  5. Albergo dentro
  6. dois espíritos, dois; forcejam ambos
  7. por se fugir: - um deles, voluptuoso,
  8. abraça a terra; os órgãos o segundam;
  9. o arraigam nela; - o outro, desdenhando
  10. este mundo, este pó, se evade em busca
  11. das regiões que nossos pais habitam.
  12. Ah! se entre o céu e a terra existem entes
  13. dotados de poder, eia! aos meus rogos,
  14. do doirado nevoeiro onde se ocultam
  15. descendam presto!
  16. Dessem-me uma capa
  17. de tal condão, que, em me embarcando nela,
  18. me visse por encanto em longes terras...
  19. não a trocava por nenhumas galas,
  20. nem por manto de rei.

WAGNER

  1. Tate! Não chame
  2. por essa indigna cáfila de trasgos
  3. que (toda a gente o sabe) andam sem termo
  4. a remoinhar-nos pelos ares turvos
  5. e a chover-nos a súbito desgraças.
  6. - Os do norte com dentes navalhados
  7. e lancetas por língua, a nós se atiram.
  8. - Os do nascente secam-nos, consumem
  9. o pulmão afanado. - Quando saltam
  10. do deserto africano às nossas terras,
  11. abrasam-nos. - Os d’oeste entram suaves,
  12. mas para logo nos afogam tudo:
  13. gados, campos, casais. Pérfidos todos,
  14. alegram-se de ouvir nosso desejo
  15. co’a mira sempre em convertê-lo em males;
  16. folgam de nos servir para burlar-nos;
  17. mensageiros do céu se nos inculcam,
  18. e com doçura angélica nos mentem.
  19. Mas, basta de passeio. Olhe que o dia
  20. já se quer despedir lá do horizonte,
  21. soltas as frias cãs; desce a cacimba.
  22. Nesta hora é que é delícia o lar caseiro.
  23. Não se demore!...
  24. Que pasmar é esse?
  25. que mira no crepúsculo?

( Avista-se um grande cão preto, que vai fazendo todos os movimentos indicados no diálogo )

FAUSTO

  1. Um cão preto!
  2. Não vês como anda à doida a espolinhar-se?
  3. agora pelo chão da sementeira,
  4. logo sobre o restolho?

WAGNER

  1. Há muito o vejo.
  2. mas isso que nos monta?

FAUSTO

  1. Observa, observa!
  2. Que julgas tu que seja aquele bruto?

WAGNER

  1. Eu sei? algum cão d’água que perdesse
  2. a peugada do dono, e ande, a seu modo,
  3. naquele desatino a procurá-lo.

FAUSTO

  1. Vê-lo em torno de nós caracolando
  2. de giro em giro, e cada vez mais perto?
  3. Se a vista me não mente, vai deixando
  4. rasto de lume após.

WAGNER

  1. O que eu só vejo
  2. é um canzarrão preto. Isso é no mestre
  3. alguma ilusão óptica.

FAUSTO

  1. Suspeito
  2. que anda a armar-nos em roda imperceptíveis
  3. mágicos laços com que os pés nos tolha.

WAGNER

  1. E eu entendo que a pobre da alimária
  2. o que faz é saltar, medrosa e incerta,
  3. por só nos ver a nós, em vez do dono,

FAUSTO

  1. O círculo se aperta; ei-lo conosco.

WAGNER

  1. Então já vê se é cão, ou se é fantasma.
  2. Ele grunhe, ele agacha-se de rojo,
  3. abana a cauda... Nada disso é novo;
  4. nunca vi cão que não fizesse o mesmo.

FAUSTO (falando ao cão)

  1. Boca, boca, vem cá!

WAGNER

  1. Tem graça o perro.
  2. Sempre gostei de um bruto desta casta:
  3. - Se o dono pára, assenta-se; - falou-lhe,
  4. salta-lhe doido em cima; - lambe e ladra;
  5. - busca o perdido; - aboca da corrente
  6. a bengala do amigo, e à mão lha torna.

FAUSTO

  1. Tens razão; sim, tudo isso é mero ensino,
  2. que não entendimento.

WAGNER

  1. A cães tão mestres
  2. não fica mal a um sábio o afeiçoar-se.
  3. Este caiu-lhe em graça, e não me admira:
  4. discípulo melhor não no há no mundo.

( Entram pela porta da cidade. )

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