Fora de portas. Variado campo. Ao fundo escureja a porta baixa e arqueada da cidade. À dir
537 versos
Cena I
Vem sucessivamente aparecendo OFICIAIS DE OFÍCIO, CRIADAS DE SERVIR, ESTUDANTES, BURGUESES, UM MENDIGO, UMA VELHA, DUAS SENHORITAS, UM RANCHO DE SOLDADOS, e PASSEANTES DE TODA A CASTA, que vem saindo da cidade, a espairecer-se .
( Diversos oficiais de ofício )
UM
- Por aí!
OUTRO
- Não é caminho
- para a casa do monteiro?
O PRIMEIRO
- Nós gostamos mais do oiteiro
- do Moinho.
UM OFICIAL
- Para a parte da cascata
- é que era o melhor recreio.
SEGUNDO
- Isso é caminho que mata,
- não passeio.
OUTRO
- Tu que votas? que é que fazes?
TERCEIRO
- Sei cá? vou c’os mais.
QUARTO
- Rapazes,
- é mister que alguém decida.
FAUSTO
- Toca a Burgdorf; é subida,
- mas vale a pena; verão
- belas moças de feição;
- cerveja de encher o papo;
- e para um chibante guapo,
- como todos vocês são,
- muito labrosta pimpão
- com quem se jogue o sopapo.
QUINTO
- Já te não lembram, farsola,
- as duas vezes que lá
- te derrearam as costas?
- Queres terceira! Se gostas
- sopeteia, vai; eu cá
- não caio na corriola.
UMA CRIADA DE SERVIR
- Escusas de aporfiar!
- Torno já para a cidade.
OUTRA
- Verás que o vamos achar
- além no olmedo a esperar
- comidinho de saudade.
A PRIMEIRA
- E eu com isso que aproveito?
- Se eu gostasse do sujeito,
- valeria a pena; assim
- só para o ver no terreiro
- ser teu constante parceiro
- no bailarico, isso sim!
- Olha que bem para mim!
OUTRA
- Vem decerto acompanhado.
A PRIMEIRA
- Sim?
A OUTRA
- Sim; disse-me que vinha
- com ele o tal Carapinha,
- que assim tinham ajustado.
UM ESTUDANTE (para outro)
- Ih! que pernas que elas tem!
- Parecem-me ventoinhas.
- Digo que estas cachopinhas
- dão calças à gente. Vem!
- Vem daí! mexe-te! avia,
- senão perdemo-lhe a pista.
- Eu cá dos gáudios na lista
- só acho três de valia:
- pinga forte, esperto fumo,
- e servas embonecradas.
UMA DONZELA BURGUESA (afirmando-se nos estudantes)
- Mocetões assim, no rumo
- das tristes de umas criadas!
- É força de indignidade!
- Não podiam conseguir,
- em mais nobre sociedade,
- objectos a quem servir?
SEGUNDO ESTUDANTE (ao primeiro)
- Forte correr! Pouco atrás
- vem duas tão bem vestidas,
- tão elegantes! Verás.
- São duas páscoas floridas.
- ... Ai ai ai, que vem com elas
- a minha bela das belas.
- Oh! que dita! A minha, a minha
- formosíssima vizinha,
- o meu anjo, o meu amor!
- co’o seu passo miudinho
- aposto seja o que for
- que nos alcança o ranchinho.
PRIMEIRO
- Que seca de emprazadoras!
- Anda daí, companheiro.
- Deixa-as lá. Não ’stão primeiro
- criadas, do que senhoras?
- Achavas agora graça
- em perder o rasto à caça
- que vai fugindo? Vem, vem!
- Olha que a mão que mais destra
- varre ao sábado, também
- domingo a amimar é mestra.
UM BURGUÊS
- O tal Burgomestre novo
- não me cheira. A nomeação
- fê-lo soberbo co’o povo:
- vara na mão do vilão.
- Que bem tem feito à cidade?
- O que eu vejo cada dia
- é crescerem sem piedade
- vexames e tirania.
UM MENDIGO
- Oh meus devotos senhores!
- Minhas santinhas floridas!
- Lançai vistas condoídas
- A quem só vos canta dores!!
- Co’a vossa bendita esmola
- calai-me as lamúrias tristes!
- A esmola que repartistes
- também voss’alma consola.
- Almas devotas e pias,
- haja festa para todos!
- Sobras dos ricos são bodos,
- e trégua a mil agonias.
OUTRO BURGUÊS
- Ao domingo, ou num dia de festa,
- não conheço delícia como esta
- de estar a gente
- nas suas terras,
- mansa e contente,
- forra a perigos,
- falando em guerras
- co’os seus amigos.
- Diz que a Sublime Porta
- tudo em barulho traz.
- E a nós que nos importa
- que haja lá guerra ou paz?
- A Turquia é no cabo do mundo.
- Onde há pois outro bem mais jucundo
- do que isto de estar
- um homem pregado
- na sua janela,
- vazando quod ores,
- e a ver pelo rio
- os barcos pintados
- de tanto feitio,
- que sobem, que descem,
- a remos e à vela!
- Corre o dia satisfeito;
- chega a noite regalada;
- vai-se ao leito
- prosseguir sonhando a eito
- nesta paz abençoada.
TERCEIRO BURGUÊS
- Assim digo eu também, senhor vizinho.
- Deixá-los lá matar-se os tais Turquescos,
- com tanto que haja paz neste cantinho,
- vivendo todos como bons Tudescos.
UMA VELHA (a uma Senhorita)
- Psiu! Como vai casquilha!
- Certo é que a mocidade
- é quem no mundo brilha.
- Ai, benza-te Deus, filha,
- que a tal graciosidade
- seria maravilha
- que resistisse alguém.
- É só esse desdém
- esse ar de soberbia
- que lhe não fica bem.
- Sorria!... Isso que tem?
- Sorria!... Vá... sorria!
- Assim. Ora inda bem.
- Não sabe? Tenho um dedo,
- que tudo me adivinha,
- e diz que esta rosinha
- nutre, mas em segredo,
- um bicho que a definha...
- amores, bem me entende,
- e eu sei quem eles são;
- e dar-lhe o que pretende
- está na minha mão.
SENHORITA
- Que impertinência! Oh Águeda,
- Deixe-me! tenha siso!
- E forte causticar!
- Para me governar
- conselhos não preciso,
- Se alguém nos visse agora
- aqui sós de palestra
- com esta bruxa-mestra...
- Suma-se, vá-se embora
( Aparte para as companheiras )
- E contudo o certo é
- que em noite de Santo André
- me amostrou distintamente
- a figura que há-de ter
- o futuro pretendente
- com quem me hei-de receber.
A OUTRA
- Tal qual, sem tirar nem pôr.
- Mandou-me o espelho mirar,
- e vi nele um militar,
- que há-de ser o meu amor.
- E que figura tão linda
- que ele era entre os mais soldados!
- Desde então, dez mil cuidados
- tenho posto em no buscar,
- e não o encontrei ainda.
SOLDADOS (cantando)
- Castelos roqueiros,
- e altivas donzelas
- de assalto levar;
- ¿onde há, bons guerreiros,
- coroas mais belas
- para um militar?
- Se é agra a vitória,
- a glória é sem par.
- Tocou-se a rebate.
- Vencer ou morrer!
- Voe-se, ao combate!
- Isto é que é viver.
- Caí, fortalezas!
- Rendei-vos, belezas!
- Triunfo e cantar!
- Se é agra a vitória,
- a glória é sem par.
- Ao som dos peloiros
- ceifaram-se os loiros.
- Avante, soldados!
- Por nós são os fados.
- Avante! marchar!
Cena II
A maior parte dos ditos, que giram ad libitum . FAUSTO, WAGNER ( Wagner é um amigo e discípulo do Doutor Fausto )
FAUSTO (conversando e caminhando com Wagner para o proscénio)
- Descoalharam-se os rios e ribeiros.
- Bem haja a primavera! Já nos viça
- por todas essas veigas esperança.
- O inverno, já caduco, aí vai buscando
- refúgio pelas serras. Pobre inverno!
- ver como ainda está baldando raivas
- por se vingar da fuga! e nós a rirmos
- dos tiros mortos, que de lá nos lança,
- granizo imbele, que realça os verdes,
- mal que um raio de sol os desmortalha.
- Por toda a parte desabrolham vidas.
- Que folgazão que é o sol! Como se alegra
- de entrajar de matiz a natureza!
- Como inda por aqui lhe minguam flores,
- supre-as com tanta gente pintalgada.
( Continua sempre a sair gente da cidade )
- Vira-te para trás! Desta eminência
- olha para a cidade; o formigueiro,
- que do escuro da porta vem surdindo!
- Não há quem neste dia não cobice
- vir ao campo assoalhar-se. Este alvoroço
- co’o ressurgir de Cristo, é clara mostra
- de outra ressurreição em todos eles.
- - Da casa-sepultura, - das canseiras
- da oficina ou do trato; - da estreiteza
- dessas vielas, que apelidam ruas,
- - do soturno dos templos, - é o instinto
- quem os promove à luz. Vê com que anseio
- se atira a turbamulta ao campo, às quintas!
- Que barcadas de gente jubilosa
- sobem, descem, transpõem a movediça
- veia do rio! Vê-me aquele bote
- além, além, o último; de cheio
- já mete a borda na água; até as sendas
- dos montes lá ao longe estão querendo
- quebrar-nos olhos co’as garridas cores
- do gentio que as peja. Já cá chega
- o estrondear da aldeia. O céu do povo,
- se há céu do povo, é isto; o rapazio,
- os homens feitos, tudo grita, salta,
- ri, tripudia. Aqui me sinto eu homem,
- e me é dado que o seja.
WAGNER
- Honra e proveito,
- Senhor Doutor, é o passear convosco.
- Mas eu, se dirigisse este passeio,
- não vinha para aqui; nunca achei graça
- ao que cheira e tresanda a grosseria.
- Este zangarrear cantigas toscas,
- estes jogos de bola, esta algazarra,
- tudo isso odeio; implica-me co’os nervos.
- Andam doidos; parecem-me possessos.
- Nem é cantar nem festa; é só balbúrdia.
VOZ
- Viva o bailarico!
- Já está no terreiro
- o nosso ovelheiro
- de graças mais rico;
- laços no pelico,
- flores por cimeiro.
CORO
- Dancemos, voemos à volta do til,
- rapazes e moças do balho gentil!
- Zina, zana, zana,
- zana, zana, zim.
- Rabeca magana,
- tocar sempre assim!
VOZ
- Tão sôfrego vinha
- que esbarrou no seio
- de esbelta mocinha,
- que assim reconveio:
- - «Olha que lorpinha
- «que ao balho nos veio!»
CORO
- Dancemos, voemos à roda do til,
- rapazes e moças do balho gentil!
- Zina, zana, zana,
- zana, zana, zim.
- Quem viu nunca, ai mana!
- ovelheiro assim?
VOZ
- E como vai dando
- co’os seus calcanhares!
- Gire, gire o bando!
- Saias pelos ares!
- Ai, já vão cansando;
- pendam-se aos seus pares!
CORO
- Dancemos, voemos à roda do til,
- rapazes e moças do balho gentil!
- Zina, zana, zana,
- zana, zana, zim.
- Apertar com gana
- braços de marfim
VOZ
- - «Não seja atrevido,
- «que eu não sou daquelas
- «com quem se tem rido»
- Baldadas cautelas!
- Co’o seu repelido
- fugiu dentre as belas.
CORO
- Dancemos, voemos à volta do til,
- rapazes e moças do balho gentil!
- Zina, zana, zana,
- zana, zana, zim.
- Rabeca magana,
- tocar sempre assim!
UM CAMPÓNIO VELHO (trazendo uma infusa, e dirigindo-se para Fausto)
- Guapa acção, sô Doutor! Num dia destes
- vir juntar-se co’a gente cá de fora,
- toda ignorante, um sábio dessa polpa!
- Aceite-nos portanto esta infusinha.
- Melhor não se encontrou. Que a pinga é fresca,
- isso é; mas o que importa mais que tudo
- é ser de boamente oferecida
- para que a beba em gosto, e tantos anos
- lhe acrescente de vida, quantas gotas
- contêm no bojo.
FAUSTO
- Bem hajais! Aceito
- o refresco oportuno; e correspondo
- com outro tanto afecto ao de vós todos.
( Reúne-se o povo à roda )
OUTRO CAMPÓNIO VELHO
- Quem nos dias ruins não faltou nunca,
- bem devia na festa aparecer-nos.
- Aqui está, vivo e são, mais de um salvado
- pelo pai do senhor, quando as malinas
- levavam tudo a eito; e a não ser ele,
- inda agora durava a epidemia.
- O senhor nesse tempo era um crianço,
- e mesmo assim andava em roda viva
- co’o paizinho por casa dos enfermos.
- Caíam como tordos os defuntos,
- e ele sempre de pé. Livrou de boa!
- Livrou? Quis de propósito salvá-lo,
- para bem nosso, o Salvador do mundo.
TODOS
- Viva, viva tempos largos
- quem nos põe à morte embargos!
FAUSTO
- Reservai para Deus as vossas graças!
- Quem ensina a salvar, quem salva é Ele.
( Vão-se todos para o fundo, e depois a pouco e pouco vão-se dispersando, ficando só Fausto e Wagner a conversar no proscénio. )
Cena III
FAUSTO e WAGNER, passeando
WAGNER
- Mestre! mestre! Que arroubo hão-de causar-lhe
- estas aclamações! Feliz quem saca
- do talento e saber tão belos frutos.
- Correm todos a vê-lo; os pais aos filhos
- o apontam; é o oráculo das turbas.
- Emudece a rabeca; a dança estaca;
- formam alas ao sábio; as carapuças
- voam pelo ar; e quase lhe ajoelham,
- nem que fora o viático.
FAUSTO
- Subamos
- um pouco mais a encosta, e poisaremos
- além na pedra.
( Sobem e sentam-se na pedra )
- Quanta vez, meu Wagner,
- não vim eu assentar-me aqui, sozinho,
- co’a mente desvairada, consumido
- do orar e de jejuns, rico de esp’ranças,
- firme na fé! Que choros e suspiros,
- que estorcer destas mãos, a ver se obtinha
- do poder sobre-humano o fim da peste!
- Estas aclamações soam-me a escárnio.
- Se bem me leras no íntimo, verias
- que nem filho nem pai merecem glórias.
- Meu pai era um sujeito obscuro, honrado,
- crendeirão, todo entregue a vãs teorias
- sobre o teor do enigma Natureza.
- Logrou ter seus prosélitos. Fechavam-se
- numa cozinha negra, onde tentavam
- toda a casta de récipes co’a mira
- na fusão dos contrários: Leão ruivo ,
- (peralvilho montês) ia a consórcio
- co’a tenra Flor de lis em banho morno;
- passados logo a fogo mais intenso,
- levantavam fervura ambos os noivos,
- cada qual em sua câmara, e se uniam,
- feitos os dois um só; bastava aquilo
- para surdir num íris de mil cores
- dentro no copo a juvenil princesa .
- ’Stava pronto o remédio; era tomá-lo,
- o enfermo ia puxando, e ninguém punha
- nem suspeição de culpa ao mata-sano.
- (Morre quem tem seus dias acabados!)
- Aqui verás com que infernais mistelas,
- socolor de atacar a epidemia,
- fomos por todas estas vizinhanças
- muito mais peste do que a própria peste.
- A quantos mil não propinei eu mesmo
- a bebida funesta! e vendo-os ir-se,
- ouvia ao mesmo tempo encomiados
- por coisa grande os brutos assassinos!
WAGNER
- Que aflição por tão pouco! A probidade
- que mais tem que exigir, quando se exerce
- honrada e pontualmente o que aprendemos?
- Enquanto foi rapaz, novel no ofício,
- ia-se com seu pai, que era o seu mestre,
- e exemplar que na cópia se revia.
- Cresceu, adiantou conhecimentos;
- nada, mais natural. Depois, seu filho,
- se o tiver, lançará mais longe a barra.
FAUSTO
- Que ditosa ilusão, supor que ao homem
- seja dado emergir do mar dos erros!
- O que é mister saber, ninguém no atinge,
- e o que se alcança para nada presta.
( Após alguns momentos de absorção: )
- Fora com tais tristezas, que destoam
- deste festivo dia!
- Cede, ó alma, aos rebates da alegria!
- Que lindeza de tarde! Olha os casais fronteiros
- engastados no verde, e como estão festeiros,
- banhados no esplendor do sol que vai fugindo!
- Mais um dia vivido, um dia mais que é findo.
- Vê-lo lá vai agora, o astro procriador,
- alegrar sucessivo, e encher de almo calor
- terras, céus, regiões, montes, cidades, povos,
- que em círculo sem termo avista sempre novos.
- E eu, eu, que o sigo assim co’os votos e co’a mente,
- sem asas, preso ao solo e escravo eternamente!
- Que delícia montar num raio vespertino,
- e acompanhar no curso ao grão farol divino,
- vendo sob os meus pés, na imensa profundeza,
- sem eu lhe ouvir nem som, girar a redondeza!
- montes a trajar sol; vales escurecidos;
- os regatos de prata, em oiro convertidos!
- Abismos e alcantis da serra mais bravia
- não serviram de empacho à minha etérea via.
- Oh! pasmo! aí vem o mar co’as mornas enseadas!
- Que é isto, ó sol! quem faz que aos olhos meus te evadas?
- Cansei-me eu de o seguir? Como? Por quê?
- Reassumo
- do querer força nova; hei-de alcançar-te, ó sumo
- voador luminoso, eterno fugitivo,
- fartar-me em ti de luz, vulcão perene-activo.
- O dia me precede; a noite me acompanha;
- por cima os céus; aos pés a undísona campanha.
( Pausa )
- Que aprazível sonhar! mas ah, que o sol no entanto
- cada vez mais se aparta e me desfaz o encanto.
- Nas sedes do infinito, ó alma, em vão te abrasas:
- prende-te ao solo o corpo; o corpo não tem asas...
- não tem, não pode ter. Mas todos, por instinto,
- já sentiram por certo o mesmo que em mim sinto:
- cobiças de transpor, anseios de subir.
- Quando na madrugada em giros se vê ir
- subindo pelo azul a esperta cotovia,
- que, já sumida à vista, inda o seu canto envia;
- quando as águias reaes, sobre os pinhais da serra
- pairam lá pela altura; e sobre o mar e a terra
- o grou retorna à pátria, ao ninho, aos seu amores...
- quem não inveja a sorte àqueles voadores?
WAGNER
- Quimeras, também eu tenho sonhado;
- mas dessa casta nunca. Isto de campos
- depressa me enfastia; o ser alado
- para quem gosta será bom, concedo,
- mas eu não tenho inveja ao passaredo.
- Tem lá comparação co’os gozos d’alma
- do que anda a viajar de livro em livro
- e de página em página! Há delícia
- para alegrar no inverno as seroadas
- como isto, que até dá calor aos membros?
- Desenrolando um nobre pergaminho,
- parece-me que a bem-aventurança
- toda se embebe em mim.
FAUSTO
- Sim. Por enquanto
- não aspiras a mais. Conheces uma
- das duas sedes d’alma; o céu te livre
- de sentires a outra.
- Albergo dentro
- dois espíritos, dois; forcejam ambos
- por se fugir: - um deles, voluptuoso,
- abraça a terra; os órgãos o segundam;
- o arraigam nela; - o outro, desdenhando
- este mundo, este pó, se evade em busca
- das regiões que nossos pais habitam.
- Ah! se entre o céu e a terra existem entes
- dotados de poder, eia! aos meus rogos,
- do doirado nevoeiro onde se ocultam
- descendam presto!
- Dessem-me uma capa
- de tal condão, que, em me embarcando nela,
- me visse por encanto em longes terras...
- não a trocava por nenhumas galas,
- nem por manto de rei.
WAGNER
- Tate! Não chame
- por essa indigna cáfila de trasgos
- que (toda a gente o sabe) andam sem termo
- a remoinhar-nos pelos ares turvos
- e a chover-nos a súbito desgraças.
- - Os do norte com dentes navalhados
- e lancetas por língua, a nós se atiram.
- - Os do nascente secam-nos, consumem
- o pulmão afanado. - Quando saltam
- do deserto africano às nossas terras,
- abrasam-nos. - Os d’oeste entram suaves,
- mas para logo nos afogam tudo:
- gados, campos, casais. Pérfidos todos,
- alegram-se de ouvir nosso desejo
- co’a mira sempre em convertê-lo em males;
- folgam de nos servir para burlar-nos;
- mensageiros do céu se nos inculcam,
- e com doçura angélica nos mentem.
- Mas, basta de passeio. Olhe que o dia
- já se quer despedir lá do horizonte,
- soltas as frias cãs; desce a cacimba.
- Nesta hora é que é delícia o lar caseiro.
- Não se demore!...
- Que pasmar é esse?
- que mira no crepúsculo?
( Avista-se um grande cão preto, que vai fazendo todos os movimentos indicados no diálogo )
FAUSTO
- Um cão preto!
- Não vês como anda à doida a espolinhar-se?
- agora pelo chão da sementeira,
- logo sobre o restolho?
WAGNER
- Há muito o vejo.
- mas isso que nos monta?
FAUSTO
- Observa, observa!
- Que julgas tu que seja aquele bruto?
WAGNER
- Eu sei? algum cão d’água que perdesse
- a peugada do dono, e ande, a seu modo,
- naquele desatino a procurá-lo.
FAUSTO
- Vê-lo em torno de nós caracolando
- de giro em giro, e cada vez mais perto?
- Se a vista me não mente, vai deixando
- rasto de lume após.
WAGNER
- O que eu só vejo
- é um canzarrão preto. Isso é no mestre
- alguma ilusão óptica.
FAUSTO
- Suspeito
- que anda a armar-nos em roda imperceptíveis
- mágicos laços com que os pés nos tolha.
WAGNER
- E eu entendo que a pobre da alimária
- o que faz é saltar, medrosa e incerta,
- por só nos ver a nós, em vez do dono,
FAUSTO
- O círculo se aperta; ei-lo conosco.
WAGNER
- Então já vê se é cão, ou se é fantasma.
- Ele grunhe, ele agacha-se de rojo,
- abana a cauda... Nada disso é novo;
- nunca vi cão que não fizesse o mesmo.
FAUSTO (falando ao cão)
- Boca, boca, vem cá!
WAGNER
- Tem graça o perro.
- Sempre gostei de um bruto desta casta:
- - Se o dono pára, assenta-se; - falou-lhe,
- salta-lhe doido em cima; - lambe e ladra;
- - busca o perdido; - aboca da corrente
- a bengala do amigo, e à mão lha torna.
FAUSTO
- Tens razão; sim, tudo isso é mero ensino,
- que não entendimento.
WAGNER
- A cães tão mestres
- não fica mal a um sábio o afeiçoar-se.
- Este caiu-lhe em graça, e não me admira:
- discípulo melhor não no há no mundo.
( Entram pela porta da cidade. )