Floresta no meio de fraguedo, escancarado em cavernas. De uma rocha alta, precipita-se uma
177 versos
Cena I
FAUSTO (só, meditabundo, encostado a uma árvore, com os olhos no céu. Luar encoberto. Relampeja. Zune o vento.)
- Tudo obtive de ti, sumo, inefável Ente.
- Entrevi-te no mundo a face refulgente.
- Sou rei da criação; sinto-a e desfruto-a. Dás-me
- não só que a observe à flor e em seus prodígios pasme;
- sondo-a, leio-a por dentro, assim, como leria
- no peito de um amigo. Intendo, da harmonia
- que une tantos milhões de seres passageiros,
- ser tudo uma família, e irmãos meus verdadeiros
- o mudo arbusto, o ar, as águas.
( Cresce o temporal e ouve-se ao longe o desabar de um pinheiro )
- Quando a mata
- ruge co’o temporal, e o pinheiro-magnata
- rui fracassando em torno as arvores, e atroa
- co’a trovejante queda o monte que reboa,
( Encaminhando-se para uma caverna )
- forças-me co’o terror a entrar na alta caverna,
- onde me descortino eu próprio à luz interna,
- e no fundo do peito, aberto, omnipotente
- mil prodígios descubro incógnitos à mente.
( Após um espaço de contemplação muda, amansa e cessa a tormenta. A lua rompe brilhante dentre as nuvens, e alumia a cena. )
- Desfez-se o temporal: ergue-se clara a lua!
- O mato gotejante, a penedia nua
- vem-me representar, num alvor prateado,
- miragens da saudade, as cenas do passado.
( Descendo da caverna, passeia na mata )
- Ai! que não caiba um gozo, estreme, verdadeiro,
- nesta vida falaz! Deste um companheiro,
- que onde sinto endeusar-me, acorre sempre frio,
- impassível, cruel, a recalcar-me o brio,
- a provar-me o meu nada; um monstro, que eu forcejo
- para afastar do lado e sempre ao lado vejo.
- Se me choves teus dons, ele, co’um leve acento
- da sua voz maldita anula-os num momento;
- ele mal que vislumbra aos olhos meus o belo,
- dentro no coração me ateia um Mongibelo.
- Que vida! angústias sempre: ora a almejar por gozo,
- ora inquieto na posse, e do almejar saudoso!
Cena II
FAUSTO e MEFISTÓFELES, que desceu rapidamente no meio de um relâmpago desde o alto das rochas.
MEFISTÓFELES (chegando-se a Fausto)
- Com que então, já cansou? Depois da faina
- da boa vida que levámos juntos,
- tornou-se a divertir? De tempo a tempo,
- bom é que se descanse um poucochinho.
- Isso é que abre o apetite e aumenta as forças.
- Vamo-nos procurar mais novidades.
FAUSTO
- Não tens mais que fazer, que vir tentar-me
- nas horas boas?
MEFISTÓFELES
- Co’a melhor vontade
- o entrego a si, se quer; declare-o franco:
- vai-se-me um sem-sabor, grazina e doido;
- forte perda! levar o dia inteiro
- sempre a servi-lo, sem lhe ler nas trombas
- nunca jamais se está ou não contente!
FAUSTO
- Bravo! O diabo sempre a atanazar-me,
- e quer que inda por cima eu lho agradeça!
MEFISTÓFELES
- Que seria de ti, filho do barro,
- se não fosse eu, que te ando há tanto tempo
- a curar de esquentadas fantasias?
- Tinhas-te já safado deste mundo,
- há que folhas!
- Não sei que te aproveita
- o andar poisando, à laia de coruja,
- neste lapedo bronco; e o pró que tiras
- de alimentar-te como o sapo inerte
- do bafio de musgo e covas húmidas.
- Que belo, que aprazível passatempo!
- Sabes o que te eu digo? é que inda alojas
- nesse corpo o Doutor.
FAUSTO
- Não, que nem sonhas
- que de força vivaz neste ermo alpestre
- já tenho haurido em mim; se a bem souberas,
- tão demo és tu, que por furtar-ma davas
- trinta voltas no ar.
MEFISTÓFELES (ironicamente)
- Se há gosto, é isso!:
- Velar a noite à chuva pelos brejos,
- abraçar com volúpia o céu e a terra,
- empantufar-se a crer-se divindade,
- fossar o mundo à cata do secreto,
- volver no caco a obra dos seis dias,
- sonhando-se Factor Arqui-potente...
- não sei de quê, finando-se de amores
- por quanto objecto avista, e desvestido
- o invólucro terrestre, achar-se ao cabo
- de tantas intuições maravilhosas,
- a fazer... a fazer...
- Cala-te, boca!
FAUSTO (indignado)
- Passa fora!
MEFISTÓFELES
- Isso mesmo: um passa fora
- é a única resposta a quem profana
- ouvidos castos, mencionando... coisas...
( Sorrindo )
- Mas vá lá: se o divertem mentirinhas
- pregadas a si próprio, outorgo vénia
- como seja com regra. Acho contudo
- que o meu Doutor, nesse papel sublime
- depressa há-de cansar.
( Notando que Fausto lhe trejeita de agastado )
- Ei-lo assomado
- já outra vez! Se vai por essa via,
- cedo recai na insânia e nos terrores.
( Mudando de tom )
- Falemos de outro assunto. O seu benzinho,
- sabe o que está fazendo? Está sentada,
- no seu quarto, sozinha, o peito em ânsias,
- o pensamento a monte; a sua teima
- é toda o sujeitinho; e quer-lhe! quer-lhe
- que não há mais dizer. Valha a verdade,
- a paixão do Doutor teve rompantes
- de furiosa lava; incendiou-a,
- mas coalhou pouco a pouco, e está já fria.
- Quer-me a mim parecer, que o potentado
- deste reino silvestre acertaria
- em no abdicar, e recolher-se amante
- ao seio da gentil desconsolada.
- Como ela vai fiando as horas longas!
- Encostada à janela, agora mesmo
- já está olhando o caminhar das nuvens
- para a muralha antiga da cidade.
- Daqui lhe escuto a usada cantilena:
- Tomara ser passarinho.
- para ir ter onde eu desejo;
- depressa formara as asas,
- que as penas são de sobejo.
- Nisto de sol a sol consome os dias;
- nisto de sol a sol desvela as noites.
- Se alguma rara vez lhe assoma às faces
- vislumbre de alegria, as mais das vezes
- de mortal pesadumbre as tem nubladas;
- ora mostra no rosto mal enxuto
- sinais de ter chorado, ora parece
- a poder de cansada estar serena...
- mas sempre namorada.
FAUSTO
- Ah, cobra, cobra!
MEFISTÓFELES (à parte sorrindo)
- Cáspite! enrodilhei-te.
FAUSTO
- Amaldiçoado!
- Sume-te! e nunca mais boquejes nela.
- Não tornes a acender-me nos sentidos
- inda revoltos o desejo infrene
- de ter nos braços tão suave prenda!
MEFISTÓFELES
- Mas enfim que resolve? A rapariga
- julga-o fugido... e não se engana.
FAUSTO
- Como,
- se eu lhe vivo tão perto, e não na esqueço,
- nem querendo esquecê-la o poderia,
- por maior que entre nós fosse a distância
- Ouve! É tanto que até, quando a imagino
- ajoelhada e contrita à mesa santa
- ao corpo consagrado tenho inveja
MEFISTÓFELES
- Como eu, quando imagino o meu amigo
- pascendo rosas... no amorável horto
- de dois gémeos que eu sei.
( Apontando para o selo. )
FAUSTO
- Fora, alcoveto!
MEFISTÓFELES
- Bom; insulta-me, e eu rio. O fabricante,
- quando inventou rapaz e rapariga,
- tomou a si o deparar-lhe ensejos.
( Ironicamente a Fausto )
- Coitado! Faz-me dó, que em realidade
- ir para o quarto dela ou para a forca
- vem quase a dar na mesma!
FAUSTO
- É céu na vida
- sentir-me entre seus braços, repassado
- no calor de tal seio... e todavia
- mal sabes como até nesses momentos
- co’o pensar que a desgraço estou penando!...
- Eu sou um foragido, um pária, um monstro,
- que, sem ver norte, sem gozar descanso,
- se despenha caudal, de fraga em fraga,
- via do abismo; e ela! uma criança
- tão simplesinha, que trocara o mundo
- por se ver, num recôncavo dos Alpes,
- ditosa dona de um feliz tugúrio,
- onde sempre a lidar, fosse rainha.
( Falando consigo mesmo )
- Não te bastou, vil réprobo, a jactância
- de arrasar o universo, inda por cima
- quiseste destruir a paz deste anjo.
- Os caídos no inferno inda eram poucos?
- Sus, sus, diabo! O teu auxílio imploro!
- Ajuda-me a encurtar este suplício!
- O que há-de ser que seja! A sorte dela
- despenhe-se na minha, e pereçamos!
MEFISTÓFELES
- Ih, como torna a arder! Vá daí, tonto,
- vá consolá-la! Um néscio destes cuida,
- se não vê logo furo, estar perdido.
- Com gente denodada é que me eu quero.
- Pontos há em que o julgo outro diabo;
- mas diabo que logo desanima
- é coisa que eu não levo à paciência.