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FaustoQuadro XIV
QuadroXIV

Floresta no meio de fraguedo, escancarado em cavernas. De uma rocha alta, precipita-se uma

177 versos


Cena I

FAUSTO (só, meditabundo, encostado a uma árvore, com os olhos no céu. Luar encoberto. Relampeja. Zune o vento.)

  1. Tudo obtive de ti, sumo, inefável Ente.
  2. Entrevi-te no mundo a face refulgente.
  3. Sou rei da criação; sinto-a e desfruto-a. Dás-me
  4. não só que a observe à flor e em seus prodígios pasme;
  5. sondo-a, leio-a por dentro, assim, como leria
  6. no peito de um amigo. Intendo, da harmonia
  7. que une tantos milhões de seres passageiros,
  8. ser tudo uma família, e irmãos meus verdadeiros
  9. o mudo arbusto, o ar, as águas.

( Cresce o temporal e ouve-se ao longe o desabar de um pinheiro )

  1. Quando a mata
  2. ruge co’o temporal, e o pinheiro-magnata
  3. rui fracassando em torno as arvores, e atroa
  4. co’a trovejante queda o monte que reboa,

( Encaminhando-se para uma caverna )

  1. forças-me co’o terror a entrar na alta caverna,
  2. onde me descortino eu próprio à luz interna,
  3. e no fundo do peito, aberto, omnipotente
  4. mil prodígios descubro incógnitos à mente.

( Após um espaço de contemplação muda, amansa e cessa a tormenta. A lua rompe brilhante dentre as nuvens, e alumia a cena. )

  1. Desfez-se o temporal: ergue-se clara a lua!
  2. O mato gotejante, a penedia nua
  3. vem-me representar, num alvor prateado,
  4. miragens da saudade, as cenas do passado.

( Descendo da caverna, passeia na mata )

  1. Ai! que não caiba um gozo, estreme, verdadeiro,
  2. nesta vida falaz! Deste um companheiro,
  3. que onde sinto endeusar-me, acorre sempre frio,
  4. impassível, cruel, a recalcar-me o brio,
  5. a provar-me o meu nada; um monstro, que eu forcejo
  6. para afastar do lado e sempre ao lado vejo.
  1. Se me choves teus dons, ele, co’um leve acento
  2. da sua voz maldita anula-os num momento;
  3. ele mal que vislumbra aos olhos meus o belo,
  4. dentro no coração me ateia um Mongibelo.
  1. Que vida! angústias sempre: ora a almejar por gozo,
  2. ora inquieto na posse, e do almejar saudoso!

Cena II

FAUSTO e MEFISTÓFELES, que desceu rapidamente no meio de um relâmpago desde o alto das rochas.

MEFISTÓFELES (chegando-se a Fausto)

  1. Com que então, já cansou? Depois da faina
  2. da boa vida que levámos juntos,
  3. tornou-se a divertir? De tempo a tempo,
  4. bom é que se descanse um poucochinho.
  5. Isso é que abre o apetite e aumenta as forças.
  6. Vamo-nos procurar mais novidades.

FAUSTO

  1. Não tens mais que fazer, que vir tentar-me
  2. nas horas boas?

MEFISTÓFELES

  1. Co’a melhor vontade
  2. o entrego a si, se quer; declare-o franco:
  3. vai-se-me um sem-sabor, grazina e doido;
  4. forte perda! levar o dia inteiro
  5. sempre a servi-lo, sem lhe ler nas trombas
  6. nunca jamais se está ou não contente!

FAUSTO

  1. Bravo! O diabo sempre a atanazar-me,
  2. e quer que inda por cima eu lho agradeça!

MEFISTÓFELES

  1. Que seria de ti, filho do barro,
  2. se não fosse eu, que te ando há tanto tempo
  3. a curar de esquentadas fantasias?
  4. Tinhas-te já safado deste mundo,
  5. há que folhas!
  6. Não sei que te aproveita
  7. o andar poisando, à laia de coruja,
  8. neste lapedo bronco; e o pró que tiras
  9. de alimentar-te como o sapo inerte
  10. do bafio de musgo e covas húmidas.
  11. Que belo, que aprazível passatempo!
  12. Sabes o que te eu digo? é que inda alojas
  13. nesse corpo o Doutor.

FAUSTO

  1. Não, que nem sonhas
  2. que de força vivaz neste ermo alpestre
  3. já tenho haurido em mim; se a bem souberas,
  4. tão demo és tu, que por furtar-ma davas
  5. trinta voltas no ar.

MEFISTÓFELES (ironicamente)

  1. Se há gosto, é isso!:
  2. Velar a noite à chuva pelos brejos,
  3. abraçar com volúpia o céu e a terra,
  4. empantufar-se a crer-se divindade,
  5. fossar o mundo à cata do secreto,
  6. volver no caco a obra dos seis dias,
  7. sonhando-se Factor Arqui-potente...
  8. não sei de quê, finando-se de amores
  9. por quanto objecto avista, e desvestido
  10. o invólucro terrestre, achar-se ao cabo
  11. de tantas intuições maravilhosas,
  12. a fazer... a fazer...
  13. Cala-te, boca!

FAUSTO (indignado)

  1. Passa fora!

MEFISTÓFELES

  1. Isso mesmo: um passa fora
  2. é a única resposta a quem profana
  3. ouvidos castos, mencionando... coisas...

( Sorrindo )

  1. Mas vá lá: se o divertem mentirinhas
  2. pregadas a si próprio, outorgo vénia
  3. como seja com regra. Acho contudo
  4. que o meu Doutor, nesse papel sublime
  5. depressa há-de cansar.

( Notando que Fausto lhe trejeita de agastado )

  1. Ei-lo assomado
  2. já outra vez! Se vai por essa via,
  3. cedo recai na insânia e nos terrores.

( Mudando de tom )

  1. Falemos de outro assunto. O seu benzinho,
  2. sabe o que está fazendo? Está sentada,
  3. no seu quarto, sozinha, o peito em ânsias,
  4. o pensamento a monte; a sua teima
  5. é toda o sujeitinho; e quer-lhe! quer-lhe
  6. que não há mais dizer. Valha a verdade,
  7. a paixão do Doutor teve rompantes
  8. de furiosa lava; incendiou-a,
  9. mas coalhou pouco a pouco, e está já fria.
  10. Quer-me a mim parecer, que o potentado
  11. deste reino silvestre acertaria
  12. em no abdicar, e recolher-se amante
  13. ao seio da gentil desconsolada.
  14. Como ela vai fiando as horas longas!
  15. Encostada à janela, agora mesmo
  16. já está olhando o caminhar das nuvens
  17. para a muralha antiga da cidade.
  18. Daqui lhe escuto a usada cantilena:
  1. Tomara ser passarinho.
  2. para ir ter onde eu desejo;
  3. depressa formara as asas,
  4. que as penas são de sobejo.
  1. Nisto de sol a sol consome os dias;
  2. nisto de sol a sol desvela as noites.
  3. Se alguma rara vez lhe assoma às faces
  4. vislumbre de alegria, as mais das vezes
  5. de mortal pesadumbre as tem nubladas;
  6. ora mostra no rosto mal enxuto
  7. sinais de ter chorado, ora parece
  8. a poder de cansada estar serena...
  9. mas sempre namorada.

FAUSTO

  1. Ah, cobra, cobra!

MEFISTÓFELES (à parte sorrindo)

  1. Cáspite! enrodilhei-te.

FAUSTO

  1. Amaldiçoado!
  2. Sume-te! e nunca mais boquejes nela.
  3. Não tornes a acender-me nos sentidos
  4. inda revoltos o desejo infrene
  5. de ter nos braços tão suave prenda!

MEFISTÓFELES

  1. Mas enfim que resolve? A rapariga
  2. julga-o fugido... e não se engana.

FAUSTO

  1. Como,
  2. se eu lhe vivo tão perto, e não na esqueço,
  3. nem querendo esquecê-la o poderia,
  4. por maior que entre nós fosse a distância
  5. Ouve! É tanto que até, quando a imagino
  6. ajoelhada e contrita à mesa santa
  7. ao corpo consagrado tenho inveja

MEFISTÓFELES

  1. Como eu, quando imagino o meu amigo
  2. pascendo rosas... no amorável horto
  3. de dois gémeos que eu sei.

( Apontando para o selo. )

FAUSTO

  1. Fora, alcoveto!

MEFISTÓFELES

  1. Bom; insulta-me, e eu rio. O fabricante,
  2. quando inventou rapaz e rapariga,
  3. tomou a si o deparar-lhe ensejos.

( Ironicamente a Fausto )

  1. Coitado! Faz-me dó, que em realidade
  2. ir para o quarto dela ou para a forca
  3. vem quase a dar na mesma!

FAUSTO

  1. É céu na vida
  2. sentir-me entre seus braços, repassado
  3. no calor de tal seio... e todavia
  4. mal sabes como até nesses momentos
  5. co’o pensar que a desgraço estou penando!...
  6. Eu sou um foragido, um pária, um monstro,
  7. que, sem ver norte, sem gozar descanso,
  8. se despenha caudal, de fraga em fraga,
  9. via do abismo; e ela! uma criança
  10. tão simplesinha, que trocara o mundo
  11. por se ver, num recôncavo dos Alpes,
  12. ditosa dona de um feliz tugúrio,
  13. onde sempre a lidar, fosse rainha.

( Falando consigo mesmo )

  1. Não te bastou, vil réprobo, a jactância
  2. de arrasar o universo, inda por cima
  3. quiseste destruir a paz deste anjo.
  4. Os caídos no inferno inda eram poucos?
  5. Sus, sus, diabo! O teu auxílio imploro!
  6. Ajuda-me a encurtar este suplício!
  7. O que há-de ser que seja! A sorte dela
  8. despenhe-se na minha, e pereçamos!

MEFISTÓFELES

  1. Ih, como torna a arder! Vá daí, tonto,
  2. vá consolá-la! Um néscio destes cuida,
  3. se não vê logo furo, estar perdido.
  4. Com gente denodada é que me eu quero.
  5. Pontos há em que o julgo outro diabo;
  6. mas diabo que logo desanima
  7. é coisa que eu não levo à paciência.
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